Poesía Sin Fin – Endless Poetry – Poesia Sem Fim

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O retrato de um artista quando jovem, um pouco de sua trajetória e do seu país com diversos altos e baixos. Poesía Sin Fin é uma obra interessante e que apresenta uma visão única de um artista sobre o seu próprio passado. Apenas alguém que olha para trás pode ver com tanta riqueza de detalhes, fantasia e autocrítica os passos que deu pelo caminho. Apresentando alguns recursos interessantes e uma e outra inspiração do teatro, Poesía Sin Fin nos apresenta um pouco mais sobre um Chile desigual, romântico e ao mesmo tempo transgressor. Realmente interessante para quem gosta do tema artes e para quem se interessa pela América Latina.

A HISTÓRIA: Um casal caminha com o filho ao lado em direção ao mar. A mãe, Sara (Pamela Flores), chora e é consolada pelo marido, Jaime (Brontis Jodorowsky). O garoto, filho deles, Alejandro (Jeremias Herskovits), anda sozinho por diferentes figuras que representam as suas lembranças. Alejandro Jodorowsky declama uma de suas poesias que fala sobre como ele dixou a sua terra, cheia de lágrimas, para trás. Ele retornou para a Rua Matucana que, hoje, está em decadência, mas que em sua época era parte de um bairro de trabalhadores.

As memórias dele nos levam para o passado, para esta época com cenários e pessoas muito diferentes. Quando uma pessoa era morta na rua com facilidade para, na sequência, ter os seus pertences roubados por garotos pobres que viviam pelas ruas. Os tempos eram complicados, e começamos a acompanhar aqueles anos no Chile sob a ótica de Alejandro.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Poesía Sin Fin): Esta produção chama a atenção, logo nos primeiros minutos, pelo estilo interessante – tanto visual quanto narrativo. O que vemos em cena tem um ritmo ligeiro e interessante, pelo menos no início da produção. A visão artística do roteirista e diretor Alejandro Jodorowsky é bastante desenvolvida.

Ele mistura todas as artes para fazer este filme. Muito da dinâmica que vemos em cena é do teatro – incluindo os “ajudantes de palco”, figuras que aparecem volta e meia para pegar ou trazer objetos que serão usados pelos atores em cena. Mas há também elementos fortes de artes plásticas e uma música transversal e importante – da mãe do jovem artista, que fala cantando, até outros momentos em que a música se torna uma peça importante em cena. Também há espaço para a dança e para o circo, citados em diferentes momentos.

Desta forma, de maneira muito natural e nada forçada, Jodorowsky demonstra o seu amor profundo por todas as manifestações artísticas. Com especial apreço, é claro, para a poesia – que está presente não apenas no título da produção, mas na forma de vida que ele escolhe para si. A produção começa em um momento importante para as memórias do artista. No dia em que ele vê uma morte acontecer na porta de casa e que avança com ele descobrindo a poesia em um livro de um cidadão que é expulso da loja do pai após ele ser acusado de roubo.

No livro que ele pega da cesta do cliente expulso ele encontra o poema “Romance Sonâmbulo“, de Federico Garcia Lorca, e outras preciosidades da obra do autor. Inebriado com aquelas palavras, ele decide que se tornará também um poeta. O pai, um comerciante que concentra toda a sua atenção em ganhar dinheiro, não aceita a ideia do filho. Para ele – que simboliza a classe média chilena e, cá entre nós, de diversos outros países -, o único futuro desejável para o filho é dele estudar para ser médico (e, com isso, ganhar bastante dinheiro).

A visão de Jodorowsky sobre o próprio passado parece uma grande alegoria, com todos os seus exageros e simplificações. Assim, a família da mãe é mostrada com bastante frieza, representada por um bando de gente cruel e apegada, a exemplo do pai dele, ao dinheiro, ao passado e a um monte de regras. A mãe dele, Sara, é a única vista com um pouco mais de lirismo e “bondade”. O pai é um sovina, e o pré-adolescente Alejandro resolve, em um encontro na casa da avó, dar um basta a tudo aquilo.

Ele é expulso pela tia e acaba sendo “socorrido” pelo primo Ricardo. Ele apresenta Alejandro para as irmãs Carmen e Verônica Cereceda, amantes da arte e duas “mecenas” que incentivavam artistas e potenciais artistas daquela época. E é assim que Alejandro consegue sair de casa e viver uma vida livre, onde pode escrever à vontade e conhecer muita gente interessante que frequenta a casa das irmãs. Depois de alguns anos, já adulto, ele é incentivado pelas irmãs a procurar a sua própria musa e a conhecer outros artistas em um bar da cidade.

A partir daí o filme entra em uma viagem muito particular de Jodorowsky em busca de sua própria identidade artística e como indivíduo. Nesta procura ele encontra a poetisa Stella Díaz Varín (também interpretada por Pamela Flores), com quem perde a virgindade e com quem vive um grande amor, e outras pessoas importantes para a sua trajetória, como Enrique Lihn (Leandro Taub), que se torna um grande amigo. Interessante como o filme de Jodorowsky tem poucos personagens realmente importantes e como ele utiliza alguns atores para interpretar diferentes papéis relevantes.

Essa escolha, para mim, serve para reforçar ainda mais a “confusão” um tanto onírica da lembrança do passado do roteirista e diretor – é como se ele nos dissesse que ninguém é capaz de realmente rever a própria história sem enchê-la de fantasia e de alguma inconsistência. Quando Stella aparece em cena, ainda que esteja caracterizada de forma bastante exagerada, fiquei pensando o quanto ela se parecia com a atriz que interpretava a mãe do protagonista. Depois descobri que se tratava da mesma atriz – o que faz todo o sentido.

Ainda que a caracterização diferencie bastante as duas personagens interpretadas por Pamela Flores, faz todo o sentido – e é um bocado óbvio, também – Jodorowsky ver uma grande semelhança no primeiro amor dele e a própria mãe (Freud explica). Da minha parte, achei o começo do filme e a parte final mais interessantes do que o “recheio”. Acho que há muitos momentos da busca do artista por sua própria identidade – o que inclui todo o ir e vir da relação com Stella – que poderiam ser sintetizados e que parecem muito lugar-comum.

Nestas partes eu acho que Jodorowsky perde um pouco da inovação que ele apresenta em outros momentos da produção. O começo do filme, com aquela mudança de cenário e de tempo histórico, assim como as sequências em que ele apresenta características interessantes do Chile – destaco, neste sentido, toda a sequência do Carnaval que, guardadas as devidas proporções e diferenças históricas e de latitude, nos fazem lembrar Federico Fellini e as suas próprias revisitas ao passado – são os pontos fortes da produção.

Todos os momentos em que Jodorowsky se apresenta como um amante disposto a tudo para “conhecer” o amor e para tirar proveito dele – inclusive traindo a confiança do melhor amigo e ficando com a sua ex-companheira (ou atual, não fica claro) Pequeñita (Julia Avendaño) – me pareceram um bocado um artifício de auto-elogio. Quando o diretor sai de si mesmo e olha mais para o que lhe cerca, o filme ganha em interesse.

Apenas esta inconstância da história, que acaba tendo altos e baixos entre o artista olhar mais para dentro de si ou mais para o que lhe cercava, faz o filme não ser melhor. Mas, no geral, pela visão artística interessante de Jodorowsky e pelo seu estilo felliniano, o filme mais que se justifica. Ele merece ser visto. Ele é bem feito e nos apresenta um pouco mais de um dos países latinos dos quais deveríamos saber mais – afinal, estamos todos próximos e, guardadas as devidas proporções, compartilhamos das mesmas dores e do mesmo terror de regimes absolutistas e tiranos.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é o décimo trabalho do diretor Alejandro Jodorowsky. Ele estreou na direção com o curta La Cravate, em 1957. Com 20 minutos de duração, o curta de estreia dele adaptava uma história de Thomas Mann sobre um vendedor de cabeças humanas. O primeiro longa de Jodorowsky foi lançado em 1968: Fando y Lis, uma produção que já era baseada nas memórias do chileno que nasceu em Tocopilla em 1929.

