State of Play – Intrigas de Estado


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Eu tenho um problema com filmes que abordam a investigação jornalística. Eu admito. E a razão é simples: como jornalista que acredita na função social da nossa profissão, me comove acompanhar histórias de pessoas talentosas que se arriscam para fazer a sujeira que foi jogada para baixo do tapete vir à tona. Eles cumprem, assim, uma das funções sociais possíveis – e tão pouco praticadas hoje em dia – do jornalismo. E me emociono com estas histórias mesmo quando elas não são reais, como é o caso de State of Play (aqui em espanhol). O filme estrelado por Russell Crowe, Ben Affleck e Rachel McAdams, entre outros, é baseado em uma série televisiva da BBC escrita pelo inglês Paul Abbott. Não é baseada em uma história real, como o clássico All The President’s Men, que reconstitui o magnifício trabalho de Bernstein e Woodward no Caso Watergate. Ainda assim, mesmo se tratando de uma ficção, State of Play se apresenta com uma história bastante convincente e, por todas suas qualidades, se tornou um dos meus filmes preferidos sobre o trabalho de jornalistas.

A HISTÓRIA: Um jovem corre desesperado pela noite de Washington, mas sua fuga acaba terminando em um beco escuro onde ele é assassinado. Um homem que passava de bicicleta pelo local acaba sendo atingido também, mas sobrevive. Na manhã seguinte, o jornalista Cal McAffrey (Russell Crowe) chega ao local e consegue algumas informações extra-oficiais do detetive Donald Bell (Harry Lennix). Pouco depois, o congressista Stephen Collins (Ben Affleck) é informado que a sua assistente, Sonia Baker (Maria Thayer), foi encontrada morta em uma estação de metrô. Em uma declaração que faz ao público pouco depois, em meio a uma sessão do Congresso que investiga as operações de uma empresa de segurança privada atuante nas guerras em que participa os Estados Unidos, Collins se emociona ao comunicar a morte de Sonia Baker. Essa imagem acaba repercutindo na imprensa e faz com que o congressista seja investigado por uma relação amorosa extra-conjugal. Mas seu envolvimento com Sonia Baker é apenas uma parte de uma intricada trama envolvendo interesses corporativos, Exército e políticos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a State of Play): Um grande diretor e três ótimos roteiristas. Adicione a esta receita quase perfeita um grupo de atores competentes. E voilà: você consegue um filme envolvente, intricado e redondinho. Perfeito, ouso dizer. Pois State of Play é exatamente isso.

Para começar, a direção do escocês Kevin Macdonald, responsável por, entre outras produções, a elogiada e premiada The Last King of Scotland. Com State of Play ele mostra, mais uma vez, porque é um nome respeitado e um dos grandes diretores a se ter em conta atualmente. Macdonald sabe respeitar cada momento da narrativa. Em outras palavras, valorizar a atuação dos atores, com closes e planos de câmera que destacam as atuações de sua equipe sem, contudo, tornar o filme lento. Não. Ele é, com o auxílio da editora Justine Wright – que trabalhou com ele no filme anterior -, perfeito em cada corte, garantindo velocidade ao filme mesmo quando ele se torna mais “introspectivo”.

Na mesma medida, Macdonald sabe contar uma história intricada sem torná-la chata ou lenta demais. Pelo contrário. A escolha de seus planos de câmera em cada perseguição, os cortes rápidos quando isso é necessário, cada escolha de posicionamento é planejada e executada com perfeição para servir a história. Outra pessoa que ajuda neste processo é o diretor de fotografia mexicano Rodrigo Prieto que, algumas vezes, faz escolhas arriscadas – como na sequência inicial, um tanto escura demais (em uma busca por realismo, sem dúvida). Aliás, o tom realista marca o filme.

Os outros grandes responsáveis pela qualidade de State of Play são os roteiristas que adaptaram para o cinema o texto original de Paul Abbott. São eles: Billy Ray, Matthew Michael Carnahan e o premiado Tony Gilroy. Para resumir, três cobras dos roteiros. E isso se percebe na telona. State of Play nos surpreende mais de uma vez. No melhor estilo de investigação policial e/ou jornalística, somos levados pela mão pelos tortuosos caminhos de crimes e mentiras engendradas para encubrí-los. Mas, para satisfação do espectador, parece que as surpresas nunca terminam. Quando você acha, como os protagonistas, que chegou ao fim da história, existe algo mais para encontrar. E a obstinação dos jornalistas envolvidos na investigação é de tirar o chapéu – quem dera que ela fosse mais frequente.

