Categorias
Cinema Cinema europeu Cinema latino-americano Cinema norte-americano Crítica de filme Filme premiado Globo de Ouro 2020 Movie Oscar 2020

The Two Popes – Dois Papas

Duas visões muito diferentes da Igreja. Dois líderes com muitos seguidores – mas um mais que o outro. The Two Popes conta um pouco dos bastidores que levaram o Vaticano a escolher primeiro Ratzinger e, depois, Bergoglio como, respectivamente, os papas Bento XVI e Francisco. Um filme interessante, especialmente para quem não conhecia muito a história e a linha de pensamento de cada um deles. Mas o filme também tem uma que outra carência e fragilidade.

Categorias
Cinema Cinema latino-americano Crítica de filme Filme premiado Movie Oscar 2019

Pájaros de Verano – Birds of Passage – Pássaros de Verão

A paixão e a ganância, quando não são administrados, causam problemas, inclusive guerra e morte. Demorei para assistir a Pájaros de Verano. O filme ganhou evidência quando se tornou um dos semi-finalistas no Oscar 2019 de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Me interesso sempre pelo cinema colombiano, por isso foi uma pena ter que levar tantos meses até conseguir assistir a essa produção. Mas antes tarde do que mais tarde, dizem os espanhóis. 😉 Que filme incrível! Realmente, surpreendente.

Categorias
Cinema Cinema latino-americano Cinema norte-americano Crítica de filme Filme premiado Globo de Ouro 2019 Movie Oscar 2019

Roma

Um filme simples com diversas camadas de interpretação e pequenas pérolas de informações espalhadas aqui e ali. Roma, por muitos considerado como um dos fortes concorrentes do Oscar 2019 – ao menos na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira -, realmente tem muitas qualidades. Mas eu não sei… ao término da produção, fiquei com aquele gostinho de que falaram tanto do filme e que ele entrega menos do que eu esperava. Grandes expectativas costumam resultar nessa conclusão. Mas uma obra-prima, realmente, teria satisfeito e superado as expectativas. Esse não é o caso de Roma.

A HISTÓRIA: Sobre um piso, alguns baldes de água são derramados. O reflexo que a água faz mostra em parte o céu, por onde passa um avião. Depois de limpar o piso, Cleo (Yalitza Aparicio) recolhe o material utilizado e conversa com o cachorro, Borras. Ela vai até um banheiro, colocado do lado externo da casa, e entra na residência dos patrões. No piso superior, ela recolhe as roupas de cama utilizadas e coloca as novas. Faz tudo com agilidade, levando o fiel rádio consigo em cada cômodo.

Em seguida, Adela (Nancy García García) chama a atenção de Cleo de que é quase 13h e que ela precisa se apressar. Cleo corre pela calçada e vai até o colégio para buscar o caçula dos patrões. Na volta, Adela comenta que Fermín (Jorge Antonio Guerrero) está ao telefone para falar com Cleo. As duas falam no dialeto mixteco, idioma que Pepe (Marco Graf) desconhece. Aos poucos, vamos acompanhando as histórias dessa família e de seus empregados.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Roma): Eu gosto muito do Sr. Alfonso Cuarón. E não é de hoje. Gosto do estilo do diretor muito antes dele ser reconhecido pelo trabalho extremamente técnico de Gravity (comentado por aqui). Eu acompanho o trabalho desde há exatos 20 anos, desde Great Expectations, filme com Ethan Hawke e Gwyneth Paltrow e anterior a Y Tu Mamá También – que o tornou mais conhecido e admirado.

Dito isso, comento que fiquei feliz que um filme dele, Roma, é considerado um dos favoritos – se não o maior favorito – para o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Como quem acompanha o blog há mais tempo sabe, essa é a minha categoria preferida do Oscar. Especialmente pelas obras interessantes e diversificadas que esta categoria me apresenta a cada ano da premiação.

Assim, devo admitir, fui assistir a Roma com grandes expectativas. Não apenas por seu favoritismo, mas porque conheço o talento de Cuarón. Nascido na Cidade do México em 1961, Cuarón fez uma releitura muito particular sobre os anos de 1970 e 1971 – quando se passa a história desse filme. Pensando na produção, me parece que o personagem de Pepe, interpretado pelo carismático Marco Graf, representa o pequeno Cuarón.

Assim, nos debruçamos sobre a realidade do México naqueles anos conturbados. Para isso, Cuarón nos apresenta uma visão bastante intimista e próxima de uma família da classe média, onde duas realidades muito diferentes são retratadas. A das pessoas com recursos e que podem se dar ao luxo de ter até três empregados – o que é o caso da família de Sofía (Marina de Tavira) e de Antonio (Fernando Grediaga).

Enquanto o casal, que vive uma crise no matrimônio, tem condições de viver bem, educar os quatro filhos em bons colégios e ter uma empregada, uma cozinheira e um motorista à sua disposição, os empregados da família vivem em função dos chefes e à espera de uma folga para ir namorar no cinema – ao menos Cleo e Adela.

A narrativa desta produção, linear e focada no cotidiano da família e de seus empregados, apresenta diversas sutilezas e temas que fazem pensar. Mas sem grandes “choques” narrativos ou inovações na forma de contar essa história. Cuarón faz um excelente trabalho na direção, valorizando o trabalho dos atores, focando no cotidiano da Cidade do México no início dos anos 1970 e com planos de câmera que valorizam os movimentos contínuos.

De forma acertada, ele foca em poucos personagens e foca a narrativa sob a ótica da empregada da família, Cleo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ela é uma garota simples, que não tem contato com a própria família (ouvimos falar apenas da mãe dela, na realidade) e que dedica a sua vida para os patrões – especialmente para os filhos de Sofía. Ela é especialmente apegada aos menores, Pepe e Sofi (Daniela Demesa).

A principal reflexão de Roma, para mim, é justamente as desigualdades sociais e de oportunidades que marcaram o México e outros países latinos nos anos 1970 e até hoje. No fundo, Cleo abre mão da própria vida para dedicar-se 100% à família dos patrões. No momento mais angustiante do filme, quando Cleo salva Paco (Carlos Peralta) e Sofi na praia, ela confessa que não queria que a filha que teve com Fermín nascesse.

Em outro momento importante do filme, Sofía comenta que não importa o que digam para elas, mas as mulheres estão sempre sozinhas. Esse é outro aspecto muito interessante e relevante do filme. Como mulheres com histórias tão diferentes, níveis de educação e oportunidades tão diversas, no fundo, podem ser vítimas da mesma sociedade machista. O México, assim como o Brasil e outros países, sofre com esta cultura em que todas as decisões e as principais oportunidades são decididas pelos homens.

Assim, com bastante facilidade, Antonio abandona a família ao mesmo tempo em que Fermín não assume o seu compromisso com Cleo. Para eles, fazer isso é muito fácil. Ninguém os questiona, ninguém acha absurdo o abandono e desprezo que eles promovem. Ao mesmo tempo, Cuarón revela uma fase da história em que as mulheres começam a assumir o controle de suas próprias vidas.

