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Defiance – Um Ato de Liberdade

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Sete décadas depois do início da 2ª. Guerra Mundial, a história continua sendo revisitada. Novas publicações apontam aspectos do confronto pouco ou nada explorados por distintos autores até o momento. Defiance aparece no meio deste “levante” de revisão histórica ao apresentar a trajetória de um grupo de judeus que resistiu ao extermínio promovido pelos nazistas. Este é o primeiro filme que assisti com esta temática. Essa “inovação” que a produção traz, sem dúvida, é um dos seus maiores trunfos, ao promover a mudança do foco narrativo dos judeus como vítimas – algo que também foi uma realidade, claro – para mostrar-lhes como pessoas corajosas, lutadoras e convictas de seu direito de sobreviver.

A HISTÓRIA: Adolf Hitler cumprimenta parte de seu Exército. O ano é 1941 e a história que vamos assistir acompanha fatos que ocorreram na ocupação da Bielo-Rússia por parte da Alemanha. Imagens em preto-e-branco mostram o trabalho da SS e da polícia local em cercar e prender os judeus que moravam no país. Estas cenas logo se convertem em imagens coloridas que “reconstituem” o que teria acontecido com os irmãos Bielski. Depois de assistirem a morte dos pais, em agosto, eles se escondem na Floresta Lipiczanska, onde começam a formar um grupo de resistência ao regime de repressão e extermínio nazista.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Defiance): Quando bons roteiristas encontram um trabalho de pesquisa bem acabado como base para seus filmes, normalmente o resultado do processo de adaptação de uma obra literária para os cinemas tem êxito. Este é, em muitos momentos, o caso deste filme, que se debruça sobre vários aspectos do cotidiano de um grupo de judeus que decidiu resistir à perseguição promovida pelos nazistas durante a 2ª Guerra. As qualidades do texto para o cinema escrito por Clayton Frohman e o diretor Edward Zwick começaram pelo trabalho de Nechama Tec, professora de sociologia que publicou a obra Defiance: the Bielski Partisans.

Tec, como outros escritores e pesquisadores históricos fizeram recentemente, buscou ir a fundo na investigação histórica daquela época, procurando outras versões sobre o que aconteceu no período de 1939 e 1945 na Europa. A curiosidade deles está provocando uma verdadeira revisão histórica do período, lançando luz sobre muitas dúvidas a respeito dos diferentes papéis que países, exércitos e civis desempenharam no período de expansão nazista. Assim, Tec e outros escritores têm mostrado que os judeus não foram sempre as vítimas indefesas e incapazes de lutar contra seus algozes como estávamos acostumados a aprender nas aulas de História ou através de filmes.

A revista Superinteressante trouxe, em setembro deste ano, uma reportagem sobre estas novas descobertas dos pesquisadores que se preocupam com o tema. Segundo a reportagem da revista, o grupo de resistência dos irmãos Bielski chegou a aniquilar aproximadamente 400 inimigos. Outros grupos de judeus perseguidos pelos nazistas resistiram em florestas e pântanos do Leste Europeu, repetindo os passos dos irmãos vistos em Defiance: além de se abrigarem em lugares de difícil acesso, estes grupos interceptavam carregamentos de comida para as tropas alemãs, sabotavam “usinas elétricas e fábricas”, descarrilhavam “trens inimigos e, quando possível”, matavam “algum nazista”.

Este poderia ser um bom resumo sobre Defiance. Mas o filme é mais que isso. O roteiro de Zwick e Frohman tem espaço para as ações estratégicas do grupo dos irmãos Bielski, mas também (e esta é a parte mais curiosa) se ocupa em relatar a organização deles para sobreviver em locais isolados. Os trabalhos de construção de acampamentos, de distribuição de comida, a queda-de-braço pela liderança do grupo, os romances, o perigo de uma epidemia de tifo, enfim, o cotidiano de um grupo formado por pessoas com formação, faixa etária e condições de saúde tão diferentes é o que torna Defiance um filme curioso.

Um dos acertos do roteiro é o de não exagerar na dose de “santificação” dos protagonistas. Ainda que exista algum “embelezamento” de suas biografias, ele é feito de maneira moderada. Desta maneira é que acompanhamos, ao mesmo tempo, a bravura e a covardia de Tuvia Bielski (Daniel Craig), o líder do grupo de resistência que busca ser justo com aqueles que o cercam, dita regras coerentes para homens, mulheres e crianças, age com bravura na busca por alimentos para seu grupo mas, também, é capaz de invadir a casa de uma família e matá-la praticamente inteira por vingança.

O irmão de Tuvia, Zus (Liev Schreiber) é um homem que defendia o uso de armas mais que a diplomacia. Corajoso e assombrado por um certo complexo de inferioridade em relação a Tuvia (o que acaba resultando em ações de competição entre os irmãos), ele acaba aderindo a Otriad Outubro, formada por soldados do Exército Vermelho comandados por Viktor Panchenko (Ravil Isyanov).

A separação dos irmãos acabou sendo inevitável porque,enquanto Tuvia apostava em uma resistência estratégica, com a ação do grupo focada em assaltos contra alemães e seus colaboradores para conseguir comida e algumas armas, Zus acreditava em ações de represália mais duras. Ele também não concordava muito com o gesto do irmão em ser um “bom samaritano” e abrigar/cuidar de pessoas que não poderiam “pegar em armas” e resistir a um confronto com os nazistas. A verdade é que o grupo que foi se formando ao redor dos Bielski era composto, maioritariamente, por velhos, mulheres e crianças. Comentei tudo isso para demonstrar como Zus também foi mostrado como um personagem complexo, capaz dos gestos mais heróicos na luta direta contra os nazistas ao mesmo tempo em que demonstrava um bocado de inveja/disputa a respeito do irmão mais velho e egoísmo ao querer defender apenas a si próprio e aos familiares, não se importando muito com os demais.

Em filmes que buscam contar gestos heróicos de pessoas reais, existe um grande risco por ignorar os vários aspectos da personalidade destes personagens. Normalmente, os roteiristas se focam apenas nas qualidades ou nos defeitos das pessoas retratadas, dificilmente mostrando a complexidade de suas personalides – exceto quando se trata de uma cinebiografia. Defiance corria o risco de contar uma história um bocado rasa a respeito de seus protagonistas porque há muitos aspectos da história a serem mostrados. Levando isso em conta, os roteiristas se sairam bem no seu trabalho.

Os personagens mais “lineares” ou “rasos” ficaram para os outros dois irmãos Bielski. Asael, interpretado pelo sempre ótimo Jamie Bell, incorpora o papel do bom moço. Depois de ficar abalado com a morte do pai, ele passa a auxiliar Tuvia com o acampamento e, observando o irmão, aprende a se tornar também um líder. Na verdade, Asael aprende tanto com Tuvia quanto com Zus e, aparentemente, saca o melhor de cada um deles. Algumas das melhores cenas e diálogos do filme acabam sendo protagonizadas pelo garoto. O outro Bielski da história, Aron (George MacKay) aparece menos. Essencialmente ele encarna a fragilidade e o drama vivido pelas crianças do grupo, que ficaram órfãs da noite para o dia.

Comentei apenas sobre os irmãos Bielski, mas outros personagens também tiveram um certo destaque nesta história. Entre eles, destaco a bela francesa Alexa Davalos, que interpreta a Lilka Ticktin, uma mulher de posses e que estudou música na universidade e que acaba se apaixonando pelo protagonista; a encantadora australiana Mia Wasiowska como Chaya Dziencielsky, uma jovem salva junto com Asael que acaba motivando a operação de resgate de muitos judeus de um gueto criado pelos nazistas na região; o competente ator sueco Allan Corduner como Shamon Haretz, ex-professor dos Bielski e um dos organizadores do acampamento; e o nova-iorquino Mark Feuerstein como Isaac Malbin, um intelectual que acaba demonstrando para Tuvia que não bastava sobreviver aos nazistas, era preciso criar e fomentar a idéia de comunidade entre as pessoas do acampamento.

Seguindo ainda o que eu dizia antes sobre os acertos do roteiro, achei curioso como Defiance aborda alguns dos pré-conceitos que rondavam o imaginário da população sobre os judeus naquela época – e talvez até hoje. Idéias estas, é importante comentar, muitas vezes assumidas pelos próprios judeus. Entre outras, as de que eles eram incapazes de lutar ou de passar uma noite bebendo com os amigos, assim como de serem pessoas leais e capazes de gestos de doação. Os irmãos Bielski e as demais pessoas que fizeram parte de seu acampamento, em sua maioria, demonstraram que estes pensamentos estavam errados e que, como em qualquer outro grupo, eles também abrigavam pessoas de índole muito diferentes. Tuvia teve, por exemplo, que enfrentar uma tentativa de insurreição no próprio acampamento, liderada pelo absurdo Arkady Lubczanski (Sam Spruell).

