The Broken Circle Breakdown – Alabama Monroe


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Alguns filmes tornam difícil a tarefa de escrever um texto sobre eles. The Broken Circle Breakdown é um destes exemplares. Primeiro porque fazer uma introdução sóbria e sem revelar muito sobre a essência da produção é algo quase impossível. Busco sempre inícios assim porque eu acho que quanto mais uma pessoa sabe sobre um filme antes de assisti-lo, pior. Depois porque este filme é tão perfeito que qualquer início parece pequeno. Mas o que eu posso dizer é que The Broken Circle Breakdown consegue ser, ao mesmo tempo, um filme que inspira porque une como poucos música com história ao passo em que é capaz também de cortar o coração dos desavisados.

A HISTÓRIA: Uma música no estilo country ressoa. Quando a imagem aparece, vemos a Didier Bontinck (Johan Heldenbergh) no centro do grupo que está se apresentando em um bar. Corta. Uma enfermeira prepara a agulha para retirar o sangue de Maybelle (Nell Cattrysse). A menina está acompanha dos pais, Didier e Elise Vandevelde (Veerle Baetens) no hospital de Gent. A história se passa em junho de 2006. Pouco depois, enquanto uma enfermeira cuida de Maybelle, os pais dela encontram o médico. Corta. Didier está visivelmente emocionado quando Elise pede para a filha ficar um pouco sozinha no quarto do hospital, assistindo TV. Elise pede para que ele seja positivo enquanto estiver no hospital, deixando para chorar em casa. A partir daí, acompanhamos a história desta família.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes deste filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Broken Circle Breakdown): Não é por acaso que eu coloco alguns avisos aqui no blog. De fato, acho que quanto mais uma pessoa sabe de um filme antes de assisti-lo, pior para a experiência do cinema. Afinal, mergulhar em uma história sem saber nada dela, seja em formato de filme, livro ou qualquer outra plataforma criativa e da arte, melhor porque assim está preservado o elemento surpresa.

O meu processo de escolher filmes para assistir e ir atrás deles passa por este respeito ao fator “uau”. Claro que algumas vezes é inevitável saber que determinado filme virou “febre” ou, nesta temporada pré-Oscar, que ele está muito cotado para ser premiado. Levo isso em conta, mas tento esquecer destas informações para me entregar ao trabalho dos realizadores com o mínimo de “contaminação” possível. Tudo isso para dizer que você deve, realmente, ler a respeito deste filme só depois de ter conferido o que ele tem a dizer.

O fator música é sempre fundamental, para mim. Mas é difícil um filme conseguir tratar a trilha sonora como um narrador ou um protagonista da história. Afinal, ainda que o cinema una imagem e som, o texto dos roteiros costuma ter uma relevância maior do que a trilha sonora. Este não é o caso de The Broken Circle Breakdown.

O filme, dirigido por Felix Van Groeningen, com um roteiro escrito por ele e Carl Joos adaptando a peça The Broken Circle Breakdown Featuring the Cover-Ups of Alabama escrita por Johan Heldenbergh e Mieke Dobbels, parece ter preservado a essência musical do original, mas ampliando na narrativa. Busquei informações sobre o original feito para o teatro, e encontrei a página deles no Facebook e este “trailer” da peça no Youtube. Pelo que tudo indica, a versão para o teatro era um musical com alguma dramatização sobre amor e perda no meio.

Agora, é bem diferente fazer um filme. E aí está a magia de The Broken Circle Breakdown. Logo mergulhamos no drama familiar e na dor vivida com muita coragem por Maybelle e compartilhada com os pais dela. Os adultos tentam ser fortes, enquanto não conseguem encontrar respostas para muitas dúvidas. E tudo vai piorar quando Maybelle não resiste e acaba vencida pelo câncer.

A dor de qualquer perda é brutal, mas a de um filho… não consigo nem imaginar, ainda que tenhamos sempre que fazer o exercício de nos colocarmos no lugar de quem passa por uma situação assim. O vazio é devastador, como bem revela esta história. E este é outro elemento que me fez gostar tanto do filme: ele não força a barra no ritmo. Não.

The Broken Circle Breakdown mostra o silêncio que surge após a perda de Maybelle, a dificuldade de diálogo entre Elise e Didier e a tristeza profunda dos dois – ainda que este sentimento seja revelado de forma diferente por cada um – sem pressa, compartilhando o tempo exato de cada um destes elementos com o espectador.

