Surrogates – Substitutos


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Praticamente tudo já foi mostrado sobre o futuro da humanidade pela perspectiva de “uma sociedade dominada pelos robôs e pela alta tecnologia”. De 2001: A Space Odyssey, passando pelos replicantes de Blade Runner e até a série de filmes da grife Terminator, os fãs do cinema sempre foram “assombrados” por golpe traiçoeiros de robôs rebeldes, vingadores e assassinos. Mas The Surrogates aparece em cena para que os humanos tenham o gostinho de dar um certo troco neste terreno de perseguidores e suas vítimas. Dirigido por Jonathan Mostow, o homem por trás das câmeras do último Terminator estrelado pelo governador Arnold Schwarzenegger, Surrogates revela um futuro para a humanidade parecido com o de Wall-E, de uma determinada maneira. Mesmo longe da perfeição, eis aqui um filme que abre uma série de debates interessantes – e que talvez seja o mais realista dentre as produções que tratam do futuro da robótica.

A HISTÓRIA: Depois de algumas frases provocadoras do homem conhecido como O Profeta (Ving Rhames), acompanhamos os últimos 14 anos da evolução da robótica e, consequentemente, as mudanças que estes avanços científicos provocaram em diferentes sociedades pelo mundo. Basicamente, os robôs evoluíram tanto que as pessoas preferiram vivenciar as tarefas do dia-a-dia através deles. Enquanto essas máquinas, versões geralmente melhoradas de seus donos, trabalham e se “arriscam” no mundo real, seus proprietários se encontram “seguros” e cômodos em uma espécie de divã tecnológico. Mas a introdução do filme nos mostra como, nos últimos três anos, começou a surgir uma resistência a esta maneira de encarar a tecnologia. Um dos principais líderes desta resistência – ou resposta dos humanos aos robôs – é O Profeta. O que altera definitivamente este aparente equilíbrio de forças é o misterioso assassinato do filho único do “pai dos computadores” e ex-presidente da gigante VSI, Lionel Canter (James Cromwell). Entram em cena então os investigadores do FBI Tom Greer (Bruce Willis) e Peters (Radha Mitchell), que devem descobrir como é possível que uma nova arma possa fritar não apenas os “surrogates” (robôs), mas também as pessoas que estão comandando seus movimentos em casa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Surrogates): Há séculos o ser humano procura saber sobre o seu futuro. Diferentes artistas, primeiro na literatura e depois no cinema, buscaram traçar realidades possíveis em uma era distante, normalmente tecnológica. Se até hoje parece ter predominado um futuro um tanto sombrio, no qual máquinas entravam em colapso e acabavam por se virar contra seus “criadores”, ou seja, os humanos, nos últimos tempos parece predominar uma contracorrente a este movimento. Em outras palavras, filmes como Wall-E e Surrogates apostam em uma revanche dos humanos contra os danos que a alta tecnologia pode provocar.

A animação da Pixar ganhadora do Oscar trazia homens e mulheres alterados biologica e fisicamente graças ao uso cada vez maior de robôs, realidade virtual e seus derivados. Surrogates não chega a tanto, mas explora os efeitos de uma sociedade onde 98% das pessoas – segundo a introdução do filme – preferem utilizar robôs em suas atividades cotidianas. Em outras palavras, no futuro desenhado pelo roteiro de Michael Ferris e John D. Brancato, as pessoas praticamente desenvolveram uma fobia de sair de casa. Ferris e Brancato escreveram o último Terminator e tiveram como inspiração para Surrogates o HQ homônimo criado por Robert Venditti e Brett Weldele. Em sua história, tudo que puder se resolvido pelos robôs, será feito, já que eles não podem ser mortos ou contaminados por doenças.

Esta idéia parece mais realistas do que a de um robô tentando dominar o mundo – como aquele visto em Eagle Eye. Mas ela tem pelo menos uma grande falha: de que mundo utópico enquanto sem desigualdades sociais estamos falando? Porque para 98% da população ter acesso a uma alta tecnologia em robótica como a mostrada em Surrogates, é preciso que esta parcela de pessoas em todo o mundo tenha um grande poder aquisitivo. Convenhamos, isso é impossível – exceto se, e isso o filme não explica, a Humanidade tivesse passado pelo extermínio de todos os seus pobres anteriormente.

Mas ok, vamos ignorar este pequeno “porém” na história. Também interessa menos algumas caracterizações exageradas – como a superficialidade escancarada – de alguns dos robôs/personagens. Surrogates acerta ao tornar a divisa entre a caça e o caçador bastante difusa, por exemplo, e ao debater os efeitos de uma busca tão desesperada por longevidade, perfeição estética e segurança que nos leve a preferir que robôs vivam a nossa vida por nós. Certo que as “sensações” continuam sendo sentidas pelas pessoas que comandam suas máquinas, mas onde fica o toque humano, o roçar das peles, a troca de fluídos corporais? Desaparece nesta realidade plastificada filmada por Mostow.

