La Faute à Fidel! – A Culpa é do Fidel


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As crianças são capazes dos feitos mais incríveis. Por mais que, muitas vezes, essas suas conquistas sejam quase imperceptíveis (pelos adultos, claro). Mas como explicar a complexidade do mundo, assuntos “cabeludos” como política, economia, desigualdade social, repressão e sexo para as crianças? E tão complicado quanto explicar conceitos como comunismo, aborto, golpes militares, entre outros, é perceber que a falta de compreensão nasce justamente na ausência de diálogo e de cuidado com as pessoas mais próximas. La Faute à Fidel!, um grande filme dirigido com carinho por Julie Gavras, nos faz refletir sobre como as idéias são construídas e repassadas para os demais, provocando erros de interpretação e de compreensão do mundo. Mas, como eu dizia no início, as crianças são capazes dos feitos mais incríveis. Inclusive nos ensinar como mudar completamente nossos conceitos, deixando para trás o que perdemos e valorizando tudo que podemos ganhar neste processo.

A HISTÓRIA: Anna de la Mesa (Nina Kervel-Bey) é uma menina de 9 anos acostumada com a boa vida de uma família da burguesia francesa. Ela gosta de demonstrar, para as demais crianças convidadas para o casamento de sua tia Isabelle (Maria Kremer), como domina a arte de descascar frutas apenas com os talheres. Sua vida é tranquila até a chegada de Marga (Mar Sodupe) e Pilar (Raphaëlle Molinier), sua tia e prima vindas da Espanha. Para proteger a irmã da perseguição dos fascistas espanhóis, o pai de Anna, Fernando (Stefano Accorsi), decide abrigar Marga e Pilar na casa deles em Paris. A partir deste momento, Anna assiste atônita aos seus pais se envolvendo em questões políticas como a luta de Salvador Allende pelo governo do Chile. Sua vida muda radicalmente, com seus pais, Fernando e Marie (Julie Depardieu), mudando para uma casa muito menor do que a que eles tinham até então, Anna sendo proibida de frequentar as aulas de catecismo e tendo que lidar com diferentes babás a cada momento.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a La Faute à Fidel!): Crianças são muito mais abertas a mudanças do que os adultos. Pelo menos é isso o que a ciência comprovou até agora. Para variar, vou citar como fonte uma reportagem recente da revista Superinteressante. Na edição de outubro deste ano, em uma extensa reportagem sobre a formação da personalidade, a Superinteressante revela que as pessoas formam a sua própria personalidade até os 30 anos. Depois disso, fica mais difícil mudar. Mas em La Faute à Fidel!, apenas o irmão de Anna, a protagonista, é flexível. François (Benjamin Feuillet) passa pelas mesmas mudanças radicais que a irmã, mas aceita muito melhor do que ela estas alterações de sua rotina.

A verdade é que Anna representa a inocência e a resistência perfeitas para uma história que mexe com convicções. Inicialmente, ela está preocupada com tudo que começa a perder com a chegada de Marga e Pilar – ela culpa as duas por essas mudanças mas, na verdade, elas são apenas um de vários estopins possíveis para a ação de despertar dos pais de Anna. Primeiro, ela não gosta nada da “invasão” daquelas “estranhas” que não falam francês na sua presença – o idioma é a primeira grande barreira para os preconceitos. Depois, ela odeia a novidade de mudar de casa, deixando a residência com jardim e bastante espaço por um apartamento “pequeno” (não para os padrões parisienses).

Tudo fica pior quando Anna tem que deixar as aulas de catecismo. Vista como uma pária por suas colegas, ela se sente estranha por não participar de algo que as demais fazem sem pestanejar – outra forma de exclusão social. Para completar o “quadro”, seus pais viajam para um país do qual ela nunca tinha ouvido falar, o Chile, e começam a agir como “comunistas” – pessoas consideradas de péssima estirpe, segundo a empregada cubana da família, Filomena (Marie-Noëlle Bordeaux) e os avós maternos de Anna. A nova forma de agir de Fernando e Marie traz para a casa deles um bando de gente estranha, muitos homens barbados, e uma sequência de novas empregadas/babás de nacionalidades e culturas que Anna nem desconfiava que existiam.