Nos primeiros de sua vida, Alejandro vivia em um Chile governado pelo militar Carlos Ibáñez del Campo. Vale lembrar que Alejandro nasceu em pleno 1929, ano da eclosão de uma grande crise econômica mundial. Ou seja, aquela pobreza e violência que vemos no começo de Poesía Sin Fin não eram exageradas – apenas apresentadas de forma alegórica. Quando o general volta ao poder, como o filme mostra (ele é interpretado por Bastián Bodenhöfer), Jodorowsky resolve deixar o Chile para trás.

Poesía Sin Fin não mostra, mas antes de Jodorowsky decidir deixar o país, em 1955, imigrando definitivamente para Paris, ele saiu da cidade natal para estudar na capital chilena, Santiago. Na produção o diretor e roteirista parece ter preferido simplificar a história sugerindo que ele ficou o tempo todo na cidade dos pais. Mas a verdade é que aos 13 anos ele se mudou para Santiago, onde trabalhou como palhaço de circo e como marionetista (um pouco disso é mostrado no filme). Em Paris ele fez parte de um coletivo de artistas que produziu diversos livros e peças de teatro. E, aqui e ali, também produziu alguns filmes e curtas. Um sujeito interessante, sem dúvida.

Quem observou o nome dos atores envolvidos nesta produção percebeu que alguns dos principais dividem o mesmo sobrenome que o diretor e roteirista da produção, correto? Pois sim. Além do próprio Alejandro Jodorowsky aparecer em cena em uma autorreferência pontual, dois filhos dele fazem papéis importantes na história: Brontis interpreta a Jaime que, na verdade, foi o avô dele na vida real; e Adan interprata ao próprio pai em sua fase adulta. Além deles, Jodorowsky teve ainda outros dois filhos: Axel e Teo. Eles não aparecem em cena.

Algo curioso nesta produção é como Jodorowsky apresenta aos “figurantes” e personagens sem importância e/ou com pouca relevância para a história. Seja as pessoas das ruas, seja as que frequentam muitos dos locais em que ele vai, todas usam máscaras e/ou estão com cabeças baixas. É como se ele demonstrasse, desta forma, que aquelas pessoas não tem importância na vida dele ao mesmo tempo que faz uma leve crítica para a “massa” que não se diferenciava e que estava apática em um Chile que ficava cada vez pior, mais extremista, preconceituosos e pouco afeito ao que era diferente. Uma crítica que segue válida para diferentes latitudes nos dias de hoje.

O diretor e roteirista faz, com Poesía Sin Fin, um grande manifesto em defesa dos artistas. Ele são mostrados sempre da melhor forma, como transgressores, pessoas que se preocupavam com a beleza e com incentivar a vida em todas as partes contra um país cada vez mais cinzento. Sem dúvida alguma ele tem uma visão apaixonada para a sua trupe. E isso fica evidente neste filme.

Poesía Sin Fin é uma produção feita para o alter ego do diretor brilhar. Desta forma, claro que os destaques de interpretação são os atores escalados para vestir a “pele” de Jodorowsky: Jeremias Herskovits e, principalmente, Adan Jodorowsky. Além deles, brilha com os seus personagens caricaturais a competente Pamela Flores. Também gostei muito do trabalho de Leandro Taub, que faz um dueto interessante com Adan Jodorowsky.

Além destes atores e dos outros já citados, vale comentar as pontas de Carolyn Carlson como Maria Lefevre, que lê o tarô para Jodorowsky; Ali Ahmad Sa’Id Esber como Andrés Racz; e Felipe Ríos como o poeta Nicanor Parra, bastante admirado pelo protagonista. Eu gostaria de citar a outros nomes que tem certa relevância nesta produção mas, infelizmente, não encontrei a relação completa dos atores que participaram deste filme. Fico devendo.

Jodorowsky dedica esta produção para o amigo Michel Seydoux, produtor de cinema francês responsável, entre outros títulos, por Cyrano de Bergerac.

Pesquisando mais sobre Jodorowsky eu soube que ele era um dos grandes ídolos de John Lennon. Em 1970, por exemplo, o filme dirigido por Jodorowsky “El Topo” chegou aos Estados Unidos por influência de Lennon e virou cult. Admito que eu não tinha, até agora, assistido a um filme dele. E desconfio que este Poesía Sin Fin seja o filme menos “viajandão” e/ou com tintes psiquiátricos/artísticos dele. Comecei bem, então. 😉 Neste artigo da Wikipédia eu encontrei mais informações sobre o diretor.

Entre os aspectos técnicos do filme, destaco os efeitos visuais do trio Felipe Astorga, Didier le Fouest e Vincent Perzo; a trilha sonora de Adan Jodorowsky; a direção de fotografia perfeita de Christopher Doyle; a edição de Maryline Monthieux; e os figurinos de Pascale Montandon-Jodorowsky.

Poesía Sin Fin estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2016. Depois o filme passaria por outros 20 festivais – a produção, claramente, tem um perfil muito mais de festivais ou de circuitos pequenos do que o perfil para ser exibido em vários cinemas.

Nesta trajetória, o filme ganhou um prêmio e foi indicado a outros dois. O único prêmio que ele recebeu foi o de Melhor Narrativa segundo a escolha do público no Festival Internacional de Cinema de San Francisco.

Este é o segundo dos cinco filmes de memórias que Alejandro Jodorowsky planeja realizar. O primeiro da série foi La Danza de la Realidad, de 2013. Eu não assisti a este filme, mas agora eu acho que entendo melhor o que Jodorowsky nos apresentou inclusive em Poesía Sin Fin. No filme de 2013 ele mostrou a primeira parte da vida dele, especialmente a infância, até quando eles deixaram a cidade em que ele nasceu. O segundo filme, Poesía Sin Fin, na verdade é ambientado em Santiago, na Capital. Ah sim, daí faz mais sentido. 😉

Aliás, como o filme mesmo sugere, esta produção foi totalmente rodada em Santiago do Chile.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 22 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 7,2.

Este filme é uma coprodução do Chile com a França.

CONCLUSÃO: A visão de um artista é sempre diferenciada. Mais inspirada, provocadora e/ou atenta aos detalhes do que a de um “cidadão comum”. Isto fica evidente com este Poesía Sin Fin, uma ode de seu realizador para o país que ele deixou para trás e para todas as experiência que viveu por lá. Ao mesmo tempo que descobrimos pontos interessantes da vida dele e sobre o Chile, também pensamos sobre a nossa própria trajetória. A veríamos de forma tão generosa ao mesmo tempo que precisaríamos recontá-la para fazer as pazes com quem não conseguimos na vida real? Um belo filme por todos os seus detalhes e, claro, descontando as repetições e os momentos menos interessantes da revisita ao passado de Alejandro Jodorowsky.

Nieve Negra – Black Snow – Neve Negra

Um filme que parece ser de outra latitude e que requenta uma história que já assistimos antes. Nieve Negra chama a atenção por ser estrelado por Ricardo Darín, um dos grandes atores da história do cinema argentino, mas deixa a desejar. A produção tem uma narrativa bastante previsível e, quando resolve “surpreender”, revela muitas incongruências e situações um bocado sem sentido.

