O quanto uma família disfuncional e, principalmente, um pai ausente podem passar de fatura para alguém? Isso, só vamos saber com o tempo – e, provavelmente, fazendo terapia. Sentimental Value trata sobre relações familiares, sempre importantes para a constituição e para o futuro/presente de qualquer pessoa, e sobre que respostas encontramos pelo caminho enquanto caminhamos em frente. Um filme muito bem construído, com excelentes atuações – especialmente da protagonista -, que homenageia a arte, inclusive o cinema, mas que erra no final. Justamente no final! A produção vinha tão bem, até que…
A HISTÓRIA
Começamos com a vista de uma cidade, com a câmera percorrendo a paisagem tendo o verde colocado em primeiro plano e as construções aparecendo logo na sequência. Corta. Depois, nos aproximamos de uma casa, em específico, com a câmera percorrendo várias partes do exterior e mostrando o local em detalhes. Então uma narração nos explica que quando a escola pediu uma redação a partir do ponto de vista de um objeto, Nora escolheu, sem hesitar, a casa da família.
E é essa casa que vemos a partir de agora. O local abriga muitas histórias, e algumas dessas histórias é que serão apresentadas para nós a partir de então. A câmera entra na casa e vemos crianças descendo uma escada apressadas. A narração explica que Nora falou, em sua redação, sobre a barriga da casa, que roncava quando ela descia a escada correndo com a irmã. Depois, de como a casa via Nora e a irmã se esgueirar pelo buraco na cerca até chegarem na rua, onde a casa as perdia de vista. E assim essa história segue, sob a ótica da casa e, em especial, das pessoas que viveram lá – com destaque para Nora Borg (Renate Reinsve).
VOLTANDO À CRÍTICA
(SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Sentimental Value): Gosto demais do cinema que é feito no Norte da Europa. E não é de hoje – se você me acompanha há tempos aqui no blog, você já sabe disso. E o diretor e roteirista Joachim Trier é um dos grandes nomes do cinema daquela parte do mundo nos últimos anos – ou nas últimas duas décadas. Aqui, novamente, ele nos entrega um grande filme.
Impossível não se deixar envolver pela história de Sentimental Value. Claro que a bagagem de cada um e o tipo de família que cada pessoa teve impacta diretamente no tipo de experiência que Sentimental Value pode despertar. Da minha parte, posso dizer sim que o filme tocou em “diversos gatilhos” e me fez refletir sobre diversos paralelos da minha própria vida e bagagem. Isso pode ter acontecido com você, ou não, mas o importante sobre Sentimental Value é como o filme apresenta temas importantes e que merecem reflexão, independente da bagagem que cada um traz consigo.
Algo muito importante nessa história é a forma como Sentimental Value se apresenta para a gente. Como acontece na vida real, essa história vai se apresentando aos poucos e vamos entendendo o contexto e a bagagem que cada personagem central da trama apresenta de forma progressiva e relativamente lenta. Percebemos que há muitas questões em jogo entre os personagens principais, especialmente entre as irmãs e o pai delas, mas não sabemos exatamente o que está errado ali.
Claro, a sequência inicial do filme nos dá uma boa prévia do que está por trás de tanta estranheza nas relações – especialmente da protagonista, a filha mais velha, e o pai com quem ela não tem diálogo. Percebemos, logo naquele início, que Nora e a irmã mais nova, Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas), cresceram em uma casa onde a paz era um artigo raro. Sim, houve momentos de dança e de música, mas os episódios de gritos, brigas e discussões foram muito mais comuns.
Que tipo de preço isso pode cobrar de uma pessoa? Um ambiente com muitos conflitos e nos quais as brigas são comuns? Isso só vamos saber com o tempo, seja na nossa vida particular, seja acompanhando essa história. Logo depois daquela introdução super interessante sobre a casa da família, que foi usada como personagem em uma redação de Nora, vemos a protagonista adulta se preparando para uma audição.
Depois, rapidamente, vemos ela sofrendo antes de uma apresentação no teatro. Ela é a protagonista, deve encarar o teatro cheio, mas claramente está tendo um ataque de pânico antes de entrar em cena. Ali, somos apresentados a parte do talento da gigante Renate Reinsve – eu sou apaixonada por essa atriz desde Verdens Verste Menneske (ou, no título internacional, The Worst Person in the World, comentado aqui no blog).
