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Judy – Judy: Muito Além do Arco-Íris


Uma das maiores estrelas do cinema pagou um preço caro por se tornar uma lenda. O filme Judy nos conta uma história triste e, ao mesmo tempo, que nos faz pensar. Como aceitamos, por tanto tempo, astros e estrelas sendo construídos por meio de abusos? Até hoje, como lidamos com a fama e com o estrelato? Vemos as pessoas como elas são, realmente, ou idealizamos e julgamos elas conforme nossas necessidades e carências? Judy apresenta um trabalho incrível de Renée Zellweger e uma mensagem que precisa ser levada adiante.

A HISTÓRIA

Começa com alguém perguntando o que a pessoa vê além de uma certa “parede”. Ele diz que a pessoa tem imaginação, e que pode pensar a respeito. Judy Garland (Darci Shaw quando jovem e Renée Zellweger na fase adulta) abre os olhos e escuta Louis B. Mayer (Richard Cordery), chefão do estúdio, comentando que vê uma cidade no meio-oeste típica dos Estados Unidos. Ele vai narrando este lugar, como ele se configura e se parece, e comenta que são essas pessoas que enviam o dinheiro para eles. Judy é uma peça da “fábrica de sonhos” de Hollywood. Acompanhamos a sua história e o que Hollywood fez com ela.

VOLTANDO À CRÍTICA

(SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Judy). Esse não é um filme exatamente simples de assistir. Ao mesmo tempo, Judy se revela uma produção muito envolvente e bem narrada, com uma dinâmica e uma cadência que fazem o espectador ficar envolvido com esta história cheia de nuances e de camadas desde o primeiro e até o último minuto.

Essa produção é, antes de tudo, corajosa. Afinal, retratar “lendas” do cinema como Louis B. Mayer, o grande poderoso da MGM, e sua maior pupila, a atriz e cantora Judy Garland, com tanta franqueza, não é para qualquer um. O roteiro de Tom Edge, baseado na peça End of Rainbow, de Peter Quilter, começa, logo de cara, a mostrar a pressão que Judy sofreu desde a adolescência nas mãos do produtor da MGM.

Logo nos primeiros minutos do filme temos uma apresentação do que esta história nos apresenta em essência. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Além de mostrar a fase final da vida de Judy Garland, do que esta produção trata, essencialmente? Desta máquina de fazer sonhar e que, no processo, mastiga e tritura pessoas, talentos e sonhos chamada cinema.

Até hoje devemos pensar sobre como a “indústria” funciona. Como astros e estrelas – porque eles ainda seguem em evidência, mesmo que de forma diferente e menos intensa do que na “época de ouro” do cinema – tem as suas vidas devastadas e como, neste processo, muitas vezes eles são julgados e destroçados por um público que parecer querer sempre “sangue na arena” – para citar a época dos romanos.

O russo Louis B. Mayer, que nasceu com o nome de Lazar Meir, em 1884, teve uma infância complicada, cercado de pobreza e de maus tratos. Isso pode ajudar a explicar o seu “background” e sua postura igualmente abusiva como produtor de Hollywood. Mas todas as explicações do mundo não justificam certos abusos, como o que sofreu Judy quando ainda era uma adolescente.

Judy mostra esses abusos praticados não apenas por Mayer, mas por diversas pessoas de sua equipe. O sistema de produção da época, que levavam os atores a jornadas de até 18 horas de trabalho por dia – há uma linha no roteiro deste filme em que Judy comenta esta prática -, exigia que eles ficassem “ligados” com ajuda de “rebites” – leia-se, anfetaminas.

Esta produção mostra isso e outros momentos que marcaram a vida e a trajetória de Judy nos flashbacks que a atriz tem durante a sua fase de tentar reerguer-se. Esta produção, como tantas outras que contam a trajetória de algum ídolo, segue aquela velha fórmula de nos mostrar o tempo atual de um momento marcante desta trajetória e, volta e meia, flashbacks que ajudam a explicar como a pessoa retratada chegou até aquele ponto.

