Cold Souls – Almas à Venda


Um filme que começa citando Descartes não pode ser ruim. Ainda mais quando a citação é um grande equívoco e, seu foco, seja a alma humana. Depois desta citação, Cold Souls mergulha nos ensaios de uma peça de teatro. Descartes, ironias sobre a alma e a interpretação de um ator integram este filme que, ao mesmo tempo que exige senso de humor, caminha a passos largos para não agradar ao “grande público”. Afinal, quem quer saber de filosofia, das dores da alma, do grande “mercado de produtos” em que nos convertemos e, de quebra, sobre o fazer artístico artesanal hoje em dia? Poucos, claro. Se você é um destes poucos, provavelmente vai achar este filme, no mínimo, interessante.

A HISTÓRIA: Um ator (Paul Giamatti) está entregue ao seu personagem amargurado, em conflito, desesperado. A câmera se distancia um pouco e percebemos que ele está em um teatro, ensaiando a sua próxima peça. Contaminado pelo personagem, o ator não acredita em seu próprio talento, em sua capacidade para levar até o final o seu trabalho atual. O diretor de teatro (Michael Tucker) deixa claro a sua preocupação com o desempenho do protagonista. Em um certo dia, o agente de Paul, Max, comenta com ele sobre  um artigo na revista The New Yorker que trata de um serviço de “depósito de almas”. Mesmo descrente, Paul busca a empresa que promete aliviar as angústias humanas retirando a alma das pessoas. Nesta empresa, ele acaba conhecendo a misteriosa russa Nina (Dina Korzun).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que continue a ler apenas aqueles que já assistiram a Cold Souls): Logo no início do filme o diretor de teatro decepcionado com Paul Giamatti diz uma frase que resume como Cold Souls deve ser encarado: “Isso não é uma tragédia. Cadê o seu senso de humor”. Por mais que o filme com direção e roteiro de Sophie Barthes tenha uma grande carga de “seriedade”, ironia e, até podemos dizer, crítica ácida, nada disso é apresentado nestas embalagens. Não. O humor perpassa o filme do início ao fim, exigindo do espectador um senso de humor constante, assim como atenção para os detalhes de uma produção um tanto “tresloucada” que leva até as últimas consequências os aspectos de uma sociedade que tenta comercializar de tudo, colocar valores em caixas que podem ser encontradas em lojas de departamento e que valoriza o “estar bem” e “leve” muito mais do que o conhecimento ou as dificuldades que nos fazem crescer.

Alguns, ao assistirem Cold Souls, certamente irão se lembrar de Being John Malkovich e Adaptation. A ligação entre os filmes nasce pela “brincadeira” com que os três fazem sobre o autoconhecimento, o indivíduo, suas crises e, claro, a figura de um ator conhecido brincando com sua própria imagem. Mas as semelhanças terminam por aí. Cold Souls dá passos interessantes em direções que os filmes de Spike Jonze não haviam seguido. Para começar, a produção de Sophie Barthes coloca em evidência os bastidores de uma peça de teatro. E não qualquer uma, mas a densa obra russa Tio Vânia, de Anton Tchekhov, uma peça existencialista que reflete sobre o que fazemos com o nosso tempo, com nossas relações, com nossa existência.

Neste texto sobre uma montagem da peça feita por Celso Frateschi, destaco a reflexão que Tio Vânia faz sobre questões como as de “qual é a alma do nosso tempo e qual é o tempo de nossas almas?”. O interessante é a forma com que Cold Souls trata estas questões com o mesmo “humor, inteligência, ironia e drama” com que a própria peça Tio Vânia trabalha. Essa característica me faz lembrar o ótimo texto de Michael Cunningham, que posteriormente renderia o filme The Hours, e que “recria” os valores do romance Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf. Ok, mas vamos deixar de citar referências, porque daí não paro mais. 🙂

Se fizéssemos as perguntas anteriores sobre a “alma do nosso tempo” e o “tempo de nossas almas”, que respostas encontraríamos? Esta é uma das premissas de Cold Souls. E as respostas não são das melhores. Porque uma das almas – para não dizer a única – do nosso tempo é justamente a mercantilização de tudo. Amor, liberdade, paz de espírito, praticamente tudo que pode ser classificado como importante virou, de diferentes maneiras, objetos de consumo (leia-se de compra e venda). A publicidade, a imprensa, as empresas e as pessoas compram e vendem estes conceitos, idéias, sentimentos. Como se eles realmente pudessem ser comercializados. Uma reflexão sobre isto é o que propõe Sophie Barthes. Mas de forma exagerada, cômica, apostando que as críticas e reflexões chegam mais longe através da comédia.

