La Journée de la Jupe – O Dia da Saia


Uma sociedade multicultural tem grandes desafios a enfrentar. E a data em que estas diversas culturas começaram a se juntar e a conviver, a forma com que conseguiram dialogar ou não, define suas realidades, conflitos e soluções. O grave problema que a França tem que enfrentar continuamente, a crise de soluções na qual o país mergulhou e tem dificuldades de sair, foi refletida em vários filmes recentes. La Journée de la Jupe acrescenta a sua contribuição neste debate. Ainda que siga uma linha “realista” e com certa levada de documentário, o filme de Jean-Paul Lilienfeld peca por dois pontos: um ritmo um tanto descompassado, com sequências com quase ação alguma contrastando com um final “exacerbado”, e por um debate simplificado das questões retratadas – especialmente da religião/raça e da educação.

A HISTÓRIA: Sob uma forte luz vermelha, uma mulher confessa que não queria ter agido de forma extrema. Mas que se viu “obrigada” diante de um grupo de estudantes que lhe deixaram “sem saída”. Corta a cena e voltamos no tempo. Um grupo de alunos de diferentes raças e credos chega para a aula daquela mulher, a professora Sonia Bergerac (Isabelle Adjani). Vulgaridade e um certo tom permanente de “quase violência” parece dominar as relações dos jovens. Até que eles chegam na sala de aula e Sonia tenta fazer-lhes ensaiar a peça de teatro O Burguês Fidalgo, de Molière. Lidando com provocações e piadas infames, a professora consegue avançar com a aula tropeçando, até que encontra uma arma na mochila de um dos alunos. A situação de risco vai piorando e os alunos viram reféns, trazendo para a escola uma operação policial que busca conter a crise.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a La Journée de la Jupe): A premissa de La Journée de la Jupe é boa, mas a forma com que a história é explorada pelo diretor e roteirista Jean-Paul Lilienfeld deixa a desejar. Para começar, o espectador cai de paraquedas em um conflito em que citações do Alcorão, de muçulmanos e negros são lançadas ao léu. Claro que alguém que eventualmente acompanhe os últimos anos da história francesa sabe que aquela sociedade enfrenta problemas graves de integração de culturas diferentes. Assim sendo, esta história se torna bastante local – ainda que o tema seja universal.

Problemas decorrentes de uma sociedade multicultural fazem parte da história de quase todos os países. Mas este tema tem ganhado um destaque especial na Europa, especialmente, pela mudança que aquele continente tem enfrentado nas últimas duas décadas. A integração ou a falta dela em países como França rendem conflitos, manifestações, violência e leis um tanto polêmicas. A “invasão” de muçulmanos, africanos, latinos e pessoas do Leste europeu não foi exatamente “bem vista” por sociedades como a francesa ou espanhola – que receberam um contigente grande destes grupos em um passado recente.

Cada país resolveu o “problema” a sua maneira. Ou não resolveu, o que é a verdade. Enquanto a Europa crescia e atraía pessoas, a chegada de imigrantes parecia uma solução rápida para questões como a falta de pessoas jovens para o mercado de trabalho. Muitos dos imigrantes deram o sangue, literalmente, em trabalhos que pagavam pouco ou atuando de forma quase escrava em obras e no setor de serviços. Até que começou a crise e os problemas aumentaram. Os imigrantes passaram a ser vistos como pessoas que “competiam” por saúde, educação, transporte e demais direitos sociais básicos. E os conflitos se tornaram mais evidentes.

Nacionalistas e com culturas enraizadas e antigas, a maioria dos cidadãos franceses e dos demais países da Europa – sempre há exceções, evidentemente – passaram a “aceitar” menos os “invasores” empobrecidos. Sempre que a resistência se torna mais evidente, elementos de identidade básicos como a raça e o credo se tornam razões de discórdia. Neste contexto, La Journée de la Jupe explora a dificuldade em integrar uma cultura tradicional, como a francesa, com seus preceitos bem estabelecidos de educação e liberdade de expressão com apreço pela ordem e autoridade, com as culturas muçulmanas e de outras vertentes.

