Francisco, El Padre Jorge – Papa Francisco, Conquistando Corações

Um Papa amado por multidões e respeitado por pessoas de diferentes religiões. Francisco, El Padre Jorge conta um pouco da história do Papa Francisco, que é o líder máximo da Igreja Católica desde 2013. O filme tem uma boa narrativa, um roteiro que vai e volta no tempo algumas vezes e que procura aproximar a narradora da história e o espectador do Sumo Pontífice. O único problema da produção é que ela apresenta poucas novidades. Quem é católico e que buscou saber ao menos um pouco além do básico sobre o Papa Francisco, não será surpreendido.

A HISTÓRIA: Cenas de Buenos Aires. O dia está nascendo e ouvimos a uma música típica da Argentina. O ano é 2013, e a jornalista Ana (Silvia Abascal) chama a filha Eva (Naia Guz Sanchez) para a responsabilidade que elas tem na cidade. A menina quer ir para o zoológico, mas a mãe dela explica que antes da diversão vem o dever. Ana e Eva embarcam na excursão para turistas que apresenta a Buenos Aires do padre Jorge Mario Bergoglio, nomeado o 266º Papa da Igreja Católica em março daquele ano. Nesta história descobrimos um pouco sobre ele e também sobre a relação da jornalista Ana com o padre Jorge Bergoglio.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Francisco, El Padre Jorge): O Papa Francisco conseguiu encantar católicos e pessoas de diferentes religiões desde o início de seu pontificado. Mas também foi alvo de vários ataques e de algumas polêmicas. Esta produção dirigida pelo espanhol radicado na Argentina Beda Docampo Feijóo ajuda a explicar um pouco da trajetória do primeiro padre latino-americano a se tornar Papa e das razões que fazem ele ser combatido por algumas correntes da própria Igreja.

O roteiro escrito por Beda Docampo Feijóo com colaboração de César Gómez Copello e tendo o livro de Elisabeta Pique como fonte é bastante franco sobre a trajetória de Bergoglio na Argentina e algumas de suas principais bandeiras antes e depois de se tornar Papa. Com trajetória ligada à periferia e com defesa franca dos pobres, Bergoglio denunciava a corrupção e a hipocrisia em Buenos Aires. No fundo, denunciava estas práticas em qualquer parte.

Chama a atenção no filme a parte em que ele conta a trajetória de Jorge antes dele se tornar padre. Para mim, esta foi a parte mais “nova” da produção. Eu não sabia, por exemplo, que a avó dele tinha sido uma fonte de inspiração do jovem quando ele estava para decidir o que faria da vida. Foi ela que lhe presentou com um livro sobre São Francisco de Assis – santo que, sem dúvida, foi e é uma grande influência para o pontífice.

Interessante os trechos do filme em que vemos a um jovem Bergoglio cercado da família e de amigos e que foi capaz de ficar encantado por uma garota que, como ele, amava a literatura. Desde jovem, o atual Papa Francisco era um devorador de livros. Este conhecimento dele, assim como a forma com que ele mergulhava na interação com as pessoas comuns e de todos os tipos, fez com que ele se tornasse muito, muito humano. Capaz de consolar, de interagir com qualquer pessoa de qualquer idade, de escutar e de citar ótimas referências – inclusive literárias.

A trajetória de Jorge Bergoglio fez com que ele entendesse o Evangelho e o exemplo de Jesus Cristo como grandes exemplos de amor e de inclusão. Perto de se aposentar, ele acabou se tornando Papa, algo que ele não desejava, realmente. Mas ele aceitou, porque sabe que Deus escreve certo por linhas tortas e que a vontade dele deve sempre se curvar frente à vontade de Deus. Algo interessante neste filme também são os “bastidores” do Conclave. Para mim, também uma parte diferenciada da produção.

Interessante como Jorge Bergoglio “bateu na trave” quando da eleição do alemão Joseph Aloisius Ratzinger, que se tornou o Papa Bento XVI. Diferente do que os vaticanistas pregavam, não era exatamente uma surpresa o “independente” e um tanto “revolucionário” Bergoglio ser eleito Papa. Ainda que a corrente progressista da Igreja tenha vencido na eleição dele, a corrente mais conservadora não dormiu no ponto e tem se posicionado contra algumas declarações do Papa Francisco.

O filme apenas toca neste tema. A preocupação de Francisco, El Padre Jorge certamente não era polemizar ou adentrar realmente nos bastidores da Igreja Católica, formada por diferentes correntes. A produção deseja mais ser uma introdução sobre a história por trás do atual Papa, esboçando através de um roteiro cheio de idas e vindas no tempo e no espaço, um rápido painel sobre as influências e a trajetória que ele fez antes de assumir a liderança da Igreja Católica.

Para muitos católicos bem informados que conhecem um pouco mais do que o básico sobre o Papa Francisco, este filme será bastante previsível. Para os que são bem informados, mas que não leram o livro de Elisabetta Pique ou outras obras sobre Jorge Bergoglio, talvez parte da produção apresente elementos novos. Eu me enquadro neste segundo grupo. Acho o filme bem feito, com uma proposta bastante clara e que deve agradar, especialmente, as pessoas que sabem pouco sobre o Papa.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O diretor espanhol Beda Docampo Feijóo nasceu apenas na cidade galega de Pontevedra, na Espanha. Quando ele tinha um ano de idade, a sua família se mudou para Buenos Aires. Foi lá que ele fez a carreira como diretor e roteirista, tendo 14 títulos no currículo pela primeira função e 20 na segunda. O filme mais conhecido dele é El Marido Perfecto, de 1993, estrelado por Tim Roth.

O roteiro de Francisco, El Padre Jorge é um bocado fragmentado, mas bem escrito. Tanto que o espectador não fica perdido na história. A produção tem um ritmo bom e não deixa o interesse do público cair, mesmo entre aqueles que já conhecem boa parte da história narrada. eu só não achei a produção melhor porque ela poderia ter um pouco mais de “tempero” e de detalhes menos conhecidos da vida do biografado.

O elenco está bem, ainda que eu tenha sentido falta de um ator que se “enquadrasse” mais no perfil do Papa Francisco. Darío Grandinetti é um grande ator, com bastante experiência, mas é impossível vê-lo na telona e não ficar pensando que outros atores poderiam ter se enquadrado mais no perfil do Papa. Mas, descontada a diferença grande física e de idade, dá para acreditar no trabalho de Grandinetti. Do elenco, o destaque acaba sendo Silvia Abascal, que interpreta uma Ana bastante verossímil e humana.

Do elenco, vale ainda elogiar o bom trabalho de Lucas Armas Estevarena, que interpreta Jorge Bergoglio quando ele tinha 13 anos; para Gabriel Gallicchio, que interpreta o jovem Bergoglio; Mariano Bertolini como o padre Pepe; Rubén Darío Figueredo como Ernesto, padre que deixou o sacerdócio e que contou para a protagonista sobre a defesa que Bergoglio fez de padres durante a ditadura no país; para María Ibarreta, que interpreta Patricia, mãe de Ana; e para Leonor Manso, que interpreta a avó de Bergoglio, Rosa.

Da parte técnica do filme, gostei da direção de fotografia de Kiko de la Rica, que valoriza muito bem a cidade de Buenos Aires, em especial, mas também Roma e Madri; a edição bem feita de Cristina Pastor; e os figurinos de Natacha Fernández e Marcela Vilariño.

Francisco, El Padre Jorge foi indicado a três prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas da Argentina em 2015, mas não recebeu nenhum deles.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,8 para esta produção. O site Rotten Tomatoes não tem críticas para o filme.

Este filme é uma coprodução da Espanha, da Argentina e da Itália.

Faz umas duas semanas que eu assisti a este filme no cinema. Agora eu quero me lançar neste fim de semana novamente em uma sala escura para ver a novos filmes e comentá-los por aqui. Aguardem e confiem. 😉

CONCLUSÃO: O Papa Francisco tem uma jornada que é coerente com o que ele acredita ser o centro do Evangelho. Pelo seu forte contato com o povo e os menos favorecidos, desde quando ele morava em Buenos Aires, é que os católicos tem um pontífice que acredita na inclusão e no amor ao próximo e à Deus acima de tudo. Ele defende o amor entre todos, como Jesus ensinou há mais de 2 mil anos. Francisco – El Padre Jorge nos mostra parte da formação, do contexto familiar e da caminhada dele até que ele se tornasse Papa. É um filme bem feito, mas que acrescenta pouco para quem já conhece a história do Papa Francisco. A parte boa é que a essência da sua história está na produção e pode servir como introdução para os menos informados.

Silence – Silêncio

Até hoje impressiona como ser cristão incomoda a tanta gente. Por que tantas pessoas se sentem “ofendidas” e muitas delas inclusive perseguem quem afirma de forma convicta que acredita em Deus e em Jesus Cristo? Para mim, esse é sempre um ponto de admiração. Mas tudo isso está previsto na Bíblia. Realmente os cristãos tem a sina de “incomodarem” e serem perseguidos. Quem persegue um cristão é que deveria se pergunta o porquê. Silence é um filme magistral, forte, e que trata de forma franca justamente um de tantos casos de perseguição de cristãos. Angustiante. De arrepiar.

A HISTÓRIA: Em uma montanha cheia de piscinas termais, alguns japoneses esperam pelos seus prisioneiros. O grupo chega escoltado. Um dos padres recebe água fervendo no rosto. Como resposta, ele reza. Na sequência, os padres são castigados com conchas que espirram a água fervente em seus corpos. Assistindo a tudo isso, o padre Ferreira (Liam Neeson), considerado um dos nomes mais importantes da evangelização no Japão. Ele mesmo narra o que está acontecendo em uma carta, datada de 1633, no qual ele diz que a profissão de fé dos colegas lhe enche de força.

Quem lê a carta é o padre Valignano (Ciarán Hinds) para os ex-alunos de Ferreira, o padre Rodrigues (Andrew Garfield) e o padre Garupe (Adam Driver). Ele insiste que o comerciante holandês que lhe entregou esta carta depois de um longo período dela ter se perdido garantiu que Ferreira renunciou a sua fé. Os ex-alunos dele se recusam a acreditar nesta versão e insistem em ir para o Japão para saber o que realmente aconteceu. Esta é a história deles e das pessoas que eles encontram no caminho.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Silence): A primeira cena deste filme me fez lembrar imediatamente de Akira Kurosawa. Aqueles homens caminhando em meio à neblina e/ou fumaça resgataram na minha memória o estilo do diretor japonês. Esta produção, como tantas outras, será sentida de forma diferente dependendo do background do espectador.