Apostando na “alma do nosso tempo” como a do mercado regulando tudo – de valores, sentimentos, até pessoas – Cold Souls mostra um tipo de negócio que aposta na frase de Descartes. De que nossa alma está escondida em uma pequena parte do nosso cérebro. Se ela pode ser identificada, pode ser extirpada. E aí começa a comédia. “Você sente que sua alma está lhe incomodando, lhe deixando pesado(a)? Pois bem, utilize os nossos serviços e se livre de sua alma.” Vamos combinar que essa ironia é das finas! E o mais bacana do filme é que os interessados não apenas podem se livrar de suas almas “pesadas” mas, caso se sentirem “muito vazios” sem alma alguma, podem adotar a de uma outra pessoa por um tempo. 🙂

A ironia disto chega a pontos extremos quando oferecem para Paul Giamatti a alma de um “poeta ou ator” russo. Quem sabe, assim, ele não consegue mergulhar com muito mais profundidade em Tio Vânia? hahahahahahaha. Brilhante. A idéia do “mercador de almas” ou do “homem que vende a sua alma ao diabo para conseguir um favor” passam pela lembrança, ainda que o filme não toque, em momento algum, em questões religiosas. Não é preciso. Sua intenção não é tratar das questões do “Céu”, mas olhar com atenção para as terrenas.

Além das reflexões e ironias anteriores, Cold Souls tem tempo para refletir sobre as desigualdades que existem em um tempo em que o mercado domina as pessoas. Desta maneira, é  possível perceber uma diferença gigantesca entre uma ponta do negócio, aquela das pessoas que tem dinheiro para gastar no caríssimo serviço de “depósito de almas”, e aquelas que estão na outra ponta do negócio, ou seja, as que vendem as suas almas a custos baixos para sobreviver. Eis o drama de Cold Souls. E ele não é leve – ainda que nunca seja abordado com grandes discursos ou comoção. Mas incomoda, certamente, todas as vezes que Nina aparece buscando, na colapsada Rússia, pessoas que, por necessidade, entregam suas almas para exploradores.

Como todo negócio absurdo, este do “depósito de almas” tem os seus furos e seus “efeitos colaterais”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ficar sem a própria alma, Paul Giamatti e outros clientes do serviço vão descobrir, tem os seus “problemas”. A pessoa passa, digamos assim, a não sentir nada. Está leve, claro, mas se torna incapaz de sentir amor, tesão, qualquer “coisa que se sinta”, como diria certa música. A saída? Alugar uma outra alma – por que você não vai querer a sua alma “pesada” de volta, não é mesmo? E daí vem outro aspecto curioso e, eu diria, o mais bonito do filme: “adotar” a alma de outra pessoa não é tão simples quanto encher uma caixa de sapatos de papéis. Não.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A “mula” Nina, por exemplo, está praticamente incapacitada de obter a sua alma de volta. Não apenas porque ela não tem recursos para isso. Mas porque – e aí está a beleza desta idéia -, ao carregar tantas almas para cima e para baixo (leia-se da “pobre” Rússia para o “rico” Estados Unidos), ela foi ocupando o espaço que era da sua com a dos outros. Porque quando você assume a alma de outra pessoa e depois se livra dela, fica com uma pequena parte contigo. Que bonito! Isso acontece nos encontros da vida. Quando duas pessoas se encontram, se identificam, conhecem uma a alma da outra, ao partir elas não saem apenas com o que tinham antes, mas com um bocado do que a outra pessoa tinha/tem. Desta forma, Cold Souls termina de uma maneira poética, bonita, com dois “estranhos” se identificando porque souberam partilhar suas almas – Nina, literalmente, transportou a alma do ator; Giamatti, figurativamente, porque conheceu a Nina.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Paul Giamatti é um sujeito de sorte. Ele teve algumas produções, em sua carreira, feitas sob medida para que ele mostrasse o seu talento como intérprete. Cold Souls é uma destas. O filme inteiro é feito para ele brilhar. Afinal, na órbita de seu personagem é que todos os outros intérpretes giram. Tragicômico, angustiado, divertido, Paul Giamatti caminha com suavidade pelos diferentes estágios da produção. Sem dúvida mais um grande trabalho deste ator com 29 prêmios no currículo.

