Categorias
Cinema Cinema brasileiro Cinema europeu Cinema norte-americano Crítica de filme Filme premiado Movie Oscar 2018

A Ciambra – Ciganos da Ciambra

A passagem da vida infantil para a vida adulta revelada de uma maneira diferente. A Ciambra nos mostra um perfil de pessoas pouco retratadas. Me arrisco a dizer que até esquecida pelo cinema – e pela maioria dos meios de expressão e comunicação. Mas aquelas pessoas existem, são reais, e vivem de uma forma totalmente diferente em alternativa em diferentes partes do mundo. São os corajosos – essa é uma maneira de encará-los – que buscam viver à sua maneira independente das regras da sociedade. Interessante vê-los em um filme.

A HISTÓRIA: Um cavalo sobre um morro e um temporal. Um homem bem agasalhado, com cachecol e chapéu, se aproxima. O cavalo para de pastar um pouco e dá alguns passos. O homem alisa a crina do animal e, depois, a sua cabeça. O homem faz parte de um acampamento, e espreme um limão na água que toma pós recolhê-la de um riacho.

Corta. Pio (Pio Amato) se joga contra uma porta, e o irmão mais velho, Cosimo (Damiano Amato) diz para ele parar, porque vai estragar a porta e será repreendido pelo pai. Pio continua tentando e, entre uma tentativa e outra, Cosimo escapa pela janela. Pio corre atrás dele, mas Cosimo foge com a moto. Claramente Pio segue os passos do irmão, que enfrenta, de tempos em tempos, problemas com a polícia.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu à produção A Ciambra): O ideal da vida é que eu pudesse falar desse filme sem citar o título que ele recebeu no Brasil. Porque uma das “graças” dessa produção é, justamente, você não saber que ela trata de uma família de ciganos. Só ao publicar esse texto é que eu vi o título do filme no Brasil. E achei uma pena. Ele estraga uma surpresa fundamental dessa produção.

Gostei muito do trabalho do diretor e roteirista Jonas Carpignano. Ele realmente adentra na história de Pio, o protagonista, e de sua família. Sempre seguindo a ótica do protagonista, o filme vai mostrando a realidade dele e das pessoas que fazem parte do seu convívio. Algumas daquelas pessoas estão entre as mais marginalizadas da Europa. É preciso observar isso e entender isso ao conferir esse filme com tranquilidade e desarmando os nossos próprios preconceitos – ou, ao menos, as ideias pré-concebidas que temos daquelas pessoas.

Da minha parte, achei importante não saber, logo de cara, que Pio e a sua família eram ciganos. Digo isso porque, quando não sabemos disso no início do filme, passamos a ver as pessoas conforme os seus atos e relações e não já com uma série de estigmas. Realmente entendi que aquele grupo era de ciganos quando o avô de Pio tem com ele um diálogo que, para mim, é um dos pontos altos do filme.

Nesse diálogo, (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme), pouco antes de morrer, o avô de Pio comenta com ele sobre a época em que eles viviam viajando. Os ciganos, por definição, não tem endereço fixo. Antigamente, viviam viajando de uma parte para a outra. Hoje, a exemplo da família de Pio, muitos se estabeleceram em um local fixo – até segunda ordem, ao menos. Mas o avô de Pio fala para o neto sobre como eles viajavam antes, e como eles eram – e lutam para continuar sendo – espíritos livres. Então ele fala uma frase que marca Pio: “Somos nós contra o mundo”.

E isso define um bocado o filme e o que vemos da cultura cigana na tela. Eles são espíritos livres, bem “simbolizados” pelo cavalo “selvagem”. Eles não podem ser domados ou comprados. Eles são livres e, desta forma, por definição, anti-convenções sociais. Os homens fizeram as leis e as regras, mas elas não funcionam para quem se considera livre. Assim, os ciganos consideram que eles são um grupo que deve lutar contra tudo e contra todos e, assim, resistir. Em outras palavras, são anarquistas e libertários extremistas.

Claro que para quem vive sob as regras e leis de uma sociedade, não existe um “bicho” mais estranho do que um cigano. Afinal, ele vai contra toda as convenções. No Brasil, não temos o costume de encontrar ciganos por aí. Mas na Europa eles seguem sendo grupos bem definidos e inseridos na sociedade. Pessoalmente, os encontrei em mais de uma cidade da Espanha. A Ciambra se passa na Itália, claro, mas essa história facilmente poderia ser ambientada em quase qualquer país da Europa.

Tendo encontrado alguns ciganos na Espanha e tendo visto como os espanhóis lidam com os ciganos, percebi bem como eles são marginalizados. E assistindo a esse filme, entendi melhor as razões para isso. Quando estive lá, percebi como as pessoas sempre tem o “pé atrás” com os ciganos e muitos os consideram sempre bandidos ou potenciais bandidos. Parece que as pessoas estão sempre esperando o pior deles – algum golpe, algum roubo, e por aí vai.

A Ciambra não nega nada disso. Muito pelo contrário. Como eu comentei no início desse texto, esse filme mostra o ritual de passagem de um cigano – o protagonista Pio – da vida infantil/juvenil para a vida adulta. E nessa trajetória do nosso “herói”, ele cresce na criminalidade. Passa de acobertar o roubo de energia elétrica e cobre, além de outros crimes menores, para começar a furtar mercadorias mais relevantes – e, mais que isso, fazer mal a um amigo.

Francamente, eu não sei o quanto o filme de Jonas Carpignano é fiel ou não a uma comunidade cigana, mas essa produção parece fazer sentido. Parece realmente resgatar um meio de vida que sempre estará à margem do que a sociedade entende como certo – até porque os ciganos não aceitam as regras, leis e convenções que os demais consideram normais.

Enfim, dá para entender, assistindo a esse filme, todos os pontos de vista. Desde a ótica dos ciganos, que não conseguem se encaixar em sociedades cheias de regras – o que, a priori, parece ir contra quem quer ser livre -, até a ótica de quem tem um certo “preconceito” com esse grupo da sociedade. Afinal, como você lida com pessoas que fogem totalmente às regras e não consideram crime os atos que forem necessários para elas sobreviverem?

Dessa forma, A Ciambra trata de temas muito atuais, especialmente na Europa. Lá, ciganos continuam sendo um desafio para polícias e comunidades, ao mesmo tempo que “africanos” também desafiam a aceitação dos autóctones. Como em qualquer formação social, os ciganos, que costumam ser um tanto que “desprezados” pelos italianos, também são capazes de desprezar outro grupo social – no caso, os imigrantes africanos.

A verdade é que temos em A Ciambra uma dinâmica social interessante e que continua, na prática, desafiando países mundo afora. No fim das contas, não importa qual é a sua origem, e se você é mais ou menos “livre”, se respeita mais ou menos as leis e regras da sociedade em que você vive. O que define, no fim do dia, como você trata o seu próximo, é a forma com que você olha para ele. Com respeito ou com desprezo? Para você, só interessa os “seus” ou te interessa todo mundo? Estas são as grandes questões que acabam definindo quem se integra ou não a um coletivo.

Porque se você tem uma atitude individualista, se você acha que apenas a sua família e/ou o seu grupo social é que valem, e que qualquer ato pode ser praticado contra os outros, não importa quem, desde que você defenda o seu “quinhão”, então você nunca vai realmente “se encaixar” ou pertencer a um coletivo maior. A Ciambra, ao retratar um coletivo específico com essa “filosofia de vida”, nos faz refletir sobre aquele grupo mas sobre todos os demais também.

Enquanto eu assisti a esse filme, admito que me deixei encantar pelos atores – especialmente pelo talentoso e carismático Pio Amato. Me surpreendi quando ele acaba deixando para trás a amizade com Ayiva (Koudous Seihon) para conseguir ter a aceitação de seu irmão e de sua família. O rito de passagem dele é trair o que ele tinha de mais precioso. As lágrimas dele, naquele momento de traição, são comoventes, porque parecem sinceras. Mas que grupo é esse que pede que alguém traia algo tão bonito como a amizade sincera para que a pessoa seja aceita?

Enfim, eu não conheço pessoalmente um grupo de ciganos para saber o quanto A Ciambra é fiel ou não à forma com que eles pensam e agem. Mas se, de fato, Jonas Capignano conseguiu resumir nesse filme a “filosofia de vida” desse grupo, que os ciganos me desculpem, mas a ideia de “liberdade” deles está bem equivocada.

Eles, no fundo, são livres dentro de regras deturpadas que eles mesmo definiram, e frente às quais ninguém – a exemplo de Pio – consegue lutar contra. Se para ser livre é preciso “vender-se” e abandonar as suas convicções, como a defesa da amizade, isso para mim não é ser livre realmente, mas apenas seguir regras que foram estabelecidos por outros para ser aceito em um grupo. Então como essa “liberdade” se diferencia de quem faz parte de uma sociedade e aceita viver naquele entorno social?

Achei interessante como esse filme parece singelo, inicialmente, mas depois se torna mais complexo do que poderíamos imaginar. Refletindo sobre ele, posteriormente, chegamos a algumas questões realmente relevantes, como as citadas acima – e tantas outras, como a de que esforço cada um precisa fazer para, com as diferenças culturais que carrega, integrar uma sociedade em paz. Gostei bastante do que eu vi. E acho que esse filme poderia render belos debates em salas de aulas e em grupos de discussão. Vale conferir e debater sobre.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Assisti a esse filme da forma com que eu mais gosto: sem ter ouvido falar nada da história antes. Assim, eu nem sabia da temática que essa produção tratava. Novamente, essa é a forma que eu defendo como a melhor para ver a um filme. Quanto menos você sabe a respeito, melhor. Porque a história realmente pode lhe surpreender. No caso de A Ciambra, eu apenas sabia que esta produção tinha sido premiada, que ela tinha sido a indicação da Itália para o Oscar e que ela tinha sido bem avaliada, mais nada. Esse é o caminho ideal.

Pelo que se conclui, lá pelas tantas na história, Ciambra é o nome do local – conjunto habitacional seria o mais próximo da realidade? – em que moram as famílias de ciganos. O foco da história é uma destas famílias em específico, a do protagonista Pio, um jovem em fase de amadurecimento dentro daquele grupo familiar. Ele passa por um “rito de passagem” que acompanhamos de perto pelas lentes de Jonas Carpignano.

Gostei do estilo do diretor, que é roteirista do filme também. Procurei mais a respeito dele e descobri que Jonas Carpignano é nova iorquino e tem, no currículo, sete produções como diretor e roteirista. Antes de A Ciambra, ele filmou e dirigiu cinco curtas e apenas um longa: Mediterranea, de 2015. Fiquei bastante interessada em assistir ao primeiro longa dele. Assim como eu acho que esse é um nome que merece ser acompanhado. Tem muito potencial.

O grande destaque desta produção é o jovem Pio Amato, que interpreta o protagonista. O garoto passa muita verdade na sua interpretação. É fácil acreditar no que ele está fazendo e nos mostrando. Mérito também, sem dúvida, do diretor, que deve incentivar essa interpretação “orgânica” dos atores. Outro destaque, pelo carisma e pelo talento, é Koudous Seihon, que interpreta a Ayiva, um cara gente boa que sempre se esforça em ajudar Pio.

O filme é bastante centrado em Pio. Todos os demais personagens orbitam ao redor dele. Entre os coadjuvantes, o que ganha mais destaque, como eu comentei antes, é Koudous Seihon. Mas também vale comentar o bom trabalho de Damiano Amato como Cosimo, irmão mais velho de Pio e em quem ele tenta se espelhar; Iolanda Amato como a marcante Iolanda, mãe de Pio e “chefe” da família; e Rocco Amato como Rocco, pai de Pio.

Entre os aspectos técnicos da produção, vale destacar a trilha sonora de Dan Romer; a direção de fotografia de Tim Curtin; a edição de Affonso Gonçalves; e o design de produção de Marco Ascanio Viarigi.