Desta forma, e com uma ajuda importantíssima da música – que fazia parte da vida dos protagonistas -, o espectador mergulha na história do filme. Sente tristeza, angústia, tensão. Como sou uma otimista, a maior parte do tempo, fiquei torcendo para que uma reviravolta positiva acontecesse… ainda que o sentimento era de que algo terrível poderia ocorrer a qualquer momento. Mas, de fato, algo poderia ser pior do que a perda de um filho?

Achei muito interessante a escolha dos roteiristas pela narrativa quebrada, não-linear. Acho que o filme ganha em interesse com isso. E diferente de outras produções, que podem escolher esta dinâmica por puro “capricho”, aqui eu vejo uma lógica nesta preferência. Quando Elise está abraçada com Didier no quarto do hospital olhando para a filha, pouco antes deles começarem o tratamento contra o câncer, parece lógico voltarmos no tempo sete anos, quando a história da menina começa a ser desenhada com a primeira noite em que o casal passa junto na casa dele. Parece que Elise, que não consegue dormir naquela cama de hospital, está relembrando a origem daquele amor eterno pela filha.

E isso acontece em muitos momentos do filme. Retrocedemos no tempo, para entender um pouco melhor como Elise e Didier chegaram naquele ponto, e retomamos para os fatos do presente. Não é apenas uma, mas muitas ocasiões em que parece que a quebra temporal acontece por uma “revisita sentimental” ao passado. O interessante é que essa lógica funciona, até porque o amor e os problemas que percebemos no presente dos personagens deste filme parecem ter uma sequência cíclica e originada no tempo anterior, como se eles estivessem em um “loop infinito”.

Depois que Elise sofre com a dor suprema da perda da filha, parece que ela começa a se estressar com o jeito de Didier em ver tudo com extrema lógica e frequentes discursos. O que não deixa de ser curioso, porque esta é uma característica dele desde o princípio. E aí entramos em uma seara da qual gostamos de falar pouco: de como, quando estamos encantados com alguém, ou apaixonados por uma pessoa, ignoramos os seus defeitos para observar apenas as suas qualidades. E isso é horrível porque os defeitos acabam cobrando um preço alto no futuro. Isso acontece com Elise e Didier.

Ela, em especial, começa a notar tudo o que eles não tinham de sintonia quando a perda da filha cobra deles mais união. Como acontece com muitos casais na vida real, Elise e Didier não se aproximam após a morte de Maybelle. O protagonista parece incapaz de sair da posição do “homem racional” que sabe lidar com tudo que aparecer pela frente. Enquanto isso, Elise fica sozinha lidando com a própria dor, e se abate – e quem não se abateria? Os dois vivem na mesma casa, mas estão sozinhos. Não conseguem dialogar. Até que Elise resolve dar um basta naquela relação.

Existiam diversas alternativas para lidar com uma perda devastadora como aquela. Mas The Broken Circle Breakdown não se esforça em fazer concessões. Felix Van Groeningen quer nos mostrar como muitas vezes não basta amar, ou ter fé, é preciso ter vontade de continuar e de fazer dar certo. E quando se percebe que não é possível dar certo – e o casal Elise e Didier, por mais simpático e afinado que seja na cantoria, parece fadado desde o início a dar errado -, é possível recomeçar.

Mas para ser coerente com a música que é a alma deste filme – o bluegrass, que só fui identificar quando o próprio Didier explica do que se trata -, The Broken Circle Breakdown não poderia ser uma ode ao otimismo. Certo que há músicas animadas no repertório, como este filme mesmo demonstra. Mas quando os personagens começam a descer a ladeira na direção de um fim triste e/ou trágico, a trilha sonora acompanha este movimento e parece que, finalmente, o bluegrass encontra a própria essência.

O filme tem diálogos e cenas de dinâmica entre os atores de arrepiar – aliás, Veerle Baetens e Johan Heldenbergh estão simplesmente fantásticos. Mas é a música que faz grande parte do trabalho e provoca verdadeiros arrepios. Achei fascinante, maravilhosamente belo. E triste, é claro. Da minha parte, sempre gostei de músicas que buscam o fundamental, que tentam ser coerentes com as próprias raízes. E o bluegrass parece ter esta característica. Assim como este filme.