Se você é cristão, como eu, e conhece bem a vida e o exemplo de Jesus Cristo, se você acredita que Ele é o caminho, a verdade e a vida, Silence terá um efeito sobre você. Se você professa outra fé ou não tem fé alguma, certamente o efeito será outro. Como cristã, achei este filme marcante. Muito duro, muito denso, sem nenhuma razão para riso ou para a “leveza” que normalmente se encontra em um entretenimento.

Sim, Silence é cinema. E, para muitos, cinema é entretenimento. Eu entendo. Muitos filmes realmente são apenas isso, uma forma de entreter as pessoas e fazerem elas saírem de seu dia a dia comum e ordinário e viver outro tipo de sensação. Mas outros filmes estão além da linha do entretenimento e figuram na lista de obras de arte. Destas que nos fazem pensar não somente sobre o que o artista quer nos dizer, mas especialmente sobre nós mesmos e os outros, o que nos cerca.

Silence está nesta categoria. Respeito, mas não entendo os risinhos que eu ouvi no cinema ao assistir ao filme – por estas e por outros que, muitas vezes, prefiro ver um filme sozinha e não no cinema. Mas ok, temos que entender o diferente e que nem todos pensam ou agem como a gente. Ir no cinema é parte deste aprendizado.

Silence me tocou fundo porque eu sei que aquela história apresentada pelo filme não é uma coisa do passado. Hoje, quatro séculos depois do que Silence nos apresenta, muitos cristãos continuam sendo mortos todos os anos em diferentes partes do mundo simplesmente porque eles professam esta fé. Mas nenhum deles morre sozinho, ou em vão. Nenhum mártir morre em vão, como bem argumentou o padre Rodrigues (o ótimo Andrew Garfield).

Claro que o entendimento disto depende de fé. E diferente do que o próprio Rodrigues questiona, não é com a compreensão falha e limitada humana que vamos entender. Ele questiona, no filme, porque Deus permite que tantos morram em nome Dele. Ora, não é Deus que está matando aquelas pessoas. Quem é cristão sabe que um dos maiores presentes que Deus nos deu foi justamente o poder da escolha. Sendo assim, na mesma medida em que um cristão escolhe acreditar, o seu algoz pode escolher matá-lo. Sempre são escolhas individuais.

Enfim, este papo é longo e o blog não se presta a discutir religião. Mas o que eu posso dizer é que este é um grande filme sobre fé e sobre escolhas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Tentado por Ferreira (Liam Neeson), seu antigo professor e exemplo, Rodrigues acaba cedendo e “renunciando” a própria fé para, aparentemente, salvar cinco vidas. Mas o que significa salvar alguém?

Para quem tem fé e realmente é cristão a morte física não representa absolutamente nada. Ou melhor, representa o fim da vida terrena e o início da vida eterna. Então nenhum dos padres que renunciou ao cristianismo estava, na verdade, salvando ninguém. Quem realmente salva, no sentido amplo e pleno desta palavra, é apenas Deus. Este foi o maior erro de Rodrigues. Acreditar na cantilena de Ferreira de que ele estava salvando ou condenando os cristãos que não renunciavam à sua fé.

Ora, cada cristão que decidia manter a sua fé e não renunciar à Deus ou à Cristo era executado não por causa de um ou de outro padre, mas em nome da fé e da convicção que eles tinham sobre ela. Em última instância, estavam morrendo em nome de Deus. Ninguém mais. Quando as pessoas se acham mais importante do que Deus é quando elas começam a sucumbir e perdem a firmeza dos mártires.

Claro que ao afirmar isso eu não estou condenando Ferreira ou Rodrigues. Se ninguém pode ser salvo se não por Deus, ninguém também pode ser condenado se não por Ele. E Deus é tão paciente, tão amoroso, que Ele parece nunca se cansar de nos dar chances de aprender, de acertar e de melhorar. A exemplo de Kichijiro (Yôsuke Kubozuka), que repetidas vezes renunciou a Deus para salvar a própria vida, mas que depois se arrependia e pedia perdão, qualquer pessoa pode ser salva por Deus se realmente estiver arrependida. É isso o que um cristão aprende.

Uma das maiores “fraquezas” humanas é a nossa vontade de viver o máximo possível. Por isso mesmo, no diálogo entre Rodrigues e Jesus, pouco antes dele renunciar à própria fé, Rodrigues acredita que Jesus lhe absolveu porque ele entendia a fraqueza humana. Por isso Ele teria se feito homem, justamente. Então, a priori, é possível sim perdoar a quem blasfemou contra Deus e renunciou a fé Nele, porque esta pessoa não conseguiria ver além da própria vida e sacrificá-la para defender a sua fé.

Claro que foram mais fortes todos os cristãos que aparecem no filme, assim como o padre Garupe (Adam Driver), que jamais renunciaram de sua fé. Eles tinham a convicção sobre o que lhes esperaria após a vida. Eles tinham a calma e a certeza de que ressuscitariam em Cristo. Mas não dá para condenar aos que foram fracos e que cederam a uma das maiores dificuldades do ser humano, que é a de aceitar a própria morte.

Agora, sou obrigada a dizer: quando Ferreira, parecendo o próprio Diabo que tentou Cristo, fala para Rodrigues que ele deveria agir como Jesus, e que Ele, naquela posição, também negaria a Deus para salvar um grupo de pessoas, ele estava cometendo a maior blasfêmia que eu já ouvi na vida. Evidentemente que nunca, sob circunstância alguma, Jesus negaria o próprio Pai. Ele não fez isso quando esteve aqui, não faria isso agora.

Enfim. O filme é muito interessante, faz pensar e, principalmente, mexe com o coração de quem compartilha com tantos mártires daquele tempo e de todos os tempos – inclusive hoje – a mesma fé. Acredito que seremos uma civilização razoavelmente evoluída quando respeitarmos todas as crenças e não matarmos mais ninguém porque a pessoa tem uma fé diferente da nossa – ou fé alguma.

Eu só não dei a nota máxima para esta produção porque me incomodou um pouco o argumento final de Ferreira para convencer Rodrigues, esse em que ele cita Jesus, e também porque eu esperava mais de Rodrigues. Claro que a História é a História e os fatos são os fatos, mas eu fiquei especialmente decepcionada com Ferreira. Ele poderia ter renunciado ao que ele quisesse, mas não precisava ter feito isso com Rodrigues. Ainda que, e isso fica evidente no final do filme, Rodrigues nunca renunciou a sua fé de verdade. Muitas vezes é no silêncio que manifestamos a nossa fé. Não em palavras, mas no nosso coração e no silêncio. Belo filme.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esta produção tem vários grandes momentos. Mas um dos melhores, para mim, foi quando Rodrigues finalmente encontra Ferreira. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). O jovem padre está cheio de razão em cada resposta e questionamento que ele faz para o ex-professor e ex-padre. Gostei, em especial, quando ele diz com todas as letras que ele, ao renunciar ao cristianismo e à Deus, não estava sendo nobre e nem salvando ninguém, mas estava apenas salvando a sim mesmo. Esta era a grande questão. Os padres que renunciaram às suas crenças estavam apenas salvando a própria pele – prova disso é que os fieis que se mantiveram firme na fé continuaram sendo mortos, ou seja, nenhum deles foi salvo por eles terem abdicado da promessa que fizeram.

Este é um filme longo, mas ele tem as suas razões para isso. O diretor Martin Scorsese, que também escreveu o roteiro junto com Jay Cocks, não teve pressa em contar essa história. Pelo contrário. Ele quis explorar cada detalhe da missão dos padres Rodrigues e Garupe desde que eles foram para o Japão em 1640. A história é linear, partindo da carta/relato de Ferreira antes dos jovens padres irem atrás dele e terminando apenas quando a história deles é concluída.

O foco do roteiro na figura de Rodrigues foi muito acertada. Ele é, praticamente, o narrador do filme. Vemos tudo sob a ótica dele, o que humaniza a história e mostra, sob a perspectiva dele, tudo o que aconteceu. É um filme lento, no melhor estilo dos clássicos do cinema japonês – não por acaso me lembrei de Akira Kurosawa no início. Assim, Scorsese respeita a cultura na qual esta história submerge. O diretor faz um grande trabalho aqui, e diferente de quase tudo que ele apresentou até então. Realmente interessante.

O roteiro de Scorsese e de Cocks é baseado no livro de Shûsaku Endô.

Todos os atores desta produção estão muito bem, mas diferente do que o cartaz da produção pode sugerir, o protagonista de Silence é Andrew Garfield e não Liam Neeson. Gosto muito de Neeson, mas neste filme não tem como não ficarmos com uma certa “raiva” do personagem dele. Claro que isso desaparece com o tempo, mas realmente o papel dele é complicado de ser “engolido”. Garfield, por outro lado, faz um grande trabalho e se consolida, com este filme e com Hacksaw Ridge (comentado aqui) como um dos grandes talentos da nova geração. Merece ser acompanhado, com certeza.

Gostei de todos os detalhes técnicos deste filme. Martin Scorsese faz uma grande direção, seguindo um bocado a escola japonesa, mostrando tanto os locais e as suas particularidades quanto a interpretação dos atores. O roteiro também é competente, sem nenhuma linha sobrar na história. Cada palavra, cada linha, cântico, grito, gemido e cada silêncio tem o seu propósito. Outros destaques são a direção de fotografia de Rodrigo Prieto; a edição de Thelma Schoonmaker; e o design de produção de Dante Ferretti.

Algo que Silence nos mostra também é a humanidade dos padres, freis e sacerdotes. Sim, eles são humanos, suscetíveis a erros, tentações, dúvidas, questionamentos e desespero. Alguns, como Garupe, parecem ter mais convicção e a fé mais clara, enquanto outros, como Rodrigues, estão mais suscetíveis às fraquezas humanas. Isso acontece em todas as partes. Sem dúvida há padres e fieis que tem a sua fé muito clara, são mais firmes nela do que outros. Faz parte. Precisamos entender e deixar que Deus exerça a Sua Misericórdia em relação a quem fraqueja e em relação a nós.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Tadanobu Asano como o intérprete que acompanha Rodrigues por bastante tempo; Issei Ogata como o inquisidor Inoue; Shin’ya Tsukamoto simplesmente ótimo como Mokichi, um dos fieis que recebe os jovens padres e que é o braço direito da liderança local; Yoshi Oida também maravilhoso como Ichizo, o líder da comunidade cristã que os padres encontram logo que chegam; Shi Liang como o comerciante chinês que apresenta os padres para Kichijiro; Miho Harita como Tomi, mulher de Ichizo; Nana Komatsu como Monica/Haru, uma das cristãs que Rodrigues encontra quando está como prisioneiro; Ryo Kase como John/Chokichi, outro fiel desta fase; e Asuka Kurosawa como a “mulher” de Rodrigues. Há muitos outros atores que fazem papéis secundários. Todos estão muito bem e convincentes.

