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Jezebel

Dois grandes atores em suas respectivas primeiras fases de suas longas e profícuas carreiras. Jezebel nos apresenta Bette Davis e Henry Fonda em um belo trabalho. Um filme que retrata os Estados Unidos dividido entre o Norte e o Sul e prestes a passar por mais uma crise envolvendo a saúde pública. Produção bastante datada, que trata de forma franca um estilo de vida que foi importante para os Estados Unidos. É um filme interessante especialmente pelo desempenho de seus astros.

A HISTÓRIA: Começa em New Orleans, em 1852. As ruas estão cheias de comerciantes e pessoas comprando de roupas, máscaras até flores. Carruagens são conduzidas por escravos negros, e senhores bem vestidos caminham pelas ruas. Em uma carruagem, Buck Cantrell (George Brent) pede para o cocheiro parar em um hotel. Ele vai, junto com Ted Dillard (Richard Cromwell), para o bar do hotel, para eles tomarem uma dose de whisky antes da festa de Julie (Bette Davis).

No bar do hotel, Buck acaba se desentendendo por causa de comentários feitos sobre Julie. Como manda o costume da época, ele deve enfrentar o desafeto em um duelo. Em seguida, Buck e Ted vão para a festa de Julie, que chega atrasada, causando comentários de reprovação em parte dos convidados.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Jezebel): Eu não vou mentir para vocês. O grande interesse desse filme é ver a dois grandes atores, que marcaram as suas épocas – e, porque não dizer, a história do cinema -, em grande fase. Bette Davis era o nome de destaque deste filme. E não por menos, já que ela tinha sido indicada ao Oscar de Melhor Atriz em 1935 e vencido o Oscar nessa mesma categoria em 1936.

Ou seja, Jezebel, quando estreou, estava sendo estrelado por uma atriz que recém tinha vencido o Oscar. Bette Davis estava em ascensão quando fez este filme. Não por acaso o seu nome aparece em tamanho maior do que o dos outros astros da produção. Ela é a protagonista, e a história orbita ao seu redor. Mas afinal de contas, o que o roteiro de Clements Ripley, Abem Finkel e John Huston nos apresenta?

Apesar do filme ter sido lançado em 1938, um ano antes do começo da Segunda Guerra Mundial, a história em si de Jezebel se passa em 1852. Importante ter isso em mente. Também é fundamental sabermos que estamos na região Sul dos Estados Unidos – o roteiro do filme nos lembrará disso inúmeras vezes.

Porque apesar de Jezebel ser um filme centrado em uma mulher que resolve romper as regras vigentes daquele período – e é sempre criticada por isso -, ele também trata, de maneira muito direta e franca, as diferenças entre os ianques (do Norte do país) e os sulistas. Ou seja, entre os que querem a abolição da escravatura e aqueles que a defendem.

Vale, nesse sentido, lembrar que este filme se passa nove anos antes do início da Guerra de Secessão – ou Guerra Civil Americana. Todo o cenário que vemos em Jezebel, das diferenças cruciais entre o Sul e o Norte dos Estados Unidos, serão a base do conflito militar que duraria quatro anos e que teria provocado cerca de 618 mil mortes – alguns projetam números até maiores do que este. De qualquer forma, um número espantoso de vítimas por um conflito que teve as suas bases um pouco esboçadas nesta produção.

Antes de falar deste fundo cultural, político, econômico e de costumes de Jezebel, vamos tratar da essência desta produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A protagonista do filme, e na qual a história é centrada, é a destemida, “mimada” e temperamental Julie Marsden (Bette Davis). Ela era uma garota à frente da sua época porque, apesar de concordar com algumas convenções e de amar a sua terra natal, ela também queria romper com alguns costumes e mostrar que tinha tanto direito quanto os homens de opinar e de marcar posição.

Esse é um clássico. Uma mulher que procura romper os costumes conservadores e o “modus operandi” de uma sociedade machista para fazer-se ouvir e respeitar. Depois de namorar a Buck, Julie agora é noiva de Preston Dillard (Henry Fonda), um super partido da época por ser herdeiro de uma família respeitada e por trabalhar em um banco. Além de tudo, ele era bonito e elegante. Julie não poderia querer alguém melhor.

O problema é que logo percebemos que Julie quer tudo a sua maneira. E por uma razão idiota, porque Julie quer que o noivo vá com ela na prova do vestido que ela deseja usar no baile de gala da cidade, mas ele está ocupando em uma reunião importante no banco e não vai com ela, Julie resolve quebrar uma regra social considerada importante naquela época. A regra também é ridícula, convenhamos, mas a simbologia da atitude dela é o que muda tudo.

Como Preston resolve terminar a reunião que tinha começado no banco para defender a construção de ferrovias para investidores, Julie resolve “escandalizar” a todos ao optar por um vestido vermelho para ir para o baile. Naquela sociedade conservadora e cheia de regras, uma moça solteira só poderia ir para o baile vestida de branco. Uma pena, nesse sentido, que Jezebel ainda seja um filme preto e branco. Fiquei imaginando como, em uma produção colorida, teria sido chocante ver Julie vestida de vermelho em meio a um salão de mulheres com vestidos brancos.

Mesmo não vendo esse contraste em todo o seu esplendor por causa do preto e branco, conseguimos imaginar a cena. E sim, por causa de um costume tão idiota e de uma “cabeça dura” tão grande como Julie, ela acaba sendo deixada pelo noivo. Como a vida anda para a frente e não para trás – ainda que Julie tenha preferido ficar com a própria vida paralisada à espera de Preston -, depois de romper com a protagonista, Preston vai para o Norte do país trabalhar e lá ele conhece à Amy Bradford Dillard (Margaret Lindsay).

Os dois se casam e, após um ano do rompimento com Julie, Preston volta para o Sul por causa da epidemia de febre amarela que está assolando a região de New Orleans. Honestamente, eu não vejo que essa teria sido a melhor decisão a tomar, voltar para uma região com epidemia crescente, mas Preston é do tipo que quer ajudar o banco no qual ele é um dos responsáveis.

Além disso, claro, nesse caso, o roteiro não pode ser tão lógico porque o que importa mesmo é a nova fase de “tensão” entre Julie e Preston. Como Amy é uma garota “ianque”, do Norte do país, isso rende uma série de comentários hostis por parte de Julie e da sua eterna marionete Buck.

Olhando especificamente para a protagonista deste filme, os roteiristas parecem nos dizer que uma mulher, quando resolve ter opiniões próprias, ir contra as convenções e assumir uma postura egoísta – funções que parecem ser restritas apenas aos homens -, causa apenas dor, destruição e morte. A Jezebel do título é explicada pela tia de Julie, Belle Massey (Fay Bainter), que lembra a sobrinha de uma mulher que foi contra Deus, na Bíblia, e que tinha esse nome.

Verdade que os joguinhos e o egoísmo de Julie provocaram mais conflitos – e inclusive uma morte – do que ela gostaria. Mas será que ela foi realmente a responsável pela morte de Buck, por exemplo? Ela mesma pede para ele deixar para lá o costume dos duelos, e não confrontar Ted por uma bobagem. Mas ele é orgulhoso e defende até o final os costumes do Sul. E aí que mais uma vida se perde por uma bobagem.

Daí entramos naquele fundo social do qual eu falava antes. Jezebel trata indiretamente vários elementos que serviriam de estopim para ocorrer a Guerra de Secessão nove anos depois desta história. Por um lado, temos a uma sociedade conservadora e cheia de regras – ao ponto de uma garota ser considerada uma “pária” porque não usou uma cor de vestido em uma determinada festa. Sociedade essa que defendia o uso de escravos e colocava a honra acima da vida – vide os duelos que poderiam terminar em morte por causa de desentendimentos.

Bem diferente desta visão de mundo, temos no filme Amy e um Preston com nova visão após ter morado no Norte do país. Naquele região, as pessoas acham que os negros devem ter as mesmas oportunidades que os brancos, e que uma mulher também deve ter liberdade de escolher como ela deve se vestir. No Norte não existem tantas convenções sociais ou regras, e as máquinas começam a exigir uma nova postura dos trabalhadores – ao ponto de Preston afirmar, com todas as letras, que as máquinas vão superar o trabalho escravo em breve.

Esse choque de visões e de maneiras de encarar a realidade cria tensão na casa de Julie e da tia Belle da mesma maneira que cria divisões e conflitos em qualquer outra casa do Sul do país. Jezebel, desta forma, além de uma história de amor mal resolvida, se revela um filme que ajuda a explicar um contexto social e histórico importante por Estados Unidos.

Por tudo isso, esse filme se revela interessante. Apesar disso, um grande problema do roteiro de Jezebel é que ele é um bocado previsível. Não existe, descontados um ou dois momentos, nenhuma grande surpresa. No lugar disso, o que vemos é uma carga um tanto exagerada de melodrama – especialmente a partir do ponto em que Julie parte em “socorro” do amado que não está mais com ela. Dá para entender as escolhas dos roteiristas e do diretor William Wyler, já que este estilo deveria ser apreciado pelas audiências na época.

Mas, para o meu gosto, o filme poderia ser um pouco mais surpreendente e um pouco menos melodramático. O roteiro também não apresenta nenhuma grande novidade, ainda que Ripley, Finkel e Huston acertam ao não centrar a história apenas na garota rebelde e sua história de amor frustrada, mas também em nos apresentar um pano de fundo histórico interessante.

De qualquer forma, o grande interesse do filme está mesmo em ver Bette Davis e Henry Fonda ainda jovens e em grande momento. Uma das sequências desta produção, quando Julie encontra Preston após um ano, vestida de branco, e que se ajoelha em frente ao amado, certamente é uma das imagens mais repetidas quando tratamos do trabalho de Bette Davis. O filme merece ser visto apenas por isso, pelo desempenho da atriz e por sua troca com o grande Henry Fonda. Ambos estão muito bem. Mas o filme, infelizmente, é um pouco datado e previsível demais.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para quem se interessou em saber um pouco mais sobre os conflitos entre o Sul e o Norte dos Estados Unidos, vale dar uma lida nessa curiosa matéria da Superinteressante. Apesar daquela era revelada por Jezebel já fazer parte do passado dos Estados Unidos, certamente as suas marcas continuam ajudando a ditar o cotidiano do país em pleno 2018 – vide a questão racial mal resolvida no país, entre outras questões.

Vale comentar que Jezebel está completando, em 2018, nada menos que 80 anos de seu lançamento nos cinemas. Impressionante pensar que há oito décadas já tínhamos filmes com o zelo, o cuidado e o talento de atores como Bette Davis e Henry Fonda nos cinemas. Esse filme faz parte da história do cinema norte-americano, sem dúvidas.

O roteiro de Jezebel, escrito por Clements Ripley, Abem Finkel e John Huston, é baseado na peça de teatro de Owen Davis. Além dos três roteiristas, contribuíram para o roteiro, apesar de não terem recebido crédito por isso, Robert Buckner e Louis F. Edelman. Interessante como naquela época diversos nomes se envolviam em um mesmo roteiro – hoje, por outro lado, é mais comum que um ou dois roteiristas, no máximo, se envolvam em um projeto.

São épocas diferentes, sem dúvida. Na época de Jezebel, na era dos estúdios, o nome dos astros e estrelas, assim como os dos diretores, tinham mais relevância do que o dos roteiristas. Os projetos eram capitaneados pelos produtores e pelos estúdios muito mais do que hoje em dia.

Vou admitir algo que é difícil para “engolir” nessa produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Entendo que a produção retrate uma situação em pleno século 19, nos Estados Unidos, mas a ideia de que uma mulher é a origem da “desgraça” dos homens, ao estilo da Jezebel da Bíblia e de Eva, idem, me incomoda. Como eu disse antes, os homens fazem o que bem entendem, inclusive nessa história, mas a culpa acaba sendo das “ardilosas” mulheres que os provocam? Ah vá! Quando as pessoas serem realmente responsáveis pelos seus atos?

