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In the Heat of the Night – No Calor da Noite

Um filme policial com alguns ingredientes de conflito racial explosivos. In the Heat of the Night fala de uma parte dos Estados Unidos da qual já ouvimos falar um bocado. O interior do país, onde muitas relações seguem em conflito – especialmente entre brancos e negros. Mas além de ter uma forte carga de conflito racial, esta produção é uma interessante história policial com algumas surpresas e reviravoltas. Uma bela oportunidade de conhecer ou de rever um belo trabalho do ator Sidney Poitier, o primeiro ator negro a ter relevância em Hollywood em papéis que não eram óbvios.

A HISTÓRIA: Um trem percorre os trilhos e para na estação da cidade de Sparta, no Estado americano do Mississipi. Apenas um passageiro desce após o empregado da companhia colocar um degrau para ajudá-lo. Corta. Em uma lanchonete, Ralph (Anthony James) tenta acertar uma das moscas do local. O policial Sam Wood (Warren Oates) pergunta sobre a torta que ele gosta de comer, mas Ralph diz que comemoram todos os pedaços que ele tinha. Wood não gosta de ser chamado de Sam pelo atendente, paga a conta e vai embora. Do lado da caixa registradora, Ralph recolhe  a torta que ele escondeu. Wood sai para mais uma ronda tranquila, que inclui música no rádio e espiar Delores (Quentin Dean), que gosta de ficar nua em casa. A rotina de Wood é quebrada quando ele encontra o corpo de Philip Colbert (Jack Teter). A partir daí, começa a caçada do sheriff Gillespie (Rod Steiger) pelo assassino do empresário.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a In the Heat of the Night): A trilha sonora divina desta produção é o primeiro elemento que chama a atenção neste filme premiado e que nos conta uma interessante história policial. Além de ter uma narrativa envolvente, com algumas “reviravoltas” interessantes, In the Heat of the Night trata com inteligência tanto o preconceito racial nos Estados Unidos quanto as diferenças que existem dentro do país – ou melhor, que existiam na década de 1960, quando esta produção foi lançada, e que continuam valendo até hoje.

Uma das maiores qualidades do roteiro de Stirling Silliphant, que teve como base a obra de John Ball, é a interessante construção dos personagens. Os policiais da pequena cidade de Sparta são, no geral, um desastre. Primeiro, eles fazem parte de uma sociedade “habituada” a viver em preconceito racial. Apesar de existir de fato, a cidade de Sparta mostrada nesta produção é ficcional – a verdadeira cidade americana de Sparta fica em outro local. Mas o que nos interessa é a cidade de Sparta do filme.

Ela simboliza todas as cidades do interior dos Estados Unidos, especialmente as que ficam no Sul do país – como, no caso, no Estado do Mississippi, conhecido por ter sido um dos mais resistentes ao fim da escravidão e um dos que mais dificuldade têm de combater e resolver o racismo histórico. Nesta pequena cidade os negros e os brancos sabem exatamente os seus “papéis” e o “lugar” em que eles devem ir ou nos quais não devem entrar. O preconceito é um elemento presente nesta produção do início ao fim porque temos um protagonista negro.

Diferente de outros negros da cidade, que vivem na pobreza e que tem em oficinas mecânicas (na melhor das hipóteses) ou na colheita do algodão (o mais comum) as únicas alternativas de trabalho, o protagonista de In the Heat of the Night está sempre alinhado, se veste muito bem e teve boa educação. Como alguém diz em certo ponto do filme, Virgil Tibbs (o maravilhoso Sidney Poitier) “se veste como um branco”. Sim, dói ouvir ou ler algo assim, mas este é um pequeno exemplo do preconceito que esta produção desnuda e denuncia. Uma pena pensar que, 50 anos depois, este mesmo preconceito ainda perdure em tantos lugares dos Estados Unidos e em outras partes do mundo.

Mas vamos seguir falando da produção. In the Heat of the Night inova exatamente ao reverter as expectativas do público – especialmente em 1967, quando a produção foi lançada – sobre o “herói” da história. No início, incomoda Tibbs ser detido e levado para a delegacia apenas pelo fato de ser negro, de ter dinheiro na carteira e por estar na estação de trem – na cabeça de Gillespie a estação poderia ser um ponto de fuga do criminoso. (SPOILER – não ler se você não assistiu ao filme). Mas logo vem a primeira reviravolta da produção. Tibbs não é um criminoso ou um vigarista. Ele é um policial. Mas não é qualquer um. Ele ganha mais que os policiais de Sparta e ainda é um “especialista” em homicídios.

No início, o preconceito de Gillespie, de Wood e de praticamente todos os habitantes de Sparta incomoda. Depois, o roteiro de Silliphant vai “à forra” deste preconceito quando o sheriff tem que engolir uma ordem do prefeito Schubert (William Schallert) que, procurado pela esposa de Colbert (interpretada por Lee Grant), manda que ele aceite a ajuda nas investigações de Tibbs. Em mais de uma ocasião do filme, aliás, Tibbs é mandado embora da cidade, mas ele resiste e acaba embarcando na missão de descobrir quem matou Colbert.

Quando caminha nesta direção, In the Heat of the Night se revela como um filme policial competente. Tibbs segue as evidências e vai juntando provas, encontrando incongruências e captando cada detalhe que parece criar um enredo ao redor da morte de Colbert. Ainda que tenha uma narrativa linear, este filme tem diversos “sobressaltos” na narrativa central da busca de Tibbs pelo culpado do crime.