Desta forma, Roma também nos mostra o início de um maior “empoderamento” feminino na sociedade mexicana. Seja com Sofía mudando o foco de sua atividade para conseguir um emprego que lhe ajude a pagar as contas e sustentar a sua família, seja com Cleo revelando abertamente que não gostaria de ter a sua filha. Claro, podemos debater as razões dela não querer a sua própria filha. Seria por que ela está focada demais em ajudar a criar e cuidar das filhas da patroa ou será mesmo que, a exemplo de outras mulheres, ela não sente a necessidade em ter uma herdeira e colocar uma criança à mais no mundo?

As respostas para estas questões não são simples e nem devem ser dadas com base no que acreditamos ou fazemos. As questões sociais são complexas mesmo, seja no México do início dos anos 1970, seja nos dias atuais. Roma nos apresenta histórias muito humanas e com um olhar sensível e muito cuidadoso de Cuarón – além de dirigir o filme, ele é o responsável pelo roteiro de Roma.

Além destas questões muito particulares e humanas de Roma, o filme trata, em pequenas pérolas espalhadas aqui e ali, questões sociais importantes para o México daquela época. Como no início do filme Paco narra uma cena em que um menino foi morto por um militar por ter jogado um balão cheio de água nele, inicialmente eu achei que o México também vivia uma fase de regime militar – como era o caso do Brasil, na mesma época. Mas não. Buscando mais informações sobre o período, descobri que quem governava o México na época era o PRI (Partido Revolucionário Institucional).

Ainda assim, mesmo que o regime na época no México não fosse ditatorial, o exército e a polícia desempenharam um papel decisivo no que alguns chamaram de “guerra suja” contra a oposição ao PRI nos anos 1960 e 1970. Isso é o que vemos em cena em dois momentos contundentes da produção. Primeiro, no “treinamento” de Fermín, que acaba sendo flagrado por Cleo – que, inocente, acredita que o ex-namorado está treinando para as Olimpíadas.

Ele diz que foi “salvo” pelas artes marciais, mas de que tipo de salvação ele está falando? Órfão de mãe ainda criança e criado em uma favela, Fermín acredita que não caiu na criminalidade por causa das artes marciais. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mas, depois, ele acaba sendo utilizado como um criminoso pelo próprio regime para matar estudantes que protestavam contra o governo. Ele não atira em Cleo, apesar de ter tido vontade, mas o efeito que ele causa naquela situação é o mesmo praticamente se ele tivesse realmente apertado o gatilho.

Apenas jogando os “fatos” na nossa frente, Cuarón nos faz refletir sobre os efeitos daninhos da desigualdade de oportunidades e de acesso à educação. No fundo, Cleo e Fermín fazem parte de um mesmo sistema injusto no qual eles não tem perspectiva praticamente nenhuma de sair de seus “destinos”. A ignorância faz Cleo engravidar sem ao menos saber como poderia ter evitado aquilo, enquanto Fermín serve de massa de manobra para crimes sem que ele realmente tenha percebido alguma outra alternativa para si mesmo.

Com isso, claro, não estou dizendo que todos são produto apenas do seu meio. Claro que, no final das contas, somos responsáveis pelos nossos atos e podemos escolher o que fazer dos nossos dias, mesmo que alguns tenham mais opções do que outros – e isso não pode ser ignorado. De forma muito direta, Cuarón nos fala sobre isso nessa produção. Um filme bastante humano, intimista, mas também com uma grande carga de debate social.

Algumas pérolas espalhadas pelo diretor aqui e ali também nos fazem refletir sobre outra questão. Seja pela narrativa de Paco sobre o garoto que levou um tiro do militar por jogar um balão cheio de água, seja pela criança que morre empalada em uma incubadora no hospital, Roma parece nos sugerir que as crianças são as principais vítimas de uma sociedade injusta e que apresenta diversos riscos que nem sempre podem ser calculados. Isso também nos faz pensar sobre a finitude da vida e sobre a falta de controle que temos sobre diversos fatos.

O momento alto da produção, sem dúvida alguma, é a sequência derradeira na praia. Extremamente angustiante a forma com que Cleo não pensa na própria vida e se entrega para salvar as crianças que ela ama – e que não são dela. Ela tem um altruísmo e uma entrega que impressionam. Naquele momento, impossível não pensar no pior cenário da situação, e justamente isso que cria a angústia muito bem planejada pelo diretor/roteirista. Sequência brilhante – especialmente por nos mostrar apenas parte do que está acontecendo, o que aumenta a angústia.

Cleo vai continuar dedicando a sua vida para aquela família. Apesar disso, ela nunca realmente vai fazer parte daquela realidade. Isso talvez seja o incômodo que perdura mais após o fim dessa produção. Um filme bem planejado, interessante e delicado mas que, apesar de todas as suas qualidades, não cria realmente um grande impacto.

Roma não surpreende ou provoca o desconforto que outras produções mais “potentes” deste ano e que buscavam uma vaga entre os finalistas do Oscar causam. É um belo filme, mas não o considero o melhor desta categoria neste ano. Ainda assim, algo eu tenho que admitir: o filme faz uma bela apresentação da cultura e dos valores mexicanos – inclusive a força de vontade das mulheres, as desigualdades sociais e algumas superstições e costumes. Mas acho que a produção poderia ser um pouco mais curta. Acho que Roma tem trechos realmente dispensáveis – como o incêndio aparentemente provocado após a festa de Réveillon e a cantoria que se segue. Alguns minutos a menos, retirados daqui e dali, fariam bem para a produção.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Uma das qualidades de Roma, sem dúvida alguma, é a direção de fotografia de Alfonso Cuarón. Além de ter uma direção primorosa, Cuarón também teve um trabalho irretocável na fotografia – valorizada pelo preto e branco. Entre os aspectos técnicos da produção, vale destacar também a edição de Alfonso Cuarón e Adam Gough. Outro item importante para o sucesso de Roma.

Certamente existem diversos textos e materiais que falam sobre o cenário político e social do México no início dos anos 1970. Mas para quem deseja uma leitura rápida, recomendo este texto do site Público e esse artigo sobre o papel dos intelectuais frente àquele cenário repressivo do regime do PRI.

A grande estrela desta produção, sem dúvida alguma, é a atriz Yalitza Aparicio. Ela está perfeita como a protagonista Cleo, uma garota simples, singela, mas muito amorosa e dedicada. Ela simboliza muito bem a mulher “comum” do México. Está perfeita. E o mais interessante: segundo o site IMDb, Roma marca a estreia de Yalitza Aparicio no cinema. Um belo, belo achado do diretor Cuarón, sem dúvida. Ela simboliza muito bem a delicadeza, a simplicidade e a origem indígena de uma parte considerável das mulheres mexicanas.

Além dela, fazem um bom trabalho nesta produção a “patroa” de Cleo, interpretada por Marina de Tavira; a colega de Cleo, responsável pela cozinha da família, interpretada por Nancy García García; o elenco infanto-juvenil que dá vida para os filhos de Sofía, interpretados por Diego Cortina Autrey (Toño), Carlos Peralta (Paco), Marco Graf (Pepe) e Daniela Demesa (Sofi); e a atriz Verónica García, que interpreta à Teresa, mãe de Sofía.