Inicialmente, como qualquer pessoa adulta – e muitas crianças, é verdade -, Anna ressiste às mudanças. Ela está mais preocupada com o que perdeu do que interessada em saber tudo que está ganhando e/ou aprendendo. Um erro considerável dos pais de Anna – mas compreensível para que a história se desenvolva da forma com que ela acaba se desenvolvendo – é o de não dialogar com a filha. Muito ocupados com a causa de ajudar Salvador Allende no Chile (especialmente Fernando) e, no caso de Marie, de escrever reportagens/um livro sobre questões feministas como o direito ao aborto, eles não se preocupam em gastar alguns minutos para explicar o que estão fazendo ou mesmo deixar claro conceitos que acabam jogando, direta ou indiretamente, na cabeça da filha, como os de aborto, fascismo, comunismo, luta de classes, entre outros.

Mas Anna, que inicialmente repete os ensinamentos que aprendeu na escola, com Filomena e com os avós conservadores, acaba dando uma lição nos próprios pais ao demonstrar, melhor que eles, que aprendeu a lição sobre o “espírito de grupo”. Para ensinar a filha sobre a importância da união das pessoas por uma causa, Fernando e Marie chegaram a levá-la para uma manifestação pública nas ruas de Paris – algo bastante irresponsável, temos que admitir. À duras penas e especialmente por sua capacidade de observação, Anna aprende na marra como admirar culturas diferentes e a dar valor para o que verdadeiramente interessa – às pessoas, especialmente à família, independente de seus credos, posições políticas ou poder aquisitivo.

Gostei muito da inteligência do roteiro da diretora Julie Gavras, que contou com a colaboração de Arnaud Cathrine. A história em si é uma adaptação do livro Tutta Colpa di Fidel, da escritora italiana Domitilla Calamai. La Faute à Fidel! assume a visão de uma criança de nove anos para envolver o espectador, que dá risadas com as pirraças da menina ao mesmo tempo em que se emociona com suas descobertas. Por estas características, o filme pode ser recomendado para qualquer pessoa, de qualquer idade ou ideologia. Para as crianças, em especial, ele deve chegar de forma muito fácil – e pode servir como um bom exemplo de como certas mudanças podem trazer uma nova realidade mais rica e interessante para as pessoas.

Ainda que La Faute à Fidel! seja um filme indicado para qualquer público, acredito que os extremistas, sejam da parte dos “reacionários” (odeio essa palavra!) ou do lado dos “socialistas”, podem achar La Faute à Fidel! simplista demais. De fato, a preocupação do filme não é problematizar ou explicar de forma contextualizada as situações. A principal qualidade desta produção é a forma irônica com que ela mostra o comportamento dos extremistas das diferentes correntes ideológicas que, sempre que decidem por não dialogar, tornam o mundo pior.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Julie Gavras surpreende não apenas pelo tom acertado do roteiro que escreveu ao lado de Arnaud Cathrine mas, principalmente, pela direção cuidadosa que ela tem com esta sua pequena obra-prima. A direção de atores é fundamental para a história, e a jovem Nina Kervel-Bey segura a complexidade e a perplexidade de sua personagem com classe e talento. A menina está maravilhosa, em uma definição. Méritos dela, claro, mas também de Gavras. Cada ângulo escolhido pela diretora privilegia o trabalho de Nina e dos demais atores.

La Faute à Fidel! também apresenta características técnicas bastante acertadas, começando pela trilha sonora de Armand Amar. Gostei também da direção de fotografia de Nathalie Durand e da edição de Pauline Dairou.

Esta produção foi indicada a dois prêmios, um em Cannes e outro da Academia Brasileira de Cinema, mas perdeu os dois para outras produções – respectivamente para Adama Meshuga’at e Das Leben der Anderen.

