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Zwei Leben – Two Lives – Duas Vidas

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Duas histórias pouco contadas e interessantes em um mesmo pacote. Isso não é fácil de encontrar. Mas Zwei Leiben apresenta esse pacote de forma eficaz, apesar da complexidade do assunto. Para quem gosta de filmes que se debruçam sobre histórias recentes de países importantes no cenário internacional, esta é uma boa pedida. Envolvente, esta produção tem ritmo, drama e suspense em partes bem dosadas.

A HISTÓRIA: Diferentes narradores comentam sobre a queda do Muro de Berlim e a unificação da Alemanha. Um deles afirma que a população, após “28 anos atrás do arame farpado”, não pode acreditar no que está acontecendo. Outra afirma que muitos manifestantes querem que as lições da RDA (República Democrática Alemã, criada em 1949 e sob a influência dos soviéticos) não sejam esquecidas.

Neste cenário, Katrine Evensen Myrdal (Juliane Köhler) caminha com passos firmes pelo aeroporto de Tyskland em novembro de 1990. Ela passa pelo controle do aeroporto e segue até o banheiro, onde coloca uma peruca e troca de roupa. Saindo dali, Katrine pega um trem, depois um táxi, e chega no local em que ela teria morado quando era criança. Dali, ela segue para o arquivo de Leipzig, onde encontra o nome que tanto estava procurando, de Hiltrud Schlömer. Em breve a história daquele orfanato virá à tona.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Zwei Leben): Muito especial a forma com que o roteiro dos diretores Georg Maas e Judith Kaufmann, com a ajuda de Christoph Tölle, Stale Stein Berg e da colaboradora Hannelore Hippe foi construído. Nos primeiros segundos da produção o espectador é imerso no ambiente da história, ouvindo diferentes narradores falando do final do período de divisão alemã. Quem conhece um pouco da história mundial sabe o peso que isso teve para os alemães, para a Europa e para o mundo.

Em seguida, as primeiras cenas gravadas pelos diretores surgem na tela com a presença marcante da trilha sonora de Christoph Kaiser e Julian Maas. O suspense preenche a narrativa com a troca de “personagem” feita pela protagonista. Não entendemos porque ela está se disfarçando, e a primeira impressão é que ela não quer que a família saiba que ela está correndo atrás do próprio passado. Mas então por que ela diz que se a antiga enfermeira do abrigo mantido por nazistas, Hiltrud Schlömer, estiver morta, o problema dela está resolvido?

Com o tempo é que vamos perceber que o problema de Katrine não é tão óbvio assim. E também identificamos que a narrativa não é linear. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Isso fica evidente não apenas com a esclarecedora volta ao passado para explicar a evolução da protagonista como espiã, mas também quando sabemos que os fatos iniciais ocorreram algumas semanas depois do que a narrativa que veremos após aparecer o nome da produção. Ou seja, Katrine se disfarça após a aparição do representante da firma de advogados Hogseth & Co., Sven Solbach (Ken Duken).

A chegada dele quebra em duas partes a farsa de Katrine/Vera. Antes dele aparecer, ela mantinha uma vida muito tranquila nas redondezas de Bergen, a segunda maior cidade da Noruega. Mulher de temperamento forte, Katrine trabalhava e tinha uma família para cuidar. A maior preocupação dela até a chegada de Sven era levar e trazer o neto para ser cuidado pela avó (a mãe de Katrine, Ase Evensen, interpretada pela veterana Liv Ullmann), enquanto a filha, Anne Myrdal (Julia Bache-Wiig) tenta entrar na universidade e criar a filha que ainda é um bebê.

Os problemas familiares de Katrine vão parecer brincadeira de criança quando Sven Solbach aparece para desenterrar o passado. Sim, eis a história clássica de uma mudança radical na narrativa de uma família quando alguém resolve mexer em vespeiros antigos. Mas aí está a graça deste filme. Ele não apenas conta a história de uma garota e de sua mãe que foram separadas quando a menina veio ao mundo por causa de resquícios repressivos da Segunda Guerra Mundial. Há ainda uma importante história de espiões no meio.

E de história de espiões o cinema está cheio. Mas não sob a ótima deste Zwei Leben. Porque aqui o espectador se aproxima da intimidade de uma espiã realista, com uma história fácil de acreditar. Por isso volto a afirmar o que eu comentei lá no início, de que não é fácil um filme ter duas histórias interessantes e complexas em um mesmo pacote. Acho que quem gosta de história, como eu, vai ficar fascinado com estes acontecimentos pós-Segunda Guerra.

Por um lado, temos a uma história de repressão das mulheres de um país invadido – a Noruega – que se relacionaram com soldados invasores – no caso, os alemães nazistas. Estas mulheres foram mantidas em campos na Noruega. O filme esboça esta explicação em um primeiro momento, mas de forma muito acertada o roteiro faz uma parada, mais ou menos no meio da produção, para explicar em detalhes como os alemães criaram clínicas maternais e orfanatos para diminuir o número de abortos e retirar de mães norueguesas os filhos que eles consideravam importantes – por terem os genes alemães – e levaram estas crianças para a Alemanha.

Em orfanatos como onde cresceu Katrine, a organização chamada Lebensborn mantinha as crianças com “sangue nobre alemão”. Representando a firma de advogados, Sven Solbach procura testemunhos para reabrir o caso destas crianças e apresentá-lo para uma comissão em Estrasburgo. A ideia deles é pedir reparação para aquelas famílias através do tribunal europeu dos direitos humanos. Daí ele insiste em contar com os depoimentos de Katrine e da mãe dela, Ase, porque elas seriam um raro caso de reencontro entre mãe e filha.

De forma bem acertada o roteiro de Zwei Leben apresenta esse momento de ruptura da família Evensen Myrdal sem entregar todo o “ouro” logo de cara. Assim, por um tempo, ficamos pensando se a resistência de Katrine se justifica pelos abusos que ela sofreu ou se há algo mais em jogo. Quando ela se encontra de forma misteriosa com Kahlmann (Thomas Lawincky) e explica para ele o que está acontecendo, e que alguém precisa agir para silenciar a testemunha que pode colocar o disfarce dela em risco, tudo vai ficando mais claro. Ela não é, exatamente, a vítima que se previa.

E daí surge a outra história interessante e complicada da trama baseada na novela manuscrita Eiszeiten, de Hannelore Hippe – que contribui com o roteiro de Zwei Leben. A heroína aqui é vilã, porque ela se infiltrou na família da norueguesa Ase Evensen fazendo-se passar pela filha dela que havia sido levada para a Alemanha. Cooptada quando também estava em um orfanato, Vera Freund, o verdadeiro nome da mulher que se passou por Katrine Evensen, trabalhou para o serviço secretor da RDA. Em todas as voltas para o passado, é especialmente interessante ver como ela foi preparada para o serviço.

Depois que o disfarce dela é descoberto e Vera/Katrine é confrontada pela família – especialmente na cena em que a filha lhe questiona na cozinha -, fica mais claro que apesar de ser vilã, ela também é vítima. Mas de uma maneira diferente do que poderíamos imaginar. Algo a destacar, além destas duas histórias interessantes sobre os bastidores de uma Alemanha dividida durante e após a Segunda Guerra Mundial, é a forma humana com que o filme é narrado. Nos aproximamos muito dos personagens principais, nos deliciando com ótimas interpretações e com um roteiro que não perde o ritmo em momento algum. Um grande trabalho da dupla Georg Maas e Judith Kaufmann e sua equipe.

Mas para não dizer que tudo são flores, algo me incomodou no desfecho desta produção. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Uma pessoa como Vera, treinada por muito tempo para assumir um disfarce e, com ele, conseguir informações valiosas para o sistema ao qual ela servia, vai de fato capitular e contar toda a verdade para a família que ela enganou por tanto tempo?

O previsível, para mim, seria ela seguir mentindo, mesmo confrontada com o vídeo da verdadeira Kathrin Lehnhaber, filha de Ase Evensen (interpretada, quando jovem, por Vicky Krieps). Ou se ela resolvesse contar a verdade naquele momento, ela não insistiria em tentar fazer as pazes com aquela família após a casa inteira ter “desmoronado”. A Vera que fez tudo o que ela fez teria seguido naquele avião e escapado.

Apenas esse “desvio” do esperado é que achei um pouco difícil de acreditar, frente a um filme que, até então, era bastante crível. Ainda assim, admito que é bacana a tentativa do roteiro em redimir a personagem. Desta forma, os realizadores apostam que os piores criminosos podem se colocar no lugar dos outros e ter atos de compaixão mesmo após diversos anos de mentira. É bacana pensar desta forma, mas só acho pouco realista. E em um filme que vinha tão bem nesse quesito, seria interessante ver Vera recomeçando outra vez.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além de uma história fascinante, Zwei Leben conta com outro trunfo muito importante: um grande elenco. Todos os atores envolvidos na produção estão muito bem em seus respectivos papeis, mas é preciso tirar o chapéu para a dupla de atrizes que dá vida a Katrine Evensen: Juliane Köhler na fase adulta, quando começamos a acompanhar a sua história, e Klara Manzel nas reconstituições de época de quando ela estava sendo preparada para desenvolver o papel que marcaria a sua trajetória de forma definitiva. Brilhantes as duas atrizes.