Jezebel é um filme de William Wyler, um dos grandes diretores da época dos estúdios em Hollywood. Nesta produção, ele faz um trabalho correto e bem conduzido, valorizando os cenários e os locais de luxo que ajudam a explicar a origem dos personagens. Ele também captura muito bem o ritmo de uma cidade na época e o trabalho dos atores, valorizando muito bem os talentos que foram escolhidos para esta produção. Faz um trabalho competente, ainda que, tecnicamente falando, ele não entregue nada assim de tão excepcional. Os seus ângulos e dinâmica das câmeras já tinham sido explorados com talento antes por vários nomes. Nada demais, portanto.

Bette Davis e Henry Fonda são as grandes estrelas desse filme. Com um certo destaque para a atriz, que realmente conduz a história e brilha com a sua personagem cheia de nuances. Além deles, vale citar o belo trabalho de George Brent como Buck Cantrell; de Margaret Lindsay como Amy Bradford Dillard; de Donald Crisp como o Dr. Livingstone, amigo da família Dillard e de Julie; Fay Bainter muito bem como a tia Belle Massey; Richard Cromwell como Ted Dillard, irmão mais novo de Preston e um sujeito pouco afeito a “desaforos”; Henry O’Neill como o general Theopholus Bogardus, tutor de Julie; Lew Payton como o “tio” Cato, um escravo que era empregado da família de Julie há muito tempo; Eddie “Rochester” Anderson como Gros Bat, escravo de confiança da família; e Matthew “Stymie” Beard como Ti Bat, um simpático escravo que servia como “garoto de recados” e quase um “faz tudo”.

O filme não tem muitos personagens importantes, ma tem diversos personagens com pouca relevância ou figurantes. Alguns outros nomes tem algumas falas e um pouco de importância no filme, mas nada que mereça realmente ser mencionado.

Entre os aspectos técnicos da produção, vale destacar a direção de Ernest Haller; a trilha sonora de Max Steiner; e a edição de Warren Low. Também valem ser mencionadas a direção de arte de Robert M. Haas; os figurinos de Orry-Kelly; e o departamento de arte de Fred M. MacLean, Pat Patterson e George Sweeney.

Jezebel estreou em première no dia 10 de março de 1938 em Nova York. No mesmo ano, o filme estreou em outros 11 países, incluindo uma participação no Festival de Cinema de Veneza em agosto daquele ano.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. A atriz Bette Davis concluiu que William Wyler era um diretor diferenciado porque ele fazia questão de apresentar para ela o resultado das filmagens do dia. Nenhum diretor tinha feito isso com ela antes. Eles assistiram juntos, por exemplo, a uma cena em que a atriz estava descendo uma escada e que, quando foi filmada, tinha irritado Bette Davis porque Wyler tinha pedido para a sequência ser repetida pouco mais de 30 vezes. Ao rever o material, contudo, Wyler mostrou a sequência em que Bette Davis tinha feito uma expressão fugaz e que resumia bem a sua personagem. A partir daí, a atriz não questionou mais nenhuma sequência que o diretor pediu para ser repetida.

Bette Davis teria gravado cerca de 45 takes até que ela conseguiu aperfeiçoar o gesto em que ela levanta a capa da sua montaria – na parte inicial do filme. Isso demonstra, assim como o parágrafo anterior, o nível de exigência da atriz e do diretor com os detalhes desse filme. De fato, nada aparece em cena sem que tudo tenha sido ensaiado e/ou gravado até a exaustão para que ficasse “perfeito”.

Depois que o filme terminou de ser gravado, Bette Davis chorou durante alguns dias. Não apenas porque ela teria terminado uma das suas experiências cinematográficas mais gratificantes mas, também, porque ela descobriu estar grávida de William Wyler. Agora sim, faz ainda mais sentido o diretor preocupar-se em mostrar as cenas rodadas a cada dia para a sua então amada. 😉

Bette Davis recebeu o Oscar de Melhor Atriz por Jezebel em 1939. Em 2001, esse Oscar que ela recebeu pelo filme foi leiloado por US$ 57,8 mil pela Christie’s. Quem arrematou a estatueta foi Steven Spielberg que, na sequência, doou o prêmio para os arquivos da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

Bette Davis conheceu William Wyler durante o teste que fez para o filme A House Divided em 1931. Como estava atrasada para o teste, Davis pegou um vestido de tamanho menor do que o dela e, enquanto caminhava, ouviu o seguinte comentário de Wyler para uma pessoa de sua equipe: “O que você acha dessas damas que mostram os seus seios acreditam que podem conseguir um emprego por causa disso?”. Davis se sentiu humilhada por esse comentário e fez questão de lembrar Wyler sobre ele quando os dois se encontraram para tratar de Jezebel. A ironia do episódio é que Bette Davis era conhecida por renunciar do seu sex appeal – muitas vezes aparecendo nos testes e nos encontros com os diretores e produtores sem maquiagem.

Durante as filmagens de Jezebel, Bette Davis e William Wyler tiveram um caso. Na época, Davis era casada com Harmon Nelson. Quando Jezebel foi rodado, Nelson trabalhava, principalmente, em Nova York, e o casamento dele com Davis encaminhava-se para o fim. Enquanto isso, a atriz passava muitas noites na casa de Wyler onde, entre uma noite e outra de amor, eles também falavam do filme que estavam fazendo juntos.

Após brigar com Wyler em um determinado momento, Bette Davis embarcou em um caso com Henry Fonda. Isso aumentou muito a tensão nos sets de filmagem. Mas depois que a esposa grávida de Fonda ligou para o marido, Davis desembarcou desse caso.

Para alguns críticos, Jezebel é a versão preto e branco de Gone with the Wind, que estava em fase de pré-produção na época em que o filme de Wyler foi rodado. Francamente? Acho Gone with the Wind melhor. Mais maduro enquanto produção e com interpretações mais marcantes.

O ator Henry Fonda foi liberado de ficar junto com a equipe até o final das rodagens porque ele estava ansioso para acompanhar ao nascimento da sua filha Jane Fonda. Por isso ele gravou algumas cenas com antecedência e foi liberado. Enquanto isso, Bette Davis perdeu o pai durante as filmagens de Jezebel. Ele morreu durante o Ano Novo de 1938. Como a produção estava 24 dias atrasada, Davis tirou uma folga para ir até o funeral do pai.

A peça em que o filme foi baseado, estrelada pela “inimiga” de Bette Davis, Miriam Hopkins, foi um fracasso na Broadway. A atriz Miriam Hopkins chegou a afirmar que, em seu contrato, estava determinado que ela estrearia o filme baseado na peça. Mas a verdade é que o contrato não era determinista – apenas dizia que ela seria “considerada” caso a produção rendesse um filme.

Humphrey Bogart, que tinha acabado de trabalhar com Wyler em Dead End, alertou Bette Davis que ela poderia odiar trabalhar com o diretor já que ele tinha o hábito de pedir que uma sequência fosse rodada diversas vezes sem, contudo, orientar os atores sobre o que eles poderiam fazer diferente. No primeiro dia de filmagens, Davis teve que rodar 28 vezes uma cena considerada simples em uma loja de roupas. Inicialmente, ela não gostou daquilo. Mas quando viu o resumo das filmagens do dia e percebeu que a cada nova rodagem na sequência a interpretação dela ficava melhor, ela foi convencida pelo jeito de trabalhar do diretor.

Jezebel ganhou em duas categorias do Oscar de 1939 e foi o vencedor de outros três prêmios – além de ter sido indicado a outros quatro. O filme ganhou o Oscar de Melhor Atriz para Bette Davis e de Melhor Atriz Coadjuvante para Fay Bainter. Ele ficou ainda no Top Ten Films da National Board of Review, em 1938; o National Film Registry do National Film Preservation Board dos Estados Unidos em 2009; e a Special Recommendation para William Wyler no Festival de Cinema de Veneza de 1938.

Impressionante a trajetória de Bette Davis. Ela recebeu duas vezes a estatueta de Melhor Atriz no Oscar, em 1936 por Dangerous e em 1939 por Jezebel, e foi indicada outras nove vezes ao Oscar – mas nunca mais ganhou uma estatueta. A primeira indicação dela veio em 1935, por Of Human Bondage; e a última, em 1963, por What Ever Happened to Baby Jane?

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para Jezebel, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 15 críticas positivas e uma negativa para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 7,5.

Escolhi Jezebel para figurar na lista dos filmes da seção Um Olhar Para Trás porque este é o primeiro filme da lista destaca pelo livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer. Como sempre, gosto de destacar parte da crítica da produção que é feita no livro. Em seu texto, R. Barton Palmer comenta o seguinte: “O segundo mais famoso retrato de Hollywood de uma mimada bela do Sul, Jezebel ofereceu a Bette Davis o veículo perfeito para seus talentos como atriz em um papel marcante. Davis interpreta Julie Marsden, a mais cobiçada debutante da Nova Orleans de 1850, uma sociedade regida por códigos de comportamento inflexíveis que a jovem considera sufocantes”. Como sempre, vale ler toda a crítica de Palmer, que faz uma interessante comparação de Jezebel com Gone with the Wind.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso, esse filme também figura na lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Essa produção se desdobra sobre um tempo dos Estados Unidos que já passou mas que, até hoje, tem os seus desdobramentos no país. Uma mulher que busca ter opinião própria sofre com uma sociedade cheia de regras e na qual os homens decidem os rumos da sociedade. Esse é um dos temas do filme. O outro é a diferença brutal entre a “forma de ser” da região Norte e Sul do país, com as suas diferenças “irreconciliáveis”. Um filme interessante, com dois atores ótimos em suas fases iniciais de carreira, mas que sofre um pouco com o fato de ser muito datado e por ficar um tanto “indeciso” sobre qual é o foco principal da história.

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The Crowd – A Turba

O cinema foi construído com filmes incríveis e uma vasta coletânea de cenas marcantes. Certamente uma destas sequências que marcaram a história do cinema faz parte deste The Crowd. Impressiona pensar que este filme, dirigido por King Vidor, completou 90 anos em 2018. Uma história impactante para a época, certamente, e que mesmo tantas décadas depois, ainda causa impacto. Apenas um dos “patriarcas” do cinema e um dos nomes que inspiraram vários outros realizadores seria capaz de fazer isso.

A HISTÓRIA: 4 de julho de 1900. O país está em festa! Fogos de artifício! Desfiles! Piqueniques! Todos celebrando o aniversário dos 124 anos da América! Na frente de uma casa de estilo vitoriano com a bandeira americana, vemos a um desfile de charretes e de pessoas orgulhosas. Mas a narrativa pergunta o que “uma pequena coisa” como a Declaração da Independência pode ser comparada ao grande evento que está acontecendo na casa dos Sims.

Na residência, um pai orgulhoso espera ansioso pelo nascimento de seu filho. A criança nasce, o médico dá algumas palmadinhas no bebê e o pai diz que “o mundo irá ouvir falar desse menino”. O pai comenta que garantirá todas as oportunidades possíveis para o filho Johnny. Doze anos depois, o garoto tem um futuro promissor. Recita poesias, toca piano e canta em um coral, como antes fizeram ex-presidentes como Lincoln e Washington. Essa produção vai contar a história de Johnny, que simboliza a de tantos outros americanos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Crowd): Fiquei impressionada com esse filme. Mais que nada, com a técnica diversificada e interessante adotada por King Vidor no longínquo ano de 1928. Impressionante assistir a um filme como esse, tão bem acabado e com uma narrativa envolvente, apesar da “estranheza” que o cinema mudo desperta nas pessoas atualmente.

Mas olhando especificamente para a técnica, para os ângulos e para a dinâmica das câmeras, King Vidor nos apresenta neste The Crowd um belo repertório que seria, no futuro, adotado por dezenas de outros diretores. A dinâmica inicial do filme, para mim, é o que a produção tem de melhor. Não apenas a apresentação do protagonista e das suas origens, mas também o exame do diretor da vida “comum” americana e a forma com que ele retrata Nova York e a vida em uma grande cidade.

O roteiro de King Vidor e de John V.A. Weaver, com legendas/titulares de Joseph Farnham, nos conta uma história muito interessante, na essência. The Crowd é a narrativa de um garotinho que nasce enchendo o pai de esperanças, com sonhos de ser alguém grande, mas que cai na vida regular de outros milhões. John vai para Nova York aos 21 anos e diz que tudo que ele deseja é uma oportunidade. Com ela em mãos, ele vai conseguir realizar os seus sonhos de grandeza.

