Revanche


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Volto a assistir a alguns dos filmes que me faltavam para ver da lista de candidatos deste ano ao Oscar. Agora foi a vez do austríaco Revanche, um dos cinco selecionados para concorrer na categoria de melhor filme estrangeiro. Francamente? Achei a indicação dele supervalorizada. O filme não é tão bom para tirar outros títulos como To Verdener, Gomorra ou mesmo Üç Maymun do páreo. Tecnicamente falando ele é “correto”, tem uma fotografia linda – ainda que pouco complicada de se fazer -, uma direção acertada, interpretações coerentes. Mas nada, absolutamente nada fora do normal.

A HISTÓRIA: Alex (Johannes Krisch) trabalha para um cafetão chamado Konecny (Hanno Pöschl) e mantêm um namoro secreto e proibido com uma de suas prostitutas, Tamara (Irina Potapenko). Ex-presidiário, ele sonha com o roubo de um banco e a consequente fuga dele com Tamara para a Espanha, onde abriria um negócio com um amigo. Sentindo-se cada vez mais pressionada por Konecny para virar uma prostituta de luxo, Tamara decide acompanhar Alex em seu plano de roubo a banco. Quando as coisas saem mal, ele pensa em se vingar do policial Robert (Andreas Lust), mas acaba sendo surpreendido por acontecimentos que ocorrem no interior local, quando passa a viver com o avô (Johannes Thanheiser).

VOLTANDO À CRITICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Revanche): Certo que os atores são muito bons e que tecnicamente o filme é bem feito. Mas achei o roteiro do também diretor Götz Spielmann um bocado fraquinho… (SPOILER – realmente não leia se você não assistiu ao filme). No final das contas, o resumo dos 121 minutos do filme é o seguinte: “Ninguém é culpado pelos seus atos a não ser você mesmo”? Porque é isso que me pareceu. Ao mudar para o interior em busca de vingança, Alex acaba conhecendo “de perto” a sua virtual vítima e se dá conta, lá pelas tantas, que ninguém a não ser ele mesmo pode ser culpado pelo que saiu de errado. Certo. Até que conceitualmente essa idéia é boa, mas achei que ela foi pouco explorada – ou que, talvez, o filme poderia ter de 30 minutos a uma hora a menos de duração. 😉

Algo curioso dessa história é que ela é dividida, literalmente, em dois atos. O primeiro mostra a vida suburbana de Viena, capital austríaca, em tudo que ela tem de moderna e suja. Nesta parte, o ambiente que interessa para o diretor e roteirista Götz Spielmann é o da prostituição e o da criminalidade. Ali conhecemos dois dos nossos personagens principais, um casal que se fortalece na esperança de fugir. Através de Tamara, Alex acredita que seja possível recomeçar a sua vida. Apaixonado, ele quer mostrar que pode ser mais do que aquele homem que as pessoas que lhe conhecem e lhe desprezam um dia puderam projetar.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O problema é que o tal roubo a banco dá errado e Tamara, que tinha medo do que pudesse acontecer com ele, se torna a única vítima (pelo menos fatal) daquela história. Digo única vítima fatal porque, no fim das contas, Alex e o policial Robert acabam sendo vítimas “colaterais” daquele lance infeliz. E para que não existam dúvidas de que “todos estamos no mesmo barco”, uma das grandes conclusões de Revanche é que as aparências enganam e que nem todos que parecem felizes estão, na verdade, isentos de culpa, de angústia e da infelicidade. Ao aproximar-se de Robert para fazê-lo “pagar” pela morte de Tamara, Alex descobre que o policial já tinha o seu próprio calvário para enfrentar. Não apenas a culpa pela morte da garota não-identificada, mas também o peso de não conseguir dar um filho para a esposa, Susanne (a ótima Ursula Strauss).

No fim das contas, Alex tem uma certa dose de vingança de Robert – Freud explicaria com gosto esse “revide”. E ao conseguir essa vingança ele acaba se dando ainda mais conta do “miserável” que ele se tornou por conta de escolhas erradas que teve. Mas descobre, ao mesmo tempo, que aquela paisagem bucólica do interior austríaco, tão desprezada por ele antigamente, pode ser o lugar perfeito para que este sujeito passe os dias com a mente ocupada no trabalho – e tentando ver beleza onde antes só existia tédio. Um recomeço, afinal de contas. Muito diferente das cores e do calor de Ibiza, na Espanha, mas ainda assim um recomeço.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Revanche é um filme correto, mas que não passa disso. A história não surpreende grande coisa – para não dizer que nada. Ele tem uma direção de fotografia bacana, assinada por Martin Gschlacht e um elenco reduzido que realmente sabe exercer a sua profissão muito bem – até porque todos os atores tem um bom tempo de estrada. Mas perto de outros filmes que estavam concorrendo a uma vaga entre os cinco finalistas ao Oscar, volto a repetir, ele se mostra pequeno. Gostaria de saber de quem foi o mérito de conseguir colocá-lo ali, entre os cinco melhores do ano na opinião da Academia.

