The Happening – Fim dos Tempos


O diretor indiano M. Night Shyamalan virou “cult” (cultuado) da noite para o dia quando lançou o realmente muito bom The Sixth Sense (O Sexto Sentido). Depois dele, veio Unbreakable (Corpo Fechado) que, diferente de muitas outras pessoas, eu gostei. Afinal, era uma história “livre” sobre, no fundo no fundo, heróis de HQs – pelo menos uma brincadeira com a idéia deles em “pessoas reais”. O problema é que The Sixth Sense foi uma unanimidade e Unbreakable não. O que ninguém suspeitava, na época – os filmes citados foram lançados em 1999 e 2000, respectivamente – é que M. Night Shyamalan estava apenas começando a descer a ladeira. Ele filmaria, depois, filmes controversos como Signs (Sinais, que eu odiei e outros amaram), The Village (A Vila, que também não me convenceu, mas que outros curtiram) e, em 2006, Lady in the Water (A Dama na Água, um dos piores do diretor até então, na minha opinião). Sempre existem opiniões divergentes – ainda bem!!! – mas, em geral, pode-se dizer que os filmes foram cada vez mais desagradando aos fãs e à crítica. Lady in the Water foi bombardeando por todos os lados. Assim, eu estava curiosa para assistir a esse The Happening porque queria saber se ele tinha conseguido ir ainda mais ladeira abaixou ou se, finalmente, tinha se recuperado um pouco da sequência de filmes ruins. E a verdade é que, ainda que não seja um filme realmente bom, pelo menos eu achei ele melhorzinho que os anteriores.

A HISTÓRIA: O dia começa normal em Nova York. Muitas pessoas caminham pelo Central Park em uma manhã quente e ensolarada. Cenas cotidianas esperadas até que as pessoas começam a ter estranhas reações. Quase todos ficam parados, como que congelados, e começam a andar para trás. Outros buscam maneiras de se matar. Logo estes e outros estranhos eventos começam a ganhar repercussão nas rádios e tevês, com as pessoas sendo orientadas a irem para casa e para evitarem os parques públicos onde os eventos começaram a ser registrados. Inicialmente se fala em ataques terroristas. Logo a história se foca na vida do professor de ciências Elliot Moore (Mark Wahlberg), que leciona na Filadélfia. Ele acaba saindo da cidade para o interior acompanhado da mulher, Alma (Zooey Deschanel), do amigo e professor Julian (John Leguizamo) e pela filha dele, Jess (Ashlyn Sanchez). O problema é que os ataques começam a ser cada vez mais frequentes, em espaços públicos variados e tendo como alvo grupos menores de pessoas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER: aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Happening): Algo têm-se que admitir: M. Night Shyamalan sabe como prender a atenção da platéia e tem o talento para construir cenas realmente desconcertantes. O início do filme é excepcionalmente bom – pena que apenas o início. Primeiro, a sequência de imagens de nuvens e música impactante dos créditos iniciais. Me fez lembrar as antigas sequências iniciais de filmes russos e italianos. Gostei muito, aliás, da direção de fotografia de Tak Fujimoto e da trilha sonora do geralmente ótimo James Newton Howard.

Fora a sequência dos créditos iniciais, a parte do filme anterior a apresentação do professor Elliot Moore realmente é muito boa. Os sintomas que afetam as pessoas, primeiro o da perda da fala, depois o da desorientação física – com perda de sentido de direção e, por fim, do suicídio coletivo, realmente é impactante. Aliás, talvez o filme não seja recomendado para os corações sensíveis – ainda que, geralmente, o diretor siga o seu lema de não mostrar propriamente a ação que provoca a morte mas, ainda assim, ele acaba mostrando o “depois”. A verdade é que essa sequencia inicial é o que motiva o espectador a assistir a todo o resto, porque realmente é impactante ver as pessoas caindo de prédios como se fossem folhas de papel ou mesmo ver a tanta gente buscando formas de se matar de algum jeito. Incrível e angustiante.