Para que elas consigam fazer um bom trabalho, faz falta um elenco de apoio também talentoso. Daí entram em cena figuras como a veterana Liv Ullmann, que interpreta a Ase Evensen e que comunica como poucas apenas pelo olhar; Sven Nordin como Bjarte Myrdal, o homem que passa boa parte da vida ao lado de Katrine Evensen; e o veterano Rainer Bock como Hugo, o “chefão” de Katrine e uma figura sempre misteriosa e perigosa na trama. Mesmo em um papel relativamente pequeno, Vicky Krieps consegue imprimir uma identidade importante e marcante como Kathrin Lehnhaber.

Outros atores com papeis menores merecem ser citados. Dennis Storhoi como o advogado Hogseth, chefe de Sven Solbach; Ursula Werner como Hiltrud Schlömer, testemunha importante da história de Katrine; e Thorbjorn Harr como o jovem Bjarte Myrdal. Eles complementam bem o elenco. Gostei do posicionamento do ator Ken Duken com o personagem Sven, mas não senti a mesma firmeza da atriz Julia Bache-Wiig, que interpreta Anne, filha de Katrine e Bjarte.

Para o filme funcionar tão bem, além do ótimo roteiro e de um elenco afinado, faz falta os outros elementos técnicos funcionarem bem. O primeiro elemento que chama a atenção no filme e que já comentei antes é a trilha sonora marcante da dupla Christoph Kaiser e Julian Maas. Diferente de outras produções recentes que eu assisti, neste filme a música é um elemento narrativo importante – e não complementar, como em outros casos.

Pouco a pouco também vai se destacando a direção de fotografia de Judith Kaufmann que, além de registrar o ambiente de cada cenário, ainda faz uma diferenciação bem marcante dos diferentes “tempos” narrativos. Destaque também para a edição precisa de Hansjörg Weissbrich e, evidentemente, pelo excepcional trabalho dos diretores.

Falando neles, é interessante observar a trajetória de cada um destes diretores alemães. Georg Maas tem sete trabalhos no currículo como diretor, sendo dois deles documentários feitos para a TV e um terceiro um filme produzido também para a TV. Das outras quatro produções, duas são documentários. Além de Zwei Leben, Maas dirigiu apenas outro filme para o cinema: NeuFundLand, lançado em 2003. Depois de Zwei Leben ele lançou um documentário para a TV sobre Liv Ullmann. Judith Kaufmann, por sua vez, tem uma carreira consolidada como diretora de fotografia. Ela tem 46 trabalhos atuando desta maneira. Como diretora, tem apenas Zwei Leben.

Para quem gosta de saber sobre os locais em que os filmes foram rodados, esta produção foi totalmente feita na Alemanha e com algumas cenas na Noruega. As cenas foram rodadas em locais como North Rhine, Leipzig, Halle, Bergen, Bonn, Hamburgo e Schleswig-Holstein.

Zwei Leben estreou em outubro de 2012 na Noruega. Depois, em janeiro de 2013, o filme participaria de seu primeiro festival: o de Palm Springs. A trajetória do filme em festivais somaria outras 11 participações. Neste caminho, Zwei Leben abocanhou sete prêmios e foi indicado a outros cinco. Entre os que recebeu, destaque para os de Melhor Filme entregues no Festival de Cinema Biberach e no Festival de Cinema Independente de Biberach. A produção ganhou também dois prêmios da audiência no Festival Internacional de Cinema de Emden e os prêmios de Melhor Elenco e Melhor Edição no Festival de Cinema Alemão.

Este filme, coproduzido pela Alemanha e pela Noruega, foi escolhido para representar a Alemanha como Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2014.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para Zwei Leben. Uma boa avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 11 textos positivos e apenas dois negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 85% e uma nota média de 6,5. Achei baixa a nota, apesar do nível de aprovação estar bom.

CONCLUSÃO: Interessante quando um filme parece contar uma história e, depois, ele se revela bem mais complexo. Este é o caso de Zwei Leben. Reforçando uma das escolas de cinema mais propensa a esmiuçar e repensar a própria história, esta produção foca no período imediato após a unificação da Alemanha. Com o fim das divisões do país, vários expurgos do passado foram feitos, e muitas histórias duplas, reveladas. Esta produção de interesse histórico e humano parte de uma história particular para refletir sobre um sentimento mais generalizado. Bem narrado e com ótimos atores, o filme só peca um pouco para a solução final da história. Mas nada que comprometa a boa experiência anterior. Recomendo.

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El Médico Alemán – Wakolda – The German Doctor – O Médico Alemão

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Todos os dias cruzamos com desconhecidos. Pouco a pouco, alguns destes encontros se tornam recorrentes. Mas para uma família com filhos, como garantir que estes desconhecidos não sejam perigosos? Como ter certeza que aquela pessoa para quem estás estendendo uma mão não vai te pedir também o tronco? El Médico Alemán – Wakolda trata de um destes encontros que se aprofunda, e de um perigo constante que parece cercar uma garota de 12 anos e que parece ser mais jovem. Mais uma história interessante apresentada pela diretora Lucía Puenzo.

A HISTÓRIA: Meninas brincam de elástico. Entre elas, está Lilith (Florencia Bado). Um pouco distante, um homem (o talentoso Àlex Brendemühl) observa as meninas com atenção. Não demora muito para Lilith ser chamada pelo irmão, Tomás (Alan Daicz). Em seguida, a menina começa a contar sobre a reação do homem parado sobre ela e a família. Na primeira vez que ele a viu, pensou que Lilith era “um espécime perfeito”, exceto pela altura da menina.

Em seguida, imagens da caderneta do homem, com muitos desenhos perfeitos das pessoas da família de Lilith e outros rascunhos de animais e bebês. A história se passa na Rota do Deserto, que fica na Patagônia, em 1960. O médico alemão está saindo do local quando vê Lilith derrubando uma boneca, que ela chama de Wakolda. A família da menina está saindo para viajar, e o médico alemão pede para segui-los em caravana. Pouco a pouco a relação dele com aquela família vai se aprofundando.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a El Médico Alemán – Wakolda): O nome do protagonista deste filme nunca é falado. Ainda assim, não demora muito para uma pessoa um pouco informada sobre a história pós-Segunda Guerra Mundial matar a charada. Um dos fugitivos mais famosos da caçada para encontrar os nazistas que sobreviveram ao fim da guerra e que migrou entre diversos países da América Latina é o foco desta produção.

Mesmo que ele seja o “perigo constante” da história, El Médico Alemán – Wakolda é narrado sob a ótica de outro personagem: a jovem Lilith. Essa perspectiva infantil justifica a pegada de curiosidade e mistério do filme com direção e roteiro de Lucía Puenzo. Se fosse narrado por um adulto, dificilmente este filme não “mataria a charada” mais cedo. Mas pelo fato da ótica ser de Lilith, a atração da garota pelo médico e o perigo que o olhar dele revela em cada encarada que ele dá na menina ganha relevância.

Foi um acerto Puenzo ter investido nesta ótica. Antes de ficar mais evidente a identidade do médico alemão que insiste em ficar próximo da família de Lilith, a impressão que o espectador pode ter é que aquela figura misteriosa pode ser um tarado sexual. Pelo menos pensei nisso ao observar como ele olhava para Lilith nos primeiros minutos da produção. Nestes detalhes de reproduzir o olhar e o foco da atenção dos personagens que Puenzo ganha pontos.

Mas as anotações no caderno do médico alemão e, principalmente, os vizinhos misteriosos da hospedaria que será resgatada pelo casal Eva (Natalia Oreiro) e Enzo (o ótimo Diego Peretti), com chegada constante de “visitantes” de avião e uma grande estrutura médica, ajudam a matar logo a charada. Mas mesmo sabendo que aquele médico é Mengele, será que ele se aproveitará de Lilith ou mesmo da mãe dela em algum momento?

O olhar de Mengele disseca as pessoas. Mas neste hábito não existe nenhuma conotação sexual. Ainda assim, o perigo é constante. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O que ele quer fazer, afinal, com aquelas pessoas? A resposta para esta pergunta está bem clara no final da produção. E por mais que fique claro antes o quanto Mengele experimenta com Lilith, o “toque final” dele com os gêmeos é chocante. Especialmente porque ele estava próximo de fugir e, mesmo sabendo que estava sendo perseguido, ele não quis desperdiçar mais aquela oportunidade de experimentar com humanos.