Enriquecendo o roteiro vemos a diversas trapalhadas da polícia local, que tem “pressa” em prender o criminoso e que não se importa em acusar alguém sem ter provas – depois de prenderem o alvo “mais óbvio”, o negro que estava na estação de trem (Tibbs), eles prendem o “pé-rapado” Harvey Oberst (Scott Wilson) e, depois que fica claro que ele não teve nada a ver com o crime, Gillespie resolve cair na primeira “pista” que encontra, uma mentira de Wood, e resolve “cortar na própria carne” sem ter nenhuma prova realmente importante contra o policial.

In the Heat of the Night tem uma narrativa policial envolvente e que atende a todos os pré-requisitos do gênero. Isso não o torna diferenciado. O que faz toda a diferença nesta produção é que ela utiliza uma narrativa policial para tratar de questões sociais importantes para a época. O preconceito racial está no centro da história, especialmente porque ele coloca em risco a vida do protagonista. Mas há também espaço para mostrar a brutal divisão de classes naquela pequena cidade e a falta de preparo da polícia – como eu disse antes, eles são um desastre. Naquela cidade pacata, aparentemente, eles nunca tiveram um assassinato para resolver.

Além da trilha sonora maravilhosa, primeiro elemento que chama a atenção en In the Heat of the Night, também se destacam a direção mais “solta” e fluída de Norman Jewison. Este é um elemento que se destaca, especialmente se comparamos esta produção com as anteriores citadas aqui na seção “Um Olhar Para Trás”. Jewison não segue a rigidez das câmeras fixas e nem a angulação mais óbvia esperada para cada cena. Destaque, em especial, quando ele deixa a câmera focada apenas nas pernas ou nas mãos dos personagens, uma forma bastante sutil de destacar o “detalhe” da cor da pele dos atores/personagens. Realmente esta questão era secundária, mas não para aquela sociedade atrasada de Sparta.

Com os olhares um tanto cínicos dos dias atuais, ficamos sempre esperando o “pior” acontecer. Silliphant tem a coragem de não nos entregar isso e de dar um certo “final feliz” para a história. Tibbs consegue se manter elegante durante praticamente toda a história – ele tem uma pequena “recaída” de “revanchismo”, talvez contaminado um pouco pela aura da cidade, quando se encontra com Endicott (Larry Gates), o dono da “casa grande”. No início ele tem um olhar um bocado carregado de desprezo para aqueles policiais incompetentes e preconceituosos, mas aos poucos ele vai começando a respeitar Gillespie que, sozinho naquele local, acaba também abrindo mão do preconceito inicial e protegendo Tibbs.

A cereja do bolo desta produção é justamente a amizade inusitada que acaba surgindo entre estes dois personagens. Assim, de forma bastante sutil e, ao mesmo tempo, poderosa, Silliphant e Jewison nos mostram que é sempre possível evoluir. Qualquer pessoa, não importa a cor da pele que ela tenha, o seu salário ou o contexto em que ela vive, pode vencer os próprios preconceitos e ter um olhar ao menos generoso/mais compreensivo para quem até há pouco lhe era estranho – a sequência perto do final na casa de Gillespie é, por isso mesmo, um grande momento da produção. Belo filme.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esta produção tem uma direção bem mais dinâmica do que era comum assistir no cinema nas décadas anteriores a este filme. Na década seguinte, nos anos 1970, esta forma de dirigir mais “solta” ficaria ainda mais comum, em uma das décadas mais frutíferas e inovadoras do cinema norte-americano. Em In the Heat of the Night o diretor Norman Jewison já mostra algumas das característica deste estilo de dirigir mais livre de planos fixos e de ângulos convencionais. Vários outros seguiriam este caminho.

Da parte técnica do filme, um dos grandes destaques desta produção vai para a trilha sonora do grande Quincy Jones. O cartão-de-visitas da produção é a música “In the Heat of the Night”, interpretada por ninguém mais, ninguém menos que o gigante Ray Charles. A trilha é bastante pontual, entra nos momentos certos e ajuda a dar um ritmo interessante para a produção. Outro ponto a destacar nesta produção é a direção de fotografia de Haskell Wexler, que utiliza lentes que valorizam o tom “naturalista” da produção. Também vale comentar o bom trabalho do editor Hal Ashby; a direção de arte acertada de Paul Groesse; a decoração de set de Robert Priestley; e os ótimos figurinos de Alan Levine.

A escolha do elenco foi muito inteligente. Os nomes de destaque são mesmo de Sidney Poitier, que dá um baile de interpretação e de elegância, sem exagerar na interpretação em nenhum momento – mesmo as manifestações de raiva dele são bem dosadas e fazem sentido pelo contexto -, e o de Rod Steiger, que surpreende em uma interpretação crescente como Gillespie. Além deles, vale citar o bom trabalho dos já citados Warren Oates, Lee Grant, Larry Gates (que aparece em apenas uma sequência), Quentin Dean (talvez a única um tanto “exagerada”), Anthony James e Scott Wilson (que, entre os coadjuvantes, é um destaque). Mas, além deles, vale citar o bom trabalho de James Patterson como Mr. Purdy, irmão de Delores; Beah Richards como Mama Caleba, a mulher que faz abortos na cidade; e Peter Whitney como Courtney, escrivão da delegacia e um “faz-tudo” do sheriff que, na verdade, não faz muita coisa.

In the Heat of the Night estreou em première na cidade de Nova York no dia 2 de agosto de 1967. No dia 23 do mesmo mês a produção estreou em Los Angeles. No Brasil o filme entrou em cartaz no dia 30 de outubro de 1967.

