Powder Blue


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Por pura casualidade eu assisti a dois filmes do gênero “histórias-de-pessoas-tão-diferentes-que-se-cruzam”. Mas, nem por isso, eles são produções parecidas. Historias Mínimas, o filme recentemente comentado, narra vidas simples, de pessoas que moram no interior da Patagônia argentina e que tem a televisão como recurso mais “usual” para quebrar o tédio do cotidiano. Powder Blue, por sua vez, conta parte da trajetória de um grupo de pessoas solitárias em uma grande cidade. E não uma grande cidade qualquer, mas um dos ícones do sonho americano: Los Angeles. Solitárias, desesperadas, ferradas, acostumadas a um ambiente de morte e de perigo. O cenário em que elas vivem é exponencialmente contrário ao de Historias Mínimas. E ainda que Powder Blue tenha alguns elementos de outros filmes, como Magnólia e o anteriormente comentado neste blog The Air I Breathe, ele se mostra um filme diferenciado dos demais. Com um elenco estelar, que resgata atores importantes até em pontas, esta produção é uma daquelas que todos adoram atacar mas que, além disso, ela talvez seja mais simbólica e interessante do que uma análise apressada possa revelar.

A HISTÓRIA: Um homem com o corpo quase todo tatuado toma um banho de mar inesquecível. Outro dirige até sua casa e, ao chegar lá e recordar cenas do amor de sua vida no passado, aponta uma arma para si mesmo através do espelho. Uma mulher sai de um restaurante para ligar para o filho, enfeitando um encontro romântico que está próximo do fim. Um jovem dirige um carro funerário quando atropela um cachorro. Sentindo-se culpado, ele socorre o animal e leva-o para casa. Todas estas pessoas vivem momentos decisivos em suas vidas. Solitárias, elas buscam algum milagre, redenção ou, pelo menos, o fim de suas dores. Algumas delas terão seus caminhos cruzados na parte mais obscura e cínica de Los Angeles.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue lendo quem já assistiu a Powder Blue): Propositalmente eu fiz um resumo do filme bastante vago. Afinal, um dos pontos fortes de Powder Blue é a maneira com que seus personagem vão se revelando pouco a pouco. Nesta crítica, mais que em outras, fará uma diferença brutal você ler o texto antes de ver ao filme. Sinceramente, não recomendo. Por deixar isso muito claro logo aqui, no início, desta vez não vou repetir a informação de que existem SPOILERs neste texto. Isso está subentendido e evidente. Avisados estais! Quem quiser passar direto pelo texto “estraga prazeres”, deve seguir direto até a nota e o que etiver abaixo dela.

Desde Short Cuts, Magnólia, Traffic, Babel e similares, todo filme que traz à cena diferentes personagens que tem suas vidas entrelaçadas recebe o mesmo tipo de análise. O melhor mesmo, algumas vezes, é não comparar tanto as produções – exceto quando o caso se revela o de uma cópia mal feita do original. Esta não é a situação de Powder Blue. Ainda que ele siga a mesma linha dos anteriores, ele se difere por algo sutil: todos seus personagens são colocados no mesmno plano arrativo e de importância. Não existem bandidos, nem mocinhos. Não fica claro, em momento algum, quem são as vítimas ou os predadores. Powder Blue escapa destas ciladas narrativas – vistas em muitas outras histórias do gênero – e mergulha em uma realidade que parece sempre desgraçada.

A carga do filme não é pequena. De Rose até Qwerty, passando por Charlie, Jack, Sally, Randall ou Velvet Larry, todos estão passando por dificuldades, carregam nas costas um grande peso do passado ou do presente. São pessoas que se arrastam pelas ruas de Los Angeles sobrevivendo, na face mais obscurado do “american way of life”. Esta característica da história, que foge dos estereótipos mais comuns, foi uma das que mais me interessou. Mas a primeira característica que me chamou a atenção no filme a direção de fotografia de Jonathan Sela e a presença em cena densa do ator Ray Liotta – juro que pensei, logo na sequência da praia, “Será este filme um The Wrestler para a carreira dele?” (ou seja, será que Powder Blue faria para Liotta o mesmo que The Wrestler fez para Mickey Rourke?). Claro que esta idéia evaporou logo que eu percebi que o filme teria vários personagens no mesmo patamar de protagonistas – o que impede que Ray Liotta brilhe mais.