Filmado com exatidão por Zwick, com uma direção de fotografia bastante correta do português Eduardo Serra, Defiance apresenta um ritmo de ação e drama geralmente condizentes com a história. Quando o espectador se dá conta, ele foi levado pelas mãos até a epopéia daquele grupo, torcendo para que eles sobrevivam mesmo quando todas as condições apontam para o contrário. Apenas perto do fim a produção exagera um pouco na dose. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Duvido muito, por exemplo, que Tuvia não tivesse tido nenhum romance no acampamento antes daquele primeiro beijo em Lilka. Também é difícil engolir a maneira com que os alemães atacaram os sobreviventes do acampamento no cerco final. Aquele não era o método do exército alemão em atacar os adversários – apenas com um núcleo e em uma única direção, tornando-se alvo fácil de um cerco como o mostrado em Defiance. Mas ok, entendo que um filme com tantos aspectos a serem abordados não pode ser muito fiel à realidade. Afinal, por mais que ele seja “baseado em uma história real”, trata-se de uma reconstrução da realidade, suscetível a interpretações e simplificações.

E ainda que Defiance apresente um Tuvia e um Zus um bocado complexos, lá pelas tantas o roteiro “esquece” esta complexidade para transformá-los basicamente em heróis. Assim, rapidamente esquecemos que Tuvia foi capaz de matar a sangue frio uma família quase inteira e aceitamos o momento em que ele critica Zus por querer fazer o mesmo. Também “perdoamos” os gestos de egoísmo e inveja de Zus quando ele aparece para ajudar o irmão no final da história. Esta “manipulação” do roteiro na tentativa de tornar os personagens ainda mais heróicos era dispensável.

NOTA: 9 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Com uma fotografia muito boa, este filme registra algumas das paisagens da Lituânia, onde Defiance foi filmado. Achei curioso a produção ter sido feita naquele país, vizinho da Bielo-Rússia, onde os fatos realmente aconteceram. Lendo as notas de produção de Defiance fiquei sabendo que os produtores nem cogitaram filmar na Bielo-Rússia porque o atual regime daquele país é o de uma ditadura.

A trilha sonora assinada pelo oito vezes indicado ao Oscar James Newton Howard é um dos destaques do filme e, até o momento, foi o único aspecto técnico da produção que rendeu alguma premiação para Defiance. Além de ter sido indicado ao Oscar neste ano, por esse trabalho, Howard recebeu graças a ele o prêmio Sierra da Sociedade de Críticos de Cinema de Las Vegas. Como em qualquer filme que busca sacar lágrimas com sua história, Defiance também consegue, com uma ajuda fundamental da trilha sonora, levar os espectadores pelas mãos neste caminho.

Gostei muito da interpretação dos atores que fazem os irmãos Bielski, com especial destaque para o másculo (e charmoso, convenhamos) Daniel Craig e para o geralmente linear Liev Schreiber. Jamie Bell, novamente, comprova que é um dos grandes nomes de sua geração.

Edward Zwick consegue equilibrar muito bem cenas de batalha e de ação cuidadosamente planejadas com momentos mais “introspectivos”, como os que revelam as relações de poder, disputa, aprendizado e amor entre os diferentes personagens do acampamento judeu.

Defiance deu prejuízo para os seus produtores. O filme, que teria custado aproximadamente US$ 50 milhões, conseguiu arrecadar, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 28,6 milhões até abril deste ano. Pouco, muito pouco.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para o filme. Se você achou ela baixa, é porque ainda não viu a avaliação dos críticos que tem seus textos linkados pelo site Rotten Tomatoes: eles dedicaram 90 textos positivos e 74 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de apenas 55% (e uma nota média de 5,8).

Para o crítico Mick LaSalle, do San Francisco Chronicle, infelizmente nem toda história verdadeira sobre o Holocausto rende um filme de Hollywood. Nesta crítica (em inglês), LaSalle afirma que a história dos irmãos Bielski poderia render em um grande artigo para uma revista ou em um documentário do History Channel, mas que ao ser transformada em filme, ela acabou tendo seu fascínio diluído em uma produção longa e árdua. Ainda assim, o crítico afirma que os detalhes sobre a vida dos sobreviventes na história acabam tornando a primeira hora do filme interessante. LaSalle enfatiza o fato de que a história em si dos Bielski é significativa mas, para um filme, pouco dramática.

Destaco também este texto do crítico Michael Phillips, do Chicago Tribune, que afirma que a determinação do filme em “mitificar o heroismo da vida real de seus personagens” acaba se demonstrando inadequada. Para Phillips, o roteiro de Defiance resume todos os fatos ao mais simples, apostando em “máximas redutoras”. Os personagens, para o crítico, não parecem pessoas reais em uma situação dramática como aquela. Phillips destaca o gosto de Zwick por manter os seus extras (personagens secundários) apenas como extras, ou seja, limitados a uma existência galgada em frases feitas. Mesmo com estas críticas, Phillips destaca a técnica de Zwick como um de seus pontos fortes.

Os atores Daniel Craig e Jamie Bell vão repetir a dobradinha de trabalharem juntos no filme The Adventures of Tintin: The Secret of the Unicorn. A produção, dirigida por Steven Spielberg, transportará para a telona uma das aventuras do popular personagem de HQ’s.

CONCLUSÃO: Um filme inovador em sua temática, mas tradicional em seu formato. Defiance contribui na recente revisão histórica da 2ª Guerra Mundial ao narrar a ação de resistência de um coletivo de judeus durante a invasão da Bielo-Rússia pelos nazistas em 1941. Bem equilibrado entre momentos de ação, guerrilha e drama, Defiance nos revela os desafios enfrentados pelos irmãos Bielski e o grupo que se formou ao seu redor para sobreviver. Tecnicamente irretocável, o filme sofre por uma certa inestabilidade de seu roteiro, que começa bem, ao mostrar a complexidade das personalidades de seus protagonistas, mas que depois acaba caindo em uma simplificação (e até “santificação”) de suas ações. Mesmo com alguns “poréns”, é um filme bem feito e que traz à luz uma história incrível. Apenas por isso, merece ser visto.

SUGESTÕES DE LEITORES: Defiance foi citado pela primeira vez aqui no blog pelo Assis, no dia 25 de janeiro deste ano. Na época, este querido leitor aqui do blog tinha acabado de assistir ao filme e queria ler um comentário meu a respeito. Pois bem, Assis, aqui está, finalmente, o texto. Como podes ver, gostei do filme, especialmente porque desconhecia os detalhes da história dos irmãos Bielski. Agora, como eu disse antes, achei uma pena os momentos em que o filme tentou “embelezar” a história e/ou simplificar demais os seus personagens. De qualquer forma, acho que Defiance é um filme bem interessante e que merece ser visto. Aguardo a tua visita e teus comentários a respeito dele. Um abraço!

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Wall-E

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Eis aqui um dos poucos filmes que ganharam e/ou concorreram ao último Oscar ao qual eu ainda não tinha assistido. Isso aconteceu pela mesma razão que me faz ser uma das poucas pessoas – acredito – a não ter assistido, até agora, a The Dark Knight ou Watchmen: perco um bocado a vontade quando a “hora H” para fazer isso já passou. Ou, em outras palavras, me desinteresso em assistir a um filme quando todos parecem já ter falado dele. Só que no caso de Wall-E, a tão celebrada, elogiada e premiada animação dos estúdios Pixar e Disney, não me arrependo de ter visto ao filme, mesmo “atrasada”. Bem feito, divertido, com algumas cutucadas das boas em certas tendências da nossa “evolução humana”, Wall-E é, ainda, um belo exemplo de homenagem ao próprio cinema. Há referências para todos os gostos e idades, mas as mais óbvias são mesmo as de 2001: A Space Odyssey e a homenagem declarada para Hello, Dolly!, de 1969 – sem contar uma dinâmica que relembra aos filmes mudos.

A HISTÓRIA: Enquanto a música Put On Your Sunday Clothes reverbera pelo espaço, passeamos por arranha-céus desertos, muitos deles feitos de lixo prensado por Wall-E. Este robô, criado para auxiliar a humanidade a se livrar das montanhas de sujeira que começavam a ocupar muito espaço na Terra – e torná-la insuportável para a vida humana – passa seus dias solitário (apenas na companhia de uma barata sobrevivente). Mas a rotina destes dois seres muda quando chega à Terra Eve, uma ultramoderna criação robótica que tem como missão encontrar algum tipo de vegetação na Terra – o que possibilitaria o retorno da espécie humana para o planeta.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Wall-E): Falar deste filme, hoje, é quase o mesmo que comentar sobre qualquer clássico do cinema ou blockbuster recente. Acredito que praticamente tudo já foi dito sobre Wall-E. Então vou comentar os aspectos do filme que mais me interessaram.