A HISTÓRIA: Neblina e neve em um local com muito gelo. Um menino caminha entre as árvores e sobre a neve com uma arma até que se vira ao escutar o próprio nome. Corta. Em um avião, Marcos (Leonardo Sbaraglia) acaricia o cabelo da esposa, Laura (Laia Costa). Eles estão viajando da Europa para a Argentina, terra natal dele, para resolver as pendências após a morte do pai de Marcos. Logo que chegam em casa, Marcos atende o telefone e fala com Sepia (Federico Luppi). Marcos pergunta porque a casa está toda desarrumada, e Sepia diz que foi o irmão dele, Salvador (Ricardo Darín). Sepia diz que Marcos deve pegar uma carta que o pai dele deixou e que deveria falar com o irmão sobre a oferta dos canadenses. Marcos tenta escapar, mas acaba indo para a propriedade da família e encontrando Salvador.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Nieve Negra): Os primeiros minutos desta produção são um bom cartão de visitas da proposta do diretor Martin Hodara, que escreveu o roteiro de Nieve Negra junto com Leonel D’Agostino. Aquela sequência inicial de Juan (Iván Luengo) caminhando com uma arma entre algumas árvores de um bosque e sobre a neve se parece com tantas outras de filmes europeus. Digo que é um bom cartão de visitas porque o restante da história também caminha por semelhanças como esta.

Os europeus são mestres em contar histórias de dramas familiares com boas doses de suspense e de tensão. Também não são raras as histórias de adultério ou de outro tipo de relação amorosa que acaba “estragando tudo”. Nieve Negra caminha por essa seara, contando um drama familiar com uma tragédia no meio e alguns “temperos” que vamos descobrir apenas no final.

Francamente, por mais que Hodara e D’Agostino se “esforcem” para surpreender o espectador, eu não achei as “sacadas” do filme realmente surpreendentes. (SPOILER – não leia se você não viu o filme ainda). Não sei vocês, mas não demorou muito tempo para que eu desconfiasse de Marcos como o verdadeiro “assassino” de Juan. Talvez por causa das reações de Salvador, que parecia ser um sujeito que carregava uma culpa há muito tempo que não lhe pertencia – algo que se confirma no final.

Mas nem precisei chegar na derradeira “cena revelação” do crime para matar a charada. Estava na cara que Salvador não era o culpado… e se não era ele, sobrava apenas o outro irmão, Marcos. A justificativa para o crime me pareceu bastante forçada. Mas mais forçada que esta justificativa foi mesmo a reta final da produção. Vejamos algumas incongruências que realmente me incomodaram.

(SPOILER – realmente não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, vamos falar sobre a essência da história. Marcos matou Juan, de forma proposital e covarde, pelas costas. Muito tempo depois, ele volta para a cidade natal e para a propriedade onde o crime aconteceu e faz de conta que não teve nada a ver com aquilo. Ele repete a história “oficial” de que quem atirou em Juan foi Salvador. Ora, se ele matou o irmão mais novo e tanto tempo depois ele ainda coloca a culpa em Salvador, de duas uma: ou ele “perdeu a memória” e realmente não lembra do que aconteceu (bem difícil de acreditar, não?) ou ele é um grande cínico que lembra de tudo e que atua como um grande “ator” enganando a todos.

Honestamente, acho muito difícil ele ter feito uma lavagem cerebral tão grande que não lembra de como Juan realmente foi morto e da relação que ele tinha com a própria irmã. E se, como parece mais lógico, ele está apenas fingindo e mentindo e, no fundo, sabe exatamente o que aconteceu no passado, que maluquice é aquela que Laura faz no final? Se ele lembra do que aconteceu, claro que ele vai reconhecer o bilhete que ele próprio escreveu e vai saber que Laura cortou um pedaço dele e que ela descobriu a verdade. O que explicaria ela se arriscar desta forma? Não faz o mínimo sentido.

Outra forma de encarar aquele final é pensar que Laura, desconfiando que o marido estava mentindo e “fazendo de conta”, resolveu mostrar para ele que ela sabia a verdade, mas que ia fingir como ele para que os dois ficassem juntos. Ainda que esta seja a alternativa que faça mais sentido, acho a saída para a encruzilhada da trama muito estranha. Primeiro que uma mulher com o mínimo de crítica pensaria que deveria fugir de uma relação com um sujeito que tem tanto sangue frio quanto Marcos – que matou o irmão pelas costas e que tinha uma relação amorosa com a própria irmã. Que tipo de sujeito é esse? E uma mulher em sã consciência vai querer se relacionar com um cara assim? Difícil de acreditar.

Mas as incongruências não param para aí. O que realmente me incomodou foi a sequência sem sentido no final. Primeiro, Marcos, sabendo que a mulher estava grávida, realmente cogitar deles ficarem dentro de um carro em uma tempestade de neve. Sem sentido. Por mais que o irmão tinha ameaçado ele, um sujeito com o mínimo de bom senso jamais ia buscar como saída aquela falta de solução que era ficar dentro do carro com aquela neve toda. Depois, muito difícil de acreditar que Laura acertaria Salvador atirando de dentro do rancho para fora – justamente ela que não tinha tanta experiência assim em lidar com uma arma.

Só que o roteiro de Hodara e D’Agostino consegue derrapar ainda mais. Depois que Marcos é levado para a delegacia, não faz sentido nenhum para a história que Laura fique naquela casa no meio do nada e sozinha em meio a uma temporada de tempestades de neve, não é mesmo? Não faz sentido algum. Faria muito mais sentido ela ir com Sepia para a cidade e ficar esperando Marcos na casa do pai dele ou mesmo ficar uma noite na casa de Sepia. A última alternativa seria ela ficar lá na propriedade em lugar ermo. Claro que eles optaram por esta alternativa nada lógica para que Laura descobrisse a verdade. Mas me pareceu uma forçada de barra grande demais para ser engolida.

Em resumo, os roteiristas poderiam ter trabalhado melhor a história e deixado ela sem tantos furos e derrapadas. Me incomoda quando um roteiro é desleixado, e isso me pareceu acontecer em Nieve Negra. A qualidade do filme é que escolheram um bom elenco para dividir a cena, com evidente destaque para o trio Leonardo Sbaraglia, Ricardo Darín e Laia Costa. Os outros atores em cena fazem papéis menores. Eles estão bem, mas o roteiro realmente não os ajuda muito. Sem dúvida alguma há filmes argentinos muito melhores no mercado. Procure que vale a pena.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: As intenções de Martin Hodara em fazer este filme, tenho certeza, eram boas. Mas o diretor e roteirista precisa melhorar bastante a forma de contar histórias e, principalmente, buscar um pouco mais de características dentro da Argentina em lugar de “copiar” tanto o estilo europeu. Certamente vai lhe fazer bem. E o público também agradece. Afinal, se for para ver a um filme estilo europeu, melhor mesmo é assistirmos a uma produção destas legítima e direto da fonte.

Este é apenas o segundo filme dirigido por Martin Hodara. Antes ele dirigiu a dois curtas, em 1987 e 1991, em em 2007, La Señal. A maior experiência de Hodara é na função de assistente de direção ou segundo diretor – ele tem 12 trabalhos neste rol. Ou seja, ainda que tenha um bocado de experiência no cinema, parece que ele precisa aprimorar melhor o seu trabalho antes de apresentar algo realmente bom.

Nieve Negra estreou na Argentina no dia 19 de janeiro deste ano. Depois o filme estreou no Uruguai e, em março, participou do Festival de Cinema de Málaga, na Espanha. No Brasil ele estreou nesta semana, no dia 8 de junho.

Algumas cenas da produção foram rodadas em Andorra, onde havia a neve que os produtores não encontraram na Patagônia.

Este filme é uma coprodução da Argentina com a Espanha.

Da parte técnica do filme, vale destacar a boa direção de fotografia de Arnau Valls Colomer; a edição de Alejandro Carrillo Penovi; o design de produção um tanto óbvio de Marcela Bazzano e Josep Rosell; e a trilha sonora de Zacarías M. de la Riva.