Em resumo, The Crowd nos fala do bom e velho “sonho americano”. Daquela sociedade em que todos tem a oportunidade de realizarem os seus sonhos e de serem grandes. Mas o fato é que poucos acabam se diferenciando da multidão. E esse filme, de fato, trata sobre isso. Sobre o sujeito comum que faz parte de uma grande repartição e que acaba seguindo o mesmo “comportamento de manada” da maioria.

Um dia importante na vida de John foi quando, ao invés de sair do trabalho para estudar, ele sai para passear com o colega Bert (Bert Roach) e duas garotas que ele convidou para sair. Nesse dia o protagonista deste filme deixa para trás a possibilidade de tornar-se alguém diferenciado ao investir nos estudos e, em troca disso, ele se apaixona por Mary (Eleanor Boardman).

Claro que conhecer a garota não é o seu problema. Mas o próprio comportamento de John após ele se casar. A partir daí, ele se acostuma ao menor esforço possível e continua apenas com a rotina de casa-trabalho-casa. Não volta a estudar e não se esforça em fazer nada além do básico. Aos poucos, ele cai na rotina com a esposa, e passa a criticá-la por ninharias do cotidiano. O casamento se desgasta, mas antes de abandonar a residência, Mary conta para o marido que está grávida.

Desta forma, pouco a pouco, o protagonista de The Crowd vai se distanciando cada vez mais do sonho de ser alguém diferenciado e que terá relevância na sociedade para tornar-se um sujeito extremamente comum. Para mim, o filme perde um pouco o interesse justamente quando entra no modelo de vida comum da época. Ou seja, com John deixando todas as responsabilidades da casa para Mary, inclusive os cuidados dos filhos (interpretados por Freddie Burke Frederick e por Alice Mildred Puter).

Por sua própria escolha e postura, John se torna um sujeito comum, nada extraordinário. Essas dificuldades cotidianas, o desgaste do casamento e a frustração do homem que percebe a diferença brutal entre a sua realidade e os sonhos originais, são mostradas com maestria por King Vidor. Ainda que não exista muita surpresa nessa fase do filme, a narrativa é envolvente por causa do trabalho dos atores, da trilha sonora e da busca constante de King Vidor de mesclar drama com comédia.

Assim, depois daquele começo envolvente, The Crowd cai um pouquinho em uma história morna, até que um grande momento na vida de John e Mary é seguido de um fato dramático e crucial. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Logo depois de um dia na praia, John pensa em uma campanha que acaba rendendo um ótimo prêmio em dinheiro para a família. Para a época, US$ 500 era uma pequena fortuna. John chega em casa com presentes e com o prêmio.

O momento é de muita comemoração mas, em seguida, vemos a uma das cenas mais impactantes que eu já vi em um filme das primeiras décadas do cinema. O atropelamento fatal da filha do casal é perfeitamente filmado por King Vidor, que demonstra, naquela sequência, maestria em causar impacto nos espectadores. Se, hoje em dia, achamos aquela cena impactante, imagina as pessoas em 1928? Não por acaso esse filme marcou a época e essa cena, muitas vezes, é lembrada como uma das sequências mais importantes da história da Sétima Arte.

Desta forma, King Vidor não nos conta apenas a história de um sujeito comum e de uma família “ordinária”. Ele nos mostra a beleza, a alegria, a suavidade, o amor, a brutalidade e a tristeza que uma vida normal pode contemplar. Mas há crítica social nessa produção também.

Em certo momento, o roteiro de Vidor e de Weaver questionam como, para a “multidão”, só interessa as pessoas produtivas e que tem uma vida como a de todos os demais. Quando John pede demissão e fica desempregado, ele sente o desprezo dos demais por não ser um “provedor” eficiente para a família dele.

Nesse ponto, o roteiro afirma como “a turba” só está tranquila e satisfeita quando todos seguem o padrão e se parecem. Por incrível que pareça, até hoje, 90 anos depois, muitas vezes parece que é assim que funciona. Quem difere da maioria e quem procura ser um “espírito livre”, como comenta Nietzsche, ou é tachado de maluco, ou simplesmente é ignorado pelos demais. A pessoa não se “encaixa”, e The Crowd demonstra muito bem, em diversas cenas, como tudo que muitos querem é se sentir “pertencendo” à multidão.

No fim das contas, em certo momento da vida, até podemos pensar em fazer a diferença e em sermos pessoas “diferenciadas” ou “especiais”. Mas depois, por causa das cobranças e da exigência da mediocridade, tudo o que queremos é sermos “mais um”. Ao menos é essa reflexão que King Vidor nos apresenta nesse The Crowd. Sem dúvida alguma um grande trabalho de um grande diretor.

Tecnicamente inovador e com narrativa envolvente, o filme acerta, especialmente, quando reflete sobre os sonhos do indivíduo em contraste com as expectativas da coletividade. Interessante ver a trajetória do protagonista, com começo tão promissor e cheio de sonhos do pai dele, com o homem que ele se tornou no final.

Algo que John aprendeu – e que The Crowd parece nos ensinar – é que, no final das contas, ser um sujeito comum não é tão ruim assim. A lição do palhaço e a do espetáculo com todos se comportando igual faz pensar – e mostra a necessária humildade que John e todos nós deveríamos ter. Para a época em que este filme foi feito, sem dúvida alguma ele está acima da média. Merece ser visto e apreciado.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Ufa! Estamos em agosto e, finalmente, retomo por aqui a seção Um Olhar para Trás com produções que estão fazendo “aniversário” em 2018. Começo esse resgate com The Crowd porque este é um dos filmes que aparecem na obra 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer. A ideia é ir intercalando esses filmes recomendados pelos especialistas como alguns dos melhores de todos os tempos com novas produções que estão saindo nos cinemas nesse ano.

Como manda o manual dos filmes mudos, The Crowd tem na trilha sonora dramática e cuidadosamente planejada de Carl Davis um de seus trunfos e elementos principais. Sem diálogos, os filmes mudos precisavam dessas trilhas sonoras para ajudar na narrativa, dando o tom exato de cada fase e momento da produção. Um trabalho excelente e sem retoques de Carl Davis nesse filme.

Além da trilha sonora, claro que o grande ponto de atenção nesse filme é a direção de King Vidor. Ele dá uma pequena aula de cinema, mostrando algumas dinâmicas de câmera e ângulos que seriam depois utilizados por diversos outros realizadores. Bastante dinâmico, The Crowd também tem na edição ágil de Hugh Wynn um ponto fundamental. Além destes nomes, vale citar o trabalho de Henry Sharp na direção de fotografia; de Cedric Gibbons e de A. Arnold Gillespie no Departamento de Arte; e do grande produtor Irving Thalberg na produção.

O roteiro, como comentei antes, tem um grande começo e, depois, perde um pouco a “novidade” e a força. Ainda assim, dá para perceber que The Crowd foi um trabalho feito com muito esmero e cuidado. Os roteiristas King Vidor e John V.A. Weaver, com a ajuda dos titulares/legendas de Joseph Farnham, cuidaram de equilibrar sempre o drama, o romance e a comédia. Nunca pesaram a mão muito em um destes elementos – talvez, um pouco demais, na comédia. Mas algo compreensível para a época. O filme nasceu de uma história original de King Vidor e contou com uma adaptação desta história feita por Harry Behn – que não teve esse trabalho de adaptação creditado.

Para o filme funcionar como ele funciona, grande parte do mérito é dos atores principais. James Murray como John e Eleanor Boardman como Mary fazem um trabalho excepcional. Muito carismáticos e expressivos, eles seguram a narrativa do início ao fim. Além deles, vale citar o trabalho de Bert Roach como Bert, um amigo não muito amigo de John; Estelle Clark como Jane, amiga de Mary; Daniel G. Tomlinson como Jim e Dell Henderson como Dick, irmãos de Mary; Lucy Beaumont como a mãe da protagonista; e Freddie Burke Frederick e Alice Mildred Puter como os filhos do casal John e Mary.

The Crowd estreou no dia 18 de fevereiro de 1928 em Nova York. Naquele mesmo ano ele estreou no Reino Unido, na Argentina e na Espanha. Essa produção ganhou um prêmio do National Film Preservation Board em 1989 e concorreu e duas categorias do Oscar 1929 – mas não levou nenhuma estatueta para casa.

Agora, vale comentar algumas curiosidades sobre esse filme e as pessoas envolvidas nele. Algum tempo depois de The Crowd ter sido lançado, o alcoolismo cobrou o seu preço do protagonista desta produção. James Murray, alcoólatra, acabou mendigando nas ruas. Ironicamente, uma das pessoas para quem Murray pediu dinheiro foi King Vidor, que acabou oferecendo para o ator um papel no filme que é um tipo de sequência de The Crowd, Our Daily Bread, lançado em 1934. Murray recusou o trabalho, pensando que ele tinha sido oferecido para ele apenas por pena. O ator acabou morrendo afogado em 1936, com apenas 35 anos de idade.

Apesar do sucesso de crítica e de público – o filme foi bem nas bilheterias, na época -, o chefe da MGM, Louis B. Mayer, menosprezou The Crowd. Em parte, por causa do “tema deprimente” do filme. E, por outro lado, porque Mayer achou o filme “obsceno” por apresentar um banheiro com um sanitário aparecendo.

King Vidor rodou diversas cenas nas ruas de Nova York mostrando multidões reais. Essas cenas incluíram não apenas moradores da cidade, ao invés de figurantes, mas também ônibus, trens e até policiais reais. Essa escolha dá para perceber quando vemos ao filme, e é uma das “graças” da fase inicial dessa produção.

O diretor filmou nada menos que nove finais diferentes para The Crowd antes de escolher o final que vemos em cena. A razão para ele rodar tantas versões é que King Vidor sabia que a MGM não gostava de lançar uma produção sem um final positivo. Isso explica melhor aquela reviravolta um tanto estranha do final desta produção. Ela, em si, não faz tanto sentido, mas por causa deste detalhe do estúdio, fica mais fácil de entender.

Na década de 1960, perguntaram para Jean-Luc Godard porque ninguém mais estava fazendo filmes sobre pessoas comuns. Ele respondeu: “Por que refazer The Crowd? Isso já foi feito”. Realmente. Achei esta produção um dos filmes mais emblemático sobre o “sujeito comum”.

Antes de fazer The Crowd, King Vidor tinha alcançado um grande sucesso nas bilheterias com os seus filmes anteriores. Com esse prestígio, ele conseguiu convencer o chefe de produção do estúdio MGM, Irving Thalberg, de que tinha chegado a hora de fazer um filme mais “experimental”. Thalberg gostou da ideia, até porque ele achava que os estúdios, de tempos em tempos, deveriam fazer filmes que lhe dessem prestígio – e não apenas lucro. Mas o chefe da MGM, Louis B. Mayer, não gostou nada de The Crowd. Ela achava que o filme abordava um “assunto sombrio” e tinha um “final triste”. Na fase de apresentações dos filmes para o Oscar, Mayer chegou a pedir para os colegas que não votassem em The Crowd para o prêmio. Realmente ele jogou contra “o time”. 😉

King Vidor não quis nenhuma grande estrela nesta produção. Na época, James Murray era um extra do estúdio que foi descoberto pelo diretor, e Eleanor Boardman era uma atriz com pouco destaque até então – além de ser a segunda mulher do diretor.

Thalberg achou que o filme não decolaria – mas topou realizar a produção porque King Vidor já tinha dado muito lucro para a MGM. Para a surpresa dele – e de outras pessoas -, The Crowd arrecadou mais do que o dobro dos seus custos.

Agora, vale comentar o trecho inicial do texto de The Crowd escrito por David Sterritt para o livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer: “‘Você tem que ser bom naquela cidade se quiser vencer a multidão’. É o que diz o jovem John quando vê pela primeira vez a cidade de Nova York, a empolgante metrópole na qual ele tem certeza de que seus talentos o farão se destacar da massa. As coisas não saem como planeja o herói de The Crowd, que, na verdade, não deveria ser chamado de herói, uma vez que a intenção do diretor King Vidor era retratar um homem tão comum que poderia ter sido retirado a esmo da turba urbana do título. Ele começa a história como um recém-nascido como qualquer outro e termina como um burguês nova-iorquino como qualquer outro. Nesse meio-tempo, passa por experiências tão enfadonhas que somente um estúdio tão ousado quanto a MGM sob o regime de Irving G. Thalberg poderia ter considerado o material digno de um drama hollywoodiano”.