O roteiro escrito pela diretora também explora a conivência que muitas comunidades na América Latina tiveram com os remanescentes do regime nazista que fugiram para estas bandas. Mesmo não defendendo claramente Mengele, Eva não esconde a alegria por encontrar um alemão de respeito – perto do final sabemos que ela desconfia do passado do médico, mas afirma para o marido que não se importa muito com isso.

Além dela, Mengele tinha muitos fãs em solo argentino – e em outros países pelos quais ele passou para sobreviver à perseguição do governo de Israel que tentou, por muitas décadas, encontrar, julgar e eliminar os inimigos dos judeus. Estes fãs faziam tudo que o médico queria, além de protegê-lo e garantir uma fuga segura após a captura de Adolf Eichmann – político alemão, oficial da SS e um dos responsáveis pela logística de envio de vítimas para os campos de extermínio nazistas – em Buenos Aires.

Segundo este texto da Aventuras na História, a Argentina foi o país da América do Sul que mais recebeu criminosos de guerra: cerca de 300 segundo o historiador argentino Jorge Camarasa. No filme de Puenzo fica clara a rede de apoio a estes fugitivos. É sugerida, mas fica menos evidente, a rede de informantes judeus que ajudaram o Mossad, serviço secreto de Israel, a capturar muitos destes criminosos.

Um acerto deste filme é que ele não se desvia do olhar de Lilith em nenhum momento. Ao aproximar tanto o espectador de uma família comum como aquela comandada pelo casal Enzo e Eva, a diretora e roteirista quer defender a ideia que o encontro com um criminoso de guerra poderia ter ocorrido com qualquer um. Apenas judeus interessados em justiça poderiam, a exemplo de Nora Eldoc (Elena Roger), reconhecer Mengele com certa facilidade.

Para os demais, mesmo para uma descendente de alemães com certa “admiração” pelos nazistas, como era o caso de Eva, não ficava tão evidente a desconfiança ou a suspeita que aquele poderia ser um fugitivo de guerra importante. Interessante também o jogo que o roteiro faz entre a interpretação do que é perfeito e da importância de sermos todos diferentes. Enquanto Mengele defende o uso da genética e de outros recursos da Medicina para procurar cada vez mais o humano perfeito, Enzo defende para a filha Lilith a importância de cada um ser único ao ter suas próprias imperfeições e qualidades.

Em determinado momento da história, como tudo levava a crer, estas duas visões se chocam. Enzo pede pela saída de Mengele, mas tem os planos adiados com o nascimento dos gêmeos que Eva esperava. E aí, mesmo na iminência de ser encontrado pelo Mossad, Mengele revela o seu lado mais cruel e obcecado. No final, apenas imaginamos quantas pessoas de países latinos não serviram de experimento para aquele homem.

Todos os atores deste filme fazem um grande trabalho. Mas o destaque fica mesmo com Àlex Brendemühl. Ele transparece em cada minuto do filme frieza, autocontrole extremo, obsessão por medir pessoas e para manipular quem está perto. Na reta final, apresenta também o seu lado perverso ao torturar psicologicamente a Nora Eldoc.

O olhar de Lilith, em uma ótima interpretação de Florencia Bado, é sempre de curiosidade, nunca de julgamento. Puenzo acerta nesta escolha. Afinal, como uma boa contadora de histórias, ela deve apresentar os fatos com sensibilidade e atenção, deixando o julgamento para quem assiste a sua obra.

Durante e após a Segunda Guerra Mundial muitas pessoas, seja na Alemanha, seja no Brasil ou em outros países pelo mundo, foram coniventes com absurdos cometidos contra gente de carne e osso. Esse passado ainda assombra muita gente. E contar estas histórias é fundamental para o resgate da nossa memória.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: El Médico Alemán – Wakolda tem muitas qualidades. Começando pela direção segura e bem planejada de Lucía Puenzo e pelo ótimo trabalho do diretor de fotografia e irmão da diretora, Nicolás Puenzo. Aliás, eles fazem parte de uma família de cineastas. Lucía e Nicolás são filhos de Luis Puenzo, diretor de La Historia Oficial, ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1986. E os dois trabalham em uma produtora da família com outros irmãos.

Neste último filme de Lucía, a fotografia é fundamental. A Patagônia, uma das partes mais bonitas da Argentina, acaba sendo também um personagem da história. A diretora sabe explorar muito bem os cenários, mas sem deixar em momento algum de valorizar a interpretação dos atores, mantendo a câmera quase sempre perto do rosto deles para capturar todos os detalhes de suas expressões.

Da parte técnica do filme, além da direção de fotografia, vale destacar a edição segura de Hugo Primero e o ótimo resgate de época do início dos anos 1960 na Argentina feito pela direção de arte de Marcelo Chaves, pela decoração de set de Antonella Pasini e pelos figurinos do trio Nora Lia Alaluf, Beatriz de Benedetto e Pilar Gonzalez. Achei perfeito o trabalho da equipe de som – algo que, muitas vezes, os filmes brasileiros não apresentam – liderada por Andrés Perugini. E para fechar a lista de elogios, muito boa a trilha sonora bem pontual de Andrés Goldstein e Daniel Tarrab.

Importante para este filme Lucía Puenzo ter escolhido um grupo diminuto de personagens. Desta maneira fica mais fácil aprofundar nas características de cada um e na tensão das relações entre alguns deles. María Laura Berch acertou na escolha e no preparo do elenco, especialmente nas figuras de Àlex Brendemühl e Diego Peretti, que interpretam respectivamente ao médico alemão e ao patriarca da família e que acabam sendo os antagonistas da história. Os dois atores dão um show. Florencia Bado e Natalia Oreiro, filha e mãe na história, também fazem um trabalho muito seguro e convincente. E o impressionante é que este é o primeiro filme de Florencia.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de alguns coadjuvantes. Se saem bem nesta produção Guillermo Pfening como Klaus, namorado de Nora e que apresenta ela para o médico alemão; e Ana Pauls como a enfermeira que aparece na reta final da produção.

El Médico Alemán – Wakolda estreou no Festival de Cinema Judeu na Austrália no ano passado. Depois, o filme passaria em Cannes e em outros 20 festivais até abril deste ano. Nesta trajetória o filme ganhou 11 prêmios e foi indicado a outros 10. Entre os que recebeu, destaque para o de Melhor Diretora no Festival de Cinema de Havana e para 10 premiações dadas pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas da Argentina, incluindo as de Melhor Filme, Melhor Diretora e Melhor Ator para Àlex Brendemühl.

Interessante que este filme tem dois títulos – além de El Médico Alemán, também Wakolda. Para quem ficou na dúvida sobre o segundo título, Wakolda é o nome que Lilith deu para a sua boneca sem coração e “imperfeita”. Essa boneca não apenas simboliza a própria Lilith, mas todas as crianças e pessoas que deveriam ser adequadas no mundo ou serem eliminadas segundo a filosofia do médico alemão.

Esta produção teria custado US$ 2 milhões e faturado, nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 401 mil. No restante dos mercados em que estreou mundo afora, o filme teria conseguido outros US$ 2,6 milhões de bilheteria. Ou seja, pelo menos está se pagando.

Para quem gosta de saber sobre as locações dos filmes, El Médico Alemán – Wakolda realmente foi rodado em Bariloche e em Buenos Aires, ambas na Argentina.

El Médico Alemán – Wakolda foi a indicação da Argentina para o Oscar deste ano. Mas a produção não chegou a lista final de indicados.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para esta produção. Uma boa avaliação, levando em conta a média do site. Os críticos que tem o seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 24 textos positivos e 11 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 69% e uma nota média de 6,7.

A diretora Lucía Puenzo tem 37 anos – fará 38 em novembro – e seis produções no currículo como diretora (sendo três longas e três curtas). A estreia dela no cinema foi com o filme XXY, muito interessante e que tem uma crítica no blog aqui. Vale ser visto, e Lucía, certamente, merece ser acompanhada.

Apesar do nome e da cara de alemão, Àlex Brendemühl é espanhol. Pois sim! O ator nasceu em Barcelona em novembro de 1972 e estreou no cinema com o longa Tot Verí em 1996. Ele foi bem reconhecido por seus papéis nos filmes Las Horas del Día e 53 Días de Invierno. Gostei do estilo dele. Também vale ser acompanhado. O “arqui-inimigo” de Brendemühl em El Médico Alemán – Wakolda, o ator argentino Diego Peretti, tem 51 anos e atuou em 37 projetos – incluindo cinema e TV. Bem conhecido em seu país, Peretti tem como trunfos em seu currículo produções como La Señal e Música en Espera.

El Médico Alemán – Wakolda é uma coprodução da Argentina com a Espanha, a Noruega e a França.

CONCLUSÃO: Pouco sabemos sobre as lideranças do regime nazista que fugiram para a América Latina. Esse não é um tema recorrente no cinema. Procurando preencher um pouco esta lacuna, a diretora argentina Lucía Puenzo nos apresenta esta história cercada de suspense e de uma narrativa constantemente tensa. Desde o princípio o espectador espera pelo pior. Por algum ataque ou violência. Por mais que a charada sobre a identidade do protagonista seja facilmente resolvida e muito antes da reta final desta história, o desfecho da produção consegue impactar. Bem dirigido e com atuações convincentes, El Médico Alemán – Wakolda reafirma a qualidade do cinema argentino. Vale pelo resgate histórico.