Como manda o figurino das produções da Pixar, a qualidade dos detalhes desta animação são impressionantes. Um grande trabalho do diretor Andrew Stanton e da equipe de animadores dos estúdios. Merece uma menção especial o trabalho da coordenadora de produção do departamento artístico Becky Neiman. Impressionante como eles configuraram o cenário desolado da Terra, assim como a beleza sideral e a tecnologia que beira o absurdo da nave Axiom. Tecnicamente falando, o filme é perfeito.

Comentei antes que a dinâmica de Wall-E relembra muito a dos filmes mudos. E isso se explica: nosso “herói” vive solitário na Terra até que conhece Eve. Eles trocam as primeiras palavras a partir do minuto 22 do filme. Até ali, apenas os efeitos sonoros e algumas músicas do filme Hello, Dolly! E mesmo depois que os robôs começam a se comunicar, muitas cenas relembram as comunicações não-verbais de clássicos de Charles Chaplin, Buster Keaton, entre outros. Aliás, estes dois ídolos da época do cinema mudo, segundo as notas de produção de Wall-E, teriam sido fundamentais na pesquisa do diretor Andrew Stanton e da equipe do estúdio Pixar. Eles teriam assistido a todas as produções de Chaplin e Keaton durante um ano e meio para apurar a forma narrativa de Wall-E.

Então, mais que um filme divertido e que traz a mensagem da importância do amor e da esperança, Wall-E é uma bela homenagem para o próprio cinema. Além das referências conceituais ao cinema mudo, fica mais que evidente, na parte da nave Axiom, a homenagem para filmes como Star Wars e, principalmente, 2001. AUTO, o “vilão” da história, é uma interessante recriação de HAL-9000. Outra homenagem evidente do filme é feita para os musicais, para muitos o suprasumo do romantismo de Hollywood, aqui representado pelo clássico de 1969 dirigido por Gene Kelly e ganhador de três Oscar.

Além de ser um filme moderno por fazer autoreferências ao cinema, Wall-E é uma produção que brinca com uma série de conceitos aceitos abertamente neste nosso recém-iniciado século 21. Para começar, a “nova” ordem mundial do consumismo, do desperdício, assim como a tendência a um isolamento cada vez maior provocado pelas facilidades da comunicação através das novas tecnologias. Tudo isso é elevado algumas potências nesta produção, que nos mostra uma humanidade que assumiu como normal o cúmulo da imobilidade. Chegamos, junto com Wall-E e Eve, a uma nave Axiom repleta de humanos obesos que parecem ter saído todos de uma fábrica de clones. Todos praticamente iguais, habituados a enxergar a realidade com um monitor na frente de suas cadeiras flutuantes. Eis aqui uma das maiores críticas do filme – que, além de engraçado e romântico, é sim bastante ácido.

O equilíbrio entre estes elementos é o que faz desta animação algo especial. Méritos de Andrew Stanton, que também escreveu a história e o roteiro do filme. A idéia original de Wall-E partiu de Stanton e de Pete Docter. E o roteiro, escrito a partir desta idéia, foi assinado pelo diretor e por Jim Reardon. Para mim, Wall-E é o melhor trabalho de Stanton até agora – ele foi o responsável, anteriormente, pelos longas A Bug’s Life e Finding Nemo – percebe-se sua preocupação com a Natureza, não?

Mas voltando ao ponto em que eu comentava no que o filme me chamou mais a atenção… Para começar, a curiosíssima coleção que Wall-E foi acumulando com o passar do tempo. Muitos já especularam o que resumiria a nossa capacidade inventiva. Que objetos, que livros, que invenções refletiriam de forma mais honesta a humanidade. Por isso mesmo não deixa de ser engraçadíssimo que Wall-E, um robô com inteligência artificial, selecione objetos como um iPod, isqueiros, lâmpadas, duendes, talheres e uma fita de vídeo (alguém quer algo mais antigo do que uma fita de vídeo na era do Bluray e similares?), entre outros, como os mais curiosos de uma civilização que não habita mais a Terra.

Muito interessante também que Wall-E, como uma criança, aprende sobre o amor – e outros conceitos – por imitação. Assistindo a um filme, por exemplo. E como sua vida, que se resumia apenas a trabalho e uma coleção de objetos gigantesca, muda totalmente de sentido quando ele encontra uma “companhia” – ainda que ela seja tão diferente dele. Aliás, Eve chega a ser irritante, no início, por seu comportamento altamente competitivo, destrutivo e, porque não, até um bocado carregado de soberba. Mas nada, é claro, que não vá mudando com o passar do tempo – e com o aprendizado além das “diretrizes”. Aliás, isto poderia bem se aplicar a nós, humanos, tão concentrados em nossas diretrizes, objetivos, metas… e tão pouco abertos a aprender algo novo, a nos deixar surpreender e revolucionar pelas surpresas e, sim senhores, pelo amor. 😉

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para quem ficou interessado em saber o que significa as siglas do filme, Wall-e e EVE tem significados específicos. WALL-E é a sigla para Waste Allocation Load Lifter – Earth Classe, algo como Localizador e Coletor de Lixo – Classe Terrestre; e EVE é a sigla para Extra-terrestrial Vegetation Evaluator, ou algo como Exploradora de Vegetação Extraterrestre (o que não deixa de ser curioso, porque a tal exploração se deu exatamente na Terra, e não fora dela… ou eles consideravam a “Terra” a tal nave Axiom? que confusão!!).

Irônico também o momento em que a descoberta de EVE chega até a nave Axiom: no aniversário de 700 anos da saída do cruzeiro espacial que deveria durar, originalmente, cinco anos. Ou seja: naquela nave nasceram gerações e gerações de humanos que foram alterando a sua estrutura óssea e comportamento por não conhecerem nada além da alta tecnologia como aliada para sobreviver. Curioso. Vale a pena assistir os desenhos que aparecem durante os créditos finais e que simulam a nova civilização que será originada na Terra, em uma utópica relação de aprendizado mútuo entre homens e máquinas.

E falando em diretrizes, não deixa de ser curioso o debate entre as idéias de “obrigação” e de “missão cumprida” levantadas pelo filme. Isso se aplica a EVE e ao robô M-O (sigla para Microbe Obliterator). Este último, que tem como “missão” a de acabar com os “contaminantes externos”, acaba acompanhando os nossos heróis por boa parte de suas aventuras na nave Axiom. Quando ele finalmente cumpre a sua missão, sente uma certa “liberdade” – encarnada no filme por Wall-E -, a ponto de ajudar os nosso heróis. Outra lição do filme é esta, a de que o trabalho deve ser encarado como uma competição por aprimoramento e por “aperfeiçoamento pessoal”, nunca como uma desculpa para tornar o cotidiano uma batalha pessoal contra outra pessoa (ou, neste caso, máquina).

As vozes de Wall-E, M-O, entre outros, foram criadas por Ben Burtt, considerado um “mago” na criação de efeitos sonoros. Elissa Knight é a responsável pela voz de EVE. E uma curiosidade: a atriz Sigourney Weaver, conhecida especialmente pelo clássico Alien, empresta sua voz para o computador de bordo da nave, naquela parte em que o capitão pede definições seguidas de conceitos como Terra, mar, baile, etcétera.

A trilha sonora de Wall-E, maravilhosa – como a maioria dos filmes de animação -, leva a assinatura do veterano premiado Thomas Newman. Colaborou com o compositor para a trilha sonora do filme o indicado ao Oscar Peter Gabriel, que compôs a música Down to Earth.

Wall-E consegue aliar um roteiro inteligente com um dos personagens mais “vendáveis” dos filmes de animação dos últimos anos. Com uma expressão que muitas vezes lembra a de um cão carente, o robô Wall-E deve ter virado o sonho de consumo de muita gente. Efetivamente foram lançados brinquedos do personagem, assim como de EVE – como não? Ainda que critique a veia consumista moderna, o diretor e os demais envolvidos fazem parte de uma indústria que vive justamente deste consumismo. O que não deixa de ser bastante irônico – e um pouco hipócrita? O filme também tem uma veia bastante pegajosa, com aquela repetição infindável – e que não deixa de ser bonitinha – dos nomes de Wall-E e EVE… a voz de cada um deles chamando pelo outro ficará ecoando por seus ouvidos por um bom tempo, mesmo depois do filme acabar. Acostume-se!

Segundo as notas de produção do filme, em seus 700 anos de solidão, Wall-E desenvolveu uma “anomalia em seu sistema” que permitiu que ele desenvolvesse sua própria personalidade.

Em sua trajetória, Wall-E colecionou impressionantes 43 prêmios e outras 36 indicações. Entre os prêmios que levou para casa, destaque para o Oscar de Melhor Animação de 2009; o BAFTA, o Globo de Ouro e o National Board of Review na mesma categoria.

Wall-E pode ser considerado também uma unanimidade entre o público e a crítica. Tanto que ele registra uma importante nota 8,6 na votação dos usuários do site IMDb e, ainda, coleciona 213 críticas positivas e apenas nove negativas no Rotten Tomatoes – o que garante para este filme uma aprovação impressionante de 96% dos críticos.