Fora a emoção, The Broken Circle Breakdown ajuda a debater a velha questão entre a fé e a racionalidade. Tema importante nos dias que correm, especialmente nos Estados Unidos – e em outras latitudes também. Não é por acaso que Didier faz um discurso criticando o criacionismo. Não se trata apenas da visão individual do personagem. De fato, nos EUA, esta corrente tem rendido muitos debates e alguma disputa judicial sobre o que deve ser ensinado para as crianças.

Consigo entender os dois pontos de vista representados pelos protagonistas deste filme. Compreendo a indignação de Didier quando ele vê que as pesquisas envolvendo células-tronco poderiam estar mais avançadas. O que, em teoria, poderia ter ajudado a filha dele a superar a doença e viver. Eu também me indignaria no lugar dele.

Mas é preciso agir além da indignação – até porque não se muda o que já aconteceu. E compreendo a busca de Elise por um sentido maior do que a morte. Ela quer ter esperança de que a filha dela simplesmente não “sumiu”, mas que o amor perdura e permanece. Como em uma tatuagem, por mais que você a modifique.

O tema da (parece) eterna disputa entre religião/fé e ciência/lógica está presente neste filme. Mas não vejo ele como um ponto central. Para mim, foi muito mais intensa a dificuldade de Didier em aceitar que alguém pudesse pensar diferente dele do que a própria celeuma entre religião e ciência.

No caso desta história, a incapacidade do protagonista em lidar com a esperança/fé da filha e da mulher foi muito mais determinante. No caso de Maybelle, ele relevou os embates porque se tratava de uma criança e porque ela estava doente – ainda que isso não tenha impedido dele contar a história da morte das estrelas para ela no hospital na reta final. Mas em se tratando de Elise, Didier não conseguia se conter para ridicularizar as “crenças sem fundamento lógico” que ela tinha – e que poderiam ser classificadas como fé.

Achei potente a história justamente porque a falta de compreensão entre as pessoas é o que torna a vida tão complicada e difícil, muitas vezes. Acho que se mais gente se esforçasse em não querer “converter” os demais, seja no caminho da racionalidade ou no da fé, teríamos boas chances de avançar na aceitação dos demais. Falta generosidade e empatia no mundo, o que torna ele muito mais duro do que deveria. E muito mais triste, como bem ensina The Broken Circle Breakdown.

Para finalizar, me pareceu brilhante o desfecho deste filme. Elise resolve mudar o nome para Alabama, porque ela acredita que assim poderá recomeçar a vida. Sendo outra pessoa. Didier não entende a mensagem que a esposa quer passar, evidentemente. Nem todo artista, virtualmente sensível por definição, parece ser capaz de compreender a mensagem quando ela não é escrita com todas as letras. Por isso mesmo achei interessante a escolha do título de Alabama Monroe para o filme no mercado brasileiro. Faz sentido. Ainda que o título original também seja muito bom.

A história de amor entre Elise/Alabama e Didier/Monroe é linda e, por isso mesmo, quando tudo desmorona e eles não conseguem permanecer em pé juntos, a história se revela ainda mais cruel. Ela busca saídas dentro de casa – mudando o quarto da filha, por exemplo. Mas percebe que isso não apaga as memórias.

Busca, então, outros sentidos para a perda, mas não encontra apoio no marido. Que ele, por sua conta, sofre também, mas expressa a amargura de outra forma. Não demora muito para Elise perceber que a relação deles acabou, enquanto Didier insiste – afinal, a experiência dele com a filha foi diferente. No final do filme, mesmo que triste, fica uma mensagem de esperança, de que o amor permanece além da dor e do desespero. Um alento, junto com a música de despedida.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei encantada com a interpretação do casal de protagonistas. A belga Veerle Baetens, de 35 anos, além de linda, parece mergulhar na pele daquela mãe toda estilosa, cheia de tatuagens, ex-namorados e que vai descobrindo ter talento para a música também. Mesmo jovem, Veerle tem no currículo 29 trabalhos como atriz, incluindo oito séries para a TV. O belga Johan Heldenbergh tem 46 anos e uma carreira com 31 trabalhos como ator e um como diretor e roteirista: Schellebelle 1919, um drama lançado em 2011.

Tenho um fraco pelo cinema que é feito no norte da Europa. Gosto do que Dinamarca, Bélgica, Holanda, Noruega, Suécia, entre outros produzem. Infelizmente não consigo encontrar tantos filmes daquelas latitudes quanto eu gostaria. Mas tenho a tendência de gostar dos destaques que são exportados por aqueles países. Acho que eles fazem um cinema diferenciado, normalmente inventivo e com um certo “tom cru” que eu acho importante ser visto.