A espinha dorsal de Surrogates não deixa de ser o clássico suspense de investigação policial, ainda que ele tente trazer à tona um discreto debate sobre os temas já comentados e um bocado de drama familiar, resumido na crise conjugal vivida por Tom Greer e sua mulher, Maggie (Rosamund Pike). O HQ que inspirou o filme, criado por Venditti e Weldele, narra o cotidiano de uma metrópole norte-americana no ano de 2052. Ainda que a base da tecnologia mostrada no filme e na HQ já exista, falta muito para chegarmos a aquele nível de perfeição na robótica.

Não deixa de ser curioso como Greer e Peters chegam rapidamente ao homem culpado pela morte do filho de Canter, Strickland (Jack Noseworthy). Agora, algo que o filme não explica, é como a “bucha de canhão” chamada Strickland foi mandada para um missão e, depois de puxar o gatilho, ficou totalmente sem cobertura. Estranho. De qualquer forma, não deixa de ser interessante como, quanto mais perto de uma resposta os detetives de Surrogates se encontram, mais complicada a trama vai ficando, até porque estão em jogo nesta história importantes interesses corporativos e políticos.

Na parte da ação, que deveria ser o mote principal desta história policialesca, o diretor Jonathan Mostow faz um trabalho correto, com algumas seqüências de perseguições envolvendo humanos e robôs muito boas. Mas o filme perde um bocado do ritmo quando procura aprofundar a história, acrescentando dramas humanos como o da perda de um filho ou o das crises de relacionamento provocadas pelo uso contínuo de máquinas como intermediárias entre os humanos.

A necessidade dos roteiristas em estabelecer um elo de reconhecimento entre Greer e Canter é o ponto mais artificial da história. São raros os momentos em que o drama compartilhado pelos dois em terem perdido um filho convence. Por outro lado, a crise no casamento que Greer vive ao lado da esposa Maggie acaba resumindo os principais pontos de reflexão do filme – ainda que, algumas vezes, ele sirva apenas para quebrar o ritmo da história. A verdade é que um pouco mais de ação e suspense seria melhor para o filme do que estas doses um tanto artificiais de drama.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como um filme de ficção científica sempre pede, Surrogates gastou boa parte de seu orçamento de US$ 80 milhões em efeitos especiais. Não há cabos soltos, neste sentido, nesta produção. Os efeitos especiais, visuais e de som desejados estão todos ali. Ou seja, visualmente falando, esta produção funciona muito bem, esboçando uma sociedade futurista das mais realistas que o cinema viu até o momento. Mostow faz um trabalho correto, especialmente nas cenas de ação. Para isso, ele contou com a ajuda do diretor de fotografia Oliver Wood e com o excelente trabalho do editor Kevin Stitt.

Os atores principais tem desempenhos variáveis nesta produção. Bruce Willis, possivelmente, se destaca como o melhor em cena – talvez porque ele se sinta confortável em filmes de ação. Ving Rhames, que faz um pequeno papel como O Profeta, também se destaca em uma atuação segura e bem caracterizada. Os demais, basicamente, cumprem tabela.

Em sua semana de estréia nos Estados Unidos, no último dia 27 de setembro, Surrogates arrecadou US$ 14,9 milhões. Na semana seguinte, a produção passou para US$ 7,24 milhões, ficando apenas na quarta posição nas bilheterias dos Estados Unidos. Muito pouco para um filme de ficção científica estrelada por Bruce Willis. Pelo visto, a falta de ação e a trama um tanto “complexa demais” para o público médio afetarão o seu desempenho comercial.

Os usuários do site IMDb conferiram a nota 6,6 para Surrogates. O filme também não conseguiu um desempenho muito bom entre a crítica. Ele registra 55 críticas negativas e apenas 36 posivitas no Rotten Tomatoes, o que lhe garante uma aprovação de 40% dos críticos.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que seja um tema secundário na trama, não deixa de ser muito interessante a forma com que ela trata a relação estreita demais entre os governos e as grandes corporações mundiais. No caso, entre o FBI e a empresa de alta tecnologia que domina o mercado da fabricação e venda de robôs. A verdade é que sabemos que estas relações realmente ocorrem e prejudicam muita gente – a velha história dos prejuizos da ganância e do poder.

Dois comentários dispensáveis, mas que eu não resisto não fazer: (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme) mil vezes o Bruce Willis com sua tradicional cabeça raspada do que com aquela peruca ridícula que seu robô (e outros personagens anteriores) insisti usar: e o final do filme, cá entre nós, não lembra a bomba de Shyamalan The Happening? Eu juro que tive um deja vù ao ver aquelas centenas de robôs caindo no chão, no melhor estilo “ataque no parque” do suspense The Happening.

