Fireflies in the Garden – Um Segredo Entre Nós


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Fireflies in the Garden é uma destas produções com um grande potencial, que tem cuidado nos detalhes, como na direção de fotografia, e que conta com um elenco competente mas, ainda assim, deixa a desejar. É o velho problema do resultado final menor do que a capacidade que o filme tinha de ser. Fireflies in the Garden funciona muito bem até um certo ponto. Um de seus trunfos são suas constantes variações temporais na narrativa, que acabam funcionando muito bem no roteiro do diretor Dennis Lee. Mas o problema do filme é que ele deixa dúvidas demais no ar. Uma situação que incomoda o espectador mais do que certas produções que deixam o seu final aberto. Em Fireflies in the Garden temos um final, mas o caminho até chegarmos a ele é construído por muitas perguntas sem resposta. O que, como dito antes, provoca desconforto.

A HISTÓRIA: O casal Lisa (Julia Roberts) e Charles Waechter (Willem Dafoe) discute dentro do carro a caminho do aeroporto. O assunto principal da discussão é o comportamento do filho deles, Michael (Cayden Boyd), que parece estar sempre abaixo das expectativas paternas. Insatisfeito pelo fato do filho colocar as mãos no vidro do carro, depois de ter “perdido” os óculos que usava, Charles pára o carro na entrada da pequena cidade de Larkspur. Mesmo sob uma chuva torrencial, ele obriga o filho a voltar à pé para casa. Esta são apenas algumas das lembranças que Michael, quando adulto (Ryan Reynolds) resolve contar em seu novo livro. Depois de muito tempo sem voltar para a casa dos pais, ele retorna para a formatura da mãe, mas uma fatalidade e seus vários desdobramentos acaba mudando os planos do escritor.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Fireflies in the Garden): As cenas iniciais deste filme são um belíssimo cartão-de-visitas do trabalho do diretor Dennis Lee e de sua equipe técnica. Engrenagens de um relógio; imagens da Natureza e da cidade em vistas aéreas; e, finalmente, um carro deslizando pelo asfalto. Vemos suas rodas, mãos ao volante, a chuva que cai do lado de fora do vidro. Tempo, espaço e, por fim, as circunstâncias adversas sugerem a pressão que a família Waechter está vivendo. Como as engrenagens daquele relógio inicial, esta (e todas as) família(s) vivem do trabalho sincronizado e/ou desajustado de cada uma de suas peças. Fireflies in the Garden trata do mal funcionamento desta engranagem chamada família e dos ajustes que são possíveis ou impossíveis de serem feitos para “consertar” seus problemas.

Aquela sequência inicial do filme deixa claro o talento de Lee em planejar as suas cenas. Também começa a revelar o belo trabalho do diretor de fotografia Daniel Moder e a inspirada trilha sonora do espanhol Javier Navarrete. Estes elementos, fotografia, música e a edição de Dede Allen e Robert Brakey fazem aquele início de filme prometer muito. Depois vamos descobrir que esta promessa acaba criando expectativas que não serão totalmente supridas. Voltando ao que eu comentava no início deste texto, o grande problema de Fireflies in the Garden é que seu roteiro deixa perguntas demais sem resposta. Me explico.

Não acho um problema quando um roteirista resolve escrever uma história com um final que fique em aberto ou quando seu texto provoca mais perguntas que respostas. Dependendo do filme, uma destas duas característica é até bem vinda, porque provoca reflexão no espectador. Mas em outros casos, como o de Fireflies in the Garden, os vazios do roteiro e a falta de respostas para algumas questões básicas sobre a família retratada não leva o público a nenhuma reflexão, apenas o deixa perdido. E isso não pode ser.

Entendo que o roteiro do diretor Dennis Lee, que teria se inspirado em um poema de Robert Frost, procura nos contar uma história de superação. Seu texto reflete como as pessoas vítimas de violência dentro de casa podem superar seus problemas e seguir adiante. Fireflies in the Garden também busca revelar a importância dos pais no processo de formação de um indivíduo. Tudo isso é válido. Da mesma forma, o trabalho competente dos atores, que apresentam interpretações dentro do esperado (nada acima da média), e as já citadas qualidades técncias do filme, poderiam justificar-lhe.

Finalizado da maneira com que foi, Fireflies in the Garden é apenas mais uma história de “filho eternamente rejeitado pelo pai que faz de tudo para impressioná-lo”, de perda e da clássica separação entre mãe-bondasa e pai-crápula. A verdade é que os atores fazem um bom trabalho e que o roteiro cria a tensão e o suspense adequados, mas os buracos que a história deixa abertos acabam prejudicando o filme.

Afinal, quais eram os “grandes segredos” da família Waechter? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não parece que Michael e sua tia Jane (Hayden Panettiere na adolescência e Emily Watson quando adulta) falassem da mesma situação na cozinha. Minha aposta é de que havia mais do que castigos físicos e psicológicos praticados por Charles contra o filho. Uma das leituras possíveis é a de que ele possa ter abusado sexualmente de Michael, quando criança e, talvez, até da própria Jane. No filme ficou um tanto “subentendido” que a garota possa ter feito um aborto, sob a proteção da irmã, Lisa.