A Ciambra estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2017. Depois, até maio de 2018, o filme participou de nada menos que outros 30 festivais em diversas partes do mundo. Nessa trajetória, a produção ganhou 11 prêmios e foi indicado a outros 16.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Label Europa Cinemas entregue no Festival de Cinema de Cannes; para os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Edição no David di Donatello Awards; para o prêmio de Melhor Filme Italiano no Festival de Cinema de Trieste; para o de Melhor Ator para Pio Amato no Festival de Cinema Europeu de Sevilha; e para o prêmio de Melhor Filme não Lançado em 2017 segundo a Sociedade Internacional de Cinéfilos.

Vale lembrar que A Ciambra também foi escolhido pela Itália para representar o país no Oscar 2018 – mas o que o filme não chegou a ficar entre os finalistas ou mesmo os semifinalistas.

A Ciambra tem, entre os seus produtores, dois brasileiros: Lourenço Sant’Anna e Rodrigo Teixeira. Dois nomes fortes e que tem se envolvido em ótimas produções. Vale acompanhá-los.

Este filme é uma coprodução da Itália com o Brasil, a Alemanha, a França, a Suécia e os Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,0 para A Ciambra, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 28 críticas positivas e seis negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 82% e uma nota média de 6,8. No site Metacritic o filme registra o metascore 70, resultado de 14 críticas positivas e de duas críticas medianas. Ou seja, no geral, o filme foi muito bem na crítica do público e dos especialistas.

CONCLUSÃO: Uma história simples que, aos poucos, revela-se não tão simples assim. Esse filme, como a maioria dos filmes interessantes do mercado, pode ser encarado sob mais de um ponto de vista. Pode ser visto sim como um “rito de passagem” do protagonista para a vida adulta, mas também é a história de um “povo” que resiste às mudanças do tempo e das sociedades. No fim das contas, uma história de resistência, com tudo que ela denota de desafio para quem a assiste. Um filme interessante, envolvente, e que nos mostra uma realidade com a qual não estamos acostumados. Vale conferir, especialmente se você deixar os seus preconceitos de lado para conhecer uma realidade que provavelmente é totalmente diferente da sua.

Categorias
Cinema Cinema norte-americano Crítica de filme Documentário Filme premiado Movie Oscar 2018 Votações no blog

Icarus – Ícaro

Um documentário que pretende ser algo e que muda totalmente de direção conforme os fatos se desenrolam. Uma história com requintes de suspense e de ação inesperados. Icarus é um filme que dificilmente vai deixar você incólume sobre os Jogos Olímpicos e grande parte do esporte profissional no mundo.

Da minha parte, de quem sempre admitiu ser uma grande fã das Olimpíadas, certamente eu não vou ver mais essa competição da mesma forma. Um documentário diferente e muito interessante que nos desvela teorias que apenas tínhamos esboçadas, mas sem nenhuma prova ou enredo para realmente comprovar as nossas suspeitas.

A HISTÓRIA: Começa apresentando a frase “Em uma época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário”, de George Orwell. Em seguida, ouvimos a vários trechos de áudios de vários atletas falando sobre doping, geralmente alegando a própria inocência. Em meio a eles, surge uma narração sobre a vontade de Lance Armstrong em vencer a Volta da França. Junho de 2014, em Boulder, Colorado. O diretor Bryan Fogel comenta que está se preparando para a prova para ciclistas amadores mais difícil do mundo.

Ele comenta que essa prova é uma mini Volta da França “para loucos” – ou seja, tem alguns dos mais difíceis trechos da competição para profissionais. O diretor explica que é ciclista amador há 28 anos, e que recorda de LeMond ganhando a Volta da França quando ele estava na sétima série – LeMond foi o primeiro americano a conseguir isso, o que incentivou Fogel. Amante do ciclismo, ele ficou fascinado por Armstrong, até que o herói se revelou falho ao admitir doping. E aí o diretor resolveu fazer um documentário sobre isso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Icarus): Estava com vontade de assistir a esse documentário desde o início do ano, quando vi que Icarus era um dos candidatos fortes ao Oscar 2018 de Melhor Documentário. Foi então que eu soube, de leve, que ele tratava sobre doping, mas isso foi tudo.

Quem me acompanha há algum tempo aqui no blog sabe que eu não gosto de ler sobre os filmes antes de assisti-los. Justamente para não ter a minha leitura afetada por outras análises. Mas foi impossível não saber sobre o tema de Icarus. Isso, no fim das contas, não afetou a minha experiência sobre o filme. Até porque eu não sabia o que esperar, exatamente, sobre uma produção com essa temática.

Por isso mesmo, achei Icarus surpreendente. Primeiro, porque o filme tem uma pegada de suspense e de “intriga policial” que não é muito comum em documentários. Na verdade, Icarus se assemelha mais a um filme de suspense ou policial, em alguns momentos, do que de um filme tradicional de documentário.

Isso acontece por causa da reviravolta que acontece na história. Como eu comentei no resumo da produção, inicialmente a intenção do diretor e ciclista apaixonado Bryan Fogel era demonstrar nele próprio como o doping é feito por atletas sem que eles sejam pegos por isso em exames antidoping. Por ter essa característica, este filme entra na lista de produções do tipo “diretor que faz um experimento” – a exemplo de Super Size Me, de Morgan Spurlock, e de vários outros documentários.

Bem, ao menos essa era a intenção de Fogel. Icarus começa desta forma, com o diretor explicando o seu fascínio sobre o ciclismo, comentando que ele pedala de forma amadora há 28 anos e que ele, após ficar chocado com a história do doping do ídolo Lance Armstrong, resolveu comprovar na prática como os exames antidoping são falhos.

Para isso, ele vai procurar um dos maiores especialistas nesta área, o americano Don Catlin – que aparece em uma das imagens em que Armstrong falou sobre o escândalo do doping envolvendo os ciclistas americanos. Inicialmente, Catlin dá entrevista para Fogel e fala categoricamente que todos os atletas daquela equipe se dopavam. Como ele mesmo diz, “Infelizmente as drogas funcionam”. E complementa afirmando que, com certo conhecimento, dá para passar pelos exames antidoping tranquilamente.

Uma prova disso é que o próprio Armstrong, apesar de tomar substâncias proibidas segundo a Wada (Agência Internacional Anti-Doping), nunca foi pego em cerca de 500 exames antidoping em sua carreira. O próprio Catlin fez cerca de 50 exames desse tipo com amostras da urina de Armstrong e nunca detectou nada. E olha que ele é um grande especialista no assunto. Por isso ele falou de maneira tão franca com Fogel que o antidoping não funciona.

Inicialmente, segundo o diretor, Catlin tinha topado ajudar o diretor em seu plano de fazer um doping controlado que visava melhorar o seu desempenho como atleta e, de quebra, passar nos exames antidoping. Assim, Icarus começa com Fogel falando do seu plano e participando, pela primeira vez, da Haute Route, a prova para ciclistas amadores mais difícil do mundo – ela reproduz, basicamente, os sete dias mais difíceis da prova Volta da França.

Pois bem, sem usar doping, Fogel participa da prova em 2014 e consegue um resultado excelente: o 14º lugar entre “440 masoquistas”, como ele mesmo chamou os participantes da disputa. Ele ficou, basicamente, atrás do pelotão de elite desse tipo de competição. Em seguida, a ideia dele era começar o “tratamento” de doping para, no ano seguinte, melhorar ainda mais o seu resultado na Haute Route.

Mas antes de começar a se encher de injeções e de começar a sua programação de doping, o diretor recebe um e-mail e algumas mensagens de Catlin afirmando que ele estava preocupado com o seu legado. Em outras palavras, ele pulou fora do projeto. Mas indicou uma pessoa que poderia ajudar o diretor nesse “plano de doping”: o russo Grigory Rodchenkov. Segundo Catlin, ele era um “velho amigo” e alguém que poderia auxiliar Fogel com conhecimento.

Justamente essa mudança de planos é o que acaba mudando totalmente essa produção. Quando Fogel começa a conversar com Rodchenkov, ele ainda está em Moscou, e vivendo tranquilamente. Mas tudo isso vai mudar de figura conforme o escândalo do doping russo começa a ser revelado. Como o diretor mesmo diz no filme, quando Catlin desembarcou do projeto e indicou Rodchenkov, essa ação “desencadeou toda uma cadeia de eventos”.

E foi verdade. Se, por um lado, as denúncias sobre o doping de atletas russos não foi provocada por Fogel, por outro lado o diretor teve um papel importante no desenrolar dos fatos envolvendo Rodchenkov. Assim, o filme do diretor acaba seguindo dois caminhos diferentes após todo o escândalo russo vir à tona.

Mas, antes, acompanhamos como Fogel trabalha em parceria com Rodchenkov para passar por um programa de doping e melhorar o seu desempenho físico em cerca de 20%. Ele chega também a participar do segundo ano da Haute Route, mas acaba tendo alguns problemas com a bicicleta – algo que não fica bem explicado no filme, na verdade -, o que lhe faz ter um desempenho bem pior do que no ano sem o programa de doping.

O importante, contudo, não era tanto ele se sair melhor na prova, mas apesar de fazer todo o programa de doping, não ser pego por isso. Realmente ele sai ileso. Mas logo estoura a bomba do doping russo. E aí sim o filme passa a ter dois caminhos totalmente diferentes daquele previsto inicialmente pelo diretor.

Por um lado, ele vira uma testemunha privilegiada dos acontecimentos envolvendo as investigações da trama governamental russa em favor do doping – ao menos conhecendo de perto a leitura dos fatos feita por Rodchenkov. Por outro lado, ele acaba sendo um personagem dos fatos a partir do momento que oferece “guarita” para o “amigo” que está se sentindo perseguido e ameaçado. E, assim, Fogel se torna personagem da trama do doping russo ao trazer para os Estados Unidos o controverso Rodchenkov.

Esses são alguns elementos que tornam Icarus tão interessante. Afinal, nunca poderíamos imaginar, no início do documentário, que ele trilharia caminhos tão diferentes. Questões sobre as quais só tínhamos ouvido falar e que pareciam um tanto “fantasiosas” e/ou parte de “teorias da conspiração”, como eram os rumores sobre estratégias de doping orquestradas por países para transformarem os seus atletas em “super-atletas”, a eliminação de desafetos orquestrado pelo governo russo e a vigilância estratégica do FBI sobre tudo que acontece nos Estados Unidos, são confirmadas nesse filme. E quem poderia esperar por isso?

Por tudo isso, Icarus acaba se transformando naquele estilo de filme que eu comentei antes, uma mescla de documentário com trama policial e de suspense. É assustador como Fogel destrincha os bastidores do esporte profissional manchado e corrompido pelo doping, assim como o envolvimento do governo russo no caso desvelado daquele país. Inevitável não imaginar que diversos outros países recorrem àquela mesma estratégia.

E aí sim, chego à reflexão principal que Icarus me despertou. Quem nos garante que grande parte dos resultados que vemos a cada quatro anos nos Jogos Olímpicos não acontecem porque os atletas estão “modificados” pelo doping? Como seguir acreditando na “superação humana” que as Olimpíadas simbolizam se boa parte dos resultados são obtidos através de fraude? Porque não existe outro nome para o doping. Esse é um tipo de corrupção, um tipo de fraude que termina com o princípio da igualdade entre todos.

Francamente, Icarus abalou o meu fascínio sobre as Olimpíadas. Porque desconfio que eu não vi e me emocionei apenas com medalhas fraudulentas de atletas russos, mas que isso ocorreu também com vários atletas de diferentes países. E isso não se restringe apenas às Olimpíadas, mas a diversas outras competições esportivas com atletas profissionais. Quem nos garante que boa parte daquelas pessoas não está atingindo novas marcas e recordes não por mérito e por superação das “limitações” humanas, mas por causa de drogas que não são permitidas pelos esportes?

Por tudo isso, esse filme mereceu o Oscar de Melhor Documentário. Porque apesar de termos muitos filmes importantes e que mexem em temas muito atuais, há tempos eu não assistia a um documentário que mexeu com toda uma estrutura de crenças sobre um determinado tema. Da minha parte, certamente eu vou assistir às Olimpíadas e a outras competições esportivas com outros olhos. Certamente, com muito mais desconfiança.