Medicada desde a juventude com anfetaminas – tipo de medicação que tem efeito duplo, de deixar a pessoa mais “ligada” e acordada e, ao mesmo tempo, ajudar a emagrecer – e tendo um controle rígido do que podia comer e fazer, Judy sentiu no corpo, na sua saúde e mente os efeitos desse abuso prolongado. Sem contar a “lavagem cerebral” e as ameaças constantes, assim como o abuso psicológico, de Mayer e de pessoas de sua equipe.

Sempre que podia, pelo menos é isso que o roteiro de Edge nos sugere, Mayer lembrava Judy de que ele tinha criado ela. Que sem ele, ela seria mais uma garota ordinária dos Estados Unidos, fadada a ser uma dona de casa e a ser esquecida. Como em qualquer relação abusiva, se por um lado Mayer dizia para Judy que ela tinha talento, uma voz incrível e que tinha “presença” que a diferenciava das demais, por outro lado ele também sugeria que ela não era tão bonita assim e que poderia facilmente voltar a ser uma garota mediana.

O impressionante em Judy é como Renée Zellweger sai de cena para dar lugar a uma caracterização de Judy Garland fascinante. Alguns dizem que uma grande atriz e que um grande trabalho deve fazer com que esqueçamos quem é a intérprete e que vejamos, na nossa frente, apenas a personagem. Em diversos momentos de Judy é exatamente isso que acontece. Vemos em cena a atriz retratada e não a sua intérprete.

Ainda que o filme abra de forma interessante com um close em Darci Shaw, atriz que faz um belo trabalho como Judy Garland na fase inicial da carreira, é nos momentos em que vemos o trabalho de Renée Zellweger pela frente que fazem este filme valer a pena. No conjunto das expressões, dos gestos e das falas da Judy interpretada por Renée é que percebemos melhor a personalidade e a complexidade de Judy Garland.

Edge escolhe bem o momento de começar a sua narrativa. No ponto em que a carreira de Judy Garland está em um impasse. Nos Estados Unidos, desacreditada em partes por causa da sua “instabilidade emocional”, a artista chega a se apresentar para ganhar um cachê de US$ 150. Uma quantia vergonhosa para uma estrela de sua envergadura, mas uma necessidade para uma mulher divorciada quatro vezes e que tinha dois filhos para criar.

Depois de ser “despejada” de mais um hotel, Judy leva os filhos mais novos, Lorna (Bella Ramsey) e Joey (Lewin Lloyd), para mais um “passeio” de táxi enquanto pensa em que local eles poderão ficar. No trajeto, depois de pensar em hotéis onde eles já foram expulsos antes, Lorna pede, sem ter que completar a frase, para que Judy leve eles para um local seguro.

Naquele momento, esse lugar acaba sendo a casa dos pais dos garotos, Sid Luft (Rufus Sewell). Judy vai para lá visivelmente a contragosto. Mas cede, pensando no bem-estar dos filhos. Logo, ela é lembrada que um caminho possível pode ser Londres. Ela pode ganhar um bom dinheiro por lá porque os ingleses a “idolatram”. Claro que no país europeu eles sabem sobre os rumores a respeito dos “humores” da artista, mas vale a pena dar espaço para ela se apresentar.

Nesse momento é que o filme ganha em complexidade e em sutileza. Parece inacreditável que alguém tão talentosa e com tanta projeção quanto Judy Garland tivesse insegurança ou receio de se apresentar. Mas Renée, em um trabalho primoroso, nos apresenta exatamente essa mescla de desconforto, sinais de abandono e de abuso psicológico, insegurança, talento e a noção da própria dimensão que Judy tinha de ser uma artista diferenciada em cena.

A cada nova apresentação, vemos tudo isso em cena. Alguns itens ficam mais presente em uma ocasião do que outros, mas temos essa personagem complexa (e muito humana) pela frente. Somado a toda construção/desconstrução que Judy sofreu durante a carreira, coloque ingredientes potentes e importantes em cena como a sua dificuldade em comer – com possível anorexia incluída -, sua predisposição a beber e, principalmente, sua falta de sono e você tem um coquetel molotov feito para explodir a qualquer momento.