Nas bilheterias o filme também foi muito bem. Para uma produção que teria custado US$ 180 milhões, Wall-E saiu lucrando (ainda que relativamente baixo): arrecadou pouco mais de US$ 223,8 milhões apenas nos Estados Unidos. Um de seus concorrentes diretos no ano, a animação Kung Fu Panda, conseguiu uma margem de lucro melhor: o filme que teria custado US$ 130 milhões arrecadou, apenas no país do Tio Sam, pouco mais de US$ 215,3 milhões. Mas o outro concorrente do ano, Bolt, se saiu pior: faturou menos que os US$ 150 milhões que teria gasto para ser produzido.

CONCLUSÃO: Um filme de animação inteligente e com personagens principais bastante carismáticos – especialmente o robô que dá título ao filme. Elaborado para todas as idades, deve cair no gosto de crianças e adultos por diferentes razões. Tecnicamente perfeito e elaborado de forma bastante criativa, Wall-E é um destes filmes que agrada pelas mensagens diretas e indiretas. Os pequenos devem adorar a parte da aventura e a história de amor entre Wall-E e EVE. Os adultos encontrarão outros significados no enredo, que aproveita para questionar os rumos da nossa civilização – consumista, pouco preocupada com a Natureza e a sustentabilidade da vida na Terra. Um filme bacana inclusive para inserir temas como ecologia, tecnologia, consumismo e similares entre os mais jovens – seja no ambiente escolar ou em casa. Para os fãs de cinema, Wall-E ainda nos presenteia com várias referências à Sétima Arte. Resumindo: é um destes filmes que vale a pena ser assistido, tanto pela diversão quanto pelas reflexões que ele provoca.

OSCAR 2009: Wall-E foi indicado a seis prêmios pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Destes, saiu vencedor apenas na categoria de Melhor Animação. Merecedíssimo, eu diria – ainda que não tenha assistido aos outros concorrentes, citando Bolt e Kung Fu Panda.

SUGESTÕES DE LEITORES: Assistir Wall-E agora faz parte da minha meta de ir colocando, pouco a pouco, a minha lista de filmes “pendentes” em dia. Lista essa que sempre tem como prioridade as sugestões de filmes feitas pelos leitores deste blog. Pois bem, Wall-E surgiu nesta lista graças a um comentário do Vander há bastante tempo… mais precisamente, em 11 de agosto de 2008. Na época, o Vander comentava que tinha assistido a Wall-E com seus sobrinhos pequenos e que eles não tinham gostado do filme. Nem ele, o Vander, tinha curtido muito… e ele me perguntava a minha opinião sobre isso. Olha Vander, eu também acho que ouvi comentários um pouco “exagerados” sobre Wall-E. Alguns, afirmando que este seria o melhor filme do ano – não apenas a melhor animação. Acho que não é para tanto. Wall-E é um filme bacana e tudo o mais, mas admito que assisti a outras animações e filmes que me impressionaram mais.

Agora, por que este filme talvez não agrade tanto aos mais pequenos? É fato que ele não segue a cartilha mais comum das animações. Só pelo fato dele ter poucos diálogos, de lembrar em muitas partes filmes do cinema mudo… bem, atualmente, tenho certeza, o cinema mudo é para poucos. Nem todo mundo tem a paciência de assistir a algo sem som, não é verdade? Acredito que vivemos em uma era muito, talvez demasiado sonora – vide a poluição deste tipo da qual é difícil escapar. Enfim… as pessoas caminham pelas ruas habituadas a escutar seus iPod’s e similares. Neste cenário, filmes com poucos diálogos são quase uma ousadia. Talvez isso, ou  talvez o fato de que Wall-E tenha uma história um tanto “crítica demais” e nem tão óbvia pode não agradar aos mais pequenos… não sei. Infelizmente não tenho ninguém nesta idade para comparar. Mas estas são algumas hipóteses. De qualquer forma, acho que o restante do texto demonstra a minha opinião sobre o filme – que não é a melhor animação de todos os tempos mas que, nem por isso, deixa de ser bacana e recomendável.

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Der Baader Meinhof Komplex – O Grupo Baader Meinhof

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Não é nada comum a história de um grupo político extremista, posteriormente considerado terrorista, virar filme. Muito menos uma superprodução. Então por que o grupo RAF (de Rote Armee Fraktion, ou Fração do Exército Vermelho) rendeu o indicado ao Oscar e, de quebra, o filme mais caro da história da Alemanha, chamado Der Baader Meinhof Komplex? Uma das razões principais é que a Alemanha é um dos únicos países que verdadeiramente discute e expõe as suas chagas. Depois, porque o RAF marcou nada menos que três décadas da história do povo alemão. O resultado da adaptação de sua história para os cinemas é um filme de ação repleto de mortes, explosões e drama psicológico, com um roteiro que vai fundo nos bastidores do grupo. Mas este roteiro, como consequência de um enfoque maior nos integrantes da “primeira geração” do grupo, deixa um bocado de uma possível contextualização histórica de fora. Além de compreensível, achei a escolha necessária – afinal, o cinema não está aí para ser didático.

A HISTÓRIA: Narra a conduta dos movimentos de resistência à política alemã nos anos 60 e 70, partindo dos discursos de Ulrike Meinhof (Martina Gedeck) até a ação de “guerrilha urbana” comandada pelo casal Andreas Baader (Moritz Bleibtreu) e Gudrun Ensslin (Johanna Wokalek). O corte histórico vai desde as férias da família Meinhof na ilha de Sylt, em junho de 1967, até o assassinato do empresário Hanns Martin Schleyer (Bernd Stegemann) na fronteira da Bélgica com a França em 1977. Neste corte de uma década, acompanhamos as mudanças no movimento que surgiu com alta dose de ideologia e terminou com a execução de diferentes crimes e, de quebra, conhecemos alguns dos personagens do que foi considerado duas das três gerações da RAF.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Der Baader Meinhof Komplex): Andei lendo um ou outro texto por aí que critica o tom “hollywoodiano” desta superprodução alemã. Como se todo filme com explosões, bombas e assassinatos em primeiro plano fosse coisa do cinema estadunidense – falta de informação ou memória história do cinema, eu diria. Como, afinal, alguém pensava em contar uma história sobre atentados a bomba e crimes variados sem mostrá-los, sem fazer um filme que roçasse, pelo menos em parte, no gênero da ação?

Não acho que o problema de Der Baader Meinhof Komplex esteja em suas cenas de violência, crimes e explosões. Afinal, tudo isso fez parte da trajetória deste grupo chamado RAF – e que no filme e na História propriamente dita, devo salientar, muda de nome várias vezes. O problema do filme, como muitas histórias “baseadas em fatos reais” – ainda que esta linha não apareça em momento algum na tela – é que ele recria a “verdade” deixando muitos elementos de fora. E se ele sofre de alguma característica negativa do cinema hollywoodiano é o de um roteiro raso, que dedica muito mais tempo – e close de câmera – em tiros na cabeça do que em explicar o que está acontecendo dentro de um contexto e com informações realmente precisas (como o número de mortes em cada atentado do RAF, por exemplo, ao invés de sugerir várias mortes sem fixar o valor exato).

Longe de mim defender a conduta de um grupo que, em 28 anos de atividade, matou 34 pessoas. Mas, convenhamos, que imagem o filme dirigido por Uli Edel, com um roteiro de Bernd Eichinger (com ajuda do diretor) inspirado no livro do jornalista Stefan Aust nos passa? A impressão que temos, especialmente com os ataques do grupo contra embaixadas e de mais pontos estratégicos dos Estados Unidos em solo alemão, é de que eles fizeram muito mais do que 34 vítimas pelo caminho. Tanto que chega-se, lá pelas tantas, ao absurdo de comparar os atentados com bomba do grupo com cenas de guerras.

Claro que o assassinato de quem quer que seja não se justifica nunca, mas é comparável 34 mortes em 28 anos de atividades de um grupo contrário ao apoio que o governo dava para os Estados Unidos, com as mortes, neste período, provocada pelos ianques de milhares de pessoas em conflitos como a Guerra do Vietña? A história revela que apenas nesta guerra – repudiada pelo grupo responsável pelo surgimento da RAF – foram mortos mais de 3 milhões de vietnamitas – o número exato deste “mais”, como sempre, não se sabe. Isso para citar apenas esta guerra, sem contar as pessoas que foram mortas dentro da Alemanha durante os anos de “estado policial”, como definiu Ulrike Meinhof.

Por tudo isso, é importante dar a mão a palmatória que poucos países como a Alemanha tratam de forma tão aberta as chagas de sua história recente ao mesmo tempo em que é fundamental saber de que forma estes assuntos são tratados. Seria muito inocente da minha parte assistir a Der Baader Meinhof Komplex e simplesmente fazer uma reverência aos seus autores. Recomendo a busca de mais informações para os interessados, seja em sites que tratam da história da RAF (como este link da Deutsche Welle, que faz uma retrospectiva de reportagens sobre o grupo; ou este texto interessante do blog Ops!) ou naqueles que contam um pouco dos “bastidores” da época. Ou seja, que contextualizam o movimento – algo que o filme não faz. Ou melhor, faz de maneira ligeira e um bocado irresponsável.