Outros atores fazem papéis menores, mas que também tem a sua relevância – ainda que eles, a meu ver, ficam em um nível de entrega menor que o dos outros atores. Integram esse grupo os atores Fernando Grediaga, que interpreta a Antonio, chefe da família que emprega Cleo; Jorge Antonio Guerrero, que interpreta ao “desajustado” Fermín; José Manuel Guerrero Mendoza como Ramón, “namoradinho” de Adela e parente de Fermín; e Latin Lover como o Profesor Zovek – uma figura que simboliza alguns ídolos mexicanos mas que, francamente, não sei se precisaria estar nesta produção. Talvez a razão dele estar lá é de nos questionarmos quem são os nossos “ídolos” e o que eles representam ou significam.

Roma estreou no final de agosto no Festival de Cinema de Veneza. Depois, até novembro, o filme participou de outros 28 festivais em diversos países antes de estrear na internet em dezembro – Roma é distribuído pela Netflix.

Fiquei me perguntando, por um bom tempo, o porquê do nome Roma para esta produção. Depois é que eu fui descobrir que a história se passa, predominantemente, na vizinhança da “colônia” Roma, na Cidade do México. Aí sim, faz sentido. 😉

Roma é dedicado a Libo, que era a empregada doméstica da família do diretor e na qual ele se baseou para escrever a protagonista desta produção.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. A razão de vários aviões serem vistos na produção é que Cuarón decidiu filmar na Cidade do México e não em um estúdio – e, atualmente, segundo o diretor, um avião passa a cada cinco minutos pelo céu da cidade.

Vale citar algumas falas de Cuarón sobre Roma: “Há períodos na história que cicatrizam as sociedades e momentos na vida que nos transformam como indivíduos. O tempo e o espaço podem nos constranger, mas também nos definem, criando vínculos inexplicáveis com os outros que fluem junto conosco no mesmo tempo e nos mesmos lugares. Roma é uma tentativa de capturar a memória de eventos que eu experimentei há quase cinquenta anos. É uma exploração da hierarquia social do México, onde classe e etnia foram perversamente entrelaçadas nesta data, acima de tudo. Tudo é um retrato íntimo de duas mulheres que me criaram em um reconhecimento do amor como um mistério que transcende o espaço, a memória e o tempo”.

O diretor e roteirista era a única pessoa que conhecia todo o roteiro e a direção que o filme teria. A cada dia ele chegava nas filmagens para entregar para o elenco as linhas do roteiro que seriam filmadas naquele dia. A intenção de Cuarón era surpreender os atores e provocar choque e emoção em cada um deles. Além disso, cada ator recebia orientações e explicações contraditórias, para que houvesse algum “caos” no set a cada dia. Essa ação de Cuarón é explicada com a seguinte frase do diretor: “A vida é exatamente assim: caótica, e você não pode realmente planejar como reagirá sempre em cada situação que ela apresenta”.

Segundo Cuarón, 90% das cenas de Roma representam imagens que ele guardou na sua própria memória. Ou seja, um filme bastante “autobiográfico” ou bastante inspirado nas memórias do diretor, bem ao gosto de Fellini.

Ao apresentar Roma no Festival de Cinema de Nova York, o diretor Guillermo Del Toro disse que o filme de Cuarón é um de seus cinco filmes favoritos de todos os tempos. Deve influenciar bastante para isso o fato de Del Toro ser mexicano também – certamente o filme “bate” diferente para quem nasceu naquele país. Esse mesmo efeito, guardada as devidas proporções, Benzinho (comentado aqui) causou em mim neste ano.

O distrito Roma fica localizado na região Oeste a partir do centro histórico da Cidade do México – caso alguém um dia for para lá e quiser conhecer o local. 😉

Para o filme, Cuarón reuniu 70% dos móveis da sua casa e da residência de familiares para que esses objetivos aparecessem em cena.

De acordo com Cuarón, Roma é o filme “mais essencial” da sua carreira. Cada cena do filme foi gravada no local onde os eventos aconteceram ou em sets que procuraram reproduzir os locais com o maior grau de exatidão possível.

Nos créditos finais do filme, além de agradecer a membros de sua família, Cuarón agradece a nomes do cinema de origem mexicana, como Gael García Bernal, Guillermo Del Toro, Alejandro G. Inãrritu e Emmanuel Lubezki.

Parte da linguagem do filme está no dialeto mixtec. Curioso que o dialeto é falado, essencialmente, pelas mulheres que aparecem na produção – não apenas as empregadas, mas também Sofía.

Pedro Almodòvar considerou Roma como o melhor filme de 2018. A revista TIME também escolheu Roma como o melhor filme do ano, descrevendo ele como “uma ode ao poder da memória, tão íntimo quanto um sussurro e tão vital quanto o rugido do mar”.

De acordo com o roteiro de Roma, a história transcorre entre os dias 3 de setembro de 1970 e 28 de junho de 1971.

Segundo Cuarón, a simbologia de abrir o filme com um avião refletido na água era o de tratar da situação transitória da vida, declarando também que o universo é mais amplo que a vida que os personagens da produção apresentam.

A atriz Yalitza Aparicio, a exemplo de sua personagem Cleo – e da empregada na qual ela é inspirada -, também não sabia nadar.

Dos aspectos técnicos do filme, além da maravilhosa direção de fotografia de Cuarón e da edição dele e de Gough, vale destacar o design de produção de Eugenio Caballero; a direção de arte de Carlos Benassini e Oscar Tello; a decoração de set de Barbara Enriquez; os figurinos de Anna Terrazas e o Departamento de Arte formado por Marcela Arenas, Gabriel Cortes, Ziuhtei Erdmann, Eliud López, Ana Carolina Sánchez Mendoza, Raisa Torres e Marcos Demián Vargas.

Até o momento, Roma ganhou 90 prêmios e foi indicado a outros 122 prêmios – números realmente impressionantes. Entre as indicações, estão incluídas as indicações aos Globos de Ouro de Melhor Roteiro, Melhor Diretor e Melhor Filme em Língua Estrangeira. Entre os prêmios que o filme já recebeu, destaque para os prêmios de Melhor Filme e o SIGNIS Award para Alfonso Cuarón no Festival de Cinema de Veneza; e para 34 prêmios de Melhor Filme ou de Melhor Filme em Língua Estrangeira e 20 de Melhor Diretor para Alfonso Cuarón conferidos por diferentes círculos e associações de críticos de cinema dos Estados Unidos e de outros países. Ou seja, esse filme chega super premiado já tanto para o Globo de Ouro quanto para o Oscar em 2019.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para Roma, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 287 críticas positivas e 13 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 9,1. As notas dos dois sites para o filme são altas se considerarmos o padrão dos sites. O site Metacritic apresenta o “metascore” 96 para esta produção – fruto de 50 críticas positivas -, assim como o selo “Metacritic Must-see”.

Roma é uma coprodução do México com os Estados Unidos.