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Heli

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Há lugares no mundo onde o risco de uma pessoa ser morta ou de ter a vida modificada de forma radical por praticamente razão alguma é muito maior que em outras partes. O México é um destes lugares. Mas há periferias de vários outros países latinos, africanos, do leste europeu, e de praticamente quase todas as latitudes do mundo onde o risco de tragédias acontecerem também é grande. Em Heli somos apresentados a um cenário complicado em diferentes sentidos no México, onde a vida de um jovem e de sua família muda radicalmente. Um filme humano, que dá espaço para vários silêncios, mas que sofre com um bocado de previsibilidade.

A HISTÓRIA: Dois pés, sangue e uma cabeça encostada no chão com uma bota pressionando-a contra a lataria. O rapaz que está com o rosto pressionado pisca, tem uma fita na boca e algumas vezes tenta se livrar daquela bota. A câmera percorre a carroceria da caminhonete mostrando os dois corpos, passa pelo motorista e pelo caroneiro e se fixa no cenário que vai surgindo à frente do veículo. Os homens que estão nele chegam até uma passarela para pedestres que passa sobre a rodovia, carregam os dois corpos e largam um deles lá do alto enforcado. Depois, deixam o local. Corta. Heli (Armando Espitia) tenta namorar com a mulher, Sabrina (Linda González), mas é contido por ela. Batem à porta. Uma garota que está fazendo o censo (Berenice Arnold Hernández) registra os dados da família de Heli. Em pouco tempo eles terão a rotina interrompida de forma trágica.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Heli): Vários filmes gostam de usar a técnica de mostrar uma cena importante, próxima do final, logo no início para, só depois, retomar no tempo para explicar como os protagonistas chegaram naquele ponto. Algumas vezes essa técnica funciona, porque estimula o espectador a ficar atento a cada detalhe do que virá para saber como os personagens chegaram naquele extremo. Mas outras vezes, como em Heli, esse recurso vai contra a história.

Logo nos primeiros minutos do filme a câmera comandada pelo diretor Amat Escalante, responsável pelo roteiro ao lado de Gabriel Reyes – a dupla ainda contou com a colaboração de Zümrüt Çavusoglu e Ayhan Ergürsel -, revelam dois corpos que sofreram com a violência. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois que um dos corpos é jogado da passarela para pedestres, não é difícil desconfiar que o rosto que estava com uma bota sobre ele era o de Heli – afinal, o rapaz aparece na sequência com a mulher. E mesmo de costas, não é difícil desconfiarmos (e não me admira se alguém teve certeza) que a outra vítima era Beto (Juan Eduardo Palacios).

Conforme a história vai se desenvolvendo, achei ruim sabermos logo no início que os dois serão vítimas de um grupo de bandidos. A surpresa, ainda mais em um filme que conta a história de gente simples e marginalizada em diversos sentidos, acaba sendo vital. Heli abre mão deste recurso para tentar despertar a curiosidade do espectador. Uma escolha que vai contra a própria história, não apenas por ser um recurso batido, mas principalmente porque a surpresa da reviravolta sem aquelas cenas teria sido mais impactante.

Se a história de Heli perde impacto ao mostrar parte do desfecho do protagonista e de Beto, o mesmo não pode ser dito do momento em que o filme entra no “castigo” sofrido pelos dois. As cenas são fortes e muito realistas. Especialmente a tortura e a surra sofrida por Beto gela a espinha de qualquer pessoa. Cenas que não podem ser vistas por qualquer pessoa – especialmente pelos jovens, ainda que naquele cenário menores de 18 anos estavam presentes para serem “moldados” por aquela violência.

Como eu disse lá no início, em alguns lugares do mundo a vida é dura e pode ficar radicalmente pior de uma hora para a outra. O ambiente ao redor do personagem Heli é marginalizante. Não apenas porque há perspectiva praticamente nula de melhora de vida, mas também porque o perigo de confrontos entre cartéis de narcotraficantes e de policiais/militares corruptos é constante.

Interessante como o diretor e roteirista Amat Escalante narra esta história. A câmera dele está sempre próxima dos personagens, mas não fica alheia ao ambiente. Pelo contrário. A escassez de oportunidades de trabalho e de estudo, a violência do treinamento militar e dos traficantes, tudo é explorado através das ações das pessoas e do ambiente inóspito e de escassez de recursos – da estrada de terra e dos quilômetros que devem ser percorridos para ir da casa até o trabalho, até os locais “de lazer” sem nada para fazer procurados por Beto e Estela (Andrea Vergara).

Neste sentido, este filme mostra como uma família e uma cidade podem ser moldados pelo ambiente social. Heli e sua família não conseguem se libertar daquele cenário e acabam, por causa da tentativa mal planejada de Beto em quebrar com aquela rotina, tendo a violência que sempre ficou do lado de fora da porta de entrada entrando com força e mudando a vida de todos.

Sacaneado pelos colegas militares, muitas vezes porque não conseguia acompanhar o ritmo de treinamentos, Beto enxerga no furto de pacotes de cocaína desviados de uma operação que deveria significar a destruição de toda a droga uma oportunidade de fazer dinheiro fácil, rápido e, assim, de buscar uma vida diferente ao lado de Estela, com quem queria casar.

O problema destas “ideias de liberdade” é que elas dão errado em 99,999999% dos casos. E é isso o que acontece com Beto. Imaturo, ele esconde a droga roubada na propriedade da namorada. E é aí que a família de Heli se vê envolvida em algo que eles jamais chegariam perto. A violência surge destruidora, invade a residência e faz quase todos de vítima – apenas Sabrina escapa porque foi se consultar com uma espécie de vidente local.

Escalante acerta ao continuar a história após a cena do enforcamento. Um terço do filme, mais ou menos, revela os desdobramentos daqueles fatos. A vida continuou dura após a morte do patriarca dos Silva, especialmente porque Heli não tem notícias da irmã, acaba sendo visto com reticências pela polícia e ainda perde o emprego. Não há generosidade naquele ambiente. Apenas desconfiança, penalização no primeiro erro e ressentimento.

Criado em um ambiente de extrema simplicidade, Heli não tem muita paciência com a mulher que após dar a luz ao primeiro filho do casal, está se preservando porque não quer abortar. Para ela, é difícil ter abandonado a própria família para viver com o jovem naquele local agreste. Levando em conta o que acontece com Beto e Estela, o romance neste filme é visto com desconfiança – afinal, que frutos o amor pode dar? Apenas a continuidade da pobreza e da vida cheia de explorações?

A dúvida que fica no ar, quando Sabrina diz que não quer abortar, é se aquela comunidade está habituada a resolver a gravidez com abortos ou tendo filhos sem refletir nas condições para dar-lhes uma boa vida, com oportunidades de crescimento satisfatórias. Ou seja, planejamento familiar nulo, como acontece em tantos outros lugares. E aí a pobreza apenas segue de geração em geração.

O que Heli nos ensina, como tantos outros filmes com histórias complicadas, é que a vida segue após a tragédia. Nesta produção, de forma dura, com outros problemas, como a vida real. Ainda assim, há esperança e pequenas surpresas. Como o retorno de Estela, que aparentemente foge do cativeiro e consegue voltar para a casa da família caminhando. E o próprio Heli, mesmo demitido, pouco a pouco parece retomar a própria vida. Tanto ele quanto a irmã conseguiram sobreviver. E mesmo sob condições complicadas, não existe presente maior que este. Esta produção vale por esse tipo de reflexão que surge após os créditos finais.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo interessante no trabalho de Escalante neste filme é como o diretor varia entre extremos. De cenas em que ele se aproxima dos atores e valoriza as suas interpretações até aqueles planos abertos em que a paisagem praticamente oprime os personagens. Na questão da fotografia, com direção de Lorenzo Hagerman, os tons são naturalistas, valorizando a claridade e a escuridão quando é o momento de cada uma delas aparecer. Também vale destacar a ótima edição de Natalia López.

Sobre o roteiro, outro acerto de Escalante e de seus parceiros é dar bastante espaço para o silêncio. Nestes momentos não importam as palavras ou as intenções, e sim as atitudes dos personagens e a expressão dos atores – o que, em teoria, demonstraria muito mais a vontade de cada um deles. O cinema dos Estados Unidos não está muito acostumado a estes recursos, mas eles funcionam bem na cinematografia latina e na europeia. Para a nossa sorte.

Falando em cinematografia… Heli é uma coprodução do México com a França, a Alemanha e a Holanda. O filme foi rodado em duas cidades mexicanas: Calderones e Guanajuato, ambas no distrito de Guanajuato.

