Categorias
Cinema Cinema do mundo Crítica de filme Filme premiado Movie Sugestão de leitores

The Dressmaker – A Vingança Está na Moda

thedressmaker5

Estilo é o que não falta para este The Dressmaker. Antes mesmo do primeiro traje vestido por Kate Winslet aparecer em cena – e são muitos figurinos em jogo aqui -, a trilha sonora, a direção de fotografia e as escolhas da diretora Jocelyn Moorhouse já mostram que este filme tem um DNA importante. Do início ao fim Moorhouse faz boas e planejadas escolhas. Todo elemento e palavra tem uma finalidade. Nada é jogado ao vento. Um filme bem diferente sobre a busca da verdade e por vingança. Divertido, apesar de que, claro, ele não chega a reinventar nenhum gênero.

A HISTÓRIA: Trilha sonora ao estilo western. Um ônibus cruza uma estrada rodeada de campos. Uma menina brinca. Uma mulher olha séria para trás. Um menino está caído no chão com sangue na testa. A mesma menina de antes grita em um carro. Várias cenas antigas se repetem mostrando aquelas crianças, mas sem uma sequência bem definida. O ônibus chega à noite em uma pequena cidade e desce dele uma mulher muito bem vestida. Ela deixa uma máquina Singer no chão, pega um cigarro, olha ao redor e fala: “Voltei, desgraçados”. Esta é a história de redescoberta de Myrtle Dunnage, ou apenas Tilly (Kate Winslet), como ela gosta de ser chamada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Dressmaker): Tenho um fraco por filmes que tem um estilo bem definido. Acho que isso faz falta no cinema. Aprecio, pois, quando a identidade de uma produção é clara, tem um propósito e um estilo artístico que diferencia ela de todas as demais. E isso é algo muito evidente em The Dressmaker.

Claro que apenas o estilo artístico e a identidade planejada pelo realizador(a) não basta. O roteiro tem que ser competente, assim como o trabalho dos atores tem que convencer. Pois bem, acho que tudo isso está presente em The Dressmaker. Depois vamos falar sobre a mensagem e a essência da história, mas antes vou falar sobre o que me impressionou mais nesta produção.

A sequência inicial deste filme é mais do que um belo cartão de visitas. Ela revela muito do estilo da diretora Jocelyn Moorhouse e do tipo de produção que teremos pela frente. Trilha sonora marcante, direção de fotografia perfeita e uma edição ágil e bem precisa. Cada ângulo da sequência inicial, cada cena apresentada, tem um propósito. Não há sobras na narrativa, seja no que vemos ou no que ouvimos. Isso é algo raro no cinema comercial atualmente, tão cheio, muitas vezes, de efeitos especiais e de pouca valorização do conjunto de qualidades que faz o cinema ser a Sétima Arte.

Achei, pois, a sequência inicial de The Dressmaker perfeita. Em pouco tempo vamos descobrir que esta produção com roteiro de Moorhouse e P.J. Hogan, baseada no livro de Rosalie Ham, é uma espécie de “comédia de costumes”, ou seja, uma leitura ácida e um tanto irônica/macabra de uma comunidade do interior da Austrália – mas que, certamente, poderia ser ambientada no interior de diversos países. Sendo assim, não teremos um ritmo frenético, muita ação ou suspense. Claro que há ação e um toque de suspense, mas estes não são os elementos principais da trama.

O que mais interessa em The Dressmaker é o raio-x daquela comunidade de Dungatar no início dos anos 1950 – o filme se passa na pequena cidade australiana em 1951. Neste filme, a exemplo de outros que se debruçam no estilo de vida de um pequeno grupo social, o que importa são as relações humanas e o perfil dos personagens. Neste sentido, o roteiro de Moorhouse e Hogan gasta o tempo exato para aproximar-se de cada personagem – especialmente do núcleo central da trama.

É fundamental para a trama e para o envolvimento do espectador com a protagonista conhecer pouco a pouco as suas motivações, dúvidas e sentimentos. O roteiro acerta ao ir desbravando o mistério do “crime” que teria sido praticado por Tilly pouco a pouco. Afinal, o suspense sempre ajuda a manter a atenção na trama e na história que está sendo contada. Enquanto acompanhamos a protagonista em sua “busca pela verdade” – algo que, naturalmente, sempre vai ter potência no cinema -, também conhecemos melhor aquela pequena comunidade australiana, seus costumes e valores (ou a falta deles).

Além da trilha sonora, da direção da fotografia, do roteiro e do trabalho competente dos atores, outro elemento tem um papel-chave nesta produção: os figurinos. Nem teria como ser diferente já que a protagonista ganha a vida como estilista. As roupas que Tilly produz mudam a rotina da comunidade e, com isso, ela consegue avançar em seu propósito de dar uma qualidade de vida melhor para a mãe, Molly (a ótima Judy Davis), e descobrir o que realmente aconteceu em seu próprio passado.

Comentado os pontos de destaque do filme e o que mais me chamou a atenção nele, falemos sobre a essência da história e o que ela nos diz. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Para começar, aparentemente, a protagonista tem três motivações centrais: conhecer a verdade sobre o próprio passado, reencontrar e resgatar os laços com a mãe e, se ela tiver confirmada a teoria de que foi injustiçada por aquela comunidade, vingar-se deles. Mas, como na vida real, nem sempre as intenções iniciais são plasmadas. A razão principal para isso é que a vida é dinâmica e sempre acontecem surpresas além dos nossos planos iniciais – por isso muitos planos são vãos.

No caso de Tilly, não apenas ela demora bastante tempo para roçar a verdade sobre o que aconteceu com ela quando era criança, como ela descobre que tem um pai bem diferente do que imaginava, perde alguém fundamental e é surpreendida pelas investidas de Teddy McSwiney (Liam Hemsworth). Isso não a impede de realizar o que tinha planejado desde o princípio, mas sem dúvida alguma restringe as suas escolhas e possibilidades.

Alguns podem não gostar, exatamente, da parte final do filme. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mas The Dressmaker não se preocupa com finais felizes. Quem assiste Game of Thrones ou The Walking Dead sabe que está na moda histórias um bocado realistas e com mortes importantes – inclusive de personagens centrais. Isso acontece com The Dressmaker. Tilly acredita que é amaldiçoada – uma bobagem, evidentemente. Mas, de fato ela não tem muita sorte nesta produção. Bem, esta é uma forma de encarar o que acontece com ela. Eu já vejo de outra forma.

Quando retorna para Dungatar 25 anos depois da morte de Stewart Pettyman (Rory Potter), Tilly tem a sorte de resgatar a dignidade da própria mãe, uma mulher abandonada e que provavelmente só não tinha morrido devido à ajuda de um pequeno grupo de pessoas. Sozinha em uma casa cheia de lixo e de dejetos, Molly volta a ter uma casa decente e, pouco a pouco, a conviver em sociedade, não apenas lembrando de fatos esquecidos, mas ajudando a filha a entender a própria história. Apenas por fazer isso Tilly já deveria se sentir muito feliz e honrada. No fim das contas ela conseguiu fazer isso pela mãe dela e ainda conviver com Molly por algum tempo.

Além disso, ao voltar para aquela pequena cidade que a expulsou quando ainda era criança, Tilly retorna o contato com Teddy, um partido incrível que, inacreditavelmente, seguia solteiro. 😉 Mesmo que ele não tem um final feliz, Tilly consegue fazê-lo feliz por um pouco de tempo – e ela também sente o gostinho bom do amor. Como diria o mestre Vinicius de Moraes em seu Soneto de Fidelidade, “eu possa me dizer do amor (que tive):/ que não seja imortal, posto que é chama/ mas que seja infinito enquanto dure”.

Agora, se Tilly fez diferença na vida daquelas duas pessoas positivamente, ela também infligiu naquela pequena comunidade de invejosos, caluniosos, mesquinhos, hipócritas e traidores uma vingança dura. Desta forma ela foi a algoz de pessoas boas e ruins – talvez uma “moral da história” seja que planos de vingança tem este efeito devastador, atingindo quem “merece” e quem é inocente.

Afinal, se Gertrude “Trudy” Pratt (Sarah Snook), Elsbeth (Caroline Goodall, que interpreta a mãe de William), Beulah Harridiene (Kerry Fox, professora de Tilly quando ela era criança), Muriel Pratt (Rebecca Gibney), Percival Almanac (Barry Otto), Evan Pettyman (Shane Bourne) e outros da comunidade até mereciam sofrer um pouco na pele pelos seus próprios pecados, o mesmo dificilmente podemos dizer dos personagens de Marigold Pettyman (Alison Whyte), Irma Almanac (Julia Blake, aparentemente a única amiga de Molly na cidade) ou do sargento Farrat (Hugo Weaving). Dois deles sofrem finais que não são bacanas antes do “grand finale”. Mas é assim que as coisas são, nem sempre os bons tem o final que eles merecem.