No caso de vencer em uma ou mais categorias do Oscar, será que Cuarón fará um discurso político? Com os Estados Unidos sendo governado, atualmente, por um senhor que deseja erguer um muro entre o México e o seu país, acredito que sim. De qualquer forma, seria interessante ver a mais um latino sendo consagrado pelo Oscar. Veremos.

Última crítica de 2018, aproveito esse post para desejar um maravilhoso 2019 para todos vocês, meus queridos leitores e minhas queridas leitoras aqui do blog. Espero que vocês tenham um ano incrível, com muitas alegrias, ótimos filmes e realizações! Abraços e até as críticas de 2019! 😉

CONCLUSÃO: Um filme que nos apresenta duas realidades muito diferentes e que, ao mesmo tempo, se mostram similares em diversos pontos. Roma traz no seu pano de fundo questões fortes do período de ditadura no México, ao mesmo tempo em que retrata com muito cuidado e atenção a intimidade de pessoas de classes sociais muito diferentes que convivem sob o mesmo teto. Essa produção acerta ao retratar uma época de início de empoderamento feminino, assim como de mudança de comportamentos, mas acaba sendo menos impactante ou inovador do que eu esperava.

Uma bela produção, mas que me pareceu um tanto longa demais e sem a carga de novidade de outros filmes que disputam com ela uma vaga no Oscar. Não achei o melhor filme desta categoria até o momento. Está entre as boas pedidas do ano, mas não me impactou como outras produções que buscavam (ou ainda buscam) uma vaga entre os finalistas da categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. Cinema, para mim, é mais que competência técnica. Um filme tem que apresentar emoção, mexer com o espectador ou inovar. Roma apresenta o primeiro elemento, mas com uma carga menor do que o esperado. Bom, competente, interessante e belo, mas não é excepcional.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: Roma parece ter uma forte campanha para chegar forte no prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Sim, o filme tem muitas qualidades, mas não acho ele poderoso ou inovador o suficiente para ser considerado o favorito deste ano – que é como ele tem sido apontado até agora.

Dos filmes pré-indicados que eu assisti até o momento, sem dúvida alguma eu achei The Guilty (comentado aqui) mais impactante e inovador. É o meu preferido na disputa, até agora. Burning (com crítica neste link) é menos detalhista e bem acabado que Roma, mas também me pareceu mais impactante e inovador. Apenas Cold War (comentado aqui) pode ser comparado com o filme de Cuarón – não apenas pela fotografia em preto-e-branco mas, em especial, pela história central um tanto “conservadora”.

Conforme comentei neste artigo sobre os filmes que avançaram em nove categorias do Oscar 2019, estou especialmente curiosa para assistir aos filmes da Colômbia, da Alemanha e do Líbano. Quem sabe alguma destas produções ou mesmo o filme dinamarquês na disputa não surpreenda e ganhe do “favorito” Roma? O filme de Cuarón tem o seu valor, mas não me conquistou como eu esperava.

Categorias
Cinema Cinema alemão Cinema brasileiro Cinema europeu Cinema francês Cinema latino-americano Crítica de filme Filme premiado Movie

Las Herederas – The Heiresses – As Herdeiras

Muitas vezes a gente acha que conhece as necessidades de quem está mais próximo. Muitas vezes, achamos que conhecemos bem a nós mesmos. Até que somos obrigados a sair da nossa rotina e do lugar-comum em que a nossa vida se transformou e descobrimos muito mais do que antes seríamos capazes de imaginar. Las Herederas é um filme lento, bastante detalhista e que dá muito espaço para as interpretações das suas atrizes. Uma história aparentemente comum, mas que guarda algumas reflexões muito interessantes.

A HISTÓRIA: Um mulher olha para um retrato e ouvimos alguém cantarolando. Essa mesma mulher, caminha pela sala de jantar e pergunta sobre diversos objetos que estão à venda. A empregada responde, dando o preço de cada objeto, como o faqueiro, o jogo de taças, e informa que o relógio precisa ser consertado. Comenta também sobre o que não está à venda. No cômodo adjacente, Chela (Ana Brun) observa tudo com certa tristeza. Com dívidas e sem uma renda própria, Chela e Chiquita (Margarita Irun) encontram na venda dos seus pertences os recursos para sobreviver. Mas, em breve, esse cenário irá mudar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes desse filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Las Herederas): Eu tinha grandes expectativas com esse filme, devo admitir. Especialmente pelo alto nível de aprovação que Las Herederas apresenta segundo avaliação de público e de crítica. Mas ao assistir a esse filme, me surpreendi com uma história onde não existe uma grande trama, digamos assim.

Os fatos se desenrolam muito mais em um campo interior e de mudança na vida da protagonista do que em um campo exterior. Assim, na prática, “pouco acontece” em Las Herederas. Vejamos o que a história nos apresenta. (SPOILER – não leia se você não assistiu ainda ao filme). Dividem uma residência de luxo duas mulheres que herdaram – aparentemente – tudo que têm. O casal lésbico de meia idade parece estar junto há muito tempo. Elas têm um grupo de amigas mas, apesar disso, parecem viver um tanto isoladas.

Endividadas e com Chiquita sendo acusada de sonegação fiscal, as protagonistas começam a se desfazer de seus pertences para conseguir pagar as contas e sobreviver. Essa dificuldade financeira grave e a iminência de Chiquita ser presa fazem com que Chela tenha pouca vontade de sair de casa ou de ver pessoas – parece, inclusive, que ela está vivenciando uma depressão quando o filme começa.

O grande ponto de ruptura da história acontece quando Chiquita realmente vai para a prisão. Chela acaba sendo obrigada a sair do seu reduto e do seu “lugar seguro”. Primeiro, para visitar a companheira presa. Depois, para atender a uma vizinha que pede uma carona. Ela não dirigia muito – quem fazia isso, assim como quase todos os demais afazeres e tomava as decisões pelo casal era Chiquita. Mas justamente essa saída de casa desencadeia uma série de outras mudanças na vida da protagonista.

Como na história propriamente dita “nada demais” acontece, realmente o ponto de atenção do filme são as “mudanças internas” pelas quais a protagonista passa. Com muita sutiliza, o diretor e roteirista Marcelo Martinessi nos conta a história de uma mulher que acaba se descobrindo ao ser retirada da sua zona de conforto. Pouco a pouco, Chela redescobre o desejo – não apenas de viver, mas por outra mulher, Angy (Ana Ivanova) – e a liberdade.

Porque sim, algumas vezes as pessoas, movidas pelo amor e pela vontade de cuidar do “ser amado”, acabam cuidando e protegendo tanto essa outra pessoa que tiram dela toda a sua autonomia. E é justamente isso que acontece na relação de Chela e de Chiquita. Além desse casal cair na rotina – algo comum em casais que estão muito tempo juntos -, Chela também acaba sendo eclipsada pelo excesso de zelo de Chiquita.

Esse é um outro ponto interessante de Las Herederas. Como o filme demonstra, de forma muito honesta e natural, como uma relação pode se tornar desigual com o passar do tempo. Preocupada em cuidar de Chela, Chiquita acaba, na verdade, tirando a autonomia e os desejos da companheira. Para algumas pessoas, é mais fácil esse tipo de amor. Afinal, o “objeto amado” estará sempre dependente e sob controle.