Ainda que Cold Souls é um filme centrado na interpretação de Paul Giamatti, esta produção abriga alguns atores importantes em papéis secundários. O primeiro a se destacar, da lista, é David Strathairn como Dr. Flintstein, o homem responsável por guardar a alma do protagonista – e de quem mais se interessar pelos serviços da empresa para a qual ele trabalha. Lauren Ambrose, conhecida pela série Sex Feet Under, interpreta a Stephanie, a secretária e recepcionista da empresa de Dr. Flinststein. Emily Watson interpreta a Claire, esposa de Giamatti, em um papel muito pequeno e quase “sem importância” na história. Fechando a lista de papéis e intérpretes mais importantes, vale citar Armand Schultz como Astrov, o russo responsável por enviar almas ilegalmente para os Estados Unidos, e sua namorada, Sveta, interpretada por Katheryn Winnick.

O casal Astrov e Sveta, aliás, rende pelo menos uma bela ironia neste filme. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a Cold Souls). Lindíssima, aspirante a atriz, Sveta acredita que irá melhorar a sua “performance” se conseguir a alma de um importante ator dos Estados Unidos. Seu sonho é ter a alma de um Al Pacino, Kevin Spacey, George Clooney, Robert Redford, entre outros. Mas nenhuma mulher. hahahahahahaha. Que maldade! 🙂 Interessante também a forma com que ela passa a agir quando acredita que está com a alma de um destes… no melhor estilo efeito placebo, Sveta se sente muito mais capaz de atuar do que antes. Curiosos os efeitos que a autosugestão podem provocar nas pessoas.

A direção de Sophie Barthes é envolvente e precisa. A diretora francesa sabe a hora exata de distanciar ou aproximar a sua câmera dos personagens. Vale destacar ainda a direção de fotografia essencialmente luminosa de Andrij Parekh e a trilha sonora ajustada de Dickon Hinchliffe. Na parte dos laboratórios nos Estados Unidos e o contraste com a realidade russa, foi fundamental o trabalho do design de produção de Beth Mickle e a direção de arte de Michael Ahern.

Especialmente cômico o momento em que Giamatti descobre que a sua alma está sendo usado por Sveta para interpretar uma personagem em uma novela (“one fantastic soap”, como disse Astrov). hahahahahahahaha. Quando ele diz que sua alma pode ser arruinada por algo assim, sou obrigada a concordar, pensando em muitas novelas do Brasil e de outros países, que de tão ruins chegam a doer na alma – do cidadão comum, imagina de quem tem algum talento interpretativo. 🙂

Gostei da atriz Dina Korzun. Ela é muito segura de seu papel e mostra bastante suavidade na interpretação. Ainda que, muitas vezes, não consegui deixar de pensar que ela seria perfeita no filme Blade Runner. hehehehehehe.

Cold Souls estreou em janeiro do ano passado no Festival de Sundance. Depois, em maio, ele foi comercializado no mercado paralelo ao Festival de Cannes. Até o final do ano, participou ainda de outros 15 festivais, incluindo os do Rio e de São Paulo. Nesta sua trajetória, conseguiu um prêmio – melhor ator para Paul Giamatti no Festival Karlovy Vary – e foi nomeado ainda a outros sete prêmios.

Para quem ficou curioso, este filme foi filmado em Nova York e em São Petersburgo, na Rússia.

