A Ciambra – Ciganos da Ciambra


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A passagem da vida infantil para a vida adulta revelada de uma maneira diferente. A Ciambra nos mostra um perfil de pessoas pouco retratadas. Me arrisco a dizer que até esquecida pelo cinema – e pela maioria dos meios de expressão e comunicação. Mas aquelas pessoas existem, são reais, e vivem de uma forma totalmente diferente em alternativa em diferentes partes do mundo. São os corajosos – essa é uma maneira de encará-los – que buscam viver à sua maneira independente das regras da sociedade. Interessante vê-los em um filme.

A HISTÓRIA: Um cavalo sobre um morro e um temporal. Um homem bem agasalhado, com cachecol e chapéu, se aproxima. O cavalo para de pastar um pouco e dá alguns passos. O homem alisa a crina do animal e, depois, a sua cabeça. O homem faz parte de um acampamento, e espreme um limão na água que toma pós recolhê-la de um riacho.

Corta. Pio (Pio Amato) se joga contra uma porta, e o irmão mais velho, Cosimo (Damiano Amato) diz para ele parar, porque vai estragar a porta e será repreendido pelo pai. Pio continua tentando e, entre uma tentativa e outra, Cosimo escapa pela janela. Pio corre atrás dele, mas Cosimo foge com a moto. Claramente Pio segue os passos do irmão, que enfrenta, de tempos em tempos, problemas com a polícia.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu à produção A Ciambra): O ideal da vida é que eu pudesse falar desse filme sem citar o título que ele recebeu no Brasil. Porque uma das “graças” dessa produção é, justamente, você não saber que ela trata de uma família de ciganos. Só ao publicar esse texto é que eu vi o título do filme no Brasil. E achei uma pena. Ele estraga uma surpresa fundamental dessa produção.

Gostei muito do trabalho do diretor e roteirista Jonas Carpignano. Ele realmente adentra na história de Pio, o protagonista, e de sua família. Sempre seguindo a ótica do protagonista, o filme vai mostrando a realidade dele e das pessoas que fazem parte do seu convívio. Algumas daquelas pessoas estão entre as mais marginalizadas da Europa. É preciso observar isso e entender isso ao conferir esse filme com tranquilidade e desarmando os nossos próprios preconceitos – ou, ao menos, as ideias pré-concebidas que temos daquelas pessoas.

Da minha parte, achei importante não saber, logo de cara, que Pio e a sua família eram ciganos. Digo isso porque, quando não sabemos disso no início do filme, passamos a ver as pessoas conforme os seus atos e relações e não já com uma série de estigmas. Realmente entendi que aquele grupo era de ciganos quando o avô de Pio tem com ele um diálogo que, para mim, é um dos pontos altos do filme.

Nesse diálogo, (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme), pouco antes de morrer, o avô de Pio comenta com ele sobre a época em que eles viviam viajando. Os ciganos, por definição, não tem endereço fixo. Antigamente, viviam viajando de uma parte para a outra. Hoje, a exemplo da família de Pio, muitos se estabeleceram em um local fixo – até segunda ordem, ao menos. Mas o avô de Pio fala para o neto sobre como eles viajavam antes, e como eles eram – e lutam para continuar sendo – espíritos livres. Então ele fala uma frase que marca Pio: “Somos nós contra o mundo”.

E isso define um bocado o filme e o que vemos da cultura cigana na tela. Eles são espíritos livres, bem “simbolizados” pelo cavalo “selvagem”. Eles não podem ser domados ou comprados. Eles são livres e, desta forma, por definição, anti-convenções sociais. Os homens fizeram as leis e as regras, mas elas não funcionam para quem se considera livre. Assim, os ciganos consideram que eles são um grupo que deve lutar contra tudo e contra todos e, assim, resistir. Em outras palavras, são anarquistas e libertários extremistas.

Claro que para quem vive sob as regras e leis de uma sociedade, não existe um “bicho” mais estranho do que um cigano. Afinal, ele vai contra toda as convenções. No Brasil, não temos o costume de encontrar ciganos por aí. Mas na Europa eles seguem sendo grupos bem definidos e inseridos na sociedade. Pessoalmente, os encontrei em mais de uma cidade da Espanha. A Ciambra se passa na Itália, claro, mas essa história facilmente poderia ser ambientada em quase qualquer país da Europa.

Tendo encontrado alguns ciganos na Espanha e tendo visto como os espanhóis lidam com os ciganos, percebi bem como eles são marginalizados. E assistindo a esse filme, entendi melhor as razões para isso. Quando estive lá, percebi como as pessoas sempre tem o “pé atrás” com os ciganos e muitos os consideram sempre bandidos ou potenciais bandidos. Parece que as pessoas estão sempre esperando o pior deles – algum golpe, algum roubo, e por aí vai.