Como sempre, o texto do livro merece ser apreciado na íntegra. Recomendo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,0 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 22 críticas positivas e apenas uma negativa para The Crowd – o que garante para o filme uma aprovação de 96% e uma nota média de 9,1.

The Crowd é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por causa disso, esse filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog. The Crowd também faz parte da lista de produções que integram a seção aqui do blog Um Olhar para Trás.

CONCLUSÃO: Bom voltar a revisitar a lista dos grandes filmes do cinema mundial de todos os tempos. Essa produção, uma das principais da carreira do grande diretor King Vidor, realmente merece ser apreciada. Nesse filme, encontramos algumas das técnicas principais de direção que fizeram parte de grande parte do cinema. E mesmo que a história de The Crowd hoje pareça um pouco “datada”, ela levanta ao menos um grande tema ainda pertinente: o “poder das massas” e a necessidade do homem e da mulher modernas fazerem parte dessa “massa”.

Um filme impressionante pelas técnicas utilizadas, pelo belo trabalho dos atores, pelo tema central e, principalmente, por uma das cenas mais impactantes que eu já vi em um filme dos anos 1920. Para quem gosta de “visitar” aos grandes nomes do cinema e as suas obras-primas, não dá para escapar deste The Crowd. Tecnicamente muito bem feito, o filme só não emplaca uma nota maior porque ele realmente tem uma narrativa de família e de sociedade muito datada. Ainda assim, como comentei antes, é imperdível para quem gosta de filmes clássicos.

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Yeelen – Brightness – A Luz

Existe uma diversidade impressionante de culturas, modos de agir e de ser no mundo. Pena que nem sempre as pessoas pensem sobre isso. Yeelen é um destes filmes que nos apresenta uma destas formas de ser e de agir diferentes das nossas. Nos apresenta uma cultura que é “estranha” mas que, não por causa disso, é menos valiosa que a nossa ou que qualquer outra. Ver a um filme como este nos faz lembrar de que existem muitas formas de pensar e de agir diferentes da nossa. E isso é o que faz a Humanidade ser tão interessante.

A HISTÓRIA: Começa com símbolos que explicam que o calor faz o fogo e os dois mundos (terra e céu) existem na luz. Em seguida, a introdução da história fala sobre o Komo, que para o povo bambara quer dizer a encarnação do saber divino. Os ensinamentos do Komo estão baseados no conhecimento dos “signos” (letras/sinais), dos tempos e dos mundos. Este conhecimento abrange os campos da vida e do saber.

O Koré é a sétima e a última sociedade de iniciação bambara, e ela é simbolizada pelo abutre sagrado “Mawla Duga”, ave de espaços abertos na casa, da guerra, do saber e da morte. Seu emblema é um cavalo de madeira, símbolo da diligência do espírito humano, e seu cetro é uma tábua lavrada chamada Koré “Kaman” ou a Asa do Koré. O “Kolonkalanni” ou martelo mágico serve para encontrar quem se perdeu, para descobrir e castigar os patifes, os ladrões, os criminosos, os traidores e os mentirosos. A Asa do Koré e o martelo mágico são usados em Mali há milhares de anos. O que vamos ver na sequência é o uso destes elementos da cultura bambara em uma história de perseguição e confronto.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Yeelen): Este filme começa dando o recado logo na cena inaugural. Depois daquela explicação sobre a cultura e o modo de viver dos bambara, somos apresentados a um sol gigante, no alvorecer de um novo dia, e a um frango em chamas. Pois sim. O sacrifício é um elemento que aparece em diversos momentos desta produção.

Yeelen nos fala de luz – esse nome significa justamente isso, “a luz” -, mas o filme está carregado de sombras, de magia e de morte. Os sacrifícios são uma constante, assim como perpassa toda a história uma certa luta entre o bem e o mal. Para muitos também assistir a Yeelen pode ser um sacrifício – e eu não os culpo. Este é um dos filmes mais distantes de tudo o que a maioria está acostumada a assistir.

Não temos o ritmo ou a preocupação estética de Hollywood. Nem temos uma grande preocupação com a história ou com o desenvolvimento dos personagens como boa parte do cinema europeu. Nada disso. Vemos pela frente sim uma história, com começo, meio e fim. Mas essa história é contada bem ao gosto da cultura que ela foca. Ou seja, sem pressa, com uma dinâmica fragmentada e o máximo possível “legítima”, com pessoas interpretando personagens sem ter realmente estudado para isso.

Este tom um tanto documental da produção que tem direção e roteiro de Souleymane Cissé é um dos pontos fortes da produção. Afinal, quantas oportunidades você teve de assistir a um filme de Mali? Que não só fosse ambientado naquele país africano, mas que jogasse para o mundo um pouco da história e dos costumes de um dos povos que formou aquele continente tão esquecido pelo mundo? Este é o grande mérito deste filme.

Yeelen pode ser um tanto difícil de assistir. Pode cobrar de você mais de uma tentativa – como foi o meu caso… tive que assistir o filme em dois dias porque no primeiro estava cansada demais para acompanhar a narrativa um tanto “lenta” e “repetitiva” desta produção. Mas é bacana ver que um cineasta conseguiu apresentar para o mundo uma história legítima de um povo que nunca ganha voz ou vez no cinema. Apenas por causa disso este filme merece ser visto.

Agora, descontada esta parte de interesse um tanto antropológico e sociológico, algo que todas as pessoas deveriam buscar um pouco ao menos em algum momento da vida, vamos falar sobre a história apresentada pelo filme. Pode parecer loucura da minha parte, mas vi um bocado de Shakespeare nesta produção. Alguém poderia dizer que não existe nada mais distante do que a obra do bardo inglês e os costumes bambara, mas eu vi semelhanças.

Me explico. Para começar, vendo o sacrifício do galo, queimado vivo, e tantas outras cenas de pura magia nesta produção, me lembrei daquela frase de Shakespeare de que “existem mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia”. Ou seja, por mais “toscas” que algumas cenas desta produção possam parecer – como quando Niankoro (Issiaka Kane) “congela” o ataque dos inimigos -, não devemos duvidar de quase nada. Afinal, sim, existe a magia. E existem pessoas que conseguem fazer coisas incríveis. Então não devemos duvidar apesar de parecer absurdo.

Além disso, também é clássica a disputa entre pai e filho. Isso me lembra Shakespeare na mesma medida que me lembra um pouco o Complexo de Édipo… ainda que a mãe de Niankoro não jogue um papel fundamental durante a produção inteira, ela está presente, sem dúvida, na disputa do pai, Soma (Niamanto Sanogo) contra o protagonista desta produção.

A justificativa de Soma para perseguir o filho é que ele “traiu” as tradições ao fugir – na verdade ele foi levado pela mãe – com parte dos objetos sagrados que permitiam que eles pudessem fazer a magia, ter poder e “proteger” o seu povo. Mah (Soumba Traore), por sua vez, justifica ter levado o filho para longe porque o pai dele seria um homem cruel e abusivo. Ela teria feito isso, em resumo, para proteger o filho. O garoto cresce longe do pai, mas chega um dia em que Soma resolve procurá-los.

Yeelen nos conta a história a partir daí. Da perseguição de Soma e da tentativa de Mah e de Niankoro a sobreviverem à vingança dele. Mah vai para um lado, buscando um rio sagrado para se purificar e para pedir pela vida do filho. Niankoro, por outra parte, anda sozinho por muito tempo até que encontra com a tribo de Rouma Boll, o rei Peul (o interessante e expressivo Balla Moussa Keita). Para se livrar de um ataque, Niankoro usa a magia. Vendo o poder do jovem prisioneiro, Rouma Boll resolve pedir a ajuda dele para enfrentar uma tribo inimiga.

A intervenção de Niankoro acaba sendo decisiva, e o rei Rouma Boll convida o forte aliado a permanecer por ali. Niankoro diz que precisa ir embora, mas resolve aceitar um último pedido do rei. Ele é convocado para ajudar a mais jovem esposa de Rouma Boll, Attou (Aoua Sangare) a engravidar. Aparentemente ela é estéril. Niankoro sai com Attou para tentar ajudar o rei, mas acaba se encantando pela garota. Os dois traem o rei, mas falam a verdade e, ao invés de serem mortos, são expulsos do local.

Desta forma, a história de Niankoro se encaminha para que a profecia do “homem-leopardo-com-cabeça-de-macaco” se cumpra. Realmente Niankoro terá uma vida feliz – ainda que curta – e vai terminar sua trajetória de forma iluminada. (SPOILER – não leia se você não viu ao filme). Ele tem tempo de fugir com Attou por um período e engravida ela, mas não escapa – e nem deseja isso – do confronto com o pai. Diferente do que Mah previa, Niankoro consegue, com a ajuda do tio que era gêmeo de Soma, enfrentar o pai de igual para igual.

Os dois acabam morrendo, mas Niankoro deixa um filho como herdeiro. O garoto vai crescer sem ser perseguido, um futuro melhor do que o pai teve. E, desta forma, esta produção sobre uma cultura tão diferente nos mostra que disputas familiares sempre existiram e parecem se renovar com o tempo independente da latitude.

Sobre a história, achei interessante a forma com que Yeelen nos apresenta a trajetória de um homem que procura o seu próprio destino e que o aceita com bastante tranquilidade. Ele sabe o que precisa fazer e sabe que, mesmo que sem desejar o confronto, terá que enfrentar o próprio pai para terminar com aquela sequência de maldades e garantir a paz para o seu filho e mulher. Ele não vive muito tempo junto com a esposa e não chega a conhecer o filho, mas sabe o que virá após a sua partida e isso lhe traz paz antes da morte. Apesar do formato da história ser muito diferente do que estamos acostumados, a mensagem que o filme deixa é interessante.

A morte faz parte da vida, assim como as disputas e os confrontos, Mas é preciso aceitar o nosso destino e abraçá-lo quando ele faça sentido – que o diga Game os Thrones. 😉 O personagem central desta história nos mostra isso. E o filme, de quebra, revela que sempre após a morte surge uma nova vida. O sol sempre desaparece, no final de cada dia, dando lugar para a escuridão e para o “desalento”, mas no dia seguinte o sol surge novamente, trazendo ânimo para as pessoas e vida.

Achei os atores, ainda que inexperientes, muito bons. Cissé soube valorizar a beleza que ele tinha nas mãos, especialmente dos atores principais, na mesma medida em que soube valorizar em detalhes a forma de ser e agir daquelas tribos. Este é um filme diferente, que dá um tanto de sono, mas que merece ser visto por ser um raro exemplo de filme africano legítimo. A história pode ser um tanto fraca, mas a narrativa é bem construída – descontadas algumas repetições um tanto cansativas. Vale mais pelo interesse sociológico, sem dúvida.

NOTA: 7,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu não lembro quantos filmes africanos eu assisti na vida. Mas foram poucos, muito poucos, não tenho dúvidas. A África é, infelizmente, um continente um bocado esquecido pelo mundo. Digo isso em geral. Em relação ao cinema africano, então, muito mais. Por isso mesmo é bacana pensar que um filme como este tornou-se importante há 30 anos atrás, em 1987. Um importante documento, sem dúvidas, de uma cultura pouco conhecida e bastante ignorada.

Como eu descobri este filme? Ora, como tantas outras produções históricas e pouco comentadas e que volta e meia viram foco de críticas aqui no blog. A recomendação de Yeelen veio através do livro “1001 Filmes para Ver Antes de Morrer”. Como vocês que me acompanham há mais tempo sabem, este livro serve de base para a seção “Um Olhar Para Trás” que eu criei aqui no blog para falar de filmes que estão fazendo aniversário e que fazem parte da história do cinema mundial.