Se formos olhar apenas pela ótica de Aust, Eichinger e Edel, o grupo de esquerdistas que vira um grupo de “terroristas” – adjetivos financiados pelos governos, sempre – parece um bocado utópico e até infantil. Afinal, eles chamam os policiais de “porcos” e defendem o assassinato de todas as pessoas que são a favor dos capitalistas ianques. Certo que a maioria do – para não dizer todo – discurso panfletário parece exatamente isso: simples textos repletos de palavras de ordem que, no fim das contas, parecem infantis e irresponsáveis. Mas fora uma pequena parte do discurso de Meinhof – que era o cérebro da organização -, especialmente no final de sua vida, que realmente parece exagerada e pueril, o essencial de seus questionamentos eram e ainda são válidos. O problema é que o movimento da RAF, assim como todos os outros que existiam no afã de buscar um “mundo mais igualitário e justo”, se mostrou inócuo e incapaz de perdurar. Até porque eles usaram de um recurso que jamais teria êxito – pela desigualdade de forças: o da violência.

Mas deixando a questão do roteiro – que, baseado no livro de Stefan Aust, cai nos mesmos erros que o original – de lado por um tempo, vamos falar da qualidade técnica de Der Baader Meinhof Komplex. Não por acaso o filme se tornou um dos mais caros da história do cinema alemão – digo um dos mais porque Perfume, por exemplo, que é co-produzido pela Alemanha, custou mais que ele. Der Baader Meinhof Komplex consumiu nada menos que 20 milhões de euros. E, para a sorte de seus produtores, acabou se pagando – apenas na Alemanha, até novembro de 2008, ele havia faturado pouco mais de US$ 21,3 milhões.

A reconstrução de época – anos 60 e 70 – é perfeita, com a filmagem de cenas difíceis, como o conflito entre estudantes, manifestantes e policiais durante a visita de Farah Pahlavi, imperatriz do Irã (última da Pérsia), à Alemanha, feita de forma exemplar. Uli Edel mostra punho firme, visão de conjunto e talento narrativo nesta e em outras cenas do filme. Por outro lado, se lança ao recurso fácil da “contextualização histórica” da época com um videoclipe regado a rock’n roll pelos minutos 19 e 20 do filme. Algo rápido e ligeiro, afinal, é preciso dar mais espaço para as “loucuras” dos terroristas sanguinários do RAF. Quero deixar claro que não estou defendendo ninguém, mas é que chega a ser cômica a escolha dos narradores desta produção. Para resumir, achei muito, mas muito desigual o tratamento que é dado para fatos mais ou menos importantes.

A direção de Edel é competente, para resumir, ainda que o material com o qual ele trabalha – e que ajudou a lapidar – seja fraco, partidário e inacabado. As cenas magistralmente filmadas – especialmente as de ação e de “aprofundamento psicológico” dos personagens – devem muito ao trabalho do diretor de fotografia veterano Rainer Klausmann. Gostei também do trabalho do editor Alexander Berner, que garante um ritmo acelerado para quase todo o filme – ainda que, admito, os quase 150 minutos da produção me cansaram um pouco. A trilha sonora, assinada por Peter Hinderthür e Florian Tessloff, por sua vez, é perfeita – incluindo canções que marcaram a época de “resistência” retratada. A direção de arte e a equipe responsável pelos figurinos também fizeram um trabalho competente.

Mas um dos grandes méritos do filme, para mim, foi o de reunir um elenco feminino de primeiríssima linha. Ouso dizer que Der Baader Meinhof Komplex nos apresenta o melhor grupo de intérpretes da atualidade – pelo menos no que se refere às novas gerações. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Tanto isso é verdade que o filme se dá ao luxo de ter Alexandra Maria Lara em uma ponta – ela aparece, praticamente, apenas para morrer. Nadja Uhl, Hannah Herzsprung e Katharina Wackernagel também não aparecem muito – ainda que mais que Maria Lara. E as estrelas do filme… Martina Gedeck e Johanna Wokalek dão um show e mostram porque são dois dos nomes centrais do cinema alemão atualmente.

Do lado masculino, além do já citado Moritz Bleibtreu, o veterano Bruno Ganz em um papel secundário, assim como Stipe Erceg (de Edukators), o inspirado Vinzenz Kiefer, Tom Schilling (que interpretou Adolf Hitler no ainda inédito Mein Kampf), e os competentes Sebastian Blomberg, Hans Werner Meyer e Simon Licht. Ainda que o filme seja mais feminino que masculino – basta perceber o tempo em que cada personagem ganha de destaque na história.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Dei a nota acima para o filme mais pela qualidade técnica e pelas interpretações do elenco do que pelo roteiro – que, insisto em afirmar, simplificou demais a história do grupo. Certo que seria impossível contextualizar o que aconteceu de principal nas conturbadas décadas de 60 e 70, mas acho que um pouco mais de cuidado em mostrar a base do discurso do grupo não faria mal para ninguém. Certo que ninguém, atualmente, quer saber das motivações dos extremistas e/ou terroristas – ainda que, para mim e para o personagem de Bruno Ganz na história, essa compreensão deveria ser vista como fundamental. Uma coisa são os loucos que dão tiros nos outros motivados por uma frustração mal resolvida internamente – e que usam a desculpa da “manipulação da mídia” para ter idéias de assassinato -, outra bem diferente são os grupos que partem para a violência depois de serem motivados por causas políticas. A estes últimos é preciso, penso eu, dar atenção e agir com parcimônia e autocrítica.

Um dos principais erros da Alemanha, assim como de tantos outros países naqueles anos de “caça aos comunistas”, foi o de silenciar por meio de tiros as pessoas que eram contrárias a suas políticas. Um Estado policial não existiu apenas na Alemanha, naqueles anos. E algo que me incomodou nesta história foi mostrar o governo alemão, normalmente, como “bonzinho”, como vítima de um grupo de “porraloucas” – como, muitas vezes, é retratada a RAF. Ou alguém vai me dizer que o governo alemão não torturava e prendia pessoas que eram contra suas políticas, como ocorria no Brasil? Duvido muito que 25% dos alemães chegaram a apoiar a RAF por pura demagogia ou “insanidade coletiva”, como havia ocorrido anteriormente com o regime nazista. Sempre acho que é preciso olhar para quadros como este com maior atenção, para saber o que faz com que tanta gente apoie algo que, inicialmente, é absurdo.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Achei interessante esta entrevista com Stefan Aust que compara o Outono Alemão, em 1977 – período em que foi sequestado o empresário Schleyer, o avião da Lufthansa e quando alguns dos líderes da RAF cometeram suicídio na prisão -, com o 11 de setembro dos Estados Unidos – fazendo referência ao impacto que os fatos tiveram para a memória dos alemães e dos norte-americanos. Ele diz ainda que muita gente, atualmente, na Alemanha, ainda trata a RAF como um grupo de “heróis revolucionários”. E que a intenção de seu livro e do filme é a de trazer “o grupo de volta para a terra. Fazer deles humanos e mostrar o que eles realmente fizeram. Porque terrorismo é terrorismo e as pessoas às vezes esquecem-se disso”. Certo. Agora entendi, ainda mais, porque Der Baader Meinhof Komplex chegou entre os finalistas ao Oscar 2009 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Ainda que ele fosse violento demais para ganhar a estatueta, ele chegou até lá por deixar claro essa mensagem de combate aos terroristas, tão importante nos dias atuais.

Aproveitando que estou falando em prêmios… Der Baader Meinhof Komplex ganhou dois prêmios e foi indicado a outros seis em sua trajetória até o momento. Os únicos que ele venceu foram secundários… o de melhor produção para Bernd Eichinger no Bavarian Film Awards e o Bronze Frog para Rainer Klausmann no Camerimage. Nada significativo, para resumir.

Os usuários do site IMDb conferiram a nota 7,4 para o filme – um bocado generosa, para os padrões do site. Enquanto isso, os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram 17 análises positivas e cinco negativas para a produção – o que lhe garantiu uma aprovação de 77%.

Mesmo não sendo muito justo com a história, o filme parece acertar em alguns pontos. Como mostrando que os terroristas da RAF atacavam, essencialmente, alvos estratégicos – exceto na fase final, quando começaram a visar inclusive alvos civis. Por isso, talvez, irritavam tanto o governo alemão, que perdeu alguns nomes importantes da época. Também acerta ao mostrar um certo despreparo – ou seria conivência – do governo em enfrentar os terroristas, facilitando, ao que tudo indica, as suas mortes na prisão. Dez anos depois do final do grupo – que terminou, oficialmente, em 1998 -, o filme foi lançado e, com ele, reapareceram uma série de dúvidas e perguntas na sociedade alemã sobre aqueles anos em que a RAF esteve atuante. Reportagens como esta lançam dúvidas sobre erros do serviço secreto e da Justiça alemães – como a acultação de informações para que inocentes fossem condenados e para que culpados ganhassem indultos.

