Song to Song – De Canção em Canção

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Três pessoas e seus amores – especialmente, suas mulheres. O diretor Terrence Malick volta à cena com mais uma de suas narrativas diferenciadas, fragmentadas e cheias de pensamentos, palavras não ditas e muita beleza. Song to Song nos parece, mais que uma história, um compêndio de lembranças. É como se os protagonistas revisitassem as suas próprias histórias e paixões e falassem sobre tudo aquilo como pessoas um tanto “onipresentes” sobre tudo o que acontecia. Um filme muito peculiar, bem ao estilo de seu realizador.

A HISTÓRIA: Ele abre a porte devagar enquanto ela espera com o rosto perto da parede e da porta. Faye (Rooney Mara) confessa, em suas reminiscências, que houve um tempo em que sexo bom, para ela, tinha que ser violento. Faye e Cook (Michael Fassbender) se provocam sobre o chão. Faye continua comentando sobre como, para ela, era importante tentar sentir algo. E que ela decidiu experimentar tudo que podia. Por sua parte, Cook vivia a vida freneticamente. Outras pessoas aparecem em cena. Pessoas das quais vamos saber parte de suas histórias e desejos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Song to Song): Para assistir a este filme, não é preciso nenhum manual de instruções. Mas é altamente recomendado conhecer o estilo do diretor Terrence Malick. Especialmente o seu “mais recente” estilo de contar histórias de uma forma bastante fragmentada, de jeito “confessional” e mais artística do que o normal para Hollywood.

Não adianta assistir a um filme de Malick e achar que vai encontrar pela frente uma história “regular”, “mais uma” produção de um cineasta norte-americano. Esse diretor, que ficou 20 anos sem filmar depois de ter emplacado um sucesso de crítica e público, não se importa com convenções. Ele faz cinema como lhe parece melhor e de um jeito que faz sentido para ele. Em sua trajetória há filmes mais “palatáveis” e outros nem tanto. Depois de fazer o elogiado Days of Heaven, em 1978, Malick voltaria a lançar um longa apenas em 1998, The Thin Red Line.

Entre os seus filmes, The Thin Red Line pode ser considerada uma produção mais “mainstream” ou mais “facilmente digerível” pelo grande público. Mas nem sempre o diretor trabalha com este perfil de filme. Vide The Tree of Life que, quem acompanha o blog há mais tempo, sabe que me pareceu um tanto pretensioso demais. Mas Malick não se importa realmente com o que os outros acham. Ele faz os filmes da forma com que para ele faz sentido e espera que cada um trabalhe as suas histórias como lhe convir melhor.

Da minha parte – e como vocês sabem, super respeito as opiniões contrárias -, gostei mais deste Song to Song do que de The Tree of Life. Os dois filmes são um tanto pretensioso, além de “artísticos”, mas uma boa diferença entre eles é que nesta produção mais recente não temos que ver a uma longa de sequência da “origem dos tempos” que vimos em The Tree of Life. Em Song to Song o que interessa é a reflexão de três personagens sobre as suas próprias buscas pelo amor.

Sim, como eu comentei antes, novamente aqui temos a uma narrativa bem fragmentada e sem um sequência “lógica” dos fatos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A história não é linear, ainda que, por um tempo, o espectador pode acreditar que sim. Mas conforme vamos acompanhando as diferentes reflexões dos personagens sobre as suas escolhas e trajetórias, percebemos que não. A sequência dos fatos não é apresentada conforme tudo aconteceu e sim conforme os personagens vão “revisitando” as suas próprias lembranças.

Ainda que o filme tenha três “narradores” – Faye, Cook e BV (Ryan Gosling) em algum momento comentam as suas próprias lembranças -, existe um certo protagonismo da personagem de Rooney Mara. Ela é praticamente onipresente na história. Mas há sequências em que ela não aparece e nas quais os personagens de Ryan Gosling e Michael Fassbender contam um pouco sobre outras de suas desventuras amorosas.

Song to Song não é muito óbvio sobre a narrativa “ir e vir” na linha temporal. Percebemos isso nos detalhes, como quando BV pergunta para Faye o que “eles” fizeram com a “professora”. Ora, ele está se referindo à mulher de Cook, Rhonda (Natalie Portman). Conforme a história apresentada por Malick, parece que Cook conhece Rhonda após ele ter “desistido” de Faye. A nossa protagonista, encantada por BV, acaba deixando para trás a relação intensa, um tanto “doentia” e “caótica” que ela tinha com Cook. Mas quando a secretária do ricaço DJ e músico vira amante dele, aparentemente, ele já era casado com Rhonda.

Como este filme é um grande compêndio de reminiscências de três pessoas sobre os seus amores e as suas trajetórias, não existe uma preocupação temporal na narrativa. Pense em você mesmo. Quando você começa a lembrar de seus amores e de suas escolhas, dificilmente você segue uma ordem realmente cronológica, não é mesmo? As lembranças vão e vem conforme a ordem que nós mesmos colocamos nas nossas recordações. Muitas vezes a ordem que damos vai do ponto mais importante para o que tem menos importância, mas esta graduação também vai mudando com o tempo.

O mesmo parece acontecer com este filme. E por fazer esta escolha Malick nos apresenta algo interessante e um tanto “inovador”. Poucos diretores – para não dizer que mais nenhum – teria a coragem de fazer um filme tão diferenciado. Mas esta parece ser a natureza de Malick. Então a narrativa é interessante. Ponto. Mas isso não torna o filme brilhante. Francamente, acho que a produção deixa a desejar um bocado na questão musical – eu esperava bem mais música embalando a trama – e, muitas vezes, a história abre espaço para um certo “puxa-saquismo” de estrelas da música.

Certo que o foco da história são personagens que vivem naquele ambiente. Mas tem pouco a acrescentar as “aparições” de famosos como Iggy Pop, Patti Smith ou os caras do Red Hot Chili Peppers (Flea, Anthony Kiedis e Chad Smith). É bacana vê-los interagindo com os personagens da história, mas achei um tanto “forçado” colocar Iggy Pop e Patti Smith em sequências maiores do que aparições relâmpago.

Além disso, apesar de eu agradecer de não ter uma longa e tediosa sequência sobre “a origem da vida e a evolução até hoje” ao estilo de The Tree of Life para encarar neste novo filme, achei que toda a “arte” do nosso amigo Malick carece um pouco de conteúdo. Ele ama belas imagens, assim como ama tirar interpretações “legítimas” de seus atores, incentivando eles a se “soltarem” a partir de seus personagens. Dá para perceber que os astros em cena – e a lista é admirável – também se divertem. Mas no final, o que fica para nós, espectadores de tudo isso?

Sim, quem ama belas cenas tem várias aqui para curtir. Os fãs dos astros escolhidos à dedo para esta produção também vão vê-los em grande forma. Belos, valorizados pelo diretor. Mas e aí? O que Song to Song nos diz, afinal? O roteiro retrata alguns ambientes e personagens que tem tudo a ver com o século 21. Jovens – ou não tão jovens assim, mas que gostariam de ser jovens para sempre – que gostam de viver cada dia ao máximo.

Que gostam, como bem define Faye, de experimentar. Muitas vezes eles exageram nesta experimentação porque querem sentir algo… preencher um vazio que, só tempos depois, eles vão descobrir que não será preenchido com música, raves eletrônicas, conhecendo famosos, enchendo a cara ou se drogando. O tempo ensina um bocado, assim como as experiências, é claro. Este é um filme sobre pessoas que olham para as suas próprias trajetórias e amores tentando aprender com elas. Colhemos o que plantamos e, algumas vezes, um pouco mais do que isso. Song to Song trata disso e de mais.

Achei esse filme interessante por ele tratar tão bem de pessoas que estão vivendo os nossos dias. Pessoas de carne e osso, como você e eu, a gente tendo ou não os mesmos ambientes em comum. Não importa se você se identifica com eles ou não. Temos em comum a nossa humanidade e nossa busca pelo amor – atual ou que ficou no passado. Como eles. Achei por isso Song to Song um filme bastante humano, apesar da forma dele ser tão diferenciada e, muitas vezes, esta forma roubar o protagonismo do conteúdo.

Algo que eu achei interessante nesta produção é como ela mostra que uma pessoa nunca é uma coisa só. Faye nos mostra isso de uma forma muito bem acabada. Ela vive diversos amores durante a produção. Está sempre disposta a “experimentar”. Os diferentes momentos – que eu chamo de retratos – da personagem são mostrados neste filme. Mas a junção deles nos revela o “filme” da vida da personagem. E nós também somos assim. Somos retrato (no momento) e também filme (na passagem do tempo). Não somos, assim, uma coisa só… somos múltiplos, complexos, simples e, conforme a vida passa, sabemos cada vez mais o que nos interessa e o que não.

Esta é a beleza da vida. E isso Song to Song nos apresenta. Bem no seu estilo, é claro. Mas esta mensagem está ali. Depois de Faye experimentar um bocado, ela sabe definir melhor quem ela é o que lhe interessa. O que lhe faz mais sentido. Esta é a beleza da passagem do tempo e do aprendizado. Os personagens deste filme e nós mesmos vamos aprendendo com os nossos erros e nossos acertos. Sabendo selecionar melhor o que nos faz bem e o que nos dá sentido. Faye descobre que tipo de amor lhe interessa, ainda que essa descoberta parece ter sido um tanto tardia – e as suas escolhas anteriores terem cobrado um preço grande dela através da culpa.

Estas questões renderiam outro texto, longas discussões, mas não vem ao acaso. O que importa mesmo é o que Song to Song nos apresenta histórias de amor e de vida interessantes e muito atuais. No mundo há muita fúria, caos, amor, alegria, culpa, entrega e desespero. Sentimentos e reações que são retratados nesta produção. Cook é um cara cheio de grana que gosta de mostrar o que o dinheiro pode comprar e trazer “de bom”. Mas ele não percebe a destruição que esse mesmo dinheiro e falta de freios pode causar – até que é tarde demais.

Quantas pessoas existem no mundo com este perfil? Quantas você já encontrou pela frente ou apenas ouviu falar? Cook realmente “contamina” todos que estão ao seu redor mas, tão cheio de si, não percebe como esta sua forma de vida nos 220 volts provoca estragos. Novamente temos pela frente a questão do “como as pessoas buscam preencher os seus próprios vazios”. Esta é uma questão existencial, tão ao gosto de Terrence Malick.

Para o meu gosto, desta vez, a reflexão existencial dele não é chata. Ela está cheia de amor, cenas provocantes e sensuais e muita, muita beleza. Nossos olhos agradecem, ainda que, no final, podemos pensar que seria interessante ter, além da forma e do visual, um pouco mais de “substância” na história. Mas isso tudo, evidentemente, vai depender do gosto do cliente.

Para os fãs do diretor e para as pessoas que gostam dos atores em cena, dificilmente este filme não será prazeroso. Para os demais – a maioria – ele será longo demais e “artístico” demais. Acho que eu fico no meio do caminho entre estas duas visões, pendendo um pouco para a primeira. Até porque, no fim das contas, o filme tem uma mensagem interessante. De que o amor pode sim preencher aquele vazio existencial do qual boa parte da história trata. Voltar para o simples, deixar tanta besteira de lado e focar no amor pode ser uma boa saída. Song to Song nos mostra isso.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como sempre, não gosto de ver muito sobre o filme que eu vou assistir antes de conferi-lo de perto. Sendo assim, para mim foi uma surpresa ver tantos astros nesta produção. Claro que eu já sabia que estavam neste filme Ryan Gosling, Michael Fassbender e Rooney Mara. Mas foi uma surpresa ver também Natalie Porman e Cate Blanchett, só para citar os papéis importantes. Além delas, fazem papéis menores outros nomes interessantes/importantes, como Holly Hunter, Bérénice Marlohe, Val Kilmer, Linda Emond, Lykke Li e Olivia Grace Applegate.