Enfim, acho que este filme tem muito mais acertos do que erros. A crônica de uma comunidade corrompida acho que pode fazer as pessoas refletirem, além da diversão propriamente dita que um filme com estilo proporciona. Mas para não dizer que tudo são flores, acho que o roteiro exagerou a tinta em alguns personagens, tornando eles um pouco caricatos demais – o maior exemplo, para mim, é do sargento Farrat. Dá para entender a escolha, já que personagens caricatos são mais fáceis de fazer rir. Mas acho que o filme poderia ser ainda melhor se tivesse personagens que fugissem deste caminho e que fossem um pouco mais “complexos”. Ainda assim, nada que desmereça o conjunto da obra de The Dressmaker.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei muito da direção de Jocelyn Moorhouse. Para mim, em um filme, o trabalho de direção pode ser comparado com o de um maestro de uma orquestra. O diretor ou diretora não deve ter apenas a visão sobre como a história deve ser contada, que dinâmica ela deve ter e seu visual mas, e principalmente, trabalhar com o talento de diferentes profissionais para fazer com que todos os elementos deem certo e conversem, sem que um seja dissonante em relação a outro. Este seria um trabalho perfeito de direção. Para mim, é isso o que Moorhouse consegue em The Dressmaker.

Além de ter muito bem definida a identidade deste filme, ele cuidou de valorizar as paisagens, os cenários internos e externos e, principalmente, o belo trabalho dos atores. Ninguém está mal no filme, aliás. Ainda que o destaque evidente fique com a sempre divina e talentosa Kate Winslet; com Liam Hemsworth que, para mim, está em sua melhor fase neste filme; e para a divina Judy Davis. Esse trio vale o filme. Mas os coadjuvantes citados na crítica também estão muito bem e dão o “molho” necessário para o roteiro funcionar.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Shane Jacobson como Alvin Pratt, o dono do armazém e pai de Trudy; Gyton Grantley como Barney McSwiney, o irmão com deficiência mental de Teddy e que acaba tendo um papel vital na reta final da produção; e Sacha Horler como Una Pleasance, a estilista que o canalha do Evan Pettyman traz para a cidade para tentar acabar mais uma vez com Tilly. Também vale citar o trabalho de Darcey Wilson como Tilly quando era criança; o de Olivia Sprague como Gertrude na infância; o de Alex de Vos como Barney criança e o de Lucy Moir como a jovem Molly.

Como falamos do elenco da parte “antiga” do filme, vale citar o excelente trabalho do diretor de fotografia Donald McAlpine. Ele torna interessante tanto o tempo “atual” da narrativa, ou seja, o início dos anos 1950, quanto a parte “antiga” do filme, no meados da década de 1920. Cada um destes momentos tem uma característica bem diferente, o que ajuda o espectador a se ambientar na história. Um belo trabalho. Excelente também a trilha sonora original de David Hirschfelder, que mistura o estilo de western com o de comédias antigas e até uma Billie Holiday colocada no lugar certo. Muito bom!

Da parte técnica do filme também merecem aplausos a edição precisa e bem costurada de Jill Bilcock; os maravilhosos figurinos de Marion Boyce e Margot Wilson (ela ficou responsável exclusivamente pelo vestuário de Kate Winslet); o design de produção fundamental de Roger Ford; a direção de arte estilosa de Lucinda Thomson; a decoração de set precisa e complementar de Lisa Thompson; o trabalho excepcional da direção de arte com 10 profissionais envolvidos; e a maquiagem com seis profissionais.

Agora, um pequeno comentário sobre um ponto que talvez muitas pessoas se questionem neste filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Afinal, Tilly era mesmo amaldiçoada? Eu não acredito. Mas o que acontece com Teddy é aquilo que pode acontecer com qualquer pessoa que ignora o risco, que se joga em um local sem saber exatamente onde está pisando ou se atirando. Se você ignora o risco, se ignora que realmente pode morrer, você aumenta consideravelmente a chance disso acontecer. Ele foi displicente com o risco e se deu mal, como alguém que mergulha em uma cachoeira sem saber se há pedra sob a água. No caso de Teddy, ele deu azar que ao invés de milho, o silo estava cheio de sorgo. Um cereal menor e mais fácil de ceder com o peso de alguém – ainda mais se essa pessoa estava se jogando de uma altura em que a força da gravidade ajudaria no processo de fundar. Foi isso, nada além.

The Dressmaker estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto em setembro de 2015. Depois o filme participou, ainda, de outros quatro festivais. Nesta trajetória ele faturou 12 prêmios e foi indicado a outros 24. Todos eles foram dados por associações e festivais dentro da Austrália. Para mim, os prêmios de destaque foram conferidos pela Associação de Críticos de Cinema Australianos, que conferiu os prêmios de melhor roteiro, melhor atriz para Kate Winslet, melhor ator coadjuvante para Hugo Weaving e melhor atriz coadjuvante para Judy Davis.

Agora, aquelas tradicionais curiosidades sobre os filmes. Na cena em que o ator Liam Hemsworth tira a roupa para ter as medidas tiradas, as atrizes Kate Winslet e Judy Davis tiveram dificuldades de segurar o riso. Eu entendo. 😉

Kate Winslet aprendeu a costurar por sua própria conta para poder interpretar a protagonista deste filme. Depois, ela acabou ajudando a estilista Margot Wilson a criar as roupas que a sua personagem usou na produção.

A máquina utilizada por Tilly é uma Singer 201K2, até hoje considerada uma das melhores máquinas de costura já inventada. Ela era muito resistente e cara, quando foi lançada, podendo valer o equivalente a seis meses de salário de uma trabalhadora.

A cidade fictícia de Dungatar foi construída completamente do zero e não se parece com nenhuma cidade da região de Victoria, mas ela mescla a ideia do designer de produção Roger Ford para uma cidade do estilo western com características australianas.

As gravações foram adiadas por um ano para esperar o fim da gravidez de Kate Winslet. Quando as filmagens foram feitas, várias vezes elas tiveram que ser interrompidas por causa da aparição de emas selvagens. 😉

A diretora Jocelyn Moorhouse descreveu The Dressmaker como Unforgiven (grande filme, aliás) com uma máquina de costura.

Este é o primeiro filme de Jocelyn Moorhouse desde A Thousand Acres, de 1997. De acordo com o site IMDb, a diretora tem dois filhos com autismo e grande parte do tempo que ela passou fora do cinema foi para cuidar deles. Dei uma olhada na filmografia dela e vi que a diretora tem apenas cinco longas no currículo. Além de The Dressmaker e A Thousand Acres, ela filmou How to Make an American Quilt (1995), Proof (1991) e Pavane (1983).

Este é um filme 100% da Austrália. Ainda segundo o IMDb, The Dressmaker foi a segunda maior bilheteria australiana de 2015 e a 11ª maior da história do cinema australiano.

Para quem gosta de saber o local em que os filmes foram rodados, The Dressmaker foi totalmente rodado na Austrália, em locais como Horsham, em Victoria; Sun Theatre, em Yarraville, Victoria; nos Dockland Studios, em Melbourne, Victoria; e Mount Rothwell, em Little River, também Victoria.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para o filme, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 33 críticas positivas e 19 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 65% e uma nota média 5,9. Achei que a avaliação da crítica poderia ter sido um pouco maior.

CONCLUSÃO: Um filme com princípios e mensagens muito claras. Com DNA. The Dressmaker é bem construído no visual, na narrativa e na escolha de um equilíbrio quase perfeito entre drama, sarcasmo, romance e uma pequena pitada de suspense (na parte de “investigação pessoal”). A história, em si, é bastante simples, mas ela fica “floreada” e interessante pelos detalhes da produção e pelo belo trabalho dos atores. Não é um filme inesquecível, mas certamente ele está acima da média. Vale conferir.

SUGESTÕES DOS LEITORES: Opa, fazia tempo que eu não tinha o prazer de usar esta seção aqui no blog. Ainda que eu sempre prefira que vocês, meus caros leitores e leitoras, utilizem o espaço dos comentários aqui do blog para sugerir e comentar filmes, desde que eu criei a página do Crítica (non)Sense da 7Arte no Facebook, recebi alguns comentários e sugestões em recados que recebi por ali. Um deles foi o da Katia Oliveira (que, misteriosamente, não consigo mais ver o sobrenome) e que, no dia 4 de abril, me mandou uma mensagem sugerindo que eu visse a The Dressmaker. Muito bem, Katia, aqui está a crítica sobre o filme. Espero que ela te ajude a tirar algumas dúvidas sobre o filme ou a complementar a tua visão sobre ele. Abraços!

Categorias
Cinema Cinema norte-americano Crítica de filme Movie Sugestão de leitores

A Walk Among the Tombstones – Caçada Mortal

WAT_31_5_Promo_4C_3.indd

Filmes de ação que mostram um longo e doloroso processo de vingança fazem parte da história do cinema. Dezenas deles já foram feitos. Outros tantos também se debruçam no perfil de policiais que tiveram um problema grave em sua trajetória, o que fez eles mudarem de rumo. A Walk Among the Tombstones junta estas duas vertentes de filmes de ação sem reinventar a roda mas, ao mesmo tempo, respeitando a inteligência e o bom gosto do espectador.

A HISTÓRIA: Nova York, 1991. O policial Matt Scudder (Liam Neeson) escuta algumas recomendações do colega policial, Danny Ortiz (Maurice Compte). No puxão de orelha, Ortiz diz que está preocupado com Scudder, e que ele não está afundando apenas a si mesmo, mas colocando o parceiro em risco também. Scudder entra no bar e recebe o de sempre: duas doses de destilado e um café, enquanto lê o jornal.