Um detalhe: este é um filme produzido pela Alemanha, França e República Checa.

CONCLUSÃO: Uma superprodução do cinema alemão que tenta contar, em pouco menos de duas horas e meia, dez anos de atividade do grupo RAF, responsável por 34 mortes em 28 anos de existência. Sem contextualizar a história do grupo de esquerdistas que acaba se transformando em “terroristas” na visão do governo alemão, o filme perde em legitimidade. Mas, mais que isso, ele abre mão de contar em detalhes sobre a vida de alguns dos envolvidos, incluindo os integrantes da RAF e, principalmente, de suas vítimas. No fim das contas, somos apresentados a um recorte superficial da vida dos líderes do movimento e a praticamente informação alguma de seus alvos. Tecnicamente bem feito e com um elenco feminino de primeira grandeza, é o típico filme que se perde em um roteiro fraco e relapso.

SUGESTÕES DE LEITORES: Der Baader Meinhof Komplex acabou entrando na minha lista de filmes alemães para serem assistidos depois que este país foi escolhido pelos leitores do blog para uma série de críticas no site. Mas, devo comentar, que eu estava de olho nele desde o final de 2008 – afinal, eu vinha acompanhando a “polêmica” que a produção estava levantando na Alemanha. E minha curiosidade aumentou ainda mais quando ele foi pré-selecionado para o Oscar deste ano – ainda que eu já soubesse que ele praticamente não tinha chances de ganhar a estatueta. Foi bom ter assistido ao filme, ainda que ele tenha ficado muito abaixo do que eu esperava. Não gosto de filmes que procuram ser sérios demais e que não conseguem chegar nem perto de contar uma história legítima.

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Okuribito – Departures – A Partida

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A maioria dos apostadores do Oscar 2009 errou na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Poucos acertaram a vitória de Okuribito, representante do Japão na disputa. Mas ao assistí-lo, esta noite, percebi as razões que fizeram os votantes da Academia escolherem esta produção no lugar de outras que eram consideradas favoritas. Okuribito é um filme lindíssimo, um dos mais bonitos – se não, o mais – que eu já assisti sobre o tema da morte. Sem contar o restante do temário do filme, como a quebra de preconceitos, a mudança de rumos que uma pessoa pode ter na vida e, o principal, o amor que acaba sendo maior que tudo, maior que mágoas, que abandonos ou diferenças de opiniões. Belíssimo, no melhor estilo do cinema japonês, que preza pelos gestos, expressões, detalhes e o silêncio – um prêmio para as pessoas cansadas da verborragia de outras produções.

A HISTÓRIA: Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki) vive com a mulher Mika (Ryoko Hirosue) em Tóquio. Ele saiu de uma pequena cidade no interior do Japão para buscar o seu sonho de ser um violoncelista em uma orquestra na cidade grande. Endividado por seu sonho, ele decide voltar atrás quando a orquestra da qual ele faz parte é dissolvida. Mika aceita a idéia sem pestanejar, e eles voltam a morar em Yamagata, onde o casal não precisa pagar aluguel porque Daigo herdou uma casa da mãe, morta dois anos antes. Procurando trabalho, ele encontra uma oportunidade incrível em um jornal, sem saber que será aceito em um emprego considerado tabu na sociedade local.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Okuribito): Como tantos outros filmes que nos “ensinam” histórias edificantes, Okuribito começa com uma importante reviravolta na vida do protagonista. Afinal, nunca é fácil aceitar que aquele “sonho” que se tinha quando alguém era criança, na prática, se tornou inviável. Ou, como o próprio Daigo admite logo no início, que talvez seu talento não chegue tão longe quanto ele – e outras pessoas, como a imponente ainda que ausente figura paterna – gostariam. Então ele se desfaz do violoncelo que lhe tirava o sono – poucas coisas podem deixar um japonês mais inquieto do que uma dívida – e, de quebra, de um sonho de vida que ele não sabe muito bem se era seu ou do pai que lhe abandonou criança. Mas este primeiro corte na vida do personagem é apenas o estopim de partida de Okuribito. O que vem depois é muito, mas muito mais interessante.

Os japoneses, para quem não sabe muito sobre sua cultura e seu “modo de vida”, prezam muito a questão da honra e da família, o respeito pelos mortos e a idéia de que a morte é apenas uma “partida”, ou seja, a saída desta vida para outra mais plena – os orientais acreditam que a morte seja apenas um renascimento. Neste link do blog Micropolis vocês podem encontrar um texto curioso sobre celebrações para os mortos e outros detalhes sobre como o assunto é tratado nas culturas orientais. Sabendo de tudo isso, é fácil entender o repúdio que muitos japoneses sentem com as pessoas que “lucram” com a morte dos outros ou, pior, tratam os entes queridos das pessoas quando mortos como se fossem apenas um “objeto” que precisa ser colocado em um caixão. E um homem sensível, um músico como Daigo, se surpreende sendo contratado justamente para executar rituais de “passagem”, ou seja, de preparação dos mortos para que eles sejam cremados – no Japão as pessoas não são mais sepultadas.

Daigo se sente envergonhado de trabalhar em algo assim – porque sabe que esta profissão é mal vista por sua sociedade. Mas ele não abandona seu trabalho, inicialmente, pela bela remuneração que começa a receber – e com pagamentos diários. Como sempre, serviços que a maioria das pessoas não quer fazer, seja na sociedade ocidental ou oriental, são muito bem pagos. Assim sendo, Daigo fica no trabalho, mas escondendo o que ele realmente faz da esposa, Mika – que, como toda mulher oriental, “não se mete demais” na vida do marido, sabendo o momento de perguntar e o de ficar calada (muito diferente de nós, mulheres ocidentais). Aliás, Okuribito é um filme bem bacana também para mostrar como são as relações na sociedade japonesa, tanto na questão de “castas sociais” como na das relações pessoais, entre indivíduos de uma mesma família ou nos ambientes de trabalho.

Mas voltando a história de Daigo… como acontece com quase todos os preconceitos que existem em uma sociedade, ele também sente ojeriza, inicialmente, ao trabalho que acabou assumindo por necessidade. Mas, pouco a pouco, ao ver a poesia que existe e, principalmente, o respeito e o amor que representam os gestos do seu chefe e mentor, Ikuei Sasaki (o ótimo Tsutomu Yamazaki), em todas as cerimônias de preparação dos mortos na frente de seus familiares, Daigo perde suas idéias preconcebidas e deixa o preconceito de lado. De forma ainda mais especial quando ele assume o posto de Ikuei naquele trabalho. É verdadeiramente emocionante as cenas das preparações e o desempenho dos atores neste processo.

Mas além da quebra de preconceitos, Okuribito trata do tema do respeito e do amor que todas as pessoas sentem em relação ao seus entes queridos que um dia, inevitavelmente, irão morrer. O processo da partida é doloroso, não importa o quanto preparadas ou “resolvidas” estejam as pessoas que ficam vivas e acompanham a cerimônia de despedida de quem está partindo. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Okuribito, indiretamente, também trata das entranhas de diferentes famílias e suas formas de enfrentar a morte de um ente querido, como quando ocorre a inesperada perda da batalhadora e simpática Tsuyako Yamashita (Kazuko Yoshiyuki), a proprietária da casa de banhos frequentando há décadas pelas famílias da pequena cidade. Até a véspera de sua morte, Tsuyako defendia com unhas e dentes o seu negócio, resistindo aos apelos do filho (o ótimo Tetta Sugimoto) em vender a casa de banhos.

Super emocionante a “ponta” do ator Takashi Sasano como Shokichi Hirata, um dos mais fiéis e simples clientes de Tsuyako que nos dá uma grande lição no final do filme. E falando em papéis “secundários”, merece uma menção toda especial a atriz Kimiko Yo, que interpreta Yuriko Kamimura, a secretária de Ikuei e sua fiel amiga (e admiradora) há muitos anos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando Daigo descobre que seu pai (Tôru Minegishi) morreu e reluta em viajar para se “despedir” dele, Yuriko nos dá outra grande lição sobre amor, afeto e as barreiras que o orgulho (e a vergonha) podem formar para separar durante uma vida – pelo menos a terrestre – as pessoas que se amam. Lindo. Bem, acho que sou suspeita para falar, mas achei este filme uma verdadeira obra de arte, belíssimo, delicado e inspirado.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Volta e meia, nos textos aqui do blog, eu destaco as trilhas sonoras e as direções de fotografia dos filmes. Mas poucas vezes eu achei tão digna de menção e de aplausos uma trilha sonora de uma produção cinematográfica quanto desta vez, com Okuribito. Achei verdadeiramente impecável o trabalho de Joe Hisaishi – digo isso para os que não tem coceira ao ouvir música clássica, é claro. Também bastante competente o diretor de fotografia Takeshi Hamada, que nos brinda com cenas belíssimas, tanto exteriores quanto interiores, em diferentes residências japonesas.