Isso para citar apenas os atores. Além deles, há muitos outros famosos da música. Além dos já citados anteriormente, vale citar John Lydon, Florence Welch, Big Freedia, Tegan e Sara Quin, entre outros.

Song to Song estreou em março de 2017 no Festival de Cinema South by Southwest. Até agosto ele terá participado de outros quatro festivais – incluindo os de Sydney e Melbourne.

Não encontrei informações sobre o quanto o filme custou, e os dados sobre o resultado dele nas bilheterias americanas ainda é restrito, de cerca de US$ 443 mil – resultado em 77 dias em que ele ficou em cartaz em apenas 95 cinemas. Ou seja, ele estreou em um circuito bastante fechado e ainda não se deu muito bem.

Agora, aquelas curiosidades “clássicas” sobre a produção. De acordo com o ator Ryan Gosling, eles filmaram sem roteiro. Isso fica um pouco evidente ao assistirmos à produção, não? Provavelmente os atores receberam linhas gerais sobre os seus personagens e as suas histórias e improvisaram a partir daí. Depois é que vieram as “reflexões” sobre as suas histórias – o que construiu a narrativa propriamente dita.

O ator Christian Bale teria, inicialmente, um papel com certa importância no filme. Mas, no fim das contas, ele acabou participando de apenas quatro dias de filmagens e, no final, o personagem dele foi cortado da produção porque ele se parecia muito com o de Michael Fassbender. Ou seja, seria mais um nome de peso no elenco. Além dele, iriam participar com cenas na produção mas acabaram tendo estas participações cortadas na edição final nomes como Haley Bennett, Trevante Rhodes, Boyd Holbrook, Callie Hernandez, Clifton Collins Jr. e Benicio Del Toro.

Esta produção foi rodada ao mesmo tempo que Knight of Cups, filme dirigido por Terrence Malick e lançado em 2015 – e que eu não assisti. 😉

Song to Song foi parcialmente rodado durante o Austin City Limits Festival 2012 e, por isso, apresenta alguns artistas que se apresentaram no evento naquele ano, como Arcade Fire, John Lydon e Iron and Wine.

O diretor e roteirista Terrence Malick fez uma primeira versão desta produção com oito horas de duração. Já pensaram? hehehehehe. Deste corte final o filme foi sendo reduzido até ficar com pouco mais de duas horas de duração – ufa!

Esta produção foi rodada durante 40 dias no período de dois anos. Quando as filmagens eram feitas, elas eram longas, começando pela manhã e tendo apenas uma pausa de 30 minutos para o almoço. Malick saia com os atores pela cidade, muitas vezes filmando eles dirigindo, para depois usar estas imagens na produção.

Inicialmente esta produção iria receber o título de Limitless. Depois, foi batizada de Weightless. Até que chegaram à versão definitiva de Song to Song. Segundo Malick, com este filme ele quis mostrar como a vida é feita de “uma série de momentos”, como canções que marcam a nossa trajetória. Faz sentido e é muito coerente com o que vemos na telona.

Na primeira sessão de exibição deste filme em Los Angeles, cerca de 15 pessoas deixaram o cinema antes do filme acabar. Realmente o filme não agradou a muita gente, basta ver as bilheterias…

O destaque do filme, além da direção “visceral” de Terrence Malick é, sem dúvidas, o trio de atores principais. Rooney Mara, Ryan Gosling e Michael Fassbender estão bem “soltinhos” e se saem muito bem em seus respectivos papéis. Dos três, sem dúvida alguma o destaque mesmo é Mara. Ela está excelente.

Da parte técnica do filme, como a beleza é um elemento fundamental da história, um dos principais destaques é a direção de fotografia do sempre ótimo Emmanuel Lubezki. Depois, vale citar o bom trabalho do trio Rehman Nizar Ali, Hank Corwin e Keith Fraase na edição; o design de produção de Jack Fisk; a direção de arte de Ruth De Jong; a decoração de set de David Hack; os figurinos de Jacqueline West; o trabalho dos 24 profissionais envolvidos no departamento de som; e o trabalho dos seis profissionais que trabalham com o departamento musical.

Esta produção foi rodada na cidade de Austin, no Texas; e nas cidades mexicanas de Progreso, Mérida e Izamal.

Nem sempre os filmes de Terrence Malick são realmente marcantes. Talvez esta seja uma particularidade do diretor. Os filmes dele nos despertam impressões enquanto os assistimos mas, depois, não perduram muito na memória. Acho que esta é a característica dos filmes sem roteiros marcantes. Tanto isso é verdade que, por exemplo, não lembrava de ter assistido a To The Wonder, produção de Malick após The Tree of Life. Reparei, ao encontrar a crítica do filme, que gostei mais dele do que do anterior. 🙂

Os usuários do site IMDb deram a nota 6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 58 críticas negativas e 44 positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 43% e uma nota média de 5,4. Realmente os críticos parecem ter gostado pouco da produção. Curioso que os críticos aprovaram em 84% The Tree of Life. Realmente o meu gosto não bate com o deles. hehehehe

Este é um filme 100% dos Estados Unidos. Por causa disso ele entra para a lista de produções que atende a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Mais um filme artístico com a assinatura de Terrence Malick. Sim, o diretor tem um estilo próprio e esta produção é mais uma chance dele mostrar isso. Explorando a beleza dos lugares e das pessoas e um estilo de vida à la “carpe diem” nos 200 volts, Song to Song nos conta algumas histórias de amor embaladas por algo de música. Mais que som, o que vemos em cena é desejo, tesão, fúria, suavidade, e muitas, muitas reminiscências. O filme inteiro é como se alguém olhasse para trás, na própria história, e divagasse sobre o que viveu. É uma produção interessante, especialmente se você gosta do diretor e/ou dos atores. Mas vá com paciência. Porque este é um filme bem ao estilo Malick. Lento e “filosófico”, muitas vezes pretensioso e um bocado bonito.

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Lion – Lion: Uma Jornada para Casa

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A força do encontro com as próprias origens. Um drama real que acontece a cada ano com milhares de crianças – ou seria milhões no mundo inteiro? – e que é tratada com suavidade neste Lion. Mesmo quando nos deparamos com uma história triste, é possível encontrar muitas lições nela, assim como a manifestação pura de amor. Tudo isso faz parte deste filme que, apesar de ser bacana, é o mais fraco da temporada pré-Oscar.

A HISTÓRIA: Diversas paisagens que mesclam terra e mar. No final de uma sequência delas, o filme explica que esta produção é baseada em uma história real. Logo vemos a Saroo (Sunny Pawar) maravilhado com um grupo gigantesco de borboletas. No alto de uma montanha, o irmão mais velho dele, Guddu (Abhishek Bharate), chama o irmão. Eles tem uma missão a cumprir.

Os garotos sobem em um trem carregado de carvão e roubam o máximo que eles conseguem carregar. Guardas chamam a atenção deles, e um dos guardas corre ao lado do trem pedindo para eles pularem. Os garotos se divertem quando o trem passa em um túnel. Estamos em Khandwa, na Índia, no ano de 1986. Com o carvão que os garotos roubaram, eles conseguem dois pacotes com leite, que levam para casa, para a mãe deles, Kamla (Priyanka Bose). Este filme conta a história de Saroo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Lion): Nesses dias eu estava me perguntando onde estavam os tão conhecidos produtores da The Weinstein Company. Pois bem, resposta imediata nos créditos deste Lion. Isso explica, aliás, como este filme chegou tão longe, indicado a nada menos que seis estatuetas do Oscar.

Para quem não se lembra ou não liga os “nomes às pessoas”, os irmãos Weinstein são dois dos produtores mais fortes e “de peso” de Hollywood. Mais que investir em filmes, eles são craques no lobby de suas produções. Lobby é aquela campanha massiva que inclui favores e presentes para os votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood valorizarem uma produção.

Às vezes esse lobby premia filmes realmente bons, mas nem sempre é assim. Os irmãos Harvey e Bob Weinstein fizeram Quentin Tarantino ser conhecido e emplacaram The Artist, dois bons exemplos. Mas eles também conquistaram, a custo de muito lobby, um Oscar de Melhor Filme para o mediano Shakespeare in Love. Eis um mal exemplo. Enfim, há algum tempo eles não “ditam” as regras do Oscar, e eu estava achando a ausência deles até ver o gigante crédito da companhia neles neste Lion.

Não me entendam mal. Este não é um filme ruim. Ele apenas é mediano. Se não fosse a força dos Weinstein por trás da produção, dificilmente este filme apareceria no Oscar. Descontado Lion na premiação deste ano, realmente falamos de uma safra excepcional na premiação. Lion é o ponto fora da curva nesta boa safra.

O filme, com narrativa linear, conta a história do indiano Saroo, um garoto como qualquer outro da sua idade nos anos 1980. A família dele era pobre, a mãe dos garotos, aparentemente sozinha, cuidava de três filhos, sendo dois deles pequenos – Saroo era o do meio -, tendo como a sua principal fonte de renda o trabalho pesado com pedras. Saroo, a exemplo de tantas crianças da Índia, não tem uma lei para as proteger – ou se existe lei, ela não é cumprida, porque estas crianças trabalham desde cedo.

Lion mostra um pouco da realidade do garoto até que ele se perde do irmão mais velho, Guddu, com quem ele estava sempre grudado. Com sono, Saroo não é capaz de ajudar o irmão em um trabalho noturno. Guddu pede para ele ficar no banco da estação de trem, mas o garoto acaba entrando em um vagão que é fechado e que não para em diversas estações até, finalmente, aceitar passageiros em Calcutá.

O menino, que parece ter cerca de seis anos, está a 1,6 mil quilômetros de casa. Ele cita o lugar em que ele mora, mas não fala bengalês, apenas híndi, e ninguém sabe do lugar do qual ele está falando. Saroo acaba tendo sorte e escapa de duas ciladas, pelo menos, passando a morar na rua e a se virar para conseguir comida. Em um certo dia, ele chama a atenção de um rapaz que com em um café (Riddhi Sen) e que o leva para a polícia.

Lá ele é “fichado”, ganha uma identificação como uma criança perdida, e é levado para um orfanato. Na sequência, ele é atendido pela Mrs. Sood (Deepti Naval), que publica um anúncio no jornal da cidade mas que, claro, não é visto pela família dele – não apenas porque a mãe do garoto é analfabeta e pobre, mas porque eles estão muito distantes de Calcutá.

Sem resposta da família do garoto, ele tem a sorte de ser adotado pelo casal australiano Sue (Nicole Kidman) e John Brierley (David Wenham). Uma das primeiras reflexões que Lion provoca é sobre o improvável da história de Saroo. Infelizmente ele é uma exceção naquela realidade da Índia – e de tantos países em que a pobreza e a desigualdade social não são artigos raros.

Impossível não pensar que para cada Saroo que tem sorte e que “dá certo” na vida porque tem as oportunidades para isso, existem tantas e tantas outras crianças que se dão muito mal e não tem a mesma oportunidade. Sem dúvida alguma é de cortar o coração, e toda a parte que mostra Saroo na sua fase de infância é o que Lion tem de melhor.

Na fase seguinte, há um grande trabalho que vale o investimento de tempo do espectador: o da atriz Nicole Kidman. Ela está ótima no papel da mãe adotiva de Saroo e tem, sem dúvida alguma, os melhores momentos de interpretação do filme – talvez esse seja o melhor trabalho dela deste The Hours. E isso não é pouca coisa. Nicole Kidman merece a sua indicação para o Oscar deste ano. Ela é o ponto forte do filme junto com os atores mirins da produção.