Também parece evidente na história o fato de que Lisa era uma boa mãe, preocupada e carinhosa, mas que parecia perseguir tanto a perfeição como mulher e esposa ao ponto de ter se tornado cega a muitos fatos que aconteciam ao seu redor. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Neste terreno nebuloso, é possível que Charles tenha praticado alguns abusos contra o filho e talvez até contra Jane, o que provocaria a reação dela na cozinha. Mas o que me incomodou, realmente, foi o final do filme. Não gostei da guinada da história na reta final.

Michael parecia um sujeito consciente, com os pés no chão, bastante observador e crítico. Como ele não foi capaz, então, de perceber a manobra de manipulação do próprio pai? (SPOILER – não leia… você já sabe). Sim, porque aquela procura providencial por um vídeo afetivo da família e as conversas finais entre pai e filho foram planejadas cuidadosamente por um sujeito que, há tempos, guardava sua amargura apenas para Michael. Mas ao ler o novo livro do filho – e manter isso em segredo -, Charles resolve manipular a família mais uma vez, como fez antes quando Lisa tentou se separar dele, para se sair bem na história. E o espantoso é que ele consegue, sem mesmo Michael desconfiar.

Tudo bem que o escritor, agora prestes a se tornar pai, resolveu deixar o passado para trás, seguir adiante em paz com a família, mas essa mudança radical, literalmente do dia para a noite, foi um pouco forçada demais. Me incomodou. E a história de Charles comprova, mais uma vez, como a percepção sobre um indivíduo pode ser muito diferente conforme o ponto de vista das pessoas que conviveram com ele. Para Michael e Jane o patriarca da família era uma pessoa. Para os filhos dela, Charles era outra, assim como para a sua filha, Ryne (Shannon Lucio).

Aparentemente, ele mudou muito depois da ameaça da mulher em sair de casa. Mas algumas relações não parecem ter evoluído, como a dele com Michael. Aliás, juro que não entendo muito bem algumas relações aparentemente de competição entre pais e filhos. Sei que Freud explica, inclusive através dos efeitos causados pelo complexo de Édipo, mas, ainda assim, esse tipo de “defeito” nas relações é tão previsível que me surpreende como ele ainda possa ser repetido e repetido mesmo por pessoas esclarecidas.

Mesmo com seus defeitos, Fireflies in the Garden é um filme interessante sobre os jogos de poder, dominação e manipulação que existem dentro das famílias, com a figura clássica de um pai algoz e de uma mãe um tanto cega, bondosa e superprotetora. O quadro se completa com o casal de filhos com temperamentos e criações diferenciadas – assim como sexos diferentes, o que apenas torna o quadro ainda mais clássico. Um filme curioso sobre segredos e relações de família, com os elementos já comentados e ainda traições, relações conflituosas entre cônjuges e filhos um tanto problemáticos. Também faz parte do quadro a morte prematura de uma figura-chave desta família e a culpa que seu desaparecimento acarreta em uma das pontas mais frágeis das relações familiares. Vale ser visto, ainda que com algumas reticências – e descontando-se todos os seus lugares-comum.

NOTA: 6,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os atores que fazem parte do elenco deste filme, em geral, estão bem em seus papéis. Só fico um pouco cansada com o vício de Willem Dafoe em interpretar o “cara mau”, o crápula das histórias. Por outro lado, gostei do desempenho de Julia Roberts como a mãe carinhosa, atenciosa e, ao mesmo tempo, incapaz de realmente defender o filho frente ao pai. Emily Watson está um tanto apagada, assim como Carrie-Anne Moss (que interpreta a Kelly Hanson, esposa de Michael). Os grandes destaques do filme ficam mesmo entre Ryan Reynolds, Hayden Panettiere e Chase Ellison (que interpreta o problemático Christopher Lawrence, filho de Jane).

Não consegui informações sobre a bilheteria ou mesmo o quanto foi gasto para produzir este filme.

Fireflies in the Garden estrou em fevereiro de 2008 no Festival de Berlim – o único festival de seu currículo.

Para os interessados nas paisagens mostradas no filme, Fireflies in the Garden foi rodado nas cidades de Austin, Bastrop e Smithville, todas no Texas, Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para o filme. Os críticos que tem textos linkados no site Rotten Tomatoes foram ainda mais duros com esta produção. Eles dedicaram 18 críticas negativas e apenas seis positivas para Fireflies in the Garden (o que lhe garante uma aprovação de 25%).

Uma das críticas linkadas no Rotten Tomatoes é a de David Edwards, do Daily Mirror, que afirma que Fireflies in the Garden é uma produção povoada por personagens feridos que passam o filme inteiro gritando uns com os outros ou olhando para uma meia distância. Em seu texto, Edwards opina que o filme poderia ter funcionado se o roteiro realmente tivesse algo a dizer sobre o funcionamento de uma família.

