Miss Pettigrew Lives for a Day – A Vida Num Só Dia


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Filmes de “época” são difíceis de se fazer. Primeiro, pela dificuldade em “recriar” um ambiente – que significa não apenas elementos da “paisagem”, mas principalmente vestimentas e objetos em cena – que não existe mais daquela maneira. Depois, porque os atores devem realmente “encarnar” uma maneira de ser, de atuar, de relacionar-se que também não é mais praticada (ao menos, na maior parte do mundo pós-moderno). Entenda-se como filmes de época qualquer produção que conta sobre um tempo passado. Ou seja, filmes de época não são apenas aqueles sobre a Inglaterra do século 18 ou 17, mas também produções sobre a Nova York dos anos 50 ou 60, por exemplo. Miss Pettigrew Lives for a Day consegue não apenas corresponder a todas as expectativas na reprodução do ambiente londrino dos anos 30 como presenteia o espectador com um roteiro saboroso, cheio de referências a outros filmes e, mais que tudo, com interpretações realmente que dão gosto de ver.

A HISTÓRIA: Na Londres de 1939 a governanta de meia-idade Guinevere Pettigrew (Frances McDormand) é demitida de mais um emprego. Como têm feito nos últimos meses, ela volta a agência de empregos habitual para pedir mais uma oportunidade de trabalho. A diferença é que agora a coordenadora da agência, Miss Holt (a inglesa Stephanie Cole) diz um categórico “não” para Miss Pettigrew. Sem roupa – ela acabou deixando tudo para trás quando esbarrou com um “presidiário” (que ela vai descobrir depois se chamar Michael, personagem interpretado por Lee Pace) -, sem trabalho e sem lugar para ficar, ela acaba nas filas de desamparados. Mas no dia seguinte ela vai à casa de Delysia Lafosse (a italiana Amy Adams), uma atriz e cantora que ligou para a agência de Miss Holt procurando uma “secretária social”, para tentar o emprego sem o consentimento da agência. Rapidamente ela se torna o braço direito da conturbada atriz, envolvida com três homens e em busca do seu primeiro papel de destaque no teatro.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Miss Pettigrew Lives for a Day): O filme é, em um grande resumo, saborosíssimo. As atuações de todo o elenco são primorosas, destas que fazem você chegar ao final do filme e dar um sorriso de satisfação por não ter sido enganada. Tudo o que o filme “vende” ele realmente cumpre.

Primeiro, a caracterização perfeita de Londres no final dos anos 30. O mérito principal deve ser dado aos que fazem parte da equipe técnica, começando pelo diretor de fotografia francês John de Borman, que conseguiu aliar as cores vivas do ambiente “glamuroso” vivido por Delysia e os demais até os tons “pastéis” e envelhecidos da história de Miss Pettigrew antes (e um pouco depois) dela ter sido “tocada” pela vida de Delysia. Depois, a Direção de Arte perfeita da dupla Nick Gottschalk e Niall Moroney e, para mim, o principal: o Figurino assinado pelo inglês Michael O’Connor. Que trabalho primoroso e perfeito deste londrino de 43 anos! Para mim, desde já, ele é um nome que deveria ser indicado para o próximo Oscar (aliás, para este filme vou dar “pitacos” para a premiação do próximo ano).

Mas muito mais que os quesitos técnicos, o filme ganha o espectador pela qualidade de seu texto, pela precisão do trabalho do diretor e, principalmente, pelo desempenho dos atores. Claro que tudo está interligado e um elemento leva ao outro. Os roteiristas David Magee e Simon Beaufoy fizeram um trabalho de primeiríssima na adaptação do livro de Winifred Watson lançado em 1938 – e considerado uma de suas principais obras. O texto deles é divertido, sagaz, romântico e cínico ao mesmo tempo. Tem a dose certa de cada elemento – inclusive alguma carga de suspense. Interessante citar que este é o segundo roteiro de Magee – que antes escreveu Finding Neverland, do qual eu gosto muito – e o décimo de Beaufoy (que estava há quatro anos sem trabalhar em texto algum para o cinema).

Ok que todos sabem aonde a história vai terminar, mas nem isso estraga a narrativa ou torna o filme “óbvio demais”, como outros por aí costumam fazer. Para mim, Miss Pettigrew Lives for a Day é um bom exemplo de como você pode ganhar o espectador mesmo deixando claro, desde muito cedo na história, qual será o final do filme. Quando o texto é bom, você não se importa em ler ele na sequência – ainda que saiba o que vêm depois.

Além do roteiro, a direção do indiano Bharat Nalluri surpreende pelo bom gosto e pela valorizações dos atores. E ah, os atores… Frances McDormand e Amy Adams dão um show. Para mim, elas conseguiram duas das melhores interpretações das suas carreiras até o momento. E mesmo o “trio de valetes” da história, interpretados por Lee Pace, Tom Payne (que vive Phil, o filho do diretor de teatro da peça que Delysia quer tanto entrar) e Mark Strong (que interpreta Nick, o proprietário do clube noturno onde Delysia e Michael se apresentam e amante/”cafetão” da garota) estão perfeitos em cada papel. Cada um com suas características e nuances – ok que um pouco “simplificados” -, mas todos diferentes e relativamente “ricos” em características levando em conta o tempo que cada um tem para aparecer em cena.