Como eu comentei antes, os nomes fortes desta produção são, na ordem de importância, Leonardo Sbaraglia, Ricardo Darín e Laia Costa. Além deles, vale comentar o bom – e alguns momentos razoável – trabalho de Dolores Fonzi como Sabrina, irmã de Marcos e Salvador; Andrés Herrera como o pai dos três; Mikel Iglesias como Salvador na juventude; Iván Luengo como Juan; Federico Luppi como Sepia, advogado interessado nas vendas da propriedade, amigo do pai dos garotos e quem acaba ajudando Marcos; Biel Montoro como o Marcos adolescente; e Liah O’Prey como a Sabrina jovem. O elenco realmente é bastante restrito e diminuto.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,2 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram três críticas positivas e duas negativas para a produção, o que garante para Nieve Negra uma aprovação de 60% e uma nota média 6. Francamente, estou com eles. Facilmente este filme poderia ter levado um 6 ou pouco mais que isso.

CONCLUSÃO: O bom e velho drama familiar com uma “tragédia” no meio e uma ou duas tentativas de surpreender o espectador. Nieve Negra tem bons atores, mas sofre com um roteiro fraco e com uma busca um tanto forçada por um estilo de filme tradicional na Europa mas que não parece combinar muito com a latitude latino-americana. Assista apenas se você não dispensa um filme estrelado pelo Ricardo Darín. Porque enquanto obra de cinema, existem muitas outras produções melhores no mercado.

El Ciudadano Ilustre – The Distinguished Citizen – O Cidadão Ilustre

Quando alguém escreve, mergulha em todos os aspectos de sua vida e daquilo que quer contar. Nossa bagagem sempre está presente, mesmo quando não nos damos conta dela. El Ciudadano Ilustre, a exemplo do recentemente comentado por aqui Paterson, trata de literatura e da vivência do artista. Mas diferente do filme de Jim Jarmusch, El Ciudadano Ilustre tem mais pimenta e humor, além de uma certo “realismo fantástico” que lembra bem parte da literatura latino-americana.

A HISTÓRIA: O mestre de cerimônias apresenta as credenciais e uma rápida biografia do escritor Daniel Mantovani (Oscar Martínez). Apesar de ter vivido grande parte de sua vida na Europa, o argentino Mantovani espera na ante-sala para receber o Prêmio Nobel da Literatura. Quando ele é chamado ao palco, faz um discurso comentando como, ao receber o prêmio, ele percebe que a sua carreira terminou. Afinal, ele está sendo o artista mais “cômodo” para jurados, especialistas, acadêmicos e reis, e esta, na opinião de Montovani, não deve ser o papel de um escritor.

Cinco anos depois, o escritor argentino segue recebendo prêmios e com uma agenda cheia de eventos. Em alguns ele comparece, outros eventos ele simplesmente recusa. Um destes convites é feito pela prefeitura de Salas, cidade em que ele nasceu e que lhe serve de inspiração para as suas obras. No primeiro capítulo deste filme, Montovani recebe o convite para voltar para Salas. Inicialmente ele recusa, mas depois volta atrás e decide retornar para a cidade natal para receber o título de “cidadão ilustre” da cidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a El Ciudadano Ilustre): Como é bom voltar para o bom e velho cinema argentino! Porque sim, é muito difícil ver a um filme do país vizinho e não gostar do que assistimos. El Ciudadano Ilustre segue esta linha de satisfação quase sempre garantida, apresentando um filme inteligente, interessante, literário e bastante humano.

Esta produção foi a indicação deste ano da Argentina para o Oscar. Uma bela escolha, ainda que o filme fuja do padrão hollywoodiano. O roteiro de Andrés Duprat mergulha no fazer literário tendo como protagonista um escritor que lembra muito a outros nomes da literatura latino-americana, especialmente aqueles da escola do “realismo mágico”. Como assistir a El Ciudadano Ilustre e não lembrar de “Cien Años de Soledad” do grande Gabriel García Márquez?

Claro que há muitas outras referências, como os argentinos Julio Cortázar e Jorge Luis Borges, entre outros. Também me lembrei muito de José Saramago, o português que ganhou um Nobel da Literatura, a exemplo do protagonista deste filme, e que não achou, exatamente, que este foi um grande “presente”. E aí está uma das principais qualidades do roteiro de Duprat, a sua fina ironia.

Logo nos primeiros minutos do filme percebemos que Duprat nos mostra, através de seu Daniel Mantovani, que a noção de sucesso é bastante relativa. Para o protagonista de El Ciudadano Ilustre, os títulos que ele recebe, inclusive o Nobel, não querem dizer nada – ou querem dizer muito pouco. Ele continua “solitário”, incomodado com o que vê ao seu redor e, principalmente, com questões mal resolvidas com a sua cidade natal Salas e algumas pessoas que ele deixou por lá.

Como acontece na vida real, o escritor deste filme também se inspira muito na realidade, nas memórias que tem e preserva de sua cidade natal e a sua gente e, principalmente, na releitura que ele faz desta mesma realidade. Como ele escreve ficção, utiliza alguns elementos da realidade para dar asas para a própria criatividade e deixar fluir a literatura que lhe torna famoso. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). De forma muito inteligente, Duprat nos faz acreditar que Mantovani decide aceitar o convite da prefeitura de Salas para ir para a cidade receber o título de cidadão ilustre do município.

Desde que ele decide aceitar o convite, mergulhamos junto com ele em uma cidade do interior cheia de particularidades. Como tantas e tantas cidades do interior do Brasil, da Argentina e, tenho quase certeza, de qualquer parte do mundo. Quem nunca foi para o “interiorzão” e não viu vários detalhes que Mantovani vai encontrando pelo caminho, desde o ar-condicionado do hotel que só poderá ser usado após um pedido “expresso” do hóspede para a recepção até uma certa falta de oportunidades e do que fazer para uma parte considerável da população.

Personagens curiosos vão aparecendo conforme Mantovani vai se deslocando pela cidade. Muitos deles fascinados por um “cidadão ilustre” que colocou o pequeno “pueblo” no mapa mundial. Mas claro que há sempre o outro lado da moeda, como o prefeito que quer aparecer bem na foto com o escritor que ganhou o Nobel e o artista da cidade que não é premiado em um concurso e que empreende uma guerra particular contra o mais novo “desafeto”. Também há a jovem inteligente que vê no famoso escritor a desculpa perfeita para sair da pequena cidade e buscar uma vida longe dali.

O desenvolvimento da história é linear e bastante lógico, além de saboroso. Duprat tem um texto saboroso, que explora muito bem o contraste entre o escritor famoso e que tem uma grande vivência internacional e reflexiva e o povo simples da cidade em que ele nasceu. Mantovani não tem nada a ver com aquelas pessoas, aparentemente e olhando de forma geral, assim como quase nenhum de nós tem realmente a ver com o nosso lugar de origem – ainda que não podemos, ao mesmo tempo, ser explicados sem esta informação.

Ainda que o filme seja focado no protagonista, acabamos sabendo menos dele do que de Salas. Sim. Os diretores Gastón Duprat e Mariano Cohn sabem conduzir a história de Andrés Duprat com maestria, destacando os locais e personagens de Salas mais do que o escritor ilustre que nos leva por aqueles caminhos. Enquanto a história se desenvolve, acabamos sabendo um pouco sobre ele. Por exemplo, que ele não retorna para Salas há 40 anos – como a mãe dele morreu naquele período, calculamos que a última vez que ele esteve lá foi para o enterro dela.

No vídeo de homenagem que fazem para ele na cidade, acabamos sabendo que o pai dele morreu 10 anos depois da mãe, mas Mantovani não foi para lá naquela ocasião. Ainda que ele frequenta a cidade há tanto tempo, ele deixou lá pessoas que lembram bem dele, como o antigo amigo Antonio (Dady Brieva) e a ex-namorada Irene (Andrea Frigerio) que, agora, está casada com Antonio. Na Espanha, onde mora, Mantovani vive de forma confortável, mas mora sozinho. Em uma conversa com Antonio ficamos sabendo que ele não se casou e que não teve filhos.

