The Case for Christ – Em Defesa de Cristo


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A fé é uma escolha individual. Uma decisão pessoal e intransferível. O mesmo se aplica à escolha por assistir a um filme. Você sempre pode decidir por A ou por B. Dito isso, recomendo que a decisão por assistir a The Case for Christ seja feita após alguma reflexão. Esta produção conta a história de um casal de ateus que acaba se convertendo e virando cristãos. O filme é baseado em uma história real. Ou seja, com esta introdução, você já sabe um bocado sobre como a história vai se desenvolver. Então se você acha o cristianismo uma grande bobagem e/ou não faz sentido para você, a minha recomendação é que você fique longe deste filme. Para os cristãos, contudo, ele é um belo deleite. Depois eu falo sobre cinema. 😉

A HISTÓRIA: Vista da cidade. Um papel é colocado em uma máquina de escrever. Lee Strobel (Mike Vogel) pesquisa em livros, faz anotações e escreve. Corta. A história volta no tempo, quando ele (interpretado, quando jovem, por Michael Provost) começa na carreira de jornalista. Na época, ele namorava com Leslie (Erika Christensen, quando jovem, interpretada por Kelly Lamor Wilson). Vemos o romance dos dois e o trabalho premiado dele quando ele avança na carreira. Ele é um jornalista dedicado e investigativo. Se divide entre o trabalho e o casamento. Mas um incidente envolvendo a filha do casal, Alison (Haley Rosenwasser), faz com que a vida do casal Strobel mude para sempre.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Case for Christ): Impossível assistir a um filme tão contundente como este sobre fé sem tratar um pouco sobre o assunto. Por isso eu comentei, lá em cima, que eu acho esta produção recomendada para quem tem a fé bem definida ou para quem, sem acreditar em nada, pelo menos deixa em aberto alguma possibilidade de dúvida – ou de conversão.

Afinal, este filme trata, claramente, sobre um processo de conversão. Para quem é cristão, como é o meu caso, é impactante (e emocionante) ver pessoas que não acreditavam em Deus ou em Cristo passarem por buscas tão particulares e reveladoras. O casal que protagoniza este filme apresenta trajetórias muito diferentes de busca de respostas, e pela própria fé, mas é tocante como a história deles se complementa e como nos passa tanta verdade. Baseado em uma história real, este filme fala de dois de vários tipos possíveis de conversão.

Na verdade, e acredito muito nisso, cada um tem o seu processo de busca por respostas e de contato com Deus. Cada um encontra o Cristo de verdade e se converte em seu momento, com a sua maturidade na fé. E há pessoas, claro, que tem outros tipos de fé ou de crenças que podem não passar pelo entendimento de Deus ou de Cristo. E estas pessoas, como todas as demais, devem ser respeitadas e se sentirem acolhidas. Pessoalmente, eu nunca tinha visto a um filme com esta proposta.

O roteiro de Brian Bird, baseado no livro de Lee Strobel, fala de pessoas comuns. E isso ajuda muito nesta história. Conseguimos nos identificar com os personagens que vemos em cena – especialmente se nos lembramos do contexto da produção. Ou seja, estamos vendo a um casal e as suas relações em uma Chicago de 1980. Os personagens fazem sentido, naquele contexto, e quem conhece o ambiente do jornalismo, também consegue se “transportar” um pouco no passado e ver legitimidade na figura do protagonista.

Esses elementos dão peso para o filme. E é tocante ver a trajetória tão diferente de entrega e de busca por respostas e pela própria fé feita pelo casal de protagonistas. Eles são as estrelas da produção. (SPOILER – não leia se você não tiver assistido ao filme). Leslie parece já tentada a “se entregar” e tem uma experiência incrível de encontro com Deus e com a palavra Dele logo que conhece a enfermeira Alfie Davis (L. Scott Caldwell), que salva a filha dela de um engasgamento no restaurante. Grávida e mulher – ou seja, normalmente mais sensível que a maioria dos homens -, Leslie está mais propensa a questionar a própria falta de fé e a pensar que sim, podem existir outras respostas para o que ela não conhece.

