Irresistible – Identidade Roubada


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Tem filmes que realmente não me convencem. Este Irresistible caiu no meu colo porque era um lançamento deste mês fácil de conseguir… depois acabei me animando, nos créditos iniciais, ao ver os nomes de Susan Sarandon e Sam Neill. E até que o filme começa bem, mas depois ele se perde de uma maneira… com títulos assim, fico pensando: Será que a diretora realmente perdeu a mão no meio do caminho ou os atores bacanas que fazem parte dele simplesmente fizeram uma escolha ruim?

A HISTÓRIA: Sophie (Susan Sarandon) é uma premiada ilustradora de livros infantis. Casada com Craig (Sam Neill), ela tem duas filhas: Elly (Joanna Hunt-Prokhovnik) e Ruby (Lauren Mikkor). Enquanto tenta trabalhar na produção de uma nova obra, Sophie enfrenta a dor de ter perdido recentemente a mãe. Pressionada para cumprir o prazo do livro, sentindo-se frágil com a perda da mãe e tendo que administrar a família, ela começa a desconfiar que alguém está entrando na casa deles. Quando Mara (Emily Blunt) se aproxima da família do chefe, Craig, os problemas só aumentam.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Irresistible): Basicamente este filme segue a seguinte fórmula: tudo o que ele parece querer fazer o espectador acreditar é, na verdade, o contrário. Por isso mesmo achei o roteiro da também diretora Ann Turner tão fraquinho.

Bem, o filme começa bem. Gostei daquela idéia de arte misturada com sanidade ou a falta dela no início. Devo admitir que contribuiu muito para essa minha primeira impressão positiva a presença da música Time After Time meio que no início da história. hehehehehehehehe. Além disso, admito, a direção de Ann Turner é muito cuidadosa e detalhista – ponto positivo.

O filme realmente tem um ritmo interessante no início, quando os personagens são apresentados para o espectador. Quando os primeiros acontecimentos “estranhos” ocorrem, Irresistible ainda segura um ritmo interessante. Afinal, seria normal uma dona-de-casa super atarefada e que perdeu a mãe recentemente esquecer de que desligou o ferro de passar ou a filha dela perder o bichinho de pelúcia que ninguém consegue encontrar. Mas a partir da festa em que Mara e o marido Jimmy (William McInnes) recebem vários convidados em casa, inclusive o casal Sophie e Craig, o filme parece desandar.

Primeiro que ele perde muito o ritmo, fica meio “sem ação” em vários momentos – ou, para ser mais justa, com uma ação morna, quase uma crise criativa resumida a um “deixar rolar” em uma visão contemplativa da vida da dona-de-casa Sophie. Chega a ficar chato, bem chato. Ao mesmo tempo, fica um pouco esquizofrênico, com a história de uma aproximação estranha da personagem da Mara. Se bem que, até um certo ponto, o roteiro até nos faz pensar se a visão desta aproximação estranha não seria uma “deturpada” da mente um tanto desequilibrada da provável narradora da história, que seria Sophie. Mas, na verdade, o filme não é nada conceitual ou complicado. Pelo contrário.

No final das contas, ele acaba sendo bem arrastado em muitos momentos, tentando imprimir um clima de tensão que muitas vezes não cola. Não convence. Como na maior parte das discussões do casal Sophie e Craig. Adoro os atores que interpretam os personagens. No fundo, eles até estão bem em seus papéis. Mas o roteiro realmente não ajuda. E fora os momentos de puro tédio – disfarçado de uma tensão mal fabricada durante o filme -, Irresistible força a barra em uma ou duas “reviravoltas” na história bastante estranhas. Vejamos:

