Right Now, Wrong Them – Certo Agora, Errado Antes


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Lembra daquele dia em que você passou por diversas situações, teve que optar por vários caminhos e, depois, pensou que teria sido melhor ter feito algo diferente? É sobre um outro desenvolvimento de trama que Right Now, Wrong Them trata. São duas histórias praticamente repetidas em uma, com um desenvolvimento parecido mas não idêntico. Os detalhes fazem a diferença. A vida é assim, cada escolha nossa nos leva para uma trajetória distinta. Filme lento, que narra um dia comum na vida de um diretor de cinema, exige paciência. Segue outra escola cinematográfica, muito diferente de Hollywood. É um filme interessante, mas que, sem dúvida, exige do espectador.

A HISTÓRIA: Capítulo 1: Certo Antes, Errado Agora. Yoon Hee-jeong (Min-hee Kim) entra no palácio Haenggung. Do lado de fora, o diretor Ham Cheon-soo (Jae-yeong Jeong) observa ela entrando, contempla uma árvore na praça do mercado e toma um café. Como narrador da história, ele comenta que aquela era a primeira vez dele em Suwon. Depois, no quarto de hotel, ele abre a janela e observa a sua ajudante (Ah-sung Ko) na porta do local. Ele lembra da garota bonita e jovem que viu antes e comenta para si mesmo que deve ir devagar. Saindo do hotel, ele encontra e sugere para ela que eles passem um tempo na pista de gelo próxima dali. A ajudante dele elogia o trabalho do diretor. Depois de passarem um tempo na pista de gelo, Cheon-soo vai para o palácio Haenggung, onde se encontra com Hee-jeong. A partir daí eles passarão o dia juntos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Right Now, Wrong Them): Esta é uma produção que não tem muito o que detalhar além do que escrevi na introdução e na conclusão. Right Now, Wrong Them é um filme de Sang-soo Hong que trabalha, essencialmente, sobre uma premissa: como cada pequena decisão nossa pode nos levar para caminhos muito diferentes.

Durante a experiência de assistir ao filme, como comentei antes, o espectador terá que ter paciência. Como em tantas outras histórias filosóficas do cinema asiático. A narrativa é lenta e trata de um dia comum na vida dos personagens retratados. Ninguém faz nenhum grande gesto ou passa por situação limite ou de grande exigência. Na verdade, este é um filme sobre a normalidade, o cotidiano, as pequenas decisões do dia a dia. Para alguns, pode ser uma crônica da normalidade. De fato assim é.

A ousadia do diretor Sang-soo Hong, para mim, está justamente em apresentar duas histórias praticamente iguais para o espectador. O grande desafio é sair de uma narrativa e entrar praticamente na repetição dela. Quem vence o tédio da repetição inicial vai, pouco a pouco, encarando as sutis diferenças do primeiro e do segundo ato do filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Nosso protagonista, o cineasta Ham Cheon-soo, não deixa de ser um “mulherengo”, um sujeito casado que quando encontra uma bela garota cai em cima dela com cantadas relativamente baratas.

Na primeira versão da história, considerada “errada”, Cheon-soo tem um dia livre antes de seu compromisso e gasta boa parte dele dando em cima da ex-modelo e atual artista plástica Yoon Hee-jeong. Nesta primeira versão dos fatos ele acaba sendo confrontado pelas amigas de Hee-jeong, que acabam servindo de instrumento para que a artista plástica saiba que ele é casado. A decepção, evidentemente, entra em cena, ainda mais com a menina já bem alcoolizada, e cada um acaba a noite seguindo o seu próprio caminho sozinhos.

Na segunda versão da história, aquela que é considerada “correta”, Hee-jeong acaba ouvindo do próprio diretor que ele é casado. Isso acontece enquanto eles ainda estão no restaurante em que vão comer sushi. A revelação, feita desta vez pela própria boca de Cheon-soo, acaba mudando o grau de decepção de Hee-jeong. Esse talvez seja o fato mais interessante do filme: afinal, realmente faz muita diferença ele ter sido sincero com ela? Ele ter admito que era casado e, mesmo assim, dar em cima dela o tempo todo muda realmente alguma coisa? Ele não segue sendo um adúltero e mulherengo?