O filme, no geral, é bastante bem acabado e cuidadoso nos detalhes. Desde o trabalho de maquiagem dirigida por Iaso Tsuge até o design de produção de Fumio Ogawa. O diretor Yôjirô Takita, que fez um discurso bastante engraçado no Oscar – ele estava visivelmente bastante surpreso em ganhar o prêmio -, fez o seu trabalho com primazia, orquestrando o trabalho dos outros profissionais competentes que ele conseguiu reunir, junto com os produtores, para o projeto. E claro, merece grande parte do crédito deste filme o roteirista, Kundo Koyama – que escreveu uma história e alguns diálogos perfeitos.

Não sei, realmente, se todas as pessoas que assistirem ao filme ficarão tão tocadas por ele quanto eu fiquei. Mas sou suspeita para falar, porque eu sempre fui apaixonada por música, especialmente por violinos e violoncelos, assim como pela cultura japonesa e pelo tema da separação que a morte provoca entre as pessoas que se amam. Então, já viram… juntando tudo isso, não tinha como eu não adorar ao filme.

Okuribito, como dito anteriormente, ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2009, deixando para trás favoritos como Vals Im Bashir e Entre Les Murs. Mas além do maior prêmio da indústria cinematográfica ocidental, este filme levou outros 27 para casa, incluindo 10 conferidos pela Academia de Artes Cinematográficas japonesa – prêmio que seria o equivalente ao Oscar no Japão -, entre eles, o de melhor filme, diretor, roteiro, ator, ator e atriz coadjuvantes. Fora das terras orientais, Okuribito foi agraciado ainda com dois Prêmios da Audiência: como melhor narrativa no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs e como melhor produção no Festival Internacional de Cinema do Hawaii. Ele levou, ainda, fora do Japão, o Grande Prêmio das Américas no Festival Internacional de Montreal. Sem contar outras três indicações a prêmios para os quais acabou perdendo. Nada mal, hein? E muito justo, eu diria.

Os usuários do IMDb conferiram a nota 8,4 para o filme – a maior entre os concorrentes ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2009. O site Rotten Tomatoes, que abriga críticas de diversos veículos de comunicação, têm dois textos positivos e um negativo para a produção. Um dos textos que elogiam a produção é do crítico Eddie Cockrell, da Variety, que destaca a estréia do roteirista televisivo Kundo Koyama no cinema elogiando seu texto detalhista na descrição de personagens.

Okuribito conseguiu uma bilheteria respeitável no Japão: arrecadou, até março deste ano, pouco mais de US$ 53,5 milhões. No Brasil, o filme está previsto para estreiar agora, dia 24 de abril – antes que na França, na Argentina, na Holanda e em outros países.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não comentei antes, por puro esquecimento, mas além de todas as temáticas anteriormente citadas, Okuribito ainda aborda um assunto importante na cultura japonesa e na ocidental: a nossa capacidade de perdoar. Achei, neste aspecto, um filme especialmente belo, ao mostrar como Daigo acaba sendo confrontado com a figura paterna desaparecida e, ao perdoá-lo, consegue fazer as pazes consigo mesmo e com seu passado, entendendo de forma muito mais ampla e completa a sua trajetória e a de seus pais, seus sonhos, expectativas e frustrações. Não adianta. Por mais que nademos algumas vezes contra a corrente, mas nada é mais importante do que estarmos em paz conosco e com nossos pais e antepassados. Só assim, acredito, é possível realmente caminhar com segurança e com perspectivas de futuro.

CONCLUSÃO: Um filme bem lapidado sobre as reviravoltas que a vida e a morte podem dar nos rumos das pessoas. No melhor estilo do cinema japonês – ou de parte dele, pelo menos -, Okuribito coloca em primeiro plano a importância do silêncio e da contemplação, da vivência do amor e de demais sentimentos importantes sem a expressão ou manifestação escancarada deles. Bem dirigido e com um roteiro elaborado, atores afinados e uma trilha sonora de arrepiar, é um filme vencedor de diferentes prêmios mundo afora, incluindo o último Oscar de filme estrangeiro. Com um roteiro bastante complexo e amplo, esta produção trata de maneira genérica e, ao mesmo tempo particular, aspectos que definem a cultura japonesa. Entre eles, a importância que eles dão para as relações familiares e para a morte de entes queridos, assim como para o trabalho e suas noções de fracasso, sucesso e de comunidade. Poético, com uma fotografia cuidadosa e inspirada e uns atores de tirar o chapéu, é um destes filmes mais que recomendados.

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The Duchess – A Duquesa

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Filmes de época, normalmente, são bacanas. Porque sinalizam um grande investimento – de recurso e de talentos – em reconstruir um tempo que ficou no passado e porque, claro, revelam uma parte da história que nos trouxe até aqui. Sempre acho curioso ver como “vivíamos” tempos atrás – sejam séculos ou décadas. Então, em teoria, filmes assim me agradam – ainda que, admito, eu não sofra de nenhuma fixação que me faça correr atrás de cada título do gênero. Mas acho bacana, no geral. Só que talvez por ter assistido a tantos filmes considerados “de época” até hoje eu, atualmente, exija algo mais. Um pouco mais de qualidade ou de criatividade, pelo menos. E sei lá, acho que ainda tenho na lembrança o comentado por aqui The Other Boleyn Girl… Só sei que assisti a este The Duchess e gostei, certo… mas não cai de amores pelo filme de jeito maneira.

A HISTÓRIA: O Duque de Devonshire (Ralph Fiennes) está buscando uma jovem mulher para lhe dar um herdeiro. Visitando Lady Spencer (Charlotte Rampling) ele se decide pela filha da aristocrata, Georgiana (Keira Knightley). A garota fica empolgada, ainda que, pouco antes, estivesse em um de seus jogos com conotação um tanto amorosa com Charles Grey (Dominic Cooper) e demais integrantes da aristocracia inglesa. Transformada em Duquesa, Georgiana percebe que o marido é rude e nada interessado nela ou nas filhas que o casa vai tendo. Afinal, o “contrato matrimonial” deles previa um garoto, um herdeiro. Para complicar a situação, a Duquesa convida para sua casa Bess Foster (Hayley Atwell), uma aristocrata que foi abandonada pelo marido e que acaba se tornando amiga de Georgiana em uma festa. 

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Duchess): Toda vez que um filme começa com “baseado em uma história real” eu fico com o pezinho atrás. Sei lá… para mim isso é uma senha dos produtores para tentar emocionar as pessoas mais do que o necessário logo de cara. Afinal, cada acontecimento “terrível” que aconteça acaba se tornando muito mais forte porque “realmente aconteceu”. Isso é bem relativo, porque sabemos que a maioria dos filmes “baseados em histórias reais” mudam um pouco essa tal de história real. Então prefiro as produções que não falam isso logo no início, mas no final, por exemplo, como é o caso de Into the Wild.

Então The Duchess começa com essa informação, de que é um filme “baseado em uma história real”. Certo. A partir daí, mergulhamos em parte dos bastidores da vida da aristocracia inglesa do século XVIII, incluindo políticos que circulam ao redor do Duque de Devonshire (neste link existe uma história desta rama familiar). A história é meio óbvia (pelo menos para quem já assistiu a alguns filmes do gênero): existe os interesses dos monarcas e a subjugação das mulheres – ou, em outras palavras, uma diferença brutal entre os direitos de uns e outros; a necessidade proeminente da realeza em continuar com o nome de sua família ou, para resumir, a obrigação da mulher em gerar um filho homem; disputas pelo poder, frieza no trato humano, e demais efeitos que são gerados por estes elementos. Ah, claro que existem traições do monarca e um amor impossível e verdadeiro em jogo. Enfim, aquelas história que estamos tão acostumados a ver.