A produção não foi bem nas bilheterias. Apenas nos Estados Unidos ela arrecadou, até novembro de 2009, pouco mais de US$ 903 mil. Pouco, muito pouco para um filme deste porte – porque, ainda que tenha “cara” de independente, ele certamente consumiu uma grande quantidade de dinheiro por envolver os nomes que ele envolve, no elenco e na produção, e por ter sido filmado parte em Nova York e parte na Rússia.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,6 para o filme. Os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, foram um pouco mais generosos: dedicaram 81 críticas positivas e apenas 27 negativas para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 75% (ainda que a nota média também tenha sido baixa: 6,4).

O crítico Roger Moore, do Orlando Sentinel, escreveu neste texto que Cold Souls é um Eternal Sunshine of the Spotless Mind filtrado por uma visão da Rússia. “Ele é cômico, sim, mas taciturno e pensativo, também, uma valsa de inverno sobre representação, o comércio ilegal e a metafísica”, escreveu Moore. O crítico destaca a entrega de Giamatti e as cenas de inverno em St. Petersburg – cenas estas que, segundo Moore, tem uma beleza brutal da era pós-industrial soviética. Para ele, Cold Souls é uma inteligente e obscura comédia sobre a psique russa e o esforço de um norte-americano em entrar nela. Diria que esta é uma forma de enxergar, ainda que um tanto “limitada”. De qualquer forma, Moore deu quatro de cinco estrelas possíveis para o filme.

Neste outro texto, a crítica Christy Lemire, da Associated Press, começa dizendo que as pessoas estão preocupadas demais com a importância da alma, a ponto dela ser tema de uma série de programas de Oprah Winfrey (hahahahahaha). E afirma que Cold Souls trabalha com uma premissa absurda, mas de forma inspirada. Como eu observei anteriormente, Lemire também comenta que Cold Souls explora algumas questões sobre identidade, memória e realidade que se mostraram bem frequentes nos roteiros de Charlie Kaufman. “David Strathairn é friamente divertido como o inexpressivo Dr. Flintstein, que administra o local (depósito de almas) que se parece com um spa diurno concebido por Stanley Kubrick”, escreveu Lemire. Achei perfeita esta leitura. 🙂

Destaco o momento do texto em que Lemire comenta que o “excesso de resíduos” de Nina a deixa tão confusa, sobre a sua própria identidade, quanto Giamatti está com a sua. A crítica destaca ainda a atuação de Katheryn Winnick e a “fotografia de sonho” de Andrij Parekh, destacando as cenas em St. Petersburg que são, ao mesmo tempo, “leves e desoladas”. Lemire ainda comenta que os temas e as imagens de Cold Souls tornam o filme um “pouco lento”, ainda que seja “revigorante” o fato de que o filme faz as pessoas realmente pensarem.

CONCLUSÃO: Um filme divertido, extremamente irônico e, ao mesmo tempo, crítico e com certa carga dramática. Cold Souls aposta em situações absurdas para tratar da “alma do nosso tempo”. Em outras palavras, questiona a vocação das nossas sociedades – cada vez mais padronizadas – em mercantilizar a tudo e a todos. Seguindo uma premissa de Descartes, de que a alma seria apenas uma “pequena glândula” no nosso cérebro, o filme joga com a idéia de um serviço de negócios baseado na alma – mas sem lidar, para isso, com conceitos religiosos. Bem dirigido e com todo o espaço para uma grande atuação de Paul Giamatti, Cold Souls é uma destas histórias que provoca risada franca para quem tem senso de humor. E reflexão para aqueles que estão atentos a certos “desvios” tão próprios de nosso tempo. Mesmo tendo a ironia e a crítica como pilares principais, o filme ainda tem espaço para uma bonita reflexão sobre os encontros que a vida propicia. Encontros estes que possibilitam que “troquemos” nossas almas de forma simbólica. Criativo, irônico e capaz de valorizar o trabalho artístico (especialmente o teatro), Cold Souls é destas produções recomendadas (talvez não para todos, mas para muitos).

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18 thoughts on “Cold Souls – Almas à Venda

  1. Oi!

    Asssiti ‘partículas elementares’ e em seguida li a crítica que tu postou aqui. Discordo de muitas coisas em tua crítica e lembro que geralmente os filmes não conseguem ser fiéis aos livros e que o roteiro é adaptado conforme o gosto do roteirista. Acho que a ‘moral da história’ assim como na maioria dos filmes alemães [relativamente novos] que eu tenho assistido é que as coisas podem ser mudadas e que não é pq estamos numa sociedade científica, de produção de lixo em massa, dentre outras coisas que devemos deixar tudo como está ou tudo acabar. Não acho de grande importância as questões psicanalíticas abordadas como – na minha opinião – 3º plano. Não acho que a colônia em que Bruno foi procurar alento era hippie, mas naturalista. etc…

    Volto a comentar sobre as críticas.