Como foi o livro “1001 Filmes para Ver Antes de Morrer” que me indicou este filme, vale citar a crítica de Jonathan Rosenbaum que faz parte da obra: “A Luz, uma bela e hipnótica fantasia do diretor Souleymane Cissé, transcorre na antiga cultura Bambara de Mali, muito antes que fosse invadido pelo Marrocos no século XVI. Um jovem chamado Niankoro (Issiaka Kane) parte com o objetivo de descobrir os mistérios da natureza – ou komo, a ciência dos deuses – com a ajuda de sua mãe (Soumba Traore) e do tio (Ismaila Sarr). Mas Soma (Niamanto Sanogo), o pai ciumento de Niankoro, prepara uma trama para impedi-lo de decifrar os elementos dos rituais sagrados dos Bambara e tenta matá-lo”.

E a crítica de Rosenbaum segue assim: “Além de criar um universo denso e excitante que deveria deixar George Lucas verde de inveja, Cissé filma suas imagens impressionantes em Fujicolor e acompanha a sua história com uma trilha esparsa, hipnótica e percussiva. Misturando habilmente coisas triviais com profundos mistérios, esta obra formidável ganhou o prêmio do júri no Festival de Cannes em 1987. Como um todo, A Luz é uma apresentação ideal a um diretor que, junto com Ousmane Sembène, é um dos melhores da África”.

A direção de Souleymane Cissé é, sem dúvida, o ponto alto desta produção. Os atores que têm destaque na história também estão muito bem. Eles são expressivos e apresentam um trabalho convincente. Além disso, como bem destacou Rosenbaum, a trilha sonora bastante pontual de Salif Keita e de Michel Portal também é um elemento importante da produção. Finalizando os destaques técnicos, vale citar a ótima direção de fotografia de Jean-Nöel Ferragut e de Jean-Michel Humeau.

Além desta equipe, vale comentar o trabalho de edição de Douanmba Coulibaly, Andrée Davanture, Jenny Frenck, Nathalie Goepfert, Seipati Keita, Marie-Catherine Miqueau e Seipati N’Xumalo; o design de produção e os figurinos de Kossa Mody Keita; os efeitos visuais de Philippe Tourret; e os efeitos especiais de Frédéric Duru e de Nikos Meletopoulos.

O diretor e roteirista Souleymane Cissé tem, hoje, 77 anos e um currículo com nove longas. Ele estreou na direção com Cinq Jours d’Une Vie em 1973. Os últimos dois filmes dele, O Sembene! e O Ka, de 2013 e 2015, respectivamente, foram os seus únicos documentários. Todos os outros foram longas de ficção.

Yeelen estreou no Festival de Cinema de Toronto em setembro de 1987. Depois, até 2016, o filme participaria ainda de outros cinco festivais. Em sua trajetória, esta produção conquistou cinco prêmios e foi indicada a outros dois. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Prêmio do Júri e para o Prêmio do Júri Ecumênico – Menção Especial no Festival de Cinema de Cannes; e para o Sutherland Trophy no Prêmio do Instituto de Cinema Britânico.

Esta produção foi totalmente rodada em Mali, país africano que não tem saída para o mar e que é vizinho da Argélia, da Nigéria, da Mauritânia e de Guiné, entre outros. Fica a noroeste do continente africano e tem, segundo Banco Mundial, cerca de 18 milhões de habitantes. A capital do país é Bamako, e a língua oficial, hoje em dia, é o francês. Yeelen foi rodado em cidades como Dilly, Dra, Drani, Falani, Hambori, Mopti, Moutoungouta e Sangha.

O destaque desta produção em termos de interpretação, para o meu gosto, são os atores Issiaka Kane, Balla Moussa Keita e Soumba Traore – que interpretam, respectivamente, Niankoro, o rei Peul e a mãe de Niankoro. Também se saem bem Niamanto Sanogo como Soma, pai de Niankoro, e que interpreta também o tio do protagonista, Djigui. Vale citar também o trabalho de Aoua Sangare como Attou, que vira mulher de Niankoro; Youssouf Tenin Cissé como o filho deles; Ismaila Sarr como o outro tio do protagonista, Bofing; e Koke Sangare como o chefe Komo. Há outros personagens com certa relevância na história mas que não têm os seus personagens identificados nos créditos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram seis críticas positivas e apenas uma negativa para o filme, o que garante para Yeelen a aprovação de 86% e uma nota média de 7,4.

Este filme é uma coprodução de Mali, Burkina Faso, França, Alemanha Ocidental e do Japão. Cinco países contribuíram para Yeelen existir. Há tempos eu não via recursos de tantos países contribuírem para uma produção sair do papel.

CONCLUSÃO: Um filme com narrativa lenta e protagonizado por pessoas que não são atores profissionais. Yeelen respeita, desta forma, a história que está contando. Não faria nenhum sentido se este filme seguisse o “mainstream” de Hollywood ou de outras escolas de cinema. Não. O que faz sentido é que ele realmente beba na fonte da cultura que está retratando. Desta forma, Yeelen se apresenta como uma grata surpresa entre os filmes que saíram das escolas tradicionais de cinema e que nos mostraram com competência culturas desprezadas pelo cinema. Vale tanto como uma obra de cinema diferenciada quanto por apresentar uma cultura ignorada e que não teria sobrevida no tempo se não fosse por este filme.

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Star Wars Episode IV: A New Hope – Star Wars – Guerra nas Estrelas – Guerra nas Estrelas Episódio IV: Uma Nova Esperança

Personagens interessantes, atores carismáticos e um enredo recheado de ação e de pitadas de comédia e de filosofia. Star Wars Episode IV: A New Hope (conhecido no ano de lançamento apenas como Star Wars) levou os filmes de ficção científica para um novo patamar – muito mais pop do que o cinema poderia imaginar até então. Assistir ao filme 40 anos depois dele ser lançado mostra que alguns elementos dele ficaram realmente datados – mas estes elementos são muito sutis. O filme continua encantando, mesmo tanto tempo depois, e mostra que sobrevive ao passar do tempo por apresentar muitas qualidades e uma e outra cena que entrou para a história do cinema.

A HISTÓRIA: “A long time ago in a galaxy far, far away…” (Há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante…”) Star Wars. Em um período de guerra civil, espaçonaves rebeldes, partindo de uma base secreta, atacam e conquistam a sua primeira vitória contra o perverso Império Galáctico. Durante a batalha, espiões rebeldes conseguem roubar os planos secretos da arma definitiva do Império, a Estrela da Morte, uma estação que é capaz de destruir um planeta inteiro.

Perseguida pelos agentes do Império, a princesa Leia (Carrie Fisher) viaja para casa protegendo os planos que podem salvar o seu povo e restaurar a liberdade na galáxia… Após esta introdução, o filme começa a contar a história da perseguição dos rebeldes, a missão dada pela princeia Leia para R2-D2 (Kenny Baker) que, acompanhado de C-3PO (Anthony Daniels), acaba caindo no planeta de Luke Skywalker (Mark Hamill). É lá que o jovem órfão irá, motivado pela mensagem da princesa Leia, procurar o antigo jedi Ben Obi-Wan Kenobi (Alec Guiness) e começar a sua longa aventura.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes desta produção, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Star Wars Episode IV): Quem tem 30 anos de idade ou mais dificilmente vai conseguir assistir a este filme sem ter diversas “emoções”. Nossas caixinhas de boas lembranças são acionadas a cada acorde da música fantástica de John Williams, especialmente na introdução clássica feita em Star Wars. Difícil não ficar arrepiado(a) ou levemente excitado(a) com aquela introdução.

A primeira vez que eu assisti a Star Wars Episode IV foi na década de 1980, quando eu era criança – ou seja, provável que eu tenha assistido em meados daquela década. Depois, devo ter assistido nos anos 1990 mais uma vez, e isso foi tudo. Quem tem 30 anos ou mais deve ter tido a mesma experiência – afinal, esta produção passava muito naquelas décadas logo após ela ter sido lançada. O filme que consagrou George Lucas virou um clássico instantâneo e uma produção difícil de ser ignorada.

Como a maioria dos clássicos do cinema, Star Wars também pode ser assistido de duas formas diferentes: fazendo um esforço para situar o filme no contexto de sua época e imaginar o impacto que a produção teve naquele momento e vendo ela com os “olhos atuais”, avaliando o quanto o filme consegue ainda ser “fresco” e/ou o quanto ele consegue provocar impacto. Nestas duas provas Star Wars Episode IV passa com louvor.

Primeiro, pensando neste filme sendo lançado há 40 anos, na segunda metade dos anos 1970. Aquela década foi muito interessante em termos artísticos, especialmente com a música e o cinema, e marcada por diversas guerras, conflitos e por uma crise do petróleo que afetou diversos países – especialmente os Estados Unidos. Ainda que a corrida espacial e armamentista encerraram durante esta década, estes eram assuntos presentes por boa parte do período. As pessoas sonhavam com o que havia além da Terra – afinal, o homem havia chegada à lua apenas oito anos antes de Star Wars ser lançado, em 1969.

Neste contexto é que o primeiro filme de Star Wars foi lançado. A produção é instigante do início ao fim. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ela começa com ação e com expectativa, com a invasão da nave da princesa Leia, e termina também com uma perseguição eletrizante – com o jovem Luke Skywalker sendo ajudado pela Força na hora de dar um tiro certeiro e destruir a Estrela da Morte. O ritmo desta produção, junto com algumas cenas que viraram clássicas e que foram cuidadosamente planejadas por George Lucas são algumas das grandes qualidades deste filme.

As outras são os personagens, interessantes e interpretados de forma muito carismática pelo ótimo elenco escolhido por Lucas, e as qualidades técnicas de Star Wars em uma época em que os efeitos especiais eram feitos “na unha” e sem a ajuda de computação gráfica. Neste sentido, dão um show os efeitos especiais mecânicos que permitiram as perseguições espaciais – a sequência final do filme, mesmo um tanto “tosca” segundo os critérios atuais, é de tirar o fôlego e cumpre muito bem o seu papel -, os efeitos sonoros e a trilha sonora marcante e fundamental de John Williams.

Se qualquer um destes elementos não tivesse a qualidade que têm em Star Wars, certamente o filme não seria envolvente e interessante como ele de fato é. O roteiro propriamente não é tão excepcional assim. Verdade que ele envolve bem a audiência e consegue entregar de forma cirúrgica apenas o que interessa para Lucas atrair o público para o filme seguinte da saga – e para os outros que ainda viriam. Mas se analisarmos bem o que Episode IV nos apresenta, ele tem um humor um tanto juvenil e simplório. Ele devia combinar bem para a época e para Lucas realizar os seus planos de mostrar a evolução dos personagens, mas não deixa de chamar a atenção este caráter um tanto “pueril” desta primeira história.

Luke Skywalker é um jovem órfão que não sabe praticamente nada de suas origens. Ele está louco para sair do local isolado em que ele vive com o tio Owen (Phil Brown) e a tia Beru (Shelagh Fraser) e buscar as aventuras que tanto deseja fora dali. No fim das contas e de maneira trágica ele consegue realizar este sonho. Ele se torna um herói e, nos filmes seguintes, vai descobrir a verdade sobre o próprio passado. Em Star Wars Episode IV somos apresentados a ele e a outros personagens importantes da saga.

Todos parecem um tanto juvenis nesta produção. E isso parece ter sido meticulosamente calculado por George Lucas. A escolha combinava com a época, podia fazer o filme chegar a todos os públicos (inclusive crianças e jovens) e, claro, abria margem para apresentar uma narrativa mais densa e de amadurecimento destes mesmos personagens no futuro. Na verdade, George Lucas foi muito inteligente em suas escolhas. Este filme funciona bem de forma isolada e consegue, ao mesmo tempo, atrair o interesse para que o público não resista a acompanhar a saga. Não por acaso Star Wars movimentou multidões de “seguidores” e de adeptos com o passar das décadas.

Além de tudo isso, digo que é emocionante ver a grandes atores e personagens em cena. Impossível não ficar arrepiado(a) com a cena em que Luke Skywalker sai da mesa com os tios para encarar o pôr do sol com dois sóis ou aquela em que Ben Obi-Wan Kenobi filosofa com Luke sobre a última vez em que alguém lhe chamou de Obi-Wan. Também é emocionante ver aos carismáticos R2-D2 e C-3PO em suas primeiras trocas de farpas e finas ironias caminhando para cima e para baixo. E quando o jovem Harrison Ford entra em cena? O ator é o mais carismático de todos e mostra neste filme, assim como nos demais da saga e nas produções Indiana Jones, porque é um nome inevitável na história do cinema.

