Elementarteilchen – Partículas Elementares


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Alguns filmes são um verdadeiro prato cheio para os aficcionados da psicoanálises. Elementarteilchen é um destes. Baseado no livro polêmico de Michel Houellebecq, conhecido por ter revolucionado a escrita francesa a partir dos anos 90, este filme alemão foi feito para não deixar ninguém indiferente. Colocando em primeiríssimo plano a questão da sexualidade e das frustrações cotidianas, Elementarteilchen apresenta ao espectador dois meio-irmãos opostos entre si em todos os aspectos, mas que são ligados por uma mesma origem provocadora e de abandono. Carregado muitas vezes de um tom bastante irreal e com uma boa carga de sexo e violência psicológica, este filme acaba sendo um bom exemplo de como a adaptação de uma grande obra literária pode ficar bastante abaixo do esperado. Tudo indica que Elementarteilchen simplifica a obra original, tornando as histórias dos meio-irmãos “apenas” uma questão freudiana.

A HISTÓRIA: Michael Djerzinski (Christian Ulmen) prepara uma carta de demissão de seu cargo em um instituto de biotecnologia. Nela, ele tenta explicar a sua impulsão de voltar para o que considera “elementar”. Mas essa sua busca, logo ele vai descobrir, não envolve apenas uma mudança de país e de emprego, mas também o reencontro com a sua grande paixão da infância e juventude, Annabelle (Franka Potente). Paralela a história de Michael, acompanhamos as desventuras de seu meio-irmão, o professor Bruno Klement (Moritz Bleibtreu). Assombrado por um sentimento de rejeição que lhe acompanha desde a infância, ele busca no sexo fora do casamento uma maneira de manter-se seguro. Depois de tentar seduzir uma aluna e de passar uma temporada em uma clínica psiquiátrica, ele migra para um acampamento hippie onde conhece a libertária Christiane (Martina Gedeck).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Elementarteilchen): O resumo acima acabou contando mais do filme do que eu normalmente gosto de narrar, mas achei necessário para conseguir citar, na sinopse desta produção, os nomes dos quatro grandes atores que estrelam Elementarteilchen. Quem tem acompanhado o blog nos últimos tempos e/ou vem seguindo as estréias do cinema alemão nos últimos anos certamente conhece estes atores. Moritz Bleibtreu e Martina Gedeck estrelaram o recente Der Baader Meinhof Komplex, filme que foi indicado para representar a Alemanha no último Oscar – e que ficou entre os cinco finalistas ao prêmio. Franka Potente é conhecida por vários filmes, inclusive em Hollywood, mas eternamente será lembrada como a protagonista de Lola Rennt. E Christian Ulmen é conhecido pela série televisiva Dr. Psycho e pelo filme Herr Lehmann.

Esse quarteto de atores é o grande mérito de Elementarteilchen. Tanto a direção quanto o roteiro de Oskar Roehler acabam sendo apenas medianos. Me explico. Roehler acerta em muitos momentos do filme no quesito direção. Com a ajuda do diretor de fotografia Carl-Friedrich Koschnick ele consegue, por exemplo, diferenciar muito bem o “tempo atual” e o “passado” (leia-se flashbacks) dos protagonistas. Mas no geral, seu pulso com os planos filmados é bastante tradicional – ele não acompanha a inovação da história. E seu roteiro também fica a meio caminho de um bom trabalho. Se por um lado ele consegue manter um ritmo interessante no filme do início ao fim, nos surpreendendo a cada novo episódio da vida dos meio-irmãos protagonistas, por outro lado ele deixa uma grande característica da obra original jogada ao relento.

Certo que uma das características do livro de Michael Houellebecq é explorar como a questão da sexualidade e da libido influi decisavamente na vida de qualquer pessoa, jogando com a questão do desejo/rechaço sexual do filho pela mãe. Esse aspecto do complexo de Édipo e de outras idéias propostas por Freud – aqui você encontra um artigo interessante a respeito – estão presentes na obra original e no filme. Verdade. Mas conforme alguns textos que li sobre Houellebecq, esta questão não é a central de seu livro. Ou, pelo menos, não é o que lhe diferencia de outras obras que tratam do mesmo tema.

Segundo esta referência da Wikipédia sobre o autor, Les Particules Élémentaires ganhou muitos fãs por fazer uma reflexão bastante singular sobre a história do ser humano. Fica evidente, especialmente pelo início e pelo final do filme, que a obra original dá bastante importância para a questão científica, configurada na busca do personagem Michael Djerzinski em investigar a reprodução de organismos sem a necessidade do contato sexual. Mas no roteiro do diretor Oskar Roehler a parte científica é praticamente relegada a um pé de página. O que interessa, na sua adaptação da história, é a diferença com que os “frutos” de uma mesma mulher lidam com a sua sexualidade. Então temos, por um lado, os excessos de Bruno e, por outro, a negação da libido (até um certo ponto) de Michael.