Dos atores presentes neste filme, vale citar o trabalho dos coadjuvantes Reina Torres como a detetive Maribel; Gabriel Reyes como o detetive Omar; e Ramón Álvarez como Evaristo, pai de Heli e de Estela.

Heli é o quarto longa-metragem do diretor espanhol Amat Escalante. Nascido em Barcelona no dia 28 de fevereiro de 1979, Escalante estreou na direção com o curta Amarrados, em 2002, produzido no México, e lançou o primeiro longa três anos depois, Sangre. Heli, sua produção mais recente, foi a escolha do México para representar o país na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2014. Mas o filme não chegou a ficar entre os cinco finalistas da categoria.

Heli estreou em maio de 2013 no Festival de Cannes. Depois, o filme passaria por outros 21 festivais – um número impressionante! O mais recente foi o Festival de Cinema de Skopje, no dia 26 de abril. Nesta trajetória o filme conquistou 10 prêmios e foi indicado a outros cinco. Entre os que recebeu, destaque para o de Melhor Diretor no Festival de Cannes; Melhor Direção de Fotografia no Festival de Cinema de Estocolmo; Melhor Filme no Prêmio ARRI/OSRAM do Festival de Cinema de Munique; e o Melhor Filme no Elcine First Prize do Festival de Cinema Latino-americano de Lima.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para Heli. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 13 críticas positivas e sete negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 65% e uma nota média de 6,3.

Dos atores envolvidos no filme, achei todos competentes – apesar de, aparentemente, inexperientes. Mas de todos eles, sem dúvida alguma o destaque é a jovem Andrea Vergara. Muito expressiva, ela dá credibilidade para a personagem que é fundamental para a história – afinal, toda a ação se desenvolve a partir desta personagem. Ela simboliza a perda da inocência de uma sociedade agredida pela violência.

Procurei saber um pouco mais sobre Escalante e encontrei esta entrevista interessante dele para o site Butaca Ancha. Logo na primeira pergunta ele comenta porque gosta de trabalhar com atores não-profissionais. De como busca, para um filme como Heli, pessoas do local em que ele vai contar a história. Para começar, Escalante comenta, ele gostaria de fazer documentários.

Depois, afirma que as pessoas precisam acreditar nas histórias e nos personagens e que, por isso, já não é tão fácil pegar uma jovem de um centro urbano e fazer ela se passar por alguém do interior. Ele tem razão, ainda que eu ache que, muitas vezes, um grande ator consegue se fazer passar por qualquer pessoa – e que trabalhar sempre com não-profissionais é uma forma de desvalorizar a categoria. Mas concordo que, algumas vezes, é necessário – como é o caso de Heli.

Outra entrevista interessante com o diretor é esta do TimeOut México. Nela, Escalante comenta como quis mostrar através de imagens a insegurança relacionada ao crime organizado no país – onde não sabe de onde pode vir o perigo. Ele comenta que utilizou fatos reais para se inspirar para a história – como vídeos que vazaram de treinamentos militares em que havia humilhações como a sequência do rapaz tendo que passar sobre o próprio vômito e um sequestro seguido de morte que aconteceu em Guanajuato envolvendo militares. Interessante e recomendada a entrevista.

CONCLUSÃO: A história de pessoas simples normalmente não é contada. Há inúmeros filmes sobre personalidades famosas e histórias incríveis, mas o que acontece com gente comum em lugares complicados geralmente não importa para o cinema. Heli rompe com essa regra não oficial e nos apresenta uma história dura, com pelo menos uma cena de arrepiar, e que faz cada espectador refletir sobre a capacidade das pessoas – e da gente mesmo – em sobreviver independente do que aconteça. Ainda que a produção perca força porque as cenas iniciais “estragam” boa parte da surpresa, após os créditos finais a reflexão sobre o que vimos bate forte. Há esperança no final, por mais difícil que algumas retomadas possam parecer.

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Lone Survivor – O Grande Herói

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Muitos filmes de guerra flertam com o patriotismo exagerado. Bom e protegido por Deus é aquele que defende o nosso país, e o mal está do lado do inimigo. Defender bandeiras é algo comum neste gênero. E mesmo sem escapar desta característica, que normalmente eu acho prejudicial, Lone Survivor surpreende pelo realismo, a ótima direção de Peter Berg e uma história que faz homenagens. Não apenas aos combatentes que viram “irmãos” mas, principalmente, ao senso de justiça e de honra. Baita filme, e que mereceu a bilheteria que fez nos Estados Unidos.

A HISTÓRIA: Um soldado é retirado da água fria e lhe perguntam o quanto é seis vezes três. Ele treme. Outro soldado, também tremendo, responde 18. Em seguida, várias cenas de treinamento pesado, muitas que levam os soldados até o esgotamento físico e mental. Há quem veja ali imagens de tortura – especialmente as cenas da técnica “impossível de respirar”. Todos são ensinados a não desistir. Depois, a informação de que a trama que se segue é baseada em uma história verídica. Afeganistão. Pouco a pouco, um helicóptero se aproxima.

Dentro dele, o soldado Marcus Luttrell (Mark Wahlberg) está muito ferido e recebendo atendimento médico. Enquanto a ação se desenrola, ouvimos Luttrell falando da tempestade que cada um carrega dentro de si, sobre a necessidade de cada soldado ser empurrado até o extremo. Em seguida, a ação volta três dias no tempo, quando Luttrell e seus companheiros partem para uma missão arriscada e que vai se mostrar de grande sacrifício.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Lone Survivor): As primeiras cenas deste filme me preocuparam. Isso porque elas me pareceram um preâmbulo para dizer que todos os exageros praticados na preparação dos soldados é justificado. Inclusive a polêmica técnica “impossível de respirar”, que leva os soldados a mergulharem em uma piscina totalmente imobilizados, considerada por muitos uma espécie de tortura, poderia fazer parte de um treinamento necessário segundo o filme dá a entender. Conforme a história vai passando, fica evidente que aquelas cenas reais no início da produção fazem parte do conjunto da obra para explicar o que virá. A surpresa não está na justificativa, propriamente, mas no que veremos no decorrer da história.

Como pede a técnica utilizada por muitos roteiristas, Lone Survivor gasta os primeiros minutos da produção para mostrar um pouco da “vida comum” dos Navy SEALs – a elite da Marinha dos Estados Unidos – antes de mergulhar na ação propriamente dita. O primeiro acerto deste filme é que ele não gasta muito tempo com a “introdução trivial”. Há um pouco de humor ali, um pouco de “humanização” dos personagens centrais, mas nada que comprometa muito da narrativa. Afinal, o que realmente importa é a ação.

Logo o espectador é apresentado para os detalhes da missão liderada por Michael Murphy (Taylor Kitsch). Ele vai para a missão de reconhecimento em um terreno íngrime no Afeganistão junto com Matt Axelson (conhecido como Axe, interpretado por Ben Foster), responsável por registrar os alvos; Danny Dietz (Emile Hirsch) responsável pela comunicação com abase; e Marcus Luttrell nos cuidados com os mantimentos/suprimentos.

Funciona muito bem a forma com que o diretor e roteirista Peter Berg apresenta a missão do grupo de quatro Navy SEALs. Isso porque o espectador guarda os indicativos que vão servir para aqueles soldados enviados em uma missão de reconhecimento para identificar os alvos: Ahmad Shah (Yousuf Azami), comandante sênior do Talibã, em primeiro lugar e, como segundo alvo, o braço direito dele, Taraq (Sammy Sheik). Os nomes de marcas de cervejas para marcar os diferentes estágios da missão e o nome do cantor de funk e soul norte-americano Rick James representando Shah são fáceis de lembrar e ajudam o espectador a começar a sua própria torcida.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Ainda que o título original desta produção seja muito sugestivo (Lone Survivor significa, em uma tradução livre, Único Sobrevivente) e que fique subentendido que o personagem de Mark Wahlberg deve ter sido o único sobrevivente daquela missão de reconhecimento, conforme a história vai se desenrolando, o espectador é levado a torcer para aqueles homens incansáveis. E aí, quando naquela missão as coisas começam a dar errado, você aprende o significado da paciência. Afinal de contas, é preciso lutar e esperar pelo próximo golpe antes de revidar já que, não se esqueça, tudo pode piorar.

E neste quesito que Lone Survivor se revela um esplendor de cinema de guerra e de ação. Porque quando a artilharia começa, o espectador é lançado a uma eletrizante sequência de luta que fala muito sobre a persistência do ser humano em tentar sobreviver e atingir os seus objetivos. E no caso daqueles homens, com o objetivo principal tendo se esvanecido – capturar e/ou matar as lideranças do Talibã -, o que passa a ser prioridade é cuidar da vida dos companheiros de farda e tentar sobreviver, voltando para casa assim que possível.

Mas a vida daqueles soldados vira um inferno. E tudo começa porque, caramba!, a comunicação falha. Não adianta o investimento bilionário de todos os anos, há regiões ermas deste mundo em que a tecnologia existente não é capaz de solucionar as limitações provocadas por montanhas de diferentes envergaduras.