Como manda o figurino dos filmes com vários personagens principais, os primeiros minutos de Powder Blue nos apresentam seus personagens. Como chegamos de “paraquedas” em suas vidas, não sabemos nada sobre o caminho que levou cada um deles a atual situação de desespero. Mas por mais ferrados que cada um deles esteja, o curioso deste filme “carregado de esperança” é que nenhum dos personagens centrais desta história perdeu as esperanças. Isso desde o primeiro minuto da história. Por isso, no momento em que Powder Blue dá uma guinada para o lado do “tudo dará certo” e para uma sequência de “finais felizes” (dentro do que isso pode significar para os distintos gostos), a verdade é que esta “mudança de rumos” não é tão radical assim… desde o início Powder Blue investia nesta idéia de que “nem tudo está perdido” e de que sempre existirá uma saída para os problemas, por maior que eles sejam.

Mas o bacana do filme, para mim, é que mesmo os “finais felizes” são um bocado tristes. (SPOILER – não leia para não estragar o final do filme). De uma maneira bastante simbólica, por exemplo, Rose Johnny (Jessica Biel) perde, em uma mesma noite, o pai e o filho. Neste momento, ela se torna tão “solitária” quanto Qwerty Doolittle (Eddie Redmayne), um rapaz que deve enfrentar o mundo por sua conta – como, agora, Rose. Sem laço algum, nem com o passado e nem com o futuro, os dois se lançam em uma união singular. Curioso. E mesmo Charlie (Forest Whitaker) reencontra a fé perdida depois de passar por um momento trágico – os anjos não salvam ninguém. A morte, aliás, está sempre rondando os personagens – como na vida mesma, digamos. Este fator de tensão, assim como o fato da história não evitar a tragédia e nem a felicidade/esperança na mesma dose, faz deste filme algo diferente dos demais que bebem da mesma fonte.

A direção de Timothy Linh Bui é muito, muito boa. Este diretor vietnamita de 39 anos mostra firmeza e inspiração na condução da história, que foi escrita por ele e por Stephane Gauger. Bui valoriza cada personagem e faz uma escolha acertada do uso de closes, panorâmicas, travelling’s, plongée e afins. Cada cena dá a impressão de ter sido cuidadosamente planejada e estudada antes de ser, efetivamente, executada. Gostei. E assim como a direção de fotografia que dá o clima perfeito (geralmente obscuro) para a história, a trilha sonora acaba sendo fundamental nos momentos de maior carga dramática – um bom trabalho do compositor Didier Rachou. Tecnicamente, para resumir, o filme é bem acabado e, no quesito direção, um bocado inspirado.

Os atores, em geral, estão muito bem. Forest Whitaker, como sempre, rouba a cena quando aparece. Com uma grata surpresa “reencontrei” o ator Eddie Redmayne, que já havia me surpreendido um pouco em Savage Grace. Mais uma vez, ele está encantador, frágil e enigmático na medida certa. Mas a grande surpresa do filme, para mim, foi a interpretação da atriz Jessica Biel. Cacilda!! Não é nada fácil para uma atriz segurar um papel como o de Rose Johnny, tão carregado de desafios e de dramas pessoais, sem contar no esforço físico que deve ter significado fazer as cenas no clube de streptease. E que porreta as cenas de dança… muito bem coreografadas, executadas e filmadas. Certo que Marisa Tomei caminhou com a mesma ousadia em The Wrestler, mas dela já se esperava algo assim… 😉 Não é um filme dos mais fáceis de ser assistido, especialmente porque ele não economiza nas cenas de nudez, violência e no linguajar. Mas tudo justificado pelo cenário e pelos personagens da história. Para mim, especialmente por ainda ter na lembrança o fraquíssimo (para não dizer ruim) The Air I Breathe, este filme foi uma grande e boa surpresa.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Três características do cartaz de Powder Blue me levaram a recorda de The Air I Breathe: a lista de nome de atores famosos; a participação de Forest Whitaker no elenco e o uso da cor azul como “protagonista”. Mas, para minha alegria, o filme dirigido e escrito por Timothy Linh Bui se mostrou sensivelmente melhor que o comandado por Jieho Lee. O segredo talvez tenha sido o de contar uma história de maneira gradativa, focada nos detalhes, e pouco preocupada em “surpreender” a cada segundo – ou em parecer mais do que era.