Mas logo entram criminosos no local, que atiram no dono do bar (Patrick McDade). Scudder persegue os criminosos e acaba matando os três. Cenas de uma mulher. Corta. Nova York, 1999. Scudder está lendo o jornal em uma lanchonete quando chega Peter (Boyd Holbrook), que ele conheceu em uma reunião do AA (Alcoólicos Anônimos). Como detetive particular, Scudder é chamado para ajudar o irmão de Peter, Kenny Kristo (Dan Stevens), que está vivendo um drama pessoal pesado.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a produção A Walk Among the Tombstones): Gosto do Liam Neeson. Ele é um ator que soube, pouco a pouco, se especializar em um tipo de papel e de filme bem específicos. A expressão dele é dura, e a seriedade no semblante convence toda vez que ele encarna o personagem de durão. Funciona, em especial, em filmes como este A Walk Among the Tombstones, em que Neeson não é apenas um sujeito durão, mas um homem que tem uma dívida profunda com o próprio passado.

Os primeiros minutos desta produção juntam dois gêneros com filmes bem interessantes: western e os film noir. São momentos eletrizantes e que provocam o espectador, servindo de um belo cartão de visitas do diretor e roteirista Scott Frank. Pouco depois, mergulhamos em alguns lugares-comuns, como o protagonista sendo convidado para investigar um crime que levará ele a confrontar o próprio passado e escolhas equivocadas que ele tomou.

O ex-policial Matt Scudder, há vários anos frequentando encontros de AA, é levado por um colega deste ambiente a encontrar um sujeito com o qual ele jamais trabalharia em conjunto no passado: o traficante Kenny Kristo. No início, achei o ator Dan Stevens muito ruim. Mas pouco a pouco vamos entendendo aquele jeito estranho do personagem – ainda que, na comparação com Neeson, ele fique sempre atrás. O mesmo acontece com o ator que interpreta o irmão dele, Boyd Holbrook. Todos se esforçam, mas nenhum deles consegue realmente convencer em seus papéis. Atores melhor preparados teriam conseguido um resultado melhor com estes mesmos personagens.

Mas voltando para a história: Scudder acaba caindo no enredo de vingança pessoal de Kenny de uma forma um tanto previsível – primeiro ele nega trabalhar para ele, depois acaba cedendo porque percebe que deve contribuir para terminar com uma série de crimes cruéis. A lógica é que se existe alguém pior para ser combatido, por que não se juntar com alguém que você desprezaria normalmente?

Como nos film noirs clássicos, aqui também o limiar entre o herói e o bandido muitas vezes tem a densidade de uma fumaça. Daí que no decorrer da história surge o garoto TJ (Brian “Astro” Bradley). O protagonista encontra ele “vivendo” na biblioteca onde ele começa a investigar crimes similares ao da mulher de Kenny. Volta e meia o garoto surge, principalmente para o protagonista exercer um pouco de sua verve paterna e cheia de conselhos sábios. Daí que eu não sei vocês, mas eu fiquei me perguntando se essa era realmente a finalidade do garoto: servir de trampolim para um pouco de filosofia contra o crime do ex-policial Scudder.

Muitas vezes o personagem de TJ me parecia uma tentativa do roteirista em dar um lado mais “humano” e um pouco “cômico” para a história, para que ela não ficasse macabra demais. Fiquei feliz quando vi que o garoto tinha um propósito maior e uma participação decisiva na reta final da produção. Desta forma, o personagem de TJ nos faz pensar de como nem sempre percebemos que relações “sem grande importância” aparente podem ser, no fim das contas, decisivas em determinados momentos das nossas vidas.

Quem disse que um filme de ação não pode ter um pouco de filosofia no meio? 🙂 O desenrolar da trama, propriamente dita, ocorre de maneira um tanto previsível e sem nenhuma inovação narrativa. Há um começo, um meio e um fim. Pouco a pouco o experiente Scudder vai montando o quebra-cabeças do perfil dos criminosos até que, de forma inteligente, ele alerta através de Kenny outros bandidos que tinham as características de possíveis futuros alvos dos bandidos.

Não demora muito para que um novo caso ocorra – afinal, o roteirista tinha pressa para deslanchar o filme. Esqueçam o modus operandi normal de uma dupla de serial killers que, normalmente, dão um certo espaço de tempo entre um crime e outro. Em A Walk Among the Tombstones esses tempo não existe. Logo depois de estuprar, matar e esquartejar a mulher de Kenny, os criminosos Ray (David Harbour) e Albert (Adam David Thompson) querem mesmo é atacar a próxima vítima.

Interessante como o filme de Scott Frank, baseado na obra homônima de Lawrence Block, desconfia dos “homens da lei”. Além de termos um protagonista que se arrepende de um ato do passado, quando ele era alcoólatra e acabou matando não apenas três bandidos, mas causando também a morte acidental de uma menina, temos ainda dois criminosos interessados em dinheiro e que tem um gosto macabro por cortar pessoas que trabalhavam para o DEA (Drug Enforcement Administration ou, em uma tradução livre, Órgão para o Combate das Drogas). Ironia e autocrítica pura.

O filme vai bem, especialmente pelo trabalho de Neeson, até que o protagonista começa a negociar com os bandidos. Claro que há diálogos bons ali, mas fica especialmente estranho quando Scudder fala para Ray que conhece ele, que lembra do “maldito degenerado” que ele conheceu há 10 anos e que ele jogou por uma janela. Hein? Essa é a parte comprometedora do roteiro. Porque em nenhum momento da produção, antes, ficamos sabendo dos dois terem se esbarrado ou conhecido. Até aquela troca de diálogos, não há nenhum indício de que eles tiveram algum encontro antes.

Essa é uma lacuna importante da trama que, até então, estava bem amarrada. Ok, alguém pode argumentar que a fala de Scudder era genérica. Que ele não estava falando especificamente de Ray, mas de qualquer maluco com aquele perfil que ele tivesse encontrado 10 anos antes. Com bastante esforço de imaginação, até podemos pensar nisso. Mas francamente, da forma com que os diálogos foram escritos, não é isso que aparenta. E por mais que Scudder seja bom, fica um pouco difícil de acreditar que os bandidos jogariam o jogo dele daquela forma tão facilitada.

Se eles eram, de fato, e como nos quer fazer acreditar o roteirista e diretor, tão cruéis, dificilmente eles dariam margem para o azar para ganhar uma bolada de mais um traficante. Sendo perseguidos da forma com que eles estavam, era muito mais lógico, segundo o pensamento dos criminosos, matar a refém e partir para uma série de novos crimes longe dali. Mas bueno, o filme precisa seguir, e Scott Frank escolhe o caminho mais rápido para terminar essa história.

Na reta final da trama, gostei das perdas que ocorrem na história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, Kenny era um traficante que vivia bem, mas não tinha vocação para ser um bandido familiarizado com o confronto. E o irmão dele, o pobre Peter, tinha deixado bem para trás a experiência com o rifle – recentemente ele estava mais alucinado com drogas e com a culpa do que afiado no gatilho. Os dois são mortos no confronto com bandidos muito mais experientes e preparados para tudo.

Esta conclusão, junto com outra lição de moral de Scudder para TJ, quando o garoto está com uma arma que pegou em um beco, reforçam as boas intenções do filme – que apesar de cruel, deixam essa mensagem de que o confronto e a busca de vingança contra bandidos nunca é a melhor saída. No fim das contas, Scudder não apenas ajudar a resolver a mais uma série de crimes, como também, através dos cuidados com TJ, ajuda a resolver o próprio passado. Uma trama interessante, bem contada, apesar de uma ou outra falha aqui e ali. E com o grande Liam Neeson.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Ajuda bastante na história e funciona muito bem a mudança de visual do personagem de Matt Scudder. Ele começa “sem limites”, com atitude típica de quem vive acima do razoável (leia-se alcoólatra) e com uma pegada de western e, passado aquele momento decisivo na vida e nas certezas do personagem, ele surge sóbrio não apenas na atitude e na forma de falar e caminhar, mas também no visual. Acerto importante auxiliado pelos profissionais responsáveis pelo figurino (Betsy Heimann) e pela maquiagem (Shellie Biviens, Maya Hardinge, Craig Lindberg, Amanda Miller, Kyra Panchenko e Kerrie Smith).

Falando na parte técnica do filme, além da direção bem afinada de Scott Frank, vale citar o ótimo trabalho do diretor de fotografia Mihai Malaimare Jr., livremente inspirado nos film noir e nos western e que, desta forma, sabe valorizar bastante o jogo entre luzes e sombras.

A trilha sonora de Carlos Rafael Rivera aparece em momentos pontuais e ajuda a colocar a trama no compasso adequado, que faz o espectador relembrar de filmes de crime de algumas décadas atrás. Outro nome importante para a produção é o de Jill Savitt, responsável pela edição do filme.

A Walk Among the Tombstones estrou no dia 18 de setembro em 13 países, incluindo Dinamarca, Israel, Itália e México. No dia seguinte, o filme estreou em outros nove países, incluindo Canadá, Reino Unido e Estados Unidos.

A produção, que teria custado cerca de US$ 28 milhões, conseguiu nas bilheterias, apenas dos Estados Unidos, pouco mais de US$ 26,3 milhões até o dia 19 de setembro, de acordo com o site Box Office Mojo. No restante dos países do mundo onde já estreou, a produção conseguiu quase US$ 26,9 milhões. Ou seja: a produção conseguiu se pagar e, agora, busca lucrar. Deve conseguir isso.

A Walk Among the Tombstones foi totalmente rodado em Nova York, nos Estados Unidos. A cidade, querendo ou não, acaba sendo uma personagem adicional da trama.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção: a atriz Ruth Wilson filmou diversas cenas como Joe Durkin, personagem que na obra original é feita por um homem. Ela deveria atuar como parceria do protagonista, mas acabou tendo todas as cenas deletadas na versão final do filme porque o diretor achou que a história funcionaria com o protagonista em uma cruzada solitária. Cá entre nós, acho que ele teve razão.