Claro que a reflexão sobre as diferenças entre os protagonistas é válida. O tema de “o-que-nos-faz-ser-quem-somos”, no qual está imersa a questão fundamental da família e, mais especificamente, de nosso pai e mãe, sempre me interessou. Neste quesito, Elementarteilchen se mostra uma interessante reflexão de como podemos ser mais “agentes” de nosso próprio destino do que inicialmente se acredita (ou se vende nas prateleiras das ideologias). Afinal, Bruno e Michael foram igualmente abandonados por uma mãe “libertina”, provocadora e manipuladora, mas cada um fez seu caminho de forma oposta. Michael se dedicou à ciência e se tornou mundialmente conhecido por suas pesquisas, enquanto Bruno teve que lidar com sua sexualidade mal resolvida e com a rejeição materna de forma dura, entrando e saindo de clínicas psiquiátricas. Talvez esse seja o aspecto mais interessante do filme – ou, pelo menos, aquele em que os realizadores apostaram suas fichas.

O problema é que os outros questionamentos da obra, como a crítica mordaz de seu autor aos hippies e ao movimento contracultural, assim como a sua aposta na ciência como o caminho da Humanidade, foram jogados na tela de maneira disciplicente. Fica difícil entender como um homem que rechaça tanto as idéias liberais – e que escreve textos extremamente racistas -, como é o caso de Bruno, acabe suportando justamente um camping hippie em busca de sexo. Bem, talvez esta seja uma crítica do autor à nossa “modernidade”, na qual as convicções parecem tão diluídas e mutáveis.

Mas pior que isso são as citações científicas do roteiro, que apontam de maneira leviana para uma “era da clonagem”. Pelo roteiro de Elementarteilchen, a reprodução assexuada parece ser a solução para a loucura e o descontrole – ressaltando a antítese entre Michael e Bruno. O problema é que estas idéias são jogadas de maneira descuidada na tela, perdendo espaço para as aventuras sexuais de Bruno e Christiane, para dar um exemplo – inevitável não lembrar de Eyes Wide Shut, grande último filme de Kubrick. Uma pena que o filme tenha gastado tantos esforços em mostrar apenas o lado mais sexual da obra de Houellebecq. Se bem que, pelo menos estes questionamentos “freudianos”, valem a experiência.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Elementarteilchen é um destes filmes que merece ser visto mais de uma vez. Primeiro, por sua complexidade. São muitos temas e provocações em uma mesma história. Depois, porque todos os seus atores fazem um grande trabalho.

Além de uma fotografia competente, que eu já citei anteriormente, este filme traz uma trilha sonora muito bacana. Mérito de Martin Todsharow.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não comentei antes, porque o texto já estava muito longo – para variar 😉 -, mas algo que me incomodou também no filme é a completa ausência de informações sobre as pessoas que criaram o personagem de Michael. Bruno, ficamos sabendo por ele mesmo, acabou sendo criado pela avó, depois que a mãe o abandonou. Mas e Michael? Ele foi criado pelo pai? Pelos avós? Teve uma madrasta? Não ficamos sabendo de nada disso. De sua adolescência e infância sabemos apenas que ele cresceu junto à Annabelle e sua família. Nada mais. Para mim, uma falha no filme – sinceramente não sei se o livro explica isso, mas imagino que sim.

Algo muito peculiar nesta história é o permanente tom de surpresa e de uma certa “fantasia” no que se refere ao passado dos personagens. Eu, pelo menos, ficava de boca aberta cada vez que Bruno contava um novo detalhe de seu passado. Pensava: “Não, ele não pode estar falando sério”. E talvez não estivesse. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). As cores exageradas em cada um dos flashbacks me fazem lembrar de outro conceito importante: de que nossa memória é recriada. Está comprovado que não lembramos de tudo que vivemos de forma exata e que, com o tempo, “recriamos” parte de nossa história. Ou a fantasiamos, se vocês preferirem. Então quem garante que Bruno realmente foi para uma escola onde sofria abusos sexuais? Ou que perdeu a virgindade com uma mulher que parecia dançarina de can-can justamente no velório de sua avó? Para mim, grande parte do passado dos protagonistas era uma criação de suas mentes.