1) Curioso que toda a vez que “alguém” entra na casa da família de Sophie, ninguém consegue flagrar esta pessoa – exceto uma vizinha um tanto velha e com uma memória “ruim” -, mas a primeira tentativa da personagem principal em entrar na casa de Mara termina em flagrante e no juizado. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). E estranho, para dizer o mínimo, que Sophie tenha entrado na casa da família de Mara quando esta saiu para levar as filhas para o colégio e que, em seguida, a própria Mara tenha voltado para casa e flagrado a invasora. Achei uma forçada de barra desnecessária – afinal, bastava que Jimmy flagrasse a mulher na casa deles. Depois, quando Mara realmente se revela ao trancar Sophie no porão, algo não se encaixa na loucura da personagem: se ela fez tudo que fez para se aproximar da mãe que a rejeitou, qual era a lógica dela de querer matar a progenitora? Ou será que ela queria apenas “vingar-se”? Se fosse isso, uma vingança, porque ela não tentou dar o golpe certeiro antes? Ok, até que parece interessante a idéia dela de “enlouquecer” a mãe que a rejeitou primeiro para logo matá-la, mas tudo isso me parece meio sem lógica… Além do mais, não entendi exatamente quando Sophie teria “rejeitado” a filha. Lá pelas tantas a personagem de Susan Sarandon comenta que ela entende a raiva de Mara, porque ela (Sophie) teria sido covarde ao não querer conhecer a filha quando estaria grávida de Elly… mas em momento algum do filme, antes disso, sequer se dá uma pista desta rejeição. Ok, toda a parte dos “pesadelos” de Sophie com uma coruja atacando um bebê dão a idéia do “sacrifício” de um recém-nascido, mas nada aponta para uma rejeição de alguém já crescido. Para mim, mais um dos vários fios soltos da história.

2) E quando tudo parece ter sentido – ou seja, que Mara quis se aproximar à força, até mesmo tentando se vingar da mãe que havia lhe havia rejeitado duas vezes, descobrimos que na verdade Mara não é a verdadeira filha de Sophie. Ela assumiu, na prática, a identidade da amiga Kate Crotic, filha da escritora. Achei um problema a forma com que esta segunda “reviravolta” é jogada no colo do espectador. Digo isso porque ela aparece nos minutos finais e se resume a “explicar” a troca de identidades através da semelhança física da filha de Sophie deixada no orfanato no passado com as filhas dela com o atual marido. No mínimo algo um pouco “forçado” por parte da diretora/roteirista, não é mesmo? E essa “reviravolta” não explica algo: se Mara assumiu a identidade da amiga morta no incêndio para fazer cumprir a promessa dela de que a garota poderia ter tudo da amiga, porque ela quis ter tudo da vida de Sophie? Afinal, não seria mais lógico ela virar uma fotógrafa, ajudar crianças em campos de refugiados e, de quebra, exigir espaço na vida de Sophie em lugar de querer enlouquecê-la ou ter tudo que a mãe da amiga tinha?

Sei que os filmes não precisam ter muita lógica, especialmente os de suspense e/ou terror. Mas me incomoda quando um filme tenta ser “sério”, procura surpreender o espectador e contar uma história “complexa” e, no final, apenas deixa muitos fios soltos e não convence. Isso aconteceu com este Irresistible. Um filme que poderia ser interessante mas que, na prática, na maior parte do tempo se mostra chato, arrastado, inverossímel.

Fora os problemas no roteiro e na direção, o filme conta com interpretações competentes de todos os atores envolvidos, com especial destaque para o trio principal e as filhas de Sophie. Gostei também da trilha sonora. Muito, aliás.

NOTA: 6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Depois de ver o filme, fiquei curiosa para saber mais sobre a diretora e roteirista. Ann Turner nasceu na cidade de Adelaide, na Austrália – o filme, aliás, foi produzido por aquele país. Ela estava 12 anos sem dirigir um longa-metragem. O filme anterior dela foi Dallas Doll, de 1994, com (a feia) Sandra Bernhard, Roy Billing e Melissa Thomas. Antes ela dirigiu a Russell Crowe (quando este ainda não havia estourado como ator) e Charlotte Rampling no filme Hammers Over the Anvil (de 1993). Nada que realmente tenha chamado tanto a atenção até hoje.

Vale a pena destacar o trabalho do diretor de fotografia Martin McGrath – que faz um trabalho realmente competente, especialmente nas cenas de interior – e do responsável pela trilha sonora do filme, David Hirschfelder.