O filme mostra de forma até sutil demais como, desde a adolescência, Judy foi viciada em anfetaminas e em remédios para dormir. Com o passar dos anos e o excesso na ingestão destes comprimidos, claro que ela se tornaria dependente química destas substância e, consequentemente, precisaria cada vez de doses mais altas para que estas medicações/drogas fizessem efeito.

O que vemos em cena, em Judy, é uma artista que precisa de ajuda mas que não encontra isso em parte alguma. Todos querem que ela se apresente, que ela esteja bem. Querem um “pedaço” da artista. Mas ninguém parece se importar com a pessoa, com o indivíduo que tem em frente. Admiram seu talento, sua simpatia, sua generosidade mas, de fato, ninguém consegue – ou realmente faz um grande esforço por – ajudá-la.

Por tudo isso, não é simples assistir a Judy. O filme vai direto ao ponto em diversas questões. Pela forma com que Judy Garland é “explorada” e todos pedem muito dela, sem ao menos um pouco de generosidade em jogo, esta produção me lembrou um pouco o documentário Amy (comentado por aqui). Claro que guardada as devidas proporções, já que Judy é uma obra de ficção, baseada em fatos reais, e que Amy é um documentário.

Realmente é tão difícil termos um olhar um pouco mais compreensível para as pessoas? Inclusive os ricos e famosos? Todos, no final das contas, são feitos de carne, osso e entranhas. Todos morrem com um tiro na cabeça. Então, quando vemos alguém visivelmente com um problema na nossa frente, seja ele ao vivo ou através do noticiário, porque não temos compaixão ao invés de sair julgando e apontando os dedos?

Como citei Amy antes, o que podemos aprender com Judy e o documentário citado é que a mesma crueldade feita com Judy Garland no passado – são ultrajantes as cenas das pessoas atirando objetos no palco para hostilizar a artista em Londres – pode ser vista nos dias atuais. Será que não aprendemos nada neste período de tempo?

Alguns podem dizer que jovens talentos não são mais sufocados, ultrajados e dopados com anfetaminas nos estúdios de Hollywood atualmente como na época de Judy. Mas realmente sabemos o que se passa nos bastidores do cinema atualmente? O movimento “Me too”, que surgiu nos últimos anos para denunciar os abusos sexuais de diretores e atores de Hollywood, mostra que nem tudo são flores na “fábrica dos sonhos” do cinema.

O talento é evidente, apesar dos abusos e da vida solitária que vemos em cena com Judy. Aquela mulher, que lutava para ser respeitada, apesar de ser uma artista, tem muito a nos ensinar com o seu exemplo. Como ela diz em uma entrevista para a TV, e que é reproduzida neste filme, ela era uma pessoa normal, mãe de três filhos, mulher com desejos, vontades, defeitos e qualidades, como qualquer outra, apesar de ser a estrela Judy Garland por algumas horas a cada noite – quando se apresentava. Por que é tão difícil para os fãs verem seus ídolos desta forma?

Louis B. Mayer não foi responsável apenas por explorar toda uma geração de artista. Ele foi um dos responsáveis também por separar a cultura ocidental da realidade. Ao criar a cultura das “estrelas”, ele fez com que pessoas comuns ganhassem um status de “semi-deuses” totalmente irreal e mentiroso. Tornou o público cada vez mais frio, mais distante de entender seus astros como humanos, com tudo que isso significa.

Sim, considero válido termos pessoas que admiramos. Mas essa admiração não pode ser baseada em princípios inválidos ou superficiais. Devemos conhecer da forma mais ampla possível o outro, incluindo as suas complexidades, qualidades e limitações. Admirar alguém sob esta ótica é algo bacana e construtivo. Podemos aprender com os outros, assim como sobre nós mesmos.

Por esse tipo de reflexão que sucinta e pela forma franca e interessante com que apresenta uma artista cheia de qualidades e de fragilidades, Judy se revela um dos filmes marcantes desta temporada. Estava na hora de um filme falar sobre a construção dos mitos de Hollywood. Trazer à tona histórias sobre as quais poucos querem falar.