Mas se não conhecemos em detalhes a vida pessoas de Mantovani, sabemos sobre os seus valores e formas de pensar e agir, acabamos aprendendo conforme a história se desenvolve. Ele é um sujeito que respeita a todos, mas que não se deixa corromper e nem levar por favores ou promessas bobas. Ele também acha a fama e os prêmios uma bobagem, ou efeitos de um trabalho bem feito. Nada mais, nada menos. Ele não tem muita paciência com pessoas “sem noção” e não tem muitas “papas na língua”. Fala o que pensa e gosta de ter a liberdade para isso.

Para mim, o genial mesmo do filme foi o seu final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). No início, como eu comentei, Mantovani não aceita diversos convites, inclusive o feito pelo município de Salas. Depois, a história parece dar uma “virada” e ele vai para lá. No final, aparentemente, ele é morto por Roque (Nicolás de Tracy), e nos últimos minutos da produção parece que vamos ver ele ser velado. E aí vem a grande e inteligente reviravolta: Mantovani está lançando o seu último livro, justamente a história que acabamos de ver.

Um dos jornalistas da coletiva de imprensa pergunta se o livro, que tem Mantovani como protagonista pela primeira vez em suas obras, é baseado em fatos reais. O escritor diz que isso pouco importa e mostra uma marca no peito, brincando que ela pode ter diversas origens. Achei brilhante! Belo final e que deixa a “moral da história” a gosto do espectador.

Da minha parte, acho sim que tudo o que vimos foi uma criação de Mantovani e que ele, de fato, não foi até Salas. Se observarmos bem quando ele “recebe o tiro”, o projétil teria acertado o escritor pelas costas e do lado direito dele. Pois bem, quando ele mostra a “marca” na coletiva de imprensa, ela está do lado esquerdo e na frente do corpo. Ou seja, mesmo que a bala tivesse atravessado da parte de trás para a parte da frente, não estaria deste lado, correto? Um elemento que acho que ajuda a mostrar que o que vimos foi o último livro dele “filmado”. Boa sacada.

Mas como acontece com tantas outras obras, saber o que realmente o escritor quis dizer ou o que tem a ver com a realidade e o que não tem a ver pouco importa. A experiência de deliciar-se com a obra, com a criatividade e com a narrativa do artista é o que interessa. Neste sentido, El Ciudadano Ilustre nos apresenta um filme interessante, bem equilibrado entre o drama e a comédia um tanto ácida.

Uma produção bem escrita e que tem algumas críticas interessantes sobre as pessoas que são consideradas “ilustres” em certa comunidade. Afinal, quem é admirado e quem tem o poder? Às vezes os talentos reconhecidos são os que caem no gosto de grupos, realmente, e outras vezes estas pessoas também sabem provocar e desempenhar o papel esperado de um artista. Por outro lado, quem “manda” é quem tem dinheiro e, muitas vezes, quem aterroriza os demais pela violência. Como bem explora a última obra do protagonista deste filme. Em resumo, um filme que faz pensar e que diverte.

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A principal qualidade desta produção é o roteiro de Andrés Duprat, sem dúvida. Ele faz um filme com história linear que apresenta uma bela surpresa e que mistura realidade e ficção de forma estratégica e interessante. Um filme sobre literatura que não apenas mergulha no território de inspiração do escritor como também mostra um pouco de seu processo criativo e uma certa crítica para o “mainstream” da área.

Mesmo sendo o ponto forte do filme, admito que tem partes do roteiro que me pareceram um pouco lugar-comum demais. Em especial a personagem de Julia (Belén Chavanne). Para a “virada” do filme a história dela serve como uma luva, mas dentro do contexto da história e do personagem principal, ela acaba parecendo um tanto forçada. Talvez se a atriz fosse um pouco mais atraente, convenceria mais.

A direção de Gastón Duprat e de Mariano Cohn é boa. Valoriza tanto as particularidades da cidade de Salas quanto o padrão de vida do protagonista e, claro, o trabalho de cada ator. Do elenco, sem dúvida alguma o destaque é Oscar Martínez. Os outros atores se esforçam, mas estão alguns degraus abaixo do protagonista em termos de talento. Alguns são, visivelmente, amadores. Isso acaba prejudicando um pouco o filme porque eles realmente parecem um tanto deslocados em algumas cenas.

Além de Martínez, estão bem na produção Dady Brieva, Andrea Frigerio e, mesmo que aparecendo menos, Nora Navas como Nuria, secretária de Mantovani. Além deles, vale citar o bom trabalho de Manuel Vicente como o prefeito Cacho; Belén Chavanne em um papel muito previsível como Julia; Marcelo D’Andrea como o “inimigo” egocêntrico Florencio Romero, artista local que não “engole” Mantovani; e Julián Larquier Tellarini como o recepcionista do hotel em que o escritor fica hospedado.

Da parte técnica do filme, vale destacar a direção de fotografia de Mariano Cohn e de Gastón Duprat; a trilha sonora de Toni M. Mir; e os figurinos de Laura Donari.

El Ciudadano Ilustre foi rodado nas cidades de Barcelona, na Espanha, e nas cidades argentinas de Buenos Aires (chegada do protagonista no país de origem), Cañuelas e Navarro, estas duas últimas próximas de Buenos Aires e que se passaram pela ficcional Salas.

O filme, que é uma coprodução da Argentina e da Espanha, recebeu 13 prêmios e foi indicado a outros 17. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Roteiro Original conferido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas da Argentina; para o de Melhor Filme Iberoamericano conferido pelo Prêmio Goya; para o de Melhor Filme Estrangeiro no Festival Internacional de Cinema de Haifa; para de Melhor Roteiro e para o conferido pela Associação Cubana de Imprensa Cinematográfica no Festival de Cinema de Havana; para dois de Melhor Roteiro e dois de Melhor Filme (Silver Spike e Golden Spike) no Festival Internacional de Cinema de Valladolid; para os de Melhor Filme do Vittorio Veneto Film Festival Award e de Melhor Ator para Oscar Martínez no Festival de Cinema de Veneza; e para o prêmio Open Horizons dado pela audiência do Festival de Cinema de Thessaloniki.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram oito críticas positivas para o filmes e… só. Ou seja, El Ciudadano Ilustre conquistou uma rara aprovação de 100% no Rotten Tomatoes, somando uma nota média de 7,2 no site. Belo desempenho.

Para quem ficou interessado em saber um pouco mais sobre o realismo mágico na literatura, este texto pode ser uma boa introdução. E conhecer a obra destes e de outros escritores desta escola, claro, vale muito a pena. 😉

Ah, vale falar um pouco sobre os diretores Mariano Cohn e Gastón Duprat. Os dois são argentinos, nascidos em “pueblos” que fazem parte da província de Buenos Aires. O primeiro tem 41 anos e é natural de Villa Ballester, e o segundo tem 47 anos e nasceu em Bahía Blanca. Os dois fazem parceria na direção desde o início da carreira de cada um, no ano 2000, com o documentário Enciclopedia. Antes de El Ciudadano Ilustre eles dirigiram Yo Presidente, em 2006; El Artista, no mesmo ano; e El Hombre de al Lado, em 2009. Fiquei curiosa para ver alguns destes filmes anteriores.

CONCLUSÃO: Um filme inteligente e provocador, que questiona alguns lugares-comum sobre a noção de sucesso e de verdade. El Ciudadano Ilustre é mais um bom exemplar de cinema argentino, com uma história envolvente, interessante, rica em detalhes, muito bem contada e com um grande protagonista. Impossível não lembrar de grandes escritores e o seu ofício, assim como de personagens tão típicos de qualquer parte do mundo e que sempre servem de referência para quem vive de contar histórias. Um filme gostoso e que passa rápido, diferente de Paterson, que também trata de literatura e de inspiração artística. Eis uma boa pedida.