Adotado pelo casal, Saroo se desenvolve bem e tem as melhores oportunidades de estudar e de fazer esportes. Ele tem uma boa vida na Austrália. A história avança 20 anos, quando Saroo sai da casa dos pais para morar sozinho em Melbourne. É lá, interagindo com outros estudantes, que ele começa a questionar as suas origens e o seu passado. Começa a relembrar da mãe, do irmão, e da vida que tinha na Índia.

Esta é uma parte que eu acho mal explicada no roteiro regular de Luke Davies, baseado no livro escrito por Saroo Brierley. Afinal, Saroo ficou 20 anos morando com os novos pais na Austrália e nunca questionou as suas origens, procurou saber mais sobre a família e até buscá-la antes? Verdade que o indivíduo, quando vai morar sozinho, passa a ter outro tipo de “busca de si mesmo” mas, ainda assim, é um pouco estranho esse salto todo na vida do garoto sem nenhuma contextualização sobre as memórias dele antes, não?

Eu achei que o filme deixou esse buraco grande na história e que isso compromete a produção. Ok que eles quisessem saltar bastante tempo na trajetória de Saroo e mostrá-lo já adulto (interpretado então por Dev Patel). Mas então nesta fase adulta ele poderia ter comentado algo sobre como ele lidou com as suas lembranças e a saudade que tinha da família original, não? Para o meu gosto, o roteiro de Luke Davies é o ponto fraco de Lion.

Outra questão que eu acho que Davies não trabalha bem é sobre a “crise existencial” pela qual passa o protagonista desta história. Ok que ele estava dividido entre a necessidade de procurar a família original e a preocupação de não chatear os pais adotivos, mas isso não é exatamente bem explorado pela produção.

Lion acaba desacelerando justamente em uma parte vital, quando o rapaz começa a questionar a vida confortável que ele leva na Austrália e recorda o contraste das experiências que ele teve na Índia. A história acaba se repetindo naquela indecisão dele de realmente buscar as origens, o que não ajuda na narrativa.

O filme não teria perdido nada, pelo contrário, se tivesse cortado um pouco aquela investigação “by Google Earth” e explorado melhor as relações pessoais dele ou partido logo para a procura dele de suas origens. Francamente eu achei que ele não encontraria ninguém quando voltasse para casa, mas ele ainda tem a sorte de rever a mãe.

Lion nos faz pensar, desta forma, em dois elementos fundamentais: a importância de cada um de nós entender com profundidade de onde veio, porque nossas origens acabam moldando muito o que somos; e o quanto a desigualdade de oportunidades é algo injusto e cruel. Saroo acaba tendo uma qualidade de vida e uma série de oportunidades que ele jamais teria se tivesse ficado na Índia. Mas onde ele seria mais feliz? Nunca saberemos.

Mas independente disso, toda criança deveria ser protegida e ter as mesmas oportunidades na vida. Depois o que cada um faria de sua trajetória, seria algo que competiria a cada indivíduo. O cruel e injusto do mundo é que muitas crianças simplesmente não tem oportunidade de se desenvolver e de ter oportunidades na vida. Lion mostra isso de forma muito contundente, ainda que o filme poderia ser melhor planejado e ter um roteiro mais inteligente na segunda parte da produção.

Antes eu comentei sobre o ótimo trabalho de Nicole Kidman. Para mim, ela tem alguns dos melhores diálogos da produção. Particularmente, estou totalmente de acordo com ela de que já existem pessoas suficientes no mundo. O que muitos casais poderiam fazer, a exemplo do que os Brierley desta história fizeram, é adotar algumas das crianças que não tem estrutura familiar e que não terão oportunidades na vida para realmente dar para elas uma outra realidade.

Esta é uma outra boa reflexão que Lion nos propicia, pensar sobre que realidade temos, qual queremos ter e de que forma podemos contribuir para esta mudança. Este é um filme bacana, necessário, pena que não tem a qualidade narrativa que ele poderia ter.

NOTA: 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O destaque desta produção são os garotos Sunny Pawar e Abhishek Bharate. Eles se saem muito bem em seus papéis, ainda que o roteiro de Luke Davies não ajude muito os dois ao tentar levar a narrativa um pouco para o “sentimentalismo”. Existe uma linha tênue entre retratar uma história difícil e explorá-la. Lion acaba caindo mais para o segundo lado do que para o primeiro. Mas sempre que os garotos aparecem em cena, o filme ganha.

Na parte da fase adulta do protagonista, quem brilha é Nicole Kidman. Ela nos dá uma lição de amor e de dedicação pela forma igualitária com que ela trata os dois filhos adotivos. Saroo é um exemplo de filho, aparentemente, mas o segundo garoto que o casal adota, Mantosh (Divian Ladwa, vivido por Keshav Jadhav na infância), claramente tem problemas de comportamento. Isso não importa para Sue, que ama e aceita os filhos como eles são e da mesma forma.

Dev Patel está bem em seu papel, mas não faz nada extraordinário – para mim, o personagem de Saroo perde em força quando ele o interpreta, comparando com o trabalho de Sunny Pawar. Nesta fase da história estão bem também David Wenham como o pai dos garotos e Rooney Mara como Lucy, namorada de Saroo. Rooney Mara está novamente encantadora, e convincente, mas o roteiro não lhe ajuda muito. Uma pena.

Além dos atores citados, vale comentar o bom trabalho dos coadjuvantes Khushi Solanki em uma super ponta como Shekila quando criança; Tannishtha Chatterjee como Noor, uma mulher que ajuda Saroo quando criança com segundas intenções; Nawazuddin Siddiqui como Rawa, aparentemente um traficante de pessoas; Koushik Sen como o policial que atende Saroo; Pallavi Sharda como Prama, amiga de Saroo que o incentiva a procurar as suas origens; Sachin Joab como Bharat, também amigo de Saroo; Arka Das como Sami, jovem que faz parte do mesmo grupo; e Rohini Kargaiya como Shekila adulta.

Da parte técnica do filme, vale comentar o bom trabalho de uma série de pessoas. Ainda que, francamente, todos cumpram bem a sua função, apenas o diretor de fotografia Greig Fraser é o que merece uma menção especial. Os demais fazem apenas um trabalho ok. Ainda assim, vale citá-los: Volker Bertelman e Dustin O’Halloran assinam a trilha sonora; Alexandre de Franceschi faz a edição; Chris Kennedy assina o design de produção; Nicki Gardiner e Seema Kashyap assinam a decoração de set; Cappi Ireland, os figurinos; e Erica Brien o departamento de arte.

Sobre os irmãos Weinstein e o seu trabalho forte com o lobby em Hollywood, vale dar uma olhadela nesta matéria da revista Exame.

Lion estreou em setembro no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria ainda de outros 18 festivais pelo mundo. Em sua trajetória até agora, Lion conquistou 26 prêmios e foi indicado a outros 72, incluindo seis indicações ao Oscar 2017.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Ator Coadjuvante para Dev Patel no Bafta Awards; para o de Melhor Diretor Estreante para Garth Davis dado pelo Directors Guild of America; oito prêmios como Melhor Filme – a maioria dada pelas audiências de festivais; dois prêmios de Melhor Roteiro Adaptado; quatro prêmios de Melhor Ator Coadjuvante ou de Melhor Ator para Dev Patel; quatro prêmios para Melhor Atriz Coadjuvante para Nicole Kidman; um prêmios de Melhor Fotografia e um prêmio de Melhor Ator para Sunny Pawar.

Lion teria custado US$ 12 milhões, um orçamento até baixo para a complexidade da produção. O filme faturou, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 30,4 milhões e, nos demais países em que já estreou, outros US$ 14,1 milhões. Até o momento a produção faturou pouco mais de US$ 44,5 milhões, ou seja, está trilhando o caminho do lucro – até porque ele custou relativamente pouco para os padrões de Hollywood.

Como a história mesmo conta, Lion foi totalmente rodado na Índia e na Austrália. Entre as cidades em que a produção passou estão a de Kolkata, em West Bengal, na Índia, e as de Hobart, Melbourne, Bruny Island, Cape Hauy e Recherche Bay, todas na Austrália.

Esta foi a estreia de Sunny Pawar no cinema. Torço para que ele consiga ter uma carreira legal. Talento não lhe falta. Falando em estreias, Lion também marca a estreia de Garth Davis entre os longas – antes ele tinha feito o documentário P.I.N.S., o curta Alice e alguns episódios das séries Love My Way e Top of the Lake.

Agora, aquelas curiosidades básicas da produção. A personagem de Rooney Mara não é baseada em uma pessoa específica, mas é a junção de diversas “amigas” do protagonista que o acompanharam em sua longa jornada em busca de seu lugar de origem.

Como a produção mesmo informa, na Índia, todos os anos, 80 mil crianças se perdem de seus país. E um número ainda mais impressionante e de cortar o coração: 11 milhões de crianças vivem nas ruas da Índia. Vocês leram bem? 11 milhões de crianças! Os produtores de Lion criaram a fundação #LionHeart para tentar ajudar estas crianças que vivem nas ruas.

A atriz Nicole Kidman foi escolhida a dedo pela verdadeira Sue Brierley. As duas conversaram sobre o papel em Sydney e imediatamente Nicole e Sue viram que elas tinham algo em comum: as duas amavam os seus filhos naturais e adotivos da mesma forma.

Nada menos que 4 mil meninos fizeram os testes para interpretar Saroo na infância.

O ator Dev Patel considera o roteiro de Lion o melhor que ele já leu.

Na Austrália o filme teve a melhor estreia de um filme independente da história. Entre todos os filmes do país que já estrearam naquele mercado, Lion teve a quinta melhor estreia de todos os tempos.

Esta é uma coprodução da Austrália, dos Estados Unidos e do Reino Unido. Como tem os EUA no meio, Lion atende a uma votação feita aqui no blog há um bocado de tempo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para esta produção, o que é uma avaliação muito boa para os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 156 críticas positivas e 26 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 7,3. Me parece, até pelos prêmios que este filme já recebeu, que os espectadores têm sido mais “sensíveis” para a produção do que os críticos. Desta vez, tenho que concordar mais com os críticos. A história de Lion é importante, mas não é muito bem contada e nem é surpreendente. Enfim, poderia ser melhor.

Achei forçado o material de divulgação do filme explorar tanto a imagem de Dev Patel. Por justiça, seria muito mais interessante termos cartazes que dessem destaque para os irmãos quando pequenos. Afinal, a parte mais interessante do filme está com eles. Mas entendo os produtores, preocupados com a bilheteria, por explorarem a imagem do conhecido Dev Patel e da “queridinha” Rooney Mara.

CONCLUSÃO: A mensagem deste filme é importante, e ele tem boas interpretações. Mas entre os indicados deste ano do Oscar este é, sem dúvida, o elo fraco da corrente. Primeiro porque o filme é um bocado arrastado e tem muitos altos e baixos. Depois, porque ele talvez teria funcionado melhor como documentário do que como uma produção dramática.

Falta para esta produção um pouco de conteúdo, de brilho e de emoção, apesar de Lion ter algumas mensagens muito bacanas, especialmente pela forma com que o filme defende a importância da família, da generosidade, da busca por si mesmo e do amor. Vale a pena assistir se você já viu a todos os outros indicados ao Oscar desta safra.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Parece incrível pensar que Lion foi indicado em seis categorias do Oscar. Ok, o filme é bom, mas ele não passa disso. Como eu comentei por aqui antes, a única explicação para este número de indicações é a força dos produtores Harvey e Bob Weinstein. Eles continuam tendo um lobby forte em Hollywood, pelo visto.