O filme apresenta isso de forma muito interessante e, ainda, nos presenteando com uma performance excelente e surpreendente de Renée Zellweger. Não tem como não se emocionar. Também é impactante a informação final da produção. Pensar que aquela artista morreu apenas seis meses depois do episódio que vemos no final… de cortar o coração. Bem dirigido, com um roteiro competente e diversas outras qualidades, Judy é uma das boas surpresas desta safra.

NOTA

9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA

Conforme fui escrevendo sobre Judy, no texto acima, fui aumentando a nota que dei para o filme. Logo depois de assisti-lo, pensei em lhe conferir uma nota 9. Mas conforme fui pensando em todos os aspectos e mensagens que esta produção apresentou, fui alterando a nota para 9,2 até, finalmente, a nota acima, de 9,3. Sei que a avaliação é excelente, mas acho que o filme merece.

Se achei Judy tão bom, alguns podem perguntar, por que eu não dei uma nota ainda maior? Bem, isso tem a ver com a pesquisa que fiz sobre a personagem antes de escrever esse conteúdo.

(SPOILER – não leia se você não assistiu a esse filme). Me incomoda um pouco, sempre, quando um filme procura ser uma cinebiografia e comete, nunca sabemos exatamente o porquê, alguns erros e/ou equívocos históricos. E isso acontece com Judy. São diversos os detalhes que acabam não correspondendo com a realidade na parte final do filme. Sobre eles que eu vou falar nos próximos parágrafos.

Antes de mais nada, senti falta da produção dar mais detalhes sobre a morte de Judy Garland. É impactante pensar que ela morreu apenas seis meses depois de sua última apresentação em Londres. Foi inevitável procurar informações sobre a sua morte.

Se você quer saber mais a respeito, recomendo essa notícia sobre a morte de Judy Garland e o acesso a um programa que trata sobre a morte da atriz e que traz uma “autópsia tardia” dela. Advirto que esse programa é meio sensacionalista mas, ao mesmo tempo, ajuda a contar um pouco da verdade sobre o que aconteceu com a artista.

Entre os “problemas” do roteiro de Judy na reta final estão algumas discrepâncias da narrativa em relação aos fatos da vida real da artista. Para começar, na reta final da produção, o roteiro de Edge dá a entender que Judy havia se casado com Mickey Deans (Finn Wittrock) mais de seis meses antes da sua morte e que, quando ela faz a sua última apresentação em Londres – ponto em que o filme termina -, ela já havia mandado Deans “passear”.

Mas a história não foi bem essa. Conforme o programa que eu citei acima, o casamento de Judy com Deans acontece apenas três meses antes da sua morte. Claro que eles já deviam estar flertando e namorando meses antes, mas o casamento em si ocorreu depois do que a narrativa do filme Judy termina.

Além disso, diferente do que é sugerido no filme, eles estavam casados quando ela morreu – inclusive foi Deans que encontrou o corpo da esposa no banheiro na manhã seguinte da morte da artista. Outra divergência de fatos envolve a negativa da rede de cinemas para a proposta de parceria com Judy.

Segundo o programa que reproduz as condições da morte de Judy, ela viajou para os Estados Unidos junto com o marido para discutir esse acordo – diferente do que é mostrado no filme. E a resposta negativa veio pouco antes da morte de Judy – e não mais de seis meses antes, conforme a produção mostra. Além disso, acho que faltou para Judy mostrar um pouco mais sobre os ex-maridos da artista e o papel deles para que deixar ela sem dinheiro.

Esses “detalhes” do roteiro de Edge fizeram com que eu não desse uma nota maior para a produção. Se bem que, vamos admitir, 9,5 é uma nota excelente. Motivada, como comentei antes, especialmente pela qualidade da história, das interpretações e do debate que o filme desperta. Precisamos de mais filmes como esse, que ajudem a revelar os “bastidores” – nem sempre tão bonitos – da “fábrica de sonhos” de Hollywood (e de outras escolas de cinema).