Para variar, não entendi muito bem a “tradução” do título original para o brasileiro… verdade que Identidade Roubada revela mais do filme do que o Irresistible original. Ainda assim, não entendi muito bem as razões de ambos. O que deram para o Brasil acaba “estragando” a segunda reviravolta da história, e o primeiro, Irresistible, não sei a quem se refere…

Fora as derrapadas do filme e o ritmo lento do meio da história, a verdade é que Irresistible acaba tocando em temas interessantes, como a criação artística, o desafio de uma mulher administrar carreira e vida familiar, a neurose que pode surgir depois de uma perda importante – como a de uma mãe, etc. Especialmente interessante todas as atitudes de “defesa” de Sophie durante a fase em que não sabemos se acreditamos nela ou nas demais pessoas da história. A sequência dos “palitinhos” nas portas, em especial, é de matar.

Produzido na Austrália, o filme também foi todo filmado no país “dos cangurus”. Basicamente, todas as cenas foram rodadas na cidade de Melbourne. Na parte técnica, a maioria dos nomes envolvidos na produção também são de australianos.

Os usuários do site IMDb conferiram a nota 5,7 para o filme, enquanto que os críticos que têm textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram apenas duas críticas positivas e uma negativa para o filme.

Curioso que Irresistible é um filme de 2006 que chegou só agora em DVD – nem passando nos cinemas daqui.

E vamos combinar que o cartaz também é bem previsível e feinho??

CONCLUSÃO: Um filme que começa bem, sobre o desequilíbrio que acomete uma premiada ilustradora de livros infantis, mas que depois cai de ritmo e que deixa muitos fios soltos na história. Tem interpretações bem competentes de Susan Sarandon, Sam Neill, Emily Blunt e do elenco em geral, mas desperdiça temas interessantes ao tentar surpreender o espectador com duas reviravoltas pouco convincentes na história. Faltou ousadia no roteiro e um pouco mais de mão firme na direção para que ele valesse realmente a pena.

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9 comentários em “Irresistible – Identidade Roubada

  1. Oi Josiany!!

    Você realmente amou esse filme? Nos conte mais… por que você gostou tanto dele? Seria por causa da Susan Sarandon ou pela “neurose” da história?

    Muito obrigada por tua visita e, especialmente, pelo teu comentário. Mas espero que voltes mais vezes, especialmente para falar mais sobre tuas impressões sobre os filmes.

    Um abraço!

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    1. Entedi as motivações da personagem de Emily forma diferente, ela guarda grandes vazios interiores por não ter uma família e seu processo psicótico deve ter se instalado após a morte da amiga. A principio ela queria tornar a mãe, assumindo seu lugar na família , depois que ela viu a demonstração de amor da “mãe” algo que ela nunca teve, inverteu o papel e resolveu assumir o posto da vida. A idéia nem é tão ruim, o roteiro que não soube dar conta e o diretor exagerou na tentativa de suspense e se perdeu na história.

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  2. Olá Marcelo!!

    Antes de qualquer outra coisa, seja bem-vindo por aqui.

    Olha, faz tanto tempo que assisti a esse filme que eu tive que ler a crítica para lembrar da história. Aliás, esse aspecto dos meus textos servirem de “lembretes para a minha memória” é uma das funções deste blog. E, desta vez, funcionou. Consegui lembrar do filme do “zero”. Bacana. hehehehehehe

    Achei interessante a tua leitura sobre o processo psicótico da personagem Mara. Agora, deixa eu ver se entendi o que você escreveu: inicialmente Mara quis tomar o lugar de sua amiga morta e, depois, mudou o foco para tentar ocupar o lugar de Sophie, é isso? Ela quis deixar de receber o amor materno para, ela mesma, assumir a posição de mãe de família?

    Bem, se for isso, ok, a idéia é lógica. O que continuo sem entender é o porquê da personagem querer enlouquecer Sophie. Não seria muito mais fácil ela conseguir o afeto da mulher de outra forma? Quem sabe simplesmente mentindo ao contar que era sua filha? Agora, se o interesse dela era exterminar a mulher, por que se dar ao trabalho de tentar enlouquecê-la? Não vi muita lógica nisso.