Qual é a surpresa de Chela quando, sem todo esse zelo e controle de Chiquita, ela vai, pouco a pouco, descobrindo a sua própria capacidade de ser e fazer. Com algo tão simples quanto “dar carona” para a vizinha idosa e, depois, para todas as amigas dessa vizinha que, como ela, se encontram com frequência para jogar, Chela encontra o caminho para a própria independência. Não apenas financeira, mas também de ação.

Ela pode dirigir dentro da cidade e até na estrada, onde ela nunca tinha ido antes. Algo tão simples acaba sendo tão simbólico da retomada da liberdade. Interessante isso, porque desta forma Las Herederas nos lembram do próprio empoderamento feminino, da onda de mulheres que, ao aprender a dirigir, ganharam liberdade maior de ir e vir e de fazer as suas escolhas. E é justamente isso que esta produção nos faz lembrar.

Em suas idas e vindas para dar carona remunerada para as amigas idosas, Chela ainda redescobre o tesão. Ela fica fascinada com a beleza e com a atitude de Angy, a garota que cede a casa – cobrando por isso, certamente – para as idosas jogarem. Essa paixão acaba tirando Chela do prumo, e depois de sair de sua rotina, tudo o que ela não quer é voltar para ela. A consequência da saída de Chiquita da prisão, por isso, também pode ser prevista.

O mais interessante dessa história, além dela ser uma narrativa de autodescoberta e de empoderamento da protagonista, é a mensagem que Las Herederas nos passa. De que muitas vezes vamos acumulando os nossos dias e nos acostumando com uma certa rotina que não faz mais os nossos olhos brilharem ou o nosso coração realmente pulsar forte, mas que nunca é tarde para vivenciarmos tudo isso novamente.

Acho essa uma mensagem muito poderosa deste trabalho de Marcelo Martinessi. Afinal, não importa de que classe social você veio ou na qual você está agora. O quanto você batalhou para conseguir as suas coisas ou recebeu “tudo de graça” porque você é herdeira(o) de algo que batalharam antes de você existir. Todos têm o direito de sonhar, de vivenciar fortes emoções e de achar sentido no que fazem de suas vidas. Como Chela fez, meio que sem querer.

Um filme interessante, mais pelo que ele nos sugere e nos mostra com descrição do que por uma narrativa inovadora. Aparentemente, pouco acontece em cena. Aparentemente, vemos a uma “história comum” e sem grandes virtudes pela frente. Mas, no fundo, Las Herederas tem uma série de questões que nos fazem refletir sobre o que fazemos aos demais, com nosso excesso de “zelo e de amor”, e o que permitimos que seja feito com a gente mesmo. Seja pelos outros, e por nós, na nossa rotina que nos leva por caminhos estranhos, algumas vezes.

Las Herederas nos mostra, assim, algumas reflexões interessantes e uma “rebeldia” da protagonista no final que nos dá esperança. Sempre é possível recomeçar. E não importa a idade que temos, sempre é possível procurar sentido e paixão na nossa vida. Por mais que os outros nos digam que não, ou que a gente mesmo não acredite muito em uma nova saída, ela existe. Basta procurar e ter a coragem de se lançar. Um filme interessante, apesar de seu ritmo lento demais, muitas vezes.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Admito que esse filme me conquistou mais quando comecei a pensar a respeito dele do que no momento em que ele estava se desenrolando na minha frente. A experiência de Las Herederas, propriamente dita, não é de encher os olhos ou de fazer o nosso coração palpitar mais forte. Não, muito pelo contrário. Mas quando paramos para pensar na história e no que ela nos diz ou provoca, o filme vai ganhando pontos. Tanto que ele saiu de uma nota 7 inicial, aqui no blog, para chegar no 8 ali acima.

Além dos aspectos que eu comentei antes, Las Herederas tem um “fundinho” de aspecto social. Vejamos. Primeiro, o filme retrata uma classe média-alta de mulheres lésbicas ou viúvas que não trabalham. Aparentemente, todas elas vivem das heranças que herdaram ou de aposentadorias. O que elas fazem? Além de festas com karaokê, jogam cartas valendo dinheiro. Será mesmo que isso é o melhor que podemos fazer na nossa velhice?

No Brasil e, talvez, na América Latina, as sociedades não se prepararam para ter a maior parte da população na velhice. Não temos, efetivamente, muitos programas que diversifiquem o cotidiano ou que deem outras perspectivas para estas pessoas. Mas não vai demorar muito para que a população brasileira seja, em sua maioria, de idosos. Que tipo de realidade teremos, então? Acho que vale nos questionarmos. Especialmente para a forma com que estamos nos preparando para nos reinventarmos e termos a nossa liberdade quando chegarmos lá.

Uma das grandes qualidades desse filme, sem dúvida alguma, é o trabalho da atriz Ana Brun. Ela está ótima e muito coerente com os diferentes momentos que vivem a sua personagem Chela no filme. Com uma interpretação detalhista e que, muitas vezes, expressa o que a personagem sente mais pela linguagem não verbal do que pela verbal, Ana Brun nos conquista conforme a produção avança. Um belo trabalho, sem dúvida alguma.

Além de Ana Brun, vale destacar o ótimo trabalho de Margarita Irun como Chiquita – ela é outra que tem um desempenho incrível no filme; de Ana Ivanova em um papel cheio de nuances e de controvérsias como Angy; de Nilda Gonzalez como Pati, a emprega simples e de grande coração que acaba entendendo Chela como poucos; María Martins em um desempenho interessante como Pituca, a vizinha que começa a pedir carona para Chela; e Alicia Guerra como Carmela, amiga que ajuda Chiquita a sair da cadeia.

No presídio, algumas mulheres ganham um certo destaque quando a história de Las Herederas se transporta para lá – e isso acontece, de forma pincelada, algumas vezes durante a produção. Entre as mulheres que ganham um certo destaque nesta parte do filme estão Ana Banks e Natalia Calcena.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale comentar o bom trabalho de Luis Armando Arteaga na direção de fotografia; a edição de Fernando Epstein; o design de produção de Carlo Spatuzza; o design de produção de Tania Simbron; e a maquiagem de Luciana Diaz e de Edi Romero.

Marcelo Martinessi faz um bom trabalho na direção, mas o roteiro dele me pareceu menos consistente e interessante do que poderia ser. Talvez seja o estilo dele. Não sei, não posso opinar, porque esse foi o primeiro filme que eu vi com a assinatura de Martinessi. Antes de Las Herederas, ele dirigiu a dois curtas e a um curta de documentário. Ou seja, Las Herederas é o seu primeiro longa. Acho que precisamos de mais material para poder avaliar o estilo do diretor e roteirista.

