Charlie Bartlett – Charlie, Um Grande Garoto


 

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Os filmes sobre os colegiais norte-americanos cansam. Normalmente, basta você ver dois deles para ter “visto todos”. Apenas com algumas exceções a regra de histórias e “universo” repetido se quebra. Do contrário, as histórias sempre giram em tornos de grupos rivais muito bem estabelecidos – normalmente os “jogadores de futebol” versus os “nerds”, mais “garotas gostosas” versus “garotas estranhas”, e por aí vai – e de uma mesma “busca” dos garotos e garotas por festas, liberdade e sexo. Certo. Mas para a alegria dos que gostam de cinema, volta e meia, aparece um filme que tira sarro de tudo isso… este é o caso de Charlie Bartlett. Ainda que ele faça isso, contudo, não se trata de um daqueles filmes escatológicos e com cara de “vamos nos portar como colegiais e sacanear os filmes alheios” (como é o caso da grife Scary Movie ou de Superhero Movie). Não. Charlie Bartlett é um filme “sério” que brinca com estereótipos na mesma medida em que promulga mensagens para a garotada.

A HISTÓRIA: Charlie Bartlett (Anton Yelchin) escuta mais uma conversa da mãe, Marilyn (Hope Davis) com o diretor de sua escola. E, mais uma vez, ele constata que foi expulso do local justamente na época em que ele começava a conseguir o que mais queria: popularidade. Marilyn, se sentindo um bocado perdida e culpada pelo desempenho do filho, resolve colocá-lo em uma escola pública – até porque não resta nenhuma particular para ele se matricular (ele foi expulso de todas). Desta maneira ele deixa a bolha de vidro em que vivia, estudando e convivendo com pessoas de alta classe como ele, para sentir um pouco da “realidade” de jovens que estudam em colégios públicos. Ali ele encontra um celeiro de histórias diferentes que lhe fazem virar o psicólogo da garotada – em mais uma busca por popularidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto a seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler esta parte quem já assistiu a Charlie Bartlett): Este filme é daqueles para “chocar” pais e mães. Afinal, eles pensam que estão dando autorização para seus jovens filhos para assistir a “mais um” filme destes juvenis e, quando se dão conta, percebem que deixaram o povo assistir a história de um garoto capaz de quase tudo para se tornar popular. Ele falsifica carteiras de motorista para os colegas, receita remédios de “tarja preta”, ou seja, de uso bastante controlado, para os adolescentes em crise, entre outras “coisitas”. Lendo assim, parece até absurdo. O cara é um “contraventor” (como gostam de falar os policiais). Mas o que se vê na superfície é apenas isso, a superfície. 

Charlie Bartlett, o filme, consegue captar o que para mim é uma das essências da juventude: a constatação de que estamos perdidos. No sentido de que, nesta época da vida, as certezas da infância caem por terra e as pessoas começam a perceber a complexidade do mundo e da vida. Ainda que depois, na fase adulta, muitos esqueçam todo esse “choque” de realidade e voltem a aceitar uma vida de certezas e conformidade, mas digamos que a adolescência é a fase decisiva do início (e pode ser fim) dos conflitos internos.

E Charlie Bartlett (o personagem) percebe isso muito cedo, quando se confronta com as realidades bem diferentes de um colégio público – acredito que na vida das escolas particulares a conduta das pessoas seja tão mais “uniformizada” quanto as suas roupas, no geral. E resolve, em busca de sua tão sonhada popularidade (a cena inicial, em que ele é aclamado em um palco como em um concerto de rock, é genial e resume bastante o desejo deste e de muitos jovens), agir.

Com a facilidade de quem é herdeiro de uma família rica e que tem uma história complicada na bagagem, ele recorre ao seu psicólogo particular – e a vários outros – para conseguir um arsenal de medicamentos para quase todos os tipos de doenças psicológicas. Mas antes, é claro, ele se afunda em livros de psicologia e se arma de argumentos para lidar com personagens como o valentão Murphey Bivens (Tyler Hilton), que lhe recepcionou no colégio com pancadaria. A cena em que Charlie “rapta” o valentão com a ajuda do amigo “retardado” (ou usando o termo politicamente correto, deficiente mental) Len Arbuckle (Dylan Taylor) é exemplar sobre a perspicácia do garoto. No melhor estilo “se você não pode vencê-los, junte-se a eles”, Charlie traz para o seu lado o valentão – e, com isso, deixa de ser seu novo saco de pancadas. De quebra, ele ajuda Murphey a resolver os seus problemas. Nada mal.