Sim, Star Wars Episode IV é um filme imperdível e inevitável. Se você gosta de cinema, não tem como ignorá-lo. A boa nova sobre isso é que esta produção é fácil de assistir. A narrativa envolvente, com várias sequências de ação e com a apresentação de personagens interessantes torna a experiência fácil – diferente de outros clássicos mais densos. Com um tom um tanto juvenil, este filme também pode ser assistido por todos os públicos sem maiores problemas – outras produções da saga tem uma complexidade maior e não podemos falar delas da mesma forma. De quebra, você tem uma pequena aula de cinema na sua frente.

Ah sim, e há tudo aquilo que os fãs da saga gostam de ressaltar. A filosofia por trás da obra de George Lucas começa a ser apresentada neste filme. Bebendo de diferentes fontes históricas, da filosofia e até da religião, Lucas cria a sua própria “religião”. Há diferentes formas de interpretar o trabalho de Lucas que começa a ser apresentado neste Star Wars Episode IV.

Mas claramente ele se inspira em fatos da História, que teve vários casos de ditadura – inclusive naqueles anos 1970 – e de divisão preto versus branco (vide Guerra Fria, capitalistas versus comunistas e tantas outras disputas) assim como bebe em mitologias e religiões para tratar de uma Força (Deus ou a força “universal” que você quiser escolher) que estaria em todas as partes e que, segundo este primeiro Star Wars, emanaria de cada ser vivo e poderia ser usada para o Bem ou para o Mal.

Não é por acaso o uso das cores na produção – o negro simboliza a escolha pelo Mal feita por Darth Vader (David Prowse, com voz de James Earl Jones) e o branco de Luke Skywalker representa o Bem. As roupas de Obi-Wan também lembram a dos jesuítas e mostram um certo “equilíbrio” da Força. E por aí seguem as referências. Star Wars mudou a história do cinema e da ficção científica. Muito do que vemos neste filme inaugural iriam inspirar diversas outras produções e outros tipos de produtos. Aliás, quem lembra dos primeiros jogos legais para computador vai lembrar de diversas sequências deste filme que podiam ser jogadas pelos fãs depois. Enfim, esta produção é um grande deleite, não importa sob que ótica você a analise.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como eu comentei antes, Star Wars Episode IV tem um certo tom “pueril” que representa bastante a sua época e a estratégia de chegar a todos os públicos de George Lucas. Esse tom pode ser visto no comportamento dos personagens principais da produção e também nos detalhes de todos os personagens – como nas “batalhas” atrapalhadas entre os soldados do Império e os rebeldes. Neste sentido o filme é um pouco datado, mas nada que ofusque as suas qualidades.

Os números do que George Lucas começou com esta produção impressionam. Primeiro que, segundo o site The Numbers, até hoje Star Wars Episode IV consegue ser o filme recordista em bilheteria nos Estados Unidos (se levarmos em conta a inflação desde que a produção foi lançada) com nada menos que US$ 1,42 bilhão como resultado. Star Wars Episode VII: The Force Awakens é o recorde nas bilheterias se não fizermos este reajuste da inflação – ele fez US$ 936,66 milhões apenas nos Estados Unidos. Observando as bilheterias mundiais, contudo, o sucesso da saga é menor – ela perde para Avatar, com US$ 2,02 bilhões.

Mas os números de Star Wars são superlativos também quando comparamos as principais franquias do cinema – e olhando apenas para os filmes, porque se fôssemos analisar os produtos derivados deles, os números seriam muito maiores. A saga Star Wars com 12 filmes lançados e previstos entre 1977 e 2019 contabiliza uma bilheteria ajustada pela inflação de US$ 6,35 bilhões. Este número a coloca à frente da franquia James Bond, que vem em segundo lugar com 25 filmes entre 1963 e 2015 e US$ 5,47 bilhões (corrigidos pela inflação) e dos filmes do Universo Marvel com 22 produções entre 2008 e 2019 e US$ 4,97 bilhões. Certamente a única ameaça para a saga de George Lucas é a dos filmes Marvel.

Entre os atores desta produção, o destaque vai para Harrison Ford como Han Solo; Mark Hamill como Luke Skywalker; Alec Guiness como Ben Obi-Wan Kenobi; e Carrie Fisher como a princesa Leia Organa. Sem mostrar o rosto, mas tendo uma presença marcante e “sentimental” na lembrança dos fãs, vale destacar também Peter Mayhew como Chewbacca; Kenny Baker como R2-D2 e Anthony Daniels como C-3PO. Estes são os inevitáveis. Também não dá para ignorar a presença forte, ainda que com menos destaque neste filme do que no seguinte, do Darth Vader interpretado aqui por David Prowse.

Entre os personagens que perduraram menos tempo na saga e que aparecem neste filme com certa relevância, vale destacar Peter Cushing como o Grande Moff Tarkin, comandante que tenta acabar com os rebeldes usando a Estrela da Morte; Phil Brown como o tio Owen; Shelag Fraser como a tia Beru; Jack Purvis como o chefe Jawa, que pressiona Solo; Denis Lawson como Red Two, amigo de Luke; Drewe Henley como Red Leader, que comanda o grupo que tenta acabar com a Estrela da Morte; e Angus MacInnes como Gold Leader, que comanda o outro grupo no ataque.

Da parte técnica do filme, a menção especial vai para a trilha sonora inesquecível de John Williams. Não por acaso ele se tornou um dos grandes compositores do cinema de todos os tempos. A música de Star Wars é um de seus trabalhos mais icônicos. Mas vale destacar também outros profissionais que fazem um trabalho excepcional neste filme, como o diretor de fotografia Gilbert Taylor; o design de produção de John Barry; os figurinos de John Mollo; a edição de Richard Crew, Paul Hirsch, Marcia Lucas e George Lucas; o departamento de arte que faz um trabalho fundamental em uma época sem computação gráfica e que era composto por 21 profissionais; o departamento de som, sem o qual este filme não teria a qualidade que ele tem, e que era composto por 21 profissionais; os efeitos especiais feitos por John Schoonraad, John Stears, Tony Dyson, Bob Keen, Robert Nugent e Petro Vlahos; os efeitos visuais fundamentais realizados com miniaturas e com efeitos de lentes por 80 profissionais – e mais uma equipe considerável no relançamento do filme em 1997.

Este filme foi dirigido e teve o roteiro escrito por George Lucas. Diferente do que alguns desavisados podem pensar, este foi apenas um dos quatro filmes da saga Star Wars que ele dirigiu. Além desta produção inaugural da saga, ele dirigiu apenas os Episódios I, II e II, lançados, respectivamente, em 1999, 2002 e 2005. Os filmes que seguiram ao clássico Episode IV não foram dirigidos por Lucas e sim por Irvin Kershner e por Richard Marquand, nesta sequência. Antes de se consagrar com Star Wars Episode IV, Lucas havia dirigido, essencialmente, a curtas, e aos longas THX 1138 (lançado em 1971) e American Graffiti (de 1973). Depois vieram os quatro filmes Star Wars e nada mais. Realmente um realizador de uma saga só – a mais lucrativa da História, é preciso dizer. Imagina se as ideias dele para Star Wars não dessem certo? A história de Lucas seria diferente, certamente.

Star Wars Episode IV estreou no dia 25 de maio de 1977 nos Estados Unidos. No mesmo ano o filme estreou em vários países e, em janeiro de 1978, entrou no circuito dos cinemas do Brasil. No dia 31 de janeiro de 1997, quando a produção completou 20 anos, ela foi relançada em uma versão com recursos adicionais de efeitos especiais feitos em computador nos cinemas dos Estados Unidos – e em outros países.

Este primeiro filme da saga Star Wars teria custado US$ 11 milhões. Em sua época, sem aplicar o reajuste inflacionário, a produção fez US$ 289,9 milhões apenas nos Estados Unidos – e outros US$ 410 milhões no restante do mundo. Ou seja, aquela fortuna, para os padrões da época, de US$ 11 milhões de custo, foi multiplicada nos cinemas e garantiu um belo lucro que salvou a Fox da falência – o estúdio estava mal das pernas nos anos 1970 – e que garantiu a aposentadoria de George Lucas (ou quase isso). Além disso, Star Wars foi a primeira saga a obter uma verdadeira fortuna de merchandising e de produtos derivados do filme.

Star Wars Episode IV foi rodado em cinco países. A saber: no Tikal National Park, da Guatemala (Fourth moon of Yavin); em Ajim (Mos Eisley, Tatooine), Chott el Djerid, Sidi Driss Hotel em Matmata e Sidi Bouhlel em Tozeur (Tatooine), na Tunísia; Yuma e no Death Valley National Park (Tatooine), nos Estados Unidos; Calakmul, no México; e nos estúdios Elstree e Shepperton e nos hangares Cardington Airship (base rebelde Yavin 4) na Inglaterra.

O site IMDb apresenta nada menos que 408 curiosidades sobre esta produção. Vou citar por aqui apenas algumas delas. O diretor e roteirista George Lucas estava tão certo de que Star Wars Episode IV seria um fracasso que, ao invés de assistir à estreia da produção, ele viajou para umas férias no Hawaii com o seu bom amigo Steven Spielberg. Foi nesta viagem que eles tiveram a ideia para o filme Raiders of the Lost Ark (um dos meus preferidos de todos os tempos).

Este foi o primeiro filme da História a fazer mais de US$ 300 milhões nos cinemas.

A decisão de George Lucas de receber um salário mais baixo que o normal, para a época, para dirigir Star Wars Episode IV em troca de ter todos os direitos de merchandising de Star Wars foi considerada uma decisão tola na ocasião. Mas ele não poderia ter se dado melhor na vida. Na época, contudo, esta jogada parecia bastante ousada. Afinal, até então, brinquedos baseados em filmes nunca tinham dado muito dinheiro – mas Star Wars mudou esta lógica e abriu frente para várias outras produções fazerem o mesmo.

Quando a 20th Century Fox foi distribuir Star Wars Episode IV nos Estados Unidos, menos de 40 salas de cinema toparam exibir a produção. Para forçar os cinemas a passar o filme, a Fox disse que só liberaria o blockbuster potencial The Other Side of Midnight para quem exibisse, antes, Star Wars. E foi assim que o filme de Lucas chegou ao máximo de salas possível se tornou um fenômeno das bilheterias.

A música temática de John Williams ocupa a primeira posição na na lista AFI’s 100 Years of Film Scores.

Por falar em listas, Star Wars está na lista de filmes que aparecem na obra “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer” e que norteia a minha revisão de clássicos feita aqui no blog. O texto de Joanna Berry começa assim: “Ninguém esperava que o filme do roteirista e diretor George Lucas fosse um sucesso. Em se tratando de um ‘faroeste de ficção científica’ cujo elenco principal era essencialmente desconhecido (Harrison Ford, Mark Hamill e Carrie Fisher), os chefões do estúdio estavam tão convencido de que o filme iria fracassar que gentilmente cederam a Lucas, de graça, os direitos de merchandising de qualquer produto relacionado a Guerra nas Estrelas”.

E ela segue: “Obviamente, não perceberam o enorme potencial do filme e jamais esperaram que fosse gerar duas continuações, três capítulos ‘anteriores’, um derivativo baseado nos Ewoks, desenhos animados, jogos de computador, brinquedos, trilhas sonoras, livros, enormes vendas de vídeos e DVDs, doces, roupas, roupa de cama e até mesmo comida. O filme, que custou US$ 11 milhões e rendeu mais de US$ 460 milhões, não parecia ter o potencial para se tornar um enorme sucesso”.

Depois de resumir a história, Joanna Berry continua: “Guerra nas Estrelas poderia ter sido incrivelmente tolo, considerando-se que, em meados dos anos 1970, as pessoas esperavam que ‘ficção científica’ fosse algo similar aos cenários de plástico de Jornada nas Estrelas ou com efeitos como a ‘calota pendurada em um fio’ de Ed Wood em seu Plano 9 do Espaço Sideral. Mas Lucas tinhas ideias mais grandiosas. Duas décadas antes que imagens de computador fossem usadas para criar mundos fantásticos, Lucas, usando modelos ultradetalhados, truques inteligentes e locações bem escolhidas – as cenas que mostram o planeta desértico de Tatooine, onde Luke morava, foram filmadas em cenários construídos na Tunísia (reutilizadas em 1999, em Guerra nas Estrelas: Episódio I – A Ameaça Fantasma) -, conta a história de outro universo, no qual o maligno Império dominado por Darth Vader (David Prowse, com a voz de James Earl Jones) está no controle. Mas as forças rebeldes estão se reunindo para tentar derrubar os tiranos”.