Naquela sequência dela no teatro, em que ela tem vários rompantes seguidos antes de entrar no palco e brilhar em sua apresentação, temos uma prévia de como o momento para a atriz não está sendo dos melhores. Ela está passando por algo, e possivelmente não é apenas uma questão de nervosismo típico do ofício. Depois dela e dos colegas serem aplaudidos de pé pela plateia que enche o teatro, voltamos para o ambiente da casa que vimos no início. Lá, Nora e a irmã estão velando a mãe e, para isso, recebendo muitas pessoas na casa da família.
Esse filme não é 100% linear, então não sabemos se a apresentação no teatro ocorreu exatamente na véspera do velório. Mas podemos presumir que sim, que a noite de crise de Nora teve a ver com a morte da mãe. Mas, conforme a história avança, percebemos que aquele momento de fragilidade não se explica apenas por isso.
Como outros filmes de Joachim Trier, essa produção tem muitas camadas e muitas questões que podem levantar debate e reflexão. Novamente aqui mergulhamos no que acontece dentro das casas, na história de uma família e nas relações entre pessoas. Isso é o foco principal dessa narrativa. E algo que achei interessante é como o filme foca em uma casa, primeiro, e depois na cena de um teatro, como que para nos dizer que ninguém sabe o que acontece no interior.
Quem olha para aquela casa da família Borg ou para excelente atuação de Nora sobre o palco naquela peça de teatro não sabe nada sobre os bastidores, sobre o que acontece no interior de cada espaço – e muito menos, claro, no interior de cada pessoa. Essas alusões do filme e a simbologia da casa e do palco do teatro, nesse sentido, são um grande acerto. De fato, ninguém sabe o que acontece nos bastidores da vida de ninguém e, mesmo sendo próximos de uma pessoa, nunca sabemos de fato tudo que acontece dentro dela – e isso vale pra gente mesmo, já que, por mais que tentemos nos conhecer, que busquemos o autoconhecimento, ainda assim há muito para ser descoberto ainda.
Bem, logo depois daquela cena do teatro, temos Nora e Agnes enfrentando o difícil momento do velório da mãe. E elas parecem especialmente agitadas quando descobrem que o pai delas, Gustav Borg (Stellan Skarsgård), apareceu no velório. Sim, sabemos que Gustav se separou da mãe das garotas quando elas ainda eram jovens, mas não sabemos exatamente as razões para tanta estranheza entre pai e filhas – vamos descobrindo isso conforme o filme se desenrola.
O que sabemos, e logo, é que Gustav é um cineasta que há tempos não lança um novo filme e que volta e meia ele é “redescoberto”, sendo considerado um pouco “cult” por alguns. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas não demora muito para sabermos que Gustav gosta de usar a própria família como “material” de trabalho, tendo escalado a filha mais nova quando ela era criança para estrear uma de suas produções “cult” e que, agora, após a morte da ex-mulher, ele quer que a atriz profissional da família, sua filha mais velha, estrele seu próximo filme.
Durante o velório da ex-mulher Gustav diz para Nora que quer conversar com ela. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Logo sabemos que Nora não vê espaço para diálogo com o pai. Ou seja, eles não tem uma relação ou uma proximidade que permita que eles possam realmente conversar. Ela tem consciência disso. Então, quando ele diz que conversar com ela, Nora já se “arma” e já espera que tipo de “bomba” pode vir por aí. Ela conhece bem o pai, e sabe como ele pode afetá-la. Conforme a história se desenvolve, quem conhece um pouco de psicologia identifica logo que Gustav é um clássico narcisista.
Percebemos isso por várias razões. Não apenas por ele se colocar sempre no centro de tudo, mas especialmente pela forma como ele parece escolher as melhores palavras e frases para afetar as filhas – especialmente Nora. Ela sabe que isso acontece, mas não sabe como se proteger disso. Bem, durante o velório da ex-mulher, Gustav diz que quer conversar com Nora, mas que não pode ser ali. Depois eles marcam essa conversa em uma lanchonete e Gustav apresenta o roteiro para a filha, convidando ela para ser protagonista de seu novo filme.