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    1. Oi Diegoo!

      Você acha mesmo que Cold Souls foi injustiçado? Por que? As pessoas ao teu redor falaram muito mal dele?
      Eu tive a sorte de encontrar pessoas que curtiram… e sim, acho que ele será, pouco a pouco, descoberto e valorizado.

      Obrigada por tua visita e pelo teu comentário. Quero que te sintas bem-vindo por aqui. E, desde já, te convido a voltar mais vezes, inclusive para falar de outros filmes que tenhas gostado.

      Abraços!

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  2. Achei esse filme “por acaso” no meu computador, e depois de assisti procurei sobre, e achei esse post.
    O filme é incrível, e sua crítica, também. Gostei mesmo.
    A forma em que o filme trata do autoconhecimento é fantástica, pena não ser tão perceptível para todos… Acredito que só quem está em busca de si mesmo consegue ir além das imagens da 7ª Arte.

    Gostei do Blog!

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    1. Oi Anne!

      Antes de qualquer outra coisa, muito obrigada por tua visita e pelo teu comentário.

      Grande surpresa este Cold Souls, não é mesmo? Também gostei bastante – como deixei evidente com o texto ali acima.

      Fico feliz que tenhas gostado também da crítica.

      E sim, o filme trata de temas de uma forma diferenciada e nada evidente. É destas produções que não terminam quando sobem os créditos – para o nosso deleite.

      E a busca de si mesmo… ah, que grande aventura! Uma jornada sem fim – mas muito interessante, sem dúvida.

      Muito obrigada, mais uma vez. E volte por aqui mais vezes, inclusive para falar de outros filmes.

      Abraços!

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  3. O filme vale a pena e muito porque introduz temas tão interessantes, emitindo opiniões ácidas, outras óbvias, mas em muitos momentos deixa espaço para reflexão e conclusões de cada um. Parabéns pela crítica, partilho de suas opiniões (também não pude deixar de ver a Dina no Blade Runner!).

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    1. Oi Débora!

      Concordo totalmente contigo. Um dos “charmes” de Cold Souls é que ele mistura a ironia, a acidez, a inovação e algumas ideias óbvia de uma maneira muito interessante. Sem contar uma série de temas “filosóficos” que ele acaba provocando – tornado esta história um produto que ultrapassa o final dos créditos.

      Fico feliz que tenhas gostado do filme e também da crítica. E espero que voltes por aqui mais vezes. Seja bem-vinda, aliás!

      Um grande abraço e obrigada pelo teu comentário e visita.

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  4. Gostei muito do seu texto sobre o filme Almas à venda. Você tem faz uma leitura muito sensível do filme. Fiquei impressionado com o tanto de críticas maldosas e superficiais que este filme sofreu por parte de críticos brasileiros.
    Acrescentarei um outro aspécto bacana que está presente neste filme: uma crítica à tentativa atual da medicina em pretender uma cura total dos males que nos afligem. Sobretudo a psiquiatria atual trabalha com essa pretenção, e os medicamentos são as vedetes que prometem milagres. Todavia, o filme mostra que pode custar muito caro a eliminação de nossos sintomas, a cura. O filme mostra que uma certa doença, angústia, ou mal que nos aflige é algo que não pode ser extraído, é algo que precisamos. Sem isso a vida é muito pior.
    É isso.

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    1. Oi Cristiano!

      Antes de mais nada, seja bem-vindo por aqui.

      Verdade que muitos críticos brazucas detonaram este filme de forma preconceituosa? Que pena.

      Fico feliz que o meu texto tenha te agradado. De veras.

      Bacana a tua observação. Estou contigo. Cold Souls suscinta uma crítica um tanto que ácida para essa “arrogância” da medicina moderna e, de quebra, de boa parte da ciência que se vê como “superior” e capaz de tudo.