Quando o Oscar se aproxima, como agora, quando faltam uns poucos meses para sair a lista de indicados, costumo buscar os filmes indicados pelos países europeus, em geral, e especificamente estes da região norte. Normalmente vale o esforço.

Falei dos protagonistas de The Broken Circle Breakdown, mas é preciso citar também que a Nell Cattrysse se sai muito bem nesta que é a estreia da menina no cinema. A memória da menina está muito mais presente do que a interpretação propriamente dita de Nell. Ainda assim, sempre que a menina aparece em cena, normalmente em momentos de sofrimento, vejo que ela dá muita legitimidade para o papel. Realmente acreditamos que ela é uma garota que está passando por aquele momento difícil e pesado.

Este é um filme que tem estilo e identidade própria. Não parece um enlatado ou uma produção destas que poderia ser feita por qualquer realizador. Felix Van Groeningen escolhe cada tomada com precisão. O espectador não vê cenas sobrando, mas encontra, inclusive, sequências de pura liberdade poética. Há vários espaços para o silêncio e, claro, para a música. Um belo trabalho deste belga de 36 anos natural de Gent – onde se passa a história do filme – que fez quatro longas e um curta antes de The Broken Circle Breakdown. Em todos eles o diretor foi responsável também pelo roteiro. Vale anotar este nome e acompanhá-lo.

Da parte técnica do filme, excepcional a trilha sonora de Bjorn Eriksson. Como eu disse antes, as músicas deste filme são tão importantes quanto o roteiro. Depois, lindo o resultado da direção de fotografia de Ruben Impens e bastante precisa a edição de Nico Leunen. Uma equipe que funciona bem, sem dúvida. Gostei ainda da direção de arte de Kurt Rigolle, responsável pelo visual cheio de significado dos lugares que aparecem nesta produção, e dos figurinos de Ann Lauwerys.

Merece uma menção especial o trabalho da artista responsável pelas tatuagens que aparecem no filme, Marie Brabant. Muito interessante, e que também joga um papel importante na história – ajudando ela a ter estilo.

The Broken Circle Breakdown (em uma tradução livre algo como “O colapso do círculo quebrado”) estreou na Bélgica, país de origem do filme, em outubro de 2012. Depois, a produção passaria pelo Festival de Berlim e seria selecionada para outros 16 festivais – fechando a temporada no próximo dia 23 no Festival de Cinema Europeu de Osaka.

Nesta trajetória, o filme de Van Groeningen ganhou sete prêmios e foi indicado a outros seis. Entre os que recebeu, destaque para dois no Festival de Berlim: o Label Europa Cinemas para Felix Van Groeningen e o prêmio da audiência na mostra Panorama. Vale citar parte da justificativa do júri que conferiu o primeiro prêmio para o diretor: “Felix Van Groeningen é um cineasta de verdade. Esta é uma maneira bonita e original de olhar para a relação de uma mãe e um pai com a filha doente terminal. Gostamos, especialmente, da direção de fotografia, da estrutura não-linear da história e do fato que ele evita a fácil manipulação emocional ao lidar com um assunto difícil. A música da banda de bluegrass dos pais não é apenas a trilha sonora, mas uma fonte de energia e de esperança para todos. A mensagem clara é que devemos investir em pesquisa científica e não permitir que a religião ou a política interfiram nisso”. Baita comentário. Melhor que todo o resto que eu escrevi. 🙂

Vale citar que o filme recebeu, ainda, os prêmios de Melhor Atriz para Veerle Baetens e Melhor Roteiro no Festival de Cinema de Tribeca. Merecidíssimo.

Fui pesquisar um pouco mais sobre o bluegrass e encontrei este link que traz uma crítica do CD Plum Pitiful: 20 Sad and Tragic Bluegrass Songs, que compila o trabalho de vários artistas. No texto do site AllMusic explicam que o disco tem uma “agenda aparentemente interminável de esperanças frustradas, corações partidos, assassinatos cruéis, acidentes de trem e mortes de soldados” em uma “ladainha de miséria” trazida pelo bluegrass quando ele surgiu no final dos anos 1940 e início dos anos 1950. Uma “tristeza constante”, como afirma o texto. Achei interessante citar estas informações porque elas parecem um complemento bacana para explicar o estilo e a “alma” de The Broken Circle Breakdown.

