Grey Gardens


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Algumas vezes a realidade é mais assustadora que qualquer ficção. Grey Gardens, drama dirigido por Michael Sucsy e estrelado pelas divinas Jessica Lange e Drew Barrymore, conta a história verdadeira da tia e da prima de Jacqueline Kennedy Onassis. A narrativa, que mostra parte da vida de mãe e filha durante 40 anos (precisamente entre 1936 e 1976), esboça um retrato realista e, consequentemente, cruel da decadência de parte de uma família considerada por muito tempo como de alta classe. De forma indireta, o retrato destas mulheres mostra como a sociedade estadunidense tradicional foi desaparecendo, sendo corroída pelo tempo e a falta de senso para o realismo. Um filme produzido para a TV impressionante, seja pelo conteúdo, pelas protagonistas ou pelo caprichado acabamento da produção.

A HISTÓRIA: Edith Bouvier Beale (Jessica Lange) e a “pequena” Edith Bouvier Beale (Drew Barrymore), mãe e filha, assistem na antiga propriedade da família, Grey Gardens, uma pequena parte de um documentário sobre suas vidas. Nele, a “pequena” Edith – que chamarei de Edie – dança para dois dos diretores do longa, Albert e David Maysles, relembrando os velhos tempos, quando sonhava em ser uma artista. Prestes a completar 60 anos, e depois de viver décadas um estilo de vida de permanente decadência, Edie aparece na telona querendo mostrar talento, classe, um modo de viver que existe apenas nas aparências, ornamentado pela bandeira dos Estados Unidos. Corta. A partir desta sequência, o filme volta para o ano de 1936, quando Grey Gardens ainda era um lugar cheio de vida, aonde vivia Edith e sua família. O que presenciamos, a partir daí, é um resumo do que aconteceu na família dos Beale a partir de então.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue lendo quem já assistiu a Grey Gardens): Propriedade e família, dois marcos na cultura dos Estados Unidos, aparecem neste filme de uma maneira emblemática. Os Beale, representados por sua matriarca, revelam um apego a estes valores que chega ao absurdo. No melhor estilo “décadene avec élégance” (leia-se “decadência com elegância”), Grey Gardens nos mostra como o apego às aparências pode significar o centro de uma existência. No caso das “Edith” desta história, mãe e filha, a falsa sensação de propriedade e de ter uma vida “com liberdade” as leva ao abandono extremo e à mais pura decadência. Tentando manter as aparências, ainda se sentindo “belas” e “elegantes”, as duas passaram a viver em condições de higiene absurdas.

Mas antes disso, muita água rolou por baixo da ponte destas mulheres. Edith Bouvier Beale – uma Jessica Lange como há muito não se via – seguiu o padrão das mulheres do final do século 19 e início do século 20: casou para garantir uma vida segura confiando que poderia ser “livre” mesmo “presa” a um matrimônio baseado mais em interesse que em amor. E assim como muitas mulheres de sua geração, ela aceitava a infidelidade do marido, Phelan Beale (Ken Howard), em troca de ter as suas “regalias”.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Frustrada por não ter seguido uma carreira artística, como dançarina e cantora, ela decidiu, depois que tinha tido três filhos com Beale – o que lhe dava uma certa “garantia” de bem-estar – viver a sua própria aventura. Mas não demora muito para ela descobrir que seu caso com o músico George Strong, conhecido por Gould (Malcolm Gets) não seria aceito pelo marido. Santa inocência daquela mulher – ou, talvez, apenas os primeiros sinais de sua total falta de senso para a realidade – achar que existia igualdade entre homens e mulheres. Se mesmo hoje, em pleno século 21, ela ainda não existe, quanto mais na década de 1930. Bem, mas isso é assunto para outras conversas.

Um fato curioso na vida de mãe e filha é que Edie teve a oportunidade de se lançar a uma vida diferente. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas, no fim das contas, ela acaba sucumbindo a chantagem emocional – e controle – da mãe. No melhor estilo “Como nossos pais”, Edie rejeita a trajetória de Edith, mas acaba seguindo, deliberadamente, os seus passos – exceto pelo casamento, porque ela resolve não se casar. Fora isso, ela repete os gestos e o comportamento da mãe, conseguindo viver em uma realidade paralela, irreal, da mesma forma. Impressionante o que estas duas passam. Pouco a pouco, tudo ao seu redor vai se deteriorando. Casa, jardim, suas dignidades. Mas elas não querem saber, continuam sonhando com uma vida de estrelato – algo que pode ser percebido quando elas viram objeto de desejo de jornalistas e, posteriormente, dos diretores do documentário homônimo de 1975. Edith querendo receber parte do lucro que o filme poderia ter e, principalmente, Edie querendo uma cláusula no contrato que lhe permitiria fazer outros filmes – e quem se interessaria por ela? – são de assustar. E resumem bem o que se passava com aquelas duas.