Esta produção foi rodada praticamente toda no Estado de Illinois, em cidades como Freeburg, Chester, Belleville e Sparta – distante cerca de sete horas do Estado do Mississippi, que fica mais ao Sul nos Estados Unidos. Também foram rodadas cenas na cidade de Dyesburg, no Tennessee (fazenda de algodão) e no Raleigh Studios, em Los Angeles.

Como os leitores mais frequentes deste blog sabem, a base para as minhas críticas na seção “Um Olhar Para Trás” é o livro “1001 Para Ver Antes de Morrer”. Como sempre faço, vou citar o texto sobre a produção que foi publicada nesta obra. A crítica Angela Errigo escreveu o seguinte sobre In the Heat of the Night: “‘Me chamam de senhor Tibbs’. O racismo ainda era tema pouco explorado na tela quando o produtor independente Walter Mirisch e o diretor Norman Jewison resolveram adaptar o livro de John Ball pensando especificamente em Sidney Poitier. O resultado ficou na vanguarda dos novos thrillers com viés social, elevando para a classe dos filmes importantes o que de outra forma poderia ser considerado apenas uma produção B”.

E vale seguir reproduzindo o texto de Errigo: “Virgil Tibbs (Poitier) é preso simplesmente por ser um homem negro com dinheiro atravessando a segregacionista cidade de Sparta, no estado do Mississipi, na noite do assassinato de um industrial. Para desgraça do preconceituoso chefe de polícia (Rod Steiger), Tibbs é detetive de homicídios da Filadélfia e a estranha e antagônica dupla é forçada a trabalhar em conjunto na investigação. A trama criminal em si e a atmosfera são marcantes (acentuadas por uma memorável trilha sonora de Quincy Jones), mas o impacto mais permanente do filme é resultado do fascinante relacionamento que se desenvolve entre os homens. Poitier recebe o primeiro lugar nos créditos ostentando um desdém altivo pelo lixo branco que o atrapalha enquanto desvenda uma trama digna de Raymond Chandler. Mas foi Steiger que ganhou o Oscar de Melhor Ator, com seu personagem de pavio curto, mascador de chicletes, imenso mas ainda assim cheio de nuances. A obra também ganhou os prêmios de melhor filme, roteiro (Stirling Silliphant), som e edição (Hal Ashby, que dirigiria alguns dos filmes maisinteressantes dos anos 70). Poitier repetiu o papel de Tibbs duas outras vezes”.

Aliás, vale comentar sobre os prêmios que o filme recebeu. Não é qualquer produção que ganha cinco Oscar’s. E In the Heat of the Night conquistou este feito. Eu gostei do filme, mas admito que achei um pouco surpreendente ele ter vencido como Melhor Filme, Melhor Ator para Rod Steiger, Melhor Roteiro Baseado em Material Desenvolvido para Outro Meio (que era como chamavam a atual categoria Melhor Roteiro Adaptado), Melhor Som e Melhor Edição no Oscar de 1968. A produção foi indicada naquele ano, ainda, nas categorias Melhor Diretor para Norman Jewison e Melhores Efeitos de Som. Primeiro, ainda que Steiger esteja muito bem, acho injusto ele ganhar como Melhor Ator. Para mim não há dúvidas que o protagonista é Poitier e que ele deveria ter levado a estatueta.

Depois, chama a atenção que In the Heat of the Night ganhou como Melhor Filme em uma disputa com ninguém mais, ninguém menos que Bonnie and Clyde, The Graduate e Guess Who’s Coming to Dinner (também estrelado por Poitier). Foi uma parada dura, sem dúvida.

No total, In the Heat of the Night ganhou 22 prêmios (incluindo os citados cinco Oscar’s) e foi indicado a outros 14. Entre os prêmios que recebeu, além das estatuetas douradas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, estão os Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama, Melhor Ator – Drama para Rod Steiger e Melhor Roteiro; os prêmios de Melhor Ator Estrangeiro para Rod Steiger e o UN Award para Norman Jewison no Prêmio Bafta; e os de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Performance em um Filme Estrangeiro para Rod Steiger no Prêmio Sant Jordi.

Achei injusto o Oscar de Melhor Ator não ir para Sidney Poitier por causa deste filme – ainda que, devo dizer, Rod Steiger está ótimo na produção. Antes desta produção, Poitier havia sido indicado ao Oscar de Melhor Ator por The Defiant Ones – lançado em 1958. Três anos antes de In the Heat of the Night ele ganhou a estatueta dourada por seu trabalho em Lilies of the Field. A proximidade desta premiação com o lançamento de In the Heat of the Night talvez tenham contribuído para ele não ser o indicado pelo filme – e sim Steiger. Além do Oscar por Lilies of the Field, Poitier recebeu um outro Oscar, desta vez honorário, em 2002. Merecidíssimo.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso este filme entra para a lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 42 críticas positivas e apenas duas negativas para o filme, o que garante para In the Heat of the Night uma aprovação de 95% e uma nota média de 8,2. As duas avaliações são muito boas se levarmos em conta os padrões dos respectivos sites. Mas há avaliações melhores – inclusive do último filme que comentei por aqui, o excelente 12 Angry Men.

O domingo está acabando. Então vou pedir licença para vocês, mas as curiosidades sobre este filme eu vou deixar para citar amanhã, tudo bem? 😉 Abraços!