Falando outra vez da trilha sonora desta produção, vale citar o excelente trabalho dos outros nomes que fazem parte da banda de Didier e que cantam muito: Geert Van Rampelberg interpreta a William (violão), Nils De Caster faz as vezes de Jock (violino), Robbie Cleiren faz Jimmy (guitarra acústica) e Bert Huysentruyt é Jef (baixo acústico). Outro ator coadjuvante na história é Jan Bijvoet, que interpreta a Koen, amigo do grupo que se anima com cada apresentação e ajuda a movimentar a platéia normalmente fria.

Não há informações sobre o custo de produção de The Broken Circle Breakdown. Mas segundo o site Box Office Mojo, a produção arrecadou cerca de US$ 7,1 mil nos Estados Unidos – o que comprova que o filme não teve repercussão alguma por lá ainda – e de pouco mais de US$ 1,7 milhão nas bilheterias no restantes dos mercados em que já estreou. Desempenho muito baixo. Uma pena. Espero que este filme ganhe um pouco mais de repercussão no boca-a-boca.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para The Broken Circle Breakdown. Uma boa avaliação. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 23 textos positivos e seis negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 79% e uma nota média de 7,4. Sem dúvida alguma eu me empolguei muito mais do que eles. 🙂

O tema do criacionismo versus o evolucionismo nos Estados Unidos rende bastante pano para manga. Esta notícia de abril de 2012 da revista Exame comentava a aprovação de uma lei no estado do Tennessee, no sul dos EUA, que permite que os professores de escolas públicas questionem o consenso científico em temas como aquecimento global e teoria da evolução. Na boa, não vejo o porquê da religião negar a ciência e vice-versa. Uma pode muito bem coexistir ao lado da outra, basta não levar o que se lê ao pé da letra e buscar conhecer os contextos que formam as religiões e as ciências. Dá trabalho, é verdade. É mais fácil ser um extremista que sabe pouco sobre o que segue e repete dogmas. Mas vale a pena ter um pouco mais de trabalho.

The Broken Circle Breakdown é uma coprodução da Bélgica com a Holanda.

Tenho percebido um movimento interessante por parte de muitos filmes “independentes” ou com orçamento menor que aqueles blockbusters de Hollywood: ao invés de gastar com sites próprios na internet, eles tem apostado em páginas no Facebook. Uma forma fácil e barata de criar um espaço para atualizar informações sobre a divulgação e repercutir estes filmes.

thebrokencircle3Vale comentar que os cartazes deste filme que encontrei por aí são ótimos. Muito estilosos. Fiquei tão em dúvida sobre qual cartaz escolher para abrir este post que resolvi colocar a segunda opção aqui ao lado, mas menor. Lindos, não? E que a formidável atriz Veerle Baetens não faz parte da peça que deu origem a este filme – diferente de Johan Heldenbergh, que é o autor do original e também o ator principal. O que apenas reforça ainda mais a potência do trabalho de Veerle neste filme.

CONCLUSÃO: Eu sou louca por música. Tocada em todo o tipo de ocasião. Concordo com Nietzsche quando ele diz que “sem música a vida não faria sentido”. Por isso mesmo, um filme que trate com tanto respeito a música, tornando a trilha sonora uma das protagonistas, sempre vai mexer comigo. Ainda mais quando ele tem uma história tão incrível que é contada de forma diferenciada como esta de The Broken Circle Breakdown. Gosto quando os realizadores tentam fazer algo diferente e buscam uma narrativa não-linear. Alguma vezes funciona, como nesta produção, outra vezes não.

Gostei tanto de The Broken Circle Breakdown porque ele coloca a música em primeiro plano, é verdade, mas também porque ele trata de assuntos sempre complicados de forma muito honesta e direta. O amor e a morte são temas centrais. Cada um lida com estes assuntos fundamentais da sua forma. Por isso mesmo, não acho ruim este filme não ser “otimista”. É preciso compreender as atitudes múltiplas que existem por aí, e as razões e histórias pessoais dos outros. The Broken Circle Breakdown nos fala um pouco de tudo isso e de uma forma muito potente. Achei perfeito porque mexeu muito comigo, me deixou tensa e emocionada. E o bom cinema é isso.