Ainda que a história se passe inteira no Japão, este filme foi praticamente todo rodado em Taiwan. Apenas uma pequena parte foi rodada em Macau, na China – são as imagens do início do filme, em que os jovens padres jesuítas falam com o padre Valignano.

Silence teria custado uma pequena fortuna, cerca de US$ 46,5 milhões. Como a produção não tem, digamos assim, um tema realmente popular, e imagino que também por ela ser “lenta” e um bocado longa, ela conseguiu pouco nas bilheterias. Nos Estados Unidos o filme fez pouco mais de Us$ 7,1 milhões. Pelo andar da carruagem, tem tudo para ser um fracasso nas bilheterias.

Esta produção ganhou seis prêmios e foi indicado a outros 40. Entre os prêmios que recebeu, destaque pelo filme ter sido listado como um dos melhores do ano segundo o AFI Awards e por ter vencido como Melhor Roteiro Adaptado no National Board of Review. Foi indicado ao Oscar de Melhor Fotografia, mas perdeu a estatueta para La La Land.

Silence é uma coprodução dos Estados Unidos, de Taiwan e do México.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 178 críticas positivas e 33 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média 7,5. Os dois níveis de aprovação estão bons para os padrões dos sites.

Como eu comentei antes, até hoje milhares de cristãos são mortos todos os anos por causa da fé que eles professam. Segundo esta matéria da Rádio Vaticano, as estimativas apontam que pelo menos 90 mil cristãos foram mortos pelo mundo em 2016 por causa de sua fé.

CONCLUSÃO: Este filme está para a perseguição de padres e de fiéis que acreditam em Cristo como The Passion of the Christ está para o sofrimento de Jesus. Silence vai fundo na questão da fé, da busca pela verdade e por respostas. Independente do tempo ou do local, sempre existe em maior ou menor medida a perseguição a quem acredita em Cristo. Seja de forma franca, seja de forma velada. Este importante tema é tratado de forma muito interessante pelo diretor Martin Scorsese. Um filme denso, longo, duro, mas que mostra que ninguém pode quebrar a fé de outra pessoa. Mesmo que ela seja obrigada a renunciar sobre o que acredita, é no silêncio que esta fé segue vivendo. Como uma chama bem guardada. Grande filme.

Jackie

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Jackie revela uma Jacqueline Kennedy, posteriormente Jacqueline Onassis, como você nunca viu. Diferente do que alguns poderiam esperar – e eu me incluo neste grupo -, Jackie não conta a trajetória de uma das primeiras-damas dos Estados Unidos mais conhecidas de todos os tempos. Não. Este filme se debruça sobre os fatos que circundaram o assassinato de JFK. Ou, em outras palavras, Jackie é a história do assassinato de JFK e de parte dos sonhos e da vida do casal sob a ótica de Jackie.

A HISTÓRIA: Jackie (Natalie Portman) caminha por um gramado. A câmera está muito próxima dela e registra uma expressão que parece ser a de choro contido. Corta. Em Hyannis Port, na cidade de Massachusetts, em 1963, Jackie acompanha a chegada de um carro na propriedade. Um jornalista (Billy Crudup) desembarca e se apresenta à porta, dando os pêsames para a ex-primeira dama.

Ela logo pergunta se ele tem lido o que outros jornalistas tem escrito. Ele diz que sim, e Jackie demonstra todo o seu descontentamento com a forma com que estão tratando o seu marido morto, John F. Kennedy. O jornalista pergunta como ela gostaria que JFK fosse lembrado, e Jackie afirma que ela vai editar o que ela quiser da conversa. Ele acaba aceitando a condição, e Jackie começa a contar a sua própria versão dos fatos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Jackie): Na seção que eu fui para assistir a Jackie, a maioria dos espectadores era de pessoas com 60 anos de idade ou mais. Um público que vivenciou os anos de JFK e que, provavelmente, como a maioria da audiência mundo afora, admirava a figura da primeira-dama dos Estados Unidos, Jackie Kennedy.

Para este público não foi fácil assistir a Jackie. Na verdade, para qualquer público eu imagino que não seja uma experiência fácil. Eu, que não vivi aquela época do início dos anos 1960 mas que, como quase todo terráqueo, conhece a história de JFK, de seu assassinato, todas as teorias de conspiração envolvendo o fato e, claro, a figura admirada de Jackie Kennedy, achei este um filme difícil.

Especialmente por uma razão: Jackie quebra toda expectativa do público. Esta produção não mostra um Jacqueline Kennedy dócil, serena, simpática. Muito pelo contrário. O filme destrincha toda a complexidade desta figura histórica ao mostrar fatos de sua vida pré e pós o assassinato do marido, incluindo no pacote cenas do fato propriamente dito.

Boa parte do público deve ter procurado Jackie pensando que este filme mostraria a trajetória de Jacqueline Kennedy, talvez até da Jacqueline Onassis. Eu, ao menos, que não gosto de ler sobre os filmes antes e evito assistir aos trailers das produções, achava que eu teria pela frente um interessante retrato sobre a protagonista.

Isso não deixa de ser verdade. Só que o roteirista Noah Oppenheim e o diretor Pablo Larraín fizeram uma escolha diferente. Ao invés de contar a história de Jackie desde antes do casamento com JFK e até depois de sua morte, quando se casou com Aristóteles Onassis, os realizadores resolveram focar em sua personalidade durante o episódio da morte do presidente americano.

A linha narrativa é toda cadenciada pela entrevista que Jackie dá para um jornalista, interpretado por Billy Crudup. Até a sua morte, em 1994, Jackie deu apenas três entrevistas. A primeira, que inspirou o filme Jackie, foi feita realmente poucos dias após a morte de JFK e foi divulgada pouco depois. Nela, Jackie cria o mito de “Camelot” como sendo a inspiração do marido morto.

A segunda entrevista, que Jackie queria que fosse divulgada apenas 50 anos após a sua morte, foi dada para o amigo e historiador Arthur Schlesinger Jr. em 1964 e divulgada no livro “Jacqueline Kennedy – Historic Conversations on Life with John F. Kennedy” em 2011 sob a autorização da filha do casal presidencial, Caroline. A terceira entrevista, reza a lenda, será divulgada apenas em 2067.

Como eu comentava, Jackie tem como linha narrativa a primeira entrevista divulgada com a ex-primeira-dama. A partir da conversa dela com o jornalista a história retrocede e avança na linha temporal, mostrando cenas de Jackie na Casa Branca antes da morte do marido, todos os detalhes dos fatos ocorridos logo após o assassinato de JFK, toda a preocupação da protagonista com o velório e o funeral do marido e questionamentos que ela fez neste período.

É um filme profundo, que disseca Jacqueline Kennedy de uma forma muito interessante e impactante. Natalie Portman dá um show de interpretação tanto nos momentos em que está sozinha em cena, tendo que lidar com a solidão e o luto, quanto nos momentos em que está lutando por colocar o marido e a família dela definitivamente na história dos Estados Unidos.

Mais que uma pessoa elegante, simpática e encantadora, Jackie se revela uma mulher forte, inteligente, perspicaz, afiada nas respostas para o jornalista – em mais de uma ocasião ela o questiona e o deixa constrangido – e, principalmente, uma grande conhecedora da História dos EUA e obstinada por colocar Kennedy e sua família como um capítulo importante desta mesma História.

Este talvez seja o aspecto mais interessante de Jackie. Como o roteiro de Oppenheim e a direção talentosa de Larraín revelam uma primeira-dama extremamente preocupada com o legado do marido e, consequentemente, dela própria para os Estados Unidos. Ela queria ter o controle sobre tudo, especialmente sobre a imagem dela e de JFK.

Jackie era obcecada por Abraham Lincoln, não apenas por ele ter sido um presidente dos EUA que também foi assassinado, a exemplo do marido, mas especialmente pela força da figura de Lincoln na história americana. O filme deixa claro como ela queria que JFK tivesse uma figura tão marcante para a História como tinha sido Lincoln – tanto que ela pede para examinar o cortejo de Lincoln e tentar emular algo parecido para o marido morto.

Mas mesmo antes da morte de JFK Jacqueline queria que a figura do marido e de sua família fosse marcante para a História. Esta preocupação constante com a imagem e o trabalho de Jackie para utilizar a nova “fábrica” de sonhos, manipuladora de “corações e mentes” chamada televisão a seu favor, é algo fascinante neste filme. Nos faz pensar sobre o uso da comunicação de massas, que apenas mudou de plataforma, tirando um pouco da audiência dos meios tradicionais (rádio, jornais, revistas e TV) para jogá-la nos meios digitais, a favor dos interesses próprios.

Jackie foi muito inteligente nesta forma de explorar a comunicação de massas e o poder da imagem. Neste sentido, o filme também é uma maravilha. O diretor chileno Pablo Larraín cuida para construir um filme em que as imagens jogam um papel narrativo fundamental. Ele coloca a câmera sempre próxima dos atores, permitindo que os espectadores escutem as suas conversas “ao pé do ouvido” e, principalmente, foca em cada detalhe da interpretação de Natalie Portman.

A atriz está impecável especialmente porque ela estudou cada detalhe da forma de falar, caminhar e agir da personagem histórica que ela está retratando. A ajudou neste processo, claro, o rico e variado material de imagens com a primeira-dama, incluindo o filme “A Tour of the White House with Mrs. John F. Kennedy” que está disponível neste link no YouTube e que é muito bem explorado por Larraín no filme.

Identificamos Natalie Portman, é claro, mas ela se transfigura de forma tão intensa em Jacqueline Kennedy que, em alguns momentos, parece que estamos vendo a ex-primeira-dama pela frente. É impressionante. Mais um trabalho soberbo desta atriz que, para mim, é uma das melhores de sua geração.

Como duas das três entrevistas com a ex-primeira-dama dos EUA já mostraram, ela era realmente uma mulher forte e inteligente, muito mais do que aquelas imagens históricas controladas por ela revelam. Procurando mais sobre a personagem, descobri que realmente o filme Jackie faz um retrato bastante interessante e próximo da realidade dela.