Além de contar com um roteiro e uma direção cuidadosos, este filme é um belo exemplo de trabalho bem acabado em seu conjunto – depois falarei de cada parte técnica do filme. Mas o impressionante mesmo são as atuações do elenco, com especialíssimo destaque para Drew Barrymore e, em um nível difícil de alcançar, de Jessica Lange. As duas passam por transformações incríveis com o passar da história – deveria ser duro receber aquela quantidade de maquiagem na fase madura das personagens. Mas, ainda assim, conseguem nos revelar toda a fragilidade, loucura, determinação e profundidade das mulheres que elas encarnaram. Impressionante.

Tão impressionante quase como a participação generosíssima de Jackie Kennedy (Jeanne Tripplehorn) em certo ponto do filme, estendendo a mão para ajudar duas pessoas com as quais ela nunca mais teve contato na vida. Pessoas essas das quais ela tinha boas lembranças da época em que era criança e que, apesar de tudo – e da distância/esquecimento – eram sua família. Seu gesto de generosidade, mais do que o apego pela propriedade das duas Edith, talvez é o que demonstre da melhor forma o real sentido de família. Porque ela não deve ser entendida como uma relação entre pessoas baseada em um apego egoísta e extremo, quase canibal/vampiresco – como acredito que tenha sido a relação de dependência e de certa exploração de Edith e Edie -, mas como algo forte e generoso, que investe seu tempo e amor para que o outro evolua, cresça. Um belo exemplo em meio ao cenário assustador vivido pelas protagonistas – mas que também, por sua vez, nos ensina um bocado.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Grey Gardens funciona em cada mínimo detalhe. Começando pela trilha sonora, impressionante. Um trabalho exemplar e fundamental para a história assinado por Rachel Portman. Depois, o trabalho igualmente impressionante e fundamental da equipe de 11 profissionais do departamento de maquiagem – coordenado por Linda Dowds. Trilha sonora e maquiagem acabam funcionando como selos de qualidade para dar a devida veracidade e ambiente para esta história. Mas vale citar ainda os trabalhos importantes da direção de arte de Brandt Gordon; a decoração de Norma Jean Sanders e figurinos de Catherine Marie Thomas.

Mas, como em qualquer outro filme, nada disso funcionaria sem o trabalho de “maestro” do diretor, Michael Sucsy. Para ajudá-lo em sua missão, ele contou com a colaboração do talentoso diretor de fotografia Mike Eley, que conseguiu captar todas as cores e nuances das diferentes épocas – de grandeza e decadência – da família retratada. Muito bacana. Sucsy ainda surpreende porque foi dele a história deste filme, assim como o roteiro, escrito com a parceria da canadense Patricia Rozema. Ainda que eles tivessem muito material em que se inspirarem – o documentário homônimo de 1975 e várias reportagens publicadas na imprensa norte-americana -, não deixa de ser impressionante a maneira contagiosa e envolvente com que eles narram a história da família Beale. Cada flashback se justifica e fica bem amarrado com a história basicamente linear do roteiro. Um trabalho bem feito e que, acertamente, deixa o terreno livre para as atrizes esbanjarem todo o seu talento.

Grey Gardens é um trabalho focado em duas atrizes. Ainda assim, há espaço na história para os papéis masculinos. Um dos mais importantes e interessantes ficou nas mãos de Daniel Baldwin, o menos conhecido irmão da família Baldwin, que interpreta Julius Krug, um político de prestígio que acaba tendo um caso com Edie. Fazem papéis importantes na história também Arye Gross como Albert Maysles, um dos diretores do documentário Grey Gardens; e especialmente o trabalho de Justin Louis como David Maysles, o outro diretor do filme de 1975. Joshua Peace fecha a lista de participações com algum destaque como o ator que interpreta Buddy Bouvier, filho de Edith que insiste para que a mãe venda a propriedade de Grey Gardens.