Las Herederas estreou em fevereiro de 2018 no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Depois, o filme participou, ainda, de outros sete festivais de cinema em diversos países. Nessa trajetória, até o momento, o filme ganhou 20 prêmios e foi indicado a outros seis.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Prêmio Fipresci, para o prêmio de Melhor Atriz para Ana Brun e para o Prêmio Alfred Bauer para o diretor Marcelo Martinessi e para a produtora La Babosa Cine no Festival Internacional de Cinema de Berlim; para o Prêmio Fipresci e para o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cinema de Cartagena; para o prêmio de Melhor Filme Latino-americano pela escolha do público e para os prêmios da crítica de Melhor Filme Latino, Melhor Diretor entre os Filmes Latinos, Melhor Atriz entre os Filmes Latinos para Ana Brun, Margarita Irun e Ana Ivanova e Melhor Roteiro entre os Filmes Latinos no Festival de Cinema de Gramado; para o Melhor Filme Latino-americano no Festival Internacional de Cinema de San Sebástian; para o Melhor Filme no Festival de Cinema de Sydney; além de outros dois prêmios como Melhor Filme, um prêmio de Melhor Atriz para Ana Brun; um prêmio de melhor filme LGBTQ e um prêmio de Melhor Primeiro Trabalho. Uma coleção de prêmios, realmente.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 22 críticas positivas e nenhuma negativa para esta produção. Essa unanimidade, ou seja, aprovação de 100% no Rotten Tomatoes é algo muito, muito raro. Na média, os críticos do site deram a nota 8 para Las Herederas. No site Metacritic, Las Herederas apresenta um “metascore” de 82, fruto de seis críticas positivas. Novamente, um ótimo desempenho se levarmos em conta o padrão deste site.

Me parece, com a coletânea que o filme já ostenta até o momento e com esta unanimidade dos críticos, que Las Herederas já é um virtual forte candidato na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2019. Pessoalmente, acho o filme bacana e interessante, mas não para ganhar o Oscar. Já vou me adiantando, pois. 😉

Las Herederas é uma coprodução do Paraguai com a Alemanha, o Uruguai, o Brasil, a Noruega e a França. Ou seja, esse filme deve representar o Paraguai na próxima disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2019. Veremos se ele chega entre os cinco.

CONCLUSÃO: Uma história introspectiva, destas em que parece que não está acontecendo nada. Isso porque o que de fato está acontecendo não é visível e não tem uma grande dinâmica. As mudanças e a “ação” em Las Herederas se passam no interior da protagonista. Um filme sutil, com grandes atuações e com um ritmo lento que desafiará os espectadores mais vorazes para que “algo aconteça”. Apesar de não ser realmente impactante, este filme apresenta algumas boas qualidades e, sobretudo, uma reflexão sobre as relações e o comodismo que algumas vezes adotamos na nossa vida. É interessante sair da zona do conforto. Essa saída sempre pode nos trazer respostas interessantes sobre os outros e, especialmente, sobre nós mesmos.

Categorias
Cinema Cinema alemão Cinema brasileiro Cinema latino-americano Crítica de filme Filme premiado Movie Votações no blog

Benzinho – Loveling

A gente sonha e toca a vida. Essa mesma vida que nos apresenta oportunidades e muitas limitações – ao menos para o brasileiro médio. Benzinho nos conta uma história linda e um pouco triste. Para mim, um dos filmes mais exatos sobre a “alma” brasileira que eu já tive o prazer de assistir. De uma forma muito precisa e com uma sensibilidade ímpar, o diretor e roteirista Gustavo Pizzi, que escreveu Benzinho ao lado de Karine Teles, nos apresenta um perfil de família brasileira muito coerente com a nossa realidade atual. Para mim, um filme nacional imperdível.

A HISTÓRIA: Uma família está preparada para a praia, com brinquedos, guarda-sol e boias à tira-colo. Eles aguardam por um bom tempo até que conseguem atravessar a rua. Depois da espera, eles finalmente chegam ao destino. Corta. Em casa, Irene (Karine Teles) procura agilizar os dois filhos menores, gêmeos (Arthur Teles Pizzi e Francisco Teles Pizzi). Eles estão com pressa para sair de casa e chegar à tempo de ver ao filho mais velho de Irene e de Klaus (Otávio Müller), Fernando (Konstantinos Sarris), jogando uma partida decisiva de handebol.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Benzinho): Ai, que dúvida atroz sobre que nota dar para este filme. Sim, eu sei que isso é uma bobagem. Afinal, o importante é a experiência que tivemos no cinema e o que os filmes provocaram ou deixaram para a gente. Mas sim, me preocupo em não ser injusta com a nota que eu poderia dar para Benzinho. Porque este filme está bem acima da média.

Quem acompanha ao blog há algum tempo, sabe que eu não tenho assistido a muitos filmes nacionais. Nada contra o cinema brasileiro, muito pelo contrário. Mas o meu gosto para filmes não faz com que eu me sinta atraída pelas comédias, algumas no estilo “pastelão”, que o cinema brasileiro volta e meia nos apresento. Respeito, sei qual é o papel destes filmes para a indústria nacional, mas isso não faz com que eu tenha interesse em assistir a esse tipo de produção. E isso não vale apenas para o cinema brasileiro, mas para os filmes de todas as latitudes.

Aprecio mais outro tipo de filme. Produções que falem sobre o “humano, demasiado humano” ou que, pelo menos, se esforcem em nos apresentar questões pertinentes e/ou ideias novas. Se não exatamente “reinventem a roda”, que pelo menos tentem nos mostrar uma forma diferente de encarar algum gênero cinematográfico ou realidade. Por isso mesmo, seleciono muito bem os filmes nacionais que eu assisto. E que presente encontrar uma produção como Benzinho pela frente!

Muito pode ser dito sobre esse filme. Mas vou começar destacando como ele fala de forma interessante sobre as pessoas comuns. As vidas “ordinárias” sempre rendem ótimas histórias no cinema quando temos pela frente um diretor cuidadoso e um roteiro excepcional. Esse é o caso de Benzinho. O filme trata sobre uma “família comum” brasileira, com tudo que isso carrega de significados.

Temos em cena a peça central dessa história, a mãe de família e “dona de casa” Irene. A atriz Karine Teles dá um show de interpretação com essa personagem, nos apresentando uma mulher amorosa, batalhadora e o centro da família composta apenas por homens – o marido, interpretado pelo ótimo Otávio Müller, e os quatro filhos do casal. Irene representa milhões de mulheres brasileiras que estudaram relativamente pouco, casaram, tiveram vários filhos e que se tocaram, em determinado momento da vida, como dedicaram a vida para essa família – deixando a si próprias em segundo plano, geralmente.

No melhor estilo “deixa a vida me levar”, Irene e o marido Klaus percebem, em determinado momento da vida, como eles seguem batalhando o dia a dia. Tão envolvidos com a busca por sobreviver e por dar comida, educação e um teto que não caia sobre a cabeça dos filhos, Irene e Klaus tem pouco tempo para sonhar. Ainda assim, eles sonham – especialmente Klaus, que assume a postura clássica de “provedor” da família.

Mas esses sonhos, como tantos outros de todos nós, pessoas comuns desse Brasilzão continental, esbarram sempre na realidade dura de um país com poucas perspectivas para as pessoas. Klaus percebe, primeiro, que a sua papelaria e livraria já não dá muito certo. Cada vez menos pessoas fazem fotocópias ou compram livros usados. Ele acaba funcionando mais como “consultor” para quem quer comprar um bom livro na internet do que como alguém que realmente vai conseguir vender algo.