Mesmo baseado em uma história real, achei interessante como o roteiro de Berg, inspirado no livro de Marcus Luttrell e Patrick Robinson, não maquia esta “falha de recursos” dos Estados Unidos. E mesmo depois, quando a história está na reta final, Lone Survivor não esconde que o erro de estratégia do comando, ao enviar os helicópteros de apoio para outra missão antes de saber se a equipe de reconhecimento iria passar por algum aperto ou se estava segura. Houve falhas na operação, não há dúvidas, e o roteiro deste filme não as desmente ou encobre.

Para mim, o primeiro grande momento de Lone Survivor é quando Marcus Luttrell, Danny Dietz e Matt Axelson discutem o que eles devem fazer com os pastores de cabras naquela montanha do Afeganistão. A lógica pedia que a recomendação de Dietz e Axe fosse seguida, ou seja, que eles deveriam deixar eles amarrados ou eliminar a ameaça. Caso fizessem isso, a missão prosseguiria e eles estariam seguros – pelo menos, em teoria. Mas Luttrell argumenta diferente, e pede que Michael Murphy respeite as regras da guerra e dos direitos humanos, não importando o que poderia acontecer com eles na sequência. O medo dos soldados, claro, era que aqueles pastores os dedurassem para os inimigos.

Só achei a sequência da discussão um pouco longa e “politicamente correta” demais. Será mesmo que eles ficariam tanto tempo argumentando até que Murphy tomasse a decisão? Acho que uma situação como aquela pediria uma resposta mais rápida. Ainda assim, é um momento decisivo do filme – porque, entre outras coisas, mostra o sentido de honra por parte dos Navy SEALs – eles fazem o correto, apesar de saberem o preço que podem pagar na sequência.

Mesmo que este momento seja importante, para mim o filme começa a impressionar de verdade e a mostrar como ele é diferente de qualquer outro do gênero quando, acuados pela primeira vez, decidem “sair” daquela situação em queda livre. Uau! O que foi aquela sequência? Decisiva para a história e de cair o queixo. Mas ela seria apenas a primeira de muitas cenas que mostraram a bravura, coragem e determinação daqueles soldados. Para eles, não havia dor e nem sentimento de derrota. Eles iriam até o fim, até o ponto em que não pudessem aguentar mais.

Até chegar naquele ponto, tentariam matar ao máximo de inimigos. E fizeram muito estrago. Apesar disso, Lone Survivor não é um filme em que todos os “mocinhos” se saem bem. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E o protagonista mesmo, só sobrevive porque Gulab (Ali Suliman), literalmente, lhe estende a mão. E daí que aprendemos uma outra lição sobre honra. Ensinamento este que será compreendido apenas se você ficou assistindo o que veio após as cenas de ação finais. Lone Survivor mergulha na homenagem aos homens reais que viveram esta história e, só então, explica a razão de Gulab ajudar a Marcus Luttrell – para mim, um grande acerto dos realizadores. Afinal, eles mantém a dúvida dos espectadores até o último minuto, mas não deixam de dar uma explicação para o que havia acontecido.

Mas antes disso tudo acontecer, há uma outra sequência que torna este filme eletrizante e diferenciado. Praticamente derrotados, Marcus e Axe comemoram quando a “cavalaria” chega pelos ares. Eles – e nós por tabela – chegamos a pensar: ufa, a salvação será possível! E aí, meus caros, acontece mais uma surpresa no filme. Imagens realistas, sem dúvida, assim como todas as outras para as quais somos apresentados. Aliás, uma qualidade do trabalho de Berg é dirigir de uma forma com que você se sente um “companheiro” ao lado dos Navy SEALs. Forma muito eficaz de imersão do espectador – e o diretor dá uma aula neste quesito, mantendo a câmera sempre perto dos atores e se movimentando muito com eles.

Na reta final, finalmente, tive o meu temor sobre este filme ser um grande libelo ufanista sobre os combatentes dos Estados Unidos praticamente todo eliminado. Claro que grande parte da produção é para mostrar a entrega deles. Mas o final de Lone Survivor redime qualquer leitura injusta dos “inimigos” ao mostrar que, além dos extremistas, existem pessoas comuns que não querem ver as suas famílias sendo exterminadas por conflitos que eles não concordam.

E a exemplo de Murphy, que decide fazer o certo independente do preço que eles e seus companheiros iriam pagar, Gulab também decide fazer o certo, mesmo sabendo que poderia morrer e que todos em seu vilarejo poderiam ter o mesmo fim. Desta forma, com uma direção eletrizante e competente e uma história que tem algumas surpresas cruciais, Lone Survivor nos ensina um bocado sobre o senso de dever, de fazer o que é certo e justo. Em outras palavras, o senso de honra. Bacanérrimo.

Agora, apesar de todas as qualidades deste filme, ele não recebe a nota máxima porque, de fato, acho que ele justifica demais alguns absurdos na postura dos “heróis norte-americanos”. Ainda que eles busquem fazer o que é certo, dá para perceber um certo controle de “vou matar todos vocês” quase todo o tempo, não importante quem seriam, exatamente, aquele “todos vocês”. E ainda que os soldados sejam levados ao extremo nos treinamentos para estarem preparados para batalhas como aquela vivida pela equipe de Murphy, jamais eu vou achar que a tortura seja justificável. Uma coisa é a hora da batalha, quando as pessoas devem se superar, outra é a de preparação para aquele momento.

De qualquer forma, e descontados os exageros no patriotismo, Lone Survivor nos traz valiosos ensinamentos sobre honra, senso de lealdade, capacidade de superação e de ultrapassar os próprios limites do corpo, da dor e da mente. Inspirador. E faz refletir. Além de ser um ótimo entretenimento, com uma ação muito bem planejada – dando os devidos momentos para a adrenalina e para as sequências lentas e de contemplação/reflexão. Quase irretocável.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei da escolha dos realizadores deste filme por apostarem 90% da produção (ou mais) na dinâmica do grupo de reconhecimento enviado para capturar/matar as lideranças do Talibã. Concentrar a ação naqueles personagens dinamiza a história e torna mais fácil estimular o espectador para torcer pelos atores – que, aliás, fazem um grande trabalho. Ainda assim, acho que faltou um pouco mais de “conteúdo” sobre os bandidos que deviam ser combatidos.

Esta produção me surpreendeu por ter elementos que podem interessar tanto ao público masculino quanto ao feminino. O primeiro é fisgado não apenas pelas ótimas cenas de combate e de ação, mas também pelas piadinhas feitas com o novato Shane Patton (Alexander Ludwig). O segundo público vai gostar das sequências iniciais, quando o belo elenco ainda não está detonado, achará interessante a dancinha de Shane e seguirá com atenção os bonitões em cena – mesmo quando eles estiverem bem destruídos. Como eu gosto de todos os estilos de filme, gostei de Lone Survivor por todos estes quesitos e todos os demais que eu comentei anteriormente. 🙂

Fiquei impressionada com o trabalho do diretor Peter Berg. Ele dá um show na forma de conduzir a história, dando não apenas realismo para ela, mas também cuidando para não fazer de Lone Survivor apenas mais um filme de guerra cheio de tiroteio. Ainda que haja muitas sequências deste gênero, o diretor também valoriza o trabalho dos atores, da equipe de maquiagem e do diretor de fotografia, adicionando cenas de pura contemplação em diversos momentos.

Por falar na equipe técnica do filme, além do trabalho de Berg, merece uma longa reverência o trabalho do editor Colby Parker Jr., a direção de fotografia de Tobias A. Schliessler e a maquiagem feita pela equipe de nove profissionais liderados por Howard Berger e Geordie Sheffer. Outro ponto importante da produção e que funciona muito bem é a trilha sonora de Explosions in the Sky e Steve Jablonsky. Ainda que o forte do filme seja o som e a edição de som dos momentos de batalha, a trilha sonora entra em situações pontuais e que ajudam a alimentar a tensão/expectativa/torcida.

Lone Survivor estreou no Festival de Cinema da AFI em novembro de 2013. Esta foi a única participação do filme em eventos do gênero. Mesmo assim, a produção recebeu cinco prêmios e foi indicada a outros 12 – incluindo a indicação para dois prêmios no Oscar. Entre os principais estão o de Performance de Ação Marcante de Elenco no Screen Actors Guild Awards; e os de Melhor Filme de Ação e Melhor Ator em Filme de Ação para Mark Wahlberg entregues no Broadcast Film Critics Association Awards.

Para quem gosta de saber sobre o local de gravações dos filmes, Lone Survivor foi totalmente rodado no Novo México – com cenas externas e em estúdio na cidade de Albuquerque.

De acordo com o site Box Office Mojo, Lone Survivor teria custado aproximadamente US$ 40 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 124,6 milhões. Um belo resultado, e que deve ficar ainda melhor quando a produção estrear em outros mercados no mundo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para Lone Survivor. Uma ótima avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 147 textos positivos e 48 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 75% e uma nota média de 6,6.