O problema do filme começa quando aparece o Sr. Moore. Há tempos já eu não entendo a ironia dos roteiros de M. Night Shyamalan. O que ele parece achar cômico e engraçado eu acho apenas patético. Então as primeiras falas do personagem de Mark Wahlberg – e muitas das que ele ainda vai soltar durante o filme – são realmente intragáveis. Exemplos? Muitos, mas para começar o diálogo dele com o aluno Jake (Robert Lenzi) realmente é de chorar. Se bem que, pensando agora, talvez ele tenha construído todo o absurdo da cena para dizer que algumas vezes as teorias mais aceitas, até no meio científico, podem ser ditas até por um idiota que não tem nenhum interesse na ciência. Será isso, uma grande crítica a base da nossa sociedade atual – que aposta na ciência? Huuuummmmm… se for isso, desculpe, mas discordo dele. Acho até que atualmente se dá menos importância para a ciência e mais para aparências e o consumo do que se deveria. Mas enfim, nem tentarei entrar na cabeça de M. Night Shyamalan. 🙂

O problema é que o personagem de Elliot Moore não vai melhorando conforme o tempo do filme passa. A cada fala – em especial nos diálogos com a mulher Alma – ele parece mais limitado intelectualmente. Mas ok, se o personagem principal não convence, pelo menos as sequências de angústia seguem interessantes. O problema é que elas são poucas. Grande parte do filme se desenvolve em uma fuga que parece não ter fim – e nem direção. Depois, quando finalmente fica evidente a razão dos tais “ataques”, o filme se torna ainda mais risível. (NÃO LEIA SE REALMENTE NÃO ASSISTIU AO FILME). Ok que nos últimos anos o assunto da vez é o aquecimento global, a “merda” que a Humanidade está fazendo com a Natureza e de como as gerações futuras – e até nós, atualmente – vão pagar por tudo isso, mas daí a escrever uma história em que as árvores, gramas e etc. se comunicam para exterminar os humanos como reação aos nossos abusos é um pouco demais, não? Ok, é um comédia e não um filme de suspense ou terror. Ah tá, agora entendi!! 🙂

Certo, o motivo pelo qual as pessoas são mortas pouco interessa, na verdade. Os “fins” aqui não justifica os meios e sim o que é contado antes do “grand finale” é o que interessa. Ainda assim, nem tudo antes é interessante. Como eu dizia antes, a maior parte dos diálogos é dispensável, cômicos mesmo, e uma boa parte da fuga incessante também se torna meio chata. Mas enfim, pelo menos achei melhor que Lady in the Water e que Signs. Se o diretor não consegue fazer diálogos que não pareçam descolados do que se está contando, ele pelo menos continua ótimo na escolha de planos de câmera e dos recursos para fazer uma história ser assustadora.

Ah, e antes que me esqueça: gostei também de uma pequena “discussão” que o diretor faz sobre o egoísmo das pessoas atualmente… Afinal, de que outra maneira se justificaria a morte “gratuita” dos dois garotos que acompanham o casal Moore em uma cidade do interior dos Estados Unidos. Foi uma maneira do diretor dar um tapa “com luva de pelica” nesta sociedade que parece tratar a idéia de dar um tiro em alguém para se proteger como algo perfeitamente aceitável. Afinal, é “só” uma vida que está lá fora. Achei bacana o fato dele nem mostrar os assassinos, afinal, eles poderiam ser qualquer um destes proprietários de casa e de armas que proliferam por aí. Muitos podem ver as mortes dos garotos como gratuitas e desnecessárias, mas perto de outras que o filme mostra, até achei estas com algum sentido crítico.

Também achei curiosa a participação de Frank Collison com um fazendeiro um tanto hippie e um tanto “maluco” (no fundo o mais racional do filme até então) e de Victoria Clark como a sua mulher. Os dois estão bem em seus papéis. Além deles, atuam no filme em papéis pequenos Jeremy Strong como o soldado Auster e Betty Buckley como a solitária e neurótica Mrs. Jones. Aliás, pensando nestes e em outros personagens, parece que o diretor e roteirista tentou, no fundo, fazer uma crítica disfarçada de suspense e com pitadas de comédia do que seriam vários estereótipos dos típicos “norte-americanos” – especialmente daqueles do interior do país. Só achei que, para variar, a neurose de M. Night Shyamalan em incluir crianças na história ficou outra vez forçada. Afinal, para que serve mesmo Jess na história? E não me digam que é o voto de “esperança” do diretor no futuro…