      Bacana a tua ponderação de que seria ainda pior se nos livrássemos de todo o mal. Precisamos de uma dose de doença. Tens razão. A vida seria bem mais complicada se a nossa fragilidade fosse erradicada. Legal.

      Olha, estás convidado a aparecer aqui muitas vezes ainda, inclusive para falar de outros filmes. Gostei das tuas ponderações.

      Obrigada. Abraços e até mais!

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  5. Olá cogumela!

    Antes de mais nada, seja bem-vinda por aqui.

    Olha, acho que talvez a tua intenção tenha sido escrever sobre outro filme e acabaste escrevendo nestes, sobre Cold Souls.

    Digo isso porque, primeiro, este filme não é adaptado de um livro. O roteiro é original, escrito pela diretora Sophie Barthes. Depois, não se trata de um filme alemão, mas uma co-produção Estados Unidos e França.

    Fiquei curiosa para saber de que filme estavas falando… se voltares por aqui, por favor, esclarece pra gente? Até para que teu comentário faça mais sentido.

    No mais, obrigada por tua visita e pelo teu comentário. Abraços!

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  6. Prezada Alessandra,
    O filme estava na minha “lista de assistir” faz tempinho, só pude ver ontem. Fui dormir, acordei, tomei café da manhã etc., aí pensei numas linhas de raciocínio… mas resolvi antes recorrer a essa grande loteria chamada google, e o primeiro resultado tipo “review” foi o seu. Li inteirinha a sua crítica, que gostei. Aproveitando para fazer metacrítica construtiva (seja lá o que for isso), “gostei mas poderia ser mais resumido”. Mas enfim, a sua visão da obra é muito culta, não tenho nada a acrescentar a não ser a minha humilde opinião (quando alguém diz isso, é porque não é opinião e não é humilde) mas sinceramente, achei que o filme é uma meta-meta-linguagem (metalinguagem ao quadrado) do teatro e do cinema. Paul é um artista de teatro, usando a linguagem do cinena, para fazer uma referência àquilo que fica em cada artista após interpretar um personagem marcante. Sempre fica alguma coisa daquela alma interpretada, na alma real. Mas, como a gente “conta” isso? Bem, pode ser que o autor do livro não tinha essa intenção. Pode ser que o autor do roteiro adaptado tinha outros planos. Mas, aprendi (a duras penas) que entre aquilo que a gente diz, e o que outra pessoa entende, existe a possibilidade de infinitas nuances (vide “Being there” ou “Muito Além do Jardim”, será coincidência o título das duas obras serem vazados em duas palavras simples mas igualmente existenciais). Bom, era isso aí. A sua resenha me ajudou a ver muito mais do que essa visão simplista que acabei de expor. Receba meus sinceros cumprimentos pelo seu trabalho (como os gringos gostam de dizer, “keep up the good work”).

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    1. Oi Denis!

      A internet nos leva realmente por caminhos curiosos, não é mesmo?

      Fico feliz que o Google tenha tenha te trazido até aqui. Espero que desde que publicaste o teu comentário, tenhas voltado por estes lados mais vezes.

      Concordo contigo que este e possivelmente muitos outros textos que eu publiquei no blog poderiam ter sido mais curtos. É que algumas vezes me empolgo… outra vezes consigo ser mais suscinta. Tudo depende. E depende de vários fatores.

      Gostei muito de todo o teu comentário, incluindo a tua opinião sobre o filme. Concordo que Cold Souls é uma meta-meta-linguagem e/ou meta-meta-análise. Um mergulho interessante e cheio de autorreferência sobre a arte e a análise da arte e do espírito humano.

      E tens toda razão. Esse espaço aqui, onde eu escrevi e você também escreveu, é uma de tantas outras provas de que existe uma grande diferença e várias interpretações sobre aquilo que se escreve e aquilo que se lê. Mas justamente isso é que faz tudo isso ter tanta graça. 🙂

      E obrigadíssimo, Denis, por tua visita, pelo teu comentário cheio de contribuições e, principalmente, pelo teu incentivo. Espero que voltes por aqui muitas vezes ainda.

      Um grande abraço e inté mais!