No geral, Fogel revelou um grande talento como narrador de um história. Ele conduz muito bem esse filme e envolve o espectador em todo o momento – especialmente quando a trama ganha aqueles requintes de filme policial. Muito bem editado, com uma trilha sonora envolvente e uma narrativa bem planejada, Icarus é um documentário que não cansa, apesar do tema um tanto árido.

Serve também de reflexão para o público, já que ele revela, mais do que outros filmes do gênero, o quanto o diretor pode interferir na realidade – todo documentarista faz isso, mas nem todos deixam esta questão tão clara como Fogel. Agora, para não dizer que o filme é perfeito, acho que Fogel falha em dois pontos. Primeiro, por não explicar e mostrar as negociações que ele teve com Catlin e, depois, com Rodchenkov, para que eles lhe ajudassem no projeto de fazer um programa de doping.

Depois, como fica evidente no filme, Fogel acaba ajudando Rodchenkov a fugir da Rússia e a se “esconder” nos Estados Unidos. O quanto ele gastou com isso? Fica apenas sugerido, mas não é exatamente explicado no filme, a proximidade que Fogel acabou tendo de Rodchenkov. Tudo indica que eles se tornaram amigos, mas essa foi realmente a única motivação do diretor para ajudar Rodchenkov? Foi por uma questão humanitária, já que realmente havia risco do russo ser morto pelo seu próprio governo?

Acho que o diretor deixa alguns fios soltos importantes. As negociações dele com os especialistas em doping é uma delas. A grana que ele gastou nesse projeto – e deixar claro se havia algum interesse por trás disso, além do interesse pessoal do diretor -, também é outro fator que poderia ter sido explicado.

Também senti falta de Icarus explorar um pouco mais outros casos e denúncias de doping, e não ficar restrito aos bastidores da denúncia da campanha de doping russa. Enfim, o filme é bem feito, tem um propósito bem claro e é corajoso, mas deixa algumas pontas soltas de forma desnecessária.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Nesse ano, infelizmente, eu não consegui assistir a todos os filmes que concorreram na categoria Melhor Documentário do Oscar. Assisti apenas a Visages Villages (comentado aqui) e a esse Icarus. Os dois filmes são interessantes. E muito, muito diferentes entre si. Ainda que eu tenha gostado dos dois e veja que ambos tem a sua importância, sem dúvida alguma Icarus me surpreendeu mais e me pareceu mais relevante pela denúncia que ele faz do que o filme de Agnes Varda e JR.

Falando em filmes que eu vi, devo pedir desculpas para vocês. Na correria das últimas semanas, eu consegui atualizar pouco o blog. Tenho tido menos tempo para ver filmes e para escrever sobre eles. Mas nessa semana eu prometo publicar pelo menos duas críticas por aqui. Essa e mais uma. 😉 E quero ver se consigo voltar a essa boa prática de pelo menos duas publicações por semana. Não desistam de mim, viram? Grazzie!

Gostei da direção de Bryan Fogel. Ele soube conduzir bem a história e tornar a narrativa envolvente do início ao fim. Muda a direção do filme de maneira natural, sem parecer que foi uma mudança forçada. Fogel é um dos roteiristas da produção, que contou, ainda, para essa tarefa, com Jon Bertain, Mark Monroe e Timothy Rode.

Os destaques no filme vão para Fogel e Grigory Rodchenkov. Eles são os “personagens” principais dessa história. Mas também vemos em cena figuras conhecidas, que aparecem em imagens de TV, como Vladimir Putin, Thomas Bach, entre outros. Espero que Fogel ou outro(a) diretor(a) ainda façam um novo filme que mostre o doping de vários países – afinal, duvido muito que a Rússia seja o único a ter uma “política pública” de doping entre os atletas que representam o país nas Olimpíadas e em outras competições internacionais.

Entre os aspectos técnicos do filme, destaco a excelente edição de Jon Bertain, Kevin Klauber e Timothy Rode, e a trilha sonora envolvente e marcante em diversos momentos de Adam Peters. Também vale destacar a direção de fotografia de Timothy Rode e de Jake Swantko; e a direção de arte de Jon Bertain.

Icarus estreou em janeiro de 2017 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, participou de outros quatro eventos e festivais de cinema. Em sua trajetória, o filme ganhou seis prêmios. Vale citar todos: Oscar de Melhor Documentário; prêmio Cinema Eye Honors na categoria The Unforgettables para Grigory Rodchenkov; Melhor Documentário Esportivo no Critic’s Choice Documentary Awards; Prêmio da Audiência no SummerDocs do Festival Internacional de Cinema de Hamptons; Prêmio Especial do Júri como Melhor Documentário no Festival de Cinema de Sundance; e Melhor Documentário dos Estados Unidos pela escolha do público no Festival de Cinema de Sundance em Londres.

Icarus foi o primeiro documentário que ganhou um Oscar e que foi distribuído exclusivamente por um serviço streaming. No caso, a Netflix, que comprou o filme após ele ter sido exibido no Festival de Cinema de Sundance.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,0 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 39 críticas positivas e apenas três negativas para essa produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,2. Os dois níveis de avaliação são muito bons – e acima da média dos dois sites. O site Metacritic apresenta para este filme um “metascore” de 68, com 14 críticas positivas, uma negativa e uma intermediária.

Icarus é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme passa a figurar na lista de produções que atendem a uma votação feita por aqui há um bocado de tempo.

CONCLUSÃO: A verdade muitas vezes é mais difícil de acreditar do que a ficção. Mas é preciso ter coragem para enfrentar essa verdade. Icarus é um filme potente, que nasce com uma proposta e que depois vira totalmente o foco para não perder a força de uma história que o acaso apresentou para o diretor. Um filme que nasceu com uma proposta particular de mostrar como o antidoping não é confiável, muda para uma intricada trama real de denúncias, negações e ameaças – veladas e subentendidas. Produção potente, dificilmente ela não vai mudar a perspectiva do espectador sobre os atletas profissionais. Merece ser visto e debatido. Bastante debatido.

Categorias
Cinema Cinema alemão Cinema europeu Cinema francês Crítica de filme Filme premiado Globo de Ouro 2018 Movie Oscar 2018 Votações no blog

Aus Dem Nichts – In the Fade – Em Pedaços

A violência motivada pela ignorância é capaz de gerar os piores pesadelos. Temas atuais fazem parte de Aus Dem Nichts. Um filme potente, que nos faz pensar sobre o problema gigantesco que vem crescendo em diferentes países, que é o da intolerância e da incapacidade de muitas pessoas de aceitarem o que é diferente a elas. Quando alguém passa a se sentir superior a outra pessoa, quando se sente mais “merecedor” de viver do que um semelhante de carne e osso, vivemos dias de terror e uma era tenebrosa. E o efeito de tudo isso é um vazio sem fim.

A HISTÓRIA: Diversos começam a bater palmas. De uma cela, Nuri Sekerci (Numan Acar) surge vestido de terno branco e cumprimenta os colegas de cadeia. Ele está feliz e caminha em direção à saída do pavilhão. Quando ele passa pela pessoa que está filmando, ele diz que essa é a hora da verdade. Começamos a ouvir a música My Girl, e em uma sala próxima, Katja (Diane Kruger) está esperando ele para os dois casarem. Corta. Parte 1: A Família. O tempo passou, e agora Katja leva o filho Rocco (Rafael Santana) para passar um tempo com o pai no escritório. Os fatos que virão em seguida vão afetar para a sempre a vida dela.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Aus Dem Nichts): Eu estava “sedenta” para assistir a esse filme. Quem acompanha o blog com frequência, sabe que eu estava de olho no novo filme do ótimo diretor Fatih Akin porque essa produção tinha sido, por muito tempo, cotada como a favorita para levar o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

No final das contas, para surpresa de muitos – e eu me incluo nesse grupo -, Aus Dem Nichts não chegou nem a figurar na lista dos cinco filmes finalistas na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2018. Fiquei surpresa pela “esnobada”, à princípio, mas ao assistir ao filme eu entendi um pouco as razões para isso. Aus Dem Nichts é um bom filme. Ele é bem conduzido e trata de questões muito importantes nos nossos dias. Mas ele também tem alguns probleminhas que fazem com que ele não seja tão bom quanto poderia ser.

Mas antes de falar desses “probleminhas”, vamos falar sobre a história em si. Interessante como Fatih Akin começa a sua história sobre uma Alemanha moderna e ao mesmo tempo tão antiga. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, somos apresentados aos personagens principais: uma universitária que se apaixonou pelo cara que lhe vendia maconha e que, depois que ele foi preso, seguiu se relacionando com ele, ao ponto dos dois se casarem na prisão em que ele estava.

Passa o tempo, e o casal tem um filho de seis anos, o super esperto Rocco. Até aí, esse pequeno núcleo familiar é parecido com tantos outros. Eles devem batalhar diariamente por sobreviver e, no caso de Katja e Nuri, em dar uma vida confortável e uma boa educação para o filho, Rocco. O filme começa mostrando os fatos determinantes para essa família: o casamento de Katja e Nuri e, anos depois, o dia em que Katja levou Rocco para passar algumas horas com o pai no escritório. Até aí, tudo normal.

Mas esse filme não aborda a normalidade, e sim, fatos lamentáveis que não deveriam fazer parte da vida de ninguém. Mas que, infelizmente, fazem. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Enquanto Katja vai tranquilamente passar um tempo com a irmã Birgit (Samia Muriel Chancrin) em uma sauna, o marido e o filho dela estão sendo mortos em um ataque terrorista cruel e absurdo.

Achei interessante como o roteiro de Fatih Akin e Hark Bohm divide a história em três capítulos. Após a introdução em que o casamento de Katja e Nuri é mostrado, nós temos pela frente os capítulos A Família, A Justiça e O Mar. O primeiro mostra rapidamente o núcleo familiar de Katja, Nuri e Rocco e, com o atentado, as demais pessoas que fazem parte daquela família – os pais de Katja e de Nuri e a irmã de Katja.

Essa rede de apoio, junto com o advogado Danilo Fava (Denis Moschitto), amigo de Katja e Nuri, tenta dar um certo conforto e sustentação para Katja depois da morte trágica do marido e do filho. Mas, claro, nada disso adianta. Logo após a confirmação das mortes, Katja se lembra de uma possível suspeita que deixou uma bicicleta sem cadeado na frente do escritório que foi bombardeado. É feito um retrato falado, mas a polícia primeiro pensa na possível culpabilidade da vítima, Nuri.

Isso incomoda, e muito, mas é uma coisa bastante comum nos dias atuais. Não apenas a polícia, mas muitas “pessoas de bem” – odeio esse termo, devo dizer – saem julgando a vítima apenas pelos equívocos que ela cometeu antes. Como se alguém “merecesse” morrer porque foi preso antes. Assim, ao invés do inspetor-chefe Gerrit Reetz (Henning Peker) realmente ir atrás da suspeita apontada por Katja ou buscar outras fontes de informação, como câmeras de segurança – eis uma das falhas do filme, ao meu ver – para encontrar os criminosos, ele resolveu investigar a vítima.

Sim, porque por ser de origem turca e por ter sido preso durante quatro anos como traficante, Nuri deveria ter alguma “culpa no cartório”. Como Reetz diz com todas as letras para a viúva, Nuri deveria estar fazendo algo de errado e deveria ter desagradado a alguma das “máfias” existentes na Alemanha. Que beleza, não? Tudo bem a polícia trabalhar com todas as possibilidades e ter diversas linhas de investigação, mas daí a presumir a culpa da vítima apenas por causa do seu passado, me parece um bocado injusto demais.