O problema do filme é que ele mostra o problema, o conflito, e não reflete sobre as bases deste cenário. O espectador não entende bem porque aqueles rapazes reagem daquela forma, nem entende a “resistência” da professora em sua plenitude. Existe ali não apenas um problema de comunicação entre “franceses” e estrangeiros, mas também um conflito de gerações, de leituras de mundo e de educação, além de interesses políticos em jogo. Algo interessante da história é a forma com que ela expõe a incapacidade do sistema de ensino e dos políticos em conseguir lidar com o tema – todos parecem “engessados” em “boas políticas” inócuas.

Ainda assim, desde o princípio, não consegui deixar de pensar, a todo instante, em Paulo Freire. Um dos grandes nomes da educação mundial, brasileiro respeitadíssimo e citado em todo o mundo – especialmente na Europa. A “resistência”, dedicação e filosofia de ensino da personagem Sonia Bergerac não poderia estar mais distante do modelo de educação de Freire. A professora, enaltecida por esse filme, não dialoga com seus alunos. Ela quer, à força – de gritos, de ordens, de tensão e remédios -, implantar a sua forma de ensinar. As suas ideias. Mas não tenta, em momento algum, entender as demandas, os anseios e compreender a realidade de seus alunos.

Por este lado, La Journée de la Jupe me pareceu um grande desperdício. Porque a história se limita a mostrar uma “situação do problema” e, até certo ponto, entendi a exposição do “descontrole” da protagonista como uma autocrítica àquele modelo. Mas essa leitura cai por terra quando o filme vai se aproximando do final. (SPOILER – não leia se você não assistiu a esta produção). Até determinado momento, eu tinha encarado a história como uma crítica ao modelo de ensino apresentado, assim como para a professora, os alunos, a direção, a polícia e os políticos. Todos pareciam equivocar-se em algum ponto. Até que, no final, a protagonista é meio que “absolvida”, “endeusada”, quase considerada uma mártir. Com este final o filme se perdeu.

Antes dele, contudo, eu também tinha me incomodado com o ritmo da produção. Mesmo ela sendo quase toda focada na “tensão” entre professora e alunos – e o circo que é armado para tentar resolver o impasse -, na prática, o filme de Lilienfeld se mostra um tanto “arrastado” demais. Certo que ninguém espera um ritmo alucinante em uma produção francesa focada nestes temas. Mas daí a arrastar o roteiro e fazê-lo andar em círculos, é outra história. De qualquer forma, La Journée de la Jupe é mais um exemplo de grande atuação de Isabelle Adjani. A atriz explora com muita naturalidade o esgotamento e as tensões de sua personagem. Sem dúvida, o ponto forte da produção.

Também sei que uma produção de cinema não deve, necessariamente, ter que apresentar soluções para problemas. Não se trata disso, mais uma vez. (SPOILER – não leia este trecho se você não assistiu ao filme). Mas me incomoda quando um filme toca em temas importantes e os resume a um par de argumentos, deixando o restante de fora. Em outras palavras, quando procura ser “sério”, reflexivo e, na verdade, simplifica as questões mais do que o desejado. Este é o caso da produção de Lilienfeld. Adolescentes “descontrolados”, sem apreço por “velhos autores”, casos de alunos que levam armas para a escola e agridem colegas, isso é algo presente na França, no Brasil e em vários locais. Mas a discussão sobre esta realidade deve levar em conta muitos aspectos. Para começar, o modelo educacional, o preparo dos professores, a estrutura de apoio (ou não) das escolas e dos governos para os profissionais do ensino, a diversidade cultural, e um longo etcétera.