Powder Blue é bastante carregado de simbologias. Do cachorro que serve de elo de ligação entre Rose e Qwerty (e que representa, por sua vez, desespero e reconforto, respectivamente) até a “neve azul” que cai sobre Los Angeles no momento decisivo para quase todos os personagens. Alguns devem se desconectar do cordão umbilical que os prendiam à dor e a falta de esperanças; outros se encontram com a própria e solitária redenção. Nem sempre é a vida que nos ensina, mas especialmente a morte. Powder Blue trata de muitos temas, mas especialmente, acredito, sobre a fragilidade humana – seus erros, acertos e o caminho que escolhemos para encarar tudo isso. Mesmo sendo um filme inventivo e com alguns acertos, é claro que ele não escapa de alguns lugares-comum e da “releitura” de velhas cenas batidas do cinema – do “passeio romântico” em um carrinho de compras até a “despedida” no hospital, tudo já foi visto antes, de outra forma.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Lisa Kudrow como Sally, a garçonete que acaba simbolizando a esperança para o desacreditado Charlie; Patrick Swayze impressiona em sua ponta como Velvet Larry, o gerente e/ou proprietário do clube de streptease em que Rose se apresenta; o veterano Kris Kristofferson em uma super-super-ponta como Randall, um antigo parceiro de crime de Jack Doheny (Ray Liotta) que dá a dica certeira para que o “amigo” se reencontre com o próprio passado; e o menos conhecido Alejandro Romero, que faz um papel difícil como Lexus mas que, com talento, dá conta do recado.

Como eu havia “sugerido” antes, Powder Blue foi alvo de uma saraivada de críticas negativas. Para começar, ele não ostenta uma nota muito boa no IMDb: apenas um 6,5. Mas são os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes que “detonaram” mais a este filme: eles dedicaram seis críticas negativas e apenas uma positiva para Powder Blue, o que lhe garante uma aprovação de apenas 14% do total. Bem ruim este desempenho…

Não existem dados ainda sobre a bilheteria do filme.

Uma curiosidade: Forest Whitaker é o único dos quatro atores principais do filme que não tem olhos azuis. Hummm… seria este mais um simbolismo da história? Coincidência, certamente, não deve ser. Será que a “ótica azul” neste caso se refere aos personagens que mantêm a esperança mesmo em meio às trevas, algo que o personagem de Charlie só vai encontrar quando percebe o “azul” da neve – um “chamado divino” para que ele despertasse? Enfim, algumas idéias do filme dão pano pra manga…

Nas notas de produção do filme, o diretor Timothy Linh Bui comenta que, depois de fazer dois filmes sobre o nascimento do país chamado Vietnã, ele queria continuar “contando histórias que fossem significativas pessoalmente, ainda que entendidas de forma universal”. Buscando inspiração, ele teria passado “inúmeras” horas em várias livrarias, até que encontrou, em uma delas, um livro de Carl Jung. Nele, Bui leu o trecho que fala que o encontro de duas personalidades é como o contato de duas substâncias químicas, no qual se houver alguma reação entre estas personalidades, as duas serão transformadas. Com esta idéia na cabeça e a vontade de contar uma história sobre Los Angeles – a parte que não está revestida de brilho e glamour – é que o diretor se enfiou no Saharan Motel localizado em Sunset Blvd. para escrever a história de Powder Blue.

Na definição do diretor, Powder Blue é um filme “sobre o amor como o fundamento da vida”. E ele continua: “O amor é uma aspiração de vida universal difícil de encontrar e muito mais difícil de sustentar. Powder Blue é sobre tentar novamente e tentar de forma ainda mais difícil. Trata-se de redenção e perdão, sobre culpa e desespero, sobre encontrar o amor nas sombras e no interior dos corredores de uma cidade. Powder Blue é uma história de amor…”, resume Bui no material de divulgação do filme.

E como na maioria dos casos, não recomendo que ninguém assista ao trailer antes de ver ao filme – nele, aparecem mais cenas do que o desejado. O trailer, aliás, traz uma coleção de cenas bastante “óbvias” de Powder Blue – que chega a ser previsível em vários pontos, é bem verdade.