Ainda assim, como para o público em geral esta imagem mais complexa de Jacqueline Kennedy Onassis não é a mais frequente, muita gente vai se surpreender com este filme. Tanto porque ele desconstrói a imagem tradicional da protagonista quanto porque ele foca em um capítulo bem complicado da história americana. Ainda que a produção tenha algumas pílulas de história além da tragédia, 95% da produção é sobre o assassinato de JFK e sobre os fatos que o sucedem.

Por tudo isso, Jackie não é um filme fácil. Pelo contrário. Ele é um filme triste, tenso, impactante. Ajuda neste processo a trilha sonora igualmente forte Mica Levi. Ela ajuda na narrativa da produção e muitas vezes leva a tensão para outro nível. Jackie, apesar de um ou outro “defeito”, é uma produção muito interessante sobre os bastidores do poder. Ele nos conta uma história de pessoas que ficaram encantadas com o poder e com a imagem que deixariam de legado. São temas até hoje muito, muito atuais.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: No geral, achei as escolhas do roteirista Noah Oppenheim e do diretor Pablo Larraín muito interessantes. Eles conseguem o que desejam, que é apresentar uma outra visão de uma personagem histórica bastante conhecida e impactar com esta narrativa.

Dificilmente alguém vai pensar em Jacqueline Kennedy da mesma forma depois de assistir a Jackie. Eles conseguem uma desconstrução muito interessante da personagem história e a humanizam. Algo importante e inspirador, sem dúvidas.

Ainda assim, eu admito que eu esperava um filme um pouco mais “amplo”, que mostrasse um pouco mais de Jackie antes e depois do fato que é narrado. Eu queria saber mais sobre a sua fase após a viuvez e sobre a sua vida antes de JFK. Esse é um dos fatores para eu ter dado a nota acima para esta produção. Acho que os realizadores poderiam ter ousado um pouco mais na narrativa, poderiam ter fragmentado ela mais e se aprofundado na leitura da personagem para outras épocas de sua vida.

Um outro fator para a nota de Jackie não ser maior é que, apesar do filme desconstruir um bocado a imagem da ex-primeira-dama, ele também ignora uma série de outros fatos da época e que foram comentados por Jacqueline Kennedy nas cartas para o padre – e, talvez, na entrevista com o jornalista.

Por exemplo, ficam de fora do filme todas as infidelidades conjugais de JFK e, possivelmente, de Jackie. Muitos comentam que Onassis já era uma figura presente na vida de Jackie antes dela se tornar viúva e que ela teve um caso um tanto conhecido com William Holden quando ainda era casada com JFK. Nada disso é explorado no filme, o que achei uma escolha um tanto equivocada dos realizadores.

Antes eu comentei que o principal fio condutor da história é a entrevista real que Jacqueline Kennedy deu para um jornalista poucos dias depois da morte de JFK. Ainda que isso seja verdade, é preciso comentar que outro trecho marcante do filme, de conversas da protagonista com um padre (interpretado por John Hurt) são inspiradas em correspondências que a ex-primeira dama teve com um padre irlandês durante 15 anos e que foram leiloadas em 2014. Nestas cartas, ela fala sobre o que sentiu após a morte do marido – incluindo aí uma certa “bronca” com Deus.

Natalie Portman é realmente o nome deste filme. E não teria como ser diferente, já que ela é uma figura praticamente onipresente na história. O filme, afinal de contas, conta os fatos sob a ótica dela. Ainda assim, em algumas cenas ela não está presente. Nestes momentos outros nomes brilham em cena. Achei impressionante a caracterização de época. As pessoas escolhidas para cada papel foram certeiras.

Além da protagonista, que faz um trabalho impecável, estão muito bem em seus papéis Peter Sarsgaard como Bobby Kennedy; Billy Crudup como o jornalista que entrevista a ex-primeira-dama; John Hurt como o padre que conversa com Jackie após o assassinato de JFK; e Caspar Phillipson com uma semelhança assustadora como JFK – ele aparece pouco, mas está muito bem em cada aparição que faz no filme.

Em papéis menores e secundários, mas igualmente bem, estão os atores Greta Gerwig como Nancy Tuckerman, assessora e braço direito de Jackie no período em que ela foi a primeira-dama; Richard E. Grant como Bill Walton, assessor da Casa Branca; John Carroll Lynch como Lyndon B. Johnson; Beth Grant como a nova primeira-dama dos EUA, Bird Johnson; Max Casella como Jack Valenti, assessor de Johnson; e Georgie Glen como Rose Kennedy, mãe de JFK e Bobby. Todos estão muito bem.

O trabalho do diretor Pablo Larraín neste filme é feito com esmero. Em diversas cenas ele mistura cenas de época, reais, com os atores que fazem parte desta produção. O trabalho é interessante e dá outra força para a narrativa. Todos sabemos que estamos vendo personagens reais tendo as suas vidas contadas nesta produção, mas é diferente quando temos esta história imersa em cenas reais. Há diversas sequências impactantes, mas sem dúvida as que envolvem o assassinato em si e a sequência em que Jackie está limpando o sangue do marido no rosto estão no rol de inesquecíveis.

Além do diretor Pablo Larraín, que se credencia como um dos nomes a ser acompanhados no cinema, merecem aplausos nesta produção o trabalho de Mica Levi na trilha sonora; o de Stéphane Fontaine na direção de fotografia primorosa; o de Sebastián Sepúlveda na edição impecável e muito detalhista; o de Madeline Fontaine com os figurinos; o de Jean Rabasse no design de produção; o de Halina Gebarowicz na direção de arte; o de Véronique Melery na decoração de set; o dos 11 profissionais envolvidos no departamento de maquiagem; os 22 profissionais do departamento de arte; os 10 profissionais que fazem um ótimo trabalho no departamento de som; e os 12 profissionais dos efeitos visuais e que propiciam aquela “mescla” entre cenas históricas e as feitas pelo diretor.

Jackie estreou no Festival de Cinema de Veneza em setembro de 2016. Depois o filme teve uma trajetória em 18 festivais pelo mundo – o último deles será o de Belgrado a partir de 3 de março deste ano. Até o momento o filme conquistou 32 prêmios e foi indicado a outros 136 – incluindo a indicação para três Oscar.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os 15 recebidos por Natalie Portman como Melhor Atriz, para os sete recebidos por Mica Levi por Melhor Trilha Sonora e para os dois recebidos por Madeline Fontaine por Melhor Figurino.

Jackie teria custado US$ 9 milhões – um orçamento baixo para os padrões de Hollywood – e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 13 milhões. É uma bilheteria baixa se levarmos em conta a força da figura de Jacqueline Kennedy no país. Chega a ser admirável como o filme não decolou nos EUA.

Talvez o público da época de JFK não tenha gostado da narrativa, um tanto “pesada” para a memória de Jackie, e a história contada pela produção não tenha atraído ao público mais jovem. O que é uma pena, porque é um belo filme, muito bem feito e que com temáticas muito atuais, além de ser uma produção interessante sobre uma época importante dos EUA e do mundo.

Esta produção foi rodada nos Estados Unidos e na França. Entre as locações, destaque para os Studios de Paris, na La Cité du Cinéma; para o Easton Newman Field Airport, em Maryland (cena em que Jackie sai do avião junto com JFK); e em Tred Avon Manor, em Royal Oak, Maryland (casa de Verão da família do presidente); além das cidades de Washington e de Baltimore, nos EUA, e de Paris, na França.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. Jackie foi anunciado como um filme que seria dirigido por Darren Aronofsky e tendo Rachel Weisz como protagonista. Os dois acabaram pulando fora da produção, mas Aronofsky seguiu sendo um dos produtores do filme.

O diretor Pablo Larraín estima que pelo menos um terço do que vemos no filme no corte final foram rodados em apenas um take – o que reforça ainda mais o talento da equipe envolvida.

O jornalista interpretado por Billy Crudup é inspirado em Theodore H. White, jornalista da revista Life que fez uma entrevista com a ex-primeira-dama pouco depois da morte de JFK.

As filmagens foram feitas em um prazo curto para os padrões de Hollywood: duraram 23 dias em Paris e mais 10 dias em Washington e Baltimore.

O diretor Pablo Larraín disse que só faria Jackie se Natalie Portman estrelasse a produção. O produtor Darren Aronofsky concordou que ela era a pessoa ideal para viver Jackie.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 218 críticas positivas e 26 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média 8. A nota do IMDb é boa, mas está entre as mais baixas entre os filmes concorrentes ao Oscar. A nota do Rotten Tomatoes, por outro lado, é bastante boa se levarmos em conta o padrão do site.

Este filme é uma coprodução do Chile, da França e dos Estados Unidos. Por ter os EUA como um de seus países, ele entra para a lista de produções que atendem uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

Há diversos textos interessantes sobre as entrevistas dadas por Jacqueline Kennedy e sobre esta personagem conhecida da história americana. Deixo como sugestões por aqui esta matéria em espanhol do jornal El País; esta outra do El País sobre as cartas de Jackie para o padre irlandês Joseph Leonard; esta matéria da Veja sobre a entrevista de Jackie dada em 1963; esta reportagem do português Jornal de Notícias sobre a segunda entrevista de Jackie; esta coluna de Elio Gaspari em que ele fala das três entrevistas da ex-primeira-dama; e, finalmente, esta matéria da Carta Capital sobre a vida sexual diversificada do casal Kennedy.

CONCLUSÃO: Este filme é impactante. Ele incomoda. Não apenas porque ele mergulha em uma realidade duríssima, mas também porque é um mergulho na cabeça de uma mulher que se habituou a ser fotografada a cada passo. Com uma direção interessante de Pablo Larraín, Jackie tem uma interpretação impressionante de Natalie Portman. Mais uma, aliás.

Em Jackie ela e o diretor conseguem desconstruir boa parte da imagem que temos de Jackie Kennedy. O que não é uma tarefa fácil, mas que é cumprida a risca. É um filme angustiante, até certo ponto, e pode ser uma decepção para quem tem apenas uma imagem positiva da protagonista na lembrança. Não acredito que este filme seja interessante para qualquer pessoa, mas ele tem um propósito muito claro e o realiza muito bem.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Era certo que Jackie teria pelo menos duas indicações ao prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood: Melhor Atriz para Natalie Portman e Melhor Figurino. Além destas indicações mais que esperadas, o filme ainda emplacou uma terceira, a de Melhor Trilha Sonora.