Como Klaus percebe que o negócio em que está começa mais a dar prejuízo do que lucro, ele sonha em alugar um galpão enorme onde poderá colocar uma livraria e realocar outros espaços para uso cultural. Irene, que além de cuidar dos filhos, vende lençóis e outros produtos para reforçar o orçamento doméstico, teme que aquela investida será catastrófica. E assim, Klaus larga essa ideia e sonha em investir em um restaurante em um ponto turístico da cidade que ainda precisa ser “revitalizado” pela prefeitura.

E assim, de maneira suave e envolvente, o roteiro de Benzinho nos apresenta essa característica do “sempre vamos dar um jeito” que o brasileiro parece ter desde nascença. Por aqui, temos menos oportunidades de desenvolvimento individual e coletivo do que em outros países. Mas isso não nos tira a esperança e a crença de dias melhores. Para mim, essa característica sempre foi uma das mais fascinantes do brasileiro. Assim como a nossa capacidade de sermos amorosos e cuidadosos, quando assim desejamos. E tudo isso está bem plasmado em Benzinho.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). No fim das contas, nada dá muito certo para Irene e Klaus. Para realizar o seu último sonho, de investir em um restaurante naquele ponto turístico, Klaus precisava vender a casa deles na praia. Mas o negócio não sai como eles esperavam. Irene, por sua vez, não dá bronca no marido, mas o consola e afirma que eles vão dar um jeito. Como Klaus mesmo disse para o filho mais velho, Fernando (Kostantinos Sarris), “tudo dá certo para a gente no final”. Essa é a esperança sem fim do brasileiro.

Mas Benzinho não trata apenas disso. O filme é muito mais profundo. Ele trata sobre este “modus operandi” de sempre dar um jeito nas coisas do brasileiro, assim como a esperança sem fim de quem vive na terra brasilis, mas ele não ignora o tom amargo da falta de perspectivas e de oportunidades. Esses são temas presentes durante toda a produção. E aí entra em cena a história de Fernando, um jovem que encara na sua ida para jogar handebol na Alemanha a “chance da sua vida”. E por que será?

O personagem do Fernando é bastante sintomático em Benzinho. E muito interessante – possivelmente o personagem mais interessante da história, junto com a personagem de Irene. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Amoroso, próximo dos irmão mais novos e dos pais, Fernando simboliza o jovem brasileiro cansado de uma sociedade sem muitas perspectivas. Assim, quando surge uma oportunidade fora do país, ele não só não pensa duas vezes em ir como é enfático em dizer para a mãe que não pretende voltar.

Esse é o outro lado de uma mesma moeda. Ao mesmo tempo que temos em cena Irene, uma mulher que nunca teve muita oportunidade de estudar, mas que se sente realizada por terminar o ensino médio já quase na meia idade, temos também a Fernando, um jovem que admira o esforço dos pais e ama a sua família, mas que não pensa em se limitar por causa das condições de uma vida com menos oportunidades e barreiras.

Poucos vão conseguir ser um “ponto fora da curva”, para usar uma expressão que se popularizou e que tem como base a questão estatística. Ou seja, a maioria será mediana, terá uma vida comum. Sonhará, em alguns momentos, mas terá que lidar, na maior parte do tempo, com as limitações da realidade. Fernando, ao perceber uma oportunidade fora do país, está tentando ser esse “ponto fora da curva”.

Com isso ele não está negando as origens, ou sendo ingrato com o que recebeu, mas ele quer mais para si do que ter como grande prazer da semana – ou do mês – assistir a um desfile de uma banda marcial. Essa cena, aliás, achei genial. Como tantas outras interessantíssimas de Benzinho. A cena do desfile, em que Irene estampa com perfeição a felicidade e a tristeza em seu rosto – felicidade e tristeza pela “separação” familiar e por tantas outras razões plasmadas por essa produção e ditas ou não nesta crítica -, me fez lembrar de uma música.

Vez ou outra, o meu pai me fazia lembrar de Ouro de Tolo, lançado por Raul Seixas no longínquo 1973. O trecho que o meu pai gosta de citar diz: “(…) Eu devia estar feliz pelo Senhor ter me concedido o domingo/ Pra ir com a família no jardim zoológico dar pipocas aos macacos/ Ah, mas que sujeito chato sou eu que não acha nada engraçado/ Macaco, praia, carro, jornal, tobogã, eu acho tudo isso um saco”.

O final de Benzinho me fez lembrar dessa música e desse trecho porque, para mim, muitas vezes o brasileiro – e não apenas nós, devo dizer – parece ser resumido nessa cena. Seja a do zoológico, seja a desfile de Benzinho. Trabalhamos tanto, corremos tanto, procuramos fazer o melhor e não perder a esperança mas, no final das contas, estamos mesmo fazendo o que queremos e sendo quem desejamos?

Alcançamos e desenvolvemos o nosso maior potencial ou ficamos apenas com parte do caminho e os seus prêmios (como o amor transbordante da família de Irene)? O melhor que Irene e Cia. podem desejar é um final de semana na praia e um desfile de banda marcial para acompanhar? Ou está certo o Fernando, que vai levar tudo isso na memória mas que vai procurar desenvolver-se ao máximo em uma sociedade com economia e sociedade mais desenvolvidas?

Um dos acertos de Benzinho é que eles nos apresenta muita verdade, muitos sentimentos e muita beleza, assim como muitos questionamentos sem que, para tudo isso, sejam precisos discursos. Benzinho funciona tão bem porque alia um ótimo roteiro e um elenco excelente com uma direção cuidadosa, que apresenta muita sensibilidade, sutileza e beleza em diversos planos de câmera.

Belíssimo, gostoso, saboroso e um pouco amargo, Benzinho enaltece as pessoas simples e a “alma nacional”. Valoriza estes elementos para a gente ver eles com orgulho, mas também pensando em como podemos avançar para que melhoremos o que temos por aí. Além da história de Irene e de Klaus com os seus filhos, esse filme tem a personagem de Sônia (Adriana Esteves), irmã de Irene e agredida pelo marido, Alan (César Troncoso), como uma espécie de lembrete de que a realidade das famílias não é feita só de dedicação, amor e cuidado.

Sônia e Alan estão no filme para nos lembrar das fragilidades dos laços amorosos e da desgraça bastante presente na vida de tantas famílias que é a dependência química e o abuso contra as mulheres. Apesar de não ser um tema central nessa produção, o roteiro de Gustavo Pizzi e Karine Teles está atento para essa questão e a trata com bastante sensibilidade e sem julgamentos. Mais um indicativo de que este filme está sim acima da média.

Para finalizar, preciso comentar uma parte desta produção que eu achei bastante simbólica. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Logo no início da produção, ao tentar sair de casa rapidamente para não perder o jogo do filho mais velho, Irene percebe que não vai conseguir abrir a porta da frente da casa e, de forma provisória, ela providencia uma saída pela janela da frente com a ajuda de uma escada.