Da sua parte, Katja acredita que algum neonazista foi o culpado pelo atentado. Apesar daquele certo apoio da família, ela não suporta a dor dilacerante de ter perdido, de uma hora para a outra, toda a felicidade que tinha com o marido e o filho. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ela não vê mais sentido em viver e, quando está quase morrendo, após cortar os pulsos na banheira, ela escuta uma mensagem do advogado Danilo que lhe acende alguma vontade de seguir em frente.

Ele comenta, na mensagem que deixou na secretária eletrônica, que Katja estava certa. Que tinham sido neonazistas os responsáveis pelo atentado. Aí entramos na segunda parte do filme, quando Akin e Bohm encaram o capítulo da justiça. Julgamentos sempre são interessantes, e esse se revela especialmente dolorido pelos detalhes que são narrados sobre o que aconteceu com as vítimas. Uma crueldade inacreditável. E os acusados, o casal Edda (Hanna Hilsdorf) e André Möller (Ulrich Brandhoff), impassíveis frente a tudo que foi dito.

Algo que me chamou muito a atenção é que o casal só foi “descoberto” por causa da denúncia do pai de André, Jürgen Möller (Ulrich Tukur). Ou seja, não foi porque a polícia fez um bom trabalho, mas porque um cidadão comum e consciente resolveu denunciar o próprio filho e nora por algo abjeto que eles fizeram. Mais um exemplo de como a busca pela justiça varia muito conforme a vítima.

Durante todo o filme eu me perguntei como teria sido o desenrolar daquela história se a vítima tivesse sido Katja. Se Nuri tivesse sobrevivido, teria feito alguma diferença? Duvido muito, porque o que estava em jogo ali, me parece, é o fato de que nem ela e nem ele eram os “cidadãos modelo”. E a polícia e a Justiça, aparentemente, não tem um tratamento igualitário para todos os cidadãos. Isso fica claro também com o fim do julgamento – e vamos convir que essa história de “falta de provas” ou de “dúvida pró réu” muitas vezes é pura babela para proteger alguns perfis de pessoas e não outras.

Passado tudo aquilo, e com a segunda violência que Katja sofria em relação à sua família – primeiro a morte deles, depois, a falta de justiça para o caso -, entramos na terceira parte da história: O Mar. Esse é a parte em que Katja busca a justiça pelas próprias mãos, viajando para a Grécia, onde se hospeda a uma certa distância do alvo do início da sua investigação, o empresário grego neonazista Nikolas Makaris (Yannis Economides).

No julgamento dos Möller, Makaris mentiu a favor deles. Katja tem certeza que os dois serão protegidos novamente por Makaris e vai atrás deles na Grécia. Lá, ela busca a justiça por sua conta. Depois de uma investida um tanto maluca no hotel de Makaris, ela tem a sorte do neonazista ser burro o suficiente para ir no esconderijo dos Möller para avisá-los sobre a presença dela na cidade. Isso era tudo que ela precisava, saber sobre a localização deles.

Aí temos a segunda “bobeira” do roteiro. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro, vemos aquela perseguição um tanto “ousada demais” da protagonista, que entra em uma estrada sinistra atrás de Makaris. Depois, e essa é a pisada na bola pior, a meu ver, ela acreditar que a forma mais interessante de matar o casal neonazista seria preparar uma bomba igual a que eles tinham feito para matar o marido e o filho dela.

Vamos lá. Falemos de vida real. Você localiza os dois canalhas que mataram a sua família. Qual seria a sua ideia de vingança? Certamente não seria preparar uma bomba caseira e levar ela em estradas de terra até o local do ataque, não é mesmo? Muito mais prática uma pistola ou até mesmo um fuzil. Tenho certeza que na Alemanha também existe um mercado ilegal de armas no qual ela poderia providenciar isso.

Muito mais difícil é ela tentar imitar uma bomba caseira só de saber os seus ingredientes e o seu “esquema”. Claro que Fatih Akin precisava dessa ideia de bomba para o seu “grand finale”. Mas vou dizer para vocês que essa “forçada de barra” me incomodou um pouquinho. Depois, achei no mínimo estranho aquela recuada dela antes do ato final. Ela desiste detonar a bomba na primeira vez. Daí eu pensei: “Ah, ela percebeu que matar eles não iria resolver nada. Que o marido dela e o filho continuariam mortos. Então o que ela vai fazer é terminar o que tinha começado na banheira”.

Pensei isso e achei que o título do terceiro capítulo, “O Mar”, tinha a ver com isso. Com a “solução final” que ela iria encontrar para aquele episódio sem solução satisfatória. Quando ela finalmente atende o telefonema do advogado, e meio que se despede dele, eu concluí que ela iria se matar. Mas aí temos o grande finale, em que tudo isso se junta – o desejo de morrer com o desejo de vingança e/ou “justiça”.

O filme é potente, e mostra que nenhuma violência ou extremismo leva a lugar algum. Apenas à morte e a mais destruição. Ninguém saiu melhor daquela história. Apenas diversas vidas foram jogadas fora e exterminadas por causa de ignorância, preconceito e um ódio reprimido que teve uma resolução desastrosa.

Quando eu penso nos títulos dos “capítulos” do filme, penso que Fatih Akin e Hark Bohm desconstruíram os três conceitos. A ideia de família, de justiça e a simbologia pacífica do mar são destruídas pelos acontecimentos que vemos em cena. Tudo que sobra no final é morte, destruição e sofrimento. Como eu disse antes, nada de bom. E tudo isso por qual razão mesmo? Porque alguns cretinos acreditam que são superiores a outras pessoas.

Infelizmente na Europa existem muitos grupos de xenófobos, preconceituosos e extremistas. Gente cretina que realmente provoca casos como o que vemos em Aus Dem Nichts. Por isso mesmo, esse filme é tão importante. Ele coloca o holofote nesta questão, e mostra com muita propriedade a dor insolúvel de quem fica – no caso, a personagem interpretada pela ótima Diane Kruger. Impossível não sentir a dor dela e se compadecer com o seu exemplo.

Antes, citei alguns pontos que me incomodaram na história. Sim, entendo as intenções de Fatih Akin. Mas ele poderia ter cuidado um pouco mais com alguns detalhes do roteiro – para que o filme não parecesse um tanto “largado” em alguns pontos. Vou citar as duas questões que mais me incomodaram. Uma das razões para Edda e André Möller terem sido absolvidos é porque não foi possível comprovar o depoimento de Katja que disse que viu Edda deixando a bicicleta na frente do escritório no bairro turco.

Gente, hoje em dia, que cidade de médio ou grande porte não está polvilhada de câmeras de segurança? E além dessas câmeras, o quanto não é frequente lojas, bancos e outros estabelecimentos terem câmeras que gravam, inclusive, parte das ruas? Então justamente na rua onde foi feito o ataque não havia uma santa câmera filmando que pudesse mostrar Edda ou alguém parecido com ela? Achei essa parte bem difícil de acreditar, mas entendo que Akin precisava disso para conseguir justificar o seu terceiro capítulo.

E aí o outro ponto que me incomodou foi a “solução criativa” que Katja deu para o seu plano de vingança. Sério mesmo que uma mãe que não tinha chegado a terminar a faculdade, que fazia uma carreira que não tinha nada a ver com eletrônica ou conhecimentos que pudessem lhe ajudar a fazer uma bomba poderia, com um bocado de facilidade, replicar uma bomba caseira como a que matou a sua família?

Para “justificar” o talento de Katja para os eletrônicos, ela foi mostrada em uma sequência do passado consertando um carrinho de controle remoto do filho. Novamente, achei exagerada a escolha de Fatih Akin para tornar o seu filme ainda mais potente. Não me parece que uma mulher com o perfil de Katja realmente faria aquilo – até porque, volto a dizer, seria muito mais fácil ela terminar com os neonazistas atirando neles, não é mesmo?

Então sim, o filme tem um belo propósito, é bem conduzido, faz o espectador se colocar no lugar da protagonista, mas ele poderia ter um roteiro um pouco mais bem cuidado. Aus Dem Nichts está entre os bons filmes dessa temporada, mas realmente eu não acho que ela era tão bom assim para ser um dos favoritos ao Oscar. Em outras palavras, não foi uma injustiça ele ficar de fora da disputa. Ainda assim, certamente ele merece ser visto.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Pessoal, estou na correria e super cansada. Então eu vou parar a crítica por aqui e publicar ela hoje apesar de não ter feito essa parte das curiosidades sobre o filme. Prometo retomar essa parte logo que possível. Mas, agora mesmo, prefiro publicar a crítica do que ficar com ela semi-pronta. Espero que me entendam. 😉

Olá pessoal! Voltei. 😉 Então, vamos falar um pouco mais sobre Aus Dem Nichts. Entre os aspectos técnicos do filme que vale destacar, me chamou a atenção a direção de fotografia de Rainer Klausmann; a edição de Andrew Bird; os figurinos de Katrin Aschendorf; o design de produção de Tamo Kunz; e a direção de arte de Seth Aschenorf.

O diretor Fatih Akin faz um bom trabalho na direção, começando por um vídeo mais “amador”, naquela sequência no presídio – se passando, então, realmente por um cinegrafista amador -, e seguindo com uma câmera muito próxima dos atores e de suas entregas. O roteiro dele e de Hark Bohm também é bom, mas não é excepcional – ele tem algumas falhas já comentadas. Esse não é o melhor filme de Akin, mas também não deixa de ser bom.

Do elenco, sem dúvida alguma a grande estrela é Diane Kruger. Ela está excepcional no papel de Katja. Realmente a entrega dela é visceral, ao ponto de não deixar ninguém incólume ou sem passar ao menos alguns minutos na sua pele. Um belo trabalho, sem dúvida. Além dela, vale destacar o bom trabalho de Denis Moschitto como o advogado Danilo Fava; de Johannes Krisch como o “odioso” advogado de defesa do casal de neonazistas; de Numan Acar como Nuri – pena que o papel dele tenha sido tão pequeno; de Henning Peker como o inspetor-chefe Gerrit Reetz; e de Rafael Santana em praticamente uma ponta – mas com desempenho muito simpático – como Rocco.

Aus Dem Nichts estreou em maio de 2017 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme participaria, ainda, de outros 29 festivais em diversos países. Nessa trajetória, o filme conquistou 10 prêmios e foi indicado a outros 14. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira; para o prêmio de Melhor Atriz para Diane Kruger no Bavarian Film Awards; para o prêmio de Melhor Atriz para Diane Kruger no Festival de Cinema de Cannes; para o prêmio de Melhor Filme no Festival de Cinema Vukovar; para os prêmios de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Atriz para Diane Kruger no Satellite Awards; e para três prêmios como Melhor Filme em Língua Estrangeira dados por associações de críticos.

Agora, uma curiosidade sobre essa produção. Como comentei antes, Aus Dem Nichts é dividido em três capítulos. Em cada uma dessas partes, o diretor de fotografia Rainer Klausmann usou um recurso diferente – justamente para diferenciar bem cada segmento. Na primeira parte do filme, ele filmou no modo “Super-16” com a intenção de obter um visual mais áspero. Na segunda parte, ele utilizou lentes anamórficas novas e filmou de uma maneira mais estática. E na terceira parte, ele utilizou lentes velhas vintage para conseguir imagens mais “suaves”. Os segmentos mais curtos de vídeos caseiros foram rodados com smartphones comuns.

De acordo com o site Box Office Mojo, Aus Dem Nichts faturou cerca de US$ 306 mil nos Estados Unidos. Uma bilheteria baixíssima e que revela o pouco interesse que o filme despertou no público daquele país.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção. Uma avaliação boa se considerarmos o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 76 críticas positivas e 28 negativas para o filme, o que garante para essa produção uma aprovação de 73% e uma nota média de 6,7. Enquanto isso, segundo o site Metacritic, Aus Dem Nichts registrou um score entre os críticos de 64 (22 avaliações positivas, 7 mescladas e 1 negativa) e um “user score” de 8,1. Ou seja, no geral, o filme foi bem avaliado.

Aus Dem Nichts é uma coprodução da Alemanha e da França. Há muito tempo, ao fazer uma consulta aqui no blog, as pessoas pediram filmes da Alemanha. Por isso, essa produção entra na lista de filmes que atendem o pedido de vocês.