Paulo Freire já dizia que “Não se pode falar de educação sem amor”. Assim como não existe – ou não deveria existir – a figura daquele que ensina e daquele que simplesmente aprende. Educação significa diálogo. E não vemos nem amor e nem diálogo em La Journée de la Jupe. Isso me incomodou. E muito. Ainda assim, o filme toca em temas importantes, desta área e da que se refere a uma sociedade multicultural. Apenas por isso, valeu ser produzido. A produção ainda questiona a disputa entre diferentes religiões – especialmente católicos e muçulmanos – e a questão feminista/machista da realidade exposta. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). No primeiro tema, interessante a pincelada do roteirista com a ideia de que “há mais coisas que nos unem do que nos separam”. E a insistência da professora em não tratar as suas origens como caminho de aproximação e para conseguir respeito dos alunos. Sobre o segundo tema, sem palavras… sem dúvida um tapa na face de uma sociedade (ou seriam sociedades?) que sempre primou pela liberdade e pelo espaço para as mulheres e que, nos últimos anos, tem andado para trás nestes pontos.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo que achei interessante nesta produção: como ela se deixa levar pelo trabalho de Adjani e aposta muitas fichas nos jovens atores. Deste segundo grupo, destaco Sonia Amori, que interpreta a Nawel, e Karim Zakraoui como Farid. Os dois se destacam dos demais, ainda que vale citar outros dois que aparecem um bocado na história: Khalid Berkouz como Mehmet e Yann Ebonge como Mouss.

Ainda sobre Paulo Freire, achei bastante interessante este site – para quem estiver interessado(a) em saber mais.

Especialmente tocante quando os pais da protagonista falam com ela através do celular. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A falta de contato de Sonia com os pais sugere que ela tinha dificuldade em lidar com as suas próprias origens. O que explicaria, também, a projeção da professora a respeito dos alunos. Um certo “repúdio” a uma situação de integração difícil que provavelmente ela mesma tenha passado. Muitos adultos acabam desenvolvendo este tipo de resistência – repúdio com o tempo, após terem conseguido uma certa “integração” na sociedade para a qual os pais imigraram – renegando as próprias origens e passado para se sentirem mais “confortáveis” no país que considerem seu. Mais um ponto interessante levantado pela história.

A questão da diferença de tratamento entre homens e mulheres fica evidente na história. As adolescentes são permanentemente “diminuídas” pelos rapazes, que se acham tão “machões”, enquanto a protagonista tenta resistir vestindo uma peça de roupa considerada “perigosa” pela direção. Este movimento de retrocesso nas conquistas de liberdade de expressão feminina pode ser visto em diversas sociedades. Inclusive nas latinas. Depois do feminismo marcar presença no mundo, parece que uma corrente machista tenta recuperar espaço a força. Igualdade de direitos e de expressão, infelizmente, são colocadas em dúvida nestes contextos. Um retrocesso triste e que precisa ser comentado para provocar reflexão.

Curioso um ponto que parece “sobrar” neste filme: os dilemas do policial especializado em negociações envolvendo reféns, Labouret (Denis Podalydès). A preocupação dele com a amante e com a mulher procuram torná-lo mais “humano”, menos robotizado e focado apenas no trabalho de segurança pública. Pena que a “profundidade” – entre aspas mesmo – dada para ele e para a protagonista não se veja em outros personagens importantes, que acabam ficando bastante rasos.

Gostei da forma com que o diretor conduziu as cenas do “circo mediático”, político e de segurança montado quando se cria a situação de reféns em um colégio. As melhores sequências do filme mostram a reação de familiares e das pessoas envolvidas nas negociações conforme a história vai se desenvolvendo. Um pouco de realismo para um tipo de história que se mostra – inclusive na vida real – tão surreal.

Produzido pela França e pela Bélgica, La Journée de la Jupe estreou no festival de cinema de La Rochelle em setembro de 2008. Com baixo orçamento, o filme chegou em poucos mercados – e passou ainda por seis festivais, incluindo os de Berlim e o do Rio de Janeiro. Ganhou cinco prêmios pelo caminho, quatro deles entregues para Isabelle Adjani – incluindo um César (considerado o Oscar francês). Falando no César, La Journée concorreu nesta premiação ainda como melhor filme e melhor roteiro original, este ano, mas perdeu nas duas categorias.

Este é o nono filme dirigido por Jean-Paul Lilienfeld. Ele tem no currículo ainda um curta-metragem, três filmes feitos para a TV e outros quatro longas para os cinemas. Mas seu currículo apresenta um número maior de trabalhos como ator: 21 no total – o último deles datado de 2005, La Vie est à Nous!, dirigido por Gérard Krawczyk.