La Faute à Fidel! agradou mais a crítica que o público. No site IMDb, o filme recebeu a nota 7,8, enquanto que o Rotten Tomatoes, que linka críticas de diferentes sites, registra 40 críticas positivas e apenas três negativas, o que garante para o filme uma aprovação de 93%.

Vale a pena citar os dois fatos históricos importantes que circundam o drama da família “de la Mesa”: a ditadura de Francisco Franco, na Espanha, que durou de 1939 (com o fim da Guerra Civil) até 1976; e o governo de Salvador Allende, no Chile, interrompido com seu assassinato no dia 11 de setembro de 1973 pelo general Augusto Pinochet. Neste texto da Carta Maior, do ano passado, Maurício Thuswohl comenta como Espanha e Chile começaram a resolver suas contas com seus respectivos passados de ditadura e crimes políticos. Vale a leitura também deste texto da Folha sobre homenagens no Chile para Allende, promovidas este ano, e sobre a reabertura de arquivos da era Pinochet.

O genial diretor Costa-Gavras deve estar orgulhoso. Além de sempre ter sido fiel às suas convicções políticas e ao seu estilo próprio de fazer filmes, ele pode ficar orgulhosa da filha, Julie Gavras. Ela tem experiência como diretora, roteirista e atriz.

E uma curiosidade: a música Ay, Carmela, que marca um dos momentos mais emocionantes do filme, era a música da revolução espanhola, cantada em 1808 e, posteriormente, adaptada para a época da Guerra Civil, em 1936.

Interessante o domínio do ator Stefano Accorsi de pelo menos três idiomas. Italiano, ele fala com perfeição o francês e o espanhol no filme. Julie Depardieu, sua parceira em cena, é filha do ator Gérard Depardieu.

CONCLUSÃO: Um filme irônico, poderoso e, de modo muito natural, bastante curioso sobre família e, principalmente, política e mudanças de comportamento. Bem escrito e bem dirigido, o melhor de La Faute à Fidel! é que ele envolve o espectador de uma maneira tão natural que mesmo temas pesados parecem comuns e perfeitamente capazes de serem absorvidos até por crianças. Narrado por uma menina de nove anos, La Faute à Fidel! questiona o comportamento de opostos como burgueses e revolucionários franceses e espanhóis. E mesmo que o final não pareça feliz – porque a História nos ensina que absurdos acontecem -, a verdade é que Anna dá uma grande lição de crescimento e de que as alternativas existem, especialmente se as pessoas se preocupam em entender verdadeiramente o que acontece ao seu redor. Quem dera que a maioria dos adultos também fosse capaz de mudar de ares e aprender, com mais frequencia, com novas culturas e maneiras de pensar.

SUGESTÕES DE LEITORES: La Faute à Fidel! foi uma ótima indicação da leitura Claudia. Em um comentário no dia 17 de julho deste ano, a Claudia sugeriu que eu assistisse e comentasse o filme que, para a Claudia, tinha sido um dos melhores que ela tinha assistido este ano. Claudia, adorei a tua sugestão. La Faute à Fidel! é um grande filme, realmente. Muito sensível e corajoso, por fazer uma crítica tão sutil a alguns comportamentos considerados “normais” por um ou outro lado da fronteira ideológica de esquerdistas/direitistas.

Apenas não dei um 10 para o filme porque acho que ele “soluciona” de uma forma muito ligeira a mudança no comportamento da protagonista e de seus pais. Acho que o corte narrativo que mostra o cansaço deles com tudo que estava acontecendo e a coragem/clareza de Anna sobre tudo que estava acontecendo e/ou era importante foi um tanto apressado. Mas é um pequeno detalhe em um filme que deve ser recomendado para todos, crianças, adultos, simpatizantes de um lado ou outro na política. Obrigada por tua dica.