CONCLUSÃO: Um filme potente, com uma atriz fantástica como protagonista e com uma história bastante atual. Infelizmente. Muitos problemas são gerados pela falta de memória história e pela falta de conhecimento, de educação e de humildade. Aus Dem Nichts nos mostra de maneira contundente os efeitos práticos de um ataque terrorista. Apesar de ser interessante e de jogar luz em questões importantes, esse filme peca por alguns detalhes de roteiro. Nada que o desmereça, mas sem dúvida ele não foi o melhor estrangeiro da temporada. Prefiro ainda o vencedor do Oscar nessa categoria, o chileno Una Mujer Fantástica (comentado aqui). Mas todos merecem ser vistos.

Categorias
Cinema Cinema europeu Cinema norte-americano Crítica de filme Filme premiado Globo de Ouro 2018 Movie Oscar 2018

Phantom Thread – Trama Fantasma

O amor é um troço complicado. Especialmente quando tratamos do amor romântico, aquele que dilacera a pessoa, faz ela cometer atos até então impensados. Aquele amor que bagunça a tua vida e que muda a tua rotina. Digo que esse amor é complicado para não dizer que ele é aquela palavra que começa com F… Sim, porque ele é bem assim.

Phantom Thread, o último filme que me faltava para completar a lista dos 9 indicados na categoria Melhor Filme do Oscar 2018, me surpreendeu em alguns pontos e me tranquilizou em outros. Paul Thomas Anderson, diretor e roteirista de quem eu tanto gosto, continua mandando bem. Fiquei feliz (e tranquila) por isso.

A HISTÓRIA: Começa com um “depoimento” de Alma (Vicky Krieps), que diz que Reynolds (Daniel Day-Lewis) transformou os sonhos dela em realidade. Em troca, ela teve que entregar para ele tudo que ele desejava. Alguém lhe pergunta o que isso seria, e ela diz que cada pedaço dela. O seu interlocutor pergunta se ele é um homem exigente, e comenta que deve ser difícil estar com ele, e Alma diz que ele é, possivelmente, o mais exigente dos homens. Em seguida, vemos a Reynolds começando mais um dia, com todo o seu preparo para que ele esteja impecável.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Phantom Thread): Eu gosto de filme que parecem uma coisa e, depois, se revelam outra. Inicialmente, Phantom Thread parece uma produção sobre um sujeito que é admirado por seu talento, dedicação extrema ao trabalho e pela arte que ele produz com a ajuda de uma equipe de mulheres talentosas.

Ou seja, inicialmente esse filme parece tratar do estilista Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) e de sua arte com o design e os detalhes de cada vestido incrível que ele cria para as mulheres endinheiradas da Europa. Mas aos poucos vamos vendo que essa produção trata, em realidade, de outro tema. (SPOILER – não leia se você não assistiu a essa produção). Phantom Thread fala do encantamento, da paixão, do amor e de como tudo isso pode ser usado para a criação, para a dedicação de uma pessoa pela outra (ou por algo) ou para a destruição.

Gostei, nessa produção, especialmente, do roteiro do diretor Paul Thomas Anderson. Ele acertou tanto na apresentação dos personagens principais, adentrando na vida, em especial, do protagonista, quanto acertou em cheio na construção de alguns diálogos muito marcantes. Percebe-se que ele cuidou de cada linha da história, sem descuidar de nenhum detalhe. E o efeito disso tudo é que o seu filme é potente e, ao mesmo tempo, sutil. Curioso, não?

Não são muitos os filmes que tratam com o devido respeito e talento personagens com personalidade forte. Aqui, temos de maneira evidente, desde o princípio, o “sol” da personalidade de Reynolds Woodcock, um sujeito realmente exigente, talentoso e que não consegue mostrar fragilidade em momento algum, exceto quando está sobrecarregado pelo trabalho. Algumas vezes, todo esse nível de exigência, faz com que ele seja cruel com as pessoas – especialmente com as mulheres que, para ele, são um bocado “descartáveis”.

Mas, um belo dia, quando ele sai de Londres para “espairecer” um pouco pelo interior, ele se encontra com um mulher de sorriso fácil e encantadora, a jovem Alma. Ela vira o novo objeto de desejo dele, e o encantamento entre os dois fica evidente logo na primeira troca de olhares. O que descobrimos em Phantom Thread, e aos poucos, como deve ser, é que Reynolds encontrou em Alma uma mulher tão forte, determinada e apaixonada quanto ele. Só que de outra forma.

Eu já esperava por um belo trabalho do grande Daniel Day-Lewis, um dos meus atores preferidos. Mas, quem diria, ele tem uma atriz tão boa quanto ele com quem contracenar nessa produção. Até assistir a Phantom Thread, Vicky Krieps era uma desconhecida para mim. Mas que bela atriz, meus bons amigos e amigas do blog! Ela é encantadora, charmosa, carismática, perigosa e forte na medida certa.

Então, no fim das contas, Phantom Thread trata de tudo que eu comentei antes, mas, especialmente, sobre os ganhos, perdas e o preço alto que o amor romântico e extremo pode cobrar das pessoas. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Alma realmente ama Reynolds, e ele gosta dela. Mas para conseguir manter a relação entre os dois, Alma descobre que precisa fragilizar o ser amado quando ele não está preparado para isso – e quase até o ponto dele morrer. No fundo, ela se revela mais forte do que ele, porque ela pode viver sem Reynolds.

Esse é um ponto interessante do filme. Ambos podem viver um em o outro, mas eles decidem não fazer isso. Ela, porque está obstinada por ser a pessoa mais poderosa da relação. Ele, porque fica fascinado pelo ponto extremo em que ela chega por causa dele. Esse amor extremo que eles cultivam chega a ser doentio, além de perigoso. Mas quem somos nós, público que gosta de uma boa história, para julgá-los?

O título é algo interessante, também. Inicialmente, quando pensamos na palavra “trama”, em português, ela nos remete à ideia de “enredo”, de “história”. Mas, no caso desse filme, acho que a história tem mais a ver com a trama de tecidos, com a trama de fios que acaba sendo a base de um vestido ou de uma peça qualquer que nos veste e que ajuda a nos definir e/ou identificar os nossos gostos e escolhas para o mundo.

E o que seria o “fantasma” do título? Para mim, esse “fantasma” tem a ver com a presença da mãe na vida de Reynolds. Essa presença é marcante, não apenas quando ele se lembra e fala dela, mas, principalmente, quando o protagonista não nota que ela esteja presente. E a mãe está presente em todo o momento. Inclusive porque ele a idealiza, a coloca em um pedestal, e a torna insubstituível – por isso mesmo a sua dificuldade de aceitar qualquer mulher em sua vida por longo tempo.

Até conhecer Alma, Reynolds se considera um “solteiro convicto”. Há um diálogo precioso entre ele e Alma, quando ele fala sobre isso e sobre como “as expectativas e as suposições” sobre o outro trazem mágoas. Que frase, meus amigos! E essa é uma entre várias marcantes. Ele está certíssimo. Nos defendemos e nos isolamos justamente porque não queremos sofrer, e o sofrimento muitas vezes acontece por expectativas não atendidas e por suposições sobre o que os outros são ou fazem equivocadas.

Isso acontece com praticamente todo mundo. Em maior ou menor grau, a mãe e/ou o pai de uma pessoa marcam presença na vida dessa pessoa para sempre. Ela notando ou não. Esse “fantasma” pode ser uma presença suave, compreensiva, que apenas nos deixa menos “solitários”, ou pode ser uma presença tão grande, marcante e “pesada” que tira o espaço de outras pessoas que estão vivas e ao nosso redor. Para mim, esse é um dos pontos que essa produção trata de forma muito sutil.

Assim, essa produção trata de amor e trata também do que nos define, do que forma o nosso caráter e de elementos que ajudam a explicar o porquê de fazermos o que fazemos. É um filme bastante humanista, no final de contas. E muito belo também. Paul Thomas Anderson selecionou a sua equipe à dedo e conseguiu nos apresentar uma obra detalhista, atenciosa em cada detalhe, capaz de nos fascinar pelo visual e pelas palavras também selecionadas à dedo.

Enfim, um filme muito interessante e que nos surpreende positivamente por não ser pretensioso ou arrogante. Na verdade, Phantom Thread pode parecer mais simples do que é, para quem não estiver atento a cada detalhe. Mas ele é cheio de sutilezas e de pequenos detalhes, como os vestidos que Reynolds cria. Um filme provocante, atraente, e que faz pensar. Bem acima da média, pois, e merecedor de ter chegado ao Oscar 2018 com seis indicações, incluindo a de Melhor Filme.

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Uma obra de cinema pode ser chamada dessa forma quando percebemos que cada detalhe da produção foi cuidado com esmero. E isso acontece com esse Phantom Thread. Todos os elementos dessa produção são perfeitos. Nenhum precisa de ajustes. Isso começa com a trilha sonora marcante e inspirada de Johny Greenwood, segue com as linhas do roteiro minuciosamente escritas por Paul Thomas Anderson, segue com o trabalho dedicado e inspirador dos atores e segue até os figurinos maravilhosos de Mark Bridges.

Isso apenas para falar dos elementos mais marcantes dessa produção. Mas todos os detalhes estão perfeitos e ajudam a contar essa história. Entre os aspectos técnicos, sem dúvida alguma os figurinos e a trilha sonora se destacam. Mas é possível destacar também a direção de fotografia maravilhosa de Paul Thomas Anderson; a edição de Dylan Tichenor; o design de produção de Mark Tildesley; a direção de arte de Chris Peters, Denis Schnegg e Adam Squires; a decoração de set de Véronique Melery; e a maquiagem feita por 19 profissionais competentes.

Entre outros elementos, Phantom Thread nos faz pensar sobre as nossas próprias manias, hábitos, e sobre o quanto estamos ou não abertos a abrir mão deles ou ceder para que outras pessoas façam parte da nossa vida. É especialmente interessante, por exemplo, como o protagonista tem hábitos bastante “marcados”. Como o café da manhã, que se não for silencioso e pacífico, pode “acabar” com todo o seu dia. Alma acaba se adaptando à rotina dele, mas ela também acaba alterando essa rotina aqui e ali, de forma sutil. E é isso, essa presença marcante de Alma, que não está ali para agradá-lo apenas, mas também para confrontá-lo, que acaba fascinando Reynolds.

Não sei vocês, mas acredito que isso seja verdadeiro em diversos aspectos da nossa vida. As pessoas mais marcantes não são aquelas que nos agradam, que estão tentando nos fazer “felizes” o tempo todo, mas aquela que nos fazem crescer, que nos questionam, que nos “confrontam”, mas que mostram que tem opinião e que tem talentos próprios. Pessoas que não são capazes de viver sob a sombra de ninguém, porque tem luz própria. Essas são as mais interessantes, não há dúvidas.

E o que dizer dos atores? Paul Thomas Anderson fez a escolha certa ao dar destaque, essencialmente, para o trabalho de três atores. Todos esperavam um belo trabalho de Daniel Day-Lewis. Ele realmente faz mais um trabalho primoroso, detalhista e marcante. Como lhe é típico. Mas outros dois nomes, de mulheres, acabam se destacando na produção: Vicky Krieps como Alma e Lesley Manville como Cyril, irmã do protagonista. Interessante como elas, de forma sutil algumas vezes, outras vezes de forma bastante explícita, marcam presença e fazem duetos entre si. Esse trio de atores vale cada minuto em que eles aparecem em cena.

Além dos protagonistas e de Lesley Manville, Phantom Thread tem apenas alguns personagens coadjuvantes que ganham um certo destaque. Nesse sentido, vale comentar o trabalho de Camilla Rutherford como Johanna, a mulher que está com Reynolds no início da produção – mas que logo será despachada por Cyril a pedido de Reynolds; Gina McKee como Henrietta Harding, uma das clientes fiéis de Reynolds; Brian Gleeson como o Dr. Robert Hardy, que tenta atender Reynolds e que “entrevista” Alma naquela sequência inicial da produção; Lujza Richter como a Princesa Mona Braganza; Emma Clandon como a mãe de Reynolds e Harriet Sansom Harris como Barbara Rose, a socialite um tanto sem limites que “não merecia” ficar com um vestido de Reynolds.

