Side Effects – Terapia de Risco


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Ótimos atores e um diretor sempre provocador nem sempre são garantia de uma produção envolvente e interessante. Este é o caso de Side Effects. A última produção de Steven Soderbergh carece de sintonia entre os atores e, principalmente, de um roteiro que convença. A psicologia e a violência embalam o filme que não tem nenhuma grande sacada ou estilo. Parece apenas mais uma produção para faturar algum dinheiro e dar trabalho para profissionais enquanto eles pensam em um projeto realmente diferenciado no qual eles podem embarcar.

A HISTÓRIA: A câmera desliza em um cenário urbano até aproximar-se lentamente de um prédio com muitas janelas e fixar-se em uma. Corta. Manchas de sangue sobre um piso branco e uma cadeira com o assento para baixo. O sangue segue para outros tipos de piso, e há marcas de pegadas também. Finalmente, a câmera pousa sobre um barco que está sobre uma poltrona. Corta. Três meses antes, Emily Taylor (Rooney Mara) termina de passar batom no espelho do carro. Ela está pronta para visitar ao marido, Martin (Channing Tatum) na prisão. No trabalho, ela comenta com a chefe (Polly Draper) que agora falta pouco. Martin sai da cadeia, mas Emily parece incapaz de vencer a depressão ou algum outro distúrbio psicológico. Após uma crise, ela conhece ao doutor Jonathan Banks (Jude Law), que começa a tratá-la em busca de melhora.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Side Effects): Honestamente, tive (e tenho) preguiça de escrever sobre este filme. Porque ele, na verdade, me parece o resultado de um trabalho preguiçoso. Ou melhor, de um trabalho destes para cumprir tabela.

Dizem que há novelas da Rede Globo com excesso de personagens que se justificam porque o autor ou autora tem uma certa “preocupação” em dar emprego para os seus amigos. Ou para gente que admira. Side Effects, para mim, parece seguir esta linha. Os produtores Scott Z. Burns, Lorenzo di Bonaventura e Gregory Jacobs parece que planejaram este filme para que ele reunisse nomes fortes e promissores de Hollywood com o simples objetivo de colocar mais uma produção nos cinemas e que ela desse, entrando em cartaz, lucro.

Antes de Side Effects, Scott Z. Burns havia produzido apenas um curta-metragem e o documentário An Inconvenient Truth. Jacobs tem 19 títulos no currículo como produtor, incluindo Magic Mike, Haywire, Contagion e The Informant!, enquanto di Bonaventura tem 26 filmes como produtor, incluindo Salt, The Last Stand, Man on a Ledge e The Devil Inside.

O que se pode concluir destas observações? Que Burns não tem muita experiência como produtor, que Jacobs gosta de trabalhar com Soderbergh e que os dois e di Bonaventura tem péssimos exemplos de filmes nos currículos. Claro que os produtores não são os únicos responsáveis pelo resultado de uma produção mas, como bem explicou Heitor Dhalia quando lançou Gone, eles tem um peso decisivo no resultado de qualquer filme de Hollywood. São raras as exceções e os projetos da indústria que não tem um bom peso do olhar dos produtores.

Ainda assim, claro, não dá para eximir os demais participantes desta produção pelo resultado abaixo do esperado de Side Effects. O filme, na verdade, começa bem. Com aquelas cenas provocativas de sangue e de violência sugerida, antes do famoso “três meses antes” surgir. E daí Rooney Mara aparece com toda aquela expressão frágil e parecendo uma bomba relógio prestes a explodir.

A primeira dificuldade de Side Effects é que Rooney Mara tem alguns momentos exuberantes, em que está linda e que parece uma bond girl (como na festa em que a sua personagem vai ao lado do marido antes de ter uma crise na frente de todos) mas, na maior parte do tempo, ela parece uma atriz esforçando-se demais em parecer frágil e descompassada. Mas sem convencer.

Como em diversos filmes deste gênero, aguardamos o momento em que algo ruim vai acontecer. E de fato, ocorre. Até aí, tudo bem. O roteiro de Scott Z. Burns (eis um bom motivo para ele ser um dos produtores deste filme) segue mostrando a falta de estabilidade da protagonista até que o fato que causa a ruptura na história aconteça. O problema é que, até ali, o roteiro não tem a tensão que deveria. E a partir daquele ponto, a ladeira segue para baixo.