Voltei! 😉 Então vamos falar sobre as curiosidades desta produção. Interessante como o ator Sidney Poitier insistiu para que o filme fosse filmado no norte dos Estados Unidos. Isso porque ele e o também ator Harry Belafonte tiveram um incidente grave em uma visita ao Mississippi na qual os dois quase foram mortos por integrantes da Ku Klux Klan. Por isso que In the Heat of the Night foi rodado na cidade de Sparta, em Illinois. O problema é que como a equipe não encontrou um campo de algodão para ser filmado na sequência da propriedade do personagem Endicott, em Illinois, eles tiveram que rodar estas cenas no Tennessee. Durante o tempo de filmagens por lá, Poitier dormiu com uma arma debaixo do travesseiro para se proteger, se necessário. Isso porque ele recebeu ameaças de racistas locais. Inacreditável, não? Um absurdo!

O ator Rod Steiger recebeu do diretor Norman Jewison a sugestão de marcar um chiclete durante grande parte da produção. No início ele resistiu à esta ideia, mas depois acabou embarcando tanto nela que acabou consumindo 263 chicletes durante as filmagens. 😉

De acordo com o ator Sidney Poitier, o tapa de revide de Tibbs em Endicott não estava previsto no roteiro original da produção e nem na obra que inspirou o trabalho de Silliphant. Mas, segundo ainda Poitier, ele insistiu que Tibbs pudesse revidar o tapa que recebeu e que esta cena fizesse parte de todas as cópias da produção. Por outro lado, Silliphant garante que o tapa estava no roteiro original – mas admite que ele não estava no romance que deu origem ao filme.

A fala do filme “They call me Mister Tibbs!” foi eleita como a 16ª melhor fala de todos os tempos em longas segundo o American Film Institute.

A cidade de Sparta, em Illinois, foi escolhida pelos produtores para evitar problemas na cidade homônima no Mississippi, que vivia uma grande turbulência política – e de conflitos raciais – e porque, ao escolher uma cidade com o nome de Sparta em outro Estado, eles não teriam que mudar as placas das ruas.

A sequência entre Tibbs e Gillespie na casa do sheriff foi toda feita em um improviso entre os atores Sidney Poitier e Rod Steiger.

A história de In the Heat of the Night se passa em um verão quente na cidade de Sparta, no Mississippi, mas foi rodada em um outono do Estado de Illinois. Para evitar “furos” na história, muitos dos atore do elenco colocavam cubos de gelo na bola pouco antes das cenas serem rodadas. Antes da gravação começar eles jogavam fora o gelo e, com isso, evitavam da respiração deles aparecerem nas cenas noturnas – e com o clima frio.

Esta produção foi citada muitas vezes pelo ator Sidney Poitier como sendo o filme favorito dele entre os que ele participou. O ator Danny Glover também considera esta a sua produção favorita.

O American Film Institute incluiu In the Heat of the Night na lista dos melhores filmes de todos os tempos em 2007 – a produção ocupa a 75ª posição na lista.

O ator Scott Wilson impressionou tanto a Sidney Poitier por causa da sua interpretação que Poitier ligou para Richard Brooks e sugeriu que Wilson fosse convidado para estrelar o filme In Cold Blood, baseado na obra de Truman Capote. Poitier não falou nada para Wilson sobre esta indicação. Ele só descobriu este fato após In Cold Blood ser lançado.

O personagem de Virgil Tibbs foi classificado como o 19º melhor herói na lista dos “100 Heróis e Vilões” da AFI.

Em uma entrevista para o canal TCM o ator Rod Steiger elogiou a interpretação da atriz Lee Grant nesta produção dizendo que o trabalho dela foi um de seus favoritos em In the Heat of the Night. De fato, a atriz tem uma interpretação marcante nesta produção.

O salário de US$ 162,39 por semana recebido por Virgil Tibbs naquela época seria o equivalente a cerca de US$ 1,2 mil em 2007.

CONCLUSÃO: Um filme bem acabado, destes que planejam cuidadosamente cada detalhe. Da fantástica trilha sonora até a escolha do elenco e as viradas na narrativa, In the Heat of the Night se preocupa em apresentar um filme interessante para o público. E ele consegue. Esta produção é um bom filme policial que ganha pontos por colocar em cena também a questão racial como algo presente na sociedade americana – uma chaga que, aliás, até hoje eles não conseguiram resolver totalmente. Com belas atuações, especialmente dos protagonistas Sidney Poitier e Rod Steiger, In the Heat of the Night foi um filme importante em sua época – há exatos 50 anos – e continua sendo bastante atual.

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12 Angry Men – 12 Homens e Uma Sentença

Em um júri popular, pessoas comuns julgam os seus pares. Ou seja, “o povo” determina se alguém igual é culpado ou inocente – segundo os julgamentos nos Estados Unidos, o mais correto seria “não culpado”. Pode parecer o mesmo, mas não. Basta haver dúvida suficiente sobre alguém ser culpado de um crime para que esta pessoa seja inocentada. 12 Angry Men explora bem esta questão da dúvida e por isso, ao ser lançado há 60 anos, se tornou um dos melhores filmes de julgamento da história. Como em tantas circunstâncias da vida, interessa menos quem está sendo julgado e mais quem está julgando. Esta produção também é um grande libelo sobre o diálogo e o poder do debate e da argumentação. Algo que nos faz tanta falta atualmente, em uma época de muito radicalismo e de pouco diálogo.