CONCLUSÃO: Um filme de ficção científica que traz à tona novamente as relações entre humanos e robôs em uma sociedade futurista que lembra muito a nossa atual. Nesta produção dirigida por Jonathan Mostow, o homem por trás de Terminator 3, a relação entre as pessoas passa pelo intermédio das máquinas, em uma busca extrema dos humanos por segurança e perfeição. No fundo, Surrogates é uma história de investigação policial com alguma carga de suspense, crítica social e de valores, acrescida de uma dose considerável de drama (familiar e conjugal). No fundo, a produção tenta debater alguns dos valores que nos fazem humanos. Infelizmente, ao tentar abraçar tantas frentes, Surrogates não consegue chegar tão longe. Mas como entretenimento – ainda que lhe faltem cenas de ação – e como uma peça a mais na “revanche dos humanos contra as máquinas”, ele vale a pena.

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6 comentários em “Surrogates – Substitutos

  1. A crítica ficou ótima. O filme peca em algumas coisas, a questão do assassinato do estudande, da trama que criou de “mocinho” e “bandido” da personagem Lionel Canter ficou bem passadas. Mas por voga a questão da utilização dos robôs como forma de vida, criticada e portanto despertada consciência da personagem Tom Greer, ficou bem interessante. O filme em muito lembra Wall-E, eu até ousaria dizer que é um Wall-E não animado e lado B.

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  2. Observações muito boas! O que pegou para mim foi a ausência de bebês, crianças e adolescentes no filme. Onde eles estão VIVENDO? O protótipo de crianças está sendo lançado no filme, então, antes dele, qual o lugar seguro que os menores vivem?

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  3. Olá Inocêncio!!

    Antes de mais nada, seja bem-vindo por aqui. Obrigada por tua visita e por teu comentário.

    Eu também gostei de Surrogates. E achei ótima a tua definição dele como “um Wall-E não animado e lado B”… hehehehe. Por aí mesmo. 😉

    O assassinato do estudante até que fica bem explicado, quando entendemos quem está por trás de todo aquele “plano malévolo” – porque antes, realmente, seu “sacrifício” não faz muito sentido. Na verdade, ele foi uma queima de arquivo, por assim dizer.

    Realmente é bem batida a mudança de “conduta” do personagem do Lionel Canter… afinal, até o Homem de Ferro já passou por estas. hehehehehehe. Mas tudo bem… este é o típico filme que a motivação do “bandido” pouco importa no resultado final, porque outros assuntos são mais importantes para a história.

    Gostei do teu comentário, e espero que voltes por aqui mais vezes.

    Um abraço!

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  4. Olá Ana!!

    Concordo contigo. Essa pergunta – afinal, onde estão as crianças? – também me assombrou um pouco. A única “criança” citada com certa frequência no filme, na verdade, não existe mais – o filho morto do protagonista. No mais, vemos a alguns jovens naquela comunidade “alternativa” e que não permite a entrada de robôs. Mas, e o restante das crianças e adolescentes? A impressão que temos é que todos eles vivem dentro de suas casas e “saem” apenas com seus robôs… mas isso não fica claro na história. Sem dúvida, é uma ausência importante para entendermos a realidade que o filme quer explorar.

    Bacana tuas observações. Gostei do teu comentário. Obrigada por ele.

    Espero que tua visita e tuas observações (inclusive sobre outros filmes) se repitam muitas vezes por aqui.

    Um abraço!

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  5. Olá Domingos!

    hehehehehehe

    Tive até que dar uma olhada novamente no filme para observar o que você comentou. E, de fato, tanto os carros quanto os demais meios de transporte – helicópteros, aviões – são todos muito parecidos com o que temos atualmente (talvez alguns modelos até vindos dos anos 1990, como observaste).

    Isso quer dizer que em 40 anos não teremos design diferente de veículos? Hummmm… difícil, hein? O que pareceu mesmo é que este filme gastou todo o orçamento dos efeitos especiais nos “cyborgs” e que não sobrou verba para transformar o restante dos objetos em cena.

    Ou quem quiser ser bem bonzinho com o filme pode argumentar que a ciência/indústria é assim mesmo, investe os recursos em determinada área (robótica, neste caso) em detrimento de outras (como o transporte). Da minha parte, acho esse último argumento meio fraquinho. Afinal, a indústria automobilística vive de consumo e, por mais que muitos modelos sejam apenas pequenas alterações de outros, o investimento no design e na tecnologia é algo constante. Então sim, estás certo em dizer que esta foi uma falha do filme.

    Obrigada pela tua visita e pelo teu comentário. Seja bem-vindo por aqui! Espero que voltes outras vezes para falar de outras produções.

    Abraços e inté!

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