Francisco, El Padre Jorge – Papa Francisco, Conquistando Corações

Um Papa amado por multidões e respeitado por pessoas de diferentes religiões. Francisco, El Padre Jorge conta um pouco da história do Papa Francisco, que é o líder máximo da Igreja Católica desde 2013. O filme tem uma boa narrativa, um roteiro que vai e volta no tempo algumas vezes e que procura aproximar a narradora da história e o espectador do Sumo Pontífice. O único problema da produção é que ela apresenta poucas novidades. Quem é católico e que buscou saber ao menos um pouco além do básico sobre o Papa Francisco, não será surpreendido.

A HISTÓRIA: Cenas de Buenos Aires. O dia está nascendo e ouvimos a uma música típica da Argentina. O ano é 2013, e a jornalista Ana (Silvia Abascal) chama a filha Eva (Naia Guz Sanchez) para a responsabilidade que elas tem na cidade. A menina quer ir para o zoológico, mas a mãe dela explica que antes da diversão vem o dever. Ana e Eva embarcam na excursão para turistas que apresenta a Buenos Aires do padre Jorge Mario Bergoglio, nomeado o 266º Papa da Igreja Católica em março daquele ano. Nesta história descobrimos um pouco sobre ele e também sobre a relação da jornalista Ana com o padre Jorge Bergoglio.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Francisco, El Padre Jorge): O Papa Francisco conseguiu encantar católicos e pessoas de diferentes religiões desde o início de seu pontificado. Mas também foi alvo de vários ataques e de algumas polêmicas. Esta produção dirigida pelo espanhol radicado na Argentina Beda Docampo Feijóo ajuda a explicar um pouco da trajetória do primeiro padre latino-americano a se tornar Papa e das razões que fazem ele ser combatido por algumas correntes da própria Igreja.

O roteiro escrito por Beda Docampo Feijóo com colaboração de César Gómez Copello e tendo o livro de Elisabeta Pique como fonte é bastante franco sobre a trajetória de Bergoglio na Argentina e algumas de suas principais bandeiras antes e depois de se tornar Papa. Com trajetória ligada à periferia e com defesa franca dos pobres, Bergoglio denunciava a corrupção e a hipocrisia em Buenos Aires. No fundo, denunciava estas práticas em qualquer parte.

Chama a atenção no filme a parte em que ele conta a trajetória de Jorge antes dele se tornar padre. Para mim, esta foi a parte mais “nova” da produção. Eu não sabia, por exemplo, que a avó dele tinha sido uma fonte de inspiração do jovem quando ele estava para decidir o que faria da vida. Foi ela que lhe presentou com um livro sobre São Francisco de Assis – santo que, sem dúvida, foi e é uma grande influência para o pontífice.

Interessante os trechos do filme em que vemos a um jovem Bergoglio cercado da família e de amigos e que foi capaz de ficar encantado por uma garota que, como ele, amava a literatura. Desde jovem, o atual Papa Francisco era um devorador de livros. Este conhecimento dele, assim como a forma com que ele mergulhava na interação com as pessoas comuns e de todos os tipos, fez com que ele se tornasse muito, muito humano. Capaz de consolar, de interagir com qualquer pessoa de qualquer idade, de escutar e de citar ótimas referências – inclusive literárias.

A trajetória de Jorge Bergoglio fez com que ele entendesse o Evangelho e o exemplo de Jesus Cristo como grandes exemplos de amor e de inclusão. Perto de se aposentar, ele acabou se tornando Papa, algo que ele não desejava, realmente. Mas ele aceitou, porque sabe que Deus escreve certo por linhas tortas e que a vontade dele deve sempre se curvar frente à vontade de Deus. Algo interessante neste filme também são os “bastidores” do Conclave. Para mim, também uma parte diferenciada da produção.

Interessante como Jorge Bergoglio “bateu na trave” quando da eleição do alemão Joseph Aloisius Ratzinger, que se tornou o Papa Bento XVI. Diferente do que os vaticanistas pregavam, não era exatamente uma surpresa o “independente” e um tanto “revolucionário” Bergoglio ser eleito Papa. Ainda que a corrente progressista da Igreja tenha vencido na eleição dele, a corrente mais conservadora não dormiu no ponto e tem se posicionado contra algumas declarações do Papa Francisco.

O filme apenas toca neste tema. A preocupação de Francisco, El Padre Jorge certamente não era polemizar ou adentrar realmente nos bastidores da Igreja Católica, formada por diferentes correntes. A produção deseja mais ser uma introdução sobre a história por trás do atual Papa, esboçando através de um roteiro cheio de idas e vindas no tempo e no espaço, um rápido painel sobre as influências e a trajetória que ele fez antes de assumir a liderança da Igreja Católica.

Para muitos católicos bem informados que conhecem um pouco mais do que o básico sobre o Papa Francisco, este filme será bastante previsível. Para os que são bem informados, mas que não leram o livro de Elisabetta Pique ou outras obras sobre Jorge Bergoglio, talvez parte da produção apresente elementos novos. Eu me enquadro neste segundo grupo. Acho o filme bem feito, com uma proposta bastante clara e que deve agradar, especialmente, as pessoas que sabem pouco sobre o Papa.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O diretor espanhol Beda Docampo Feijóo nasceu apenas na cidade galega de Pontevedra, na Espanha. Quando ele tinha um ano de idade, a sua família se mudou para Buenos Aires. Foi lá que ele fez a carreira como diretor e roteirista, tendo 14 títulos no currículo pela primeira função e 20 na segunda. O filme mais conhecido dele é El Marido Perfecto, de 1993, estrelado por Tim Roth.

O roteiro de Francisco, El Padre Jorge é um bocado fragmentado, mas bem escrito. Tanto que o espectador não fica perdido na história. A produção tem um ritmo bom e não deixa o interesse do público cair, mesmo entre aqueles que já conhecem boa parte da história narrada. eu só não achei a produção melhor porque ela poderia ter um pouco mais de “tempero” e de detalhes menos conhecidos da vida do biografado.

O elenco está bem, ainda que eu tenha sentido falta de um ator que se “enquadrasse” mais no perfil do Papa Francisco. Darío Grandinetti é um grande ator, com bastante experiência, mas é impossível vê-lo na telona e não ficar pensando que outros atores poderiam ter se enquadrado mais no perfil do Papa. Mas, descontada a diferença grande física e de idade, dá para acreditar no trabalho de Grandinetti. Do elenco, o destaque acaba sendo Silvia Abascal, que interpreta uma Ana bastante verossímil e humana.

Do elenco, vale ainda elogiar o bom trabalho de Lucas Armas Estevarena, que interpreta Jorge Bergoglio quando ele tinha 13 anos; para Gabriel Gallicchio, que interpreta o jovem Bergoglio; Mariano Bertolini como o padre Pepe; Rubén Darío Figueredo como Ernesto, padre que deixou o sacerdócio e que contou para a protagonista sobre a defesa que Bergoglio fez de padres durante a ditadura no país; para María Ibarreta, que interpreta Patricia, mãe de Ana; e para Leonor Manso, que interpreta a avó de Bergoglio, Rosa.

Da parte técnica do filme, gostei da direção de fotografia de Kiko de la Rica, que valoriza muito bem a cidade de Buenos Aires, em especial, mas também Roma e Madri; a edição bem feita de Cristina Pastor; e os figurinos de Natacha Fernández e Marcela Vilariño.

Francisco, El Padre Jorge foi indicado a três prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas da Argentina em 2015, mas não recebeu nenhum deles.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,8 para esta produção. O site Rotten Tomatoes não tem críticas para o filme.

Este filme é uma coprodução da Espanha, da Argentina e da Itália.