A HISTÓRIA: Um grande tribunal. Pessoas entram e saem das diferentes salas de julgamento. Alguns comemoram, outros saem preocupados. Em uma destas salas, a de número 228, o juiz recorda para o júri que eles acabam de ouvir a um longo processo de acusação de um crime de assassinato em primeiro grau. O juiz afirma que a acusação de assassinato premeditado é a mais grave dos tribunais e que, se o réu for considerado culpado, automaticamente ele terá a pena de morte. Ele também afirma que os jurados tem a obrigação de separar os fatos das versões e que o veredicto deve ser unânime. O júri sai do tribunal para deliberar sobre o caso, e aí começa o debate.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a 12 Angry Men): Que filme impressionante, minha gente! Por tudo que ele demonstra e pela forma com que ele faz isso. Como eu disse na abertura desta crítica, logo acima, 12 Angry Men é um filme mais que atual. Eu diria que é uma produção necessária para os nossos dias. Com um roteiro brilhante e uma direção igualmente inspirada, 12 Angry Men traz atores entregues a cada um de seus personagens que são, a sua vez, uma bela representação da sociedade – tanto da época em que o filme foi lançado, há 60 anos, quanto a de hoje, guardadas as devidas proporções.

Algo que eu acho impressionante neste filme é que ele foge totalmente do que um espectador poderia esperar de um filme de tribunal. 12 Angry Men é uma produção do gênero que não se passa no tribunal e nos clássicos embates entre os dois lados da Justiça. Não ouvimos os interrogatórios ou a argumentação da promotoria e da defesa. Tudo o que sabemos nos é apresentado “pelo povo” que deve julgar o cidadão que está sendo acusado de um crime. A decisão deles vai significar a vida ou a morte do acusado.

Apenas por esta sacada do roteiro de Reginald Rose o filme já se revela inovador. Mas não é apenas o contexto que surpreende, mas também o desenvolvimento da produção. Rose não tem pressa com a apresentação dos fatos. Uma parte considerável da produção foca conversas casuais e “papo furado”, especialmente nos intervalos das votações secretas entre os jurados e as discussões que eles fazem na sala do júri. Algo que seria perfeitamente comum “na vida real” e que acaba ajudando a produção a não parecer um grande discurso por justiça e comportamento ético e sim algo muito mais plausível.

Descontadas algumas cenas logo no início da produção, ambientadas no tribunal e na entrada do prédio, e aquelas sequências no banheiro que está ao lado da sala em que a dinâmica dos jurados acontece, quase todo o filme se passa em um único ambiente. Os personagens da produção sabem usar bem aquela sala. A dinâmica da produção não se passa apenas em debates na mesa com todos sentados. Há “quebras” salutares na narrativa com o uso das janelas da sala e com algumas sequências bem conduzidas de “reprodução” de possibilidades sobre a dinâmica das testemunhas do crime que eles estão discutindo – aliás, para mim, a sequência mais brilhante é justamente quando o Jurado 8 (Henry Fonda) simula o tempo que uma das testemunhas teria levado para se locomover do quarto até a porta de onde ele teria visto o assassino.

O mestre Alfred Hitchcock tinha lançado, nove anos antes de 12 Angry Men (ou seja, em 1948), o maravilhoso Rope, um filme ousado – e maravilhoso – que se passava apenas em um ambiente. Com Rope Hitchcock mostrou muito de sua técnica e inovação. O diretor Sidney Lumet consegue o mesmo em 12 Angry Men. O espectador não sentem tédio pela produção não ter uma grande “dinâmica” ou uma movimentação maior. O mérito para isso é tanto do ótimo roteiro de Rose quanto da direção inspirada de Lumet.

O roteiro de Rose tem conflito suficiente e “tempero” para prender a atenção do público. Além disso, especialmente por alguns diálogos secundários e por causa das personalidades muito diferentes em cena, o roteiro de Rose acaba sendo facilmente compreendido pela audiência – que, em muitos casos, vai se sentir representada em cena. Esta é uma das genialidades desta produção. Os 12 jurados representam praticamente a todas as figuras diferentes que veríamos na sociedade americana de 1957 e que vemos, fazendo alguns ajustes aqui e ali, em várias sociedades do mundo em 2017. Provavelmente alguém vai perceber neste jurados algumas características suas ou de pessoas que o espectador conhece. E isso funciona muito bem.

Um outro elemento muito forte desta produção é o que ela nos traz como “moral da história”. É muito forte pensar que apenas um homem se coloca “contra” todos os outros – 11, um número significativo – pelo simples fato de que ele pensa que ninguém deve escolher pela vida ou morte de outra pessoa sem ter, antes, uma boa discussão a este respeito. Com o personagem de Henry Fonda (fantástico, aliás) deixa claro desde o início, ele não está defendendo o acusado ou mesmo dizendo que ele é inocente. O que ele defende é o seguimento estrito da lei. E ela diz que se houver dúvida suficiente sobre a culpa de alguém, esta pessoa não deve ser condenada e sim considerada “not guilty” (“não culpada”, na tradução precisa).

Algo maravilhoso do Jurado 8 é que ele não quer impor a sua “verdade” para os demais. O que ele pede, apenas, é que eles dialoguem. Que haja debate e que todos coloquem sobre a mesa as suas convicções e os seus argumentos para condenar o acusado. Isso é tão fundamental e tão bonito, não é mesmo? E algo necessário não apenas quando o filme estreou, mas em todas as épocas da nossa História – e agora, inclusive, quando parece que há cada vez menos diálogo e debates em uma época em que as pessoas excluem as que discordam delas nas redes sociais.