Gostei muito da postura de Nora naquele momento, dizendo que não iria aceitar o convite porque ela não tinha diálogo com o pai. De fato, eles não tinham isso. Gustav seria incapaz de ter um diálogo com a filha. Então como eles poderiam fazer um filme juntos? E a troco de que, já que Nora tinha uma carreira própria, e no teatro? Realmente não fazia sentido. Mas então o filme avança, e Gustav segue com o seu projeto.
Daí somos apresentados a um capítulo à parte que mostra um pouco dos bastidores do cinema – especialmente na atualidade. Gustav tinha uma ideia de filme – independente, feito com parceiros antigos, falado em seu idioma -, mas acaba indo para uma direção totalmente diferente quando um streaming abraça seu projeto após uma atriz em ascensão ter se declarado encantada pelo trabalho de Gustav e interessada em estrelar seu novo filme.
Entra em cena então uma crítica relativamente velada do diretor a esse novo cenário do cinema, no qual uma produtora muda boa parte da proposta original para transformar a produção em um projeto mais “palatável” para o grande mercado. Gustav decide ceder em relação ao que tinha pensado inicialmente quando, durante um festival de cinema, ele conhece a atriz Rachel Kemp (Elle Fanning). Ela pede para conhecê-lo pessoalmente após a exibição de um clássico do diretor.
Gustav parece ser um mulherengo clássico. Daqueles que estão sempre fascinados por qualquer mulher bonita que apareça pela frente e que precisam falar alguma “gracinha” para se sentirem vivos. A sequência em que ele fala com Nora na lanchonete, antes de fazer o convite para ela, causa até certo desconforto porque parece que ele não consegue se conter nem mesmo em relação à filha. Ele vive dizendo como Nora é linda, talentosa e que a mulher da lanchonete achou que eles poderiam ser um casal – que tipo de comentário é esse? Honestamente, senti nojo naquela hora. E uma grande preocupação de que algum abuso poderia teria acontecido no passado entre pai e filha.
Mas enfim, quando Rachel pede para conhecer Gustav pessoalmente, eles vivem uma noite de aproximação e quase um jogo de sedução. Rachel está atraída pelo tipo de cinema que Gustav faz e ele acaba vendo na jovem atriz, em franca ascensão, a chance de conseguir o financiamento que ele precisa para rodar seu novo filme.
Entra em cena aí o interesse do streaming e todas as mudanças que vem a partir do envolvimento de Rachel no projeto: o roteiro do filme passa a ser traduzido do norueguês para o inglês e o estilo da produção também muda, com a ideia de Gustav fazer uma parte importante em plano-sequência e não com a forma mais tradicional que um antigo parceiro, diretor de fotografia, atuava.
Essa é uma pequena crítica que Joachim Trier faz para o cenário atual do cinema mundial. Ao mesmo tempo que as opções de streaming parecem interessantes por injetar dinheiro em produções de diversas latitudes e tamanhos, o cinema independente parece ter cada vez menos capacidade de se financiar se não for através dessas opções e de suas regras. O ideal, claro, seria termos investimentos diversos e a capacidade do cinema seguir criando e inovando com múltiplos propósitos – algumas vezes, com foco em bilheteira e lucro e, outras vezes, sem tanta preocupação no retorno financeiro.
Ainda que esse assunto esteja no meio dessa história, o foco de Sentimental Value não é falar sobre como o cinema é financiado atualmente. Temos sim um personagem importante dessa história tentando lançar um novo filme após muitos anos ausente da direção – impossível não lembrar de Terrence Malick, que após dirigir e lançar Days of Heaven em 1978, voltou aos cinemas apenas em 1998 com The Thin Red Line – e, mesmo sendo “cult”, Gustav tem alguma dificuldade em conseguir financiamento para seu novo filme. Isso é um tema que transpassa Sentimental Value, mas não é o foco principal do filme.
O que nos interessa aqui é a relação entre pai e filhas. E, mais que isso, como alguém pode se fortalecer já adulta depois de ter “sobrevivido” a uma infância complicada, submetida a muitos gritos entre os pais, brigas e discussões? Porque é sobre isso que Sentimental Value trata. Sobre as cicatrizes que ficam de um lar complicado e como é possível se reinventar muito tempo depois. Para isso, claro, a tomada de consciência é um ponto fundamental.