Mesmo sendo uma ficção, o roteiro de State of Play cai como uma luva para os tempos atuais. Afinal, poucas vezes na história recente tantas “teorias da conspiração” envolvendo possíveis interesses escusos de políticos e governistas – especialmente dos Estados Unidos – esteve tão em voga. Ninguém mais parece se convencer que as guerras se justificam apenas para defender um “modelo de democracia”. Todos buscam a trilha do dinheiro e as pessoas que estariam lucrando com estas guerras e outros conflitos. Nesta corrente de pensamento State of Play surge como uma história convincente e que nos envolve, de quebra, em um interessante jogo de interesses que não se restringem apenas ao Exército e aos políticos “corruptos ou corruptíveis” mas, também – e o que torna mais interessante -, na esfera da imprensa.

Ainda que o tema principal do filme não seja esse, mas é interessante perceber o jogo de dependência que ocorre nesta história entre jornalistas, políticos e investigadores policiais. Todos parecem precisar um dos outros, chegando ao ponto em que não conseguimos perceber quem é a vítima ou o vampiro. E para tornar ainda mais interessante esta história, existe um envolvimento pessoal muito forte entre os personagens centrais desta trama.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Cal McAffrey é um velho amigo do congressista Stephen Collins e, por ter traído o amigo com sua mulher, Anne (a sempre linda e talentosa Robin Wright Penn), no passado, parece se sentir eternamente em dívida com ele. Este envolvimento pessoal de Cal com Stephen acaba sendo explorado pela chefe do jornalista, Cameron Lynne (a sempre ótima Helen Mirren). Até um ponto. Quando percebe que esta relação pessoal entre o profissional a seu cargo e a principal fonte da reportagem está colocando em risco a reputação do jornal – o que, convenhamos, era inevitável -, a editora se questiona sobre a ética de todo o processo. Mas esse questionamento era um tanto tardio. O que também é interessante, porque deixa ainda mais evidente que a questão ética, para as grandes empresas, pode ser relativa – depende mais dos resultados e das finanças do que de padrões que devem ser seguidos.

Bem, mas não era disso que eu queria falar. Estava comentando como as relações pessoais entre os personagens centrais acabam colocando a trama em outro nível, um patamar de questionamentos éticos que vai muito além de suas respectivas profissões e atinge o nível das relações pessoais. Está em jogo conceitos como amizade, amor, fidelidade, diferentes níveis de compromisso e de afeto. Tudo isso torna a trama ainda mais interessante – e mostra como ninguém, absolutamente, está livre de ser avaliado, criticado e absolvido. Nesta história não existem apenas mocinhos e bandidos – mas pessoas complexas e, por isso mesmo, humanas.

Alguns podem encontrar em State of Play mais uma filme de trama policial que envolve, de quebra, políticos e jornalistas. Mas eu vejo mais do que isto. Além do que comentei no parágrafo anterior, sobre a questão do envolvimento pessoal entre diferentes partes desta história, vejo neste filme uma interessante reflexão sobre os novos passos das grandes corporações. Pode parecer chato esse papo, mas a verdade é que cada vez mais poucos estão dominando muitos ou, em outras palavras, que poucas organizações estão se espalhando como pragas por todos os lados. Dominando desde meios de comunicação de massa até petroleiras, de redes de supermercado até construtoras. Enfim… tudo indica que o poder está cada vez mais se concentrando na mão de alguns – e que não aparecem, como os políticos que eles manipulam ou as publicações jornalísticas que eles compram. E as privatizações feitas pelos governos ou as licitações que acabam parando sempre nas mãos destas poucas organizações – algumas vezes “divididas” em vários nomes – só aumentam o seu poder. Pode parecer um tema chato, mas é importante que filmes como State of Play toquem nele – ainda que seja através de uma ficção.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei que State of Play toque na questão das licitações feita pelo governo e da “privatização do Departamento de Defesa”. Estas são duas portas de entrada, realmente, para as organizações corruptas e manipuladores entrarem “oficialmente” em áreas de interesse público. Infelizmente no Brasil e na maioria – talvez na totalidade – dos países do mundo não existe o número suficiente de pessoas atentas a isso.

Todos os atores estão muito bem neste filme, mas destaco, em especial, a atuação bastante emotiva e precisa de Russell Crowe – ele voltou à sua grande forma – e do trabalho de Rachel McAdams. A atriz, que interpreta uma jovem jornalista envolvida, pela primeira vez, em uma grande reportagem, foi a revelação do filme para mim. Rachel McAdams está perfeita no papel, sem exagerar na pose de “garota burrinha que faz tudo para aprender” e nem cair no erro de afrontar o “mestre” todo o tempo.