Vale seguir citando o texto de Joanna Berry – e, claro, você conferir o livro, que é excelente: “Lucas criou uma mitologia que foi abraçada com entusiasmo por pessoas de todas as idades. além de dar origem a várias criaturas de uma galáxia muito, muito distante, sua linha de narrativa do bem contra o mal nos apresentou a pessoas e objetos que, desde então, tornaram-se parte de diversos idiomas de nosso planeta: o Millennium Falcon (a nave espacial de Han Solo, que Lucas originalmente imaginou com o aspecto de um hambúrguer voador), os sabres de luz (a arma similar a uma espada, com seu som característico), os Stormtroopers imperiais e, naturalmente, os cavaleiros Jedi (hoje uma parte tão integral de nosso inconsciente coletivo que uma campanha via internet sugerindo que as pessoas respondessem ‘Jedi’ a um item sobre religião num formulário de recenseamento no Reino Unido teve enorme sucesso). Ao dar vida a Guerra nas Estrelas, Lucas conseguiu criar muito mais do ue apenas um filme: criou um mundo, um novo estilo de cinema e uma ópera espacial inesquecível que jamais foi superada”.

Ela está certíssima. Star Wars supera em muito a capacidade de um filme de encantar e de entreter.

Star Wars Episode IV ganhou 56 prêmios, incluindo seis estatuetas do Oscar. Além disso, esta produção foi indicada a outros 28 prêmios. Os prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood que o filme recebeu foram de Melhor Direção de Arte-Decoração de Set, Melhor Figurino, Melhor Som, Melhor Edição, Melhores Efeitos-Efeitos Especiais e Melhor Trilha Sonora Original. Ainda que tenha recebido este número significativo de estatuetas, Star Wars perdeu nas categorias principais – Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante para Alec Guiness, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original. Quem ganhou o Oscar de Melhor Filme em 1978? Annie Hall, de Woody Allen.

Esta produção de Lucas ganhou também o Globo de Ouro de Melhor Trilha Sonora; dois Bafta’s, de Melhor Som e o Anthony Asquith Award for Film Music para John Williams; 13 prêmios na Academy of Science Fiction, Fantasy & Horror Films entregues em 1978 – incluindo Melhor Filme de Ficção Científica, Melhor Diretor, Melhor Roteiro, entre outros; três prêmios Grammy; nove prêmios Guiness World Record.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 98 críticas positivas e sete negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,6. Especialmente a nota recebida pelo filme chama a atenção – muito acima de muitas outras produções. O nível de aprovação, contudo, não é tão alto.

Esta produção é 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme entra para a lista de produções que atende a uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

CONCLUSÃO: Um clássico que segue cumprindo bem o seu papel mesmo tanto tempo depois de ter sido lançado. O filme mais rentável da história do cinema americano tem uma série de fãs e, mais que isso, de fanáticos admiradores. Mas não é por isso que eu dei a nota máxima para Star Wars Episode IV: A New Hope. Este filme merece a melhor avaliação porque ele cumpre com maestria o seu papel. Ele entretêm ao mesmo tempo que apresenta alguns dos elementos que tornariam a saga criada por George Lucas como a mais rentável de todos os tempos. Bem conduzido e com cenas que marcam a memória de qualquer um, Star Wars Episode IV revela todo o potencial do cinema quando ele é bem planejado e bem feito. Se você ainda não assistiu – o que é algo difícil -, não pense duas vezes em colocar esta sua dívida particular em dia.

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In the Heat of the Night – No Calor da Noite

Um filme policial com alguns ingredientes de conflito racial explosivos. In the Heat of the Night fala de uma parte dos Estados Unidos da qual já ouvimos falar um bocado. O interior do país, onde muitas relações seguem em conflito – especialmente entre brancos e negros. Mas além de ter uma forte carga de conflito racial, esta produção é uma interessante história policial com algumas surpresas e reviravoltas. Uma bela oportunidade de conhecer ou de rever um belo trabalho do ator Sidney Poitier, o primeiro ator negro a ter relevância em Hollywood em papéis que não eram óbvios.

A HISTÓRIA: Um trem percorre os trilhos e para na estação da cidade de Sparta, no Estado americano do Mississipi. Apenas um passageiro desce após o empregado da companhia colocar um degrau para ajudá-lo. Corta. Em uma lanchonete, Ralph (Anthony James) tenta acertar uma das moscas do local. O policial Sam Wood (Warren Oates) pergunta sobre a torta que ele gosta de comer, mas Ralph diz que comemoram todos os pedaços que ele tinha. Wood não gosta de ser chamado de Sam pelo atendente, paga a conta e vai embora. Do lado da caixa registradora, Ralph recolhe  a torta que ele escondeu. Wood sai para mais uma ronda tranquila, que inclui música no rádio e espiar Delores (Quentin Dean), que gosta de ficar nua em casa. A rotina de Wood é quebrada quando ele encontra o corpo de Philip Colbert (Jack Teter). A partir daí, começa a caçada do sheriff Gillespie (Rod Steiger) pelo assassino do empresário.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a In the Heat of the Night): A trilha sonora divina desta produção é o primeiro elemento que chama a atenção neste filme premiado e que nos conta uma interessante história policial. Além de ter uma narrativa envolvente, com algumas “reviravoltas” interessantes, In the Heat of the Night trata com inteligência tanto o preconceito racial nos Estados Unidos quanto as diferenças que existem dentro do país – ou melhor, que existiam na década de 1960, quando esta produção foi lançada, e que continuam valendo até hoje.

Uma das maiores qualidades do roteiro de Stirling Silliphant, que teve como base a obra de John Ball, é a interessante construção dos personagens. Os policiais da pequena cidade de Sparta são, no geral, um desastre. Primeiro, eles fazem parte de uma sociedade “habituada” a viver em preconceito racial. Apesar de existir de fato, a cidade de Sparta mostrada nesta produção é ficcional – a verdadeira cidade americana de Sparta fica em outro local. Mas o que nos interessa é a cidade de Sparta do filme.

Ela simboliza todas as cidades do interior dos Estados Unidos, especialmente as que ficam no Sul do país – como, no caso, no Estado do Mississippi, conhecido por ter sido um dos mais resistentes ao fim da escravidão e um dos que mais dificuldade têm de combater e resolver o racismo histórico. Nesta pequena cidade os negros e os brancos sabem exatamente os seus “papéis” e o “lugar” em que eles devem ir ou nos quais não devem entrar. O preconceito é um elemento presente nesta produção do início ao fim porque temos um protagonista negro.

Diferente de outros negros da cidade, que vivem na pobreza e que tem em oficinas mecânicas (na melhor das hipóteses) ou na colheita do algodão (o mais comum) as únicas alternativas de trabalho, o protagonista de In the Heat of the Night está sempre alinhado, se veste muito bem e teve boa educação. Como alguém diz em certo ponto do filme, Virgil Tibbs (o maravilhoso Sidney Poitier) “se veste como um branco”. Sim, dói ouvir ou ler algo assim, mas este é um pequeno exemplo do preconceito que esta produção desnuda e denuncia. Uma pena pensar que, 50 anos depois, este mesmo preconceito ainda perdure em tantos lugares dos Estados Unidos e em outras partes do mundo.

Mas vamos seguir falando da produção. In the Heat of the Night inova exatamente ao reverter as expectativas do público – especialmente em 1967, quando a produção foi lançada – sobre o “herói” da história. No início, incomoda Tibbs ser detido e levado para a delegacia apenas pelo fato de ser negro, de ter dinheiro na carteira e por estar na estação de trem – na cabeça de Gillespie a estação poderia ser um ponto de fuga do criminoso. (SPOILER – não ler se você não assistiu ao filme). Mas logo vem a primeira reviravolta da produção. Tibbs não é um criminoso ou um vigarista. Ele é um policial. Mas não é qualquer um. Ele ganha mais que os policiais de Sparta e ainda é um “especialista” em homicídios.

No início, o preconceito de Gillespie, de Wood e de praticamente todos os habitantes de Sparta incomoda. Depois, o roteiro de Silliphant vai “à forra” deste preconceito quando o sheriff tem que engolir uma ordem do prefeito Schubert (William Schallert) que, procurado pela esposa de Colbert (interpretada por Lee Grant), manda que ele aceite a ajuda nas investigações de Tibbs. Em mais de uma ocasião do filme, aliás, Tibbs é mandado embora da cidade, mas ele resiste e acaba embarcando na missão de descobrir quem matou Colbert.

Quando caminha nesta direção, In the Heat of the Night se revela como um filme policial competente. Tibbs segue as evidências e vai juntando provas, encontrando incongruências e captando cada detalhe que parece criar um enredo ao redor da morte de Colbert. Ainda que tenha uma narrativa linear, este filme tem diversos “sobressaltos” na narrativa central da busca de Tibbs pelo culpado do crime.

Enriquecendo o roteiro vemos a diversas trapalhadas da polícia local, que tem “pressa” em prender o criminoso e que não se importa em acusar alguém sem ter provas – depois de prenderem o alvo “mais óbvio”, o negro que estava na estação de trem (Tibbs), eles prendem o “pé-rapado” Harvey Oberst (Scott Wilson) e, depois que fica claro que ele não teve nada a ver com o crime, Gillespie resolve cair na primeira “pista” que encontra, uma mentira de Wood, e resolve “cortar na própria carne” sem ter nenhuma prova realmente importante contra o policial.

In the Heat of the Night tem uma narrativa policial envolvente e que atende a todos os pré-requisitos do gênero. Isso não o torna diferenciado. O que faz toda a diferença nesta produção é que ela utiliza uma narrativa policial para tratar de questões sociais importantes para a época. O preconceito racial está no centro da história, especialmente porque ele coloca em risco a vida do protagonista. Mas há também espaço para mostrar a brutal divisão de classes naquela pequena cidade e a falta de preparo da polícia – como eu disse antes, eles são um desastre. Naquela cidade pacata, aparentemente, eles nunca tiveram um assassinato para resolver.

Além da trilha sonora maravilhosa, primeiro elemento que chama a atenção en In the Heat of the Night, também se destacam a direção mais “solta” e fluída de Norman Jewison. Este é um elemento que se destaca, especialmente se comparamos esta produção com as anteriores citadas aqui na seção “Um Olhar Para Trás”. Jewison não segue a rigidez das câmeras fixas e nem a angulação mais óbvia esperada para cada cena. Destaque, em especial, quando ele deixa a câmera focada apenas nas pernas ou nas mãos dos personagens, uma forma bastante sutil de destacar o “detalhe” da cor da pele dos atores/personagens. Realmente esta questão era secundária, mas não para aquela sociedade atrasada de Sparta.

Com os olhares um tanto cínicos dos dias atuais, ficamos sempre esperando o “pior” acontecer. Silliphant tem a coragem de não nos entregar isso e de dar um certo “final feliz” para a história. Tibbs consegue se manter elegante durante praticamente toda a história – ele tem uma pequena “recaída” de “revanchismo”, talvez contaminado um pouco pela aura da cidade, quando se encontra com Endicott (Larry Gates), o dono da “casa grande”. No início ele tem um olhar um bocado carregado de desprezo para aqueles policiais incompetentes e preconceituosos, mas aos poucos ele vai começando a respeitar Gillespie que, sozinho naquele local, acaba também abrindo mão do preconceito inicial e protegendo Tibbs.