Então, voltando para a narrativa de Sentimental Value, depois daquele encontro entre Gustav e Rachel, acompanhamos um pouco mais de perto Nora. Ela tem um envolvimento com o colega de palco, o também ator Jakob (Anders Danielsen Lie). (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Naquela primeira sequência em que vemos os dois juntos na cama de Nora, sabemos que Jakob é casado e que Nora parece estar bem assim, tendo intimidade e, ao mesmo tempo, não tendo a possibilidade de ter algo sério com Jakob. Ela parece querer isso, ser independente, não ter alguém ao seu lado o tempo todo.
Diferente da irmã mais nova dela, Agnes, que é casada e tem um filho. Mas Nora realmente está bem solteira e tendo “romances sem compromisso”, como o que ela parece ter com Jakob? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Bem depois no filme, quando Nora descobre que Jakob está se separando da esposa e que ele não pensa nela, em Nora, para ter algo sério, aquela “certeza” toda que Nora parece ter de querer seguir solteira e sem “nada sério” com ninguém parece cair por terra. Mas ela realmente quer um romance, um relacionamento, ou ela é pressionada pelas conversas tortas do pai e pela “pressão social”?
Nunca vamos saber. E essa é a parte interessante de Sentimental Value. O filme lança muitas perguntas, mas as respostas ficam no ar. Ou ficam a critério de cada espectador responder. Como acontece com a gente mesmo, em diversas fases da nossa vida, nem sempre temos as respostas, e sim apenas as perguntas. Até porque tem respostas que não são tão óbvias ou fáceis de encontrar. E tudo bem. O importante é buscarmos essas questões, mesmo que elas fiquem abertas por um tempo.
Naquela cena inicial de intimidade entre Nora e Jakob, a protagonista acaba falando algo importante. Que o diretor de teatro com o qual eles trabalham sugeriu que ela fizesse terapia. Jakob diz que acha isso uma boa ideia, porque ela parece ter algum tipo de “fobia”, mas Nora diz que não acredita em terapia e que não vai fazer. Depois sabemos que essa resistência dela tem a ver com o trabalho da mãe, que era psicóloga e que atendia os pacientes em um consultório em casa. Nora, na época, conseguia ouvir algumas consultas por causa do sistema de aquecimento da casa e que permitia que o que era falado na sala/consultório da mãe no primeiro andar pudesse ser ouvido na parte de cima da casa.
Uma pena que Nora tenha criado essa resistência em relação à Psicologia. Porque ela precisava sim de terapia. Todos nós precisamos, na verdade – e todas as pessoas deveriam se abrir a isso em algum momento da vida. Eu, particularmente, tenho um outro entendimento sobre a vida e sobre tudo depois que comecei a fazer terapia. O conhecimento realmente liberta. Impressionante. Por isso, vendo o que acontece com Nora nessa produção – e aqui temos apenas um pequeno recorte de toda a complexidade dessa personagem -, posso dizer com certeza que ela teria outro tipo de vida se quebrasse a barreira que criou a respeito de fazer terapia e abraçasse essa boa prática.
Mas, infelizmente para ela, Nora não faz isso. Então ela não consegue lidar exatamente bem com o pai narcisista que tem. Na verdade, ela nem sabe que ele é narcisista e o que isso quer dizer na prática. Ela só percebe que a ausência do pai fez e faz muita diferença em sua vida, mas não sabe como lidar com isso. O “vazio” que ela sente não é o existencial, que todos sentem, mas algo muito mais específico.
No caso específico de Nora, a falta de amor e de proteção que ela sentiu na infância e na adolescência criaram um vazio que ela sente até hoje. E ela sente dificuldade em lidar com isso. Porque não sabe exatamente identificar esse vazio e não sabe o que fazer com ele. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em uma sequência especialmente importante da produção, as duas irmãs conversam e Nora pergunta para Agnes como ela sobreviveu à infância que elas tiveram. E Agnes diz que elas não tiveram a mesma infância.