De acordo com o site IMDb, graças à popularidade do ator Liam Neeson em outros filmes de ação, A Walk Among the Tombstones já estava no lucro antes mesmo de ser lançado por causa das vendas robustas que a produção conseguiu nos diferentes mercados mundo afora. Interessante. Liam Neeson, de fato, virou uma grife.

Esta é a segunda vez que o personagem de Matt Scudder aparece em um filme. A aparição anterior foi na produção 8 Million Ways to Die, quando o personagem foi vivido por Jeff Bridges.

O personagem de Matt Scudder aparece em uma série de 17 obras do escritor Lawrence Block. Ou seja, há bastante trama ainda para ser explorada no cinema – espero que com Liam Neeson ou atores deste calibre.

Há alguns personagens secundários da produção que ganham certa relevância. Do time de mulheres, geralmente vítimas, estão Laura Birn como Leila Alvarez; Razane Jammal como Carrie Kristo; Marielle Heller como Marie Gotteskind; Liana De Laurent como a mulher do traficante Yuri Landau (Sebastian Roché), e Danielle Rose Russell como Lucia, filha do traficante. Por falar no personagem de Roché, interessante ver a esse ator veterano em ação novamente, ainda que em um papel tão secundário.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 84 avaliações positivas e 43 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 66% e uma nota média de 6,1. De fato, o filme deve merecer uma nota nesta média, talvez próximo de 7… dei uma avaliação muito melhor, admito, porque sou fã de Neeson. 😉

CONCLUSÃO: Produção dura, com uma pegada obscura e algumas vezes pesada, A Walk Among the Tombstones só é tão bom porque tem Liam Neeson como protagonista. Este ator, a exemplo de Clint Eastwood, se especializou de uma maneira tão profunda que virou grife de certos filmes: os de ação. Ele está perfeito como o protagonista em busca de redenção que ajuda um traficante a buscar vingança. A dupla inusitada acaba se justificando conforme vamos conhecendo mais sobre cada personagem. O desenrolar da história é bom, apesar de uma pequena falha no caminho. Mas nada que comprometa muito a mensagem que o filme quer passar. Envolvente, apesar de alguns atores fracos, esta produção vale o ingresso. Ainda que apenas requente várias premissas já trabalhadas antes em outros filmes do gênero. Só que Liam Neeson está lá para salvar esta e qualquer outra produção.

Categorias
Cinema Cinema europeu Crítica de filme Filme premiado Globo de Ouro 2014 Movie Oscar 2014 Sugestão de leitores

Jagten – The Hunt – A Caça

jagten1

Alguns diretores dificilmente decepcionam. Eles normalmente apresentam um trabalho interessante. Thomas Vinterberg é um destes casos. Jagten tinha passado por mim sem merecer a devida atenção. Isso porque eu não tinha percebido o nome que está à frente da produção. Ao perceber que era um trabalho de Vinterberg, observar que o protagonista era o ator da série Hannibal e receber uma indicação contundente de um colega jornalista, não tive dúvidas que eu deveria abrir uma exceção e assistir ao filme mesmo “atrasada”. Ainda bem que fiz isso. Esta produção é simplesmente imperdível.

A HISTÓRIA: Um grupo de amigos aposta quem vai mergulhar primeiro em um lago no inverno. Crianças passam de bicicleta, e outras pessoas da comunidade se aproximam para ver a cena de marmanjos se desafiando na brincadeira. É novembro, e é preciso muita coragem para tirar os casacos, quanto mais para mergulhar nu na água gelada. O primeiro a pular começa a ter cãibras, e Lucas (Mads Mikkelsen) entra com roupa e tudo para ajudá-lo. Ele faz parte do grupo de amigos que sempre se reúne para caçar, beber e falar besteiras, e trabalha como professor em um jardim de infância. Amigo próximo do casal Theo (Thomas Bo Larsen) e Agnes (Anne Louise Hassing), Lucas vai enfrentar uma perseguição grave quando a filha deles, Klara (Annika Wedderkopp) se irrita com ele.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes da produção, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Jagten): Sempre gostei muito do estilo de direção e dos textos de Vinterberg. Seus filmes mergulham no cotidiano dos personagens e, ao chegar tão perto deles, especialmente de grupos – sejam eles de amigos ou famílias -, revela toda a gama de sentimentos possível e as ações provocadas por eles. É um estilo de cinema psicológico.

Jagten não foge desta filmografia. Ainda que a família, mais uma vez, seja um elemento importante na produção, aqui os grupos sociais ganham protagonismo. E foca em um tema que é muito delicado – e conhecido bem pela sociedade brasileira desde o caso da Escola Base: o risco das denúncias sobre abusos contra crianças.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O ótimo roteiro de Vinterberg e Tobias Lindholm nos transportam para um caso clássico de denúncia de abuso sexual contra crianças. Klara fica muito próxima de Lucas e, irritada com as barreiras que ele coloca em determinado momento, fala “besteiras” para a coordenadora do jardim de infância, Grethe (Susse Wold). A lógica da mulher é compreensível: como uma criança como Klara pode inventar que Lucas tem um “pau levantado”?

A afirmação é chocante, de fato. Mas o que vem depois é ainda mais aterrador. Afinal, a própria Klara tenta falar, em mais de uma ocasião, que tudo aquilo é uma grande bobagem. Que Lucas não fez nada. Mas os adultos, especialmente os pais da menina, tão preocupados em que a criança estaria voltando atrás por medo de represálias, não querem saber de ter dúvidas. E esse é o problema central deste caso e de tantos outros. Quando as pessoas abrem mão da dúvida.

O alerta principal desta produção está no perigo do julgamento, tão alimentado pela crueldade dos dias atuais, feito muitas vezes às pressas por um coletivo qualquer. Algumas vezes este julgamento é feito por comunidades no interior, como a mostrada pelo filme. Outras vezes, por grupos na internet ou em outros espaços que permitem a manifestação coletiva. As pessoas tem pressa, e isso para mim está ficando cada vez mais claro nos diferentes ambientes sociais, em classificar, rotular, julgar.

Jagten, este filme brilhante, mostra o perigo do que isto pode representar. Rapidamente Grethe assume a premissa de que Klara foi abusada por Lucas. E incentiva os pais que tem filhos no jardim de infância a tentarem tirar informações das crianças. A psicologia explica como a sugestão pode ser decisiva no caso de crianças. E é assim que, rapidamente, todos entram na mesma história fantasiosa. Grave também é a postura dos pais de Klara que, mesmo sendo grandes amigos de Lucas, não duvidam em nenhum momento do que está acontecendo.

O roteiro de Vinterberg e Lindholm é brilhante porque vai crescendo com o tempo e cerca todas as variáveis de uma história deste gênero. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Todas as pessoas duvidam de Lucas, exceto o filho dele, Marcus (Lasse Fogelstrom), personagem decisivo para a virada que acontece na produção. A reação do grupo de habitantes daquela cidade, incluindo a nova namorada do protagonista, Nadja (Alexandra Rapaport) chega a abalar a convicção do espectador.

Afinal, quem garante que assistimos às cenas fundamentais? Lucas teve a oportunidade de abusar de Klara, mas não parece ter a motivação. Mas nunca se sabe… A incerteza dura pouco tempo, mas chega a existir. O que reforça, ainda mais, a qualidade do filme em mostrar uma realidade delicada e que divide opiniões. Mas como ocorreu no clássico exemplo da Escola Base, os efeitos do julgamento precipitado do caso Klara e Lucas são devastadores.

O tema abuso infantil é muito delicado, não há dúvida disso. É preciso cuidar para não traumatizar ainda mais as crianças, fazer justiça e, ao mesmo tempo, apurar a situação bem para impedir novos abusos. Dá para entender a angústia e a indignação dos pais. Mas também é possível se colocar no lugar do acusado. Um filme completo, pois. E aí outro ponto fundamental desta produção: afinal, quem é a caça e quem é o caçador?

A sequência final mostra a insegurança que sempre vai acompanhar o protagonista. Aquele episódio nunca será apagado, apesar de ter sido desmentido. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O final pode ter múltiplas interpretações (e, antes que alguém me pergunte, acho que nenhuma delas é equivocada): de fato, aquele tiro existiu; ou, ao contrário, ele representa apenas o sentimento de perseguição constante de Lucas. Se o primeiro caso é o verdadeiro, quem teria efetuado o tiro? Dificilmente um dos integrantes do grupo erraria o disparo, correto? Então teria sido o filho de Lucas – o único inexperiente que poderia errar aquele tiro?

Perguntas que não precisam ser respondidas porque, como perguntas, elas já atingem o objetivo proposto por Vinterberg. Todos estes elementos fazem esta nova produção do diretor dinamarquês ser brilhante. Especialmente pelo questionamento do perigoso comportamento de manada e do, para mim cada vez mais frequente, método de julgamento precipitado das pessoas nas mais diferentes situações. Espero que Vinterberg siga com este foco, questionando os desvios sociais e familiares. Os espectadores que gostam de ser desafiados agradecem. 🙂

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Estou fascinada pelo trabalho do ator Mads Mikkelsen. Ele é brilhante. Além de ser um nome fundamental nesta produção, ele é o grande responsável pelo sucesso da série Hannibal. Não há dúvida de que Mikkelsen, ao lado de Annika Wedderkopp, que interpreta a Klara, e o pai dela, interpretado por Thomas Bo Larsen, são os nomes fortes de Jagten.