Produzido para a TV pela HBO, Grey Gardens teria custado US$ 12 milhões.

O documentário homônimo lançado em 1975 foi dirigido pelos irmãos Albert e David Maysle, com a participação de Ellen Hovde e Muffie Meyer. Além de entrevistar Edith e Edie, os diretores trazem depoimento do jardineiro Brooks Hyers e depoimentos que não tiveram crédito de Jack Helmuth e Lois Wright. No Youtube podem ser encontrados alguns trechos do original, como este, em que Edie fala sobre seu figurino e comenta sobre o trabalho do jardineiro, assim como a dificuldade em “separar passado e presente”. Fiquei especialmente impressionada com o jeito dela falar – que se assemelha muito com a forma com que Drew Barrymore utiliza durante o filme. O documentário inspirou muitas pessoas, especialmente no circuito da moda – entre eles, segundo Lilian Pacce, a Marie Rucki, diretora do Studio Berçot Paris; Fabrice Paineau e Marc Jacobs. A última coleção da grife Chloé foi inspirada no documentário sobre as Beale.

Neste link da GettyImages encontrei algumas fotos impressionantes de mãe e filha que mostram um pouco de como eram as pessoas reais que inspiraram as personagens de Drew Barrymore e Jessica Lange.

O estilo de vida de Edith e Edie chamou a atenção de algumas das principais publicações dos Estados Unidos depois que o departamento de inspeção sanitária de Nova York fez uma vistoria na casa e ordenou que ela fosse limpa – ou que as mulheres fossem despejadas. A história delas acabou estampando as páginas da sensacionalista National Enquirer e virou capa da New York Magazine.

Uma dica para quem vai assistir ao filme ainda: veja a produção até o final, incluído esperar os créditos terminarem. Beeeeeem lá no finalzinho, aparecem em cena ainda Drew Barrymore, assim como uma frase incrível de Edie, que morreu em 2002. E, para nossa surpresa, uma brincadeira da atriz que fala, com uma voz super engraçada, que nenhum animal foi maltratado durante as filmagens. 😉

Acho praticamente impossível alguém não saber quem foi Jacqueline Kennedy Onassis mas, para quem quiser saber um pouco mais além do básico, deixo aqui e aqui dois textos com informações para o início de uma pesquisa. Também encontrei estes dois textos – texto 1, texto 2 – sobre Edie Bouvier Beale. Na verdade, são dois obituários publicados – em inglês – quando de sua morte, em 2002.

No site oficial do filme, é possível ter acesso a detalhes da produção e a entrevistas com alguns de seus envolvidos. Entre eles, o diretor Michael Sucsy, que revela seu envolvimento com a história dos Beale e todo o trabalho que ele teve em ir a fundo na pesquisa sobre suas vidas – tendo acesso, por exemplo, a um vasto material inédito de Edie, incluindo cartas pessoais, poesias e recortes de jornais. Curioso que Sucsy revela que sua idéia original era contar em detalhes, década após década, o que aconteceu com aquelas mulheres, mostrar “como elas chegaram lá” – no ponto em que se tornaram figuras conhecidas, através do documentário de 1975. Como seria impossível contar tudo que ele queria de maneira linear – pelos custos -, Sucsy resolveu inserir na narrativa as filmagens do documentário homônimo, o que lhe permitiu fazer retrocessos na história, verdadeiros pulos narrativos, sem que isso se tornasse “estranho” ou forçado.

CONCLUSÃO: Um filme impressionante sobre o auge e a decadência de uma importante família de alta classe dos Estados Unidos. Edith e Edie Bouvier Beale ficaram conhecidas nas décadas de 1960 e 1970 por terem sido tema de um documentário e de várias reportagens nos Estados Unidos. Todas exploravam os laços familiares delas com a ex-primeira-dama Jacqueline Kennedy. Bem acabado em todos os seus detalhes e com uma dupla de protagonistas de tirar o chapéu, Grey Gardens nos conta uma história incrível, que revela até que ponto a dificuldade de alguns para enxergar a realidade pode chegar. De quebra, o filme ainda explora conceitos importantes para a sociedade moderna – representada pelos valores exportados pelos Estados Unidos -, como são os da propriedade, da família e o do êxito/sucesso pessoal. Envolvente, bastante crítico sem ser óbvio, é um destes filmes baseados em “fatos reais” que vale a pena ser visto.

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