Ao invés de fazermos debates acalorados e impessoais em uma plataforma pública como a de uma rede social, por que não sentamos todos ao redor de uma mesa e passamos algumas horas realmente escutando uns aos outros e revisando cada argumento? Com respeito, com consideração. Em lugar disso, as pessoas parecem cada vez menos dispostas a discutir, a debater, a dialogar. 12 Angry Men explica um pouco o porquê da dificuldade de alguns em fazer isso. O Jurado 10 (Ed Begley), por exemplo, demonstra do início até praticamente o fim todo o seu preconceito com as pessoas que vem da pobreza – como o acusado e o Jurado 5 (Jack Klugman).

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em certa sequência o Jurado 10 destila todo este preconceito e ódio reprimido contra aquelas pessoas que “são todas iguais”, que fazem algazarra, bebem e não querem trabalhar. Então ele não está julgando com base nos fatos ou em todas as lacunas e dúvidas que o processo abriga e sim – ainda que ele mesmo não perceba, mas que acaba sendo “jogado” na cara dele pelo silêncio dos demais – pelo preconceito que tem contra a “classe de pessoas” da qual o acusado participaria.

Uma outra figura-chave da produção, o Jurado 3 (Lee J. Cobb), o único que resiste até o final com o voto para condenar o acusado, está julgando com as vísceras, ou seja, por “causa própria”, ainda que só perceba isso nos últimos minutos. No fundo ele não está julgando o acusado e o crime para o qual eles foram chamados a avaliar e sim a própria relação que tem com o filho que o “abandonou”. Ele está buscando uma “vingança” pessoal neste julgamento. Quantas pessoas na nossa sociedade não agem da mesma forma? Não se tornam “justiceiros” para resolver as suas próprias frustrações?

A beleza maior de 12 Angry Men é mostrar que todo indivíduo deveria ter responsabilidade e respeito sobre os demais. Com isso, ninguém julgaria ao próximo sem pensar muito bem a respeito. Ninguém faria isso sem, antes, conhecer muito bem a si mesmo, procurar conhecer verdadeiramente ao outro e estar aberto também ao diálogo e ao debate. Esta é a forma mais ética. Sempre vale a pena falar sobre isso. Por isso mesmo é tão importante assistir uma vez e retomar de tempos em tempos a 12 Angry Men.

Não tenho uma lembrança muito precisa, mas acredito que eu assisti a este filme quando era criança. Tinha gostado da dinâmica da produção e do trabalho de Henry Fonda, mas certamente é outra experiência assistir a esta produção agora. Não apenas pela visão de mundo muito mais ampla que a maturidade nos proporciona mas, especialmente, pelo momento atual que vivemos. Mais do que nunca 12 Angry Men é um filme necessário. Observar cada perfil dos jurados em cena e como se desenvolve a dinâmica deles é importante para revermos as nossas próprias relações e características. Eis um filme capaz de tudo isso. Por isso mesmo ele é atemporal e extremamente necessário.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Que diversidade interessante de personagens/personas que Reginald Rose consegue reunir nesta produção! Algo fundamental para 12 Angry Men funcionar tão bem. Mas tão importante quanto o roteiro cheio de tensão e de personagens interessantes é a forma com que o diretor Sidney Lumet conduz esta história. Ele utiliza toda a caixa de ferramentas do cinema para dar uma boa dinâmica para o filme, abrindo a cena para planos/enquadramentos gerais, planos médios, americanos e, principalmente, muitos planos próximos dos atores e fechados em seus rostos (o que sempre aumenta a expressividade e a dramaticidade da cena). O trabalho de Lumet flui sem que o espectador se dê conta dos diversos recursos que ele usa na maior parte do tempo – o que, para mim, é uma grande qualidade. O diretor está, assim, a serviço da história e não querendo tomar o protagonismo da produção.

Como eu comentei na crítica acima, o roteiro de Reginald Rose tem a proposta interessante de trazer para o perfil dos personagens de 12 Angry Men uma certa “colha-de-retalhos” representativa da sociedade. Por isso mesmo, vale fazer um breve resumo dos 12 homens que integram o júri desta história – vou dividi-los em dois grupos para não termos um parágrafo gigante. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O Jurado 1 (Martin Balsam) é equilibrado e organizado, ele tenta equilibrar as personalidades em cena e organizar o debate; o Jurado 2 (John Fiedler) parece um sujeito simples e atento aos detalhes, alguém que quer fazer o que é certo; o Jurado 3 (Lee J. Cobb) é o pai do garoto que ele quer punir através do acusado, um sujeito que quer fazer “justiça” com a própria frustração; o Jurado 4 (E.G. Marshall) faz as vezes do racional que é super correto, tem boa memória, e que tem dificuldade de entender a alguém que não seja assim; o Jurado 5 (Jack Klugman) é o único do grupo que veio da “periferia” e que entende bem o perfil que está sendo julgado; e o Jurado 6 (Edward Binns) é um dos mais flexíveis e um dos primeiros a mudar de ideia.

Seguindo com a lista, o Jurado 7 (Jack Warden) é o “brincalhão” que não faz tanta graça para os demais e que está louco para que o debate termine e para que ele consiga ver o jogo daquele dia; o Jurado 8 (Henry Fonda) tem a coragem de ir contra todos para provocar o debate e para fazer com que o grupo perceba que faltam provas definitivas contra o rapaz que está sendo julgado; o Jurado 9 (Joseph Sweeney) é o mais idoso do grupo, alguém observador, equilibrado, e que ajuda no debate com questionamentos fundamentais – além de um depoimento que ajuda a explicar a uma das testemunhas apresentadas durante o julgamento; o Jurado 10 (Ed Begley) é o velho preconceituoso e que não aceita que aquele jovem, vindo “daquela classe social”, possa ser inocente; o Jurado 11 (George Voskovec) está preocupado com as provas e com as inconsistências, sendo um dos mais equilibrados; e o Jurado 12 (Robert Webber) não tem muita convicção de nada e, a cada pausa, procura falar do seu trabalho como publicitário.