Phantom Thread estreou em première em Beverly Hills no dia 24 de novembro de 2017. Depois, o filme fez uma trajetória em que passou por cinco festivais de cinema. Até o momento, ele ganhou 45 prêmios e foi indicado a outros 93 – incluindo a indicação em seis categorias do Oscar, sendo que o filme saiu vencedor de uma delas.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Oscar de Melhor Figurino; para o BAFTA de Melhor Figurino; para outros oito prêmios de Melhor Figurino; para sete prêmios de Melhor Diretor para Paul Thomas Anderson; para 12 prêmios de Melhor Trilha Sonora; para dois prêmios de Melhor Filme; para um prêmio de Melhor Atriz para Vicky Krieps; para dois prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Lesley Manville; para três prêmios de Melhor Roteiro Original e para quatro prêmios de Melhor Ator para Daniel Day-Lewis.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. O diretor Paul Thomas Anderson teve a ideia de fazer esse roteiro em um dia em que estava doente e de cama por causa disso. A esposa dele, Maya Rudolph, estava cuidando do diretor quando ele percebeu que ela lhe lançou um olhar tão cheio de ternura e de amor como há muito tempo ele não notava. Daí surgiu a ideia de Phantom Thread. Interessante.

Paul Thomas Anderson disse que a linha preferida dele do roteiro é aquela dita por Daniel Day-Lewis: “O chá está saindo, mas a interrupção permanecerá aqui comigo”. Hahahaha. Realmente a linha é ótima. E arrancou algumas risadas da plateia no cinema em que eu fui conferir essa produção.

Para se preparar para o filme, Daniel Day-Lewis assistiu a gravações de desfiles de moda dos anos 1940 e 1950, estudou designers famosos, consultou com um curador de moda e de têxteis no Museu Victoria e Albert em Londres e aprendeu sobre Marc Happel, chefe do Departamento de Vestuário do New York City Ballet. O ator também aprendeu a costurar e tentou costurar um vestido de bainha “Balenciaga” para a esposa Rebecca Miller. Não por acaso esse ator é tão bom em seu ofício. Ele realmente mergulha no personagem, vive por ele, e isso se nota na telona.

A atriz Vicky Krieps não se encontrou com o ator Daniel Day-Lewis até o primeiro dia de filmagens. Ela também foi orientada a sempre referir-se a ele como Reynolds, durante as filmagens, para que ela nunca perdesse da mente o personagem. Curioso que mesmo na fase de divulgação do filme, muitas vezes a atriz se referiu a Day-Lewis como Reynolds.

O ator Daniel Day-Lewis disse que Phantom Thread é o seu último filme. No dia 20 de junho de 2017 ele anunciou a sua aposentadoria. O cinema perde um grande ator, sem dúvidas.

A história do designer de moda espanhol Cristóbal Balenciaga, incluindo a sua dedicação ao trabalho e a sua vida um tanto “monástica” inspirou o diretor e roteirista Paul Thomas Anderson na construção do protagonista desta história.

As filmagens de Phantom Thread terminaram no dia 26 de abril de 2017, mesmo dia em que o amigo e mentor de Paul Thomas Anderson, o diretor Jonathan Demme, faleceu de câncer. Phantom Thread é dedicado para Demme. Outro grande diretor, diga-se de passagem.

De acordo com as notas de produção, o roteiro de Paul Thomas Anderson teve uma grande participação do ator Daniel Day-Lewis. Tanto que o diretor disse que, provavelmente, o mais correto é que o ator tivesse recebido algum crédito por isso.

O diretor italiano Luca Guadagnino, de Call Me By Your Name (com crítica nesse link), considerou Phantom Thread o melhor filme de 2017. Enquanto isso, Paul Thomas Anderson disse, no Reddit, que o seu filme favorito no ano foi Call Me By Your Name. Sim, os dois filmes estão acima da média e estão entre as boas pedidas do ano, mas eu tive outros que me chamaram mais a atenção em 2017. Ainda assim, considero que ambos mereceram chegar bem no Oscar, por exemplo.

Seguindo uma tradição que Paul Thomas Anderson lançou e seguiu nos seus três filmes anteriores, os materiais publicitários de Phantom Thread apresentam cenas que não vemos na versão final da produção. Achei essa ideia ótima, afinal, muitas vezes os trailers estragam a nossa experiência dos filmes aos nos apresentarem cenas que não deveríamos ver fora de contexto.

Phantom Thread não cita nenhuma data, mas há algumas indicações na história que apontam que ela teria ocorrido entre maio de 1953, quando um cliente compra um vestido de gala para uma Coroação e outubro de 1954, data de uma revista UK Vogue que aparece na reta final da produção. Interessante pensar que essa história se passa nos anos 1950, especialmente pelo que acontece com os atores – e pela força da personagem feminina Alma.

Algumas sequências desse filme foram rodadas nas aldeias de Lythe e de Staithes, que estão próximas de Whitby, na costa leste da Inglaterra.

Esse filme é uma coprodução do Reino Unido com os Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 246 críticas positivas e 23 negativas para esta produção, o que garante para Phantom Thread uma aprovação de 91% e uma nota média de 8,5. Especialmente as notas dos dois sites chamam a atenção – elas estão bem acima da média.

De acordo com o site Box Office Mojo, Phantom Thread fez pouco mais de US$ 20,7 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos e cerca de US$ 20,7 milhões nas bilheterias dos outros países em que estreou até 11 de março. No total, portanto, essa produção acumula pouco mais de US$ 41,4 milhões. Um dos melhores resultados já obtidos por um filme de Paul Thomas Anderson. Fico feliz pelo diretor. E também porque o filme merece ser visto.

CONCLUSÃO: Um filme sobre um tipo de amor sobre o qual parte da Humanidade nunca vai vivenciar. Ou conhecer. Ou mesmo “roçar”. Phantom Thread trata de um desses amores descabidos, que começam com uma grande admiração, flerte, e que avançam para um desejo que não tem muitas barreiras. Um filme bem narrado, com uma condução bem cadenciada, ótimas interpretações e, principalmente, alguns diálogos preciosos.

Fico feliz em ver que o diretor Paul Thomas Anderson continua centrado, escrevendo bem, e nos lançando algumas ideias interessantes. A provocação dele é sempre bem-vinda. Um belo filme. Um dos mais contundentes sobre a “loucura” do amor que tivemos a possibilidade de ver nos últimos tempos.

Categorias
Oscar 2018

E o Oscar 2018 foi para… (cobertura online e todos os premiados)

Olá amigos e amigas do blog!

O tempo passou veloz, mais uma vez, e estamos aqui juntos para mais uma cobertura da premiação máxima da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. O querido Oscar chega aos seus 90 anos. A safra desse ano é interessante, apesar de algumas produções bacanas terem ficado de fora de algumas categorias importantes.

Mas quem acompanha ao Oscar há algum tempo, sabe que é assim mesmo. Os votantes da Academia muitas vezes acertam, outra vezes, nem tanto. Por isso alguns dizem que o Oscar tem as suas injustiças e promove as suas consagrações. É uma forma de encarar o que vemos no Oscar. Eu já prefiro pensar que em cada ano temos uma “onda” e uma “bola da vez” da indústria do cinema dos Estados Unidos.

E que nós, que fazemos parte do público, estamos alheios a tudo isso. E que acabamos fazendo as nossas escolhas com base apenas nos nossos gostos, experiências dentro e fora do cinema, independente do lobby e dos “bastidores” da indústria – que, no final de contas, é o que define os premiados, e não o gosto popular.

Dito isso, o que podemos esperar do Oscar 2018? Eu acredito que teremos uma noite muito interessante, com discursos fortes e com alguns “dedos na ferida”. Especialmente porque Hollywood vive um momento interessante, em que se discute mais respeito entre os profissionais que fazem parte da indústria e em que, mais uma vez, se discute uma maior igualdade – seja de gênero, seja racial.

Assim, Hollywood, mais uma vez, mostra-se “vulnerável” em relação às discussões sociais que correm fora de seus muros e estúdios. O que é muito positivo. Como Hollywood também dita tendências, nada melhor do que debater assuntos importantes e, quem sabe, influenciar positivamente algumas mudanças na sociedade, não é mesmo? Como a imprensa e a TV tem as suas responsabilidades com a sociedade, o cinema também.

Mas o que esperar, mais especificamente, sobre a entrega das estatuetas douradas? Acredito que teremos uma edição 90º do Oscar com entregas pulverizadas. Por baixo, acredito que 12 filmes e três curtas serão premiados. Mas quem se consagrará mais? Tudo indica que Dunkirk receberá a maioria dos prêmios técnicos e que Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, tem grandes chances de ganhar uma boa quantidade dos Oscar’s principais – incluindo Melhor Filme, Melhor Atriz, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Roteiro Original.

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, pode perder o Oscar de Melhor Filme para Dunkirk ou The Shape of Water; e pode perder o Oscar de Melhor Roteiro Original para Get Out. A verdade é que não temos um filme inquestionável este ano para dominar a premiação. Há vários filmes muito bons na disputa, por isso não seria injusto que muitos saíssem ganhando alguma estatueta.

Por outro lado, acho que algumas indicações foram exageradas. Da minha parte, eu não teria indicado Lady Bird, Darkest Hour ou The Post para Melhor Filme. Por outro lado, acho que mereciam ter sido indicados nessa categoria filmes como I, Tonya e The Florida Project, produções muito mais marcantes e “potentes” do que esses outros filmes que acabaram sendo indicados.

Estou acompanhando o tapete vermelho desde pouco antes das 20h. Até o momento, nada de muito relevante para destacar. Apenas uma presença feminina expressiva, e com as mulheres marcando posição sobre os abusos sexuais e o sexismo que ainda distribui muitas cartas em Hollywood. Mas diferente do Golden Globes, as pessoas estão variando os seus modelitos no Oscar, colocando cores variadas no tapete vermelho – ou seja, não está predominando o preto, como ocorreu no Golden Globes, quando astros e estrelas usaram essa cor para marcar posição em relação aos abusos.

Algo que posso comentar, sobre o tapete vermelho, é que todos os astros e estrelas que gostamos de ver, estão marcando presença na entrega da premiação desse ano. Das entrevistas que ouvi até agora, as 20h45, a que eu destacaria seria a de Christopher Plummer, que elogiou muito o trabalho de Ridley Scott, a forma com que o diretor consegue imaginar um filme complexo com muitos detalhes e como ele valoriza o trabalho dos atores. Plummer é uma das melhores qualidades do mediano All the Money in the World.

Vale lembrar que o apresentador do Oscar, mais uma vez, será Jimmy Kimmel. Devo dizer que a experiência com ele no ano passado foi um tanto desastrosa. Achei ele sem graça, um tanto forçado. Vejamos o que ele tira da cartola essa noite. O que esperamos é que ele não faça nenhuma grande besteira, que a premiação tenha um ritmo melhor cadenciado e que, claro, ninguém troque o envelope de Melhor Filme mais uma vez. 😉

Entrevistada no tapete vermelho, a atriz Helen Mirren falou do “furacão” que está varrendo Hollywood e a indústria do cinema nos últimos meses. Ela disse que acompanha mudanças progressivas, mas lentas, há 10 anos. Disse também que essas mudanças maiores que estão acontecendo agora poderiam ter vindo antes. Sem dúvida. Mas aí é aquela história: antes “tarde do que mais tarde”, não é mesmo?

O ator Bradley Whitford, de Get Out – um dos belos filmes de 2017 e que está concorrendo em quatro categorias -, comenta que existe ainda muito preconceito nos Estados Unidos e que o filme trata sobre como as pessoas se sentem no meio de outras pessoas que lhe são “estranhas”, e que isso vai de forma mais profunda do que apenas a questão racial. Verdade. O filme trata muito bem sobre isso, mas também é sim um filme potente sobre como os negros continuam sendo explorados – nos Estados Unidos e em várias outras latitudes – em pleno século 21.

