Slipstream – Um Sonho Dentro de Um Sonho


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Acho interessante quando um ator conhecido resolve arriscar-se na direção. Existem por aí inúmeros bons exemplos de atores que se tornaram interessantes diretores, desde Clint Eastwood, Robert Redford até Denzel Washington e Sean Penn. A lista é grande, na verdade. Mas existem também tentativas de atores assumirem a direção de um filme que, digamos, não dá muito certo. Fiquei curiosa para ver o que Anthony Hopkins queria nos contar na direção e com o roteiro deste Slipstream. Em sua carreira, é o terceiro filme que dirige – fez 11 anos antes August (1996) e, em 1990, filmou Dylan Thomas: Return Journey. Nenhum dos filmes anteriores ficou conhecido. E algo me diz que este Slipstream vai seguir o caminho dos anteriores. Gostei da “ousadia” de Hopkins em fazer este filme nonsense e/ou surrealista, mas para mim foi inevitável ficar lembrando, quase durante os 96 minutos do filme, dos trabalhos de Spike Jonze, para dar um exemplo mais recente de um cineasta com a digital de fazer “filmes malucos” ou cheios de uma mistura entre realidade e sonho. O problema é que diretores como Spike Jonze acabam se mostrando realmente melhores e mais criativos do que figuras como Anthony Hopkins. Realmente o ator inglês que completou 70 anos em 2007 parece ser melhor interpretando do que dirigindo.

A HISTÓRIA: Cenas cortadas rapidamente e logo assistimos a Bette Lustig (Fionnula Flanagan) falando ao telefone. Ela comenta sobre algo trágico que aconteceu com seu amigo, Felix Bonhoeffer (Anthony Hopkins), e sobre a viagem que fará na manhã seguinte para Las Vegas com Gina (Stella Arroyave). Em seguida, imersos em uma cena que aparece na TV, passamos para a vida de Felix – ou o que parece ser sua vida. Aos poucos, contudo, a história vai se confundindo cada vez mais entre a realidade, o sonho e as memórias do roteirista Felix Bonhoeffer.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – Aviso aos navegantes que boa parte do texto a seguir conta trechos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Slipstream): Claro que o filme de Hopkins tem uma narrativa própria. E que até se demonstra interessante. Não dá, exatamente, para comparar com Spike Jonze, ainda que eu tenha lembrado muito do diretor e seu Being John Malkovich por toda a premissa de “entrar na cabeça de alguém criativo” e pela mescla entre realidade-sonho-e-imaginação. Mas as coincidências terminam aí. Porque o filme de Hopkins é bem mais fragmentado, com cenas “acidentais” bem planejadas e imersas no meio da realidade/sonho, lembranças de discursos de Nixon, de guerras, de parte da história que marcou os Estados Unidos e o mundo nas últimas décadas. Ok, essas imersões de cenas são interessantes. Pena que o resto da história seja um tanto “fraca”.

O filme, na verdade, funciona bem até pouco depois de 30 minutos. Mais precisamente, até toda a sequência da lanchonete na beira-da-estrada protagonizada por Ray (Christian Slater, ótimo no seu papel) e por Geekman (Jeffrey Tambor). Depois que Ray tem um colapso e entra em cena toda a produção do “filme dentro do filme”, a história fica meio chata. Especialmente porque acaba sendo uma crítica aos bastidores do cinema – com todo o jogo de egos entre produtores, diretores, atores e demais pessoas da produção – mais do que um filme sobre a crise de identidade de um artista (no caso o roteirista) ou a dualidade entre realidade e sonho. Acho que acaba ficando meio chato e até meio “pueril” todo o debate sobre quem é mais importante no filme: o diretor, o produtor, o roteirista ou os atores… quem tem o direito de criar e quem não tem, etc. Oras bolas, o que me importa esse jogo de cena e essa disputa entre egos por detrás de uma produção? Ok, a muita gente lhes interessa – basta olhar o sucesso das revistas de fofocas -, mas o que eu acho que realmente importa é o resultado final e não a vida pessoal das pessoas envolvidas em uma produção ou os bastidores das histórias que querem nos contar.

Mas ok, o filme acaba indo, a partir da meia hora inicial, para este caminho de bastidores do cinema. Tem algumas partes engraçadas e que são interessantes, como todo o descontrole e autoritarismo do produtor principal Harvey (John Turturro em um papel em que ele não para de gritar um segundo, mas em que está muito bem). Os diálogos de Harvey com o diretor Gavin (Gavin Grazer) realmente são ótimos. Mas o filme faz pouco mais que isso, uma crítica aos bastidores das produções hollywoodianas. Como eu disse, tem alguns acertos no jogo de cenas, especialmente quando trata mais de flertar com o sonho dentro do sonho ou, em outras palavras, com o sonho dentro da fantasia do escritor em crise e sob pressão. As cenas de sua memória e de suas referências na formação de sua personalidade jogadas no meio da narrativa são interessantes, mas só. No final das contas, o filme acaba sendo meio arrastado e repetitivo, meio chato na tentativa de ser “autoral” demais. Nem tudo que parece ser muito criativo ou arte realmente é o que pretende ser.