Os usuários do site IMDb deram uma nota bastante boa para o filme: 7,5. Acho que este é um dos raros exemplos que os internautas daquele site foram mais generosos do que eu. 😉 No Rotten Tomatoes não existe praticamente críticas sobre o filme – apenas duas. Ambas positivas.

Até agora Revanche abocanhou 14 prêmios conferidos por diferentes festivais e associações de críticos. Entre eles, estão incluídos três prêmios no Festival de Berlim do ano passado: um da mostra Panorama, outro para o design de produção de Maria Gruber e, o terceiro, o “Label Europa Cinemas” para Götz Spielman. Revanche ainda recebeu o prêmio de melhor filme estrangeiro do Festival Internacional de Cinema de Palm Springs.

O filme participou da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2008, assim como de vários outros festivais importantes mundo afora no ano passado. A previsão de estréia dele nos Estados Unidos é para o próximo mês.

No material de divulgação desta produção, o diretor e roteirista comenta que Revanche é, mais que tudo, uma história que segue a sua linha de interesse artístico de tocar em questões existenciais. “Essa é a minha paixão, é como fagulhas para a minha curiosidade, o que me motiva: detectar a substância da vida, a essência mais profunda que guardamos”. Segundo Spielmann, em seus filmes ele sempre mostra uma fagulha de otimismo ou, em suas palavras, “a convicção de que a vida não é um erro, e que tudo faz sentido de alguma forma”. Certo. Pena que eu não vi toda essa “profundidade” de sentido ou de narrativa no filme dele.

Ah, e para os sensíveis: sim, o filme tem várias cenas de nudismo e de sexo. E elas não são gratuitas, se justificam plenamente na história.

CONCLUSÃO: Um filme bem dirigido e com atuações bastante convincentes que trata das escolhas erradas que algumas pessoas tomam na vida e de como elas lidam com as consequências destas ações. Trata também do tema vingança – como parecia óbvio – e da “tomada de consciência” sobre quem são os verdadeiros culpados de grande parte de nossos problemas. É um bom filme, ainda que ele fique bastante abaixo de outras produções muito boas feitas em diferentes países no ano passado. Pessoalmente, acho que ele não deveria ter chegado a ser um dos cinco finalistas ao Oscar. Falta-lhe qualidade de roteiro, mais que tudo.

PALPITE PARA O OSCAR: Como eu acho que já deixei claro logo ali em cima, Revanche não deveria nem estar entre os cinco finalistas ao prêmio máximo da indústria de Hollywood. Mas ok, já que ele chegou até lá… não vejo que esta produção tenha chances de ganhar dos demais concorrentes. Isso porque não vi três dos cinco títulos que estão na disputa. Ainda assim, comparando Revanche apenas com Vals Im Bashir, posso dizer que a animação israelense é a favorita. Mesmo não sendo também um filme excepcional, Vals Im Bashir ainda é melhor que o concorrente austríaco.

DESEMPENHO NO OSCAR: Revanche perdeu na disputa para o filme japonês Okuribito (Departures no mercado internacional). (Atualizado em 28/02/2009).

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8 comentários em “Revanche

  1. Um roteiro bem convencional e até parecido com outros filmes até mesmo hollywoodianos, mas gostei das interpretações e dos já característicos momentos de silêncio e contemplação que percebo no cinema europeu. É legal que vc percebe mais o filme e não se perde em tanto blá blá blá.

    E como vc disse que adora Isabel Coixet, tenho certeza que logo vai comentar o filme “Fatal” por aqui

    abração

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  2. Também não achei o filme essas coisas, mas vou rever minhas anotações para dar um veredicto final. Mas o que mais me incomodou foi o final, quando a foto da menina morta está exposta gratuitamente para a esposa do policial olhar. Que ela faria a descoberta, isso era previsível, mas não desse jeito.

    Ah, algumas dicas para melhorar seu texto, se me permite:

    Procure não repetir muito informações, como falar que sua crítica contém spoilers ou que o filme não merecia ser indicado ao Oscar.

    E no finalzinho, sobre a expressão “Lhe falta qualidade de roteiro, mais que tudo”. Não se começa uma frase com pronome átono (ex.: “Me diga”). Isso é até normal na oralidade, mas nunca deve ser feito na escrita. Então basta colocá-lo depois do verbo.

    É isso.
    Abraços

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  3. Oi Mangabeira!!

    Acho que resumiste bem o filme… um roteiro bastante convencional, com boas interpretações e o estilo característico do cinema europeu. Justamente. Especialmente graças ao último argumento eu dei a nota que dei para o filme – certamente não foi pelo roteiro. 😉

    Isabel Coixet é maravilhosa… e Fatal está na minha listinha para ser assistido faz tempo. Mas ele vai perdendo a dianteira praticamente a cada dia que passa. Mas um dia vou comentá-lo, certamente.

    Um grande abraço e até a próxima!

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  4. Oi Rafael!!