E as atrizes… eu tinha assistido a Amy Adams apenas em Enchanted – fime do qual, como os leitores deste blog devem lembrar, eu não gostei. Naquela produção eu achei que ela encarnou uma personagem extremamente meiga e bondosa, sem nenhuma qualidade ou defeito que pudessem exigir algo mais de seu trabalho como atriz. Mas agora não. Ela vive outra vez uma mulher que vive essencialmente de sua beleza – e pouco da inteligência mas, diferente da personagem de Enchanted, agora a sua Delysia encarna também outras características interessantes, como a ambição, a poligamia, o gosto pelo dinheiro e a busca pelo sucesso. Uma personagem mais complexa – e que, inevitavelmente, lembra demais a Marilyn Monroe (especialmente na cena da saída da banheira). Aliás, aí temos uma das “citações” do filme que são uma delícia.

Mas o que dizer de Frances McDormand? Para mim, ela faz o grande papel da sua vida depois de Fargo. Do sotaque inglês perfeitamente assumido até cada gesto e fisionomia assumidos nos diferentes momentos que ela vive no filme, ela está perfeita. Para mim, digna de prêmios e de uma indicação ao Oscar. Sua personagem é complexa e sabe trabalhar bem com o que aprendeu da “condição humana” em um novo ambiente – dos bastidores do teatro, da moda e dos ricos. Experiente, ela consegue disfarçar o desespero pelo qual está passando – entre outras coisas a coitada não consegue se alimentar em momento algum 😉 – e tira de letra até a chantagem da qual ela é vítima.

Além dos atores que eu já citei, vale destacar o trabalho do sempre ótimo Ciarán Hinds como Joe, o design de moda que cai no foco da chantagem de Edythe (a escocesa Shirley Henderson) com Miss Pettigrew. Shirley Henderson, aliás, está ótima em seu papel, com uma voz especialmente irritante que “agrava” ainda mais a figura de sua personagem igualmente chata. Ciarán Hinds e Frances McDormand, assim como Amy Adams e Lee Pace, fazem realmente pares muito interessantes e afinados.

Antes que eu cometa uma injustiça: falei antes das qualidades técnicas do filme e não citei a ótima trilha sonora de Paul Englishby. Ele consegue resumir muito bem aqueles anos pré-Segunda Guerra Mundial, trazendo para a produção o tom exato de “otimismo” e de “preocupação” daquele tempo e daquelas situações vividas pelos personagens. Realmente um bom exemplo de trilha sonora que dialoga com a história.

No mais, o filme realmente conta a obstinação de Miss Pettigrew em retomar a sua vida, no mesmo passo em que Delysia tenta dar um rumo para a sua. As duas mulheres, com estilos de vida tão opostos, acabam aprendendo uma com a outra e, principalmente, acabam encontrando mais pontos em comum do que diferentes em suas biografias. O filme fala essencialmente do amor, mas também trata dos bastidores de uma vida de glamour e as ilusões/ambições que dela acarretam. Trata, ao mesmo tempo, de sentimentos verdadeiros e de aproveitadores; de reinventar a própria vida e de encontrar os valores certos para seguir. Um filme divertido e interessante na medida certa.

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Ambientado na Londres de 1939, o filme mostra nas manchetes de jornais, na inspiração da moda e na interrupção de uma noite no clube de Nick os primeiros sinais do início da Segunda Guerra Mundial, como a invasão da Polônia pelos alemães.

Segundo o material de divulgação do filme, Miss Pettigrew Lives for a Day faz referências a pelos menos três filmes da época – logo anterior ou posterior à história contada: Every Day’s a Hollyday (de 1937, com roteiro e atuação de Mae West), Four’s a Crowd (de 1938, com Olivia de Havilland, Errol Flynn e outros) e Vigil in The Night (1940).

Co-produção da Inglaterra e dos Estados Unidos, Miss Pettigrew Lives for a Day foi todo filmado em Londres. O desfile de moda, por exemplo, foi encenado no Hotel Savoy, em Strand.

O filme conseguiu a bilheteria de pouco mais de US$ 12,2 milhões apenas nos Estados Unidos. Não está mal, mas poderia ter sido melhor.

Os usuários do site IMDb conferiram a nota 7,2 para o filme. Os críticos que têm textos publicados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 104 críticas positivas e 31 negativas para o filme. Ele está bem na “opinião pública”, pelo menos, o que pode levá-lo (junto com um bom lobby) até alguma indicação ao Oscar.

