Smart People – Vivendo e Aprendendo


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Existem filmes que “têm” quase tudo: uma boa idéia inicial – que origina o argumento e, logo, o roteiro; um elenco de atores bem diversos e competentes; e algumas ironias espalhadas aqui e ali no tempo em que o espectador está assistindo ao filme. Digo que têm quase tudo – e o têm entre aspas – porque estes filmes acabam se mostrando, minuto após minuto de projeção, como aquela piada sem graça que todos fazem um esforço para sorrir no final. Smart People é um filme assim. Em teoria ele “disseca” o lar de um intelectual e mostra as inusitadas relações entre os diferentes membros da família, além de revelar outros “problemáticos” de plantão. Seria um filme interressante se ele tivesse a perspicácia e a ironia ácida de alguns autores contemporâneos, como os irmãos Coen (Joel e Ethan) ou o diretor e roteirista Noah Baumbach – dos ótimos Margot at the Wedding, já comentado neste blog, e The Squid and the Whale. O problema é que o roteirista e o diretor de Smart People, Mark Poirier e Noam Murro, respectivamente, não têm o talento dos outros. O que acaba transformando o filme apenas em um ensaio chato sobre esse povo pedante disfarçado de “smart people”.

A HISTÓRIA: Lawrence Wetherhold (Dennis Quaid) é um professor universitário de literatura inglesa respeitado. Considerado um chato pelos alunos, ele luta para publicar um novo livro – recusado por muitas editoras. Viúvo, pai de dois jovens – Vanessa (Ellen Page) e James (Ashton Holmes) -, ele continua guardando as roupas da mulher morta em casa ao mesmo tempo em que espera que os filhos tenham desempenhos geniais como o dele. A vida segue a rotina normal até que aparece na universidade Chuck (Thomas Haden Church), o irmão adotivo de Lawrence e, pouco depois, o próprio Lawrence sofre um acidente. Bem, na verdade uma queda seguida de concussão e consequente ida a um hospital. Internado é que Lawrence volta a encontrar com Janet Hartigan (Sarah Jessica Parker), uma ex-aluna que agora é médica e de quem ele não se lembra.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Smart People): Para mim é inevitável fazer um “trocadilho” com o nome do filme, mudando o “Smart” do original para um emblemático “Stupid”.

Ok, há muito tempo eu já sei – e imagino que muitos de vocês, caros leitores, também – que alguns dos principais “gênios” da Humanidade e todos estes “super-letrados” da vida, mundo afora, são os mais “idiotas” em questões práticas como o convívio familiar ou social. Está comprovado que os que tem um QI muito alto, no geral, tem problemas de relacionamento ou dificuldade em fazer o que pessoas comuns acham simples. Então, nesta premissa – que eu ouso dizer ser o princípio base do filme -, Smart People não é nada “de outro mundo”. Em outras palavras, ele não é nada original… E ok, talvez até o “Smart” aí seja, justamente, irônico. Ele perfeitamente pode ser modificado por Stupid em várias ocasiões.

Antes que alguém me atire pedras, quero dizer que não estou julgando os “superinteligentes” e nem colocando todo mundo no mesmo saco. Mas é fato que o filme trata basicamente dos problemas de relacionamento de pessoas com inteligência muito acima da média. E daí?, você pergunta lá pelas tantas. E daí que nada… o filme é uma boa desculpa para ver atores interessantes em cena e para tocar em questões curiosas e que estão nas entrelinhas, como a superficialidade das relações pós-modernas e a falta de comunicação entre as pessoas. Resgatando a letra de uma música escrita por Renato Russo: “(…) o mal do século é a solidão/ cada um de nós imersos em sua própria arrogância/ esperando por um pouco de atenção”.

No caso de Smart People, quase todos estão realmente imersos em sua própria arrogância esperando um pouco de atenção, de afeto, de “toque humano”. Do professor, escritor e intelectual Lawrence, passando por sua “cópia juvenil” Vanessa e pelo “filho-poeta-rebelde” James, até a médica Janet que, no fundo, não consegue aguentar relações mais “profundas” ou duradouras. No fundo, todos fogem do contato, do afeto… estão há milhas de distância de serem sábios – são apenas inteligentes. Ou seja: desenvolveram muito de suas capacidades intelectuais e nada da dita “inteligência emocional” ou de outras capacidades mais “humanas”.

A exceção é Chuck que, para a desgraça do filme, é ao mesmo tempo o melhor e o pior personagem em cena. Explico: a interpretação de Thomas Haden Church realmente é muito boa, ao ponto de fazê-lo aparecer mais, muitas vezes, do que os outros nomes “requintados” do elenco. Mas o problema está em seu personagem, totalmente estereotipado – mais até do que os dos “intelectuais”. Ele acaba sendo o “trapalhão que veio trazer humanidade para a história” mas, cá entre nós, me irrita a idéia de que apenas os “burros” podem ser mais humanos.