Para mim, a interpretação de Natalie Portman neste filme, que é todo focado nela, é uma peça irretocável. A forma com que a atriz emula a voz, a forma de falar, o jeito de andar, a postura e todos os demais detalhes da ex-primeira-dama americana é algo impressionante. E não é uma tarefa simples, especialmente porque há muito material de comparação – Jackie Kennedy foi uma figura extremamente filmada e fotografada.

Fiquei arrepiada e perplexa de forma positiva com a forma com que Natalie Portman “encarnou” uma personagem tão conhecida. E fazendo algo ainda mais difícil: além de “emular” Jackie Kennedy, ela ainda imprimiu uma dinâmica para a personagem que não vimos em lugar algum. Digo tudo isso para afirmar que, sem dúvidas, ela merecia ganhar o Oscar 2017 mas que, infelizmente, isso não deve acontecer.

Tudo indica que este será o ano de La La Land. E como já comentei na crítica do filme, La La Land é a produção da vida de Emma Stone. No prêmio máximo dos atores, o Screen Actors Guild Awards, Emma Stone foi a vencedora como Melhor Atriz. Então é muito improvável que um resultado diferente ocorra no Oscar.

O bom é que, diferente de outros anos, Natalie Portman perder para Emma Stone não será exatamente uma grande injustiça, até porque Emma Stone está muito bem em La La Land – para mim, ela é um dos pontos fortes do filme que carece de roteiro. Então, apesar de fazer um trabalho mais complexo, Natalie Portman vai perder para alguém que também está bem.

Sobram as outras duas categorias em que Jackie está concorrendo. O filme tem boas chances em Melhor Figurino, mas ele tem pela frente, novamente, o “queridinho do ano” La La Land. Então sim, ele pode perder novamente nesta mesma queda-de-braço. Em Melhor Trilha Sonora ele tem chances muito, muito remotas. O favoritíssimo, e com razões desta vez, é La La Land, seguido de Moonlight.

Então, se as previsões estiverem certas e este ano for confirmado como o ano de La La Land, Jackie deve sair do Oscar 2017 com as mãos vazias. Não será de todo injusto, porque realmente La La Land é um filme muito bem acabado, ainda que lhe falte conteúdo. Jackie é denso, tem conteúdo e tem uma reconstrução de época impressionante, mas não tem a mensagem de celebração de Hollywood que o rival tem e que a indústria do cinema acha tão importante valorizar neste momento político dos Estados Unidos.

Pequeno Segredo – Little Secret

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Um filme sensível, muito bem realizado, tecnicamente, e com um elenco escolhido à dedo. Ouvimos falar muito de Pequeno Segredo, e não foi pelos motivos certos. Até agora o burburinho principal sobre o filme foi gerado pelo fato dele ter “roubado” a vaga de Aquarius como o candidato do Brasil ao Oscar 2017. Pouco se falou sobre as diversas qualidades e um par de defeitos da produção dirigida por David Schürmann. Pois bem, ontem eu assisti à pré-estreia do filme em Florianópolis e é sobre isto que eu quero falar.

A HISTÓRIA: Lentamente o nosso olhar vai deslizando pela imensidão do mar. Depois de um bom tempo, a câmera passa por alguns rochedos até apontar para a terra firme. O dia está cinzento e abriga uma celebração típica na praia. Heloísa Schürmann (Júlia Lemmertz), que faz parte da celebração, está séria, mas parece serena. Em um determinado momento ela segura a mão de Barbara (Fionnula Flanagan). Depois, cumprimenta os celebrantes. Corta. Heloísa e o marido dela, Vilfredo (Marcello Antony), são acordados no barco por Kat (Mariana Goulart), que quer nadar. Os pais cedem aos apelos da menina e Heloísa comenta que muitos temem o mar, mas que ela escolheu viver nele. Agora, com Kat um pouco maior, ela sente que a filha precisa ir para a escola, mas a mãe teme justamente a terra firme.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Pequeno Segredo): As principais qualidades deste filme são apresentadas logo no início, na sequência inicial da produção. A direção bem pensada e com tom claramente hollywoodiano do diretor David Schürmann; a trilha sonora magnífica do melhor compositor brasileiro da atualidade, Antonio Pinto, e a intocável direção de fotografia de Inti Briones.

Mas antes de falar sobre outras características do filme e comentar sobre o que eu achei dele, quero ressaltar que há pelo menos três maneiras de assistir à esta produção. A que eu tentei perseguir por todo o tempo foi a de tentar ver o filme com o olhar de um crítico estrangeiro e/ou votante da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ou seja, tentei ver o filme da forma mais isenta possível, esquecendo inclusive o que eu já sabia sobre a história que ele iria me contar. Para mim, esta é a melhor forma de assistir a Pequeno Segredo.

A segunda forma de ver o filme é um pouco também a maneira com que eu o assisti: de alguém que já sabe boa parte da história. Infelizmente (ou felizmente) por eu ser catarinense eu já conhecia o essencial da história de Kat e da família Schürmann. Quem conhece a história, especialmente após ter lido o livro escrito por Heloísa Schürmann, terá uma leitura totalmente diferente da produção. A minha visão, por mais que eu me esforçasse para assistir ao filme com a primeira ótica, foi um tanto “contaminada” por esta segunda.

A terceira forma de assistir a Pequeno Segredo é ver o filme comparando ele com Aquarius ou com alguma das outras produções que estavam concorrendo à indicação do Brasil para o Oscar. Esta leitura comparativa também terá um efeito muito diferente daquela de quem não assistiu Aquarius ou aos outros concorrentes. Da minha parte, estou nesta turma. Não assisti aos demais filmes brasileiros e, desta forma, pude ver Pequeno Segredo por si só, sem comparações – apenas comparando ele com os filmes estrangeiros que eu já assisti e que estão habilitados a avançar nas listas finais para o prêmio da Academia. Falo um pouco deles logo abaixo.

Depois destas considerações feitas, vamos ao que interessa. Assisti Pequeno Segredo sem maiores preconceitos ou comparações, tentando compreendê-lo como uma obra cinematográfica em si. E a verdade é que me surpreendi positivamente com o filme. Este é o oitavo título no currículo do diretor David Schürmann, incluindo quatro séries para a TV, um documentário, um curta documentários e apenas um longa de ficção – Desaparecidos, que tem a nota 2,3 no IMDb.

Eu estreei assistindo aos filmes do diretor com Pequeno Segredo. Tecnicamente falando, o filme é muito bem feito, com uma direção cuidadosa, atenta aos detalhes e com bastante ritmo de David Schürmann. O diretor sabe muito bem valorizar os detalhes das interpretações de seus atores, destacar detalhes de roupas, gestos e locais e, nos momentos certos, ampliar a visão do público para que ele veja “o quadro completo” e, a exemplo dos pais do diretor, vejam toda a beleza e magnitude da Natureza.

Tudo isso está em Pequeno Segredo. Mas esta não é uma história qualquer. Como o filme bem sinaliza no início, esta produção é baseada em fatos reais. E não de uma história qualquer, mas da própria família do diretor. É preciso saber disso para entender algumas das escolhas dele que, no fim das contas, é o capitão do barco nesta produção. Agora, voltando a falar do filme com os olhos de um “votante da Academia”.

Pequeno Segredo começa muito bem, com belas imagens, cenas bem planejadas, filmadas e que já dão o tom do que veremos na sequência. Após a introdução inicial, o filme se divide em duas narrativas: a que foca o cotidiano de Kat aos 12 anos, estudante do Colégio Catarinense, em Florianópolis, e uma adolescente normal cheia de planos, e a que aborda a relação entre o neozelandês Robert (Erroll Shand) e a brasileira Jeanne (Maria Flor), uma história de amor, encontros e desencontros que se desenvolve no Pará.

Sob a ótica de um “gringo”, este começo do filme é fascinante. Os estrangeiros adoram “mergulhar” na cultura dos países que eles estão assistindo, e Pequeno Segredo consegue apresentar bem o contraste entre Santa Catarina e o Pará. Especialmente a cultura muito típica do Pará deve fascinar o estrangeiro. Contudo, já neste início, duas sequências – a de Robert querendo colocar uma carta nos Correios e, um pouco mais para a frente, a dele correndo pelas ruas da cidade buscando Jeanne – me incomodaram um pouco porque elas me fizeram lembrar Central do Brasil.

Não sei se vocês notaram, mas os roteiristas deste filme são Victor Atherino e Marcos Bernstein. Ligaram o segundo nome à pessoa? Bernstein foi o roteirista de Central do Brasil (junto com João Emanuel Carneiro e Walter Salles). Então as duas cenas citadas me fizeram lembrar muito Central do Brasil. Enfim… Conforme a história de Pequeno Segredo vai se desenrolando, percebemos que o filme busca contar a história sob a ótica de Kat.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, ao mostrar os anseios e o cotidiano da garota na pré-adolescência e, depois, ao contar, em paralelo, a origem da menina ao revelar a história de amor entre os seus pais. Para quem não conhece absolutamente nada da história dos Schürmann, pode ser uma surpresa, mais tarde, descobrir que Robert e Jeanne eram os pais da protagonista. Assim como o descobrir o segredo que cerca a doença da menina. Para quem não tem conhecimento nenhum sobre a história, a primeira dica de que algo estranho está acontecendo é dada quando Heloísa Schürmann tira o rótulo dos remédios (“vitaminas”) que a menina toma.

Sem dúvida alguma o impacto da história será maior para quem a desconhece totalmente. Não era o meu caso. Como a família Schürmann é catarinense, eu conhecia em linhas gerais a história de Kat. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Eu sabia o essencial: que ela tinha sido adotada eu que faleceu jovem como vítima do HIV. Sabendo da história, me chamou muito a atenção a forma delicada com que o roteiro e a direção tratam a trajetória de Kat.

Inicialmente o filme se divide justamente entre a história de uma “pré-adolescente comum” e todos os seus sonhos, “pequenos dramas” e anseios, e a história de amor do gringo Robert e a linda, linda brasileira Jeanne. A escolha dos atores é outro ponto a destacar desta produção. Todos estão ótimos em seus papéis, sem nenhum deles destoando dos demais.

Ainda assim, se destacam os excelentes desempenhos de Maria Flor, Júlia Lemmertz, Mariana Goulart e Fionnula Flanagan – fiquei encantada, especialmente, com as três primeiras. Erroll Shand também está bem, ainda que ele tenha me “desconcentrado” um pouco por me lembrar o personagem principal de Avatar – me desculpem por esse comentário, mas realmente isso me afligiu em vários momentos do filme.