A Ciambra não nega nada disso. Muito pelo contrário. Como eu comentei no início desse texto, esse filme mostra o ritual de passagem de um cigano – o protagonista Pio – da vida infantil/juvenil para a vida adulta. E nessa trajetória do nosso “herói”, ele cresce na criminalidade. Passa de acobertar o roubo de energia elétrica e cobre, além de outros crimes menores, para começar a furtar mercadorias mais relevantes – e, mais que isso, fazer mal a um amigo.

Francamente, eu não sei o quanto o filme de Jonas Carpignano é fiel ou não a uma comunidade cigana, mas essa produção parece fazer sentido. Parece realmente resgatar um meio de vida que sempre estará à margem do que a sociedade entende como certo – até porque os ciganos não aceitam as regras, leis e convenções que os demais consideram normais.

Enfim, dá para entender, assistindo a esse filme, todos os pontos de vista. Desde a ótica dos ciganos, que não conseguem se encaixar em sociedades cheias de regras – o que, a priori, parece ir contra quem quer ser livre -, até a ótica de quem tem um certo “preconceito” com esse grupo da sociedade. Afinal, como você lida com pessoas que fogem totalmente às regras e não consideram crime os atos que forem necessários para elas sobreviverem?

Dessa forma, A Ciambra trata de temas muito atuais, especialmente na Europa. Lá, ciganos continuam sendo um desafio para polícias e comunidades, ao mesmo tempo que “africanos” também desafiam a aceitação dos autóctones. Como em qualquer formação social, os ciganos, que costumam ser um tanto que “desprezados” pelos italianos, também são capazes de desprezar outro grupo social – no caso, os imigrantes africanos.

A verdade é que temos em A Ciambra uma dinâmica social interessante e que continua, na prática, desafiando países mundo afora. No fim das contas, não importa qual é a sua origem, e se você é mais ou menos “livre”, se respeita mais ou menos as leis e regras da sociedade em que você vive. O que define, no fim do dia, como você trata o seu próximo, é a forma com que você olha para ele. Com respeito ou com desprezo? Para você, só interessa os “seus” ou te interessa todo mundo? Estas são as grandes questões que acabam definindo quem se integra ou não a um coletivo.

Porque se você tem uma atitude individualista, se você acha que apenas a sua família e/ou o seu grupo social é que valem, e que qualquer ato pode ser praticado contra os outros, não importa quem, desde que você defenda o seu “quinhão”, então você nunca vai realmente “se encaixar” ou pertencer a um coletivo maior. A Ciambra, ao retratar um coletivo específico com essa “filosofia de vida”, nos faz refletir sobre aquele grupo mas sobre todos os demais também.

Enquanto eu assisti a esse filme, admito que me deixei encantar pelos atores – especialmente pelo talentoso e carismático Pio Amato. Me surpreendi quando ele acaba deixando para trás a amizade com Ayiva (Koudous Seihon) para conseguir ter a aceitação de seu irmão e de sua família. O rito de passagem dele é trair o que ele tinha de mais precioso. As lágrimas dele, naquele momento de traição, são comoventes, porque parecem sinceras. Mas que grupo é esse que pede que alguém traia algo tão bonito como a amizade sincera para que a pessoa seja aceita?

Enfim, eu não conheço pessoalmente um grupo de ciganos para saber o quanto A Ciambra é fiel ou não à forma com que eles pensam e agem. Mas se, de fato, Jonas Capignano conseguiu resumir nesse filme a “filosofia de vida” desse grupo, que os ciganos me desculpem, mas a ideia de “liberdade” deles está bem equivocada.

Eles, no fundo, são livres dentro de regras deturpadas que eles mesmo definiram, e frente às quais ninguém – a exemplo de Pio – consegue lutar contra. Se para ser livre é preciso “vender-se” e abandonar as suas convicções, como a defesa da amizade, isso para mim não é ser livre realmente, mas apenas seguir regras que foram estabelecidos por outros para ser aceito em um grupo. Então como essa “liberdade” se diferencia de quem faz parte de uma sociedade e aceita viver naquele entorno social?

Achei interessante como esse filme parece singelo, inicialmente, mas depois se torna mais complexo do que poderíamos imaginar. Refletindo sobre ele, posteriormente, chegamos a algumas questões realmente relevantes, como as citadas acima – e tantas outras, como a de que esforço cada um precisa fazer para, com as diferenças culturais que carrega, integrar uma sociedade em paz. Gostei bastante do que eu vi. E acho que esse filme poderia render belos debates em salas de aulas e em grupos de discussão. Vale conferir e debater sobre.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Assisti a esse filme da forma com que eu mais gosto: sem ter ouvido falar nada da história antes. Assim, eu nem sabia da temática que essa produção tratava. Novamente, essa é a forma que eu defendo como a melhor para ver a um filme. Quanto menos você sabe a respeito, melhor. Porque a história realmente pode lhe surpreender. No caso de A Ciambra, eu apenas sabia que esta produção tinha sido premiada, que ela tinha sido a indicação da Itália para o Oscar e que ela tinha sido bem avaliada, mais nada. Esse é o caminho ideal.