Para ser franca, o único “acerto”, por assim, dizer, do roteiro de Jeffrey Hatcher, Anders Thomas Jensen e do diretor Saul Dibb foi mostrar um pouco da vida fora da côrte. Acabamos por assistir, ainda que como pano-de-fundo da história, a idolatria do povo daquele época para com os monarcas – seria uma prévia da atual fascinação das pessoas por estrelas de Hollywood, “heróis” dos esportes e celebridades em geral? – e, o que foi mais interessante, parte da criação teatral e dos bastidores políticos da época. Pena que estes três elementos, fascínio do povão pela monarquia, esforço criativo dos autores teatrais e os laços que uniam políticos e monarcas seja tratado de forma tão ligeira pelo filme. Para mim, estes pontos poderiam ter feito da produção algo melhor. Mas enfim…

Vale citar que os três roteiristas se basearam na obra “Georgina, Duchess of Devonshire”, escrita por Amanda Foreman. Aliás, achei curiosa a polêmica que esta autora causou na Inglaterra. Segundo este texto no blog Recanto das Palavras, ela teria posado nua, tampando suas partes “íntimas” com exemplares do livro de Georgina, como uma forma de autopromoção que foi condenada por colegas biógrafos. Vendo a foto, eu diria que o gesto dela foi, no mínimo, ridículo – e despropositado, vamos! Afinal, não seria mais fácil ela posar diretamente para a Playboy? Não precisaria, para isto, ter feito um doutorado ou ter pesquisado para escrever um livro. 🙂

Ainda que eu tenha achado o filme fraquinho, ele é muito bem feito, claro. Tem uma direção de fotografia, figurinos e direção de arte impecáveis. Como 99,9% dos filmes de época, convenhamos. 😉 Ainda assim, vale citar o trabalho do húngaro Gyula Pados na fotografia, de Michael O’Connor nos figurinos e de Karen Wakefield na direção de arte. O’Connor, aliás, ganhou merecidamente o Oscar deste ano por seu trabalho. Ainda assim, de todos os elementos técnicos, o que eu acho que verdadeiramente se  vê em evidência por sua qualidade (além dos figurinos) é a trilha sonora, assinada por Rachel Portman. Achei ela belíssima, além de um elemento importantíssimo para a história – como deve ser uma trilha sonora. Grande trabalho de Portman.

No mais, os atores estão bem. Keira Knightley é (e está) belíssima. E dá conta do recado, com bastante coerência. Ralph Fiennes, Charlotte Rampling e Dominic Cooper também fazem seus papéis de forma ajustada. Para mim, se destacou mais que eles – em um empate com Keira Knightley – a atriz Hayley Atwell. As duas chegam um passo à frente de seus colegas de cena, ainda que ninguém faça nada excepcional. Ouvi em alguma parte burburinhos de pessoas que acreditavam que Ralph Fiennes merecia uma indicação ao Oscar pelo seu desempenho como o Duque deste filme. Não acho. Ele está bem, mas não para receber um prêmio – e nem ser indicado ao Oscar.

Sobre a história, convenhamos que era mais que previsível que Georgina se casasse com um duque nada amoroso, mais chegado em ser bacana com as amantes do que ela – afinal, ela era sua mulher, feita para procriar e não para ter ou dar prazer – e mais afetuoso com os cães do que com pessoas. Neste cenário, até que ela soube se fazer bastante presente, em uma época em que a mulher não tinha voz e nem voto. Em tempos modernos, ela seria o que muitos chamam de uma “mulher à frente do seu tempo”. Quer dizer, até certa medida. Porque ela leva para casa uma mulher que certamente viraria amante do marido – e, por mais que o filme sugira o contrário, tenho minhas dúvidas se ela não fez isso propositalmente para ser menos “procurada” na cama pelo duque. Então, honestamente, não sei até que ponto ela realmente gostava do amante e queria viver uma vida alternativa com ele. Talvez a Duquesa soubesse de seu poder e gostasse dos seus seguidores mais do que de uma liberdade idealizada. 

E antes que me esqueça de falar sobre isso (mais uma vez, porque esta é a segunda atualização do texto): achei especialmente emblemática a cena em que o Duque olha para os filhos, brincando no jardim do palácio da família, e comenta de como seria bom ter aquela liberdade. Para mim, essa cena quer dizer muita coisa. Imagino que ele pensou o mesmo de Georgina, quando a viu pela janela “brincando” com damas e cavalheiros da nobreza, e sentiu um bocado de inveja daquilo. Na impossibilidade de viver algo assim, ele quis ter parte daquilo para ele – uma juventude que ele não tinha mais. E, de quebra, ele cuidou de terminar com a liberdade e aquele prazer de jogar que a esposa tinha até então. Egoísta e ridículo, ainda que igualmente vítima de um sistema de castas e de poder absurdo e que não deveria existir em tempos modernos – mas que ainda é preservado em locais como Espanha e Inglaterra, onde perdura a monarquia.

NOTA: 6,5. 

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como acontece com muitos filmes de época, especialmente sobre a nobreza, os personagens em tela aparecem um bocado “suavizados”. Afinal, aparentemente, “vende mais” ou dá melhor ibope as boas e velhas histórias de amor do que uma produção que tente tocar um pouco mais fundo nos bastidores da nobreza. No caso de Georgina, por exemplo, existe uma teoria de que ela seria bem mais “liberal” do que a imagem que aparece no filme. Envolvida com artistas e políticos – influente por isso e por seu estilo, que verdadeiramente inspirava as mulheres na época -, ela foi tema de muitos pintores e desenhistas da época. Um deles, Thomas Rowlandson, segundo este artigo da Wikipedia, teria desenhado uma sátira da Duquesa em que ela trocava beijos por votos nas eleições de 1784, com a finalidade de eleger Charles James Fox – que viria a se seu amante. Possivelmente ela fosse mais classuda e, ao mesmo tempo, mais “libertina” do que a imagem que o diretor Saul Dibb nos apresenta em The Duchess.

O diretor, aliás, é um bocado “novato”. The Duchess é o seu segundo filme nos cinemas. Ele dirigiu em 2004 a Bullet Boy, um drama inglês sobre a bandidagem na Londres moderna. Além de Bullet Boy, ele se envolveu, até agora, em dois projetos para a TV. Nada mais. 

Até agora, a produção ganhou quatro prêmios – incluindo o Oscar mencionado para o figurino – e recebeu outras 14 indicações. Todos os prêmios que recebeu, sem exceção, foram para o trabalho de Michael O’Connor. 

Os usuários do site IMDb foram um pouco mais generosos do que eu com o filme… lhe dedicaram a nota 7. Os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes, por sua vez, publicaram 92 críticas positivas e 62 negativas para a produção, o que lhe garantiu 60% de aprovação. Totalmente sem querer, mas acabei ficando no meio termo entre público e crítica. hehehehehehehehe. Pior que, logo que terminei de ver o filme, veio a nota 7 ou 6,5 na minha cabeça, mas preferi a segunda ao relembrar a avaliação que eu tinha feito de The Other Boleyn Girl. Não tenho dúvidas que gostei mais daquele filme do que deste – assim como apreciei mais o trabalho de Natalie Portman do que de Keira Knightley, ainda que a segunda tenha uma presença muito maior em termos de “realeza” e, quem sabe, de beleza mesmo. Mas o que me interessa é o talento.

The Duchess é uma co-produção entre Inglaterra, Itália e França.

Mas para não dizer que o filme é completamente previsível, admito que me surpreendi um pouco com a reação do Duque lá pelas tantas. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Afinal, não era todo nobre da época que admitia uma traição. Acredito que o mais previsível seria esperar que ele matasse o oponente ou a mulher, para ficar com a amante, mas não… William Cavendish até aceita que Georgiana tenha uma filha bastarda do amante. Incrível, eu diria. Mais um sinal de que a mulher deveria ser muito porreta naquela época – para ter tanta moral de se manter viva mesmo com essa “pisada na bola”. No fundo, acho que ela deveria merecer uma interpretação menos calcada na beleza e mais na perspicácia – quem sabe uma Cate Blanchett ou outra atriz desta envergadura?

E não sei se toda a mulher teria a resposta certeira que teve Georgiana. Não sou mãe ainda, admito que isso possa afetar meu julgamento… mas será mesmo que eu preferiria abrir mão do amor da minha vida para ficar em uma história infeliz por causa de meus três filhos? Provavelmente sim, mas não sei… é um preço bem alto para se pagar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Também achei a “química” entre Knightley e Atwell forte desde a primeira vez que elas se encontram. Até aquela cena no quarto. Daí pensei: “Uau, vamos partir para algo novo! Uma relação bissexual durante a inglaterra de três séculos atrás…”. Mas que nada! Foi apenas uma sugestão besta no meio do filme. Que pena. 😉

Agora, fiquei especialmente indignada ao pesquisar um trailer do filme para colocar aqui no blog quando encontrei uma versão de trailer que foi veiculada na Inglaterra para promover o filme. Neste trailer – que me recusei a linkar por aqui, é claro -, os produtores comparam a “heroína” de The Duchess com a Lady Di… ah, me poupem, vai!!! A que ponto chegamos…

CONCLUSÃO: Um filme bem acabado sobre a aristocracia inglesa do século XVIII. Como praticamente todos os filmes do gênero, ele apresenta uma fotografia, um figurino, uma direção de arte e uma trilha sonora perfeitos e primorosos, mas sofre com pouca inventividade. Deixa de ousar, como muitos filmes sobre aquele cenário, apresentando a mesma história de subjugação feminina, abusos de poder, traições e jogos de interesses. Poderia ter se aprofundado mais em outros aspectos da história da duquesa, como seu envolvimento com a jogatina, os artistas e os políticos da época. Resumindo, é bem feito, tem atuações convincentes, mas deixa a desejar no roteiro e em uma exploração mais aprofundada dos personagens. Deve cair bem no gosto dos fãs dos atores e atrizes.