Karen Llora en un Bus – Karen Chora no Ônibus


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Os cinemas brasileiros não exibem com a frequência que deveriam os filmes produzidos na América Latina. Por isso mesmo, não é todo dia que conseguimos assistir a um filme como Karen Llora en un Bus, produção da Colômbia dirigida pelo estreante Gabriel Rojas Vera. Apenas por isso, por ter chegado até aqui, o filme merece algum crédito. Afinal, é um sobrevivente nesta seara onde proliferam produções norte-americanas, europeias e, em menor grau, argentinas. E ele não chegou tão longe por acaso. Com seu estilo low profile, Karen Llora en un Bus apresenta uma história interessante, moderna – especialmente em países latinos menos liberais que o Brasil – e com uma grande atuação.

A HISTÓRIA: Noite. Uma mulher (Ángela Carrizosa Aparicio) chora muito dentro de um ônibus, olhando para a cidade que passa fora do coletivo. Aos poucos, ela se acalma. Ela deixa a linha F23 – Port Americas puxando uma mala e carregando uma bolsa. Anda um bocado, até chegar a uma pensão. Insiste com a proprietária (Margarita Rosa Gallardo) para que ela possa entrar, apesar do horário adiantado. Para isso, paga três meses de aluguel. Neste local Karen, a mulher que chorava no ônibus, vai conhecer a jovem Patricia (Maria Angélica Sanchez Parra), que vai lhe ajudar nesta nova fase de sua vida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomento que continue a ler quem já assistiu a Karen Llora en un Bus): Este não é um filme complicado. Pelo contrário. Ele conta uma história simples do início até o final: a reconstrução de Karen, uma mulher de meia idade que decide mudar radicalmente de vida. Ela deixa um lar confortável, onde vivia com o marido Mario (Edgar Alexea), para buscar a própria independência.

Claro que ninguém entende a atitude dela. Como manda uma boa (só que não) sociedade machista, essa busca de Karen parece absurda. A mãe dela (interpretada por María León Arias), do início ao fim, estimula Karen a voltar para Mario. Fica evidente como a mulher fica do lado do marido da filha, sem ao menos tentar saber os motivos de Karen. E o primeiro reencontro dela com o marido deixa evidente como eles não tem mais nada.

As cenas do casal são típicas – o que evidencia, ainda mais, a qualidade do jovem diretor Gabriel Rojas Vera como roteirista. Mario e Karen não falam a mesma língua. Isso quando eles conseguem se comunicar. No jantar que deveria ser de conversa entre eles, Mario chama uma parceira de negócios que levou um bolo para ficar com eles. Típica ação absurda de um sujeito que não consegue enxergar as necessidades da parceira de vida. Algo muito mais comum do que gostaríamos. No jantar, por falar de negócios, Mario tem conversa fácil. Depois, indo para casa com Karen, eles emudecem.

Existem muitos tipos de silêncio. Da minha parte, adoro a maioria deles. Gosto do silêncio quando você está sozinho e pode contemplar a vida. Também aprecio o silêncio quando você está com quem você ama e contempla esta pessoa em todos os detalhes, algumas vezes usando a visão, outras vezes, apenas o tato. Existe o silêncio em um grupo de amigos também, quando todos estão percebendo o quanto é valioso um laço antigo. Mas o silêncio revelado pelo casal Karen e Mario é o fim. Porque ele está carregado de desencontros, de falta de sintonia, de ausência de propósitos em conjunto.

Karen, muito corajosa, especialmente na sociedade em que vive, decide romper com aquela infelicidade. E passa por maus bocados para conseguir reerguer-se sozinha. Sem sentir apoio da mãe, ela não pede ajuda, mesmo quando tem a bolsa roubada. Aliás, esse episódio merece um parêntese. De fato, a bolsa preta e grande que ela tinha até chegar ao restaurante some. Mas depois, ela aparece novamente com uma bolsa com a mesma cor. Demorei um tempo para perceber que não houve uma falha na continuidade. As bolsas são um pouco diferentes, no final das contas.

Me chamou a atenção como o roteiro valoriza a solidariedade dos colombianos. Se, por um lado, Karen bate cabeça para achar algum emprego – aparentemente ela não tem qualificação e, por isso, só consegue concorrer a subempregos -, por outro lado ela consegue sobreviver com a ajuda de doações dos moradores da cidade, especialmente dos usuários do sistema público de transporte para quem ela pede dinheiro diariamente após ter tido a bolsa furtada.

Mas nem todos são bacanas. O dono do restaurante (Julio César Bula) onde Karen perde a bolsa age como um cretino. Sinal de que pessoas imbecis existem por todas as partes. Além de trazer uma mensagem bacana, de reinício, este filme revela uma atriz muito talentosa.