O trabalho de Renée Zellweger como Judy Garland é impressionante. Para mim, um grande trabalho muitas vezes se resume a esquecermos que ator temos em cena. Quando a atuação é tão bem feita – com a ajuda da caracterização, é preciso dizer – que vemos, em muitos momentos, apenas a pessoa retratada e não o ator que está por trás do papel. E é exatamente isso que Renée nos entrega neste trabalho – um dos melhores de sua carreira.

A parada será dura, no Oscar 2020, entre Renée e outra atriz em grande fase: Scarlett Johansson. 2019 foi um ano incrível para Scarlett. Recentemente, comentei dela, aqui no blog, Jojo Rabbit (com crítica neste link) e Marriage Story (filme avaliado neste texto). Ela faz um trabalho encantador em Jojo Rabbit, mas é em Marriage Story que ela brilha – também em um dos grandes papéis e trabalhos da sua carreira.

Então temos duas atrizes talentosas em dois trabalhos que estão entre os melhores de suas carreiras… como escolher? Acho que a disputa está bem acirrada e apertada entre Renée Zellweger e Scarlett Johansson, de fato. Fico um pouco em cima do muro nesta escolha.

Acho o trabalho de Renée mais detalhista. Mas ela favorecida pelo fato de ter muito trabalho de pesquisa e de referência para se basear. A maquiagem e a caracterização também ajudam bastante. Por outro lado, Scarlett tem um trabalho excepcional e totalmente original – ela não tinha uma “personagem” em que se basear. Por estas questões, se eu tiver que sair de cima do muro e se tivesse que fazer uma escolha, como os votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, possivelmente eu votaria em Scarlett para levar a estatueta.

Quando Renée Zellweger subiu ao palco para receber o Globo de Ouro como Melhor Atriz – Drama nesta ano, fiquei impressionada com a sua magreza. No filme, claro, ela está magra também. Mas ao ler sobre Judy Garland e saber sobre o peso que ela tinha quando morreu… faltou para Renée um trabalho ainda mais pesado de caracterização. Ao estilo de Christian Bale em The Machinist ou de Matthew McConaughey em Dallas Buyers Club (com crítica neste link).

Claro, por um lado, acho meio “desumano” um ator emagrecer dezenas de quilos para interpretar um papel. Se estamos falando de crueldade no meio artístico, essa prática não deixa de ser uma forma de crueldade. Por outro lado, acho que se tem atores que fazem isso para sentirem que estão interpretando melhor os seus personagens, acho que Renée poderia ter feito uma dieta ainda mais intensa para que ela ficasse mais próxima – por um curto período de tempo, evidentemente – da Judy Garland real. Sua interpretação teria ainda mais impacto, não tenho dúvidas.

No YouTube é possível ver algumas cenas de Judy Garland em seu último ano de vida, em 1969. É impressionante como a artista, que morreu com 47 anos de idade – super jovem, vamos combinar! -, parecia ter muito mais idade do que ela realmente tinha. Isso porque a sua aparência física tinha muito mais a ver com as suas condições de saúde, que não eram nada boas, do que com a idade. Algo de cortar o coração.

Judy Garland nasceu em 1922 na cidade de Grand Rapids, no Estado de Minnesota, como Frances Ethel Gumm. Ela morreu 12 dias após fazer 47 anos de idade, no dia 22 de junho de 1969, em Londres. Ela media 1,51 metro de altura e ficou conhecida pelos apelidos de Baby Gumm, Miss Show Business e Joots.

Até a sua morte, ela contabilizou 40 trabalhos como atriz, incluindo curtas e longas-metragens. O primeiro trabalho de Judy foi no curta The Big Revue, de 1929 – lançado quando ela tinha 7 anos de idade. Depois de participar de mais três curtas, ela apareceu no primeiro longa em 1936, Pigskin Parade, dirigido por David Butler e produzido pela Fox.