O desenvolvimento de Pequeno Segredo é de um típico filme de Hollywood. Você e eu já assistimos a várias produções do gênero. A história começa “pelo final”, com uma espécie de “pílula” de um momento importante da história, e depois a narrativa é dividida em duas partes que se desenvolvem paralelamente. Até aí, nenhuma novidade. Pequeno Segredo realmente não apresenta nada de muito novo, seja na história, seja na técnica narrativa. Mas é um filme muito bem acabado, com belas cenas, bem conduzido pelo diretor e com um ótimo elenco, além de uma trilha sonora que é um verdadeiro presente para os ouvidos.

O roteiro convence por grande parte do tempo. Mas acho que a história perde força do meio para o final, quando a relação de Kat com a família não é tão desenvolvida quanto poderia e quando, principalmente, a narrativa perde as cores e o caráter típico do Pará para abraçar o menos interessante cenário de Auckland, na Nova Zelândia. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mas o momento em que o roteiro realmente deixou a desejar foi quando Atherino e Bernstein “forçam uma barra” na discussão entre Heloísa e Barbara. Aquele discurso da mãe da protagonista sobre o amor eu achei bem complicado. Poderia ser, a meu ver, melhor escrito.

Mas, no geral, a perspectiva do filme sob a ótica dos sonhos e dos desejos de Kat, valorizando a relação dela com a mãe, em especial, e a história da menina desde a sua origem através da relação de amor entre Robert e Jeanne são acertadas. Só eu senti falta de ver mais da relação de Kat com as demais pessoas da família – os irmãos praticamente não aparecem e o pai, muito pouco -, assim como entender um pouco melhor qual foi a relação dela com os pais biológicos e a avó. Afinal, pelo que dá para entender na “visita” surpresa de Barbara no aniversário de 13 anos de Kat, a avó não era uma desconhecida, mas alguém com quem Kat mantinha uma certa relação.

O roteiro do filme, para mim o único ponto mais fraco da produção, acaba apostando demais na vida comum da pré-adolescente do que em mostrar com profundidade as suas relações familiares. Dá para entender isso sob a perspectiva de que os realizadores talvez quiseram mostrar como uma menina soropositiva (ainda que ela não soubesse disso) pode ter uma vida normal, tendo os mesmos anseios, dúvidas e medos que qualquer menina de sua idade. Quando todos sabem sobre o “segredo” de Kat, o filme abre mão de explorar a fase derradeira da doença para mostrar a menina no auge do seu sonho.

Neste momento, fica claro que Pequeno Segredo é uma homenagem de David Schürmann para a sua irmã – algo que ele torna claro na dedicatória final, quando homenageia também a mãe. Há que se entender isso para compreender as escolhas artísticas do filme. É algo bacana, e honroso. Pensando de forma artística, contudo, teria sido interessante explorar melhor as demais relações da menina e, de alguma forma, mesmo que com imagens de flashbacks de lembranças dela ou da mãe, mostrar mais da vida que Kat levou antes daqueles últimos anos.

A história em si é fabulosa. A doação dos Schürmann, especialmente de Heloísa, para aquela menina, assim como a vida maravilhosa que ela teve sobre a Terra. Senti falta de ver mais desta vida incrível, cheia de aventuras e de conhecimento. Sobre a mensagem do filme, acho que Pequeno Segredo nos faz pensar sobre o quanto a vida é valiosa. Que não importa se vivemos 10 ou 90 anos, desde que esta vida tenha sido plena, com a realização de sonhos e com muito amor recebido e doado. Apenas por estas reflexões e pelo cuidado com que este filme homenageia pessoas especiais, ele merece ser visto. E também receber a nota abaixo.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Pequeno Segredo é um filme tipicamente hollywoodiano. Tanto pela forma com que a história é contada, como pela linguagem adotada pelo diretor. Se o filme tivesse o selo “made in Hollywood”, não seria estranho que ele pudesse ser indicado no Oscar 2017 para categorias como Melhor Trilha Sonora ou Melhor Direção de Fotografia. Mas como ele é um filme brasileiro, dificilmente vai conseguir qualquer indicação. Afinal, Hollywood gosta de premiar Hollywood nas categorias principais do Oscar – mesmo nas técnicas.

O filme de David Schürmann está concorrendo com outras 84 produções de países de todos os continentes a uma das cinco vagas na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2017. O problema é que ele é um bom filme em uma categoria errada. Para aparecer na pré-lista dos nove filmes indicados nesta categoria e, principalmente, para figurar na lista dos cinco finalistas é preciso ter muito mais do que Pequeno Segredo nos apresenta.

A história recente do Oscar demonstra que os votantes da Academia procuram filmes ousados na narrativa ou na técnica. Histórias fortes, surpreendentes, com grandes interpretações ou que apresentem histórias conhecidas mas de forma diferenciada. Isso aconteceu no Oscar 2016, com Saul Fia (comentado aqui), que tratou de um tema conhecido, o Holocausto, mas com uma técnica refinada e diferenciada; em 2015 com Ida (com crítica neste link), que tem um roteiro com uma pegada interessante e diferenciada; em 2014 com La Grande Bellezza (comentado por aqui), um filme interessantíssimo tanto pela técnica quanto pelo roteiro; em 2013 com Amour, um filme excepcional (com crítica neste link), e assim poderíamos seguir comentando mais alguns anos. Todos estes tem em comum uma produção excepcional e grandes acertos de roteiro, direção e em outros elementos das produções.

Na pré-estreia de Pequeno Segredo para a qual eu fui convidada nesta terça-feira, Priscila Beleli, que faz parte da Ocean Films, responsável por esta produção junto com a Schurmann Film Company, comentou que realmente o grande desafio da equipe é fazer os votantes da Academia assistirem a Pequeno Segredo. Ela comentou que a maioria não fica nem sabendo de todos os 85 indicados como Melhor Filme em Língua Estrangeira. Então o primeiro desafio é fazer Pequeno Segredo ser conhecido nos Estados Unidos e, depois, convencer os votantes a conferir a produção.

Para ajudar na divulgação do filme nos Estados Unidos, a Ocean Films e a Schurmann Film Company contrataram uma equipe nos Estados Unidos para promover sessões de divulgação do filme e para providenciar anúncios em jornais e revistas especializadas. Depois de ter pré-estreia no Festival Internacional de Cinema do Rio, Pequeno Segredo teve duas exibições na semana passada em Los Angeles e, nesta segunda-feira, teve pré-estreia em São Paulo. De acordo com Priscila Beleli, o filme foi bem recebido nas sessões em Los Angeles. Os pais do diretor, Heloísa e Vilfredo Schürmann, teriam visto pela primeira vez a produção neste último domingo.

Ainda de acordo com Priscila Beleli, que trabalha com o produtor João Roni, no dia 17 será feita uma sessão de Pequeno Segredo para os votantes do Oscar organizada pela própria Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. No dia 2 de dezembro a assessoria americana contratada pelos produtores do filme fará uma sessão para convidados – a ideia é ter neste encontro votantes da Academia. “A campanha conta com anúncios em revistas especializadas como Variety, The Hollywood Reporter, Los Angeles Times e as mídias digitais The Wrap e Indie Wire”, detalhou.

Nesta “cruzada” da campanha dos produtores de Pequeno Segredo para o Oscar – é tão importante fazer uma boa campanha quanto ter um bom filme para a disputa -, eles contam com o apoio da Ancine, do MRE (Ministério das Relações Exteriores), do Programa Cinema do Brasil/Apex, do Ministério da Cultura e da Embratur. O primeiro objetivo dos realizadores do filme é conseguir fazer com que ele apareça na lista de nove filmes da pré-lista da categoria e que deve ser divulgada em dezembro e também fazer com que o filme emplaque no Globo de Ouro 2017.

Da parte técnica do filme, além dos nomes já destacados, vale citar o bom trabalho do editor Gustavo Giani, o design de produção de Brigitte Broch e o competente trabalho do departamento de arte com 11 profissionais.

Depois de estrear em circuito limitado no Brasil no dia 22 de setembro – a tempo de poder se habilitar para o Oscar -, Pequeno Segredo vai estrear oficialmente no país nesta quinta-feira, dia 10 de novembro. Espero que ele se saia bem nas bilheterias. É uma história que merece ser conhecida, sem dúvidas.

Para mim foi um verdadeiro deleite ver várias imagens da minha querida cidade adotiva, Florianópolis, na telona. Realmente é uma cidade belíssimas. Os outros locais em que o filme foi rodado foi a cidade de Belém, no Pará, e de Auckland, na Nova Zelândia.

Até o momento o filme de David Schürmann não participou de nenhum festival competindo a prêmios e nem ganhou nenhum prêmio da crítica. Veremos que caminho o filme fará a partir de agora.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,4 para a produção. Levando em conta os padrões do site, esta até que é uma boa avaliação. Mas o filme ainda é desconhecido no Exterior. Prova disso é que ele nem aparece na lista de produções do Rotten Tomatoes, site que reúne críticas de diversos países, mas especialmente dos Estados Unidos.

Algumas pessoas podem achar estranho como o ator Marcello Antony praticamente não abre a boca no filme. Realmente o personagem dele acaba tendo um papel bastante secundário. Eu não sou próxima da família Schürmann, mas falando com pessoas que os conhecem bem, me disseram que realmente o pai da família, Vilfredo, é uma pessoa de poucas palavras. Muito diferente da esposa, Heloísa, que falaria bastante. Isso ajuda a explicar, pois, o personagem de Antony.

Este filme entra na lista de produções que atendem a votações aqui no blog porque há tempos atrás vocês pediram mais produções do Brasil por aqui.

CONCLUSÃO: Um filme bem acabado, com uma direção cuidadosa e bem ritmada, Pequeno Segredo tem muito mais qualidades do que defeitos. Algumas de suas qualidades maiores – a trilha sonora soberba, a ótima direção de fotografia e a competente direção geral – estão logo nos primeiros minutos da produção. Apenas o roteiro, que começa muito bem intercalando dois tempos narrativos, poderia ter sido um pouco mais lapidado até a reta final. Ainda assim, está claro que o filme atinge o seu objetivo, que é nos fazer pensar sobre questões importantes da vida e, principalmente, homenagear uma menina que soube viver muito bem a sua vida. Sem dúvida o Brasil está bem representado no Oscar, apesar deste ser um ano muito complicado para um filme como Pequeno Segredo.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Pequeno Segredo não está concorrendo em uma categoria qualquer do prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ele está concorrendo justamente como Melhor Filme em Língua Estrangeira, uma categoria que tem várias particularidades. Pelos motivos que eu comentei anteriormente, a tarefa de Pequeno Segredo de deixar 80 concorrentes de fora da disputa e figurar entre os cinco finalistas desta categoria é bastante improvável, para não dizer impossível.