Falando em desigualdade e afins, no Oscar desse ano eu espero que alguns latinos se saiam bem. O mexicano Guillermo del Toro é o favorito na categoria Melhor Diretor, e o chileno Una Mujer Fantástica tem grandes chances de ganhar como Melhor Filme em Língua Estrangeira. Eu torço pelos dois. Ambos merecem, e muito. Del Toro, nem tanto por The Shape of Water, mas por sua filmografia até aqui. Entre os cinco estrangeiros indicados, sem dúvidas o meu favorito é Una Mujer Fantástica.

A cerimônia do Oscar começa as 22h. Vamos ver como a premiação vai começar. Qual será o nível de besteirol de Jimmy Kimmel. Alexandre Desplat, que é um gigante das trilhas sonoras, comentou no tapete vermelho que já teve uma banda que tocava bossa nova. Ou seja, ele ama a música brasileira. Francês querido, além de muito, muito talentoso. Ele é o favorito para ganhar o Oscar dessa noite de Melhor Trilha Sonora.

E a premiação começou lembrando que o Oscar 2018 celebra os 90 anos da premiação. Como eles fizeram isso? Com uma narrativa imitando uma rádio antiga e as cenas todas em preto e branco. Uma bela sacada, devemos dizer. Jimmy Kimmel foi bem no começo no estilo “histórico”. O início da apresentação foi bem formal, até que ele tirou sarro do erro do Oscar de 2017. Sugeriu que ninguém se levante logo quando tiver o nome citado… 😉

Depois, explicou como a Academia trabalhou para evitar que um incidente como aquele de trocarem o vencedor do Melhor Filme aconteça novamente. Kimmel mandou bem ao tirar “sarro” da estatueta do Oscar, dizendo que ele é um bom exemplo por ter as mãos unidas em um local em que todos podem ver, por não falar nada grosseiro e por não ter um pênis, claro. Em seguida, ele falou da expulsão de Harvey Weinstein e da importância de Hollywood não deixar mais abusos “passarem” e acontecerem.

Sim, o Oscar não tratou com leveza o tema. A Academia resolveu falar abertamente sobre isso e também sobre pessoas que estão fazendo história na premiação desse ano, como Rachel Morrison, a primeira mulher da história a ser indicada na categoria Melhor Fotografia; e para Greta Gerwig, a primeira mulher a ser indicada como Melhor Diretora em muitos anos.

Entre os destaques citados por Kimmel, ele destacou as primeiras indicações de Margot Robbie e de Timothée Chalamet nas categorias principais de atuação – e tirou sarro que Chalamet estava perdendo os desenhos dele por estar na premiação. Sim, ele foi bem nas piadas. Melhorou em relação ao ano passado. Destacou também a 21ª indicação dela no Oscar, mas sem ser grosseiro.

Kimmel brincou que as pessoas terão toda a liberdade de fazer os seus discursos no Oscar 2018, mas que quem fizer o discurso mais curto, levará um jet ski. Hahahahaha. Muito bom!

E como manda o figurino e a tradição do Oscar, a primeira categoria entregue da noite foi Melhor Ator Coadjuvante. Em uma noite de celebração da história da premiação, um vídeo relembrou vários dos ganhadores e seus desempenhos brilhantes. O favoritíssimo desse ano é Sam Rockwell, de Three Billboards Outside Ebbing, Missouri. E o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante foi para… Sam Rockwell.

No seu discurso, Rockwell agradeceu os seus colegas de elenco e os pais, por terem lhe passado tanto amor pelo cinema. Um querido, ainda mais porque terminou falando do seu love.

Na volta do intervalo, Kimmel brincou com os discursos longos. Disse que eles não vão subir a música para quem fizer um discurso muito longo, mas que o ator Lakeith Stanfield, de Get Out, vai entrar em cena gritando Get Out. Hahahahaha. Vamos combinar que as piadas estão melhores!

Em seguida, Armie Hammer e Gal Gadot apresentaram o Oscar de Melhor Maquiagem e Cabelo. E o Oscar foi para… Darkest Hour. Mais uma bola cantada e um favorito que levou o seu prêmio na noite. Realmente excelente o trabalho feito no filme nesse quesito. Uma das partes mais bacanas da noite veio na sequência, com a homenagem que fizeram para Eva Marie Saint, atriz com 94 anos de idade que apresentou os indicados em Melhor Figurino. E o Oscar foi para… Phantom Thread.

Achei fofo que Eva Marie Saint comentou que tem um pouco mais de anos que a Academia e que ela se sentia feliz de receber todo o carinho da plateia – ela foi aplaudida de pé – porque ela sentia muito a falta do marido, que morreu em 2017 após eles ficarem casados mais de 60 anos. Phantom Thread é outro favorito que ganha o seu Oscar. Os figurinos do filme são realmente incríveis. Seria injusto outro resultado. Até agora, o Oscar sendo bastante justo – e a cerimônia de entrega também bastante acertada. No tom certo.

Depois de mais um intervalo, Laura Dern e Greta Gerwig subiram ao palco para apresentar a categoria Melhor Documentário. O favorito é Faces Places, filme de Agnès Varda e JR. Veremos se teremos mais uma confirmação de um favorito recebendo o prêmio. E o Oscar foi para… Icarus. Eita! O filme que eu queria tanto assistir e não deu tempo… Agora, não terei mais jeito. Preciso ver. Ele trata do dopping no esporte, um tema tão importante e muito atual. Não dá para dizer que é uma zebra, porque o filme estava bem cotado também. Primeiro Oscar da Netflix nesse ano. 😉

“A importância de contar a verdade, hoje mais do que nunca”, disse Bryan Fogel, diretor de Icarus. Está coberto de razão. E não apenas pelo lado podre e de abusos do esporte, mas em toda as esferas. Precisamos falar disso. Em seguida, Mary J. Blige, primeira pessoa indicada por Melhor Canção e Melhor Atriz Coadjuvante em um mesmo ano, subiu ao palco para apresentar a música de Mudbound, “Mighty River”. Apresentação eletrizante, e com Blige dando um show particular. Linda música, muito bem apresentada e com uma encenação de palco também incrível.

Até o momento, o Oscar está dando um show. Muito melhor que em anos recentes. Bacana. Para os fãs do cinema, chega a ser um alívio. 😉 Dos filmes premiados até agora, eu só não assisti a Icarus. Acabei optando pelo favorito das bolsas de apostas e não cheguei a ter tempo de ver ao segundo colocado da lista… mas logo verei. Phantom Thread, apesar de ainda não ter rendido uma crítica por aqui, eu já assisti. Ele será o próximo a ser comentado.

Na volta de mais um intervalo, um novo vídeo sobre o encantamento do cinema, com várias cenas de produções fantásticas que fazem parte dessa arte centenária e que faz parte da nossa vida. “O cinema é uma máquina de empatia”, disse alguém no meio da sequência de cenas. Alguém tem uma definição melhor? Junto com essa, apenas que o cinema é arte pura. E que trata sempre sobre nós, nossos sonhos e vidas. Uma “máquina de empatia”, sem dúvidas. E o vídeo ainda deixou a mensagem da esperança. Importante nunca esquecermos dela.

Após o belo vídeo, que terminou com um agradecimento da Academia para o público que ajudou a fazer o cinema nessas últimas nove décadas, foram apresentados os indicados na categoria Melhor Edição de Som. E o Oscar foi para… Dunkirk. Favoritíssimo nessa categoria. E na próxima também, de Melhor Mixagem de Som. E o Oscar de Melhor Mixagem de Som foi para… Dunkirk. Essas duas premiações para Dunkirk eram bastante esperadas. O filme deve ganhar em mais alguma categoria técnica nessa noite, como Melhor Edição.

Depois de mais um intervalo, a Academia mostrou um resumo dos premiados na celebração que ocorre em paralelo, nas categorias técnicas. Em seguida, foram anunciados os indicados em Melhor Design de Produção. E o Oscar foi para… The Shape of Water. Outro favorito que saiu premiado. Esse deve ser o primeiro de alguns prêmios para o filme na noite.

Em seguida, Gael García Bernal apresentou outra música que está concorrendo na categoria Canção Original. Ele cantou “Remember Me”, do filme Coco. Na verdade, introduziu a canção, que foi apresentada realmente por Miguel e por Natalia Lafourcade. México mandando o seu recado.

Mais um intervalo, e na volta, Kimmel brinca com mais um prêmio para quem fizer o discurso mais curto – uma viagem para um lago onde o ganhador poderá usar o seu jet ski. Ok. 😉 Após uma apresentação de West Side Story, aparece no palco Rita Moreno. Ela fala da linguagem universal do cinema e apresenta os indicados na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. A minha torcida vai para o chileno Una Mujer Fantástica. E o Oscar foi para… Una Mujer Fantástica. Oh yeah! Super merecido.

O diretor Sebastián Lelio foi lindo em seu discurso, especialmente por homenagear o elenco, dando destaque para Francisco Reyes e, principalmente, para Daniela Vega, que foi a inspiração para o filme. Em seguida, mais um vídeo cheio de mulheres poderosas em trabalhos marcantes do cinema. Que Oscar memorável, só por recordar de tantos momentos bacanas. Uma verdadeira viagem no tempo. Ah, o cinema…

Após o vídeo, Mahershala Ali apresenta as indicadas na categoria Melhor Atriz Coadjuvante. A minha favorita é Allison Janney, do ótimo I, Tonya. Veremos se ela leva. E o Oscar foi para… Allison Janney. Oba! Ela começou o discurso brincando ao dizer “Eu fiz tudo sozinha”. Arrancou risadas da plateia. Em seguida, ela agradeceu a toda a família de I, Tonya. Se vocês não assistiram ao filme ainda, assistam. Um dos melhores dessa temporada.

Depois do intervalo, uma apresentação feita por parte do elenco de Star Wars: The Last Jedi. Eles apresentaram os indicados na categoria Melhor Curta Animação. E o Oscar foi para… Dear Basketball. E eu estou devendo essa categoria para vocês, eu sei. Não consegui ver e comentar os curtas indicados desse ano, mas quem sabe eu ainda faça isso? Mesmo atrasada… me desculpem, mas a correria tem sido grande.

Realmente a Academia está cumprindo a sua promessa esse ano. Não estão subindo a música para apressar as pessoas. Deixaram Glen Keane, diretor de Dear Basketball, e Kobe Bryant, falarem em paz até o final. Muito bem! Em seguida, os indicados em Melhor Animação. O favoritíssimo é Coco. E o Oscar foi para… Coco. Bola cantadíssima. Em seu discurso, o diretor Lee Unkrich homenageou, claro, o México, afirmando que os Estados Unidos não seriam o país que eles são sem os mexicanos. Bacana. Coco é outro filme que ainda preciso assistir.

E uma das maiores provas que a Academia está avançando e acompanhando a sociedade, em seguida subiu ao palco a atriz transgênero Daniela Vega para apresentar outra música que está concorrendo na categoria Melhor Canção: “Mystery of Love”, de Call Me By Your Name, apresentado pelo compositor e cantor Sufjan Stevens.

Depois de mais um intervalo – sim, eles amam os comerciais 😉 – apresentaram os indicados a Melhores Efeitos Visuais. E o Oscar foi para… Blade Runner 2049. Opa! Essa foi um pouco uma surpresa. Fiquei feliz que Blade Runner 2049 ganhou, porque o filme merecia ao menos um Oscarzinho. Não badalaram muito a produção, mas a verdade é que é um filme interessante. Vale conferir.

Em seguida, o ator Matthew McConaughey subiu ao palco para apresentar os indicados na categoria Melhor Edição. E o Oscar foi para… Dunkirk. Previsível também. A expectativa era que esse filme ganhasse todas as categorias técnicas na qual estava concorrendo. Até agora, sem surpresa sobre isso. E ele ainda tem chances de levar Melhor Filme. Mas, para isso, terá que derrubar o favorito Three Billboards Outside Ebbing, Missouri.