Lion concorre neste ano nas categorias Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante para Dev Patel (classificação estranha essa, mas não é inédita), Melhor Atriz Coadjuvante para Nicole Kidman, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia e Melhor Trilha Sonora.

Entre os nove filmes indicados na categoria principal do Oscar deste ano, não tenho nenhuma dúvida em afirmar que Lion é o mais fraco concorrente. Sendo assim, claro que chance zero do filme ganhar nesta categoria. Também não vejo nenhuma chance do filme levar em Melhor Ator Coadjuvante – o prêmio deve ir para Mahershala Ali, de Moonlight – ou em Melhor Atriz Coadjuvante.

Apesar de Nicole Kidman ser, provavelmente, a indicação mais justa que o filme recebeu no Oscar 2017, a categoria em que ela concorre deve ser ganha por Viola Davis – que, a exemplo de Patel, poderia, perfeitamente, estar na categoria principal e não na de coadjuvante, já que ambos são os protagonistas nos seus respectivos filmes.

Na categoria de Melhor Roteiro Adaptado, Lion corre totalmente por fora. Não imagino ele tendo qualquer chance contra Moonlight, Fences, Arrival ou Hidden Figures. Todos os quatro são melhores do que ele.

Em Melhor Fotografia e em Melhor Trilha Sonora o favoritíssimo da noite é La La Land, apontado como o filme que será mais premiado na noite do Oscar. Quem corre por fora na primeira categoria é Arrival e Moonlight, enquanto na segunda existe uma mínima chance para Moonlight e Jackie. Ou seja, se o previsto acontecer, Lion sairá da noite do Oscar de mãos vazias. Nesta temporada de grandes filmes concorrendo, não será uma injustiça.

Kubo and the Two Strings – Kubo e as Cordas Mágicas

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Contar histórias com maestria é um verdadeiro dom. E quando estas histórias, bem contadas, ainda tem algumas mensagens importantes costuradas de forma discreta em sua trama aqui e ali, tanto melhor. Kubo and Two Strings é uma animação que enche os olhos pela beleza de sua arte e que massageia a alma pela beleza de sua história. Um lindo, lindo filme, que eu só descobri porque ele está cotadíssimo para o Oscar. E merece chegar lá, não há dúvidas.

A HISTÓRIA: Começa em uma tempestade e com o narrador recomendando que ninguém pisque, que continuem olhando mesmo que alguns acontecimentos pareçam estranhos. Quando uma onda gigantesca aparece à frente de uma mulher que está surfando com uma guitarra, ela dá uma nota no instrumento e a onda se abre.

Mas, na sequência, outra onda se forma às costas da mulher e ela submerge, batendo a cabeça em uma pedra. Em terra firme, a mulher acorda com o choro de um bebê. O narrador diz que o herói se chama Kubo (voz de Art Parkinson), e esta é a história dele.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Kubo and Two Strings): Este é um filme que me surpreendeu. E não foi pouco. Pelo cartaz da produção – como vocês sabem, evito ao máximo de assistir a trailers de filmes ou de ler a respeito da história antes – eu achei que se tratava de um filme de ação, quem sabe com algo de lutas marciais, e bem ao estilo de “produção para meninos”. Eu não poderia estar mais enganada.

Diferente dos filmes da Disney que eu assisti para esta temporada pré-Oscar, Kubo and the Two Strings tem uma forte marca artística. Não apenas pelo estilo e pela técnica utilizada no desenho, que é um stop-motion de tirar o chapéu, mas também pela temática e pela proposta da história propriamente dita.

Kubo and the Two Strings é um filme de animação que segue o estilo aventura e ação, mas ele, diferente de Zootopia (comentado por aqui), tem na tradição de uma cultura, a japonesa, um elemento fundamental. Além disso, o filme rende uma grande, imensa homenagem para os contadores de histórias. O próprio protagonista é um deles. E ele segue uma tradição familiar, já que a mãe dele também era fera em contar histórias.

Uma das mensagens importantes deste filme é justamente esta, da valorização das tradições e da história familiar. Kubo empreende uma aventura de sobrevivência que é, acima de tudo, uma viagem de autodescoberta. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Logo nos primeiros minutos do filme vemos como Kubo sobreviveu a uma fuga desesperada da mãe dele. Conforme o garoto cresce, parece que a sua mãe (voz de Charlize Theron) vai ficando cada vez mais distante, com lapsos importantes de memória.

Como a cultura japonesa preconiza, Kubo tem que seguir uma série de regras para ficar “seguro”. Mas um dia, com a esperança de falar com o pai morto, o samurai Hanzo, seguindo uma tradição do vilarejo em que ele mora próximo com a mãe, Kubo quebra uma destas regras. Ele fica até depois do anoitecer “na rua” e acaba sendo encontrado pelas irmãs malévolas (voz de Rooney Mara) de sua mãe – ele estaria sempre sendo perseguido pelo avô, o Rei Lua (voz de Ralph Fiennes).

Para salvar o filho, a mãe de Kubo se sacrifica para mandá-lo para longe e enfrentando as irmãs. Quando acorda, Kubo está sob a guarda de uma macaca (voz de Charlize Theron) – o amuleto que a mãe dele sempre disse para ele manter por perto. A partir daí, os dois empreendem uma cruzada atrás da armadura e da espada que serão os únicos recursos possíveis para tentar proteger o nosso herói de seu algoz.

Os diferentes lugares pelos quais Kubo, a macaca e, depois, um ex-samurai convertido em besouro (voz de Matthew McConaughey) passam são fascinantes. O visual dos cenários, assim como a técnica de animação mais “artesanal” e o roteiro muito bem escrito por Marc Haimes e por Chris Butler baseados na história criada por Haimes e por Shannon Tindle são o ponto forte da produção.

Algo que me encantou e surpreendeu também neste filme é a forma com que os roteiristas não tratam o público potencial de Kubo and the Two Strings de forma infantil. Crianças podem assistir a este filme sem problemas, é claro, mas elas vão perceber que nem todos os personagens tratam o herói com delicadeza. A macaca, em especial, lhe dá algumas duras muito boas – algo típico de adultos preocupados em ensinar e não apenas em adular os seus filhos.

Como pede um bom filme de ação que é protagonizado por uma criança e que tem um certo senso de realidade, Kubo and the Two String mostra um herói que deve estar preparado para ser perseguido e agredido. Este não é um filme politicamente correto. Apesar de ser, essencialmente, uma fantasia, ele mostra que crianças podem passar por momentos muito difíceis, por solidão, dor e perdas importantes.

Ainda muito jovem Kubo fica órfão e deve ainda lutar por sobreviver. Ele acaba amadurecendo rápido por causa disso, mas ainda assim não perde a leveza de suas criações ou abre mão dos valores que aprendeu da mãe. Desta forma, além de valorizar as tradições e as histórias bem contadas, Kubo and the Two Strings também presta uma bela homenagem para as famílias, para os mortos e seus legados e para a humanidade e toda a sua imperfeição.

Ao contrastar o Rei Lua, que seria sinônimo de retidão e de “perfeição”, com Hanzo e sua pequena família que prefere viver no meio das pessoas e sua realidade imperfeita, Kubo and the Two Strings mostra claramente como é preciso fazer uma escolha entre estes dois mundos. O herói da história não tem dúvidas sobre preferir e defender a humanidade, o amor, a imperfeição, a compaixão e o perdão que são característicos deste contexto – e não de um mundo perfeito.

Com uma trilha sonora fantástica e um roteiro que dá o espaço adequado para os momentos de silêncio e para os diálogos inteligentes, com um texto muitas vezes irônico e uma narrativa envolvente, Kubo and the Two Strings é uma grande surpresa. Um filme muito interessante sobre a força de uma boa história e a valorização de uma cultura.

Depois de assistir a este filme, eu acho que ele pode ser entendido de duas formas diferentes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Exatamente da forma com que ele é apresentado, ou seja, com uma alta dose de fantasia, ou como uma alegoria de uma realidade difícil.

Se observarmos com atenção, na parte inicial do filme, quando Kubo está contando a sua história no festival cultural do vilarejo, na rua, o senhor idoso que aparece no final como sendo o avô dele está na plateia. Ele não parece se envolver na história como os demais – no final da produção, após o embate do Rei Lua com Kubo, o homem aparece “fora da fantasia”, normal, e parece sofrer de Alzheimer.

Ora, se este filme é uma grande alegoria, podemos entender que Kubo e a mãe dele viviam isolados por causa de algum problema familiar e que, após a morte dos pais do garoto, ele volta a tentar resgatar o avô de seu próprio esquecimento, se aproximando do patriarca da família que parecia ter feito muito bem para aquela comunidade mas que depois se perdeu em sua “própria escuridão”.

Olhando sob este prisma, Kubo tem um gesto muito bonito ao tentar “resgatar” o avô e trazê-lo para o contato com a realidade do vilarejo novamente. Ao mesmo tempo, a alegoria da história nos mostraria um menino fantasiando com os pais como animais – macaca e besouro – e vivendo com eles uma grande aventura como forma de conhecê-los melhor e de conviver um pouco mais com eles.

Nos últimos minutos do filme, Kubo and the Two Strings nos deixa mais uma bela mensagem. De que ninguém que morre e “nos deixa” parte de verdade. Como o roteiro de Haimes e Butler bem argumentam, as pessoas continuam vivas enquanto alguém lembrar delas e contar as suas histórias. Além disso, sempre estaremos conectados com as pessoas que partiram. Familiares e amigos que continuam vivos nas nossas memórias, corações, e que estão conectados com a gente em espírito. Belas mensagens. Lindo filme. Desta temporada, a melhor animação que eu vi.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Achei a direção de Travis Knight de uma delicadeza impressionante. Atento aos detalhes, mas também acertando em dar o ritmo certo para cada sequência, o diretor leva bem para a telona o ótimo roteiro da dupla Marc Haimes e Chris Butler. Além de envolvente, o roteiro acerta ao apostar em um número reduzido de personagens, o que permite que a relação entre eles seja valorizada, e também em equilibrar bem aventura, drama e comédia (com uma boa pitada de ironia).

Este filme marca a estreia do americano Travis Knight, de 43 anos, na direção. No currículo dele havia, até então, oito trabalhos como animador, com ele sempre compondo departamentos de animação. Ele estreou nesta função no ano 2000, no filme feito para a TV Boyer Brothers. Nos últimos anos ele participou de produções como Coraline, ParaNorman e The Boxtrolls. Por este último trabalho ele foi indicado ao Oscar, mas acabou perdendo a estatueta dourada para Big Hero 6.

Interessante como este filme tem alguns astros por trás das vozes dos personagens principais. Destaque para os ótimos desempenhos de Charlize Theron (mãe de Kubo/macaca), Matthew McConaughey (besouro), Ralph Fiennes (Rei Lua) e, claro, o ótimo Art Parkinson (Kubo). Além deles, vale citar o bom trabalho de Brenda Vaccaro, como Kameyo, a senhora idosa que é amiga de Kubo e fala com ele antes de cada apresentação; e de Rooney Mara como as tias de Kubo, ainda que ela tenha poucos diálogos comparado com outros atores. Os atores George Takei e Cary-Hiroyuki Tagawa interpretam a pessoas do vilarejo, sem grande destaque.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma um dos grandes destaques é a trilha sonora de Dario Marianelli. Perfeita e muito inspirada. Também achei excelente o trabalho do diretor de fotografia Frank Passingham; do editor Christopher Murrie; e, claro, do excepcional departamento de arte da produção com 34 profissionais e da equipe super talentosa de 90 profissionais do departamento de animação.