PALPITE PARA O OSCAR 2014: The Broken Circle Breakdown está representando a Bélgica entre os 76 indicados este ano para uma vaga na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no próximo Oscar. É uma tarefa complicada para qualquer filme deixar outros 71 para trás – lembrando que a categoria para a qual ele está concorrendo costuma ter cinco finalistas. E esta produção dirigida por Felix Van Groeningen não tem aparecido na lista pré-Oscar feita por especialistas.

Pessoalmente, acho uma pena. Eu iria adorar ver The Broken Circle Breakdown ao lado de Jagten (comentado aqui no blog) e Le Passé (com crítica por aqui) na reta final para a premiação. Acho que eles seriam concorrentes muito fortes entre si, ainda que existam algumas preferências de quem vota pela Academia. Sendo assim, acho sim que este filme merece uma vaga no Oscar, ainda que eu acredite na superioridade de Jagten. Uma pura questão de gosto pessoal, claro. Só que tudo indica que ele não chegará lá. Uma pena.

ATUALIZAÇÃO (21/12/2013): A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou ontem, dia 20 de dezembro, a lista de filmes que avançaram na disputa da categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. The Broken Circle Breakdown é uma das produções que segue tentando uma indicação. Os outros que fazem parte da lista são os seguintes: An Episode in the Life of an Iron Picker (Bósnia e Herzegovina), The Missing Picture (Camboja), Jagten ou The Hunt (Dinamarca), Two Lives (Alemanha), The Grandmaster (Hong Kong), The Notebook (Hungria), La Grande Bellezza ou The Great Beauty (Itália) e Omar (Palestina).

7 thoughts on “The Broken Circle Breakdown – Alabama Monroe

  1. Alessandra, difícil discordar de seus comentários. Técnicos, sem perder a emoção e o distanciamento do que realmente importa. Aliás, você é hours concours na minha opinião, em matéria de sensibilidade, profundidade, curiosidade até sobre as coisas, mesmo os detalhes…lendo o que você escreve sobre um filme – naturalmente depois de ver o filme, rs – a gente vai saciando toda a curiosidade a respeito de tudo, inclusive sobre a história do filme, o caminho que ele seguiu nos festivais, no caso deste filme, por exemplo, sutilezas sobre o bluegrass, os componentes da banda, enfim, uma preciosidade…Minha admiração e continuarei sempre acompanhando seu blog. Nadal

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  2. bela crítica. o filme coloca as emoções da gente numa montanha russa. ora alegria e amor, ora tristeza sem fim. o roteiro em vaivém e a musica como personagem são excepcionais. nunca tinha visto um filme com esse formato. me impressionou. O filme ressalta a importância da forma no cinema.

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  3. Assisti ao filme sem nenhuma informação “consciente” dele. Um amigo me recomendou que assistisse Alabama Monroe quando exibido pelo circuito comercial. Depois de algum tempo caiu em minhas mãos uma cópia do filme chamado “Círculo Quebrado”. Assisti ontem à noite, e fiquei absolutamente atônito,encantado e ao final descobri que era o filme tão indicado. Hoje pela manhã, procurando por alguma resenha dele, encontrei o seu blog, e a epifania continuou, renascida, pelo seu comentário. Obrigado. Acrescento ainda que temos gosto semelhante pelos filmes da Europa do norte. Todos eles são, por assim dizer, rudes, diretos, e difíceis de digerir, talvez pela própria franqueza tão distante da nossa gente. Este guarda aquela dureza/franqueza original, contudo o com o “tempero” e a delicadeza nas pinturas do rosto da criança, as imagens, o pássaro ferido, o terraço de vidro, a alegria com ela foi tratada todo o tempo, e os altos e baixos dos sentimentos, o tornaram algo diferente. Sensível e arrebatador. Em vários momentos a emoção sai da tela e se instala em nós. Escrevi isso tudo para agradecer (novamente e novamente) e oferecer-lhe meus melhores cumprimentos. Continue assistindo e compartilhando, estaremos pro aqui. Abraços.

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  4. Excelente filme e muito bonita sua crítica, parabéns pelo texto! Acabei de assistir o filme e me tocou muito, pelo fato de também estar lidando com a perda de um parente. Algo muito… estranho.
    Enfim, se gosta de bluegrass ouça a banda brasileira Conjunto Bluegrass Portoalegrense, eles tem uns vídeos no YouTube e um CD que adquiri por contato na internet com um dos músicos, Marcio Petracco. É muito bom! Talvez você já conheça mas fica aqui a indicação. Grande abraço.

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