Falando no título original do filme, fui atrás para saber o que Jagten significa. A palavra, segundo o tradutor do Google, significa “procurar”. Um sentido muito mais amplo que “the hunt” que, este sim, tem paralelo com o título dado em português. Procurar, por sua vez, pode significar sim o gesto de buscar um alvo, uma caça, mas também um culpado.

Algumas cenas de Jagten mexem com o brio do espectador. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Da minha parte, fiquei muito indignada com a reação dos pais de Klara desde o início e, especialmente, com a sequência de Lucas no supermercado. Não apenas pela injustiça que o protagonista sofreu naquela sequência com vários “machões”, mas porque eu conheço muitos homens que seriam capazes de agir daquela forma.

A direção de Vinterberg é toda centrada na atuação dos atores e em suas ações, aproximando o espectador do que está acontecendo e, também, dos sentimentos explorados pela trama. Assim, nos sentimos “envolvidos” com a situação. Ajuda neste envolvimento o ótimo ritmo do texto do diretor com o parceiro Tobias Lindholm. Conhecemos, de forma muito planejada, aquele grupo de amigos, a confiança que eles tem um nos outros e, ao mesmo tempo, a relação superficial desenvolvida naquele meio.

Como na maioria das sociedades desenvolvidas, aquela que assistimos no filme mantém uma certa distância entre as pessoas. Lucas percebe que o casal Theo e Agnes tem problemas, mas ele não se envolve. Esta barreira é quebrada quando todos acreditam que algo errado está acontecendo. Daí que aquela “proximidade” que a pequena comunidade parecia ter cai por terra, já que ninguém, de fato, se conhecia ou convivia – apenas mantinham uma relação superficial.

O roteiro de Jagten acerta em cheio no ritmo e ao apresentar rapidamente para o espectador todos os elementos importantes para a história. Depois de conhecermos a relação entre aquele grupo de amigos que caçam juntos, logo acompanhamos a proximidade de Lucas com Klara e seus pais.

A menina ganha protagonismo na primeira parte do filme, especialmente, com aquela cena do irmão dela, Torsten (Sebastian Bull Sarning) e do amigo não passando desapercebida. Pelo contrário, quando ela acontece, achei a proposta descolada, estranha, até que, na sequência, ela se justifica perfeitamente. Estas agressões cotidianas, muitas vezes, passam assim desapercebidas mas, no final das contas, podem ter um impacto grande para algumas pessoas – especialmente crianças.

Além dos atores já citados, vale destacar o trabalho de Lars Ranthe como Bruun, o único amigo de Lucas, e padrinho de Marcus, que fica ao lado do professor condenado antes da hora; Daniel Engstrup como Johan, o amigo grandão da turma que confronta Lucas em mais de uma ocasião; e Bjarne Henriksen como Ole, chamado por Grethe para falar com Klara e que, no fim das contas, acaba induzindo as respostas da menina. Oyvind Hagen-Traberg é o açougueiro que protagoniza uma das sequências mais fortes da produção, junto com Allan Wibor Christensen, que interpreta ao ajudando do açougueiro, e Nicolai Dahl Hamilton, que atua como um tipo de gerente do supermercado.

Da parte técnica do filme, vale destacar a direção de fotografia precisa de Charlotte Bruus Christensen, que atua bem nas mais diferentes situações, com destaque, em especial, para as cenas noturnas. Muito bom, também, o trabalho dos editores Janus Billeskov Jansen e Anne Osterud.

Antes eu citei o Caso da Escola Base. No próximo ano, em 2014, o caso que envergonha a mídia do país completa 20 anos. Até hoje ele é lembrado como um exemplo a não ser seguido, ainda que, diariamente, meios de comunicação dos mais diferentes portes repitam injustiças como aquela da mesma forma. Só que sem tanta projeção – ou crítica sobre este equívocos, vai saber… Jagten não explora o peso da mídia para que uma injustiça como aquela possa ser difundida. E nem precisa. O equívoco da Escola Base e da história de Jagten tem elementos anteriores, especialmente esta pressa em condenação e julgamento da sociedade – difundida e ampliada pela mídia, no caso brasileiro.

Para quem não lembra muito da história da Escola Base, deixo aqui algumas leituras. Para começar, estes textos – um que fala da condenação dos meios e outro que relembra os equívocos passado algum tempo, em 2005 – e, depois, estes vídeos – este trabalho de estudantes que relembra o episódio; mais esta reportagem 18 anos após o ocorrido e, finalmente, esta entrevista com o jornalista Valmir Salaro que recorda o papel dele e da imprensa.

Jagten teria custado US$ 3,8 milhões e arrecadado, nos Estados Unidos, em quase um mês de exibição nos cinemas, quase US$ 459 mil. Evidente que o filme não está tendo uma grande repercussão na terra do Tio Sam. Na Holanda, a produção conquistou pouco mais de 1,24 milhão de euros. Não há informações, por enquanto, sobre o resultado do filme no acumulado das bilheterias pelo mundo.

Esta produção estreou em maio de 2012 no Festival de Cannes. Depois, a produção passaria por outros 18 festivais, incluindo os de Karlovy Vary, Toronto, Zurich, Londres, São Paulo, entre outros. Nesta trajetória, Jagten recebeu 10 prêmios e foi indicado para outros oito. Entre os que ganhou, destaque para os prêmios de Melhor Ator, Prêmio do Júri Ecumênico e o Prêmio Vulcain para Artista Técnico (para a diretora de fotografia Charlotte Bruus Christensen) no Festival de Cannes de 2012; assim como o prêmio de Melhor Roteiro no European Film Awards; e os prêmios de Melhor Filme pela escolha do público e o Canvas Audience Award entregue para Thomas Vinterberg no Festival Internacional de Cinema de Ghent, na Bélgica.

Jagten foi totalmente rodado na Dinamarca, com a cena da igreja rodada na cidade de Taastrup. Aliás, esta é uma produção 100% dinamarquesa.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para esta produção. Uma avaliação muito, muito boa, para os padrões exigentes do site. O filme também caiu no gosto da crítica. O site Rotten Tomatoes traz 94 avaliações positivas e apenas cinco negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 95% e uma nota média de 7,9 – também muito acima da média do site. Devo dizer que concordo com a maioria, desta vez. 🙂

Esta nova produção de Vinterberg entrou e saiu do meu radar. Queria assistir ao filme, mas perdi o tempo de fazer isso e ele caiu na minha gigante lista de “filmes que passaram”. Até que o meu colega Jacson Almeida, com quem eu tive o prazer de trabalhar nos meus últimos dias no Diário Catarinense, me provocou a assisti-lo. Jacson, caso você passar por aqui e ler este texto, quero publicamente agradecer pela provocação. Como podes ver, adorei o filme. 🙂

Thomas Vinterberg é um destes diretores que vale conhecer a filmografia. Além do clássico Festen, que abalou o cinema mundial com a filosofia do Dogma95 em 1998, destaco Dear Wendy, de 2004. Infelizmente não publiquei a crítica de nenhum dos dois porque comecei este blog depois. Por outro lado, aqui você pode ler a crítica de Submarino, outro trabalho do diretor que vale ser visto.

ADENDO (incluído no dia 7/10): Hoje saiu a lista dos 76 países que estão habilitados a concorrer a uma das vagas na categoria Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2014. Fiquei muito feliz ao ver que Jagten está lá, na lista, representando a Dinamarca. Achei muito merecido. E espero que o filme consiga avançar e chegar até a lista dos cinco indicados.

CONCLUSÃO: Há tempos eu queria assistir a um filme que realmente prendesse a minha atenção do primeiro até o último minuto. Não encontrava nada do gênero até pegar este Jagten pela frente. Há uma grande diferença entre uma produção que você assiste, admira, saboreia, mas que não te prende a atenção e mexe com você e uma que faça tudo isso. Muito bom reencontrar Vinterberg, um dos grandes nomes do novo cinema europeu, em sua melhor fase.

Jagten trata de um tema delicado e de forma angustiante. Não apenas porque envolve crianças, mas especialmente porque trata desta crueldade de grupos sociais que pode destruir um indivíduo ou uma família com precisão e de forma muito “natural”. Aliás, o cinema de Vinterberg amadureceu no uso da filosofia do Dogma95 e, assim, acompanhamos de perto e da forma mais “realista” possível a história de uma comunidade, suas relações e a personalidade dos protagonistas.

Um verdadeiro deleite artístico e que mexe com os nossos conceitos. Com um roteiro primoroso e interpretações precisas e envolventes, especialmente dos protagonistas, Jagten nos provoca enquanto dura a produção e, depois, faz refletir sobre os nossos próprios julgamentos e reações quando estamos envolvidos em grupos. Perfeito, do início ao fim e depois.

PALPITE PARA O OSCAR 2014: Não sei se Jagten terá fôlego para ganhar o Oscar, até porque é uma produção forte, que toca em um assunto complicado. Mas não tenho dúvidas que ele merece chegar até perto da estatueta dourada, pelo menos, até para que possa ser visto por mais pessoas. Afinal, o Oscar dá muita visibilidade para qualquer produção que chega a ser selecionada. Logo mais veremos… Ainda preciso assistir aos outros concorrentes ao Oscar 2014, mas inicialmente eu estou torcendo por Jagten.