Kimmel volta a cena para fazer uma boa piada sobre a categoria Melhor Edição. Ele disse que antes deles entrarem na sala escura de edição, Dunkirk era uma comédia romântica com Reese Whiterspoon. Hahahahaha. Ele realmente melhorou em relação ao ano passado. 😉 Na sequência, ele mostrou a plateia em um cinema que disse estar ao lado do Dolby Theatre e convidou uma comitiva de atores, atrizes e o diretor Guillermo del Toro para ir lá agradecer eles por “fazer o cinema”.

Na volta, Kimmel e Gal Gadot entram no cinema com alguns doces e falam que eles estão ao vivo no Oscar. Então a plateia da premiação e a do cinema acabam se vendo no telão. Kimmel brinca que há um grande cheiro de maconha no ar, e os outros astros entram em cena trazendo cachorros-quentes e mais doces. A brincadeira foi ótima. O povo do cinema realmente chocado.

Em seguida, foram apresentados os indicados a Melhor Curta Documentário. E o Oscar foi para… Heaven Is a Traffic Jam on the 405. Um resumo sobre esse curta vocês encontram nesse blog post em que falei sobre os indicados nessa categoria. Realmente parece interessante o curta. Em seguida, vieram os indicados da categoria Melhor Curta. E o Oscar foi para… The Silent Child. Eis outra categoria sobre a qual eu gostaria de ter feito um blog post. Quem sabe eu ainda não faça?

Achei muito legal que a roteirista Rachel Shenton fez o seu agradecimento na linguagem de sinais. Ela disse que prometeu isso para a atriz de seis anos que contracena com ela. O diretor Chris Overton agradeceu aos pais, que venderam cupcakes para que eles conseguissem terminar o filme. Essa é a vida real, minha gente. Muita gente lutando muito, muito mesmo para fazer cinema. Fiquei com ainda mais vontade de assistir a esse curta.

Na sequência, ouvimos a mais uma música indicada na categoria Melhor Canção. Dessa vez foi a vez de Common e Diane Warren arrasarem com “Strand Up for Something”. Canção eletrizante e muito bem interpretada e apresentada na premiação. Não por acaso a plateia ficou de pé. Bacana.

No retorno de mais um intervalo, Ashley Judd, Natalia Lafourcade e Salma Hayek subiram ao palco para falar sobre o movimento de igualdade que tomou conta de Hollywood. Então vários atores, atrizes e realizadores falaram sobre esse tema e sobre a importância de diversos filmes que estão rediscutindo o papel das pessoas originais no cinema. Sim, esse Oscar veio para marcar posição. E não teria como ser diferente, não é mesmo? Chegou a hora. Cinema não é só entretenimento. Quem acompanha esse blog sabe bem disso. 😉

Em seguida, os indicados na categoria Melhor Roteiro Adaptado. A minha torcida é por Call Me By Your Name. Essa é também a melhor chance desse filme. E o Oscar foi para… Call Me By Your Name. Aeeeehhhh!! Muito bom. Tenho certeza que os leitores do blog ficaram felizes com isso. E eu também. Realmente essa produção merecia.

O veteraníssimo James Ivory subiu no palco ajudado por uma bengala e agradeceu primeiro ao escritor André Aciman, afirmando que ele escreveu uma história sobre o primeiro amor, que muitas pessoas chegaram a vivenciar. Em seguida, agradeceu ao diretor Luca Guadagnino e ao elenco do filme. Que legal que o Ivory foi premiado. Há tempos ele merecia, mas esse foi o seu primeiro Oscar. Antes tarde do que mais tarde, pois.

Na sequência, a atriz Nicole Kidman apresenta os indicados na categoria Melhor Roteiro Original. Minha torcida fica entre Get Out e Three Billboards Outside Ebbing, Missouri. E o Oscar foi para… Get Out. Muito bem! Que bom que Get Out não vai sair de mãos vazias do Oscar. Ele não merecia. Um dos filmes mais originais dessa temporada. Nada mais justo do que o diretor e roteirista Jordan Peele ganhar essa estatueta dourada.

No retorno do intervalo, houve uma homenagem aos filmes que tratam sobre as batalhas que já foram travadas mundo afora em busca de um “mundo melhor”. Essa seria uma deixa para o Oscar 2018 premiar Dunkirk na categoria principal? Eu não me admiraria… Essa homenagem aos “homens e mulheres” que lutam nas Forças Armadas me pareceu um pouco deslocada do restante da premiação, mas beleza. Os Estados Unidos realmente adoram esse tema.

Na sequência, Sandra Bullock apresentou os indicados na categoria Melhor Fotografia. Disputa das boas, nesse ano. E o Oscar foi para… Blade Runner 2049. Opa, que legal! O grande Roger Deakins ganhou o seu primeiro Oscar depois de 14 indicações. Ele é responsável pela fotografia de grandes filmes que assistimos. Mais que merecido! E fico feliz também por Blade Runner 2049 ter sido premiado nessa noite.

Na sequência, ouvimos a última música da noite que concorre na categoria Melhor Canção. Interpretando “This Is Me”, Keala Settle soltou a voz e fez todos lembrarem do musical The Greatest Showman – mesmo que, como eu, não chegou a ver ao filme, apenas assistiu ao trailer. Essa filme é predominante na produção e acabou sendo bem marcante também na premiação do Oscar. Bastante vigorosa e contagiante. Settle deu um show.

Depois do intervalo e após um vídeo de The Deer Hunter, Christopher Walken apareceu em cena para apresentar os indicados na categoria Melhor Trilha Sonora. Ano com grandes concorrentes. Me arrisco a dizer, até, que esta é uma das categorias mais difíceis do ano. E o Oscar foi para… The Shape of Water. Alexandre Desplat realmente levou a estatueta para casa. Esse foi o segundo Oscar da carreira dele.

Na sequência, relembramos os indicados na categoria Melhor Canção. E o Oscar foi para… “Remember Me”, de Coco. Novamente um filme de animação dominando nessa categoria. Interessante. Na sequência, Jennifer Gardner apresentou o vídeo em homenagem aos falecidos no último ano. E quem cantou a música de homenagem? O meu querido, amado, Eddie Vedder. Bem, nem preciso dizer mais nada. Super emocionante. E para quem não assistiu a Into the Wild, com uma trilha de Eddie Vedder, super recomendo.

No retorno de mais um intervalo, a atriz Emma Stone apresentou os indicados a Melhor Diretor(a). E o Oscar foi para… Guillermo del Toro. Fico feliz pelo diretor, porque ele tem uma trajetória muito interessante, em primeiro lugar. Depois, por ser latino. The Shape of Water não é o melhor filme dele, mas algumas vezes o Oscar premia alguém que já deveria ter ganho antes por um filme “menor” depois. Sem problemas. Del Toro lembra que ele é um imigrante e que o cinema e a sociedade deveriam brigar pela inclusão. Ele merece como realizador, porque é um desses diretores com assinatura, com estilo e que faz suas produções com alma.

Até agora a noite foi muito boa para os latinos. O chileno Una Mujer Fantástica, Coco (sobre a cultura mexicana) e o mexicano Guillermo del Toro confirmaram os seus favoritismos. Bacana. Na volta do intervalo, Helen Mirren e Jane Fonda apareceram para apresentar o Oscar de Melhor Ator. O favoritíssimo é Gary Oldman. Vamos ver se mais essa bola cantada se confirma. E o Oscar foi para… Gary Oldman, de Darkest Hour.

Oldman agradeceu “profundamente” pela Academia e pelos seu votantes. Em seguida, falou de como viveu muito tempo nos Estados Unidos, falou da família, de ganhar o Oscar e de todos os que ajudaram ele na produção que lhe rendeu uma estatueta dourada. Agradeceu também a mãe, prestes a completar 99 anos de idade e que estava vendo ele no “sofá de casa”.

Na sequência, Jodie Foster e Jennifer Lawrence aparecem em cena para apresentar as indicadas na categoria Melhor Atriz. Foster, que apareceu de muletas, brinca que Meryl Streep deu uma de I, Tonya com ela. Momento engraçadinho. A favorita é Frances McDormand. Vamos ver se ela realmente leva. E o Oscar foi para… Frances McDormand. Oh yeah. Acho muito merecido. Ela está ótima no filme. E merecia mais que outras que estavam na disputa – especialmente Saoirse Ronan, festejada demais por Lady Bird.

Figura, ela fingiu que ia tropeçar e, depois, fingiu grande nervosismo. Agradeceu ao marido e ao filho e pediu para todas as mulheres indicadas se levantarem e se sentirem homenageadas com o Oscar dela, que ela colocou no chão. Ela comentou que todas essas mulheres tem histórias para contar e projetos para serem financiados. Brincou que os produtores não deveriam falar com essas mulheres na festa do Oscar, mas que depois deveriam chamá-las para conversar nos escritórios deles. Porque o que todos devem perseguir são roteiros de inclusão. Ela foi ótima. Um dos grandes momentos da noite, pela mensagem e pelo estilo “outsider”.

Finalizando a premiação, os apresentadores de Melhor Filme do ano passado – aquela entrega que deu o maior auê – voltam à cena. Faye Dunaway e Warren Beatty. Bela sacada de repetir os apresentadores. E quem vai levar Melhor Filme? Aposto em Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, mas acho que pode rolar uma surpresa nesse final. Veremos… E o Oscar foi para… The Shape of Water. Ok.

O que dizer? Fico feliz pelo Guillermo del Toro. É um filme lindo, visualmente, mas a história não é tuuuuudo aquilo. Até porque o filme tem vários deslizes – vide a minha crítica por aqui – e, como muitos já falaram, repete várias e várias partes de outras produções, como Splash. Mas é o melhor filme do ano? Sem dúvida que não é. Assistam a todos os que concorreram – e ainda a I, Tony e a The Florida Project e depois me digam se The Shape of Water realmente é o melhor do ano.

Mas é isso aí. O Oscar pelo menos fez um grande trabalho em pulverizar os seus prêmios isso ano. Assim, muitos filmes bons saíram premiados, o que é muito mais junto e interessante do que apenas um filme “papar tudo”. Como eu previa, esse foi uma das premiações da Academia mais pulverizadas da história. Nada menos que 12 filmes foram premiados – além de três curtas. Independente se concordamos ou discordamos dos premiados, vamos seguir assistindo a belos filmes – inclusive os que a Academia nos “indica” a cada ano. Até a próxima, meus bons leitores!

Confira a lista com todos os premiados do Oscar 2018:

Melhor Filme: The Shape of Water

Melhor Ator: Gary Oldman (Darkest Hour)

Melhor Atriz: Frances McDormand (Three Billboards Ouside Ebbing, Missouri)

Melhor Ator Coadjuvante: Sam Rockwell (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri)

Melhor Atriz Coadjuvante: Allison Janney (I, Tonya)

Melhor Diretor: Guillermo del Toro (The Shape of Water)

Melhor Animação: Coco

Melhor Filme em Língua Estrangeira: Una Mujer Fantástica

Melhor Documentário: Icarus

Melhor Roteiro Adaptado: Call Me By Your Name

Melhor Roteiro Original: Get Out

Melhor Fotografia: Blade Runner 2049

Melhor Figurino: Phantom Thread

Melhor Edição: Dunkirk

Melhor Design de Produção: The Shape of Water

Melhor Maquiagem e Cabelo: Darkest Hour

Melhor Edição de Som: Dunkirk

Melhor Mixagem de Som: Dunkirk

Melhores Efeitos Visuais: Blade Runner 2049

Melhor Trilha Sonora: The Shape of Water

Melhor Canção: “Remember Me” (Coco)

Melhor Curta: The Silent Child

Melhor Curta Documentário: Heaven Is a Traffic Jam on the 405

Melhor Curta Animação: Dear Basketball