Aliás, State of Play tem outra pimentinha interessante em seu roteiro: o embate entre o jornalismo “tradicional” (leia-se os jornais em papel) e a “nova mídia” – aqui representada pelo blog Capitol Hill da jornalista iniciante Della Frye. Na parte inicial do filme, quando os roteiristas ainda não entraram na trama “grossa” envolvendo ex-militares e políticos, assistimos aos personagens de Crowe e McAdams se degladiando para serem ouvidos – ou seria lidos? Ele defendendo sua “velha forma” de fazer jornalismo, enquanto ela apostava suas fichas na “nova onda” da informação online. Verdade que a blogueira se apressa em publicar algumas informações – como a que, equivocadamente, apostava no suicídio da assessora do congressista. Mas é igualmente verdadeira a “contaminação” do trabalho do veterano repórter investigativo desde o início, porque ele tenta, de uma ou outra forma, proteger o seu amigo político pelo qual sente-se endividado. Muito interessante este “embate” – e que não termina, por mais que se especule, com um grande vencedor. Isso porque, mesmo que a grande reportagem “mereceu” ser publicada no jornal impresso, Cal McAffrey deixa evidente que sem a “nova forma” de pensar o jornalismo, ela não teria sido finalizada. Bacana.

Outro nome do elenco que merece aplausos é Jason Bateman. Seu personagem aparece em um momento decisivo do filme e ele, nos minutos que aparece na história, rouba a cena. Literalmente. Ele está excepcional. Robin Wright Penn também consegue magnetizar as atenções sempre que aparece – ela está especialmente bonita neste filme. Além deles, merece menções, ainda que em papéis menores, Jeff Daniels como o senador George Fergus; a indicada ao Oscar Viola Davis em mais uma aparição relâmpago, agora na pele da Dra. Judith Franklin, que ajuda McAffrey a conseguir uns números de telefone da primeira vítima desta trama; David Harbour como Red Six, ex-integrante da Pointcorp; e Michael Berresse como Robert Bingham, o homem responsável pelos assassinatos investigados no filme.

State of Play consegui uma boa opinião do público e da crítica até agora. Os usuários do site IMDb lhe conferiram a nota 7,7, enquanto que os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes lhe dedicaram 160 críticas positivas e apenas 27 negativas (o que garante para o filme uma aprovação de 86%).

Mas se a produção foi bem de crítica, não pode-se dizer o mesmo de sua bilheteria. Até agora o filme arrecadou pouco mais de US$ 36,2 milhões. Não é pouco, eu concordo, mas certamente esta cifra está muito abaixo do que os produtores esperavam.

A série original State of Play começou a ser transmitida pelo canal BBC em maio de 2003. Pouco depois, o produtor Andrew Hauptman começou a negociar os direitos da série com Paul Abbott para adaptá-la para os cinemas. Em novembro de 2004 ele conseguiu este acordo, começando então um longo processo de adaptar uma minissérie de seis horas para um filme de pouco mais de duas – e mudando seu cenário, que agora passaria a ser a cidade de Washington.

Lendo as notas de produção do filme, achei curioso que o diretor Kevin Macdonald disse ter ficado em dúvida quando, cinco anos depois de ter assistido à série de TV original, ter recebido o desafio de adaptá-la para os cinemas. Seu questionamento era o de como adaptar seis horas de uma produção tão espetaculares em apenas duas. Foi aí que ele resolveu mudar tudo. “A base da trama é a mesma, mas o que a envolve mudou muito. Era óbvio que não podíamos fazer outra versão de algo tão genial. Tínhamos que reinventá-lo, e foi isso que fizemos”. Interessante. Fiquei curiosa para assistir a série original.

Outra curiosidade do filme é que ele teria sido prejudicado pela greve de roteiristas que afetou várias produções em Hollywood no final de 2007 e no início de 2008. Segundo as notas de produção do filme, dois atores que haviam concordado em fazer o filme, pularam fora do projeto com o atraso que significou aquela greve. Ainda que os nomes dos tais atores não sejam citados no material de divulgação do filme, se tornou público que Brad Pitt e Edward Norton seriam os astros que pularam foram do projeto. A sorte dos produtores é que entraram em cena Russell Crowe e Ben Affleck.