Da parte técnica do filme, vale citar o trabalho do diretor de fotografia Pascal Rabaud, a edição de Aurique Delannoy e a trilha sonora original de Kohann.

Fiquei sabendo sobre um documentário de 2007 intitulado Jupe ou Pantalon? (em uma tradução livre, “Saia ou Calça?”), da jornalista Brigitte Chevet, que revela uma cultura juvenil que mescla o puritanismo com uma influência do “pornô” em seu cotidiano. Interessante. Fiquei curiosa para assistir ao documentário e saber mais sobre esta “dualidade” de extremos entre os jovens franceses.

La Journée de la Jupe conseguiu a nota 6,8 entre os usuários do site IMDb. Pouco difundido, como eu disse anteriormente, o filme não chegou a ficar conhecido por grande parte da crítica especializada. Assim sendo, o site Rotten Tomatoes abriga apenas uma crítica: a de Gary Goldstein, do Los Angeles Times, que não gostou da produção. Para o crítico, La Journée se apresenta como uma produção “provocante” que não consegue lidar com os limites estreitos que acaba desenvolvendo.

Segundo Goldstein, o diretor acerta ao explorar temas como o sexismo, o racismo, a identidade cultural e religiosa, o sistema de ensino falido da França, mas erra a mão ao explorá-los com um caráter puramente de “obra cinematográfica”. Em outras palavras: deixa muito evidente a sua preocupação de “surpreender”, de tornar a fantasia maior que a realidade – acredito que isso ocorra, especialmente, perto do final e nos momentos de “crise” de inspiração do diretor/roteirista. A verdade é que o artifício, em alguns momentos, se torna mais evidente que o conteúdo. Nisso estou totalmente de acordo.

Vale ponderar sobre a obra citada com tanta veemência pela protagonista: Les Bourgeois Gentilhomme (traduzida para O Cavalheiro Burguês ou O Burguês Fidalgo). Nesta obra, Molière retrata “a classe de novos ricos” francesa, um grupo que desejava imitar os “hábitos da nobreza”, como os “interesses pelas artes e pelas armas”. Encontrei este resumo sobre a peça de teatro da Wikipédia e, neste blog, a citação de alguns trechos do livro, para quem se interessar. Destaco, entre outros, este: “Ora, se todos os homens aprendessem música, não seria esse o meio de se acordarem eles, estabelecendo no mundo a paz universal?” – diz o Mestre da Música tentando estabelecer o seu ofício como o mais importante entre todos. Sou suspeita para comentar, porque, para mim, a existência só tem sentido mesmo com a música (e o cinema, e demais artes, talvez… hehehehehe).

CONCLUSÃO: Um drama que trata sobre os problemas da sociedade multicultural francesa atual. Focado no ambiente escolar, La Journée de la Jupe segue um ritmo lento até perto do final, quando acelera a produção em uma direção de “grand finale”. Feito para a atriz Isabelle Adjani brilhar, este filme revela um ambiente educacional cheio de conflitos e desafios. Também expõe a fragilidade de um sistema social em que há falta de diálogo e de integração. O problema da produção é seu ritmo lento e circular demais, em certos trechos, e com um roteiro um bocado simplista. Ainda assim, a produção de Jean-Paul Lilienfeld se revela uma peça interessante de discussão. Sem dúvida mostra um “estado das coisas”, uma realidade de conflitos e que acaba explorando docentes e marginalizando alguns alunos. Deve interessar especialmente às pessoas que gostam de debater sobre educação, juventude, modelos de ensino, sociedade multicultural e os desafios de integração de diferentes etnias, credos e etc. em sociedades “maduras”. Para o espectador interessado em entretenimento, contudo, deve parecer chato. E ele é, de fato, um bocado arrastado. E simplista. Mas tem alguns bons momentos e, principalmente, a coragem de tratar de temas importantes sem açucarar realidades. Ainda assim, basta uma procura um pouco melhor e é possível encontrar outros filmes sobre o tema da violência e falta de diálogo nas escolas melhores que este.

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