Nas notas de produção do filme, a atriz Amy Adams destacou a “perspectiva feminina” do filme. E ela tem razão. Miss Pettigrew Lives for a Day realmente é contado pelas mulheres da história – mais precisamente, a dupla de protagonistas.

Curioso que grande parte do filme foi rodado no estúdio Ealing, em Londres, considerado o estúdio mais antigo do mundo.

Winifred Watson escreveu seis romances, todos focados em “histórias de mulheres que estão mudando as suas vidas”, quebrando convenções e que tem muitos ingredientes de tensão e de sexy appeal, segundo o produtor Stephen Garrett. De acordo com o filho da escritora, ela escreveu Miss Pettigrew Lives for a Day em seis semanas, maquinando os diálogos das personagens enquanto ela lavava as louças da família.

Achei interessante também, nas notas de produção, que a Universal tinha pensado em fazer este filme há muito tempo, mas que mudou de planos com o surgimento da Segunda Guerra Mundial. A idéia original é que a história fosse um musical estrelado por Billie Burke. Mas com a guerra, o estúdio resolveu investir em filmes mais “sérios”. O projeto voltou à tona quando, no ano 2000, a obra foi publicada novamente em Londres e o romance foi “redescoberto”.

PALPITE PARA O OSCAR: Ainda é cedo para cogitar os próximos indicados nas categorias principais do Oscar, mas vale citar aqui algumas possibilidades deste filme. Primeiro, acredito que a atriz Frances McDormand realmente tem chances de chegar lá – ou mesmo Amy Adams. Além delas, tem boas possibilidades de receberem indicações o trabalho de Michael O’Connor (Figurino), de Nick Gottschalk e Niall Moroney (Direção de Arte). Agora, mais que ser indicados, ainda é cedo para falar sobre ganhadores… Para isso teremos que assistir a mais filmes da nova safra. 😉

CONCLUSÃO: Uma comédia perfeitamente orquestrada, com interpretações afinadas, uma direção cuidadosa e muitos elementos técnicos eficazes trabalhando em conjunto. Narrado sob a ótica de duas mulheres com idades e realidades muito diferentes, Miss Pettigrew Lives for a Day traz um retrato interessante e saboroso sobre diferentes padrões de vida na Londres pré-Segunda Guerra Mundial. De quebra, a produção trata da busca pelo amor, pelo sucesso e pelo melhor caminho na vida das pessoas.

ATUALIZAÇÃO (em 4/1/2009): Para quem leu esse texto antes e agora viu que eu baixei a nota dele, vou me justificar: depois que eu assisti a Milk e resolvi dar para ele a note 9,5, pensei que outros filmes comentados aqui antes estavam supervalorizados, como este Miss Pettigrew Lives for a Day. Por isso resolvi dar uma nota que eu achei mais justa para ele e os demais filmes que haviam ganho uma nota bem elevada nos últimos tempos.

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5 comentários em “Miss Pettigrew Lives for a Day – A Vida Num Só Dia

  1. Realmente, um ótimo filme, que arrebata o espectador pelas aparentes simplicidade do roteiro e leveza da trama. A interpretação de Frances McDomrmand é perfeita.

    P.S.: aquela cena em que se inicia o bombardeio e a Mrs Pettigrew, consternada, fala ” they don

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  2. P.S.: aquela cena em que se inicia o bombardeio e a Mrs Pettigrew, consternada, fala ” they don’t remember the last one”, se referindo à guerra … uma das melhores cenas mais belas que vi ultimamente.

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  3. Olá Baltasar!!

    Primeiramente lhe dou as boas-vindas a este blog. Espero que esta tua visita seja apenas a primeira de muitas.

    Realmente, a aparente simplicidade do roteiro realmente nos deixa encantados, não é mesmo? Senti o mesmo que você. Claro que o roteiro não é tão simples assim… apenas parece simples. O que, para mim, é uma qualidade – afinal, os roteiros que fazem questão de serem “complexos” normalmente são chatos, não é mesmo?

    Frances McDormand está perfeita mesmo… pena que ela não foi – e parece que nem vai – ser indicada a prêmio algum por essa interpretação, não é mesmo? Realmente uma pena. E a cena que você fala é belíssima, de veras.

    Um grande abraço e volte mais vezes!

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  4. Adorei esse filme! E foi através dessa crítica que encontrei este site e também estou adorando, heh
    E bem, se você acha que Amy Adams está melhor em Miss Pettigrew você deveria ver o filme Junebug (2005).
    Abraços

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  5. Oi Manuella!!

    Primeiramente, seja muito bem-vinda a este blog.

    Realmente Miss Pettigrew é muito bom, não é mesmo? Um destes filmes gostosos de se ver. E que bom que ele acabou te trazendo até aqui… espero que voltes mais vezes, inclusive para falar de outros filmes.

    Olha, realmente não assisti a Junebug… Amy Adams apareceu para mim com Enchanted (do qual não gostei, como já falei aqui anteriormente). Mas vou atrás deste filme que você falou. Obrigada pela dica!

    Abraços e até a próxima.

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