Ángela Carrizosa Aparicio carrega o filme e faz uma parceria bacana com os outros dois nomes fortes da produção: Maria Angélica Sanchez Parra como Patricia, um contraponto interessante para a “certinha” e antiquada Karen, e Juan Manuel Díaz Oróztegui, como Eduardo, um escritor de livros e de peças de teatro que conquista a protagonista. Acompanhamos a transformação de Ángela, que muda não apenas na aparência, mas também no comportamento. É lindo de se ver como sai de cena aquela personagem contida, reprimida, com corte de cabelo de “tia” e roupas escuras e entra em cena uma mulher segura de si, que retoma as leituras, os sorrisos, assume um corte de cabelo mais ousado e roupas coloridas.

Um filme simples, que vai evoluindo com o tempo, e que ganha pontos por sua premissa singela, mas corajosa. Não há ousadia na técnica da direção, ou em um roteiro com grandes reviravoltas. Mas a atriz principal ganha o espectador, e a mensagem de que recriar-se vale a pena é o que fica no final. Sempre haverá alguém chorando em um ônibus, ou em outra parte qualquer, mas é preciso ter paciência e coragem para mudar aquela situação de sofrimento.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme começa em uma noite e termina em um dia ensolarado. A simbologia está presente do primeiro até o último minuto. O que demonstra que a estreia de Gabriel Rojas Vera foi bem planejada. A noite inicial representa o fim, o término de um período da vida de Karen. O dia ensolarado, ainda que tenha outra personagem chorando, representa um novo alvorecer, uma nova vida. Simples, mas eficaz.

Gostei da forma direta com que o diretor e roteirista contou esta história. Sem firulas, sem prometer mais do que poderia cumprir. Esta produção também funciona porque trilha o caminho do “realismo”, explorando bem a vida na cidade e as relações comuns que aparecem no cotidiano das pessoas que vivem naquele espaço urbano. Por isso o filme mantêm o interesse dos espectadores.

Além dos atores já citados, vale comentar o bom trabalho de Emerson Rodríguez Gómez como Alberto, o homem casado que mantém um caso com Patricia, e a ponta de David Guerrero como o homem que oferece emprego para Karen no curso de inglês. Os dois aparecem pouco, mas acabam sendo marcantes na produção.

A parte técnica do filme não apresenta nenhum grande destaque. Mas vale citar o bom trabalho do diretor de fotografia Manuel Castañeda, a montagem de Carlos Cordero e a trilha sonora de Rafael Escandón.

Karen Llora en un Bus estreou em fevereiro de 2011 no Festival de Berlim. Depois, a produção passaria por outros seis festivais, terminando a trajetória no de Biarritz, em setembro de 2012. Nesta trajetória, a produção foi indicada como Melhor Filme no Festival de Cartagena, na Colômbia, mas perdeu o prêmio para Post Mortem, uma co-produção do Chile com a Alemanha e o México. Lendo a página oficial do filme, vi que ele recebeu pelo menos um prêmio: a Caravela de Prata como a Melhor Obra Prima do Festival de Cinema de Huelva.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para esta produção. Não existem críticas sobre o filme no Rotten Tomatoes.

Lendo a página oficial do filme, no Facebook, achei curioso que esta produção já estreou na televisão colombiana. Ela passou em rede nacional em setembro do ano passado – e nos cinemas brasileiros, está chegando apenas agora.

Antes eu falei da importância do silêncio. E algo que eu gostei neste filme é que ele dá espaço para ele existir. Isso é bom, especialmente frente a outros filmes do gênero que apresentam um excesso de discursos.

Para os curiosos sobre a locação dos filmes, Karen Llora en un Bus foi totalmente rodado em Bogotá.

O diretor Gabriel Rojas Vera nasceu em Bogotá em 1977 e estudou Cinema e Televisão na Universidade Nacional da Colômbia. Ele escreveu e dirigiu vários curtas e codirigiu o documentário Falsos Positivos em Extradición, de 2010. Segundo esta página do Festival do Rio, ele dirigiu o primeiro longa em 2005, Cristina, uma produção ainda não finalizada.

CONCLUSÃO: Karen Llora en un Bus não é um filme arrebatador. Ainda bem. Esqueça o estilo dramático das novelas mexicanas, ou a parte do cinema exagerado de Pedro Almodóvar – que não vive em um país da América Latina, mas que influenciou esta e outras escolas de cinema pelo mundo. Esta produção dirigida por Rojas Vera flerta bastante com o teatro, em alguns momentos, e apresenta os seus argumentos sem pressa. Quem nunca reinventou a própria vida que atire a primeira pedra.

Este filme é sobre uma mulher que tem a coragem de encarar a ruptura de um casamento falido e de recomeçar tudo do zero sem apoio algum. Haja coragem! Mas é esta atitude que une Karen a tantas outras mulheres latinas. Em sociedades onde ainda o machismo dita muitas regras e comportamentos, Karen Llora en un Bus é um filme que rompe conceitos e formas de pensar. Por essa razão, principalmente, e também por ter um ótimo trabalho da atriz Angela Carrizosa Aparicio, que eu me rendo a este filme singelo, mas carregado de boas intenções.

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