Bacana que todos os atores em cena são competentes. Algo fundamental para esta produção funcionar tão bem. Mas entre todos os citados, vale mesmo destacar o trabalho excelente e irretocável de Henry Fonda, assim como o belo desempenho de Lee J. Cobb, Jack Warden, Joseph Sweeney e Ed Begley. Alguns deles, como Warden, chegam a irritar um pouco. Mas não pela interpretação dos atores, mas porque os respectivos personagens – que existem na vida real – provocam coceira naturalmente. 😉

Algo fundamental nesta produção é como ela mostra que todos temos uma grande responsabilidade, especialmente quando nossas decisões envolvem a vida de outras pessoas. Alguns personagens em cena não se importam muito com esta responsabilidade – como o Jurado 7 -, enquanto outros estão muito focados no próprio umbigo – vide o Jurado 12. Mas a maioria em cena é como (acredito) a maioria da sociedade: sabe de seu papel e de suas responsabilidades e tem uma consciência um bocado desperta. O que falta, muitas vezes, é a disposição destas pessoas em dedicaram o seu tempo e inteligência para pensarem juntos e construírem saídas mais interessantes para o coletivo.

Além do belo elenco, 12 Angry Men tem qualidades técnicas importantes. A direção de Sidney Lumet é perfeita ao valorizar a interpretação de cada pessoa do elenco e, com diferentes técnicas, expor a tensão constante em cena. Ajuda o diretor neste sentido a excelente direção de fotografia de Boris Kaufman; a edição precisa de Carl Lerner; e a maquiagem detalhista de Herman Buchman. Também vale citar a direção de arte de Bob Markell e a pontualíssima e quase ausente trilha sonora de Kenyon Hopkins.

Para a seção “Um Olhar Para Trás”, que resgata alguns dos grandes filmes da História do cinema, a minha base é o livro “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer”. Sempre gosto de citar a crítica que o livro traz sobre a produção que eu estou comentando. Então vou citar, em mais de um parágrafo, a crítica de Angela Errigo e que faz parte do livro: “O filme de tribunal de Sidney Lumet goza de uma popularidade duradoura por ser um caldeirão de interpretações inteligentes, viradas repentinas e monólogos apaixonados. De forma única, o drama brilhantemente econômico e instigante de Doze Homens e Uma Sentença não se dá exatamente no tribunal – exceto por um breve prólogo em que o júri é dispensado com as instruções do juiz -, e sim no decorrer de uma única tarde calorenta na sala do júri”.

Depois da crítica resumir o papel do jurado interpretado por Henry Fonda no filme, ela afirma: “Fonda ficou impressionado com o poder da engenhosa peça para tevê de Reginald Rose, exibida ao vivo pela CBS em 1954 (e que se acreditava estar perdida até 2003, quando uma fita VHS foi descoberta). Reconhecendo um papel que se adequava com perfeição à sua sinceridade tranquila e vendo a oportunidade de um filme emocionante, ele o produziu do próprio bolso. Entregou a direção a Lumet, um dinâmico veterano do teatro de tevê ao vivo, cuja experiência lhe permitiu – e ao diretor de fotografia Boris Kaufman, outro especialista em trabalhar em espaços limitados e em preto-e-branco – extrair a tensão galopante do roteiro bem amarrado de Rose e concluir o filme em menos de 20 dias”.

E a crítica Errigo termina assim o seu texto sobre 12 Angry Men: “A adorada e cativante estréia de Lumet não se envergonha de sua teatralidade, tornando sua intensidade claustrofóbica e tórrida uma virtude. E cada ator deixa sua marca nesta vitrine de caracterizações excelentes, que é também um exemplo de dinâmica de grupo, desde o inseguro líder dos jurados de Martin Balsam até o beligerante e amargurado Jurado nº 3 de Lee J. Cobb. Interessantemente, dois dos homens, Joseph Sweeney, como o idoso e perspicaz Jurado nº 9, e George Voskovic, como o metódico Jurado nº 11, estiveram na produção televisiva original. Preconceitos de classe e raciais, suposições pessoais e personalidades vêm à tona em uma batalha colossal por um julgamento limpo. O filme ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim, mas sua maior glória é que, depois de assisti-lo, ninguém participará novamente de um júri sem fantasias de se tornar um tenaz campeão da justiça como Fonda, seja qual for o caso em questão”.

12 Angry Men estreou no dia 10 de abril de 1957 em Los Angeles, na Califórnia. Nos meses seguintes o filme estrearia em outros mercados e participaria dos festivais de cinema de Berlim e de Locarno. No Brasil o filme estreou no dia 10 de outubro de 1958.

Esta produção teve imagens feitas no New York County Courthouse – as imagens de exterior – e no Fox Movietone Studio, também em Nova York.

O americano Sidney Lumet, que nasceu em 1924 na cidade de Philadelphia, foi indicado a cinco Oscar e dirigiu a 73 títulos na carreira. Ele estreou na direção em 1952 com o episódio Don Quixote do CBS Television Workshop. Ele fez diversos trabalhos para a TV até que estreou nos cinemas com este 12 Angry Men. Impressionante pensar que alguém estreia na Sétima Arte com um filme tão marcante, não?