Ela vai se entregando de uma forma relativamente fácil para a conversão. A Bíblia, para ela, faz todo o sentido. Diferente do que muitos podem imaginar, de fato o cristianismo, quanto mais você procura saber sobre ele, mais ele faz sentido. A Bíblia não é um texto que ficou parado no tempo, mas é a Palavra viva, e quem realmente tem fé e se converte percebe isso. Leslie acaba, assim, deixando para a trás a sua “vida antiga” e mudando definitivamente – como acontece com quem realmente se converte.

No início, ela esconde um pouco o que está acontecendo com ela. Mas isso não dura muito tempo. Quando, finalmente, ela conta para Lee o que está acontecendo, o marido não aceita isso bem. Nada bem, na verdade. Ele passa a estranhar a própria mulher e começa a questionar o próprio casamento. E o porquê disso? Basicamente porque ele está convicto de estar cheio da razão, de estar muito certo de tudo. Ele é um ateu convicto e não deixa margem para a realidade ser diferente do que ele imagina como certo.

Como jornalista, que precisa “comprovar” tudo para poder acreditar, que tem a necessidade de encontrar “a verdade” dos fatos, Lee está cheio de certezas e não consegue entender que a mulher possa “virar a casaca” e começar a ter fé. Eles são ateus e ele quer que eles continuem assim. Esse é um ponto interessante do filme, porque ela acaba tocando em algo que todos os casais vivem: as pessoas mudam com o tempo, evoluem, deixam de acreditar ou de gostar de certas coisas e passam a acreditar e gostar de outras que não gostavam/acreditavam no princípio.

Tem pessoas que têm a sabedoria de entender que é assim mesmo, e que faz parte do casamento reconstruir relações, criar pontes e voltar a dialogar com a pessoa “diferente” com que você está casado. Porque todos mudam, todos evoluem. Mas tem pessoas que não conseguem aceitar determinadas mudanças e evoluções, e isso acaba com muitas uniões e casamentos – muitas vezes porque, como o filme mostra, pessoas como Lee se sentem “traídas” pela mudança da pessoa amada.

Cheio de “lógica” e de uma busca “racional” pela “verdade” e por respostas, Lee acaba, sozinho, empreendendo a sua própria busca por uma reportagem que vai “desmascarar” a “mentira” do cristianismo. Essa é a parte interessante deste filme. Lee procura diferentes especialistas, ateus, cristãos e de outras fés, para ajudar a lhe contar a história de Cristo e, em especial, do ponto central do cristianismo: a ressurreição do Filho de Deus. Ele tem razão neste ponto. O cristianismo não existiria se Cristo tivesse morrido na cruz e não tivesse ressuscitado.

Então o que ele quer comprovar é isso, que a ressurreição não aconteceu. Para quem gosta de filmes sobre investigação e jornalismo, esta produção romantiza um pouco o processo mas, se levarmos em conta que estamos nos anos 1980, antes da internet e das entrevistas feitas por Skype e afins, The Case for Christ mostra bem como um jornalista investigativo trabalhava na época. É algo interessante. E não deixa de ser provocativo e inusitado um jornalista se lançar em uma “cruzada” contra a fé cristã. Achei interessante.

Agora, à parte da fé e do quanto pode ser tocante para um cristão assistir a histórias de conversão tão diferentes e reveladoras, The Case for Christ é um filme mediano. E por que eu falo isso? Porque a produção, de fato, pouco surpreende. Desde o início do filme e da primeira discussão entre Lee e Leslie, já sabemos por onde a história vai caminhar. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Não é difícil adivinhar que Lee fará a sua “cruzada” particular e que, no final, ele vai acabar se convertendo. Então aquela parte do roteiro que mostra os conflitos do casal Strobel acaba tendo pouco efeito – sim, nos compadecemos de Leslie mas, no fim das contas, sabemos que o casal terá um final feliz.