Gostei muito de La Faute à Fidel! Mas é provável que eu não tenha escrito um texto à altura do filme porque, infelizmente, estou escrevendo esta crítica várias semanas depois de tê-lo assistido. Tive que escrever outras críticas, para outro site, e agora tenho alguns filmes acumulados para comentar por aqui. Mas pretendo administrar melhor meus compromissos em uma próxima vez. Beijos e apareça, Claudia!

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6 comentários em “La Faute à Fidel! – A Culpa é do Fidel

  1. mas é exatamente o fato de ser tão simplista, que torna o filme tão interessante. Quando se espera um roteiro carregadíssimo de contextualizações políticas, narrativas demoradas de fatos históricos, cenas de guerra, etc..coisas que já estamos acostumados em filmes de temática mais política, encontramos um filme delicado e focado, muito focado na percepção de mundo de uma criança.
    A garota está sensacional, exibindo uma personalidade que mistura inocência, coragem e inteligência, resistindo e enfrentando um mundo inadequadamente adulto demais para ela, naquele momento.

    Taí uma filha que eu adoraria ter..he he

    adorei sua análise do filme, especialmente onde resume muito objetivamente o quanto os extremistas ideológicos desse mundo, as vezes, acabam contribuindo para piorar as coisas.

    bjão

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    1. Oi Alessandra,
      Eu estava viajando e não acessei a WEB por alguns dias.
      Que bela surpresa retornar hoje ao “meu vício” (o teu blog) e ver que você comentou o filme e ainda por cima gostou.
      Saiba que fiquei muito feliz!
      Já vi que há várias novidades comentadas por você para eu assistir. Que bom! Adoro !!

      Seguem mais alguns filmes que assisti em 2009, e acho que você ainda não comentou:
      – Away We Go (Distante Nós Vamos) do Sam Mendes
      – Almoço em Agosto (Pranzo di Ferragosto)
      -O Segredo do Grão (poderia ter sido mais curto, mas gostei)
      – Seraphine
      – Horas de Verão (Heurs d’Ête)

      Beijos (e estou sempre por aqui acompanhando as tuas novidades)
      Claudia

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  2. Olá Mangabeira!!

    Justamente. Estou contigo que é exatamente esta “simplicidade” de intenções que faz o filme ser tão interessante. A narrativa pela ótica daquela menina é o que torna La Faute à Fidel! especial.

    Também gostei da personagem o suficiente para querer uma filha parecida… quer dizer, exceto por aquele comportamento um tanto “birrento” e mimado demais que ela tem em parte da história. hehehehehehe

    Obrigada por teu comentário, mais uma vez. É sempre ótimo ler tuas opiniões.

    Um grande abraço e até a próxima!

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  3. Olá Claudia!!

    Seja bem-vinda, mais uma vez, por aqui.

    Com certeza gostei muito de La Faute à Fidel!. É um filme delicioso, inteligente e bem diferente. Muito bom. Obrigada por esta dica.

    Tinha alguns filmes da tua lista já anotados por aqui, para assistir… o que eu estou mais ansiosa para ver é Seraphine, uma das produções premiadas este ano que parece ser excepcional. Bem, logo mais, quero ver se falo dele por aqui.

    Tuas recomendações, todas anotadas. Obrigada!

    Um grande abraço, beijos e até logo mais.

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  4. Olá Luis Henrique!!

    Antes de mais nada, seja bem-vindo por aqui.

    Nossa, você gostou MUITO mesmo de La Faute à Fidel!, hein?

    Concordo contigo que é um grande filme. Inteligente, sensível, com uma visão diferenciada… agora, acho um pouco de exagero considerá-lo um dos melhores da década. Afinal, os anos 2000 tiveram vários filmes excelentes, excepcionais… da minha parte, pelo menos, outros estariam na frente desta produção francesa.

    Mas fico feliz que tenhas gostado tanto do filme. E agora, o ideal, é que recomendes ele para todos os teus amigos e conhecidos. 😉

    Um grande abraço e obrigada por tua visita e comentário. Espero que voltes por aqui mais vezes.

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