Acho que um intelectual da vida pode equilibrar a energia que dedica para a ciência ou para alguma área do conhecimento e, ao mesmo tempo, desenvolver relações realmente adultas, complexas e profundas. Não acreditam que apenas os “simples de coração” podem realmente sentir e se envolver. (SPOILER – realmente não leia se não assistiu a Smart People). Ok, o final do filme tenta um pouco defender esta idéia, que é possível o equilíbrio ou, em outras palavras, que “os intelectuais também amam”… mas, francamente, eles não me convenceram. As relações continuaram me parecendo um bocado superficiais. Ainda assim, as pessoas pelo menos parecem ter aprendido algo com suas derrapadas, o que já é bastante em se tratando de “stupid people”. 😉

Mas agora falemos dos acertos: gostei da parte em que os personagens são “apresentados” em sua complexidade, como por exemplo toda a carga de arrogância e, ao mesmo tempo, de fragilidade dos personagens principais – especialmente Lawrence. Eles simplesmente não sabem se comunicar o que, cada vez mais estou convencida, é o grande problema da maioria das personas atualmente. Realmente parece que estamos em uma Torre de Babel, ainda que, na maioria das vezes, falemos o mesmo idioma.

No geral, o filme é bem acabado – pelo menos nos quesitos trilha sonora (assinada pelo português Nuno Bettencourt) e direção de fotografia (um trabalho correto, ainda que nada iventivo, de Toby Irwin) – e tem boas interpretações, ainda que nenhuma, para mim, passe da média. Exceto, outra vez, Thomas Haden Church, que tem muito carisma e que rouba a cena cada vez que aparece. Destaque, na história, para dois momentos estrelados por ele e Ellen Page: a sequência da “marihuana” e a da “saída para comemorar e beber em um bar”. Muito bons!! No mais, o filme é arrastado e chato, com muito de “xaropice intelectualóide” e gente com problemas para se comunicar para cima e para baixo. Pouco inventivo, o roteiro de Mark Poirier realmente deixou a desejar.

NOTA: 6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Smart People marca a estréia no cinema do israelense Noam Murro. Ele sabe contar uma história, mas sem nenhuma “grande” sacada. Faz o feijão-com-arroz com as câmeras e dirige os atores de forma básica, sem conseguir nada além do mediano.

Falando em mediano, eu só dei a nota 6 para este filme em homenagem aos atores, especialmente a Dennis Quaid, Ellen Page e Thomas Haden Church.

Falando em estréias, Smart People também marca o início da carreira do roteirista Mark Poirier no cinema. Espera-se que o próximo projeto dele com o diretor Noam Murro, o filme Hateship, Friendship, Courtship, com Julianne Moore, seja melhor que este Smart People. As chances são boas, até porque a atriz entrou no projeto também como produtora – e ela tem bom gosto, pode dar umas “dicas” boas para a dupla.

Uma produção independente, o filme conseguiu pouco mais de US$ 9,4 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. No Brasil ele está sendo lançado diretamente em DVD.

Último filme lançado por Ellen Page este ano (e único, diga-se) – depois do sucesso dela em Juno -, Smart People conseguiu uma interpretação correta da garota, mas sem nenhum grande “insight”. Ela faz seu trabalho, melhor que a média das pessoas de sua geração, mas ainda assim não consegue realmente surpreender. Pelo menos não neste filme.

Curioso como Dennis Quaid ressurgiu em 2008. Este ano o ator estrelou nada menos que quatro filmes… uma marca muito melhor do que a dos últimos anos. Vejamos: em 2007 ele participou de apenas um filme – e apenas colocando a sua voz. Em 2006 e 2005 foi o mesmo, apenas um filme em cada ano. Apenas em 2004 que ele participou de quatro produções. No ano que vem ele está confirmado em duas produções – e outro em 2010.

Os usuários do site IMDb conferiram a nota 6,5 para Smart People, enquanto os críticos que têm textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram 68 críticas negativas e 62 positivas. O filme realmente parece ter dividido opiniões.

Algo que me incomodou no “quase final” foi o seguinte (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme”): a reação de Janet Hartigan com a chegada de Lawrence no restaurante do hospital. Só aí que ela fala que está grávida e que decidiu continuar com a gravidez graças a carga genética interessante do “pai” da criança que ela está esperando. Então se ele não fosse lá, ela teria o filho sozinha? E ela ter decidido ficar com ele foi isso, praticamente uma casualidade? Achei bem ridículo, vai. Então os personagens acabaram decidindo ficar juntos por conveniência e quase por “acidente”, muito mais do que por gostarem um do outro ou acreditarem que eles poderiam formar uma família. Que patético, vai.

CONCLUSÃO: Bons atores; diretor e roteiristas estreantes no cinema; uma história sobre intelectuais, arrogantes e a falta de comunicação entre as pessoas. Poderia ser melhor, mais irônico, crítico, picante, mas se trata de apenas “mais uma” história sobre pessoas muitas vezes admiradas socialmente e que, no íntimo, não conseguem resolver seu lado sentimental e ter relações realmente aprofundadas. Tem momentos interessantes, mas no geral é apenas um amaranhado de personagens tratados em outros filmes de forma mais ampla e complexa, sem contar a própria história e seus vários lugares-comum.

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