    Puxa, nem fala… este blog tem mil erros de português. Sabes qual é o meu grande problema? Escrevo e não faço uma revisão depois. Então, sem mentira, toda vez que eu releio algum texto, encontro vários problemas de gramática e etcétera. Obrigada por tuas dicas – vou fazer a correção do “lhe falta…” agora mesmo -, mas vou te avisando: se fores corrigir meus textos, terás bastante trabalho pela frente. 😉

    Esse detalhe da foto também me incomodou. O roteiro deixou claro, pouco antes, quando ela encontra a foto da garota morta com o marido, que seria uma questão de tempo para que ela visse a outra foto na casa do amante… mas achei que ela a encontraria no lugar em que a imagem sempre estava desde então: no quarto dele. Agora, sobre a mesa, assim “fácil”, foi um pouco de preguiça do roteirista. hehehehehehe

    Agora, admito que repito várias vezes sobre os spoilers de forma proposital. Isso porque sei que muitos leitores continuam lendo os textos mesmo que eu tenha avisado no princípio que ele tem “spoilers” e, quando vou finalmente falar algo que “estrague surpresas”, volto a fazer o aviso. Ainda que ele não surta efeito… 😉 Nesta parte é algo proposital, no restante das repetições – de palavras, de informações e etcétera – é por falta de revisão dos textos mesmo. Mas obrigada por tuas dicas. Para melhorar o que eu escrevo a melhor saída seria revistar tudo, algo que não tenho tido tempo de fazer. Quem sabe um dia?

    Mas obrigada pelas dicas, pela visita e pelo comentário. Espero que voltes por aqui outra vezes – independente dos meus equívocos. 😉

    Um abraço!

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  5. Ale, queria te pedir por favor.
    para COTINUAR citando que sua crítica contém spoilers..he he, acredito que muitas vezes e não só eu com certeza, seu blog, de qualidade inquestionável, é utilizado como referência para conhecer um pouco mais do filme antes de ver.
    Então, quando não vi o filme, mesmo assim leio seu texto, respeitando as “barreiras” com a palavra spoilers. Uma técnica muito gentil e funcional de sua parte.
    é isso.

    abração

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  6. Oi Mangabeira!!

    hehehehehehehehe. Pode deixar. Vou continuar repetindo bastante a palavra SPOILER para avisar a você e aos demais leitores que eu estou prestes a estragar alguma surpresa. 😉

    E obrigada pelo “qualidade inquestionável”. Super bondade sua. Afinal, tudo nesta vida é questionável. Especialmente este blog. hehehehehe.

    Aliás, obrigada por sempre comentar. Adoro!!

    Um abração!

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  7. Li pouco, mas posso assegurar que não existe a palavra “encima” que consta do longuíssimo e chato comentário. Chega a doer. Quem escreve demais, deveria saber português o suficiente para tanto.
    Escreva menos e bata menos. Fazer filme não é tão simples assim. Bater é fácil. Pelo menos bata escrevendo corretamente a nossa língua. Um abraço.

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  8. Olá flaviopeix!

    Primeiramente, seja bem-vindo por aqui.

    Curioso que você disse que leu pouco, mas encontrou o “encima” justamente no final do texto. Tive que procurar um bocado para encontrar.

    Agora, deixa eu te contar um segredo: a palavra encima existe no português. Ah, sim senhor! Dê uma procurada salutar no dicionário, meu caro. Ainda assim, óbvio está, eu não quis escrever “encima” com o sentido que a palavra tem no português. Foi um lapso, um erro… porque “encima”, como eu queria dizer, é uma palavra do espanhol. Este texto é de fevereiro de 2009, apenas quatro meses depois da minha volta da Espanha e, admito, ainda errava na hora de escrever, colocando palavras espanholas no meio de textos em português. Por isso esse “encima” do castellano neste texto. Vou corrigir em seguida.

    De qualquer forma, te aconselho a ser um pouquinho mais humilde, meu caro. Primeiro, porque ninguém sabe tudo, em idioma algum. Depois, porque antes de criticar alguém, você deve ter certeza sobre algo – e poder ser avaliado com o mesmo peso, mesma medida. Como soubeste agora, estavas errado, porque a palavra encima existe em português (e em castellano também).

    Você acha que eu escrevo demais? Que pena. Sinal de que esta deve ter sido a tua primeira e última visita ao blog. Minha satisfação é que centenas de pessoas discordam de você e chegam por aqui diariamente.

    Pena também que tens preguiça de ler. Porque quem acha um texto como esse longo, certamente, não deve ter muito o hábito da leitura. Ou mesmo ter o hábito de ler bons e extensos livros. Pena. Estás perdendo um bocado – inclusive vocabulário.

    Você comprova que bater é fácil pelo teu comentário. Eu nunca disse que fazer filmes ou trabalhar com cinema seja algo fácil. Não seria tão infantil, imatura ou imbecil a este ponto. Quem acompanha este blog sabe o quanto eu gosto e respeito o cinema e as pessoas que fazem esta indústria/arte.

    No mais, meu caro, sorte com a “tua” língua e com o “teu” cinema.

    Abraços.

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