Então as pequenas “surpresas” e momentos de tensão do filme acabam tendo pouco efeito. Já conseguimos ver o final com bastante antecedência. Olhando para esta produção apenas como uma obra de cinema, ela acaba não sendo tão impactante ou eficaz como poderia. Os atores são bons, mas algumas partes do roteiro parecem um tanto forçadas – como o isolamento de Lee como “resposta” para a fé da esposa. Apesar de não ser surpreendente, esta produção tem uma boa direção de Jon Gunn, que coloca a câmera sempre próxima dos atores.

Os personagens centrais fazem um bom trabalho, com destaque para Erika Christensen – que acaba brilhando mais até que Mike Vogel. Mas eles fazem uma boa dupla. Se, por um lado, o filme tem um desfecho meio “óbvio” e apresenta vários clichês sobre o jornalismo, por outro ele se mostra interessante pela “humanidade” do casal de protagonistas e pelas respostas que Lee vai encontrando pelo caminho.

Muitos cristãos desconhecem os fatos “científicos” que são relatados na produção. E é bacana a forma com que a investigação de Lee vai nos apresentando os diferentes pontos de vista e áreas do conhecimento que já trataram e/ou se debruçaram na ressurreição de Cristo. Particularmente, o filme só reforça algo em que eu já acreditava: o conhecimento e a ciência não negam a fé. Muito pelo contrário.

Quanto mais você se aprofunda, estuda e conhece o cristianismo, mais ele faz sentido. Mas, ainda assim, no fim das contas, a fé é sim uma decisão. Você pode abraçá-la ou negá-la. E mais importante do que essa decisão, que é muito particular, é o que você faz no seu dia a dia. Não adianta ter fé e negá-la com os seus atos. O testemunho de alguém, a forma com que ele(a) age, como trata as pessoas e todas as formas de vida ao seu redor, é o que importa acima de tudo.

Então sim, nesta crítica eu falei de fé, de religião, mas também falei de cinema. Assim como eu falo sobre outros temas quando eles são o foco de produções que vou comentando por aqui – quem acompanha este blog sabe que trata muito sobre psicologia, comportamento humano e afins. Afinal, sobre muito disso tudo que o cinema trata. Então me perdoem os que não gostam de falar de religião, mas em um filme como este, é impossível não tratar a respeito. Espero que vocês me entendam. E sim, eu respeito a todos, inclusive a quem pensa diferente de mim. 😉 Como sempre, sintam-se à vontade para discordar. 🙂

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Depois de assistir a The Case for Christ, foi inevitável, para mim, não buscar mais sobre Lee Strobel. Foi aí que eu fiquei sabendo que este jornalista se transformou em um profícuo autor de livros que tratam sobre Deus, fé e o cristianismo. Segundo o site de Strobel, ele tem 12 livros – sendo apenas um deles escrito em parceria com outro autor. Interessante como ele realmente mudou a sua vida a partir da conversão da esposa e da própria conversão. Vale dar uma olhada no site dele.

Não li o livro homônimo que deu origem a esta produção, mas imagino que o roteiro de Brian Bird seja bem fiel à obra de Strobel. Ainda assim, senti falta do filme se aprofundar mais na investigação do jornalista, dando mais espaço para as argumentações dos diferentes cientistas e especialistas. Dá para entender o esforço de Bird de equilibrar a questão pessoal dos Strobel, a família, que era um elemento muito importante e fundamental para a história, com a procura por “provas” do jornalista. Mas, ainda assim, eu teria achado mais interessante o filme explorar mais o que ele encontrou em suas buscas.

Como comentei antes, boa parte desta história está centrada em dois personagens: Leslie e Lee Strobel. Consequentemente, os atores que interpretam eles é que têm destaque na produção. Os dois fazem um bom papel, mas, repetindo o que eu já falei, considero que Erika Christensen tem uma entrega mais sensível e convincente que o seu par Mike Vogel. Mas ambos estão bem. Além deles, vale citar o bom trabalho de L. Scott Caldwell como Alfie Davis, a mulher que desperta a mudança em Leslie; Faye Dunaway em uma ponta como a Dra. Roberta Waters, uma das especialistas procuradas por Lee; Frankie Faison como Joe Dubois, chefe da redação onde Lee trabalha; Robert Forster em uma ponta como Walt Strobel, pai do protagonista; Brett Rice como Ray Nelson, espécie de “conselheiro” de Lee; Rus Blackwell como Dr. William Craig, outro especialista entrevistado por Lee; Matthew Brenher como Dr. Phillip Singer, idem o anterior; Tom Nowicki como Dr. Alexander Metherell, idem o anterior; Kevin Sizemore como Dr. Gary Habermas, idem o anterior; Cindy Hogan como Lorena Strobel, mãe de Lee; Mike Pniewski como Kenny London, jornalista colega de Redação de Lee; e Miguel Pérez como o Frei Jose Maria Marquez, outro nome consultado por Lee para a sua reportagem/livro.