Este é um filme com produção 100% dos Estados Unidos – sendo assim, ele entra para a lista de títulos que foram comentados aqui no site, daquele país, após uma votação feita com vocês, meus bons leitores.

Termino o texto inicial por aqui. Assim que possível, vou acrescentar algumas curiosidades sobre esta produção. Até logo!

ATUALIZAÇÃO (10/06): Colocando os links neste texto, algo que não fiz quando o publiquei, é que notei um esquecimento imperdoável. Não citei o bom trabalho do ator Eric Bana como o comandante Erik Kristensen. Falha minha! Mas corrigida agora. Bana está bem no papel, ainda que Kristensen não tenha grande relevância para a história – comparado com os quatro protagonistas.

CONCLUSÃO: Não fique surpreso se, mesmo tendo assistido a diversos filmes sobre guerras e ações promovidas pelos Estados Unidos, você ficar boquiaberto com Lone Survivor. Da minha parte, posso dizer: nunca vi a um filme como este. E isso não apenas porque esta produção é baseada em fatos reais – uma característica marcante dos indicados no último Oscar. Mas principalmente pela honestidade na narrativa. O roteiro é eletrizante, e a direção, exemplar. O filme envolve e surpreende e, apesar do patriotismo ianque – que, cá entre nós, acho cada vez mais justificável e compreensível -, rende a devida “homenagem” ao outro lado. Porque, afinal de contas, nem todos são inimigos no território inimigo. Se você gosta de filmes do gênero, não deve perder este.

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Pozitia Copilului – Child’s Pose – Instinto Materno

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Por trás de um grande idiota normalmente existe uma sequência de erros. E muitas vezes boa parte destes equívocos tem origem na criação do sujeito. Pozitia Copilului trata de um caso assim. Que poderia ser a história de diversos destes boçais que provocam horrores no trânsito ou em crimes contra as ex-namoradas e que fazem de tudo para sair ilesos. Com um baita roteiro, destes em que não é preciso tirar e nem acrescentar nada, este filme tem nas relações familiares e, especialmente, no domínio de uma mãe o seu argumento principal.

A HISTÓRIA: Sentada em um sofá e com um cigarro na mão direita, Cornelia Keneres (Luminita Gheorghiu) diz que tem vergonha de repetir o que lhe disseram. Mesmo assim, em seguida, ela diz que “estúpida” e “idiota” já viraram xingamentos habituais. Mas o grau desta vez superou em muito este padrão. Olga (Natasa Raab) escuta tudo com atenção e aconselha a irmã a deixar o filho em paz, pede para ela parar de sufocá-lo e esperar que ele a procure. Mas Cornelia não escuta. Ela diz que viu o filho, Barbu (Bogdan Dumitrache) depois de dois meses e meio e que a culpada de tudo é a nova mulher dele, Carmen (Ilinca Goia). Não vai demorar muito para que Barbu sofra um acidente grave que vai acabar testando ainda mais as relações familiares.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Pozitia Copilului): Como é bom assistir a um filme que valoriza o roteiro e o trabalho dos atores! Pozitia Copilului tem como protagonista uma mãe que faz absolutamente tudo para o filho, mesmo que ele esteja constantemente maltratando a mulher. Ser rejeitada pouco importa. Pouco a pouco vamos descobrindo mais sobre a personalidade de Barbu, assim como da protagonista, ao mesmo tempo que vai ficando claro o que aconteceu no acidente provocado pelo rapaz.

O roteiro de Razvan Radulescu com o diretor Calin Peter Netzer é uma pequena preciosidade. Antes de mais nada, porque ele vai entregando o ouro aos poucos. Nas primeiras frases do filme ficamos em dúvida sobre a origem das queixas de Cornelia. A primeira impressão é que ela está falando do marido, mas conforme o diálogo da personagem com a irmã vai se desenvolvendo, percebemos que ela está falando do filho.

O sujeito alvo de tantas críticas vamos conhecer um bocado de tempo depois, e não damos muita bola pra ele. Porque o personagem de Barbu é bem daquele jeito: um sujeito insignificante, sem nenhum grande predicado até que ele começa a abrir a boca e a maltratar a própria mãe. Na delegacia, quando ele está prestando depoimento, mais uma vez é Cornelia que se faz ouvir. O acerto no roteiro deste filme é justamente este de ir revelando sobre os personagens centrais pouco a pouco.

Outra vantagem desta história é que ela tem poucos personagens. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O protagonismo é da mãe, Cornelia, ainda que a história toda gire em torno do filho dela. As revelações sobre estes dois personagens e a dinâmica entre eles é que vai rechear o filme. Me impressionou o realismo de Pozitia Copilului. Digo isso porque não são poucas as mães como Cornelia.

Ela não apenas faz tudo pelo filho e o coloca em primeiro lugar, como faz questão de ter controle sobre tudo – desde o filho até o marido. Cornelia tem o perfil da mulher que sufoca, que não dá espaço para os outros serem – apenas para eles obedecerem e andarem conforme a música que ela compõe. E há ao menos um momento em que ela diz o que pensa com todas as letras: quando afirma que se realiza através de Barbu.

Oras, meus caros amigos e amigas, que desvio de função para um filho é este? De fato um filho ou filha deve ser a extensão dos anseios e desejos dos pais? Que tipo de cobrança e de controle é esse? E o mais assustador é que não é apenas a personagem de Cornelia que pensa assim, mas há muitas mães e pais por aí que tem esta lógica guiando as suas vidas.

Para mim, que ainda não sou mãe e, por isso mesmo, sigo sendo apenas uma filha, uma mãe ou pai nunca podem projetar os seus sonhos e frustrações em seus filhos. Primeiro porque este tipo de cobrança é injusta. Depois, porque um filho deve ser visto como um ser único, particular, para o qual devemos dedicar o nosso melhor, ensinar valores e a fazer o certo, mas que deve ter toda a liberdade para ser o que desejar ser e desenvolver as suas próprias vocações.

Quando uma pessoa assume a postura da personagem da Cornelia, ela passa a ser a carrasca da vida do filho, dizendo o que ele deve ou não fazer, o que deve ou não pensar, sem dar qualquer espaço para a individualidade do sujeito. A excelente atriz que faz Cornelia consegue vivenciar à risca esta personagem controladora, ao mesmo tempo em que transparece todo o amor de uma mulher por seu filho. Este amor materno é imenso e belíssimo, mas deve cuidar para não ser algoz do filho e de quem mais a rodeia por consequência.

Além de ter personagens muito bem desenvolvidos, Pozitia Copilului tem uma história simples e muito bem desenvolvida. Um personagem como Barbu, um sujeito adulto que viveu sendo mimado pelos pais – especialmente pela mãe – e que, desta forma, parece não ter limites para a própria verve de crueldade, normalmente é a criatura por trás de acidentes de trânsito que vitimam o lado mais fraco. No caso do filme – e de tantos casos da vida real -, um jovem adolescente de uma família simples e sem muitos recursos.

Dentro da lógica acertada dos roteiristas Radulescu e Netzer de ir soltando as bombas aos poucos, ficamos sabendo só bem mais tarde os detalhes sobre o acidente provocado por Barbu. Quando Cornelia avança na tarefa de encobrir o crime do filho e procura o outro motorista envolvido no acidente, Dino Laurentiu (Vlad Ivanov), para fazê-lo mudar o depoimento que tinha dado até então para livrar o filho de excesso de velocidade e de imprudência na morte do jovem rapaz vizinho do local do atropelamento, ficamos sabendo que Barbu estava não apenas dirigindo acima da velocidade permitida, mas que também dirigia de forma violenta. Para ser mais precisa, praticamente disputou um racha com Laurentiu – que afirmou que o outro vinha tentando ultrapassá-lo de forma babaca há tempos.

Já vi muitas situações como aquela descrita por Laurentiu no filme. Um sujeito qualquer, um babaca destes que existe aos montes no trânsito, surge de forma virulenta atrás de um outro carro e procura retirá-lo da pista a qualquer custo para ultrapassar em uma velocidade bem acima do permitido. Este comportamento violento, para mim, sempre foi indício de sujeitos desequilibrados. E muitos deles são exatamente como Barbu, adultos que não tiveram e nem tem limites porque sempre foram superprotegidos por mães que mandam e controlam suas famílias ricas e com muitas posses para achar que podem comprar a tudo e a todos.

Quantos equívocos, meu Deus! Não apenas de mães, pais e filhos, mas também de pessoas como Laurentiu que acabam cedendo na convicção de fazer o que é certo e frear esta soberba sem limites para apenas dar razão para os idiotas em um tipo de “corporativismo” dos abastados que acaba apenas dinamitando as nossas sociedades.