Faz umas duas semanas que eu assisti a este filme no cinema. Agora eu quero me lançar neste fim de semana novamente em uma sala escura para ver a novos filmes e comentá-los por aqui. Aguardem e confiem. 😉

CONCLUSÃO: O Papa Francisco tem uma jornada que é coerente com o que ele acredita ser o centro do Evangelho. Pelo seu forte contato com o povo e os menos favorecidos, desde quando ele morava em Buenos Aires, é que os católicos tem um pontífice que acredita na inclusão e no amor ao próximo e à Deus acima de tudo. Ele defende o amor entre todos, como Jesus ensinou há mais de 2 mil anos. Francisco – El Padre Jorge nos mostra parte da formação, do contexto familiar e da caminhada dele até que ele se tornasse Papa. É um filme bem feito, mas que acrescenta pouco para quem já conhece a história do Papa Francisco. A parte boa é que a essência da sua história está na produção e pode servir como introdução para os menos informados.

Silence – Silêncio

Até hoje impressiona como ser cristão incomoda a tanta gente. Por que tantas pessoas se sentem “ofendidas” e muitas delas inclusive perseguem quem afirma de forma convicta que acredita em Deus e em Jesus Cristo? Para mim, esse é sempre um ponto de admiração. Mas tudo isso está previsto na Bíblia. Realmente os cristãos tem a sina de “incomodarem” e serem perseguidos. Quem persegue um cristão é que deveria se pergunta o porquê. Silence é um filme magistral, forte, e que trata de forma franca justamente um de tantos casos de perseguição de cristãos. Angustiante. De arrepiar.

A HISTÓRIA: Em uma montanha cheia de piscinas termais, alguns japoneses esperam pelos seus prisioneiros. O grupo chega escoltado. Um dos padres recebe água fervendo no rosto. Como resposta, ele reza. Na sequência, os padres são castigados com conchas que espirram a água fervente em seus corpos. Assistindo a tudo isso, o padre Ferreira (Liam Neeson), considerado um dos nomes mais importantes da evangelização no Japão. Ele mesmo narra o que está acontecendo em uma carta, datada de 1633, no qual ele diz que a profissão de fé dos colegas lhe enche de força.

Quem lê a carta é o padre Valignano (Ciarán Hinds) para os ex-alunos de Ferreira, o padre Rodrigues (Andrew Garfield) e o padre Garupe (Adam Driver). Ele insiste que o comerciante holandês que lhe entregou esta carta depois de um longo período dela ter se perdido garantiu que Ferreira renunciou a sua fé. Os ex-alunos dele se recusam a acreditar nesta versão e insistem em ir para o Japão para saber o que realmente aconteceu. Esta é a história deles e das pessoas que eles encontram no caminho.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Silence): A primeira cena deste filme me fez lembrar imediatamente de Akira Kurosawa. Aqueles homens caminhando em meio à neblina e/ou fumaça resgataram na minha memória o estilo do diretor japonês. Esta produção, como tantas outras, será sentida de forma diferente dependendo do background do espectador.

Se você é cristão, como eu, e conhece bem a vida e o exemplo de Jesus Cristo, se você acredita que Ele é o caminho, a verdade e a vida, Silence terá um efeito sobre você. Se você professa outra fé ou não tem fé alguma, certamente o efeito será outro. Como cristã, achei este filme marcante. Muito duro, muito denso, sem nenhuma razão para riso ou para a “leveza” que normalmente se encontra em um entretenimento.

Sim, Silence é cinema. E, para muitos, cinema é entretenimento. Eu entendo. Muitos filmes realmente são apenas isso, uma forma de entreter as pessoas e fazerem elas saírem de seu dia a dia comum e ordinário e viver outro tipo de sensação. Mas outros filmes estão além da linha do entretenimento e figuram na lista de obras de arte. Destas que nos fazem pensar não somente sobre o que o artista quer nos dizer, mas especialmente sobre nós mesmos e os outros, o que nos cerca.

Silence está nesta categoria. Respeito, mas não entendo os risinhos que eu ouvi no cinema ao assistir ao filme – por estas e por outros que, muitas vezes, prefiro ver um filme sozinha e não no cinema. Mas ok, temos que entender o diferente e que nem todos pensam ou agem como a gente. Ir no cinema é parte deste aprendizado.

Silence me tocou fundo porque eu sei que aquela história apresentada pelo filme não é uma coisa do passado. Hoje, quatro séculos depois do que Silence nos apresenta, muitos cristãos continuam sendo mortos todos os anos em diferentes partes do mundo simplesmente porque eles professam esta fé. Mas nenhum deles morre sozinho, ou em vão. Nenhum mártir morre em vão, como bem argumentou o padre Rodrigues (o ótimo Andrew Garfield).

Claro que o entendimento disto depende de fé. E diferente do que o próprio Rodrigues questiona, não é com a compreensão falha e limitada humana que vamos entender. Ele questiona, no filme, porque Deus permite que tantos morram em nome Dele. Ora, não é Deus que está matando aquelas pessoas. Quem é cristão sabe que um dos maiores presentes que Deus nos deu foi justamente o poder da escolha. Sendo assim, na mesma medida em que um cristão escolhe acreditar, o seu algoz pode escolher matá-lo. Sempre são escolhas individuais.

Enfim, este papo é longo e o blog não se presta a discutir religião. Mas o que eu posso dizer é que este é um grande filme sobre fé e sobre escolhas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Tentado por Ferreira (Liam Neeson), seu antigo professor e exemplo, Rodrigues acaba cedendo e “renunciando” a própria fé para, aparentemente, salvar cinco vidas. Mas o que significa salvar alguém?

Para quem tem fé e realmente é cristão a morte física não representa absolutamente nada. Ou melhor, representa o fim da vida terrena e o início da vida eterna. Então nenhum dos padres que renunciou ao cristianismo estava, na verdade, salvando ninguém. Quem realmente salva, no sentido amplo e pleno desta palavra, é apenas Deus. Este foi o maior erro de Rodrigues. Acreditar na cantilena de Ferreira de que ele estava salvando ou condenando os cristãos que não renunciavam à sua fé.

Ora, cada cristão que decidia manter a sua fé e não renunciar à Deus ou à Cristo era executado não por causa de um ou de outro padre, mas em nome da fé e da convicção que eles tinham sobre ela. Em última instância, estavam morrendo em nome de Deus. Ninguém mais. Quando as pessoas se acham mais importante do que Deus é quando elas começam a sucumbir e perdem a firmeza dos mártires.

Claro que ao afirmar isso eu não estou condenando Ferreira ou Rodrigues. Se ninguém pode ser salvo se não por Deus, ninguém também pode ser condenado se não por Ele. E Deus é tão paciente, tão amoroso, que Ele parece nunca se cansar de nos dar chances de aprender, de acertar e de melhorar. A exemplo de Kichijiro (Yôsuke Kubozuka), que repetidas vezes renunciou a Deus para salvar a própria vida, mas que depois se arrependia e pedia perdão, qualquer pessoa pode ser salva por Deus se realmente estiver arrependida. É isso o que um cristão aprende.

Uma das maiores “fraquezas” humanas é a nossa vontade de viver o máximo possível. Por isso mesmo, no diálogo entre Rodrigues e Jesus, pouco antes dele renunciar à própria fé, Rodrigues acredita que Jesus lhe absolveu porque ele entendia a fraqueza humana. Por isso Ele teria se feito homem, justamente. Então, a priori, é possível sim perdoar a quem blasfemou contra Deus e renunciou a fé Nele, porque esta pessoa não conseguiria ver além da própria vida e sacrificá-la para defender a sua fé.

Claro que foram mais fortes todos os cristãos que aparecem no filme, assim como o padre Garupe (Adam Driver), que jamais renunciaram de sua fé. Eles tinham a convicção sobre o que lhes esperaria após a vida. Eles tinham a calma e a certeza de que ressuscitariam em Cristo. Mas não dá para condenar aos que foram fracos e que cederam a uma das maiores dificuldades do ser humano, que é a de aceitar a própria morte.

Agora, sou obrigada a dizer: quando Ferreira, parecendo o próprio Diabo que tentou Cristo, fala para Rodrigues que ele deveria agir como Jesus, e que Ele, naquela posição, também negaria a Deus para salvar um grupo de pessoas, ele estava cometendo a maior blasfêmia que eu já ouvi na vida. Evidentemente que nunca, sob circunstância alguma, Jesus negaria o próprio Pai. Ele não fez isso quando esteve aqui, não faria isso agora.