Um tanto “hollywoodiano” demais para a competitiva e alternativa categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira, Pequeno Segredo deve se esforçar muito para ser visto este ano. A preferência dos votantes da Academia estará para assistir aos favoritos Elle, da França, dirigido pelo sempre interessante Paul Verhoeven e protagonizado pela excelente Isabelle Huppert (adianto por aqui que ele será o meu próximo na fila); Toni Erdmann, da Alemanha, produção que já acumula sete prêmios na temporada pré-Oscar; Neruda, do Chile, dirigido por Pablo Larraín e estrelado por Gabriel García Bernal; The Salesman, do Irã, do sempre talentoso e premiado Asghar Farhadi e que já tem cinco prêmios no currículo por esta produção; e Land of Mine, da Dinamarca, o mais premiado desta temporada, com nada menos que 21 conquistas até agora.

Estes filmes – Elle, Neruda, The Salesman, Toni Erdmann e Land of Mine – são os mais apontados pelas listas de apostas de especialistas que começam a despontar aqui e ali. Apenas com eles, a lista das cinco produções que vão concorrer à estatueta dourada estaria completa. Mas alguns destes filmes pode ficar de fora (como Neruda, por exemplo), o que deixaria a quinta vaga em aberto. O problema é que Pequeno Segredo é ainda bastante desconhecido fora do Brasil e há outros nomes que aparecem na sequência entre os filmes que podem conseguir esta quinta vaga.

São exemplo de concorrentes com chances maiores do que o brasileiro o filme espanhol Julieta, de Pedro Almodóvar, fruto de uma safra menos interessante do diretor espanhol (e comentado aqui); o italiano Fire at Sea, que tem seis prêmios até o momento; e o venezuelano Desde Allá, que pode não ser excepcional, mas tem um roteiro mais forte que Pequeno Segredo (a crítica sobre ele pode ser acessada neste link). Ou seja, Pequeno Segredo corre muito por fora. Só mesmo uma grande campanha pré-Oscar e bastante lobby para fazer o filme aparecer na lista das nove produções que avançam na disputa e que será divulgada em dezembro.

Desde Allá – From Afar – De Longe Te Observo

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Há histórias que são bem complicadas. Olhe você pelo ângulo que você quiser. Desde Allá é uma destas histórias. Um filme interessante ao apostar em dois personagens centrais que não gostam muito de falar – e, consequentemente, sabemos pouco sobre as suas próprias motivações. Quando eles falam, raramente tratam do que realmente interessa. Isso torna a história um bocado aberta e, por isso, suscetível a surpresas. E elas existem. Filme duro e que faz pensar.

A HISTÓRIA: Do alto de um viaduto, Armando (Alfredo Castro) observa o movimento de um ponto de ônibus. Ele desce e se aproxima de várias pessoas, especialmente de um jovem rapaz. O ônibus chega, e Armando pega ele seguindo o rapaz. No ônibus Armando mostra um maço de dinheiros para o jovem. Os dois vão para o apartamento de Armando, que pede para o rapaz ficar de costas e tirar a camisa e abaixar a calça até uma certa altura.

Armando se masturba e vai para dentro da casa enquanto o rapaz pega o dinheiro e vai embora. No trabalho, Armando lapida mais uma prótese e depois ganha bem de um cliente. Em breve ele procurará mais um jovem que poderá visitá-lo em casa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Desde Allá): Gosto de filmes que não são óbvios. Tanto na narrativa quanto na história. Desde Allá é um destes filmes surpreendentes porque, aparentemente, ele é muito singelo. Começa simples, mas vai ficando complicado pouco a pouco. No início, temos um cara de meia idade que paga jovens para que eles sirvam de objeto para o seu desejo.

Inicialmente esta é a leitura fácil do personagem principal desta história. Mas ele vai se mostrando mais complexo com o tempo. Assim como a própria narrativa vai ficando mais complexa. O roteiro do diretor Lorenzo Vigas baseado na história de Vigas e de Guillermo Arriaga é uma verdadeira aula de cinema. Ele vai se revelando pouco a pouco, camada a camada, e não responde a tudo que o espectador gostaria de ter respondido. Alguns podem ficar chateados com isso, mas eu acho sempre uma escolha corajosa dos realizadores fazerem isso. Afinal, quando você não responde tudo, deixa parte da obra aberta e suscetível a interpretações. Isso é sempre positivo.

No início, parece algo evidente que Armando é gay ou, ao menos, tem uma grande inclinação gay – em momento algum fica claro se ele apenas pagava para os jovens servirem de objeto de desejo ou se ele já tinha tido uma relação física homossexual. Mas não demora muito para o filme introduzir outra questão que parece secundária mas que, com o tempo, não vai se mostrar de segundo plano: o ódio que o protagonista tem do próprio pai.

Este acaba sendo um ponto importante da história. (SPOILER – não leia se você não viu ao filme). Logo depois de Armando levar o primeiro jovem para o apartamento, ele faz uma visita à sua irmã e cobra dela uma reação mais enérgica sobre a volta do pai deles. O que não sabemos, e vamos ficar sem saber, é exatamente o que o pai dos dois aprontou. Essa questão fica no ar, o que ajuda a pensarmos sobre o quanto ele teria de responsabilidade por Armando gostar de rapazes. Ele teria sido abusado pelo pai na infância e/ou adolescência, assim como a irmã dele? Mais tarde, quando Armando diz que a mãe já morreu, chegamos a pensar se ela teria sido morta pelo pai dele.

Estas questões não são respondidas. O que apenas deixa muitas perguntas sobre Armando no ar. Depois do primeiro jovem que vemos Armando levando para o apartamento, ele sai para “caçar” o seu mais novo objeto de desejo. E é assim que Elder (Luis Silva) entra na história. De forma muito inteligente Vigas constrói um filme que se divide entre os dois personagens, acompanhando a rotina deles juntos e separados. Desta forma vamos conhecendo mais sobre os dois. A diferença é que a vida de Elder acaba sendo bem mais aberta que a de Armando. E isso, vamos saber no final, fará toda a diferença.

Em diversos momentos deste filme você, como eu, pode pensar: “Que coragem!”. Primeiro, sempre achei muito corajosos os gays – e os heterossexuais, geralmente homens – que acolhem qualquer desconhecido(a) em casa para sanarem o seus desejos e apetites sexuais. Já ouvi algumas histórias de assassinato de gays que foram alvo de jovens, geralmente, que não aceitaram alguma parte da relação amorosa. Por isso mesmo achei muito corajoso Armando e sua caça permanente de jovens. Nem todos são gays e muitos aceitam aquela situação apenas porque precisam (ou querem simplesmente) dinheiro.

No início Elder acha um absurdo aquela situação com Armando. Mas o nosso protagonista não pensa em retroceder. Você imaginaria que o mais fácil seria ele ir atrás de um outro garoto, mas ele acaba procurando novamente Elder. Por muito tempo a relação do jovem com Armando é de resistência. Mas quando ele leva uma boa surra e não tem ninguém para ajudá-lo, Armando acaba fazendo este papel.

E daí surgem algumas das muitas perguntas deste filme. Afinal, o que Armando quer com Elder? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Caso ele tenha sido abusado pelo pai e percebe que tem a carência afetiva que ele tem por causa disso, ele resolve fazer diferente e dar uma oportunidade para o jovem que, claramente, tem poucos recursos? Ou ele encara Elder como um objeto de desejo que precisa ser conquistado e que precisa ter a resistência vencida? Em certo momento do filme, quando os dois estão em uma festa e Elder parte para cima de Armando, ele resiste. Naquele momento eu pensei que a primeira teoria estava certa. Que ele não queria, no final das contas, uma relação amorosa com o rapaz, mas apenas ajudá-lo.

Mas nada é simples em Desde Allá. Como eu disse antes, o roteiro de Vigas é muito inteligente ao avançar aos poucos na história dos dois protagonistas. Aparentemente a história de Elder é mais simples e franca do que a de Armando. Depois que cuida do jovem machucado, Armando começa a ganhar a confiança dele. Aos poucos o garoto vai abrindo a sua vida, mostrando o local em que ele trabalha, levando Armando para a festa da família e, depois que o novo “amigo” dele lhe ajuda a comprar um carro, os dois vão até a praia e Elder conta a verdade sobre o pai. Antes ele tinha dito que ele estava morto, mas naquele momento Elder revela que ele está preso.

Neste momento percebemos que Elder e Armando tem ao menos um ponto em comum: ambos tiveram pais abusivos e/ou criminosos. A diferença é que Elder ainda é jovem e frágil. Ainda que ele pratique pequenos crimes aqui e ali, ele está suscetível a ser manipulado. Armando já vive outra condição. Primeiro que ele tem dinheiro de sobra e, depois, ele sabe manipular – ele não parece, mas é um caçador nato e experiente.

Elder, como tantos jovens venezuelanos e também do nosso país, vem de uma família desestruturada e sem bons exemplos. Vive em um local complicado, sem recursos, apanhava muito quando era criança e teve um amigo morto pelo pai que, depois, foi preso. “Largado na vida”, por assim dizer, ele faz o que é preciso para conseguir o que quer. Daí os pequenos crimes – furtos e roubos – e a condição de alvo fácil de Armando. Ele quer conquistar as coisas, como comprar um carro restaurado após um acidente, mas não sabe exatamente o caminho certo para fazer isso.

Armando vê naquele garoto exatamente o que ele precisa. Só que como ele é um sujeito que observa muito e fala pouco, não sabemos muito bem, pelo menos até o final, o que realmente ele quer de Elder. Infelizmente o rapaz acaba sendo manipulado por Armando na medida certa. Experiente, Armando sabe exatamente como cuidar de Elder – algo que ninguém fez por ele até então – e atraí-lo da forma correta. Tanto que quando o rapaz já está fascinado por Armando, ele sabe muito bem não “entregar o ouro” até que ele tenha conseguido exatamente o que ele quer.