Russell Crowe aceitou fazer o personagem de Cal McAffrey porque viu neste papel uma forma mais honesta de tratar a “objetividade jornalística”. “Os jornalistas querem ser objetivos; supostamente suas relações pessoais e sua vida não afetam as suas reportagens. Mas neste caso, não é assim que acontece. Eu gostei de que lhe mostramos como seres humanos. Às vezes eles não conseguem se livrar da história, o que pode ter bons ou maus resultados”, opinou Crowe sobre seu papel. O ator está bem “gordinho” neste filme – propositalmente, é claro, porque desta forma ele reforça a idéia de um “veterano” do jornalismo sedentário e “chegado” na bebida – whisky, por favor!

Ben Affleck, por sua vez, disse ter sido atraído pela ambiguidade do seu personagem. “Collins é um enxadrista que não desperdiça nem um único movimento. No seu mundo, os amigos pressionam para conseguir o que querem. O mesmo acontece com os meios (de comunicação). Na corrida para conseguir a notícia, suas fontes costumam lhes manipular conforme seus interesses”. Melhor dito, impossível.

Além dos atores, do diretor e dos roteiristas, o filme contou com uma equipe técnica competente que garantiu, por exemplo, um ambiente bastante legítimo para a redação do Washington Globe. Conforme o material de divulgação do filme, o desenhador de produção Mark Friedberg e a decoradora Cheryl Carasik percorreram diversos jornais, entre eles o Washington Post e o Los Angeles Times, para sua pesquisa. Nestes locais eles teriam feito centenas de fotos, assim como empreenderam uma busca nos arquivos das publicações para conseguirem um ambiente bastante legítimo para State of Play.

Algo curioso desta produção é que o diretor de fotografia, Rodrigo Prieto, utilizou dois tipos de câmera para as filmagens: uma Panavision comum equipada com um conjunto de lentes anamórficas que nunca tinham sido utilizadas ainda em um longa metragem; e uma câmera digital Genesis. “Decidimos explorar dois mundos, e que cada um deles seria diferente um do outro. Utilizamos lentes anamórficas para o mundo do jornalismo e a câmera digital para o mundo político, em parte porque nós, os cidadãos comuns, vemos aos políticos apenas através das notícias”, comentou Prieto. Tanto Macdonald quanto Prieto quiserem diferenciar através das lentes os dois personagens principais, mostrando um Cal desordenado e um Stephen mais formal. Apenas a cena final do filme foi diferente. “A filmamos com uma câmera na mão porque o congressista entra no mundo de Cal”, justifica o diretor de fotografia.

Para constar: State of Play é uma co-produção dos Estados Unidos, Inglaterra e França.

CONCLUSÃO: Um filme bem acabado sobre as relações de dependência entre dois dos poderes mais presentes na vida cotidiana das pessoas: o do jornalismo e o da política. De quebra, esta intricada trama nos traz assassinatos, conspirações e uma visão um bocado cínica sobre os bastidores das guerras e da segurança pública. Quase ninguém escapa do crivo dos roteiristas e do diretor que, ao mesmo tempo, nos apresentam dilemas pessoais e da sociedade. Envolvente e bem ritmado, State of Play é um filme completo. Particularmente indicado para as pessoas que gostam do tema do jornalismo – e para quem é fã de clássicos do gênero como All The President’s Men.

PALPITES PARA O OSCAR: Sei que é muito cedo para falar do próximo Oscar, mas sinceramente eu vou me arriscar. Pelo histórico da premiação, um filme lançado no início do ano, como State of Play, não tem muitas chances de chegar com força para ser indicado. Ainda assim, para mim, este é o caso de uma produção que mereceria entrar na lista seleta dos indicados. Seja por um dos atores – Jason Bateman, volto a dizer, está fantástico -, pelo roteiro ou pela direção. Mas ele mereceria chegar lá. E talvez consiga.

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Um comentário em “State of Play – Intrigas de Estado

  1. Gostei do filme e da critica!
    Concordo em gênero, numero e grau que Rachel McAdams “foi a revelação do filme para mim. Rachel McAdams está perfeita no papel”
    Amei a atuação dela e não ficou nem um pouco apagada mesmo estando ao lado de feras nesse filme, diferente de Affleck que achei bem fraquinho nesse filme. Russel Crowe massacrou ele na cena final!
    Mas fora isso, adorei o filme e recomendo!
    Qualquer filme que tenha Russel Crowe, Rachel McAdams, Hellen Mirren ou Jason Bateman vale a pena assistir!!!!

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