ATUALIZAÇÃO (21/12/2013): A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou ontem, dia 20 de dezembro, a lista de filmes que avançaram na disputa da categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Jagten é um dos filmes que avançou na tentativa de uma indicação ao prêmio. As outras produções que constam na lista são as seguintes: The Broken Circle Breakdown (Bélgica), An Episode in the Life of an Iron Picker (Bósnia e Herzegovina), The Missing Picture (Camboja), Two Lives (Alemanha), The Grandmaster (Hong Kong), The Notebook (Hungria), La Grande Bellezza ou The Great Beauty (Itália) e Omar (Palestina).

Categorias
Cinema Cinema alemão Cinema espanhol Cinema europeu Cinema francês Crítica de filme Filme premiado Globo de Ouro 2012 Movie Sugestão de leitores

Carnage – Deus da Carnificina

Todos são muito civilizados. Até que cada um começa a ser contratariado. Esta não é a história apenas dos personagens principais do ótimo Carnage. Mas de cada um de nós. Como lidamos com o contrário, com o diverso, com a quebra de nossas certezas, diz muito sobre quem somos. Este filme de atores, que ganha força pelo ótimo roteiro e pelo trabalho dos protagonistas, expõe as fragilidades, contradições e a violência domada pela sociedade que, volta e meia, vem à tona quando as pessoas perdem o controle e as barreiras da civilização. Altamente recomendado se você não tem problemas com um filme rodado, totalmente, em um ambiente, e que abre mão das cenas de ação para apostar em uma outra forma de cinema.

A HISTÓRIA: Um grupo de crianças conversa e brinca em um parque. Enquanto alguns meninos jogam bola uns para os outros, outros começam a caminhar, até que um garoto parece desagradar aos demais. Ele é empurrado, e também empurra. O garoto parece levar um galho antigo em uma das mãos, e o utiliza para bater em um desafeto, no rosto. Na saída, ele responde a outros garotos e derruba uma bicicleta. Corta. Uma mulher escreve, no computador, uma declaração sobre o que aconteceu. Ela é Penelope Longstreet (Jodie Foster), mãe do garoto que foi golpeado, e chamou os pais do agressor, Nancy (Kate Winslet) e Alan Cowan (Christoph Waltz) para uma espécie de “acordo amigável”. O que começa bem vai se transformando conforme Penelope e o marido, Michael (John C. Reilly) vão interagindo com Nancy e Alan.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta partes importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Carnage): Eis um filme fascinante, que mostra como grandes atores interpretando um roteiro impecável podem entreter tanto ou mais que milhões investidos em efeitos especiais. Uma ode a ótimos intérpretes que retratam a ironia da nossa civilização, que gasta tanta energia para educar-se e ascender socialmente, mas que segue rastejando em sentimentos e reações de cólera e que nos lembram aos animais mais irracionais.

O diretor e roteirista Roman Polanski faz mais um grande trabalho aqui. Talvez, um dos melhores de sua carreira. Produção universal, e que não deverá perder valor com o tempo. Carnage é um roteiro do diretor, que contou com o trabalho do tradutor Michael Katims para reproduzir todas as peculariedades da peça Le Dieu du Carnage, escrita por Yasmina Reza. Imagino que no teatro, com grandes atores, este texto também provoque um grande impacto.

Muito bom ver Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reilly, grandes atores que já demonstraram, em mais de uma ocasião, os seus respectivos talentos, reunidos em um mesmo jogo de cena. A mudança que ocorre dentro daquelas quatro paredes da casa dos Longstreet, inicialmente “tão corretos”, “tão civilizados” e, especialmente, a alteração das expressões e dos comportamentos do casal vivido por Foster e Reilly é de arrepiar. E lembra a transformação que tantas outras pessoas passam em diferentes situações.

Há quem se transforme quando está em grupo – como na abertura do filme, quando vários garotos enfrentam um outro, que está sozinho, mas “armado”. Há quem mude quando sobe de posto, ganha poder e dinheiro. E há também os que se transformam na intimidade de seus lares, assumindo uma postura dominante e repressiva na família enquanto na rua esta pessoa utiliza a máscar do “bom/boa cidadão/ã”.

Mas as situações mais frequentes, talvez, sejam aquelas que envolvem a alteração da personalidade quando a pessoa é contrariada. Como diria um certo sábio, infelizmente há muitas certezas para poucas dúvidas neste mundo. E quanto mais as pessoas guardam as suas convicções e não dão espaço para a contrariedade, mais elas deixam aberta a porta para o confronto, a discórdia, a cólera e a violência.

Eis apenas algumas das reflexões que Carnage nos propicia. Mas há muitas outras, que podem ser retiradas desta história saborosa. Como as relações de poder entre homens e mulheres. A facilidade com que eles se unem contra elas, enquanto as mulheres parecem mais propensas a assumir suas brigas individualmente. O filme também demonstra como alta erudição – no caso de Penelope – ou alta posição social – especialmente no caso de Alan – não significam, necessariamente, boas maneiras, generosidade, altruísmo ou senso comum.

O mais irônico – e interessante – é a forma como o filme sugere que, no final, somos todos bárbaros. Uma fina crítica de Polanski para esse esforço medíocre da sociedade em ser civilizada e dar as costas para o “Deus da Carnificina” que parece acompanhar-nos desde as cavernas. Interessante que a perda de tempo com este “Deus”, que significa a ânsia de devorar o outro, essencialmente, e pela destruição, no fim das contas, segue nos cercando. Em ambientes corporativos, nas redações, nas universidades, nas escolas, em diversos ambientes em que há gente que prefere “rezar” e fazer promessas para este “Deus” do que para o outro, mais conhecido, que representa justamente o contrário – amor, doação, comprometimento, etc.

Interessante a sutileza do texto e do jogo de cena. Desde as leves ironias da “supercivilizada” Penelope, desde o início, e seu desejo de aparentar alguém comprometido com a casa e os visitantes – ao comprar, por exemplo, um buquê de tulipas importadas que custa US$ 20 – até o desejo incontido de Alan em dizer que tudo aquilo era uma grande besteira, porque as crianças não tem a noção de civilização e todos os compromissos que surgem daí como os adultos. No que, francamente, em parte, ele está certo. Quem não se lembra de quando era criança ou pré-adolescente de como não enxergava todas as sutilezas das relações de poder e as demais como agora, já adulto? O que não justifica, nunca, claro, atos de violência. Mas é de se pensar.

E falando em pensar… outra questão bem levantada por Carnage é que tipo de ensinamentos os pais estão repassando para os filhos atualmente. Que tipo de lógica torta ou de valores corretos estão sendo transmitidos? Preocupante o ambiente das duas famílias retratadas e que refletem muitas outras mundo afora. Interessante também como cada linha de diálogo e expressão dos atores demonstra pré-julgamentos que uns tens dos outros e suas reprovações contidas. Um belo retrato desta necessidade que muitos tem – a maioria mas, acredito, não a totalidade – de estar sempre julgando e hierarquizando aos demais.

E impressionante a forma com que um casal fica medindo o outro, tentando ver quem está mais “ferrado” para, desta forma, sentir-se melhor com os próprios problemas. O descontrole vai crescendo, até que todos lavam as suas próprias roupas sujas. Uma catarse que pode ser lida, quase, como terapia. E no final, a cereja no bolo: a sugestão que os jovens problemáticos resolveram seus problemas de forma muito mais simples do que os seus pais.

Mas para não dizer que tudo é perfeito em Carnage, há algumas situações um bocado irreais que acabam atrapalhando todo aquele “excesso de realidade”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como, por exemplo, os pais do garoto agressor, que estavam loucos para sair dali o mais rápido possível, terem aceitado tomar café e água e, depois, terem comido bolo e se enredado, cada vez mais, em um embate verborrágico com o outro casal.

Então alguém pode dizer: “Mas se fosse assim, tudo tão lógico e racional, não teríamos um filme, porque o casal não voltaria para o apartamento do outro tantas vezes”. De fato, não teríamos filme. O que seria péssimo, claro. Mas talvez a forma com que o “convencimento” foi feito poderia ter sido outra do que o oferecimento de uma simples xícara de expresso. Além do mais, uma vez, tudo bem. Mas duas? Se bem que, da segunda vez, o reticente Alan já estava querendo embarcar em uma sessão de desmascarar aquela Penelope tão perfeita… As razões para os retornos eu ahcei o único porém desta produção.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Meus bons leitores, minhas desculpas por ficar tanto tempo sem escrever. Eu assisti a Carnage há quatro ou três semanas mas, só agora, consegui sentar para escrever estas linhas. A verdade é que entrei, mais uma vez, naquela fase de muito trabalho… mas prometo tentar, a partir de agora, atualizar o blog pelo menos uma vez por semana.

Outra leve ironia de Polanski foi colocar um de seus filhos, Elvis Polanski, no “papel” de Zachary Cowan, o garoto agressor da história. O próprio Polanski tem uma história bastante controversa. Nascido na França, ele fugiu dos guetos de um campo de concentração, foi para os Estados Unidos, perdeu a mulher Sharon Tate, que estava grávida, assassinada por Charles Manson e “família” e, mais tarde, foi acusado e condenado por ter estuprado uma garota de 13 anos. Para não ser preso, ele fugiu dos Estados Unidos e voltou a morar na França, até que, em 2009, foi preso em Zurique.

Polanski ficou em prisão domiciliar, na Suíça, até que uma decisão da Justiça optou para que ele não fosse extraditado para os Estados Unidos.