Enfim, um filme que está longe de ser bom, mas que pelo menos achei um pouco melhor do que os últimos do diretor. E por isso, apenas por isso, ele não receberá uma nota tão horrível por aqui. E também, admito, porque gostei muito das cenas iniciais, até entrar em cena o casal Moore – chato pra dedéu, diga-se. Ou seja: o filme de 91 minutos é bom realmente pelos primeiros cinco. hehehehehehehe. Agora eu fui má. A verdade é que ele ainda tem alguns bons sustos e cenas angustiantes depois que valem a pena.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como já era esperado, The Happening foi meio que “bombardeado” pela crítica. No site Rotten Tomatoes, por exemplo, são compilados 131 textos negativos e apenas 30 positivos para o filme – ainda assim, para comparar, ele foi melhor que o anteriormente comentado 88 Minutes. Enquanto isso, os usuários do site IMDb deram a nota 5,4 para The Happening – menor que para os anteriores Lady in the Water (nota 6,0), The Village (nota 6,6) ou Signs (nota 6,9). Tenho que admitir que da lista anterior os filmes que eu mais detestei foi Lady in the Water e Signs.

O filme teria custado aproximadamente US$ 60 milhões, o que não deixa de ser interessante. Afinal, o anterior Lady in the Water, que teria custado US$ 75 milhões, fracassou nas bilheterias, arrecadando nos Estados Unidos pouco mais de US$ 42,2 milhões. E, ainda assim, deram a fortuna de US$ 60 milhões para M. Night Shyamalan brincar… No fundo, eles tinham razão. O diretor parece ser daqueles que o público detona  mas que, no final, assiste. Digo isso porque The Happening arrecadou, até o dia 20 de julho, nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 63,7 milhões. Ok que ele não irá encher o bolso dos estúdios de dinheiro, mas pelo menos ele já se pagou… o que é algo. Melhor que o anterior…

Eu não sei vocês, mas eu me irritei muito com a interpretação de Zooey Deschanel… não sei, parece que ela está “dopada” o filme inteiro, com aquele olhar perdido e umas frases desconexas. Certo que tais frases também são ditas por Mark Wahlberg e por quase todos os outros personagens, mas Zooey me irritou em especial.

Agora um comentário totalmente idiota (NÃO LEIA SE NÃO ASSISTIU AO FILME): juro que nos dias seguintes que vi a The Happening eu ia caminhando pelas ruas de Madrid, em direção ao meu trabalho, e olhava de forma irônica para as árvores balançando com o vento… ficava pensando: “Quando começará o ataque??”. hehehehehehehehehe

E ok, vai… vamos dar uma chance para o diretor com seu “libelo” contra o aquecimento global. 🙂

O filme é uma co-produção Estados Unidos e Índia (será que foi daí que veio a maior parte da bufunfa?).

Como comentei em textos anteriores, eu curto cartazes bem feitos de filmes… e, como sempre, os cartazes deste filme de M. Night Shyamalan realmente são muito bons.

CONCLUSÃO: Mais um filme da sequência nonsense de M. Night Shyamalan que tenta, a sua maneira, ser um cronista dos problemas modernos. Infelizmente ele não consegue ser tão feliz escrevendo diálogos quanto pensando em cenas interessantes de suspense. O filme é bacana pelos cinco minutos iniciais, com cenas realmente angustiantes de pessoas morrendo a tôrta e a direita. Tem momentos bem filmados e interessantes, mas a maior parte do tempo se mostra um filme com muitas entrelinhas e pouca eficiência, assim como vários momentos de diálogos absurdos e fugas sem fim. Ainda assim, com todos os defeitos que ele têm, achei um filme melhor que o anterior do diretor. Quem sabe ele não está se recuperando?

Sobre Alessandra

Jornalista com doutorado pelo curso de Comunicación, Cambio Social y Desarrollo da Universidad Complutense de Madrid, sou uma apaixonada pelo cinema. Em outras palavras, uma cinéfila inveterada. Também tenho Twitter, conta no Facebook, Polldaddy, Youtube, entre outros sites e recursos online. Tenho 20 anos de experiência como jornalista e hoje trabalho com inbound marketing em Florianópolis (SC), Brasil.

17 Respostas

  1. Particularmente, gostei muito do filme! Não vi nada que o comprometesse tanto assim… gosto muito do estilo deste diretor e gostei de todos os filmes que ele já produziu, salvo uma ressalva aqui e ali, que não comprometeram a qualidade final dos seus filmes. Dou nota 10 para este filme.