Enfim. O filme é muito interessante, faz pensar e, principalmente, mexe com o coração de quem compartilha com tantos mártires daquele tempo e de todos os tempos – inclusive hoje – a mesma fé. Acredito que seremos uma civilização razoavelmente evoluída quando respeitarmos todas as crenças e não matarmos mais ninguém porque a pessoa tem uma fé diferente da nossa – ou fé alguma.

Eu só não dei a nota máxima para esta produção porque me incomodou um pouco o argumento final de Ferreira para convencer Rodrigues, esse em que ele cita Jesus, e também porque eu esperava mais de Rodrigues. Claro que a História é a História e os fatos são os fatos, mas eu fiquei especialmente decepcionada com Ferreira. Ele poderia ter renunciado ao que ele quisesse, mas não precisava ter feito isso com Rodrigues. Ainda que, e isso fica evidente no final do filme, Rodrigues nunca renunciou a sua fé de verdade. Muitas vezes é no silêncio que manifestamos a nossa fé. Não em palavras, mas no nosso coração e no silêncio. Belo filme.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esta produção tem vários grandes momentos. Mas um dos melhores, para mim, foi quando Rodrigues finalmente encontra Ferreira. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). O jovem padre está cheio de razão em cada resposta e questionamento que ele faz para o ex-professor e ex-padre. Gostei, em especial, quando ele diz com todas as letras que ele, ao renunciar ao cristianismo e à Deus, não estava sendo nobre e nem salvando ninguém, mas estava apenas salvando a sim mesmo. Esta era a grande questão. Os padres que renunciaram às suas crenças estavam apenas salvando a própria pele – prova disso é que os fieis que se mantiveram firme na fé continuaram sendo mortos, ou seja, nenhum deles foi salvo por eles terem abdicado da promessa que fizeram.

Este é um filme longo, mas ele tem as suas razões para isso. O diretor Martin Scorsese, que também escreveu o roteiro junto com Jay Cocks, não teve pressa em contar essa história. Pelo contrário. Ele quis explorar cada detalhe da missão dos padres Rodrigues e Garupe desde que eles foram para o Japão em 1640. A história é linear, partindo da carta/relato de Ferreira antes dos jovens padres irem atrás dele e terminando apenas quando a história deles é concluída.

O foco do roteiro na figura de Rodrigues foi muito acertada. Ele é, praticamente, o narrador do filme. Vemos tudo sob a ótica dele, o que humaniza a história e mostra, sob a perspectiva dele, tudo o que aconteceu. É um filme lento, no melhor estilo dos clássicos do cinema japonês – não por acaso me lembrei de Akira Kurosawa no início. Assim, Scorsese respeita a cultura na qual esta história submerge. O diretor faz um grande trabalho aqui, e diferente de quase tudo que ele apresentou até então. Realmente interessante.

O roteiro de Scorsese e de Cocks é baseado no livro de Shûsaku Endô.

Todos os atores desta produção estão muito bem, mas diferente do que o cartaz da produção pode sugerir, o protagonista de Silence é Andrew Garfield e não Liam Neeson. Gosto muito de Neeson, mas neste filme não tem como não ficarmos com uma certa “raiva” do personagem dele. Claro que isso desaparece com o tempo, mas realmente o papel dele é complicado de ser “engolido”. Garfield, por outro lado, faz um grande trabalho e se consolida, com este filme e com Hacksaw Ridge (comentado aqui) como um dos grandes talentos da nova geração. Merece ser acompanhado, com certeza.

Gostei de todos os detalhes técnicos deste filme. Martin Scorsese faz uma grande direção, seguindo um bocado a escola japonesa, mostrando tanto os locais e as suas particularidades quanto a interpretação dos atores. O roteiro também é competente, sem nenhuma linha sobrar na história. Cada palavra, cada linha, cântico, grito, gemido e cada silêncio tem o seu propósito. Outros destaques são a direção de fotografia de Rodrigo Prieto; a edição de Thelma Schoonmaker; e o design de produção de Dante Ferretti.

Algo que Silence nos mostra também é a humanidade dos padres, freis e sacerdotes. Sim, eles são humanos, suscetíveis a erros, tentações, dúvidas, questionamentos e desespero. Alguns, como Garupe, parecem ter mais convicção e a fé mais clara, enquanto outros, como Rodrigues, estão mais suscetíveis às fraquezas humanas. Isso acontece em todas as partes. Sem dúvida há padres e fieis que tem a sua fé muito clara, são mais firmes nela do que outros. Faz parte. Precisamos entender e deixar que Deus exerça a Sua Misericórdia em relação a quem fraqueja e em relação a nós.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Tadanobu Asano como o intérprete que acompanha Rodrigues por bastante tempo; Issei Ogata como o inquisidor Inoue; Shin’ya Tsukamoto simplesmente ótimo como Mokichi, um dos fieis que recebe os jovens padres e que é o braço direito da liderança local; Yoshi Oida também maravilhoso como Ichizo, o líder da comunidade cristã que os padres encontram logo que chegam; Shi Liang como o comerciante chinês que apresenta os padres para Kichijiro; Miho Harita como Tomi, mulher de Ichizo; Nana Komatsu como Monica/Haru, uma das cristãs que Rodrigues encontra quando está como prisioneiro; Ryo Kase como John/Chokichi, outro fiel desta fase; e Asuka Kurosawa como a “mulher” de Rodrigues. Há muitos outros atores que fazem papéis secundários. Todos estão muito bem e convincentes.

Ainda que a história se passe inteira no Japão, este filme foi praticamente todo rodado em Taiwan. Apenas uma pequena parte foi rodada em Macau, na China – são as imagens do início do filme, em que os jovens padres jesuítas falam com o padre Valignano.

Silence teria custado uma pequena fortuna, cerca de US$ 46,5 milhões. Como a produção não tem, digamos assim, um tema realmente popular, e imagino que também por ela ser “lenta” e um bocado longa, ela conseguiu pouco nas bilheterias. Nos Estados Unidos o filme fez pouco mais de Us$ 7,1 milhões. Pelo andar da carruagem, tem tudo para ser um fracasso nas bilheterias.

Esta produção ganhou seis prêmios e foi indicado a outros 40. Entre os prêmios que recebeu, destaque pelo filme ter sido listado como um dos melhores do ano segundo o AFI Awards e por ter vencido como Melhor Roteiro Adaptado no National Board of Review. Foi indicado ao Oscar de Melhor Fotografia, mas perdeu a estatueta para La La Land.

Silence é uma coprodução dos Estados Unidos, de Taiwan e do México.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 178 críticas positivas e 33 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média 7,5. Os dois níveis de aprovação estão bons para os padrões dos sites.

Como eu comentei antes, até hoje milhares de cristãos são mortos todos os anos por causa da fé que eles professam. Segundo esta matéria da Rádio Vaticano, as estimativas apontam que pelo menos 90 mil cristãos foram mortos pelo mundo em 2016 por causa de sua fé.

CONCLUSÃO: Este filme está para a perseguição de padres e de fiéis que acreditam em Cristo como The Passion of the Christ está para o sofrimento de Jesus. Silence vai fundo na questão da fé, da busca pela verdade e por respostas. Independente do tempo ou do local, sempre existe em maior ou menor medida a perseguição a quem acredita em Cristo. Seja de forma franca, seja de forma velada. Este importante tema é tratado de forma muito interessante pelo diretor Martin Scorsese. Um filme denso, longo, duro, mas que mostra que ninguém pode quebrar a fé de outra pessoa. Mesmo que ela seja obrigada a renunciar sobre o que acredita, é no silêncio que esta fé segue vivendo. Como uma chama bem guardada. Grande filme.