Curioso que para Hee-jeong e para tantas outras mulheres parece que não é bem assim. Apenas o fato do homem – canalha, na minha opinião – admitir a verdade parece tornar a traição dele menos absurda. Ah, mas pelo menos ele foi honesto, alguns podem dizer. Mas isso muda algo para a mulher e os dois filhos dele que ele deixou em casa? Muda em algo a condição da garota com quem ele quer empreender um romance? O diretor passa a ser mais ético ou correto porque admitiu no meio do flerte que era casado e que gostaria de trair a esposa porque se “apaixonou”?

Antes que alguém me questione dizendo: “Ah, mas eu não acredito em relações para a vida toda” ou argumentando que o filme deixa claro que o protagonista se casou jovem e que “Sabe como é, as pessoas quando casam jovens não sabem o que estão fazendo”, quero dizer que sim, é verdade, que tem pessoas que podem se equivocar. Especialmente quando são jovens.

Podem, realmente, não se casarem levando em conta valores, afinidades, e uma série de outros fatores que podem diminuir o risco de equívocos. Mas há muitas pessoas que casam cedo e que vivem bem casadas para o resto da vida. E quem se equivocou, bem, há outras saída muito mais éticas e corretas do que ficar prolongando um relacionamento falido e ficar traindo a pessoa que confia nela.

Para mim, a questão é simples: ou a pessoa é correta, age com honradez e sinceridade com sigo mesmo e com as pessoas com que ela se relaciona ou não. Não há meio termo ou “poréns”. Quem usa de subterfúgios para justificar os seus próprios erros está tentando enganar a si mesmo. Sendo assim, a essência da história de Cheon-soo é ridícula, para mim. O sujeito seria muito mais correto se fosse solteiro e ficasse com quem ele quer. Mas ter um compromisso com alguém e viver traindo essa pessoa é coisa de gente covarde, mau caráter.

Então se a história de Cheon-soo não é admirável, o que vale neste filme? Acho que apenas a ousadia do diretor Sang-soo Hong em contar uma história e, depois, apresentá-la de outra forma, fazendo, desta forma, o espectador refletir sobre as decisões dos personagens, as suas posturas frente à verdade e à mentira e, de quebra, fazendo cada um de nós nos questionarmos sobre o que vemos e vivemos no dia a dia.

Também acho que Right Now, Wrong Them questiona os parâmetros aceitos pela maioria da sociedade – que, a meu ver, tem exatamente o comportamento de Hee-jeong, de aceitar o traidor quando ele admite o seu próprio erro sem, ao mesmo tempo, ver a essência da questão. E pensando um pouco mais sobre a segunda parte do filme, o protagonista não apenas foi sincero com a artista plástica sobre ser casado, mas também foi honesto ao avaliar a obra dela e ao mostrar que estava bem alterado ao beber demais. Enfim, foi menos dissimulado e, cá entre nós, isso realmente tem o seu valor.

Apesar do desafio à paciência que o filme denota, vejo que Right Now, Wrong Them provoca reflexões e questionamentos relevantes. Observando sob este ponto de vista, é um filme que merece ser “vencido”, conquistado. Além disso, ele é mais um exemplo de que uma história simples, com uma produção com poucos recursos, pode apresentar uma premissa diferenciada e criativa no cinema. Nem tudo foi inventado ainda. Dá para fazer diferente, e Right Now, Wrong Them é uma prova disso.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é um filme sem grandes destaques técnicos. Talvez valha destacar apenas o trabalho do diretor e roteirista Sang-soo Hong que, sem dúvida, foi ousado em praticamente repetir a história duas vezes, com pequenas nuances de diferenças entre boa parte da primeira e segunda trama. O diretor faz um trabalho sempre muito próximo dos atores, algo necessário em um filme em que a interação entre eles é fundamental.