Por isso mesmo, no início de Desde Allá, fiquei com raiva de Armando porque sempre acho um absurdo um adulto se aproveitar de alguém mais frágil – neste caso adolescentes, mas em outros casos são crianças – para satisfazer os seus desejos. Ainda que os jovens atraídos pelo dinheiro de Armando não fossem tocados ou não estivessem de frente vendo a masturbação dele, sem dúvida alguma eles estavam sofrendo ali um abuso psicológico de caráter sexual.

Por que ele não procurava um gay como ele para desenvolver uma relação ao invés de abusar de jovens em vulnerabilidade social? Por isso, no início, fiquei com raiva dele. Depois, ao achar que ele realmente tivesse boas intenções com Elder, dei a ele o privilégio da dúvida. Mas aí veio o final… que grande, grande FDP! Impossível não terminar este filme odiando ele. Haja coragem para ser tão “hijo de puta”.

E muitos podem se perguntar: ok, mas como um rapaz que tinha “ódio”, aparentemente, de gays, acaba desenvolvendo desejo sexual e se apaixonando por um homem com bem mais idade que ele? Ora, para mim esta questão tem duas explicações. Primeiro que Armando soube manipular muito bem Elder ao ponto de despertar nele interesse e atração. O jovem, sem uma figura paterna em casa – e a figura que ele teve era violenta – acaba encontrando “proteção”, carinho e segurança na figura de Armando. Sem contar, claro, que o dinheiro dele atraia o jovem interessado em obter o que ele queria.

A segunda explicação é que eu acho que todos nós podemos nos interessar pelas pessoas independente do gênero que elas tenham. Podemos achar sexy ou bonitas pessoas do mesmo sexo, mesmo que não sejamos bissexuais ou homossexuais, mas daí a ter desejo e de realizá-lo são outros quinhentos. Quando se é jovem, me parece, as pessoas estão mais sujeitas a experimentar. Agora, quanto mais idade uma pessoa tem, mais ela vai tendo claro o que ela gosta e o que pode lhe atrair. Acho que tudo isso ajuda a explicar a mudança de comportamento de Elder.

Desde Allá é um filme muito bem construído e bem planejado. A história vai crescendo aos poucos ao mesmo tempo em que vai entregando pequenas colheradas de informação sobre os personagens principais. A relação entre os dois também vai se tornando mais complexa, e o entorno social acaba jogando um papel fundamental. Por tudo isso o filme faz pensar. Nos faz refletir sobre como pessoas em condições sociais frágeis podem ser manipuladas e exploradas por pessoas com um poder aquisitivo e cultural maior. Também nos faz refletir sobre os desejos e as carências, e sobre como devemos controlá-los para não sermos controlados por eles. Grande filme.

NOTA: 9,7 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei impressionada pelo trabalho dos dois atores principais. Incríveis, ambos. Também excepcional o roteiro de Lorenzo Vigas. Muito bem construído e com diálogos precisos. Alfredo Castro está incrível em um trabalho cirúrgico como o silencioso e observador Armando. Por outro lado, Luis Silva dá um show como um jovem aparentemente capaz de tudo mas que é, também, muito sensível. Elder tinha um grande potencial, pena que ele próprio não tenha enxergado isso.

Em muitos e muitos momentos o trabalho dos atores é resolvido olho no olho, em silêncio. Uma escolha acertadíssima de Lorenzo Viegas e equipe. Desta forma que o espectador percebe a intensidade das interpretações que, por consequência, passam muita legitimidade.

Este filme é centrado em Armando e Elder. Mas há alguns atores coadjuvantes da história interessantes. Pena que poucos são chamados pelo nome na produção, o que dificulta saber exatamente quem é quem. Consegui mais ou menos identificar Jericó Montilla como Amelia, mãe de Elder; Catherina Cardozo como Maria, irmã de Armando; e Jorge Luis Bosque como Fernando, cunhado de Armando. Merecem destaque também os rapazes que fazem parte do grupo de amigos de Elder, mas infelizmente não consegui identificar o nome deles na história.

Da parte técnica do filme, mérito principal para o diretor e roteirista Lorenzo Vigas. Ele não apenas constrói a história muito bem como sabe conduzi-la privilegiando sempre a interpretação dos atores sem esquecer de outro elemento importante no filme: o entorno no qual eles vivem. Em muitos momentos Vigas recorre a planos de câmera que não são muito usuais, mas que são muito acertados e inteligentes ao valorizar alguns aspectos da narrativa. Belo trabalho.

Outros aspectos importante e que são muito bem realizados nesta produção são a direção de fotografia de Sergio Armstrong; a ótima edição de Isabela Monteiro de Castro; e os recursos que ajudam a dar o clima certo e a contar a história dos personagens centrais como a direção de arte de Matías Tikas, a decoração de set de Carolina Carlini Bellazzini e os figurinos de Marisela Marin. Tudo muito moderno, contemporâneo, mas escolhido à dedo para casar com cada um dos personagens centrais. Muito bom também o trabalho do departamento de som com 11 profissionais envolvidos. Aliás, vale comentar que Isabela Monteiro de Castro é brasileira e tem no currículo filmes como Madame Satã, Cidade Baixa, O Céu de Suelly e Praia do Futuro.

Algo importante que este filme e a vida real também mostra: os manipuladores são muito bons no que eles fazem. Alguém que manipula outra pessoa nunca parece estar realmente fazendo isso. Por isso, meus caros, fica a dica: muita atenção para quem vocês colocam para dentro da vida de vocês.

Desde Allá estreou no Festival de Cinema de Veneza em setembro de 2015. Depois o filme passaria ainda por outros 28 festivais, sendo o mais recente deles o Festival Internacional de Cinema de Melbourne que começa no próximo dia 5 de agosto.

Como o filme mesmo sugere, ele se passa e foi todo rodado na cidade de Caracas, na Venezuela.

Desde Allá é o primeiro longa do diretor Lorenzo Vigas. Este venezuelano de Mérida que tem 49 anos de idade fez a faculdade de Biologia Molecular na Universidade de Tampa, na Flórida, e em 1995 resolveu dar uma guinada na vida e estudar cinema na Universidade de Nova York. Em 1998 ele voltou para a Venezuela para filmar a série de documentários para a TV Expedition. A primeira produção dele para o cinema foi o curta Los Elefantes Nunca Olvidan, de 2004, que ganhou diversos prêmios. Certamente é um nome que merece ser acompanhado.

O ator Alfredo Castro tem 60 anos de idade e nasceu em Recoleta, da região metropolitana de Santiago do Chile. Ele tem 51 trabalhos no currículo como ator e nove prêmios. Sobre Luis Silva eu não encontrei mais informações, mas gostei muito do trabalho dele. Acho que ele merece ser acompanhado.

Desde Allá ganhou sete prêmios e foi indicado a outros nove. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Leão de Ouro como Melhor Filme no Festival de Cinema de Veneza. Além deste prêmio, ele ganhou os de Melhor Ator para Alfredo Castro e de Melhor Roteiro para Lorenzo Vigas no Festival de Cinema de Thessaloniki; o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cinema de Miami; o prêmio de Primeiro Trabalho no Grand Coral do Festival de Cinema de Havana; e a Menção Honrosa do Horizons Award para Luis Silva no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção e os críticos que tem os seus textos linkados pelo Rotten Tomatoes dedicaram 29 críticas positivas e sete negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 81% e uma nota média de 7,1. Achei as avaliações boas, mas eu considerei o filme melhor do que a maioria do público e da crítica.

Desde Allá é uma coprodução da Venezuela e do México. Belo filme que só demonstra a forma do cinema latino.

CONCLUSÃO: A vida está repleta de fragilidades, desejos, fraquezas e coragem. Há pessoas que fazem escolhas e tomam certas atitudes que nos chocam. Desde Allá nos conta histórias que misturam tudo isso. Um filme forte, com ótimos atores interpretando os personagens principais e uma história que nos faz pensar sobre a fragilidade humana. Quantas pessoas vivem uma vida de carências que as faz serem alvos fáceis de gente inescrupulosa? E o pior de tudo é que estas pessoas “do mal” dificilmente são identificáveis. Elas sabem fingir bem. Desde Allá é um soco no estômago sobre famílias desestruturadas, abuso das mais diversas formas e um bocado da realidade que é possível encontrar por aí, se você quiser ver e não tapar os olhos. Potente e indicado para quem não temem ficar mal após o final.

ATUALIZAÇÃO (13/11): Meus caros leitores, tenho que fazer uma ressalva por aqui. Quando assisti Desde Allá, a lista dos 85 filmes que estavam habilitados para concorrer na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar ainda não tinha saído. Depois sim, o filme passou a figurar na lista como o candidato da Venezuela para a maior premiação do cinema de Hollywood e uma das principais do mundo.

Como vocês sabem, se me acompanharam em coberturas anteriores do Oscar, quando um filme passa a ter chances, avalio ele não apenas isoladamente, como faria normalmente, mas levando em conta também os seus concorrentes na disputa. Por isso que eu acabei abaixando a nota de Desde Allá. O filme, isoladamente, merecia realmente a nota 9,7, mas se eu analiso ele comparando com os concorrentes, ele não pode ter a mesma nota de Under Sandet (comentado aqui) – este sim merecedor de 9,7. Por isso o ajuste na nota acima, beleza?

PALPITES PARA O OSCAR 2017: A Venezuela escolheu bem o representante do país para o Oscar 2017. Desde Allá é um filme forte, interessante, provocador. Ele se parece, um pouco, com outro forte concorrente na disputa para o próximo ano, o francês Elle. Os dois filmes tem em comum o forte apelo sexual, a manipulação e a busca pela sobrevivência, além de contas mal ajustadas de seus protagonistas com os seus pais.

A diferença entre eles reside mais no tipo do protagonista (no filme venezuelano temos um homem na meia idade e, no francês, uma mulher que também está entrando nesta faixa etária) e no contexto social de cada um deles. A desigualdade social e de condições é muito mais explorada e evidente em Desde Allá, enquanto em Elle são ressaltadas a vida independente de uma mulher e a força das mídias (televisão, imprensa em geral e games).

Pessoalmente, até prefiro Desde Allá do que Elle. Os votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood podem acabar optando por Elle, tanto pelo trabalho da atriz, que realmente está impecável, mas especialmente pela tradição do cinema francês – muito mais conhecido dos votantes do que o venezuelano. Veremos se eles vão optar pelo mais “óbvio” ou vão ousar na escolha. De qualquer forma, acho que só há espaço para um dos dois em uma vaga na disputa.