E uma curiosidade sobre esta produção: a exemplo de Rope, de Alfred Hitchcock, Carnage também foi totalmente rodado em tempo real, de forma contínua e sem cortes. Diferente do clássico do mestre do suspense, Carnage só tem algumas cenas, as iniciais e finais, que transcorrem fora de um único ambiente – o apartamento e o corredor de acesso a ele.

Agora, uma curiosidade difícil de perceber: Polanski, a exemplo de Hitchcock, faz uma “ponta” no filme como o vizinho que olha pela porta entreaberta para ver o que está acontecendo no corredor, já que os atores estão falando alto. Curioso, no mínimo. O que reforça, também, como Carnage é uma homenagem de Polanski a Hitchcock.

A trilha sonora de Carnage está presente no início e no final. E mesmo que pouco presente, nela é possível ver o trabalho dinâmico e dramático do ótimo Alexandre Desplat.

Além da trilha sonora, importante destacar o belo trabalho do diretor de fotografia Pawel Edelman, que deu o tom exato para cada momento do filme – no parque e na casa – e a decoração de set de Franckie Diago. Precisos.

Carnage foi totalmente rodado na França, em dois estúdios, e na cidade de Paris – as cenas externas.

Este filme estreou no Festival de Veneza em setembro de 2011. Depois, ele participou de outros três festivais. No Festival de Veneza, ele recebeu o Pequeno Leão de Ouro. Foi indicado, ainda, aos Globos de Ouro de Melhor Performance de Atriz em um Filme de Comédia ou Musical para Jodie Foster e Kate Winslet. Além daquele prêmio de Veneza, ele recebeu outros três: Melhor Elenco pela avaliação do prêmio da Boston Society of Film Critics; Melhor Roteiro Adaptado no prêmio do Cinema Writers Circle, da Espanha; e Melhor Roteiro Adaptado no prêmio César, da França.

Uma pena, mas este filme mal conseguiu pagar-se. Carnage teria custado cerca de US$ 25 milhões e arrecadado, segundo o site Box Office Mojo, pouco mais que isso nas bilheterias globais. Nos Estados Unidos, ele foi mal: conseguiu pouco mais de US$ 2,5 milhões. No restante dos países, mais US$ 25 milhões. No total, cerca de US$ 27,6 milhões, até o momento. Pouco. Mas dá para entender, pelo estilo de fime – não é o grande público que busca algo deste gênero. Infelizmente.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para o filme. É uma boa nota, para os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram na mesma linha, dedicando 188 críticas positivas e 46 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 72% e uma nota média de 6,8.

Carnage é uma co-produção da França, Alemanha, Polônia e Espanha.

CONCLUSÃO: Este não é o primeiro filme que se passa em um único ambiente. Mas, sem dúvida, é um dos melhores. Diferente do clássico de Hitchcock, que aposta na tensão criada por um crime, Carnage investe na tensão do embate de argumentos e psicológico entre pessoas com olhares muito diferentes sobre boas maneiras. A própria civilização está em jogo naquela casa de pessoas, aparentemente, tão equilibradas e “compreensivas”. Pouco a pouco os quatro personagens vão mostrando as suas armas, ironias, hipocrisias. Quem descuidar e começar a preocupar-se mais em avaliar a pessoa próxima do que a si mesma, vai cair no embate. Na crítica, no confronto, na violência controlada por muitos anos de educação. Há muitas camadas de leitura deste filme. Só isso já o torna um artigo raro. Mais um excelente trabalho de Roman Polanski. E uma oportunidade única de ver ótimas interpretações de quatro grandes atores.

SUGESTÕES DE LEITORES: Demorei tanto para escrever sobre Carnage que o Mangabeira, um dos mais estimados leitores deste blog, foi mais rápido. 🙂 Mangabeira, tenho que citar a tua indicação, é claro. Tinha assistido ao filme antes de comentares, mas como não escrevi… está valendo a tua sugestão. O que é bacana, porque reforça ainda mais, para quem não assistiu, de que não sou a única que aprovou a produção. Muito obrigada, por mais esta dica. Como podes ver, eu também tinha adorado ao filme. Inteligente, irônico, com ótimas atuações e roteiro inspirador. Abraços e obrigada por sempre voltar aqui!

Categorias
Cinema Cinema norte-americano Crítica de filme Filme premiado Movie Oscar 2012 Sugestão de leitores

The Tree of Life – A Árvore da Vida

Alguns filmes exigem do espectador uma dose extra de paciência. Pedem boa vontade. Tudo bem quando o resultado final para isso é um projeto inovador, comovente ou que, pelo menos, convença. The Tree of Life exige uma dose super extra de paciência. O problema é que ele não nos leva muito além. Seu principal mérito é a direção de fotografia. Imagens belíssimas. Mas fora toda aquela beleza, descontada a forma, sobra pouco. Quase nada. Em outras palavras, o filme exige muito do espectador, e entrega pouco como prêmio.

A HISTÓRIA: Começa com uma citação da Bíblia: “Onde estavas tu, quando Eu lançava os fundamentos da terra?… Quando as estrelas cantavam juntas pela manhã, e todos os filhos de Deus bradavam de júbilo?”. Em seguida, o breu dá lugar a uma luz alaranjada. Alguém pergunta pelo irmão, chama pela mãe, e diz que foram eles que o guiaram até uma determinada porta. Corta. Aparece uma menina na janela. Uma voz feminina diz que o coração de um homem tem duas formas de encarar a vida. A forma da Natureza, e a forma da Graça. A mesma voz diz que nós devemos escolher a qual delas seguir. A partir daí, o filme mergulha em um redemoinho de reflexões sobre estes dois caminhos, o que eles significam e que retorno eles nos trazem. Trata de família, de perdas e de escolhas e, todo o momento, sobre a Criação e o entendimento do homem sobre Deus.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Tree of Life): Tenho certeza que muitos de vocês vão discordar de mim. Paciência. Opiniões existem para isso mesmo, para alguns concordarem, para muitos discordarem. Mas The Tree of Life foi, para mim, uma das grandes decepções dos últimos tempos. Ele entrou naquela minha lista de “muito barulho por nada”. Achei pretensioso, maçante, enrolado.

O visual é maravilhoso. Não há espaço para discutir isso. A direção de fotografia do mexicano Emmanuel Lubezki é o que o filme tem de melhor. O diretor Terrence Malick também acerta em muitas escolhas, em ângulos de câmera diferenciados e em várias sequências de puro lirismo. Ok, tudo isso é verdadeiro e torna este filme diferenciado. O problema dele é que Malick não se contém e exagera na dose. Parece que ele primeiro fez algumas cenas focando a Natureza espetaculares e, depois, construiu um filme para tentar justificar aquelas imagens.

Porque a história, o roteiro, é sofrível demais. The Tree of Life começa tão, mas tão bem! Adorei aquela reflexão inicial da mãe, Sra. O’Brien (a fantástica Jessica Chastain). Ela resume o filme e sua “filosofia”. As cenas iniciais também são primorosas. Depois, entra em cena o personagem vivido por Sean Penn, Jack, já adulto. Ele olha para aquele mundo cheio de aço e vidro, arranha-céus e dinheiro, e não se reconhece. Parece estar preso em um lugar que ele odeia. Que valia à pena por um tempo, mas que esse tempo já passou.

Esse começo não é fenomenal? Certamente. Uma discussão filosófica profunda – entre formas conflitantes e primárias de enxergar o mundo e a vida – que valia para quando Jack era criança, no Texas dos anos 1950, e que continua valendo agora, nos tempos “pós-modernos”. O problema é que esta boa premissa inicial se perde completamente no caminho. Passados aqueles 20 minutos iniciais, quando são lançadas aquelas ideias iniciais, mais uma boa introdução para a dor, a perda e o quase óbvio questionamento de Deus, o filme mergulha em um transe difícil de engolir.

Primeiro, me desculpe quem adorou aquela parte, mas eu achei irritante tantas cenas sobre o cosmos, o universo e diferentes ângulos da Natureza. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Meu queixo caiu quando The Tree of Life retornou para a origem da vida e avançou até o surgimento dos dinossauros. Não, demorei pra acreditar. Achei que estava alucinando quando vi o primeiro dinossauro na praia. Sério? Pra quê, meus amigos? Para mostrar como as dores e questionamentos humanos são pequenos, irrelevantes? Tá, disso tudo nós já sabemos. Que por maior e mais magnifíco que seja um cenário, ele um dia teve um início e, um dia, terá um fim? Tá, tá… nesta hora, devo confessar, eu entendi porque alguns cinemas “VIP” servem champanhe para os espectadores. Eu gostaria tanto de ter assistido a esse filme, especialmente a partir do minuto 20, bebendo várias taças de champanhe… teria sido menos difícil de engolí-lo.

Depois de cerca de 15 minutos desta sequência que eu achei uma verdadeira “viagem”, e sem isso ser positivo, mergulhamos novamente na rotina da infância de Jack. Na verdade, acompanhamos a vida do casal O’Brien (Brad Pitt e a já citada Jessica Chastain) desde antes, quando ela fica grávida de Jack e, depois, dos outros filhos. A partir daí, é aquela velha história das relações humanas. O primogênito que tem que lidar com o ciúme da “concorrência” do outro irmão, até que ele cresce um pouco mais e vive a clássica hostilidade/rivalidade com o pai, vendo na mãe o carinho e o afago que não encontra em outra parte. Freud já tratou muito disto, não falarei mais que o óbvio.