Ouvi falar que algumas pessoas criaram uma certa polêmica quando o livro foi lançado por aqui graças ao trecho em que o Brasil entra na história. Ah, por favor! No filme o país também é citado. Mas não existe razão para polêmicas. O personagem de Bruno ataca a “libertinagem” no Brasil da mesma forma com que escancara seu racismo contra negros. Ele é um personagem polêmico e “desajustado” que, convenhamos, representa parte de nossa sociedade. Não é preciso que ninguém se escandalize com isso, porque ninguém está defendendo estas idéias – acredito que o autor estava sendo irônico. Ainda que, como afirma esta crítica sobre o livro – seguida de entrevista com Houellebecq -, o autor seja um positivista convicto, duvido muito que ele defenda idéias de extermínio ou segregação.

Buscando mais informações sobre o filme e o francês Michel Houellebecq, encontrei este texto interessante da revista o grito! que revela que o escritor não gostou da adaptação de sua obra para os cinemas. Segundo ele, a principal falha da produção foi a redução do personagem de Michael na história.

Quem quiser saber mais sobre o autor, recomendo dois textos: este, do blog de Paulo Patrício, que traz uma biografia de Houellebecq (por aqui fiquei sabendo que parte de sua experiência pessoal acabou parando nas páginas de seus livros); e este, do Recanto das Letras, que reproduz um texto do autor quando de sua visita ao Brasil – nele são lançadas muitas idéias controversas.

Elementarteilchen registra a nota 6,8 pela avaliação dos usuários do site IMDb. Por sua vez, os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram seis textos positivos para o filme – e nenhum negativo. Pelo menos por aquele site, ele foi uma unanimidade de crítica.

O filme teria custado 6 milhões de euros. Infelizmente não consegui informações sobre a bilheteria que ele fez na Alemanha ou em outros países.

Elementarteilchen concorreu a cinco prêmios no total, vencendo o de melhor ator para Moritz Bleibtreu no Festival de Berlim de 2006.

Gostei muito do cartaz original do filme. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Para mim, ele resume como poucos a idéia geral da produção: a mãe de Bruno e Michael aparece em uma cadeira de praia atrás deles e de suas “mulheres”, representando a importância que ela continua a ter na vida dos filhos mesmo depois de morta. Acho que poucas vezes a idéia freudiana da importância da mãe na vida sexual do filho foi tão bem representada graficamente. 😉

Agora, foi um pouco estranho ver a Franka Potente em um papel tão comportado… não sei, mas eu sempre a vejo com uma cara de quem vai fazer alguma loucura (ou sair correndo? ehehehehe). Falando nisso, o roteiro me fez ficar angustiada boa parte do tempo. Eu esperava, a qualquer segundo, que Bruno cometesse uma loucura – acho que estou muito condicionada a Hollywood.

E falando em atrizes, o que é aquela mulher chamada Martina Gedeck? Maravilhosa! Neste filme, muito mais “solta” com a questão de mostrar o próprio corpo do que em Der Baader Meinhof Komplex.

O elenco de apoio acaba aparecendo pouco. São papéis realmente secundários. Mas vale citar o nome de alguns atores que fazem parte dele: Nina Hoss como Jane, a mãe de Bruno e Michael; Uwe Ochsenknecht como o pai de Bruno; Corinna Harfouch como a Dra. Schäfer, que cuida de Bruno no hospital psiquiátrico; Ulrike Kriener como a mãe de Annabelle; e o veterano Michael Gwisdeck como o Professor Fleisser.

CONCLUSÃO: Um filme forte e surpreendente, que toca como poucos em questões centrais da psicanálises. Baseada em uma obra tida como revolucionária na literatura francesa, esta é uma produção que não deve deixar ninguém indiferente. Alerto, contudo, que ela mostra muitas e variadas cenas de sexo e que pode insultar algum desavisado por jogar, aqui e ali, algumas idéias bastante controversas. Ainda que deixe em segundo plano o debate científico do livro original, se torna uma peça interessante no que diz respeito a importância que os pais e os primeiros anos da formação de um indivíduo tem em sua vida adulta. Merece ser visto e, provavelmente, revisto. Pena que fique abaixo do esperado – levando em conta a obra original – e que deixe algumas questões sem resposta.

SUGESTÕES DE LEITORES: Elementarteilchen faz parte da minha série de críticas de filmes produzidos pela Alemanha, país escolhido pelos leitores deste blog em uma enquete feita no início deste ano. Mas, mais que isto, esta produção foi indicada pelo querido leitor Leandro Soares. Garoto, neste você acertou em cheio, hein? 😉 Muito boa a sua indicação. Gostei muito do filme, ainda que a nota tenha sido meio “baixa”. Mas acho que justifiquei bem os meus motivos. Se eu não tinha gostado de Mein Führer e tinha achado Barfuss apenas regular, desta vez me rendo ao seu bom gosto. E ainda tenho outros dois filmes que você indicou para assistir. Vamos ver se vou gostar dos que faltam também. Muito obrigada, mais uma vez, por esta dica. E apareça, inclusive para falar o que achaste deste texto.

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