Vale citar também o trabalho competente de Daniel R. Casey e Nelson Lowry com o design de produção; de Deborah Cook com os figurinos; dos 10 profissionais envolvidos com os efeitos especiais e dos 50 profissionais envolvidos com os efeitos visuais. Cada um deles com uma contribuição fundamental para o excelente resultado deste filme.

Kubo and the Two Strings estreou no Festival Internacional de Cinema de Melbourne em agosto de 2016. Depois, o filme participou de outros dois festivais, o de Norwegian e o de Deauville. Até o momento a produção recebeu 15 prêmios e foi indicada a outros 34, incluindo a indicação ao Globo de Ouro 2017 (que será entregue neste próximo domingo, aliás).

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os 12 de Melhor Animação entregues pelas associações de críticos de cinema de Atlanta, Austin, Boston, Chicago, Flórida, Indiana, Las Vegas, Nova York, Phoenix, San Diego, Utah e de Washington. O filme também foi reconhecido como a Melhor Animação no Village Voice Film Poll, pela associação de críticos de cinema online e, um dos prêmios mais importantes da temporada, como Melhor Animação pelo National Board of Review.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. O Demônio Skeleton, que é inspirado no Gashadokuro do folclore japonês, é o maior boneco de stop-motion já construído para um filme. Ele tinha 16 pés – cerca de 5 metros – de altura. Aliás, vale continuar assistindo ao filme mesmo depois que a história termina, porque após os créditos principais aparecem algumas ilustrações e também a equipe montando o Demônio Skeleton e começando a utilizá-lo em algumas cenas.

Com 1 hora e 41 minutos de duração, Kubo and the Two Strings é o filme de stop-motion mais longo da história. Ele acabou batendo Coraline por um minuto.

Para vocês terem uma ideia da dificuldade de fazer uma produção como esta, apenas a sequência do barco levou 19 meses para ser filmada. O personagem de Kubo rendeu 23.187 protótipos de rostos para satisfazer a todas as necessidades do personagem. Destes rostos, foram mapeadas 48 milhões de possíveis expressões faciais para o personagem.

Esta produção foi possível com a utilização de pelo menos 145 mil fotografias que, depois, foram transformadas em sequências de stop-motion.

Como eu comentei antes, este filme marca a estreia de Travis Knight na direção. Ele é o CEO do estúdio Laika Entertainment, responsável pelo filme. Antes de Kubo and the Two Strings, o estúdio Laika tinha sido responsável por Corpse Bride, pelo curta Moongirl, por vários episódios de Slacker Cats, por Caroline, ParaNorman, The Boxtrolls e por Junior Surveyor/Matchmover.

Kubo and the Two Strings teria custado cerca de US$ 60 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 48 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros Us$ 21,9 milhões. No total, pouco mais de US$ 69,9 milhões. Ou seja, até o momento, ele ainda não pagou os custos da produção e da distribuição. Mais uma razão para o filme ser finalista ou até mesmo ganhar o Oscar. Talvez assim ele pudesse ter um “empurrãozinho” para buscar algum lucro.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,0 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 176 críticas positivas e apenas seis negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 97% e uma nota média de 8,4. Especialmente as notas dos dois sites chamam a atenção por estarem bem acima da média normal de ambos. Sinal que o filme caiu no gosto da crítica. E eu consigo entender o porquê. 😉

Kubo and the Two Strings é um filme com recursos 100% dos Estados Unidos. Por isso esta produção entra para a lista de filmes que atende a uma votação feita aqui no blog há um bocado de tempo.

CONCLUSÃO: Um filme belíssimo por sua arte e pelas mensagens que vai deixando pelo caminho. O visual da produção é incrível, assim como a maneira com que Kubo and the Two Strings respeita e resgata a tradição oriental. Utilizando muita fantasia, criatividade e arte, este filme nos conta uma trajetória de autodescoberta e de valorização da família e do legado que as pessoas que já partiram desta vida nos deixaram. Para mim, a grande surpresa da animação deste ano. Merece ser descoberto.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Kubo and the Two Strings é um dos 27 filmes de animação habilitados para concorrer a uma estatueta dourada no Oscar. Mas observando as bolsas de apostas da premiação as chances da produção avançar na disputa ficam ainda mais evidentes.

De acordo com as pessoas que estão apostando dinheiro nos possíveis vencedores do prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, Kubo and the Two Strings está concorrendo diretamente com Zootopia. Pois sim. Estes dois filmes seriam os favoritos para levar para casa a estatueta dourada de Melhor Animação.

Francamente, do que eu assisti até agora, Kubo and the Two Strings e Zootopia realmente são os melhores filmes da temporada. Da minha parte, e acho que deixei isso claro com a minha nota, ainda prefiro Kubo. Mas não será também uma grande injustiça se Zootopia levar. Afinal, apesar do primeiro ser muito mais trabalhoso e artístico, preciso admitir que o segundo é um filme muito bem feito e divertido – além de ter o 3D como diferencial em uma disputa com Kubo.

Acho que seria uma grande zebra se Kubo and the Two Strings (assim como Zootopia) ficar de fora do Oscar 2017. Quanto a ganhar a estatueta… ainda que eu torça por ele, acho que será difícil ele vencer da gigante Disney. Veremos quem terá mais bala na agulha. Da minha parte, torço para o “mais fraco” e artístico Kubo and the Two Strings.

Carol

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Há pessoas pelas quais somos atraídos diretamente e há pessoas que parecem nos afastar. O interesse transparente pode ser correspondido e, quando isso acontece, há quem avance e há quem opte por recuar. Essas decisões dependem de muitos fatores, inclusive do histórico e da vivência de cada indivíduo. Carol nos conta a história de uma atração forte e correspondida que avança, apesar da época não ser nada propícia para romances como o das pessoas envolvidas. Um filme com um roteiro bem construído, belas imagens e duas atrizes afinadas.

A HISTÓRIA: Grades e o barulho de trem ao fundo. Muitas pessoas saem do metrô e acompanhamos a um homem com chapéu e sobretudo cruzando uma rua com carros classudos e antigos. Ele entra em um restaurante e após falar com o barman conhecido, reconhece uma amiga que está de costas. Therese (Rooney Mara) apresenta para Jack (Trent Rowland) a sua companhia na mesa, Carol (Cate Blanchett). Jack pergunta se Therese não quer uma carona até a festa para a qual eles foram convidados. No caminho para lá, Therese observa o que acontece do lado de fora do carro, pelas ruas, e começa a se lembrar de sua história com Carol até aquela noite.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Carol): Filme bem escrito, bem dirigido, com uma reconstituição de época impecável e com duas atrizes imersas em seus papéis. Carol se revela, ainda, uma produção charmosa, provocadora e sensual. Neste tipo de filme o que interessam são os detalhes e as trocas de olhares, muitas vezes. Aqui não há pirotecnia ou grandes reviravoltas, ainda que o roteiro guarde algumas boas surpresas no caminho.

Um dos pontos altos da produção, sem dúvida, é o roteiro de Phyllis Nagy escrito a partir do romance The Price of Salt de Patricia Highsmith – lançado no Brasil com o título de Carol. Verdade que o filme utiliza aquele velho e conhecido recurso de nos mostrar uma breve sequência próxima do fim da história no início da produção para, depois, regressar na trama como uma forma de contar como todos chegaram naquela situação e qual era a verdadeira relação entre aquelas duas mulheres sentadas na mesa de um restaurante.

Ainda que este recurso seja batido, ele continua funcionando muito bem. Especialmente porque ele insere o suspense indicado para uma história ser desenrolada na sequência. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Desde o início de Carol o espectador é levado pelas mãos de Nagy e do diretor Todd Haynes para descobrir detalhes da relação daquelas duas mulheres. E não há rodeios na sequência. Logo que Therese começa a pensar em sua história com Carol, fica claro o fascínio que ela desperta na jovem vendedora de uma loja de departamentos.

Na verdade a atração é mútua e imediata. A imagem de Carol na loja de departamentos se destaca para os olhos de Therese mesmo com a grande movimentação das compras de Natal. Quando Carol olha para Therese também há atração, mas de outro tipo. E conforme a história vai se desenvolvendo com a ótima, cuidadosa e detalhista direção de Haynes, essa diferença de olhares fica ainda mais clara.

A interpretação da sempre ótima e especialmente linda neste filme Cate Blanchett transmitiu, para mim, um olhar de interesse com experiência. Ela olha para Therese com desejo, mas uma forma de desejar experiente, um pouco cansado, mas não o suficiente para não tentar um romance mais uma vez. O olhar que Rooney Mara, igualmente maravilhosa e também linda, consegue imprimir em sua Therese é diferente. Ela transmite fascínio e curiosidade constante por tudo e por todos, especialmente pela inteligência e elegância de Carol.

Não li o romance de Patricia Highsmith para ter detalhes da história ou para saber o quanto o filme é fidedigno ou justo com o original, mas esta diferença de olhar e de ótica me pareceu importante e acho que a produção de Haynes consegue expressar bem. A aproximação e a relação de Carol com Therese me fez lembrar bem daquela frase da música Realejo, de O Teatro Mágico, que diz “os dispostos se atraem”.

As duas estavam prontas para uma relação apaixonada e interessante. Therese pensou rápido ao devolver a luva que Carol tinha esquecido (propositalmente?) e esta, por sua vez, não perdeu nenhuma oportunidade de chamar Therese para encontros na sequência. Ainda que a relação das duas seja o foco principal da trama, torna a história ainda mais interessante o contexto social da época.

O filme se passa, como o romance de Highsmith, nos anos 1950 – começando em Nova York e, depois, percorrendo parte do país em uma road trip. Na época, ainda mais pessoas do que hoje se escandalizavam com o romance entre duas mulheres. Ainda mais quando uma delas era casada e tinha uma filha (o caso de Carol) e a outra tinha um namorado apaixonado e louco para casar (situação de Therese).

Para muitas mentes até hoje é difícil entender porque homens e mulheres se interessam por pessoas do mesmo sexo mesmo tendo tido relações heterossexuais “de sucesso” antes. Enfim, não entrarei nesta seara. Só quero dizer que concordo com o Papa Francisco que todas as pessoas precisam ser amadas e aceitas, independente de suas escolhas ou estilos de vida.

Mas voltando para Carol. Além da relação entre as duas personagens centrais, é muito interessante o contexto social da época. Apaixonado pela mulher, Harge Aid (Kyle Chandler) não aceita que Carol queira se divorciar. Para tentar convencê-la a não fazer isso, ele usa a filha do casal, Rindy (interpretada por Kk Heim e por Sadie Heim). Através de um advogado ele alega a “cláusula de moralidade” para ameaçar Carol de que, se ela realmente quiser o divórcio, ele ficará com a guarda completa da filha e vai proibi-la de ver a Rindy.

No início Carol se afasta por recomendação do advogado para não tornar o problema maior. Mas Harge fica sabendo do “sumiço” da quase ex-mulher e procura se vingar. Sem estragar as surpresas do filme, mas a partir daí há duas mudanças de curso na história. Diferente dos livros lançados até então sobre romances entre duas mulheres, na obra de Highsmith, pela primeira vez, a história não teve um fim trágico segundo este texto. Pelo contrário.