Lá pelas tantas, Jack começa a revoltar-se contra o pai. Até chegar naquele momento em que percebe que tudo o que ele deseja é o reconhecimento do progenitor. Enquanto isso, ele admira a mãe, mas a vê muito frágil. Indeciso sobre que caminho daqueles dois seguir, o garoto fica dividido. No futuro, essa mesma divisão vai tomar corpo novamente. É a velha ciranda da vida, com momentos de formação da personalidade, outros de confrontar as origens, depois consolidar-se na sociedade e, lá pelas tantas, questionar tudo isso novamente. Histórias cíclicas. The Tree of Life trata disso, mas de uma maneira muito arrastada e sem linhas de roteiro interessantes. As imagens sim, fazem a diferença, mas não é o suficiente para tornar o filme atrativo ou mesmo fora da curva.

Ah sim, há outros temas imersos nesta história. Todos clássicos, também – não há inovação por aqui, pelo menos não no conteúdo, apenas na forma. Por exemplo: o pai frustrado, que não conseguiu ser o músico brilhante que gostaria e que imaginava ter potencial para tornar-se, e que pega pesado com os filhos. Ele é cruel, duro, exigente. Deixa os garotos com medo. Em alguns momentos, achei que o filme sugeriu que o abuso dele pudesse ter ido além… mas nada comprovou isso, então acho que não aconteceu. De qualquer forma, o pai durão provoca dor, medo, repúdio e fascínio nos filhos. A mulher, que acredita em outra forma de atuar, que tenta ressaltar sempre a importância do amor e da amizade para os filhos, não levanta a voz ou combate o marido. Submissa, outro clássico.

E nestas bases o filme se desenvolve. A história de Jack, o narrador deste filme, mostra como um garoto vai perdendo a sua inocência. Mostra aquele momento em que ele vê os pais sem filtros. Que os julga, tira conclusões e resiste ao que vê. No futuro, ele revê aquele momento com outros olhos, e pede desculpas para o pai. Percebe que acertou em algumas ações, mas que foi infantil em outras. O que acontece com todos nós, em um ou outro momento da vida. E este é o filme. Nada novo, apenas um olhar “poético” sobre estas obviedades.

Bem, The Tree of Life também trata daquela velha discussão sobre a importância ou desimportância do ser humano para Deus. Discussão perdida, devo dizer. Porque ou as pessoas acreditam em Deus, e tem a resposta para isto, ou não acreditam e jamais vão entender a outra versão. Quer dizer, jamais talvez seja um pouco pesado. Mas dificilmente entenderiam.

Achei cansativo e desnecessário todo aquele questionamento de Deus que o filme suscinta. De qualquer forma, há um momento em que este tema chega a um argumento razoável: quando o padre comenta que as pessoas boas também sofrem perdas, e que elas não devem lembrar de Deus apenas nestes momentos, mas quando recebem algo bom também. Ainda que o filme fale muito de Deus, meus amigos, não tratarei deste tema por aqui. Especialmente por causa de outras produções que levantaram discussões similares. E este não é um espaço para isto. Aqui tratamos de cinema. E este filme, como obra cinematográfica, achei longo demais, chato, arrastado e pretensioso. Outros filmes trataram de temas similares e de forma muito mais interessante.

NOTA: 5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Grande parte desta produção é narrada pelo jovem Jack. Por isso, Sean Penn aparece pouco. No lugar dele, vivendo o seu personagem quando criança/pré-adolescente, está o ator Hunter McCracken. Ele faz um bom trabalho, mas algumas vezes ele parece ser incapaz de mudar a fisionomia. O que irrita um pouco.

Brad Pitt, que também é produtor de The Tree of Life, faz um pai durão. Ele fala com a boca sempre meio fechada, caminha com segurança, mesmo quando é derrotado. Está bem, mas nada fora do comum. Jessica Chastain sim, dá um show. Parte frágil da história, ela se rende tão bem aos momentos de tristeza quanto aos de alegria e suavidade. Está linda, solta, entregue à personagem. Junto com a direção de fotografia, é um ponto forte da produção.

Ao lado de Jack, brilham na produção como os irmãos do personagem os atores mirins Laramie Eppler como R.L. e Tye Sheridan como Steve.

Na parte técnica, além da direção de fotografia primorosa, vale a pena citar a trilha sonora de Alexandre Desplat e a edição feita por cinco profissionais: Hank Corwin, Jay Rabinowitz, Daniel Rezende, Billy Weber e Mark Yoshikawa.

The Tree of Life estreou em maio de 2011 no Festival de Cannes. Depois, ele participou de outros oito festivais, incluindo o Karlovy Vary e o Donostia, de San Sebastián. Em sua trajetória, o filme conquistou 58 prêmios e foi indicado a outros 40. O principal deles foi a Palma de Ouro no Festival de Cannes do ano passado. A vitória era considerada anunciada, porque o festival teria esperado dois ou três anos para que o filme ficasse pronto, segundo esta matéria. Ainda assim, metade do público vaiou o resultado.

Esta produção, com direção e roteiro de Terrence Malick, teria custado aproximadamente US$ 32 milhões. E foi mal nas bilheterias – o que não me surpreende. Apenas nos Estados Unidos, até o dia 23 de outubro do ano passado, quando ele saiu de cartaz, The Tree of Life tinha arrecadado pouco mais de US$ 13,3 milhões nas bilheterias. Mas no resto do mundo ele foi bem melhor: arrecadou pouco mais de US$ 54,3 milhões até o dia 27 de outubro. Somados, os resultados mostram que ele faturou pouco mais que o dobro do custo original. Não está mal, mas também está longe de ser um sucesso.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para o filme. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos: dedicaram 201 críticas positivas e apenas 37 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média de 8,1. Bastante boas, pois. Eu teria me somado ao grupo minoritário. 🙂

CONCLUSÃO: Um filme com alta carga simbólica e que tenta mergulhar fundo em questões filosóficas e religiosas. The Tree of Life está carregado de pretensões. Chega a fazer um retrocesso na história de todos os tempos, mas fica a maior parte do tempo centrado nas relações de uma família. As linhas iniciais, que tratam sobre a simplificação do caminho que o Homem pode escolher, poderiam resumir toda a história. Podemos, segundo o filme, escolher entre o caminho da Natureza e o da Graça. Depois de alguns momentos de imersão nos devaneios do diretor, Terrence Malick, nos debruçamos nas relações de uma família, dividida entre estas duas visões de mundo. A história é contada por um dos filhos, que cansa. Se o protagonista cansa, e se Malick devaneia demais, a experiência de The Tree of Life é arrastada, difícil de aguentar. E não porque filmes cheios de simbologia e filosofia não sejam interessantes. Não. Mas no fima destas histórias, buscamos algo além do óbvio. Não é isso o que acontece aqui. A frase “só o amor é o que importa” resumiria tudo. E, para chegar a ela, não precisaríamos de tanta firula. Não gostei.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: The Tree of Life está concorrendo em três categorias do Oscar deste ano. Como Melhor Filme, Melhor Direção de Fotografia e Melhor Diretor. Destas, sem dúvidas, ele merece a indicação e ganhar na categoria de Melhor Fotografia. Se o filme não é um verdadeiro desperdício, muito disto se deve à fotografia. E àqueles 20 minutos iniciais – se o filme tivesse terminado ali ou se o restante tivesse sido editado em 40 minutos, talvez o resultado tivesse sido muito melhor.

Não vejo nenhuma possibilidade de The Tree of Life ganhar como Melhor Filme. Para o meu gosto, ele está anos-luz distante de The Artist e, em segundo lugar, de Midnight in Paris. Mesmo The Descendants e Hugo mereciam ganhar a estatueta mais do que ele. E cá entre nós, se o Oscar não tivesse 10 candidatos, duvido muito que The Tree of Life chegasse a ser finalista entre os cinco que antes eram indicados.

O mesmo em relação a Melhor Diretor. Seria uma grande injustiça premiar Malick e deixar para trás Michel Hazanavicius (The Artist), Martin Scorsese (Hugo) ou Woody Allen (Midnight in Paris). Mesmo Alexander Payne (The Descendants) ganharia o meu voto antes de Malick.

Em melhor Direção de Fotografia The Tree of Life tem chances. Ainda que concorrem com ele, de igual para igual, The Artist e Hugo. Não assisti aos outros concorrentes, mas imagino que a fotografia do veterano Janusz Kaminski em War Horse seja de tirar o chapéu também. Ele pode ganhar nesta categoria, mas terá que, para isso, vencer a grandes concorrentes. Logo mais saberemos se ele será capaz.

SUGESTÕES DE LEITORES: Eu sabia! Nesta correria de muito trabalho e de concentração reforçada para o Oscar deste ano, esqueci de fazer uma menção fundamental: que The Tree of Life foi indicado aqui no blog há muito tempo pelo Lorenzo Lavati. Querido leitor, o Lorenzo pediu um comentário do filme no já distante dia 25 de setembro do ano passado. Eis aqui a crítica, Lorenzo. E aí, o que você achou do filme e do comentário acima? Abraços e obrigada por esta recomendação. Ah sim, e agora eu vi que o Mangabeira, fiel leitor do blog, também recomendou The Tree of Life, mas no início deste ano, no dia 2 de janeiro, para ser mais precisa. Mangabeira, como acabo de comentar na resposta para a tua recomendação, notei que você não gostou desta minha crítica… mas paciência. Inevitavelmente um dia isso acontecer. Afinal, impossível as pessoas concordarem sempre. Abraços e obrigada pela dica também.