Fora a questão de Charlie ser realmente um “criminoso”, por vender remédios que ele não poderia e de “exercer a profissão” (entre aspas, realmente) de psicólogo/psiquiatra sem ter credenciais para isso, o garoto mostra a inteligência de quem pode se tornar, no futuro, um Bill Gates da vida. Explico: como poucos (poucos mesmo!) ele percebe oportunidades de negócio em praticamente todos os lugares à sua volta. Isso não é fácil. Esse talento, acredito, poucos tem. Mas Charlie é assim. Do problema psicológico do depressivo Kip Crombwell (Mark Rendall) ele vê um filão de negócios: o tratamento dos seus jovens colegas em um consultório-banheiro do colégio. Depois, quando uma nova crise de Kip faz Charlie repensar a venda dos remédios, ele encontra na peça escrita pelo colega uma oportunidade de valorizar o talento de pessoas como Murphey e Susan Gardner (Kat Dennings), filha do diretor Nathan (Robert Downey Jr.), com quem ele namora. E, de quebra, claro, “limpar” a sua barra. Genial esse garoto!

Toda a parte em que Charlie encarna um psicólogo/psiquiatra achei ótima. No WC ao lado desfilam jovens com problemas de afirmação como garotas que não sabem se colocam silicone nos seios ou não; problemas de aceitação – normalmente envolvendo os pais ou os colegas; dúvidas sobre a própria sexualidade, sobre escolhas futuras, etcétera, etcétera. Em poucos minutos vemos uma lista de alguns dos principais questionamentos dos adolescentes – e de muitos adultos – passarem pela telona. E este é apenas um dos méritos do ótimo roteiro de Gustin Nash.

Outro ponto que me chamou a atenção é a constante “queda-de-braço” entre o diretor da escola, Nathan Gardner, e o jovem e recém-incorporado aluno Charlie Bartlett. Entram em jogo não apenas a questão da autoafirmação de um e de outro – ambos buscam o respeito alheio ou, em algumas situações, serem “populares” -, mas também a “disputa” pela encantadora Susan, que é filha de um e namorada do outro. Freud explicaria estas questões. E eu acrescentaria algo: o curioso do filme é que ele mostra como Nathan e Charlie são mais parecidos do que o primeiro gostaria de admitir. Afinal, ambos agem como adolescentes, em muitos momentos – e não apenas agem, mas pensam como tal.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A diferença se percebe no final do filme, quando Nathan responde para Charlie o que é mais importante do que “ser popular”: “é o que você faz com essa popularidade”. Boa. Com essa resposta, Nathan também revela o que ele deixou escapar… afinal, como professor, ele era popular. Mas ao assumir uma posição ascendente, de maior responsabilidade, ele perdeu a “mão” e o respeito dos alunos. Aprendeu que não bastava ser popular – e que essa “posição” pode ser perdida muito facilmente. O importante era realmente fazer o certo na hora devida. E muitas vezes, afinal de contas, a popularidade não tem nada a ver com o mérito.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Uma das coisas bacanas deste filme é que ele é divertido do início ao fim. Desde a cena a cena do delírio de Charlie Bartlett até a sua nova tentativa de “abraçar uma oportunidade”, transcorrem uma série de histórias e de sacadas muito boas. E sem nenhuma forçada de barra. O mérito principal é do roteirista Gustin Nash e do diretor Jon Poll. Sem contar os atores, claro. Aliás, muito, muito bons. Bastante acima da média. O protagonista, vivido por Anton Yelchin, encanta e surpreende. Gostei muito do garoto. Robert Downey Jr. comprova, mais uma vez, que voltou com tudo nos últimos anos. Está muito bem. Hope Davis, em especial, faz uma mãe incrivelmente humana, complexa e de humor variável – e sem ter uma interpretação “forçada”. Para mim, ela é um dos destaques e das boas surpresas do filme. Kat Dennings, que interpreta Susan, também está ótima, mostrando bastante carisma e um bocado de talento. No geral, todos estão muito bem. 

E falando no destaque do garoto Anton Yelchin… fiquei surpresa em saber que ele é russo. Pois sim. Nasceu na antiga Leningrado, atualmente St. Petersburgo, na Rússia. Depois de Charlie Bartlett, ele filmou nada menos que seis filmes. Pois sim, o garoto que no próximo dia 11 de março completa 20 anos andou trabalhando bastante! Primeiro, fez um papel secundário no filme You and I, do diretor Roland Joffé. Depois, interpretou Dorian Spitz, ao lado de Susan Sarandon e Eva Amurri, em Middle of Nowhere. Fez parte do elenco de um dos “curtas” que compõe o filme New York, I Love You; e ainda participou do elenco dos esperados Star Trek e Terminator Salvation. Segundo alguns rumores, teria filmado ainda Memoirs of a Teenage Amnesiac.

Falando em elenco, vale citar outros nomes “secundários”: Megan Park como Whitney Drummond, a menina que “deu” para quase todo o time de futebol americano e que é a paixão do encrenqueiro Murphey; Derek McGrath como o superintendente Sedgwick, o chefe incrédulo de Nathan Gardner; Stephen Young como o ótimo Dr. Stan Weathers, psicólogo de Charlie; Jake Epstein como Dustin Lauderbach, líder do grupo de teatro e do movimento contra as câmeras de vigilância na escola; e Jonathan Malen como Jordan Sunder, o “pau-mandado” do valentão Murphey.