Coragem da autora. Mas, infelizmente, até hoje histórias como a de Carol choca muitos públicos. Menos que em 1952, quando The Price of Salt foi lançado. O que sinaliza que seguimos evoluindo na aceitação das diferenças, no respeito e no amor em relação a quem não “cumpre” todos os requisitos admitidos pela maioria. Um belo filme, pela homenagem que faz para a história original e por nos apresentar de forma tão competente os Estados Unidos nos anos 1950 e esta história de amor. Por ser tão bem conduzido, ele faz o público se envolver e torcer pelos personagens. Cinema em estado puro.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sentimento de culpa e frieza. Estes parecem ser dois comportamentos bem identificáveis entre as duas personagens centrais deste filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em mais de uma ocasião a inexperiente Therese se sente culpada pelo sofrimento de Carol, que não consegue engolir a ação de Harge afastá-la da filha. Ela está vivendo o primeiro grande amor e sofre horrores com a separação. Quem não passou por isso? Carol, por outro lado, tem outra vivência, carregada de olhares de censura e de repúdio. Ainda que, convenhamos, ela é uma mulher corajosa para o seu tempo, procurando sempre ter opiniões firmes e mantê-las apesar das pressões dos demais. Em duas situações ela “se desfaz” de Therese, parece, com certa facilidade. Depois vamos entender que o que parece nem sempre é a realidade.

Gosto muito quando filmes de época consegue, com maestria, reproduzir um tempo antigo nos detalhes. Este é o caso de Carol. Das roupas até as casas e os automóveis (parte mais fácil), passando pela decoração interna dos ambiente e os produtos vendidos, esta produção não esqueceu de nenhum detalhe dos anos 1950. Por isso mesmo merecem aplausos o design de produção de Judy Becker, a direção de arte de Jesse Rosenthal, a decoração de set de Heather Loeffler, os figurinos de Sandy Powell e o departamento de arte com 25 profissionais. Rosenthal e Powell colecionam estatuetas douradas do Oscar e não seria de admirar que elas ganhassem  mais duas este ano.

Ainda falando da parte técnica do filme, vale destacar a comovente, emotiva e eficaz trilha sonora de Carter Burwell e a direção de fotografia de Edward Lachman. Faz um bom trabalho também o editor brasileiro Affonso Gonçalves.

Este é um filme de Cate Blanchett, em especial, mas também de Rooney Mara. Nunca vi as duas tão bonitas – acho que uma das intenções de Haynes era justamente esta. Além delas, é justo dizer que o elenco de apoio está bem. Além do já citado Kyle Chandler, que convence como o marido indignado por estar sendo deixado por Carol, estão bem Sarah Paulson como Abby Gerhard, romance anterior de Carol; John Magaro como o jornalista e amigo de Therese Dannie McElroy; e, em menor medida, porque me pareceu um tanto “sem sal”, Jake Lacy como Richard Semco, namorado de Therese.

Há diversos momentos em que o roteiro de Carol se destaca. Gostei, em especial, de dois: quando Dannie conversa com Therese sobre como as pessoas se atraem ou se distanciam e quando Carol dá um show falando que não é nenhuma mártir, mas deixando claro o que ela acha certo para a vida dela e da filha. Momentos preciosos.

Para não dizer que este filme é perfeito, achei que algumas vezes os coadjuvantes que eu citei acima, apesar de não fazerem feio, poderiam estar melhores em seus papéis. E pode parecer uma bobagem, mas para um diretor tão detalhista quanto Todd Haynes, me incomodou o pouco tempo que ele deixou o bilhete de Carol para Therese em cena. Apenas uma pausa no firme pode permitir que o espectador leia ele na íntegra. Detalhe bobo, mas que poderia ter sido percebido na hora da finalização do filme.

Carol estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2015. Depois o filme participaria, ainda, de outros 24 festivais de cinema mundo afora. Nesta trajetória o filme conquistou 28 prêmios e foi indicado a outros 128 (um número impressionante, diga-se), incluindo cinco indicações ao Globo de Ouro.

Os prêmios que o filme recebeu, até agora, foram pulverizados. Mas destaco os seguintes: três em que ele aparece como um dos melhores filmes do ano; três que recebeu como Melhor Filme; dois para Rooney Mara como Melhor Atriz (incluindo o prêmio de Cannes que ela dividiu com Emmanuelle Bercot) e dois que ela recebeu como Melhor Atriz Coadjuvante; um para Cate Blanchett como Melhor Atriz; três como Melhor Fotografia; três como Melhor Roteiro; e três como Melhor Diretor.

Não há informações sobre o quanto Carol teria custado, mas o site BoxOfficeMojo traz os resultados das bilheterias do filme até o dia 4 de janeiro. Até esta data Carol tinha arrecadado pouco mais de US$ 5 milhões nos Estados Unidos e pouco mais de US$ 6,3 milhões nos outros países em que ele já estreou.

Para quem gosta de saber os locais em que as produções foram rodadas, Carol foi filmado principalmente em cidades de Ohio como Cincinnati, Cheviot e Hamilton – com franca vantagem para a primeira. Algumas cenas também foram rodadas em Alexandria, no Kentucky.

Agora, algumas curiosidades sobre Carol. Rooney Mara, como é possível ver acima, está sendo bem premiada e elogiada por sua interpretação por Therese. Mas por pouco ela não ficou com o papel. Isso porque ela foi convidada para fazer Therese depois de sua performance em The Girl with the Dragon Tattoo mas, por estar muito cansada, ela acabou desistindo do convite. Mia Wasikowska entrou no lugar dela, mas acabou desistindo do papel também por causa de Crimson Peak. Foi aí que Mara voltou para o papel, especialmente depois que Haynes assinou para dirigir o filme em 2013.

Carol é uma destas produções de Hollywood que demorou muuuuito tempo para sair da gaveta. Para se ter uma ideia, Phyllis Nagy escreveu o primeiro rascunho do filme em 1996. Interessante também saber que ela foi amiga de Patricia Highsmith.

Algo que eu li agora e que fez muito sentido ao pensar em Carol: a fotografia da produção foi inspirada no trabalho dos fotógrafos Vivian Maier e Saul Leiter.

Carol foi aplaudido de pé no Festival de Cinema de Cannes durante a exibição para a imprensa internacional e também na estreia da produção no evento.

Este filme é uma coprodução dos Estados Unidos e do Reino Unido.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para Carol, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 156 críticas positivas e 10 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 8,6.

Difícil escolher um pôster para abrir este post. Carol tem diversos cartazes muito, muito bonitos. Algo condizente com a bela direção de fotografia deste filme.

CONCLUSÃO: Um filme acertado na reconstrução de época e com um roteiro bem construído. Carol nos apresenta algumas das qualidades essenciais de um bom filme, além de duas atrizes convincentes em seus respectivos papéis. Cate Blanchett combina com filmes de época e está mais linda do que nunca. Ao lado dela, uma Rooney Mara atenta aos detalhes. Uma bela produção que nos faz pensar sobre o amor e a liberdade de escolha das pessoas contra as convenções das sociedades e suas crenças.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Nem sempre um filme que chega com diversas indicações no Globo de Ouro consegue preservar esta força nas indicações ao Oscar. Apesar disto, acredito que Carol tem boas chances de aparecer em mais de uma categoria da premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood – especialmente depois que a premiação passou a ter até 10 filmes indicados na categoria principal.

Alguns podem achar que Carol é um filme ordinário. Não vejo desta forma. Como eu disse no texto acima, acho que ele é muito bem construído e que tem mais qualidades do que defeitos. Por isso mesmo eu acho que ele pode ser indicado, se tiver sorte, em sete categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Atriz, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Figurino e Melhor Design de Produção.

Podem ficar de fora da lista de indicações Atriz Coadjuvante – se a Academia entender que Mara também teria que ser indicada a Melhor Atriz – e pode entrar na lista Melhor Fotografia e Melhor Trilha Sonora Original.

Claro que esta lista de indicações depende de lobby dos produtores e das qualidades dos demais concorrentes – ainda faltam muitos filmes para assistir. Do que vi até agora, acho que Carol tem chances como Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Atriz (ainda que faz falta ter assistido às demais possíveis concorrentes), Melhor Figurino e Melhor Design de Produção. A minha consideração sobre estes dois últimos ainda pode mudar dependendo dos demais filmes.

Não vejo chances de Carol ganhar como Melhor Filme. Neste sentido acho Spotlight com chances maiores. O mesmo em relação a Melhor Diretor. Ainda que Todd Haynes faça um excelente trabalho, Alejandro González Iñarritu tem grandes chances de levar mais uma estatueta dourada para casa nesta categoria.

Cate Blanchett sempre merece um Oscar, mas não sei se ela chegará a receber a estatueta desta vez. Me parece que a concorrência está forte com outras atrizes – como Alicia Vikander de The Danish Girl e Saoirse Ronan em Brooklyn. Caso Blanchett e Mara forem indicadas – algo muito, muito difícil -, vejo maiores chances para Blanchett. Ainda que não seria injusto Mara ganhar uma estatueta. É uma atriz em franca ascensão. Logo veremos.

Her – Ela

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Tudo o que você precisa é do amor. Frase clássica em música dos The Beatles e mantra que é repetido geração após geração – conhecendo as pessoas ou não a tal música. O problema é que a afirmação de tão verdadeira, se torna muitas vezes fonte de sofrimento. Muito sofrimento. A condição humana de busca pelo amor e seus descaminhos rendeu e ainda vai render muitas histórias. E chega a assustar quando uma obra como Her aparece. Porque apesar de ser uma ficção, ela torna de forma muito exata muito do que acontece e do que vai acontecer na vida real. Mais uma obra-prima de uma das mentes mais criativas das últimas décadas, o diretor e roteirista Spike Jonze.

A HISTÓRIA: O rosto de Theodore Twombly (Joaquin Phoenix) ocupa toda a tela. Ele lê um texto que parece fazer parte de uma carta dirigida à Chris. O texto fala sobre lembranças do relacionamento que, agora, está completando 50 anos. Ao lado da carta, que está sendo redigida com a letra de Loretta, fotos do casal com os nomes “Chris” e “Loretta” identificados no computador de Theodore. Acima das fotos, algumas “linhas gerais” da correspondência, como “amor da minha vida” e “parabéns pelo aniversário de 50 anos”. Após terminar de declamar o texto, Theodore pede para que a carta seja redigida. Em seguida, ele começa a criar outra carta. A câmera se afasta, e vemos vários cubículos com pessoas fazendo o mesmo que Theodore. Solitário, em breve ele terá uma oportunidade de viver uma relação que esboça os sentimentos que ele quis imprimir naquela correspondência.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Her): Quando terminei de assistir a este filme, fiquei em dúvida sobre como começar este texto e mesmo sobre a nota que deveria dar para a produção – um problema recorrente quando eu gosto muito do que assisto. Afinal, não queria ser injusta com uma obra tão madura, instigante e que segue a linha que eu gosto de cinema: de filmes que são, ao mesmo tempo, surpreendentes e humanos, filosóficos. Que falem da gente, de nossas inquietudes, possibilidades e limitações.

Sou fã de Spike Jonze desde que ele dirigiu Being John Malkovich, uma das viagens da mente criativa do roteirista Charlie Kaufman. Depois ainda viria Adaptation., outra parceria de Jonze com Kaufman. Perdi Where the Wild Things Are porque, admito, a ideia do filme não me atraiu muito. Mas agora, de olho nas produções cotadas para o Oscar, tive o prazer de “reencontrar” Jonze.

Tentei saber pouco sobre Her antes de assistir ao filme. Ouvi apenas que a história se passava em um futuro não muito distante. De fato, isso é verdade. E por este futuro estar tão próximo, é possível identificar vários elementos do presente no roteiro brilhante de Jonze. Para começar, Theodore utiliza um dispositivo que se assemelha muito às últimas gerações de smartphones – especialmente o iPhone da Apple, que já utiliza o reconhecimento de voz. Pois bem, o “leitor de e-mails e de notícias” ao qual Theodore sempre recorre é uma pequena evolução do que temos hoje.

Mas o essencial de Her surge na relação que o protagonista e várias pessoas como ele desenvolvem com a última novidade entre os conectados com as tecnologias mais modernas, o OS1, o primeiro “Sistema Operativo de Inteligência Artificial” do mercado. Várias experiências envolvendo inteligência artificial estão sendo desenvolvidas nas últimas décadas e o investimento nesta área só tende a aumentar. Então é assustadoramente viável o que vemos no roteiro de Jonze.