Depois de mais um curta, em 1937 ela trabalhou no seu primeiro filme da MGM: Broadway Melody of 1938. Mas o seu grande sucesso, o filme que projetaria Judy para o estrelato veio dois anos depois, The Wizard of Oz, de 1939, dirigido por Victor Fleming (com algumas cenas rodadas e não creditadas por George Cukor, Mervyn LeRoy, Norman Taurog, Richard Thorpe e King Vidor). O último trabalho dela para os cinema foi I Could Go on Singing, de 1963, dirigido por Ronald Neame.

Além do trabalho de Renée Zelleger como Judy na fase adulta, vale comentar o belo trabalho da atriz Darci Shaw como a Judy no início da carreira. Além delas, estão muito bem em seus papéis Jessie Buckley como Rosalyn Wilder, a “gestora” da agenda de compromissos e uma das pessoas mais próximas de Judy em sua “turnê” de apresentações por Londres; Finn Wittrock como Mickey Deans, o quinto marido da artista; Michael Gambon como Bernard Delfont, o empresário e produtor que leva Judy para Londres; Richard Cordery como Louis B. Mayer; Royce Pierreson como Burt Rhodes, o músico e líder da banda que acompanha Judy; Andy Nyman e Daniel Cerqueira como Dan e Stan, o casal de gays que se revelam dois dos maiores fãs de Judy em Londres; Bella Ramsey como Lorna Luft, Lewin Lloyd como Joey Luft e Gemma-Leah Devereux como Liza Minnelli, os três filhos de Judy; e Gus Barry como o jovem Mickey Rooney, astro da MGM que também passou, ainda jovem, pela mesma experiência que a atriz nas mãos do estúdio.

Entre os aspectos técnicos do filme, destaque para o trabalho feito pelos 15 profissionais envolvidos com o Departamento de Maquiagem de Judy. Sem dúvida, este é um aspecto que se destaca na produção – especialmente pela caracterização de Renée como Judy. Vale citar, ainda, o trabalho com a trilha sonora de Gabriel Yared; a direção de fotografia de Ole Bratt Birkeland; a edição de Melanie Oliver; o design de produção de Kave Quinn; a direção de arte de James Price e Tilly Scandrett; a decoração de set de Stella Fox e os figurinos de Jany Temime.

Judy estreou em agosto de 2019 no Festival de Cinema de Telluride. Depois, o filme participaria, ainda, de outros 10 festivais em diversos países. Em sua trajetória, até o momento, o filme ganhou 13 prêmios e foi indicado a outros 50. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Atriz – Drama para Renée Zellweger. Nove dos outros 12 prêmios recebidos pelo filme também foram dados para Renée.

A atriz, que voltou a ganhar destaque por causa deste trabalho, dedicou-se durante um ano para o papel, fazendo treinamento vocal com Eric Vetro neste período. Quatro meses antes das filmagens começarem, ela também trabalhou com o diretor musical Matt Dunkley para poder, no final deste período, ser capaz de dominar bem os seus vocais. O trabalho de voz dela na produção, realmente, é impressionante – tanto na fala quanto ao cantar. Basta ouvir a voz “normal” da atriz e comparar com o que vemos em cena para ver a diferença.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. Judy é uma adaptação da peça de Peter Quilter, como comentei antes. Segundo Quilter, o roteirista Tom Edge preferiu fazer um roteiro muito mais realista do que a peça que ele produziu – que teve mais elementos de fantasia do que o filme.

Duas curiosidades envolvendo Renée e Judy. A atriz que interpreta Judy nasceu em 1969, no ano em que a sua homenageada morreu. Quando Judy foi lançado, em 2019, Renée tinha completado 50 anos de idade – três a mais do que Judy quando ela faleceu, aos 47 anos de idade.

Durante o seu discurso de agradecimento no Globo de Ouro, Renée pareceu um tanto “ressentida” por ter sido “esquecida” por Hollywood. De fato, devo admitir, fazia muuuuuito tempo que eu não assistia a um filme protagonizado por ela. Uma prova disso é que, procurando aqui no blog – minha memória mais fiel para filmes que eu vi 😉 -, não achei nenhuma produção estrelada por ela. Possivelmente o último filme que eu vi com ela foi Cold Mountain, produção de 2003 que lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante – época em que este blog ainda não existia.