O que eu achei bastante simbólico, nessa cena de Benzinho, é que o que era para ser provisório acaba sendo definitivo. Desde o início do filme e até o final – quando a família está procurando terminar a casa nova que ficou por muito tempo com a obra paralisada -, ninguém é capaz de resolver o problema da porta. Seja trocando a fechadura ou a porta mesmo… A solução da família é continuar a entrar e sair da casa pela janela.

Esse, para mim, é um dos aspectos mais interessantes e fortes dessa história. A forma de entrar e sair da casa simboliza a característica do “improviso” que parece nos definir enquanto povo, muitas vezes. Impossível para um alemão, apenas para simbolizar o “modus operandi” do povo no qual Fernando pretende ser inserido, imaginar o seu dia a dia daquela forma.

Ok, na hora de sair rapidamente de casa, um alemão até poderia adotar a alternativa da escada na janela. Mas, logo que possível, ele resolveria definitivamente o problema da porta. Mas isso nem sempre é feito pelo brasileiro, que acha que aquele problema pode ser contornado e não enfrentado. Isso é bastante simbólico, vocês não acham? Essas e tantas outras sutilezas fazem deste Benzinho um filme muito especial. Assistam.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vou dizer para vocês. Fiquei muito tempo pensando sobre a nota que eu deveria dar para este filme. Até perto de concluir a crítica acima, eu ainda estava em dúvidas. Mas ao comentar sobre uma das grandes “sacadas” desta produção, percebi que o filme realmente é incrível. Logo depois que eu assisti a Benzinho no cinema, pensei se ele não mereceria um 10.

Quando comecei essa crítica, eu estava na faixa do 9,7… mas ao concluir o texto, percebi mesmo que ele merece a nota máxima. Não vi defeitos nessa produção, apenas diversas sacadas bacanas, muita sensibilidade, visão crítica e beleza. Então por que não dar uma nota 10 para uma produção nacional? Posso estar exagerando na nota, eu sei. Por isso deixo a critério de vocês se eu exagerei ou não. 😉

Gostei muito do roteiro de Gustavo Pizzi e Karine Teles. A narrativa de Benzinho transcorre de modo envolvente, com muita sensibilidade e com atenção a cada personagem. Claro que o filme é bastante focado na protagonista, Irene, brilhantemente interpretada por Karine Teles. Mas outros atores também fazem um grande trabalho, com destaque para Otávio Müller, Konstantinos Sarris, Adriana Esteves, César Troncoso e os garotos que interpretam os filhos mais novos dos protagonistas, Arthur Teles Pizzi, Francisco Teles Pizzi e, acredito, Luan Teles. Por que comento esse “acredito” aqui? Porque não ficou claro para mim quem é o ator que interpreta ao segundo filho mais velho do casal. Achei o trabalho dele muito bom, assim como dos outros garotos, mas não achei fácil o seu nome nos créditos.

A escolha e a condução do elenco é outro ponto forte de Benzinho. A história não funcionaria tão bem se ela não tivesse atores tão inspirados em cena. Mérito dos produtores e do diretor Gustavo Pizzi, sem dúvida, assim como de cada ator envolvido no projeto. Além dos nomes já citados, vale comentar o trabalho de Camilo Pellegrini como Ligia, uma transsexual que é amiga Irene e de Sônia; Mateus Solano como Paçoca, o técnico estressado do time de handebol “abandonado” por Fernando; e de Vicente Demori como Thiago, filho de Sônia e de Alan. Tenho dúvida também se não estou trocando os nomes de Vicente Demori e de Luan Teles. Se estiver, alguém me corrija. 😉

Alguns outros elementos técnicos fazem de Benzinho um filme diferenciado. Destaque, em especial, para a direção de fotografia especial e belíssima de Pedro Faerstein. Também merecem aplausos a trilha sonora de Maximiliano Silveira; a edição perfeita e cirúrgica de Lívia Serpa; a direção de arte de Dina Salem Levy; os figurinos perfeitos de Diana Leste; a maquiagem de Virginia Silva; e o departamento de arte de Carla Mendes.

Benzinho estreou no Festival de Cinema de Sundance em janeiro de 2018. Depois, o filme participou, ainda, de outros nove festivais de cinema – alguns bastante interessantes, como os festivais de Roterdã, Málaga e San Francisco.

A produção foi um dos destaques do Festival de Cinema de Gramado, onde venceu nas categorias de Melhor Filme segundo a escolha do público; Melhor Filme na votação dos críticos; Melhor Atriz para Karine Teles e Melhor Atriz Coadjuvante para Adriana Esteves. Além destes prêmios recebidos no Brasil, Benzinho ganhou em duas categorias no Festival de Cinema Espanhol de Málaga: Melhor Filme Iberoamericano e Prêmio Especial da Crítica para Gustavo Pizzi.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para Benzinho, enquanto que os críticos que tem os seus textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram 14 críticas positivas e uma negativa para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,6. Achei ambas as notas bastante boas se levarmos em conta os padrões dos dois sites. O site Metacritic ostenta um “metascore” de 81 para Benzinho, fruto de cinco críticas positivas.

Agora, uma curiosidade sobre esta produção. Não sei vocês, mas eu fiquei por um bom tempo tentando “descobrir” aonde Benzinho foi rodado. Depois de assistir à produção é que eu tive certeza. O filme foi rodado nas cidades de Petrópolis e de Araruama, ambas no interior do Estado do Rio de Janeiro.

Benzinho é um dos filmes brasileiros que disputa a indicação do Brasil no próximo Oscar. Ainda que eu não tenha visto a mais nenhum filme nacional dessa safra – pretendo fazer isso hoje, buscando no cinema a um outro filme elogiado nesse ano -, devo dizer que a minha torcida já é para Benzinho. Para mim, esse é um dos melhores filmes nacionais que eu já vi e, sem dúvida, ele não deixa a dever nada para filmes franceses ou de outras latitudes. Acho que teríamos alguma chance de emplacar no próximo Oscar – a depender da safra dos outros países – com ele. Veremos.

Benzinho é uma coprodução do Brasil com o Uruguai e a Alemanha. Por causa do primeiro e do terceiro país desta lista, o filme atende à votações feitas aqui no blog – quando vocês me pediram mais críticas de filmes do Brasil e da Alemanha. Por isso, ele passará a figurar nessa categoria de filmes (também).

CONCLUSÃO: Um filme maravilhoso, para dizer o mínimo. Destes que fazem você se deliciar e refletir durante a exibição e além, muito além de quando os créditos terminam. Como comentei antes, Benzinho é um dos filmes que eu vi que mais falam sobre a alma brasileira. Mostra com perfeição a esperança e a perseverança das pessoas comuns, assim como as suas frustrações e o seus desejos de conseguirem ir adiante, mesmo com as perspectivas contra. Trata de amor, de cuidado, afeto e de batalha. De tudo isso que as “vidas comuns” estão cheias, mas que poucos param para observar. Benzinho é lindo, profundo e revelador. Um dos grandes filmes nacionais que eu já vi.