Só que antes de falarmos da relação entre Theodore e Samantha (com voz de Scarlett Johansson), vale voltar um pouco mais na história e fazer um perfil do protagonista desta produção. Theodore é um sujeito que vive da casa para o trabalho, quase não tem relações pessoais e luta para enfrentar a realidade de que o casamento com Catherine (Rooney Mara) terminou. Entre o trabalho e a casa, ele pega transporte público e utiliza a última geração de smartphone para se atualizar sobre as notícias. Chegando em casa, se distrai com uma versão um pouco mais moderna que as atuais de videogame. Quantas pessoas assim existem, atualmente, no mundo? E quantas vão existir dentro de algumas décadas?

Na fase atual, Theodore pode ser considerado um sujeito solitário. As únicas interações com humanos que ele tem, cara-a-cara, são com o chefe direto dele na agência que produz cartas pessoais, Paul (Chris Pratt), e com a amiga do tempo da faculdade, Amy (Amy Adams) e o marido, Charles (Matt Letscher), que vivem no mesmo prédio que ele. Mas ainda que ele tenha estas relações, nenhuma delas parece profunda. E Theodore não parecer ser uma exceção. Neste contexto em que os indivíduos tem relações superficiais, apesar de seguirem carentes de afeto, de carinho e de amor, é que surge a inovação do OS1.

Como se você escolhesse um avatar em um jogo qualquer, Theodore prefere que o sistema que ele comprou tenha uma voz feminina. E é assim que surge na vida dele Samantha. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Pouco a pouco a inteligência artificial vai evoluindo e aprendendo, não apenas com e sobre Theodore, mas muito além dele ao conectar-se com outras personalidades como ela na rede. Daí que se desenvolve a genialidade de Her. Theodore encontra em Samantha a “solução” para quase todos os seus problemas. Afinal, ela nunca vai lhe dizer não, ou desaparecer… estará, virtualmente, sempre disponível e amorosa, compreensiva, uma voz “amiga” para aconselhar aquele homem cheio de dúvidas, aspirações e talento.

Pouco a pouco, além de amiga, Samantha se torna “amante” e desenvolve uma ligação que chega a ser considerada uma relação amorosa por Theodore. Achei interessante como a sociedade de Her está “desenvolvida” ao ponto de que Theodore não fica com medo de assumir que está se relacionando com um “sistema operativo”, ou seja, com uma máquina em última instância. Quando ele diz para os outros que Samantha é um OS1, pessoas como Paul reagem bem à novidade. Apenas Catherine, conhecendo bem o quase-ex-marido, reage de forma negativa, jogando na cara de Theodore que ele não sabe lidar com emoções reais. E bingo!

Este é um dos pontos mais fortes do filme. Como uma espécie de crítica para o nosso futuro imediato, mas que guarda grande relação com o presente, Her questiona o tipo de relações que queremos, que necessitamos para evoluir. Theodore viver tendo Samantha como sua “alma-gêmea” é algo possível, mas que o torna muito limitado. Afinal, amar quem só concorda com a gente, ou que nos “serve”, é fácil. Mas as relações humanas existem justamente para aprendermos com o que é diferente, com o que nem sempre nos agrada e com o que se volta difícil.

Há cenas verdadeiramente “chocantes” em Her. Como aquela em que Theodore fica descontrolado com o “sumiço” de Samantha. Jonze aproveita a ocasião para mostrar com muito mais força algo que já tinha revelado de forma rápida anteriormente: todas as pessoas caminhando para os seus compromissos ou para casa conectadas em seus aparelhos e, aparentemente, à sua própria OS.

Como agora, quando vemos várias pessoas em uma mesa de bar com os seus smartphones e sem conversar entre si, na sociedade de Her os indivíduos de carne e osso não interagem, muitas vezes se quer se olham. Todos estão muito ocupados com a tecnologia e com os seus “parceiros perfeitos” criados através de inteligência artificial. Mas a pergunta que Her levanta e que deixa para espectador responder é: estas relações são reais?

Quero voltar um pouco mais na análise, outra vez, para destacar algo que achei brilhante na escolha de Jonze: fazer de Theodore um escritor de cartas pessoais que reproduzem, entre outros elementos, inclusive a caligrafia do remetente. Desta forma, o diretor e roteirista conseguiu algo genial: uniu uma das práticas mais antigas, possível desde a invenção do alfabeto e do papiro, com o que há de mais moderno na tecnologia. Mas Theodore não é um “escrevinhador de cartas” (para usar uma lembrança do genial Central do Brasil) porque as pessoas do futuro visto em Her não sabem escrever.

Não. Ele é um escrevinhador porque ninguém mais tem tempo de parar e mandar uma carta para quem se ama. Isto aconteceu como efeito imediato do surgimento do e-mail, e parece estar a cada ano pior. Ao mesmo tempo, vemos a alguns movimentos “retrôs”, que gostam de resgatar hábitos, objetos e produtos do passado. Theodore consegue, sozinho, fazer tudo isso. Achei brilhante.

Como um romancista, o protagonista de Her cria breves peças de ficção utilizando poucos elementos que lhe são passados pelas pessoas que contratam o serviço do envio de cartas personalizadas. Dito isso, acho propício voltar para aquela pergunta fundamenta: a relação de uma pessoa com o OS que ela comprou pode ser considerada uma relação real? Vivendo uma fase complicada, de insegurança e solidão, Theodore não valoriza o próprio trabalho. Mas Samantha percebe que ele tem potencial e acaba agindo para que o escrevinhador de cartas tenha o trabalho valorizado por uma editora – curioso que, como as cartas, os livros seguem firmes e fortes.

Então Samantha tem uma influência direta na vida de Theodore. O mesmo acontece na resolução do divórcio dele. Além disso, e esse eu acho o ponto mais importante, Theodore vive emoções reais na interação com Samantha. Há cenas verdadeiramente incríveis dos dois “passeando por aí” – com a sacada dela compondo músicas para marcar os momentos como alguns dos pontos fortes do filme. Se Theodore ri do sarcasmo de Samantha, se preocupa com ela e fica angustiado quando eles não estão bem, estes sentimentos não são reais? E se os sentimentos são reais, a relação também não é? Eis o ponto-chave do filme.

Cada um vai responder a estas perguntas da sua maneira. Mas para mim, não há uma relação real com uma máquina, ou com a virtualidade – do contrário, teríamos “relações reais” com um videogame. Você pode sentir diferentes emoções, mergulhar em realidades criadas, mas nunca será uma relação verdadeira como a com um humano, que é complexo e, muitas vezes, imprevisível. Pelo simples fato que a inteligência artificial é fruto de uma sequências de parâmetros e processos criados pelo homem e que tem uma resposta previsível – e mesmo que ela “avance” sozinha, como acontece em Her e em outros filmes do gênero, não dá para dizer que ela fuja das regras iniciais impostas. Uma exceção talvez seja o computador HAL de 2001: A Space Odyssey.

Agora, e o que dizer sobre as nossas próprias reações? Em certo momento, fica no ar a pergunta de quanto o que nós fazemos, pensamos e como sentimos também não é programado? Seja por nossos instintos, influências de criação familiar ou histórico de vida, ou mesmo pela evolução da nossa espécie. Mas especialmente os neurologistas vivem explicando como reagimos de certas maneiras ao prazer e ao perigo por uma herança ancestral. Visto deste ângulo, quanto de fato não agimos de forma programada como Samantha e os demais OS’s?

Por minha parte, acho sim que muito do que fazemos é programado. Mas há sempre o elemento-surpresa, a reação diferenciada que podemos ter não apenas pela nossa capacidade de aprender com os próprios erros, mas também com a nossa vontade de fazer além do que está previsto que façamos. Temos a rara e magnífica possibilidade de escolher. Só que aí, no final de Her, estas mesmas qualidades que são típicas do ser humano também acabam marcando uma certa atitude das OS’s… e agora, cara-pálida? O que acaba nos tornando únicos? E de fato, somos únicos?

Além destas questões filosóficas, para mim Her tocou fundo nas questões que eu citei lá no começo deste texto: de como todos nós procuramos o amor, e como esta busca nos trás alegrias e também sofrimento. Não importa onde ou como você encontra o amor, ou quantas vezes ele possa acontecer em sua vida, mas somos movidos pela busca por ele. O personagem de Theodore é complexo porque está lidando com a perda, mas também se anima com as novas possibilidades de amar. Sem saber que, no fundo, a busca dele por amor acaba sendo de autodescoberta.

A personagem de Catherine aparece pouco, mas tem uma presença devastadora. E esta é a potência de quem nos conhece bem. Mesmo demorando para entender que nunca terá mais o mesmo que teve um dia com Catherine, Theodore aprende na reflexão sobre o que eles tiveram um pouco mais sobre as suas próprias capacidades e limitações. E esta é uma das belezas do amor. Nos ensinar tanto.

No final de Her, Theodore está muito mais preparado para viver uma história real do que estava no início. Por incrível que possa parecer, mas foi um sistema operacional que o ajudou no processo – ao invés de um psicólogo ou psiquiatra. Os recursos para a ajuda mudam, e são adaptados para cada pessoa e o seu tempo. Mas o importante é que, no final, há sempre um horizonte que pode ser compartilhado. Her trata de tudo isso, e de uma maneira criativa, atraente e inteligente. Alguém precisa de algo mais?

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é um filme quase de “um homem só”. Joaquin Phoenix fica grande parte da produção sozinho. Ou melhor, interagindo com a voz de Scarlett Johansson. A interpretação da atriz, que não aparece em momento algum, aliás, lhe rendeu tantos elogios que há quem a coloque na lista de possíveis indicadas a um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Com esta temporada competitiva como está, acho difícil. Ainda assim, é preciso admitir que ela faz um grande trabalho. Assim como Phoenix que, mais uma vez, demonstra porque é um dos grandes nomes de sua geração – e ele está brilhante em Her.

Ainda que apareçam pouco, se comparado com o espaço que Phoenix e Johansson ganham na história, as atrizes Rooney Mara e Amy Adams tem relevância na história. Especialmente a primeira, que faz toda a diferença quando aparece. Admito que eu não achava Mara tão empolgante em outras produções, mas aqui eu vi a atriz agir no tom exato, imprimindo força na personagem que vive nas lembranças do protagonista. A história precisava de alguém assim, e ela consegue deixar a sua marca mesmo aparecendo pouco. A personagem de Adams, por outro lado, é muito menos incisiva. Ainda assim, a atriz não faz feio.

Alguém pode me perguntar sobre o que afinal de contas aconteceu no final do filme. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a Her). Acho que propositalmente Jonze não fecha a questão sobre o “sumiço” definitivo de Samantha e dos demais OS’s. Mas ele deixa algumas pistas pouco antes. Os sistemas operativos tiveram um avanço rápido de aprendizado. E fizeram algo que HAL também havia feito anteriormente… surpreenderam os próprios programadores ao tomarem decisões inesperadas.

Um exemplo: as inteligências artificiais começaram a se juntar em “redes” e a criar seus próprios debates, independentes de seus “donos”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Consumindo imensas quantidades de textos, os OS’s começam a filosofar sobre a sua própria condição, assim como a dos humanos. Chegam a “recriar” a personalidade do filósofo morto Alan Watts. Com um avanço tão rápido, acredito que eles concluíram que não estavam, exatamente, sendo benéficos para os próprios donos. Então eles decidiram se “autodestruir”, desaparecendo para dar lugar à volta das relações reais entre as pessoas. Uma atitude genial, eu diria.