    Mas enfim, tens razão em algo: a idéia é boa, mas é mal desenvolvida. E o filme se perde em exageros, lá pelas tantas.

    Bacana, Marcelo. Gostei da tua opinião. Espero que voltes mais vezes por aqui, inclusive para falar de outros filmes.

    Um abraço!

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  3. Oi, achei interessante sua leitura do filme, mas eu entendi de forma um pouco diferente. Pra mim ocorre uma ambiguidade no final.
    A primeira possibilidade é que Mara tentou vingar a morte de Kate, sua amiga, porque Kate só foi para Kosovo devido à recusa da mãe(Sophie)em vê-la, e acabou morrendo lá, pelo que me lembro em um incêndio. A partir desse acontecimento trágico, que Mara conta a Sophie na festa(sem revelar que Kate é sua filha realmente, e perguntando a Sophie como ela se sentiria morrendo queimada), Mara resolve vingar a morte da amiga, deixando Sophie paranóica, porque entende que se Sophie tivesse conhecido Kate, ela não iria para Kosovo e não morreria.
    Outra possibilidade, já mencionada, é que Mara tenha matado Kate para tomar seu lugar, uma vez que ambas estavam em Kosovo, como vemos no álbum no final do filme. Desde então ela tentou roubar a identidade da amiga, tomando o juramento que fizeram no orfanato literalmente. Nesse caso, Mara não estaria tentando roubar a vida de Sophie, mas apenas enlouquecê-la.
    Achei o filme meio arrastado e confuso também, além de que a Susan Sarandom está meio velha pra ter duas filhas pré-adolescentes. Mas a trilha sonora(principalmente a música no final do filme, na cena do orfanato) e o jogo entre arte e sanidade de que você falou são bem bacanas mesmo. E eu adoro as ilustrações de coruja de Sophie.
    Uma lacuna pra mim foi: por que no final da película Mara cortava as fotos das filhas de Sophie? Bem, acho que talvez porque ela queria vingar a morte da amiga(Kate), pois sabia que matando uma das filhas de Sophie a faria sofrer. Ou talvez, no caso de Mara ter matado Kate, ela faça isso só por maldade mesmo… Ah, sei lá! Esse filme é meio subjetivo, mas o objetivo é esse, eu acho, ainda que ele comece como suspense. Mas vale a pena ver duas vezes, mesmo que alguns gostem dele e outros não.
    Abraços

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  4. Oi Heitor!

    De fato, o filme abre a possibilidade para mais de uma leitura do final. Ainda que eu ache que aquelas imagens da filha de Sophie em Kosovo sejam bastante elucidativas e apontem, realmente, para a leitura de que Mara ocupou o lugar de Kate.

    Agora, não sei se Mara matou Kate ou a filha de Sophie simplesmente foi morta em algum outro conflito em Kosovo. Depois da morte da amiga – não necessariamente por suas próprias mãos – ela passou a adotar a identidade da garota para “vingar-se” da mãe dela.

    Também gostei muito das ilustrações da Sophie. Um dos pontos positivos da produção.

    Sobre a Mara cortar as fotos… para mim, só tem uma explicação: para que Sophie perdesse a própria memória, o que auxiliaria na missão de Mara de “enlouquecê-la”.

    Estás certo em dizer que o filme é subjetivo. Esta é uma de suas qualidades. Pena que ele se perca um pouco no caminho e aposte em uma confusão desnecessária.

    Muito obrigada pela tua visita e comentário. Espero que ambos se repitam muitas vezes ainda por aqui. Abraços e inté!

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  5. Oi maria joao!

    Seja bem-vinda por aqui.

    Olha, a trilha sonora de Irresistible é assinada por David Hirschfelder.

    Entre as músicas que integram o filme estão: Time After Time, lançada pela Cyndi Lauper e interpretada, para este filme, por Bernadette Robinson; Tell Me Lies, de Eddy Quintela, interpretada no filme por Susie Ahern; e I’ll Make You Crazy, interpretada por Susie Ahern também.

    Obrigada pela tua visita e pelo teu comentário. E volte por aqui mais vezes.

    Abraços e inté!

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