Agora, aquelas tradicionais curiosidades sobre o filme. No início da produção, segundo o site IMDb, as câmeras estão todas posicionadas acima do nível dos olhos e utilizando lentes grande angulares para que o público tenha a impressão de que existe uma distância maior entre os personagens. Conforme a produção vai avançando, as câmeras “escorregam” para o nível dos olhos dos atores e, na reta final do filme, quase tudo é rodado abaixo do nível dos olhos, em close-up e com lentes de aproximação para aumentar a sensação de “claustrofobia” que vai invadindo a narrativa.

Lumet colocou os atores em um mesmo quarto para que eles falassem os seus diálogos sem estar filmando. A ideia é que eles sentissem na “pele” o que seria estar em um mesmo local com um grupo de pessoas com visões diferentes.

12 Angry Men não conseguiu lucrar e, por causa disso, o ator Henry Fonda – produtor junto com Reginald Rose e George Justin – não recebeu o salário que tinha sido determinado no caso do filme fechar no azul. Apesar disso, Fonda considera 12 Angry Men um de seus três melhores filmes – os outros dois da lista são The Grapes of Wrath e The Ox-Bow Incident.

Esta produção é utilizada com bastante frequência em escolas de negócios e em workshops para demonstrar técnicas de resoluções de conflitos e dinâmicas de equipes.

O ator Jack Klugman, que interpreta ao Jurado 5, foi o último do elenco de 12 atores a morrer (em 2012).

Os ensaios meticulosos para fazer o filme duraram duas semanas, o que fez com que a produção fosse rodada em um prazo até então sem precedentes de 21 dias. 12 Angry Men tem exatamente 365 takes.

Em junho de 2008 esta produção foi classificada no segundo lugar na lista do American Film Institute dos 10 melhores filmes de todos os tempos do gênero “drama de tribunal”. Em primeiro lugar ficou outro grande clássico: To Kill a Mockingbird.

Apenas dois dos 10 jurados acabam sendo identificados pelos seus nomes – e apenas no final. O Jurado 8 se chama Mr. Davis, e o Jurado 9 Mr. McCardle. Mas quase todos os outros são identificados por suas profissões. A saber: Jurado 1, treinador de futebol no ensino médio; Jurado 2, caixa de banco; Jurado 3, proprietário de um serviço de mensagens; Jurado 4, corretor de ações; Jurado 6, pintor; Jurado 7, vendedor; Jurado 8, arquiteto; Jurado 10, garagista; Jurado 11, relojoeiro; Jurado 12, executivo de agência de publicidade.

O roteiro de Reginald Rose escrito para a TV ficou praticamente intacto na versão desenvolvida por ele para o cinema.

A juíza do Supremo Tribunal de Justiça americano Sonia Sotomayor falou sobre o filme após uma exibição dele feita no festival de cinema da Universidade Fordham Law School em 2010. Ela comentou que foi inspirada por 12 Angry Men quando fazia a faculdade a seguir o caminho da lei. Mas comentou que quando atuou como juíza da primeira instância ela sempre instruía os jurados a não fazerem o mesmo que os personagens da produção porque eles, no fim das contas, julgam com base em especulações e não nas provas. De acordo com Sotomayor, a suposição de que uma das testemunhas usava óculos jamais seria aceita em um júri real – caso o juiz soubesse sobre esta especulação, o resultado seria anulado. Curioso. Um filme para render muitos debates, pois.

12 Angry Men está na lista dos “grandes filmes” do cinema do crítico Roger Ebert. Outra curiosidade: este foi o último filme feito pelo ator Joseph Sweeney.

Esta produção recebeu 16 prêmios e foi indicado a outros 11 – incluindo a indicação para três Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Ator Estrangeiro para Henry Fonda no Prêmio Bafta; para o Urso de Ouro de Melhor Filme e o OCIC Award no Festival Internacional de Cinema de Berlim; para a Menção Especial no Festival Internacional de Cinema de Locarno; para o de Melhor Roteiro Americano Drama dado pelo Writers Guild of America; e para a escolha do filme integrar o Top Ten do National Board of Review. 12 Angry Men concorreu nas categorias Melhor Filme, Melhor Diretor para Sidney Lumet e Melhor Roteiro Desenvolvido para Outro Meio para Reginald Rose no Oscar 1958, mas perdeu as três estatuetas para The Bridge on the River Kwai.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,9 para esta produção, um nível de avaliação fantástico para os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 49 críticas positivas para 12 Angry Men e nenhuma negativa, o que lhe garante uma rara aprovação de 100% e uma nota média 9 – também bastante alta e bem acima da média do site.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso o filme atende a uma votação que foi feita aqui no blog há algum tempo e na qual parte dos leitores pediu críticas de filmes daquele país.

CONCLUSÃO: Um filme contundente sobre o comportamento humano e sobre a lógica que move cada indivíduo. 12 Angry Men virou um clássico dos tribunais porque trata de pessoas acima de tudo. O crime fica em segundo plano e o embate “natural” entre defesa e acusação nem é visto pelo espectador. Esta produção interessa por focar justamente a parte do julgamento pouco mostrada neste tipo de filme: os jurados. Com isso ganha o espectador, que é convidado a pensar em suas próprias crenças e em repensar algumas relações que vive. Um grande roteiro, uma grande direção e ótimas atuações. Um filme sempre atual e importante de ser revisto. Imperdível.