Tudo indica, mas algo parece estranho nestas indicações, que a protagonista não se sente confortável em ter o marido, ex-presidiário, de volta para a sua vida. Ao invés de enfrentar o problema, Emily tenta um suicídio difícil de engolir – no qual, claramente, ela não queria morrer. Até aí, tudo bem, porque um psicólogo pode dizer que ela estava apenas querendo chamar a atenção. Mas mesmo sendo acompanhada e medicada por Banks, ela não parece manter o controle. Até que ocorre o fato que dá a quebra narrativa no filme.

Por mais que a gente esperasse que algo sinistro acontecesse, quando ocorre, ficamos naquela perplexidade de “tá, que coisa mais fake!”. Mas sim, é aquilo mesmo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Emily mata o marido como se fosse um robô, e querem nos convencer que ela estava “sonâmbula”. Depois, o filme consegue piorar, com todo aquele esforço do enredo em “culpar” Banks. Quando finalmente fica evidente o relacionamento entre Emily e a Dr. Victoria Siebert (Catherine Zeta-Jones), fica ainda mais difícil de engolir aquele plano mirabolante de culpar Banks. Sério mesmo que elas acharam que ele seria massacrado publicamente e não faria nada para impedir aquilo?

E daí que o filme fica arrastado. Com Banks lutando para mostrar que não era culpado pelo tratamento de Emily ter dado errado ao mesmo tempo em que discutia o relacionamento com a mulher Dierdre Banks (Vinessa Shaw). Haja paciência! Difícil de engolir a estratégia pouco inteligente de Emily e Victoria e as respostas previsíveis de Banks. E em um filme como este, nada pior do que um roteiro que não convence, alguns atores com interpretações forçadas e umas estratégias previsíveis para seguir. O resultado, para mim, é um filme que me deu sono, e vontade alguma de comentá-lo.

Mas para não dizer que Side Effects é um perfeito desperdício, eu gostei de alguns momentos em que a direção de fotografia de Soderbergh junto com a trilha sonora angustiante de Thomas Newman e a interpretação cheia de desfaçatez de Rooney Mara conquistam a alquimia perfeita. São apenas alguns momentos do filme, mas eles se destacam. Também gostei da “ousadia” do romance entre Emily e Victoria, ainda que ele tenha sido um pouco difícil de acreditar – ou um pouco artificial demais. Mas estes raros momentos não fazem a produção ser um total desperdício. De qualquer forma, nada que valha realmente gastar o seu tempo.

NOTA: 5,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Voltei das férias trabalhando pra caramba. Isso é verdade. Mas admito que este filme também demorou tanto para sair aqui no blog porque ele me deu preguiça. Estou me livrando desta crítica agora, semanas depois de tê-lo assistido. E prometo terminar de colocar itens neste “obs de pé de página” em outro momento. E daí vamos virar a página, né? Assistir a um filme que faça a minha vontade de seguir com este espaço novamente – porque este não é o caso de Side Effects.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para este filme. Uma avaliação muito boa, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram ainda mais generosos, dedicando 156  críticas positivas e apenas 28 negativas para a produção – o que lhe garantiu uma aprovação de 85% e uma nota média de 7,4.

CONCLUSÃO: Toda vez que um filme se esforça muito para dar uma reviravolta fundamental, desconfie. Afinal, para uma história convencer, mais que nada, ela precisa estar bem amarrada. Todos os elementos devem ser apresentados antes, mesmo que o espectador não tenha percebido. Hitchcock está aí para ensinar os incautos sobre isso. O pecado primordial de Side Effects é que a história, depois da reviravolta, vista de trás pra frente, não convence. E isso é fundamental.

Os nomes envolvidos nesta produção sabem trabalhar em Hollywood. Afinal, estão habituados àquele ambiente. Por isso, fazem bem os seus trabalhos. Mas sem nenhum rompante, nenhuma demonstração de esforço que realmente foi recompensado. Pelo contrário. Parece que diretor e atores apenas cumprem o seu papel. Como aquele trabalhador que se habituado a bater o ponto no início e no final de cada dia, mas que não se importa muito com o que acontece no tempo entre um momento e outro. O roteiro não convence, a direção é competente, mas nada excepcional. E os atores, especialmente Jude Law, estão bem. Ainda que Rooney Mara pareça um pouco perdida. Dispensável, pois, se você tiver qualquer outra opção no lugar desta.