Gostei especialmente deste texto de Tim Robey, do inglês Telegraph, no qual ele comenta que os astros que participam deste filme “indie” buscavam um filme para dar-lhes prestígio mas que, no fim das contas, o filme acaba sendo mais “catártico para eles do que para nós”. Que ótimo! 😉 Robey também destaca a falta de lógica de um livro como o que o protagonista escreveu, cheio de segredos, que ninguém sabe ao certo quais são ou se alguém teria interesse em conhecer.

Neste texto, o crítico Kevin Maher, do Times, alerta o público para que ele não se engane pelos grandes nomes do elenco de Fireflies in the Garden. “Pesos pesados, como Julia Roberts, Willem Dafoe e Emily Watson” tem interpretações pobres “neste melodrama açucarado sobre uma família de subúrbio aterrorizada por um patriarca tenso”. Maher afirma ainda que o filme é “geralmente artificial” e que o final de Fireflies in the Garden é “piegas e falso”. E as demais críticas negativas seguem por aí.

No Brasil o filme recebeu o título de Um Segredo Entre Nós. Mas se fosse feita uma tradução literal do original, seria algo como “Pirilampos (ou Vaga-lumes) no Jardim”.

CONCLUSÃO: Um grande elenco se dedica a uma história edipiana que começa bem e termina sem convencer. Com um roteiro cheio de buracos que nunca são preenchidos, Fireflies in the Garden oferece ao público alguns momentos inspirados, desempenhos irregulares de seus atores e uma reflexão sobre o funcionamento de uma família clássica. Se os tais “segredos” de família não se explicam, pelo menos a história deixa clara a sua intenção: de defender a idéia de que os padrões nem sempre precisam se repetir, e de que é possível aprender com os erros alheios para fazer melhor (ou tentar, pelo menos) em sua própria vida. Deve ser visto sem grandes expectativas e com um pouco de paciência, respeitando seus vários lugares-comum e um final um tanto decepcionante.

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5 comentários em “Fireflies in the Garden – Um Segredo Entre Nós

  1. Oi Alessandra!

    Concordo contigo. Por quê William Defoe tem sempre que ser o cara mau?

    Certa vez vi um filme dele, White Sands, em que ele interpretava um policial honesto e, gostei dele como “bom moço”. Enfim…

    Achei que esse filme poderia ser melhor. Nem vou me dar ao trabalho de ver então.

    Boa crítica!

    PS: Ale, sabe onde eu acho as bilheterias do cinema?

    Abraços,
    Eduardo Louzada

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  2. Oi Eduardo!!

    Pois sim, normalmente o Willem Dafoe interpreta papéis de pessoas más… vai ver que os roteiristas, produtores e diretores acham que ele tem uma “cara” muito dura para fazer algum mocinho. hehehehehehe. Não assisti ao filme que comentaste, White Sands, mas anotei ele como sugestão para o futuro.

    Olha, acho que deverias assistir ao filme… afinal, nem sempre a impressão de uma pessoa será igual a outra. Vai que você gosta do filme mais do que eu gostei? Ele não é ruim, só que eu esperava mais. Talvez o problema seja meu. hehehehehe

    As bilheterias dos cinemas podem ser conferidas em vários sites. Mas recomendo dois, basicamente: o IMDb (http://www.imdb.com), que mostra essencialmente a bilheteria nos Estados Unidos (mas em alguns outros países também), e o Filme B (http://www.filmeb.com.br/) , que é um site brasileiro.

    Abraços e obrigada por tua visita e por teus comentários! Apareça sempre!!

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  3. oi Alessandra,sei que esse post é bem antigo mas só agora que assisti esse filme e fikei tao intrigado que resolvi pesquisar a respeito ate chegar aki . Achei muito interessante seu post e quero parabenizar-lhe pela sua reflexão , o que me ajudou muito na interpretação desse quebra-cabeça. >D

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  4. Acabei de ver o filme.
    E vim procurar críticas, pois também fiquei cheio de expectativas com o início do filme, que não foram supridas no final.
    Mas, tirando todos as perguntas sem respostas que realmente incomodaram, como, o motivo da irmã mais nova querer ir pra Nova York; ou se Michael e a tia tiveram relações sexuais quando jovens, tanto pela conversa na cozinha quanto pela conversa dele com o menino no telhado dizendo que a mãe o ensinou muita coisa na vida; tive dúvidas também de que talvez ele fosse filho bastardo, por isso toda a maldade do pai.

    Mas, no fim, entendi diferente, com o vídeo, o pai só mostrou para Michael que eles eram felizes sim, mas que ele só se lembrava das coisas ruins que o pai o fez na infância, e que ele não se recordava das coisas alegres.

    Mas ficou muito subentendido.
    E isso me frustrou.
    Mas gostei da visão de que ele ao descobrir que seria pai, nada mais importava, e que agora o importante seria o filho que viria.

    Bom, eh isso.
    Como vê, não sou bom com os nomes.
    Rs

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