Agora, algo que achei curioso: certo que o diretor Nathan Gardner não tinha mais “moral” ou respeito dos seus comandados, mas o que justificaria a falta de atitude dele com os alunos em geral? Por exemplo, o que impedia o diretor de ter uma atitude razoável de repressão contra o valentão Murphey? Medo de apanhar? Pode até ser. Mas se ele levasse na cara, como de fato levou lá pelas tantas, não seria razoável dar queixa na polícia e resolver o caso definitivamente? Não entendi porque ele realmente deixou tudo sair do controle daquela forma. Certo que a exposição da filha Susan, aluna da mesma escola, devia lhe “segurar” um bocado, mas curioso que este fato não prejudicou suas ações contra Charlie… eu diria que este é um dos poucos pontos questionáveis do roteiro – até aqui, ótimo. Também não gostei muito da parte em que Charlie diz quase choramingando “sou apenas um garoto”. Certo. Podíamos ter passado sem essa. Logo mais ele não terá essa desculpa – vide sua versão crescida, Nathan Gardner. 

O filme é recheado de frases ótimas, tanto no roteiro quanto no material que “acompanha” esta história. Desde a frase que aparece na camiseta de Charlie durante uma das consultas com o seu psicólogo (“Pessoas como você são a causa de pessoas como eu precisarem de medicação”) até a que acompanha o material de divulgação do filme (“Popularidade é um estado da mente”). Digamos assim que Charlie Bartlett é uma produção um bocado anarquista. 😉

Ah, e algo que esqueci de comentar antes: um dos conceitos bacanas do filme é o de que todos, sem exceção, tem seus problemas, seus dilemas e dúvidas. Não importa se o cara é o capitão do time de futebol americano, ou se a garota faz sucesso entre os caras, todos tem algo que não funciona em suas vidas. Esta é uma das mensagens da história. Outra é que ninguém precisa de um líder… que todos são capazes de seguirem seus caminhos por suas próprias pernas, basta acreditarem um pouco em seus potenciais. Prova disso é o que conseguem fazer Dustin e Kip. 

Algo curioso: o diretor Jon Poll, que também é produtor e editor, dirigiu apenas um filme antes de Charlie Bartlett – The Tree, de 1982, que também tem o seu roteiro. Depois de Charlie Bartlett, de 2007, ele trabalha neste ano na direção de Something Borrowed, atualmente em fase de pré-produção. Por sua vez, o roteirista de Charlie Bartlett, Gustin Nash, estreou nos cinemas com este filme. Antes, ele havia escrito parte do roteiro da série animada Da Mob. Em 2009, como Poll, ele volta a trabalhar em um novo projeto: Youth in Revolt, dirigido pelo portoriquenho Miguel Arteta, atualmente em fase de rodagem. Vale a pena conferir o que esses dois estão aprontando.

Charlie Bartlett conseguiu uma nota razoável para os padrões do site IMDb: 7,2. Por sua vez, os críticos que tem textos publicados no site Rotten Tomatoes foram menos efusivos do que eu ou do que os usuários do IMDB: eles dedicaram 67 críticas positivas e 56 negativas para o filme. Praticamente um empate técnico – o filme recebeu uma aprovação de 54%, para ser precisa. O problema principal do filme, para os críticos, é que ele trata de assuntos interessantes e começa bem, mas depois se perde. Não concordo, mas respeito a opinião deles. 🙂

Este filme não concorreu a prêmio algum, mas conseguiu uma bilheteria razoável para uma produção sem grande orçamento: quase US$ 4 milhões nos Estados Unidos. Um número que não deve ser desprezado – ainda que esteja distante anos-luz dos “blockbusters” da vida.

Gosto do Oscar e tudo o mais, mas devo ser franca: ainda bem que a premiação é hoje e que eu poderei, a partir de agora, me dedicar apenas a assistir aos filmes do país escolhido na enquete, aqueles que foram indicados pelos leitores deste blog e, claro, parte da minha “pequena listinha” de filmes menos óbvios dos que estes do Oscar. 😉

CONCLUSÃO: Um filme sobre colegiais que aposta em altas doses de psicoanálise e um bocado de anarquia. Politicamente incorreto em vários pontos, (até por isso) não deixa de ser divertido ao contar as desventuras de um adolescente que cresceu cercado de muito dinheiro e sem uma família estruturada. Ainda assim, com muita responsabilidade: tendo que cuidar da mãe e de sua carência afetiva – projetada na necessidade de se sentir popular na escola. Em pouco mais de uma hora e meia de filme entramos “fundo” nos complexos do garoto e de seus colegas adolescentes, sem que isso se transforme em algo didático ou chato. Com um bom elenco, um ótimo roteiro e uma direção competente, Charlie Bartlett é um destes filmes despretensiosos que vale a pena assistir para dar umas risadas e ver como a vida pode ser complicada ou simples, dependendo do ponto-de-vista.

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