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9 comentários em “Side Effects – Terapia de Risco

    1. Olá Alexandre!

      Obrigada pela tua visita e pelo teu comentário. Ainda que você tenha falado pouco do texto e do filme, mas está valendo. Agradeço também por linkar o teu site. Sou sempre uma entusiasta de outros espaços que falem de cinema.

      Espero que apareças por aqui mais vezes, quem sabe para falar mais dos filmes, em uma próxima oportunidade?

      Abraços e até mais!

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  1. Soderbergh anunciar aposentadoria ou recesso na carreira, creio que seja um favor a todos nós, pois já estava cansativo ir assistir um filme dele com tamanha expectativa e não conseguir passar de 20 minutos de fita rodada, foram as minhas experiências com quase todos os seus últimos filmes. Acho ele como diretor, muito superestimado pela crítica e indústria do cinema.
    Quanto ao filme, “Terapia de risco”, até gostei, principalmente por ter conseguido assistí-lo até o final.
    Grande Abraço!

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    1. Olá Marcus!

      É sempre bom ver um comentário teu por aqui.

      Desta vez você foi um pouco duro com o Soderbergh, não? 😉 Mas eu te entendo. Realmente é ruim quando a gente espera mais de um diretor ou de um filme e acabamos nos frustrando. Acho que o Soderbergh tem o seu estilo e a sua assinatura, o que é algo importante, mas sim, muitas vezes ele não entrega o que esperamos.

      Talvez ele também seja um pouco supervalorizado pela crítica. Acho que alguns diretores o são. Da minha parte, gosto de alguns filmes dele, mas de outros, nem tanto. Ou seja, não está na minha lista de preferidos, sem dúvida. Ainda assim, sempre acho que um artista deve seguir a sua trajetória, mesmo que ela seja feita de altos e baixos. Ou seja, sempre acho ruim quando um diretor se despede. Afinal, é uma voz e um olhar artístico que deixa de existir, independente se eu gosto dele ou não.

      De qualquer forma, fico feliz que tu tenhas conseguido ver Side Effects até o final. Já é algo. 😉 Obrigada também pela tua visita e pelo teu comentário. Espero que voltes por aqui mais vezes. Abraços e inté!

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    1. Olá André!

      Curioso este teu comentário. Eu realmente teria que pesquisar para saber a origem do tal antidepressivo… ele veio primeiro ou foi o filme? Não sei. Mas o filme em si, não achei tão ruim. Mas pelo teu comentário, você não gostou muito, não é mesmo?

      Bom sempre te “encontrar” por aqui. Espero que retornes mais vezes para falar de outros filmes. Abraços e até mais!

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  2. Bom, na minha opinião o filme é excelente tanto em seu primeiro ato quanto no segundo, deixando de ser um drama sobre as pessoas dependentes de produtos químicos e o poder da indústria farmaceutrica sobre elas, para se tornar um excelente thriller. A abordagem da máfia da indústria farmacêutica como é dita em diversos diálogos do filme são excelentes, assim como a fragilidade de um terapeuta ser enganado, Claro, é uma ficção, mas não se duvide de nada. E a única coisa que não gostei do filme foi justamente o que você gostou… a fotografia.

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  3. *contém spoilers*

    Olá.
    Você obviamente se perdeu no plot twist em que se descobre que, na verdade a trama trata da indúistria farmacêutica e suas maracutaias, e não (apenas) do “triângulo amoroso”. Os personagens, a partir de então, são apenas instrumentos para contar sobre um golpe.

    “Rooney Mara (…) esforçando-se demais em parecer frágil e descompassada”
    É isso o que ela é, no filme: uma pessoa fingindo ser o que não é.

    “Emily mata o marido como se fosse um robô, e querem nos convencer que ela estava “sonâmbula””
    O filme não tenta convencer ninguém que ela é sonâmbula; ao contrário: o filme mostra que ela fingiu.

    “Por mais que a gente esperasse que algo sinistro acontecesse, quando ocorre, ficamos naquela perplexidade de “tá, que coisa mais fake!””
    Nenhum filme (música, peça, seriado, videogame) tem obrigação de ter roteiros em que só acontece o que a gente espera. E normalmente o inesperado tende a ser positivo porque nos faz refletir ao invés de apenas aceitar tudo “mastigadinho”.

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