Ainda assim, acho bacana atores como Anthony Hopkins se arriscarem, fazerem cinema além de trabalharem como intérpretes em histórias alheias. Mais por isso que por outra coisa é que dou a nota a seguir para o filme.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Slipstream é uma produção de baixo orçamento do ator. Basicamente, Hopkins se valeu da sua amizade e da “moral” que conquistou nestes anos todos de cinema para contar a história que quis com pessoas muito interessantes no elenco. Por isso é que, além dos atores já citados, o filme conta com interpretações interessantes de Michael Clarke Duncan, Christopher Lawford (como o engraçado Lars), Camryn Manheim (como Barbara), Lisa Pepper (como Tracy, uma atriz que, em uma das cenas iniciais do filme, com Anthony Hopkins em um restaurante à céu aberto, protagoniza um dos melhores diálogos da história), Scott L. Treger (Scott e também o cozinheiro da lanchonete na beira-da-estrada) e a russa Lana Antonova (Lily, a garçonete que aspira ser uma estrela do cinema).

No ano passado, Slipstream concorreu a dois prêmios no Festival Internacional de Cinema de Locarno, na Suíça – as duas indicações para Anthony Hopkins. Ele perdeu o prêmio principal, o “Leopardo de Ouro”, mas ganhou o prêmio do júri jovem. A primeira exibição de Slipstrem foi feita há um ano, no Mercado Europeu de Filmes na Alemanha. Depois esteve, em maio, no Festival de Cannes – fora da competição – e no Festival Internacional de Cinema de Seattle. Em outubro, antes de estrear com cópias limitadas nos Estados Unidos, participou do Festival Internacional de Cinema de Chicago. Até agora foi um filme pouco visto e pouco comentado. E deve seguir assim. Talvez tenha um desempenho um pouco melhor quando sair em DVD.

Para quem gosta de saber as locações dos filmes, Slipstream foi todo filmado na Califórnia, incluindo Los Angeles, Palm Desert e Yucca Valley.

No site IMDb ele ganhou a nota 5,9 dos usuários, enquanto que no Rotten Tomatoes ele recebeu nove críticas positivas e 28 negativas.

De todas as atuações, gostei em especial de Anthony Hopkins (ainda que eu ache que ele parece excessivamente “perdido” durante todo o filme), da colombiana Stella Arroyave (surpreendente em seu papel), de Slater e Turturro, de Fionnula Flanagan e de Lisa Pepper. Um bom grupo em cena.

Ah, e antes que me esqueça: o filme também acaba se parecendo muito a Mulholland Dr. (Cidade dos Sonhos), filme de David Lynch que também faz uma mistura de sonho, fantasia e realidade, com direito a crítica aos bastidores e ao “glamour” do cinema. Mas, mais uma vez, recomendo mais o filme de Lynch que o de Hopkins. Tudo bem que faz tempo já que “nada se cria, tudo se copia”, mas ainda assim acho que existem boas e novas idéias no mercado e que não faz falta tantas idéias repetidas como este Slipstream.

CONCLUSÃO: Um filme que mescla imaginação, lembranças, sonho e realidade. Até a primeira meia hora, se mostra uma história interessante e instigante, mas depois acaba caindo em vários lugares-comum de outros filmes do gênero – de diretores como Spike Jonze e David Lynch que, para mim, fizeram trabalhos melhores. A partir dos 34 minutos iniciais o filme acaba caindo demais em uma “sátira” dos bastidores do cinema e fica chato, arrastado e perde boa parte do seu interesse. O final também acaba sendo meio frustrante. Os atores, no geral, estão bem, mas nada que faça o filme ser recomendado – tem vários outros mais interessantes no mercado. Ainda assim, vale pela curiosidade de ver Anthony Hopkins assinando direção e roteiro.

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2 comentários em “Slipstream – Um Sonho Dentro de Um Sonho

  1. Olá Roberto!!

    Primeiramente, seja muito bem-vindo.

    Que bom que você gostou tanto do filme, inclusive dando a ele a nota máxima. Respeito tua opinião – ainda que discorde dela, como ficou evidente no texto acima.

    De qualquer forma, obrigada por tua visita e pelo teu comentário. Espero que ambos se repitam muitas vezes ainda.

    Um abraço!

    Curtir

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