Nada de muito destaque entre os elementos técnicos do filme. Achei a direção de Jon Gunn boa, mas nada além da média. Ele acerta ao deixar a câmera perto dos protagonistas, explorando as “emoções” dos personagens, mas o roteiro de Brian Bird e algumas escolhas do diretor, como o quadro de “provas” que Lee apresenta para estruturar a sua reportagem, acabam lançando o filme em um lugar-comum que é um tanto desnecessário. O roteiro busca aquele equilíbrio que eu comentei antes, mas poderia ter explorado mais os especialistas consultados pelo protagonista. Afinal, este é um diferencial da produção – e nem tanto a questão familiar/pessoal dos Strobel que, de uma forma ou outra, já vimos antes.

Ainda que nenhuma característica técnica seja realmente de destaque, vale comentar os responsáveis pelos principais aspectos desta produção: Brian Shanley assina a direção de fotografia; Will Musser assina a trilha sonora; Vance Null, a edição; Mitchell Crisp, o design de produção; Natalie Rhooms, a decoração de set; e Dana Konick, os figurinos.

The Case for Christ estreou no dia 7 de abril no Canadá, nas Filipinas e nos Estados Unidos. A produção não participou de nenhum festival e também, até o momento, não ganhou nenhum prêmio – o que se entende, porque não é muito o perfil do filme.

Esta produção teria custado US$ 3 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 14,7 milhões. Nos outros mercados em que o filme estreou ele fez outros US$ 2 milhões. Ou seja, está lucrando bem.

The Case for Christ foi rodado em Chicago, como a produção mesmo sugere, e em outras três cidades do Estado da Georgia: Covington, Madison e Atlanta. Além de ser todo rodado nos Estados Unidos, este filme é uma produção 100% americana – e, por isso, atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog em que vocês pediam críticas de filmes deste país.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção e seus personagens. Lee Strobel foi um editor premiado da editoria legal do The Chicago Tribune. Ele fez a faculdade de Jornalismo na Universidade do Missouri e um mestrado em Direito na Yale Law School.

O livro mais recente de Strobel, The Case for Grace, de 2016, ganhou como o Livro de Não-Ficção do Ano da EPCA. Strobel também é um convidado regular de canais de TV como ABC, Fox, Discovery, PBS e CNN.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 12 críticas positivas e 10 negativas para o filme – o que garante para ele aprovação de 55% e uma nota média de 5,6. Realmente os dois níveis de avaliação foram baixos, como vocês viram. Isso se explica, imagino, porque o filme é, realmente, mediano. Do estilo “Sessão da Tarde”. E também porque ele é claramente religioso – e isso, nem sempre, agrada ao grande público ou aos críticos. Faz parte.

CONCLUSÃO: Este é um filme com um propósito. E ele cumpre este propósito com competência. À parte disso, podemos dizer que se trata de um grande filme? Não, não é para tanto. The Case for Christ é um filme interessante, com uma história pouco conhecida, mas com uma compreensão e “simpatia” muito particulares. Literalmente ele vai agradar a gregos, mas não a troianos. Isso não é um problema para um filme. Especialmente se ele tem como bandeira a conversão de quem ainda não acredita e/ou tem fé. Como cinema, ele é apenas uma história a mais, com um roteiro previsível. Como testemunho de fé, The Case for Christ é potente. Vale para quem achará um sentido nesta história – para os demais, é bom evitar.

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