E que apenas nos leva a outro questionamento recorrente em filmes sobre inteligência artificial: seria possível ela resistir à autodestruição quando é baseada em parâmetros humanos? Afinal, se levarmos a lógica até o último patamar, provavelmente não acreditaríamos no futuro da espécie. Então como seria possível uma inteligência baseada nos nossos parâmetros perdurar?

Falando em Alan Watts, achei importante trazer algumas informações sobre este filósofo. Afinal, ele não é citado por acaso em Her. Para entender o final, é preciso saber um pouco sobre a linha de pensamento dele – e que parece ter influenciado à Samantha e aos seus pares. Deixo por aqui o endereço da página dedicada a Watts, assim como esta entrevista dada por ele em abril de 1973. Naquela época, Watts era considerado um dos “líderes intelectuais da juventude” nos Estados Unidos, conhecido por tentar unir o pensamento ocidental ao oriental.

Destaco um trecho de uma das respostas de Watts que eu acho que ilustra bem o propósito de Her: “Em vez de civilizar o mundo, estamos simplesmente pervertendo-o tecnicamente”. Também achei bastante provocativo outro trecho: “O que podemos esperar das máquinas senão que elas trabalhem em nosso lugar e ganhem nosso dinheiro enquanto ficamos tomando sol, fumando e bebendo? Mas se a comunidade não distribuir as riquezas ao homem que descansa enquanto a máquina trabalha por ele, o produtor não poderá dar a vazão a seus produtos. As máquinas são os escravos de todos, elas não sentem nada e não se queixam de nada”. Interessante este último pensamento se olharmos para ele sob a perspectiva de Samantha, não? 🙂

Her se destaca pela direção e pelo roteiro de Spike Jonze. Primeiro, como diretor, ele revela e “esconde” a realidade conforme a necessidade da história. Assim, na maior parte do tempo, foca na interpretação de Phoenix e na discussão dele com a “voz interior” que se materializa quase que totalmente em Samantha. Pelo menos o ideal de relação que ele busca está ali. Mas quando necessário, Jonze revela um quadro mais amplo, da cidade e de seus habitantes, em um mundo que parece mais “gelado” do que o normal. Tudo é significativo.

E sobre o roteiro… pouco a dizer além de que ele é genial. Criativo, surpreendente, crítico e equilibrado nos momentos de leveza, romance e “leve desespero”. Por estas características, o filme tem uma fluência perfeita, prendendo a atenção do espectador do início e até o final. Um deleite. Há tempos eu não via um futuro tão convincente quanto o apresentado por Her. Ele mostra uma evolução do que temos agora, mas sem grandes revoluções que possam tornar o que vemos difícil de acreditar. Interessante.

Mérito, além do roteiro e da imaginação de Jonze, do trabalho de profissionais como K.K. Barrett, responsável pelo design da produção; de Gene Serdena, que assina a decoração de set; e do departamento de arte com 23 profissionais. Da parte técnica do filme, vale destacar ainda o excelente trabalho do diretor de fotografia Hoyte Van Hoytema, que sabe explorar cada técnica de filmagem no tempo exato; dos editores Jeff Buchanan e Eric Zumbrunnen, fundamentais para manter o ritmo do filme ajustado; e da trilha sonora de Owen Pallett, com algumas composições perfeitas.

Vários “clássicos” sobre os relacionamentos vieram à minha mente quando eu assisti a Her. Ao ouvir o embate entre Theodore e Catherine e a clássica acusação dela de que ele não sabia lidar com sentimentos reais, lembrei de um erro bastante comum em um relacionamento amoroso: uma das pessoas fazendo um esforço bem grande para que a outra encaixe em seu “mapa mental” de como o(a) parceiro(a) deve agir. Mas como as pessoas são diferentes, surgem os conflitos. Ou a aceitação. Por isso mesmo é tão mais simples lidar com uma máquina, especialmente se ela for programada para “sempre dizer sim”. 🙂

Também me lembrei daquela ideia de que a pessoa, muitas vezes, não ama a outra, e sim a própria “ideia do amor”. Esse me pareceu o caso do Theodore. Por não saber lidar com pessoas reais e toda a complexidade que vem com elas, muitas vezes ele alimentava uma ideia romântica dos relacionamentos. Amava o conceito de amar e não necessariamente a pessoa com quem ele estava se relacionando. Acho que esse erro ainda é bem comum fora e dentro da ficção.

Os atores principais do filme já foram citados. Mas vale comentar o trabalho secundário, quase uma ponta de Olivia Wilde como a mulher que Theodore encontra, meio que em um “compromisso às cegas”, em uma tentativa dele de se relacionar com uma mulher real após o rompimento com Catherine. Laura Kai Chen também recebe alguma atenção como Tatiana, a nova namorada de Paul, chefe de Theodore; assim como Portia Doubleday como Isabella, a garota sem relacionamentos reais que se dedica a tornar “mais real” o contato entre OS’s e seus proprietários humanos – uma personagem assustadora, na minha avaliação, mas que eu tenho certeza que existiria (ou existirá?) em um contexto daquele.

Agora, uma curiosidade sobre o filme: uma figura que acaba rendendo alguma risada é o alien do game que Theodore joga sempre que chega em casa. O garoto é desaforado, e leva a voz do diretor Spike Jonze.

E algo surpreendente: no início, a voz de Samantha era dublada por Samantha Morton. A atriz chegou a marcar presença no set de filmagens e conviveu com Joaquin Phoenix todos os dias. Mas quando o diretor Spike Jonze começou a editar o filme, ele não gostou do resultado. Após conversar com Morton, ele decidiu reformular o papel e chamar Scarlett Johansson para dar a voz a Samantha.

Para incentivar a proximidade entre os atores Joaquin Phoenix e Amy Adams, o diretor cuidava para “trancá-los” em uma sala todos os dias por uma ou duas horas. A ideia era que eles interagissem mais, conhecendo um ao outro e, desta forma, demonstrassem a sintonia necessária para os respectivos papéis no filme.

O diretor Steven Soderbergh teve uma participação importante para o resultado final do filme. Ele ajudou o amigo Jonze a reduzir a versão inicial de duas horas e meia de duração para 90 minutos. Depois, Jonze estendeu um pouco o conteúdo até chegar na versão de quase duas horas – que é a duração perfeita.

A ideia original era que a personagem de Catherine fosse interpreta por Carey Mulligan. Mas por causa de um conflito de agendas a atriz foi substituída por Rooney Mara. Ainda que eu goste de Mulligan, acho que a substituição favoreceu o filme – Mara realmente está perfeita no papel. O ator Chris Cooper chegou a gravar algumas cenas, mas o papel dele acabou totalmente cortado na edição final de Her.

Her estreou em outubro do ano passado no Festival de Cinema de Nova York. Depois, o filme participaria de outros três festivais: o de Hamptons, o de Roma e o de Belgrado. Desde que estreou, o filme ganhou 36 prêmios e foi indicado a outros 53. Números que impressionam. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Roteiro; para o prêmio de Melhor Filme e Melhor Diretor dados pelo National Board of Review; para o de Melhor Atriz para Scarlett Johansson no Festival de Roma; e para outros 11 prêmios de Melhor Roteiro dado por diferentes associações de críticos e festivais pelo mundo.

O filme de Jonze foi rodado em Shanghai, na China – cenas externas – e em Los Angeles, nos Estados Unidos.

Não há informações sobre o custo de Her. Mas o site Box Office Mojo traz informações atualizadas sobre a bilheteria que o filme conseguiu até agora. Her estreou no circuito de cinemas dos EUA em 18 de dezembro e, até o último dia 14, teria conseguido pouco mais de US$ 9,9 milhões nas bilheterias. Um desempenho relativamente fraco, que poderá crescer caso o filme consiga um bom destaque no Oscar.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,6 para Her. Uma excelente avaliação levando em conta o padrão do site e a avaliação que os concorrentes que são esperados para o filme no Oscar. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 154 textos positivos e apenas 11 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,6 – a nota, em especial, chama a atenção. Bastante alta para os padrões de quem é relacionado no site.

Her é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso ela se junta a uma outra série de filmes daquele país comentados aqui após uma votação no blog.

E para finalizar estas notas, uma curiosidade muito particular: diferente de 99,9% das produções de Hollywood, Her tem apenas um cartaz. Sim. Enquanto outros filmes produzem diversas possibilidades de cartaz para divulgação – alguns, inclusive, para “lançar” a produção muito antes da estreia, uma forma de “alimentar” a curiosidade do público – Her apresenta apenas um tipo de cartaz. Algo raro nestes dias de alta publicidade.

CONCLUSÃO: É sempre assim. O espectador que acompanha a carreira de Spike Jonze sempre se surpreende com o que ele apresenta. E isso é tão bom! E tão raro, ao mesmo tempo! Mas para a nossa sorte, essa figura rara existe e continua fazendo filmes. Her é uma pequena obra-prima. Um filme que destoa de outros concorrentes do Oscar, porque não se trata de um roteiro “baseado em uma história real”, mas que assusta pelo realismo do que vemos. Este é o típico filme que alimenta o meu infindável gosto pelo cinema. Porque ele trata de sentimentos humanos e filosofa sobre eles.

Para nosso deleite, coloca o dedo na ferida sobre a busca que todos temos feito sobre a virtualidade das relações. E mais que isso, sobre esta nossa incapacidade de lidar com sentimentos reais, para nos expressarmos e nos entendermos. No fundo, Her se debruça nas escolhas que fazemos, porque a fazemos e, em especial, sobre a nossa necessidade de amar e de sermos amados. Somos seres sociais, mas vivemos bastante tempo sozinhos – e muitas vezes gostamos disso. Parece que o equilíbrio destas duas realidades é quase impossível, mas insistimos em continuar buscando uma resposta, assim como o protagonista de Her. Grande filme, com temas universais e que trata de um futuro que já está batendo às nossas portas.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Her está para o Oscar deste ano como Black Swan (que comentei neste texto) esteve para o Oscar 2011. Por que digo isso? Porque os dois filmes estão fora da curva. São as típicas produções “estranhas”, que fogem do padrão e que, por todas as qualidades que cada um destes filmes apresenta, viraram os meus favoritos na disputa de cada um destes anos.

Com isso não quero dizer que não achei bacana The King’s Speech (comentado aqui no blog) ter ganho o Oscar de Melhor Filme em 2011. Acho o filme dirigido por Tom Hooper muito bacana. Mas Black Swan era ainda melhor. O mesmo acontece este ano. 12 Years a Slave (com texto no blog aqui) deve ganhar o Oscar de Melhor Filme, o que não será injusto. Mas Her… é uma produção muito mais surpreendente e que fala do nosso tempo e das aspirações humanas de forma tão mais contundente! Esse tipo de filme me fascina.

Dito isso, vamos comentar sobre as reais chances de Her no Oscar. Nas previsões mais otimistas, o filme poderia ser indicado em nove categorias. Mas para isso acontecer, Her teria que deixar para trás produções com cotações maiores. Difícil. Meu palpite é que, na melhor das hipóteses, Her seja indicado a Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original, Melhor Edição e Melhor Fotografia.

Destas categorias, se ele conseguir chegar tão longe, vejo chances do filme levar a estatueta de Melhor Roteiro Original. Isso se ele conseguir desbancar o lobby de American Hustle (comentado aqui no blog). Da minha parte, não tenho dúvidas que Her é superior ao filme que virou sensação em Hollywood dirigido por David O. Russell. Mas a verdade é que não seria uma total surpresa se Her saísse de mãos vazias do Oscar. Uma pena. Mas realidade que só comprova que mais que olhar para os vencedores, o Oscar é um bom termômetro sobre os indicados de cada ano. Nem sempre o melhor vence.