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  7. “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa somos nós.”
    (José Saramago)

    Parabéns Als,
    belas reflexões e que não são longas, pois não se pode dizer o muito de forma reduzida (Fast food). Suas idéias são pérolas. Continue assim.
    Vc faz jus ao seu nome (Alessandra, do grego Alex + andros: aquela que resiste(luta) aos homens, ou seja, que tem conteúdo e opinião própria e não se deixa levar pelos homens (pelos outros).
    Comprei este DVD em uma livraria de usados aqui em BH. O DVD ficou 5 meses me olhando até que resolvi corresponder… (em um intervalo de correção de provas da universidade).
    Acabei de assistir e não resistir de ver críticas. E me deparei com suas colocações e os comentários.
    Muito bom. Difícil ver um espaço maduro como o seu. A maioria é de enlatados.
    E gente madura atrai outros… Gostei dos comentários.
    O Cristiano tem razão quando diz que “o filme mostra que pode custar muito caro a eliminação de nossos sintomas”. Victor Frankl, fundador da logoterapia (3ª escola vienense de psicoterapia) faz uma crítica à psicologia tradicional que quer eliminar os traumas. Ele diz que o vazio que fica (quando o trauma é “deletado”) é pior do que o próprio. O filme mostra, ou nos faz pensar também, na medicina tradicional que tem obsessão pelos sintomas, e quer eliminá-los a todo custo como se isso fosse cura.
    O filme parece uma simples ficção mas vai muito mais além, é sem dúvida uma meta linguagem como disse o Denis. É um filme sutil, cheio de símbolos do nosso tempo pós moderno (ou quase já, pós humano). O egoísmo é a marca da “alma do nosso tempo”, como expressa no filme o ator Giamatti, numa auto crítica (extrai a alma e não fala nem para a esposa).
    Quem extrai a alma para ficar mais “light” e por que já foi “abduzido” pelo sistema capitalista. Lembrei-me agora de um pensamento: quem chega ao ponto de vender a alma, é por que já não a tinha… (parecido com isso).. ou seja, quem polui o ambiente é por que já poluiu seu interior (versão ecológica…rsss).
    A “alma é um peso”, ou seja a cultura hoje é do “homem light” para usar uma expressão do grande médico espanhol Enrique Rojas. Para ele, no Homem light tudo é transitório, passageiro, tudo se torna “light”, centra-se em aproveitar bem os momentos e interessa-se por tudo sem se comprometer com nada. A sua ideologia é o pragmatismo e a sua moral reserva-a só para a sua intimidade, tudo é descartável, incluindo as pessoas. Mas este Homem não é feliz, tem bem-estar, tem prazeres mas é esvaziado de autêntica alegria. Não é uma pessoa positiva e nem propositiva.
    Isso é dramático. Estamos vazios? Agimos conforme o desejo que nos habita? Ou já desejamos o desejo do outro? (“desejos miméticos”, expressão do intelectual francês René Girard, ou “imitação horizontal”, segundo o filósofo grego Platão).
    O filme retrata muito bem isso. Uma verdadeira parábola para hoje. Mas os críticos, que já venderam suas almas, não conseguem entender isso. Certamente estão já com muitos “resíduos” acumulados… (que maldade minha…, parece até o golpe dos “cinco pontos que fazem o coração explodir” do filme Kill Bill).
    Mas faço uma crítica também ao filme (na verdade a grande maioria de filmes dos EUA). A altivez estadunidense é crônica. Se mostram sempre superiores. As cenas na Russia mostra apenas lugares precários, carros velhos, pessoas mendigando a “cultura” e o luxo estadunidense. Dos EUA se mostra o novo e avançado. Me lembra os “ruins” indios Siox eliminados pelos “belos” Cowboy de olhos azuis…
    Desculpem, eu ia só dá uma pinceladinha no tema do filme… ficou grande.
    De toda forma esse filme que assisti hoje me deu muitas idéias. Ele vai render muito.
    A música do filme me falou também. É forte e sensível, ajuda a dar seriedade.
    O filme mostra uma busca excessiva por felicidade que se resume a uma vida vazia, sem alma, como da maioria dos estadunidenses (me lembrei do sintomático filme “Beleza Americana”).
    Será que precisamos de tanto para ser feliz.
    Vou chamar o filósofo Nietzsche para me fazer calar a boca e terminar (já era hora…):
    “Quão pouco é preciso para ser feliz.
    O som de uma gaita. Sem música a vida seria um erro.”
    Abraços.
    Continue, seu trabalho é 10!
    Camilo de Lelis

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    1. Oi Camilo!