CONCLUSÃO: Um filme bem dirigido e bem escrito sobre conceitos que permeiam a vida de qualquer pessoa, como a morte, a violência, a falta de esperança, a busca pelo amor e pela solução dos nossos problemas. Focado no lado mais obscuro da vida em Los Angeles, Powder Blue é um filme que não economiza nas cenas fortes e sensuais, mostrando parte do cinismo, da solidão e degradação de uma grande metrópole. De lambuja, esta produção nos traz um elenco estelar, com especial curiosidade para a exposição de alguns atores, como é o caso de Jessica Biel, Ray Liotta e Patrick Swayze. Dê especial atenção para algumas escolhas do diretor vietnamita Timothy Linh Bui, para o uso da cor azul em detalhes significativos e para o tom de esperança que permeia toda a história – mesmo que ele esteja frequentemente ameaçado pelo lado obscuro da mesma. Para resumir, este é um exemplo de filme envolvente, com bons personagens, atores competentes e equipe técnica à altura. Não revoluciona a vida de ninguém mas traz, de maneira quase casual, qualidade e temas interessantes de maneira simbólica para uma noite de cinema.

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6 comentários em “Powder Blue

  1. tá bem..eu confesso, tinha visto esse por causa da Jessica Biel…he he…

    e apesar de Forest Whitaker não ter..digamos..o “talento” dela, sem dúvida nenhuma estava mais uma vez impecável em sua interpretação.

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  2. Oi Mangabeira!!

    hahahahahahahahaha

    Quer dizer que você é um “seguidor” da Jessica Biel? E aí, gostou do desempenho dela no filme?
    Pessoalmente, achei ela deslumbrante e incrível. Acho que ela segura bem o papel tanto na parte mais física do trabalho, por assim dizer – putz, que cenas complicadas aquelas na boate! -, quanto na parte dramática, quando ela realmente tem que demonstrar que está imersa de “cabeça e alma” nos dramas da protagonista.

    Forest Whitaker é aquele monstro, não? Mesmo quando lhe entregam um papel pequeno, ele mostra como é um ator muito acima da média. Para nossa sorte, em Powder Blue ele tem um papel grandinho, como um dos protagonistas. Cá entre nós, a última cena dele com Lexus é uma das minhas preferidas. Show de interpretação do Sr. Whitaker.

    Um grande abraço, garoto, e até a próxima!

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  3. Aff…Crítica com Spolirs é o fim. Da pra s ater ao trabalho do diretor, dos atores, da fotografia sem revelar nada do filme…eu sei, eu sei…quer melhor, q faça…mas, os filmes q assisto, quase ninguém assiste, e para os q assistem, infelizmente, tenho opiniões polêmicas demais…= /
    .
    .
    Eu só queria ser normal e gostar de Zezé d Carmago e Luciano como todo mundo [ essa é a hora q fico de joelhos e choro, levanto minhas mãos pro céu e grito “Why, my Lord? Why?!” ]
    .
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    Vou ler mais seu Blog. Quem sab tu é bom e tô t julgando prematuramente…
    .
    Até próximos posts… = ]

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  4. Olá Chicko!

    Antes de mais nada, seja bem-vindo por aqui. E obrigada por tua visita e pelo teu comentário.

    Olha, francamente, cada um com seu gosto. Eu deixei bem claro as minhas intenções com este blog na página “sobre a autora”. Este é um blog PESSOAL e, consequentemente, tem a ver com o meu estilo de escrever.

    Se fosse para escrever textos superficiais, que falassem apenas das qualidades técnicas dos filmes e que trouxessem as informações pura e simples de seus atores, diretores e etcétera, eu continuaria escrevendo sobre isso em jornais. Cá entre nós, gosto de abordar os temas dos filmes mais a fundo – e, para isso, muitas vezes fica evidente a necessidade de contar mais de cada história, o que significa o uso de spoilers. Agora, deixo muito claro quando vou citar um spoiler, justamente para que a pessoa possa decidir se quer ler o que vem a seguir ou não.

    Em resumo, é muito fácil você ignorar os spoilers que eu cito: basta não lê-los. Aliás, basta não ler texto algum do blog. 😉

    ÓBVIO que dá para “se ater ao trabalho do diretor, dos atores, da fotografia sem revelar nada do filme…”. Isso é o que a MAIORIA das pessoas que escreve em jornais, revistas e até em blogs faz. Mas não é o que eu quero fazer, sacou?

    De qualquer forma, seria bacana que você voltasse por aqui mais vezes, seja lendo ou não spoilers. 🙂 Quero que saibas que serás sempre bem-vindo!

    Um abraço.

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