Apesar desta possível “mágoa” de Renée, vendo sua filmografia, que já conta com 45 trabalhos como atriz – ela já ultrapassou Judy Garland -, verificamos que ela ficou bastante ativa até 2010. Desde que estreou no filme para a TV A Taste for Killing, em 1992, ela sempre esteve envolvida em algum projeto até 2010. Depois, é verdade, ela ficou “parada” até 2016, quando ressurgiu com duas produções: The Whole Truth e Bridget Jone’s Baby. Talvez a “queixa” dela seja porque ela ficou sem bons papéis por um período de tempo. Agora, com Judy, volta a mostrar seu talento e potencial para apresentar performances excepcionais.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 233 críticas positivas e 49 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 83% e uma nota média de 7,01.

O site Metacritic apresenta um “metascore” de 66 para esta produção – fruto de 33 críticas positivas e 12 medianas. De acordo com o site Box Office Mojo, Judy arrecadou cerca de US$ 24 milhões nos Estados Unidos e faturou, no Reino Unido, cerca de US$ 10,6 milhões.

Judy é uma produção 100% do Reino Unido. Não comentei antes, mas esse é apenas o segundo longa para cinema dirigido pelo inglês Rupert Goold. Ele estreou na direção em 2010 dirigindo um episódio da série televisiva Great Performances e, em 2015, estreou na direção do primeiro longa para o cinema com True Story. Sem dúvida alguma, Judy é o filme que vai dar maior visibilidade para o seu trabalho. Vejamos o que mais ele nos apresenta a seguir.

CONCLUSÃO

Um filme detalhista e provocativo. Que mostra uma Hollywood que a meca do cinema não gosta muito de retratar. Como várias outras instituições no decorrer da História, a “indústria do cinema” também tem as suas chagas e os seus erros. Judy nos conta uma destas histórias.

De uma atriz que foi alçada ao estrelato com altíssimos custos. Filme sensível, com ótimas interpretações e um roteiro envolvente, Judy nos faz pensar não apenas sobre o passado, mas sobre o presente. Produção necessária, corajosa e com algumas falhas temporais, mas nada que ofusque os vários méritos da produção. Vale ser vista e debatida.

PALPITES PARA O OSCAR 2020

Judy é um filme que fala de Hollywood de forma franca e crítica. O que nem sempre é visto de forma positiva pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Judy poderia, muito bem, estar na lista dos melhores filmes do ano, mas acho isso muito, muito improvável.

Então, que chances o filme tem de ser indicado no Oscar 2020? Acho que será quase inevitável uma indicação de Renée Zellweger como Melhor Atriz. Se deixarem ela de fora, podemos contabilizar aí uma grande injustiça. Além da indicação da atriz, o filme poderia ser lembrado como Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Maquiagem e Cabelo e Melhor Figurino.

As maiores chances de Judy estão na categoria Melhor Atriz. Como comentei antes, a grande disputa nesta categoria deve ficar entre Renée Zellweger e Scarlett Johansson. Difícil escolher entre uma delas. Ambas tem trabalhos excepcionais e ambas, a meu ver, tem chances praticamente iguais de receber o prêmio. Será interessante ver quem ficará com a estatueta.

Por Alessandra

Jornalista com doutorado pelo curso de Comunicación, Cambio Social y Desarrollo da Universidad Complutense de Madrid, sou uma apaixonada pelo cinema e "série maníaca". Em outras palavras, uma cinéfila inveterada e uma consumidora de séries voraz - quando o tempo me permite, é claro.

Também tenho Twitter, conta no Facebook, Polldaddy, YouTube, entre outros sites e recursos online. Tenho mais de 20 anos de experiência como jornalista. Trabalhei também com inbound marketing e, atualmente, atuo como professora do curso de Jornalismo da FURB (Universidade Regional de Blumenau).

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