Pelo que se conclui, lá pelas tantas na história, Ciambra é o nome do local – conjunto habitacional seria o mais próximo da realidade? – em que moram as famílias de ciganos. O foco da história é uma destas famílias em específico, a do protagonista Pio, um jovem em fase de amadurecimento dentro daquele grupo familiar. Ele passa por um “rito de passagem” que acompanhamos de perto pelas lentes de Jonas Carpignano.

Gostei do estilo do diretor, que é roteirista do filme também. Procurei mais a respeito dele e descobri que Jonas Carpignano é nova iorquino e tem, no currículo, sete produções como diretor e roteirista. Antes de A Ciambra, ele filmou e dirigiu cinco curtas e apenas um longa: Mediterranea, de 2015. Fiquei bastante interessada em assistir ao primeiro longa dele. Assim como eu acho que esse é um nome que merece ser acompanhado. Tem muito potencial.

O grande destaque desta produção é o jovem Pio Amato, que interpreta o protagonista. O garoto passa muita verdade na sua interpretação. É fácil acreditar no que ele está fazendo e nos mostrando. Mérito também, sem dúvida, do diretor, que deve incentivar essa interpretação “orgânica” dos atores. Outro destaque, pelo carisma e pelo talento, é Koudous Seihon, que interpreta a Ayiva, um cara gente boa que sempre se esforça em ajudar Pio.

O filme é bastante centrado em Pio. Todos os demais personagens orbitam ao redor dele. Entre os coadjuvantes, o que ganha mais destaque, como eu comentei antes, é Koudous Seihon. Mas também vale comentar o bom trabalho de Damiano Amato como Cosimo, irmão mais velho de Pio e em quem ele tenta se espelhar; Iolanda Amato como a marcante Iolanda, mãe de Pio e “chefe” da família; e Rocco Amato como Rocco, pai de Pio.

Entre os aspectos técnicos da produção, vale destacar a trilha sonora de Dan Romer; a direção de fotografia de Tim Curtin; a edição de Affonso Gonçalves; e o design de produção de Marco Ascanio Viarigi.

A Ciambra estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2017. Depois, até maio de 2018, o filme participou de nada menos que outros 30 festivais em diversas partes do mundo. Nessa trajetória, a produção ganhou 11 prêmios e foi indicado a outros 16.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Label Europa Cinemas entregue no Festival de Cinema de Cannes; para os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Edição no David di Donatello Awards; para o prêmio de Melhor Filme Italiano no Festival de Cinema de Trieste; para o de Melhor Ator para Pio Amato no Festival de Cinema Europeu de Sevilha; e para o prêmio de Melhor Filme não Lançado em 2017 segundo a Sociedade Internacional de Cinéfilos.

Vale lembrar que A Ciambra também foi escolhido pela Itália para representar o país no Oscar 2018 – mas o que o filme não chegou a ficar entre os finalistas ou mesmo os semifinalistas.

A Ciambra tem, entre os seus produtores, dois brasileiros: Lourenço Sant’Anna e Rodrigo Teixeira. Dois nomes fortes e que tem se envolvido em ótimas produções. Vale acompanhá-los.

Este filme é uma coprodução da Itália com o Brasil, a Alemanha, a França, a Suécia e os Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,0 para A Ciambra, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 28 críticas positivas e seis negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 82% e uma nota média de 6,8. No site Metacritic o filme registra o metascore 70, resultado de 14 críticas positivas e de duas críticas medianas. Ou seja, no geral, o filme foi muito bem na crítica do público e dos especialistas.

CONCLUSÃO: Uma história simples que, aos poucos, revela-se não tão simples assim. Esse filme, como a maioria dos filmes interessantes do mercado, pode ser encarado sob mais de um ponto de vista. Pode ser visto sim como um “rito de passagem” do protagonista para a vida adulta, mas também é a história de um “povo” que resiste às mudanças do tempo e das sociedades. No fim das contas, uma história de resistência, com tudo que ela denota de desafio para quem a assiste. Um filme interessante, envolvente, e que nos mostra uma realidade com a qual não estamos acostumados. Vale conferir, especialmente se você deixar os seus preconceitos de lado para conhecer uma realidade que provavelmente é totalmente diferente da sua.

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