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  2. Que filme tosco!!!

    não acredito que vi este filme.. Ridículo…pra mim o unico filme bom do diretor foi Sexto Sentido, depois disso a coisa descambou…

    nonsense total! chato, não me assustou em nenhum momento, comédia pura!!!
    Quando Mark Wahlberg conta pra mulher o “caso da farmácia” tive vontade de abrir um buraco na terra e me enterrar.

    abração

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  3. Giancarlo

    A idéia do filme é muito boa, mas poderia ter sido melhor aproveitada. Achei as interpretações muito estranhas.. parece que falta alguma coisa. Pra que aquela história amorosa frustrada entre os personagens principais? Totalmente dispensável…
    além do mais, parece que tudo ficou meio “sem sal”.
    Termina o filme e fica a impressão de que o personagem do Mark Wahlberg é um completo idiota, mesmo tendo desvendado “o segredo”.

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  4. Isa

    Que dizer desse filme?
    Ele começou (pra mim) muito promissor. Adorei toda a cena de abertura, a parte das pessoas “congeladas” e os suicídios. Prometia.
    Mas aí já começa com um professor (cientista) que questiona a ciência e dá a entender que coisas sobrenaturais são plausíveis. Tudo bem, deixa-se passar porque pode servir para algum gancho na história. Mas as seqüencias vão se sucedendo de uma forma que… o filme foi ladeira abaixo! ahahahhha
    E olha que até A Vila, que pouca gente gostou, eu achei fantástico. Esse eu não recomendo…

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  5. Oi Alessandra, obrigado pelas respostas, voltei aqui apenas pra dizer que assisti “A Vila” depois deste e apesar de ter uma mensagem interessante nele, achei fraco…
    mas acho que este é apenas o estilo Shyamalan de ser, não é mesmo, rs?
    Vamos esperar pelo próximo

    abração

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  6. Hahahahahahaha…sem mortes ou violências….ai minha querida figurinha!! Eu nâo tenho tanto problema com sangues ou mortes ou violências. Nâo que eu morra de amores, mas o que me incomoda é a sensaçâo de que aquilo nâo te desperta nada de útil, manja?
    Esse nâo era o mesmo diretor de sexto sentido? Entâo, eu adorei esse…e sério, tem muitos que até sâo violentos e tal e eu gosto. Mas esse..uf. Credo. Éca!!
    Beijos, saudades eternas….
    Ah, vi La ola(A Onda) e lembrei de vc…

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  7. Luiz André

    Pela nota que foi dada ao filme por você, creio que foste bastante gentil ante as ambições de nosso ex-cineasta favorito no que se refere a preencher as telas com doses de suspense com um twist final. Considero este filme bastante ruim no que se propõe a ser (um libelo contra o aquecimento global e um aviso para a maldade que há no coração do ser humano quando colocado em uma situação de pressão extrema e sem esperanças) e também a derrocada de M. Night Shyamalan como um diretor visionário com uma carreira fértil. O filme termina sem uma mensagem definida, sem que saibamos como começou a “revolta da natureza” ou se há a possibilidade de os seres humanos terem aprendido uma lição e agora estarem dispostos a respeitar o meio ambiente sem impor sua força através da ganância e da tecnologia. Depois deste filme, perdi minhas esperanças de acompanhar este diretor nos cinemas e na TV, o que é uma pena porque seus três primeiros filmes são ótimos, ao equilibrar sensibilidade a um construção narrativa coesa na criação de tramas e personagens.

    P.S.: Resolvi fazer este comentário porque discordei da nota que você deu ao filme, Diante do texto acima, poderia se pensar que a nota deveria ser bem menor, mas gosto é gosto e se você se divertiu com os erros e a risibilidade dos diálogos, então está ótimo. Para terminar, algumas sugestões de filmes (no caso de ler este comentário): Os Excêntricos Tenenbaums (de Wes Anderson), César Deve Morrer (dos irmãos Taviani), O Mágico e As Bicicletas de Belleville (animação francesa do mesmo direto Sylvain Chomet), Vincere (sobre a ascensão de Mussolini na Itália), Tiranossauro (do Paddy Considine), O Homem de La Mancha (filme um pouco antigo, mas que vale muito a pena) e, para desestressar um pouco, Guardiães da Galáxia (de James Gunn, porque filmes de super-herói não precisam ser sérios o tempo todo).

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