      Uau. Que belo comentário o teu.

      Lembro que logo que você o publicou, em novembro, eu já fiquei arrepiada. Adorei. E voltei a deliciar-me com ele hoje, ao retomar o teu texto para te responder, finalmente.

      Obrigada, de coração, por tuas palavras generosas e pela tua contribuição.
      Agora, tens razão… acho que um espaço que se destina a aprofundar algumas discussões e leituras, como é o espaço deste blog, atrai pessoas como você, e tantas outras, que gostam de pensar, refletir, e ver sentido até mesmo no caos.

      Achei bacana a tua reflexão sobre o nosso tempo. E adiciono a teoria de um sujeito que eu admiro muito, e que faz muito sentido no contexto que você citou do “homem light”: Zygmunt Bauman e sua teoria da modernidade líquida. Entre outros elementos, ele fala desta substituição dos laços duradouros pela ideia de que devemos ser “fluidos”, cada vez mais “livres” (pura ironia) para mudar constantemente. Vale a pena conhecer a teoria de Bauman.

      Gostei muito das citações que fizestes dos teóricos. Muito bacana. E uma bela contribuição neste espaço. Obrigada. Ah sim, e para fechar com chave de ouro, citaste este trecho de Nietzsche do qual gosto muito. Como uma grande apreciadora da música, que escuto sempre que posso, sou obrigada a fazer uma reverência ao filósofo.

      Muito obrigada, mais uma vez. E tente voltar por aqui mais vezes, inclusive para falar de outros filmes que tenhas gostado.

      Abraços e inté!

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  8. Comecei a assistr esse filme por acaso, quando procurando por algo interessante na TV fechada, numa manhã de sábado.
    Parei no Telecine Cult.
    Peguei o filme já iniciado, exatamente quando o Paul Giamatti se encontrava no consultório “médico” recebendo as informações sobre os procedimentos e efeitos de se “extrair a alma”. Daí em diante, não consegui parar de assitir. As metáforas, a ironia das situações e as crises existenciasis que o levaram ao ato me prenderam ao filme.
    Não o conhecia, nem sequer tinha ouvido falar dele, mas foi uma grata surpresa.
    Ao terminar, resolvi pesquisar na internet e achei esse site com informações e comentários. Perfeito. Um filme que realmente nos leva a pensar desde o que estamos fazendo com as nossas almas até quanto delas deixamos nas pessoas que passam pelas nossas vidas, e quanto adquirimos em contrapartida. Que qualidade de alma nossos tempos estão produzindo? E qual a nossa responsabilidade nesse processo?
    Quanto à atuação, gostei particularmente da Dina Korzun com sua densa e misteriosa Nina.
    Concordo que esse é um filme que não agrada a muitos. Mas agrada muito aos poucos que gostaram.
    Abraço!
    Greice

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    1. Oi Greice!

      Antes de mais nada, seja bem-vinda por aqui.

      Muito bom quando isso acontece, não é mesmo? Quando queremos assistir a um filme bom e somos surpreendidas por uma produção de qualidade e da qual nunca tínhamos ouvido falar.

      Eu fico verdadeiramente realizada quando encontro uma preciosidade assim, de forma imprevista.

      E parabéns para o Telecine Cult por escolher este filme na grade do canal.

      Acho que as perguntas que o filme desperta, como estas que citaste, são muito importantes. Sempre é válido nos perguntarmos o que estamos fazendo com as nossas almas e consciências, não é mesmo? E sobre quem permitimos que nos influencie e que sejam influenciados pela gente.

      E tens razão. O filme não deverá agradar a todos, mas quem gosta dele, gosta pra valer.

      Obrigada pela tua visita e pelo teu comentário. Espero que voltes por aqui muitas vezes ainda.

      Abraços e inté!

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