A cereja do bolo desta produção é justamente a amizade inusitada que acaba surgindo entre estes dois personagens. Assim, de forma bastante sutil e, ao mesmo tempo, poderosa, Silliphant e Jewison nos mostram que é sempre possível evoluir. Qualquer pessoa, não importa a cor da pele que ela tenha, o seu salário ou o contexto em que ela vive, pode vencer os próprios preconceitos e ter um olhar ao menos generoso/mais compreensivo para quem até há pouco lhe era estranho – a sequência perto do final na casa de Gillespie é, por isso mesmo, um grande momento da produção. Belo filme.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esta produção tem uma direção bem mais dinâmica do que era comum assistir no cinema nas décadas anteriores a este filme. Na década seguinte, nos anos 1970, esta forma de dirigir mais “solta” ficaria ainda mais comum, em uma das décadas mais frutíferas e inovadoras do cinema norte-americano. Em In the Heat of the Night o diretor Norman Jewison já mostra algumas das característica deste estilo de dirigir mais livre de planos fixos e de ângulos convencionais. Vários outros seguiriam este caminho.

Da parte técnica do filme, um dos grandes destaques desta produção vai para a trilha sonora do grande Quincy Jones. O cartão-de-visitas da produção é a música “In the Heat of the Night”, interpretada por ninguém mais, ninguém menos que o gigante Ray Charles. A trilha é bastante pontual, entra nos momentos certos e ajuda a dar um ritmo interessante para a produção. Outro ponto a destacar nesta produção é a direção de fotografia de Haskell Wexler, que utiliza lentes que valorizam o tom “naturalista” da produção. Também vale comentar o bom trabalho do editor Hal Ashby; a direção de arte acertada de Paul Groesse; a decoração de set de Robert Priestley; e os ótimos figurinos de Alan Levine.

A escolha do elenco foi muito inteligente. Os nomes de destaque são mesmo de Sidney Poitier, que dá um baile de interpretação e de elegância, sem exagerar na interpretação em nenhum momento – mesmo as manifestações de raiva dele são bem dosadas e fazem sentido pelo contexto -, e o de Rod Steiger, que surpreende em uma interpretação crescente como Gillespie. Além deles, vale citar o bom trabalho dos já citados Warren Oates, Lee Grant, Larry Gates (que aparece em apenas uma sequência), Quentin Dean (talvez a única um tanto “exagerada”), Anthony James e Scott Wilson (que, entre os coadjuvantes, é um destaque). Mas, além deles, vale citar o bom trabalho de James Patterson como Mr. Purdy, irmão de Delores; Beah Richards como Mama Caleba, a mulher que faz abortos na cidade; e Peter Whitney como Courtney, escrivão da delegacia e um “faz-tudo” do sheriff que, na verdade, não faz muita coisa.

In the Heat of the Night estreou em première na cidade de Nova York no dia 2 de agosto de 1967. No dia 23 do mesmo mês a produção estreou em Los Angeles. No Brasil o filme entrou em cartaz no dia 30 de outubro de 1967.

Esta produção foi rodada praticamente toda no Estado de Illinois, em cidades como Freeburg, Chester, Belleville e Sparta – distante cerca de sete horas do Estado do Mississippi, que fica mais ao Sul nos Estados Unidos. Também foram rodadas cenas na cidade de Dyesburg, no Tennessee (fazenda de algodão) e no Raleigh Studios, em Los Angeles.

Como os leitores mais frequentes deste blog sabem, a base para as minhas críticas na seção “Um Olhar Para Trás” é o livro “1001 Para Ver Antes de Morrer”. Como sempre faço, vou citar o texto sobre a produção que foi publicada nesta obra. A crítica Angela Errigo escreveu o seguinte sobre In the Heat of the Night: “‘Me chamam de senhor Tibbs’. O racismo ainda era tema pouco explorado na tela quando o produtor independente Walter Mirisch e o diretor Norman Jewison resolveram adaptar o livro de John Ball pensando especificamente em Sidney Poitier. O resultado ficou na vanguarda dos novos thrillers com viés social, elevando para a classe dos filmes importantes o que de outra forma poderia ser considerado apenas uma produção B”.

E vale seguir reproduzindo o texto de Errigo: “Virgil Tibbs (Poitier) é preso simplesmente por ser um homem negro com dinheiro atravessando a segregacionista cidade de Sparta, no estado do Mississipi, na noite do assassinato de um industrial. Para desgraça do preconceituoso chefe de polícia (Rod Steiger), Tibbs é detetive de homicídios da Filadélfia e a estranha e antagônica dupla é forçada a trabalhar em conjunto na investigação. A trama criminal em si e a atmosfera são marcantes (acentuadas por uma memorável trilha sonora de Quincy Jones), mas o impacto mais permanente do filme é resultado do fascinante relacionamento que se desenvolve entre os homens. Poitier recebe o primeiro lugar nos créditos ostentando um desdém altivo pelo lixo branco que o atrapalha enquanto desvenda uma trama digna de Raymond Chandler. Mas foi Steiger que ganhou o Oscar de Melhor Ator, com seu personagem de pavio curto, mascador de chicletes, imenso mas ainda assim cheio de nuances. A obra também ganhou os prêmios de melhor filme, roteiro (Stirling Silliphant), som e edição (Hal Ashby, que dirigiria alguns dos filmes maisinteressantes dos anos 70). Poitier repetiu o papel de Tibbs duas outras vezes”.

Aliás, vale comentar sobre os prêmios que o filme recebeu. Não é qualquer produção que ganha cinco Oscar’s. E In the Heat of the Night conquistou este feito. Eu gostei do filme, mas admito que achei um pouco surpreendente ele ter vencido como Melhor Filme, Melhor Ator para Rod Steiger, Melhor Roteiro Baseado em Material Desenvolvido para Outro Meio (que era como chamavam a atual categoria Melhor Roteiro Adaptado), Melhor Som e Melhor Edição no Oscar de 1968. A produção foi indicada naquele ano, ainda, nas categorias Melhor Diretor para Norman Jewison e Melhores Efeitos de Som. Primeiro, ainda que Steiger esteja muito bem, acho injusto ele ganhar como Melhor Ator. Para mim não há dúvidas que o protagonista é Poitier e que ele deveria ter levado a estatueta.

Depois, chama a atenção que In the Heat of the Night ganhou como Melhor Filme em uma disputa com ninguém mais, ninguém menos que Bonnie and Clyde, The Graduate e Guess Who’s Coming to Dinner (também estrelado por Poitier). Foi uma parada dura, sem dúvida.

No total, In the Heat of the Night ganhou 22 prêmios (incluindo os citados cinco Oscar’s) e foi indicado a outros 14. Entre os prêmios que recebeu, além das estatuetas douradas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, estão os Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama, Melhor Ator – Drama para Rod Steiger e Melhor Roteiro; os prêmios de Melhor Ator Estrangeiro para Rod Steiger e o UN Award para Norman Jewison no Prêmio Bafta; e os de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Performance em um Filme Estrangeiro para Rod Steiger no Prêmio Sant Jordi.

Achei injusto o Oscar de Melhor Ator não ir para Sidney Poitier por causa deste filme – ainda que, devo dizer, Rod Steiger está ótimo na produção. Antes desta produção, Poitier havia sido indicado ao Oscar de Melhor Ator por The Defiant Ones – lançado em 1958. Três anos antes de In the Heat of the Night ele ganhou a estatueta dourada por seu trabalho em Lilies of the Field. A proximidade desta premiação com o lançamento de In the Heat of the Night talvez tenham contribuído para ele não ser o indicado pelo filme – e sim Steiger. Além do Oscar por Lilies of the Field, Poitier recebeu um outro Oscar, desta vez honorário, em 2002. Merecidíssimo.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso este filme entra para a lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 42 críticas positivas e apenas duas negativas para o filme, o que garante para In the Heat of the Night uma aprovação de 95% e uma nota média de 8,2. As duas avaliações são muito boas se levarmos em conta os padrões dos respectivos sites. Mas há avaliações melhores – inclusive do último filme que comentei por aqui, o excelente 12 Angry Men.

O domingo está acabando. Então vou pedir licença para vocês, mas as curiosidades sobre este filme eu vou deixar para citar amanhã, tudo bem? 😉 Abraços!

Voltei! 😉 Então vamos falar sobre as curiosidades desta produção. Interessante como o ator Sidney Poitier insistiu para que o filme fosse filmado no norte dos Estados Unidos. Isso porque ele e o também ator Harry Belafonte tiveram um incidente grave em uma visita ao Mississippi na qual os dois quase foram mortos por integrantes da Ku Klux Klan. Por isso que In the Heat of the Night foi rodado na cidade de Sparta, em Illinois. O problema é que como a equipe não encontrou um campo de algodão para ser filmado na sequência da propriedade do personagem Endicott, em Illinois, eles tiveram que rodar estas cenas no Tennessee. Durante o tempo de filmagens por lá, Poitier dormiu com uma arma debaixo do travesseiro para se proteger, se necessário. Isso porque ele recebeu ameaças de racistas locais. Inacreditável, não? Um absurdo!

O ator Rod Steiger recebeu do diretor Norman Jewison a sugestão de marcar um chiclete durante grande parte da produção. No início ele resistiu à esta ideia, mas depois acabou embarcando tanto nela que acabou consumindo 263 chicletes durante as filmagens. 😉

De acordo com o ator Sidney Poitier, o tapa de revide de Tibbs em Endicott não estava previsto no roteiro original da produção e nem na obra que inspirou o trabalho de Silliphant. Mas, segundo ainda Poitier, ele insistiu que Tibbs pudesse revidar o tapa que recebeu e que esta cena fizesse parte de todas as cópias da produção. Por outro lado, Silliphant garante que o tapa estava no roteiro original – mas admite que ele não estava no romance que deu origem ao filme.

A fala do filme “They call me Mister Tibbs!” foi eleita como a 16ª melhor fala de todos os tempos em longas segundo o American Film Institute.

A cidade de Sparta, em Illinois, foi escolhida pelos produtores para evitar problemas na cidade homônima no Mississippi, que vivia uma grande turbulência política – e de conflitos raciais – e porque, ao escolher uma cidade com o nome de Sparta em outro Estado, eles não teriam que mudar as placas das ruas.

A sequência entre Tibbs e Gillespie na casa do sheriff foi toda feita em um improviso entre os atores Sidney Poitier e Rod Steiger.

A história de In the Heat of the Night se passa em um verão quente na cidade de Sparta, no Mississippi, mas foi rodada em um outono do Estado de Illinois. Para evitar “furos” na história, muitos dos atore do elenco colocavam cubos de gelo na bola pouco antes das cenas serem rodadas. Antes da gravação começar eles jogavam fora o gelo e, com isso, evitavam da respiração deles aparecerem nas cenas noturnas – e com o clima frio.

Esta produção foi citada muitas vezes pelo ator Sidney Poitier como sendo o filme favorito dele entre os que ele participou. O ator Danny Glover também considera esta a sua produção favorita.

O American Film Institute incluiu In the Heat of the Night na lista dos melhores filmes de todos os tempos em 2007 – a produção ocupa a 75ª posição na lista.

O ator Scott Wilson impressionou tanto a Sidney Poitier por causa da sua interpretação que Poitier ligou para Richard Brooks e sugeriu que Wilson fosse convidado para estrelar o filme In Cold Blood, baseado na obra de Truman Capote. Poitier não falou nada para Wilson sobre esta indicação. Ele só descobriu este fato após In Cold Blood ser lançado.

O personagem de Virgil Tibbs foi classificado como o 19º melhor herói na lista dos “100 Heróis e Vilões” da AFI.

Em uma entrevista para o canal TCM o ator Rod Steiger elogiou a interpretação da atriz Lee Grant nesta produção dizendo que o trabalho dela foi um de seus favoritos em In the Heat of the Night. De fato, a atriz tem uma interpretação marcante nesta produção.

O salário de US$ 162,39 por semana recebido por Virgil Tibbs naquela época seria o equivalente a cerca de US$ 1,2 mil em 2007.

CONCLUSÃO: Um filme bem acabado, destes que planejam cuidadosamente cada detalhe. Da fantástica trilha sonora até a escolha do elenco e as viradas na narrativa, In the Heat of the Night se preocupa em apresentar um filme interessante para o público. E ele consegue. Esta produção é um bom filme policial que ganha pontos por colocar em cena também a questão racial como algo presente na sociedade americana – uma chaga que, aliás, até hoje eles não conseguiram resolver totalmente. Com belas atuações, especialmente dos protagonistas Sidney Poitier e Rod Steiger, In the Heat of the Night foi um filme importante em sua época – há exatos 50 anos – e continua sendo bastante atual.