Os protagonistas deste filme são realmente o destaque da produção. Ambos estão muito bem em interpretações muito típicas da cultura asiática, em que os gestos são muito comedidos, assim como a maior parte das reações dos personagens – exceto quando a bebida começa a falar e, no caso do protagonista, ele tem uma tendência de beber demais. Nas duas histórias, na “errada” e na “certa” ele bebe demais. Mas na segunda vez a reação dele frente às amigas de Hee-jeong, talvez porque ela não estava no local, assim como o professor dela, acaba sendo bem diferente. O que demonstra também que a noção de autocontrole, especialmente dos cretinos, é bem relativa e depende da plateia de forma decisiva.

Este filme, por ser originário da Coreia do Sul, infelizmente não tem uma filha muito completa no IMDb. Sendo assim, vou ficar devendo para vocês alguns nomes, especialmente da equipe técnica da produção. Além da direção acertada e coerente de Sang-soo Hong, da parte técnica do filme acredito que se destaquem a trilha sonora bem presente e a edição bem feita.

Do elenco, além dos protagonistas já citados, assim como a garota que faz a auxiliar do diretor, acredito que tem destaque as amigas da artista plástica e a mãe dela. Infelizmente no IMDb estas pessoas não estão identificadas, mas vale citar o restante do elenco: Yeo-jeong Yoon, Ju-bong Gi, Hwa-Jeong Choi, Joon-sang Yoo e Young-hwa Seo.

Right Now, Wrong Them estreou em agosto de 2015 no Festival de Cinema de Locarno. Depois, o filme passaria, ainda, por outros 18 festivais. Nesta trajetória o filme ganhou oito prêmios e foi indicado a outros quatro. Entre os que recebeu, destaque para o de Melhor Ator para Jae-yeong Jeong e para o de Melhor Filme no Grand Prix Asturias no Festival Internacional de Cinema de Gijón; e para os prêmios de Melhor Ator para Jae-yeong Jeong, o Golden Leopard para Sang-soo Hong e para a menção especial do Prêmio do Júri Ecumênico para Sang-soo Hong no Festival Internacional de Cinema de Locarno.

O diretor Sang-soo Hong filmou a primeira parte da história, editou o material e mostrou ele pronto para os atores saberem como a história tinha sido enfocada para, então, eles mergulharem na segunda parte da narrativa. Na visão do diretor, a natureza dupla do filme acaba sendo uma “espécie de estado de limbo” para o público. Não deixa de ser uma visão interessante da narrativa. Alguns podem encará-la como uma “realidade paralela”. Eu encaro de forma mais prática, como o primeiro trecho sendo uma realidade possível e, o segundo, outra realidade possível. Assim de simples. Uma realidade ou outra depende exclusivamente da escolha das pessoas. Ambas são válidas, mas a segunda, aparentemente, mais “aceita” pela sociedade.

O título original deste filme é Ji-geum-eun-mat-go-geu-ddae-neun-teul-li-da. Este é um filme 100% da Coreia do Sul e falado, claro, em coreano.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para Right Now, Wrong Them. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 11 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 7,2. Avaliações muito boas nos dois sites levando em consideração o padrão de cada um.

CONCLUSÃO: Um filme simples na história mas interessante na reflexão. Right Now, Wrong Them é uma produção bem ao estilo asiático, com desenvolvimento lento e muita observação dos comportamentos dos personagens. Exige muita paciência do espectador e ganha relevância depois que o filme acaba. Afinal, é aí que vamos refletir sobre os detalhes e transportar a história para a nossa própria vida, lembrando de momentos em que poderíamos ter feito escolhas diferentes. Com dois bons atores como protagonistas, é um filme que ousa ao praticamente repetir a história singela. Exige, mas vale pela proposta diferenciada. Não é nem de perto inesquecível, mas faz pensar. Apenas por isso ele já merece ser considerado.

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