Agora, ainda que Cornelia e o marido Domnul Fagarasanu (Florin Zamfirescu), conhecido mais como Relu, sejam culpados pela falta de limites do filho, não dá para ausentar Barbu de sua própria culpa. Ele é um verdadeiro cretino, destes sujeitos desprezíveis e covardes que se fazem de vítimas quando é algo do próprio interesse mas que, por trás da fumaça de ilusões, dão a impressão que são incapazes de alimentar qualquer sentimento benéfico. Eu não sei se figuras como Barbu conseguem sentir – ou que tipo de sentimentos são capazes de alimentar.

E será que este poderia ser o único futuro de um filho criado por uma mãe controladora como Cornelia? Em certo momento ela recorda da época em que Barbu era amoroso, sensível e tudo o mais. Mas os pais se equivocam achando que o filho que eles tem na infância será o mesmo sempre caso ele não aprenda os valores certos.

Me parece evidente que a criança seja “obediente” e/ou “amorosa”, afinal, ela depende dos pais e só conhece aquela realidade – até uma certa idade. Mas depois, quando passa a pensar por sua própria conta, aquele mesmo indivíduo começa a ver as falhas dos pais, começa a discordar de parte da realidade em que vive. Se esta pessoa foi criada com os valores certos, o choque pode ser mais suave. Mas se foi formada com a noção de que pode fazer tudo e que não tem barreiras para nada, certamente o efeito será pior.

Mesmo afirmando isso, evidente que eu não acredito que uma figura como Barbu não poderia ter escolhido outra realidade para si mesma. Por mais trágica ou cruel que seja a nossa formação, temos toda a liberdade para nos curarmos daquele cenário no futuro. Dá trabalho? Com certeza, mas nada é impossível para o ser humano se ele quiser buscar o caminho do bem e superar os seus próprios males.

Agora, em uma realidade como a mostrada em Pozitia Copilului, no fim das contas, qual é o saldo possível daquele cenário e que poderia ser o retrato de qualquer acidente provocado por um sujeito sem limites nas nossas rodovias e estradas reais e mortíferas? Apenas o de perdas, de vítimas provocadas por relações entre pais e filhos nada saudáveis. Não apenas os pais do garoto morto (interpretados por Adrian Titieni e Tania Popa) viraram vítimas de Barbu junto com o filho, mas também Carmen sofreu na pele os destemperos daquele homem com sérios problemas de comportamento.

Mais que um ótimo desenvolvimento no decorrer do filme, com o aprofundamento da história e dos personagens, Pozitia Copilului tem um ótimo final. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Quem estava simpatizando com Cornelia até aquele momento, dando razão para a mãe que estava fazendo de tudo para proteger o filho e afastá-lo da prisão – mesmo que isso significasse mentiras, suborno e que fosse errado -, passa a ter esta visão otimista balançada pela reta final da produção. Afinal, como não abominar aquela mulher que vai visitar os pais da vítima e que, mesmo ali, enaltece o filho ao invés de realmente se colocar no lugar dos outros? O egoísmo dela é de mexer com os brios.

E desta forma, com um roteiro inteligente e poucos atores, este filme comprova como tantos outros já fizeram que o cinema não precisa de rios de dinheiro. Basta uma grande ideia na cabeça e uma câmera na mão, praticamente. Com estes recursos é possível fazer pensar e mexer com os sentimentos e as certezas das pessoas, como este Pozitia Copilului faz muito bem.

Agora, para não dizer que o filme é perfeito, em alguns momentos há pequenas falhas na direção de Calin Peter Netzer, com um certo descontrole da câmera – especialmente quando Cornelia e Carmen chegam na casa dos pais do adolescente morto. E alguns devem ficar incomodados com a sequência final, quando Barbu vai falar com o pai do jovem e não sabemos qual é o desabafo do crápula.

Da minha parte, tenho um palpite: acho que ele foi lá pedir desculpas e dizer para o pai do garoto que ele estava disposto a pagar pelo próprio erro, a despeito da mãe superprotetora. Mas como o roteiro não deixa isso comprovado, qualquer outra versão da fala dele também é válida. Daí fica ao gosto do espectador. Muitos não gostam desta fórmula, mas eu acho os finais “abertos” sempre interessantes. Independente do gosto sobre este final, algo é certo: Pozitia Copilului cumpre muito bem o seu papel.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O ponto alto de Pozitia Copilului é, como eu disse antes, o ótimo roteiro da dupla Razvan Radulescu e Calin Peter Netzer. Mas além daquelas linhas bem escritas, com diálogos marcantes e onde não há palavra que sobre, devo destacar também o trabalho de Netzer na direção. Ele assume a postura quase de um documentarista, com uma câmera ligeira e que busca sempre estar próxima dos atores. Esqueça planos abertos e a valorização de paisagens e/ou cenários. O que interessa nesta produção é a interpretação – os gestos e o que é dito.

Este filme, para mim, é mais um exemplo como o Oscar pode ser benéfico para o cinema mundial. Eu estava de olho em Pozitia Copilului não porque o filme tinha recebido este ou aquele prêmio, mas porque era considerado um forte candidato para o Oscar – antes da lista de indicados ser divulgada. No fim das contas ele ficou de fora da reta final da disputa, mas ainda assim ele ganhou uma certa evidência. Os indicados de cada país na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira, normalmente, merecem uma conferida. O difícil é arranjar tempo para ver a todos. 🙂

Fiquei impressionada com o trabalho da atriz Luminita Gheorghiu. Ela está perfeita no papel de Cornelia, em um papel que tem várias camadas de interpretação. Para mim, a qualidade desta atriz é similar ao do trabalho de Paulina García em Gloria (comentado aqui). Mas o curioso é que García foi muito mais badalada que Gheorghiu. Para ver como nem sempre os burburinhos do cinema fazem justiça com todos.

Falando nos atores de Pozitia Copilului, além de Gheorghiu, chamou muito a minha atenção o trabalho de Ilinca Goia como Carmen – ela rouba a cena toda vez que aparece e tem um momento incrível na produção quando faz aquela confissão constrangedora para a mãe de Barbu sobre a intimidade deles. Gostei também da firmeza de Vlad Ivanov no papel do arrogante Dinu Laurentiu – ele aparece pouco, mas tem uma presença marcante.

Da parte técnica do filme, o único destaque além da direção de Netzer é a edição de Dana Bunescu. O restante funciona, mas sem nenhum outro destaque.

Pozitia Copilului estreou em fevereiro de 2013 no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Depois, o filme participaria ainda de outros 14 festivais, incluindo os de Karlovy Vary, Toronto, San Sebastián, Londres, São Paulo e Estocolmo. Nesta trajetória ele conseguiu três prêmios e foi indicado a um quarto prêmio. Entre os que recebeu, destaque para o Urso de Ouro de Melhor Filme no Festival de Berlim e para o Prêmio FIPRESCI entregue no mesmo evento.

Esta produção teria custado aproximadamente 850 mil euros e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 33,7 mil. Pouco, quase nada, porque estreou em um circuito limitadíssimo. Infelizmente não consegui encontrar informações sobre a bilheteria do filme em outros mercados. Mas eu espero que ele consiga se pagar.

Fiquei curiosa para saber o significado do título original do filme já que, para o meu gosto, “Instinto Materno” me parecia um pouco estranho. A tradução literal de “Pozitia Copilului” é “posição do bebê”. Hummmmm… ainda mais misterioso este título. 🙂 Mas dá para usar a criatividade e fazer uma interpretação dele em relação a história do filme. O título em inglês acompanha o original, apenas a tradução para o mercado brasileiro que leva o título para outra linha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para este filme. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes escreveram 46 textos positivos e três negativos, o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média 7,5. Boas avaliações segundo os padrões dos dois sites.

Este é apenas o terceiro longa do diretor Calin Peter Netzer. Ele estreou no cinema com o curta-metragem Zapada Mieilor, de 1998. O primeiro longa veio cinco anos depois: Maria. Entre aquela produção e Pozitia Copilului, houve ainda Medalia de Onoare. Segundo o site IMDb, a melhor avaliação entre estas produções é a de Zapada Mieilor com a nota 7,9.

Pozitia Copilului é uma produção 100% da Romênia. E ela foi indicada por aquele país para representá-lo no Oscar.

CONCLUSÃO: Um filme direto, com um ótimo roteiro e interpretações muito convincentes. Pozitia Copilului é destas produções que não vão te deixar sem reação. Como um legítimo tapa no rosto, este filme pelo menos desperta reflexão, quando não alguma indignação. 🙂 E o mais interessante é que da forma com que ele é construído, bem que ele poderia ser um documentário de imersão na realidade de muitas famílias com boas condições de vida e pouca noção do que é ter relações saudáveis. Como diria o Cazuza, “só as mães são felizes”. Mesmo na infelicidade, assim parece sugerir Pozitia Copilului. Esse amor é impressionante mas, algumas vezes, também bastante destrutivo. Vale assistir, se entregar para a história e refletir sobre o que encontramos por aí.