Achei essa parte muito, muito importante e relevante. Porque por mais que duas ou mais pessoas tenham crescido na mesma família disfuncional e tenham tido contato com um ou dois pais narcisistas, a vivência de cada pessoa de tudo aquilo é diferente. E isso é muito real. Não apenas pela idade diferente das pessoas, quando estamos falando de mais de um irmão, mas também pelo tipo de relação que se estabeleceu naquele ambiente.
Agnes diz claramente para Nora que ela teve o apoio da irmã. Por isso ela não sofreu tanto com a falta de amor ou de amparo, de segurança, porque ela recebeu isso de Nora. Mas Nora, por ser mais velha, não teve o mesmo. Então elas não tiveram a mesma infância e a ausência de amor, de apoio e de segurança não afetou as duas da mesma forma. E isso, querendo ou não, influenciou na vida adulta delas.
As duas irmãs são lindas, sensíveis, inteligentes, muito competentes em suas áreas de atuação, são amorosas e tudo o mais, mas Nora parece ter uma fragilidade emocional muito maior do que Agnes. E isso tem tudo a ver com o tipo de exposição que ela teve enquanto crescia. O pai narcisista das duas afeta a Nora de uma forma diferente do que a Agnes. E isso fica claro em cada encontro que as filhas tem com o pai – seja juntas, seja individualmente.
Novamente, é uma pena que Nora tenha desenvolvido uma certa resistência à ideia de fazer terapia. Porque a Psicologia ajudaria muito ela a entender o próprio pai e, principalmente, a relação que ela desenvolveu com ele. Com terapia ela aprenderia a lidar com a figura narcisista dele e a não se afetar tanto com suas atitudes.
Conforme o filme se desenvolve, percebemos que o novo roteiro de Gustav tem tudo a ver com sua família. Não sabemos até que ponto ele inspirou sua protagonista na história de sua própria mãe ou na história da filha Nora. O trabalho parece ser uma mistura das duas, na verdade, e tudo indica que o tipo de filme que Gustav gosta de fazer é esse, que mistura realidade e ficção e que envolve questões muito pessoais do realizador – como muitos grandes cineastas fizeram e fazem até hoje.
Agnes trabalha em outra área. Apesar de ter estrelado um filme do pai quando criança, ela atua como historiadora e, algumas vezes, faz algumas pesquisas para o pai. Interessante, nesse sentido, como Sentimental Value dá espaço para ela conhecer um pouco mais sobre a história do pai e, por consequência, da própria família quando Agnes acaba fazendo pesquisas sobre a avó, Karin Borg (Vilde Søyland).
No roteiro que Gustav escreveu e que ele vive dizendo que não é sobre a mãe dele, temos uma mãe que se mata em casa, enforcada, depois que ela tem certeza que o filho, ainda criança, saiu da casa. Em teoria, o novo filme do diretor e roteirista vai ser gravado na casa da família. Quando ele leva Rachel para conhecer o local, Gustav mostra um banquinho e diz que a mãe dele usou aquele objeto para subir e alcançar a corda antes de se matar. Isso vira meio que uma “piada interna” da família, porque Agnes e Nora sabem que isso não é verdade, já que o banco é novo, comprado na Ikea.
Mas até que ponto aquela história é uma fantasia? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em certo momento da produção, quando o filme faz um flashback para contar um pouco a história da família de Gustav, descobrimos que a mãe dele, Karin, cresceu naquela casa. Quando criança, a sala que no futuro ira se tornar o consultório da mãe de Nora e Agnes, era utilizada como biblioteca por Karin. Era o local em que ela recebia as amigas para ouvir música.
Foi naquela casa que ela foi presa, já adulta, e quando fazia parte do movimento de resistência. Agnes descobre, no tempo presente, ao fazer pesquisas para o filme que o pai está desenvolvendo, que Karin, avó dela, não ficou apenas dois anos presa, mas que foi brutalmente torturada no período. Isso mexe com ela e faz Agnes pensar sobre o pai, de como essa história pode ter pesado para ele.
Sim, todas as pessoas podem ter cicatrizes importantes. Ausências, falta de amor e diversas fragilidades que podem ter cobrado um preço emocional alto e ter feito com que elas não fossem bons pais ou mães no futuro. E ainda que eu entenda o contexto e ache que vale a pena irmos atrás desse “background” e da história da nossa família para entender melhor as relações passadas e a origem de muita coisa, sempre acho que nada justifica o que é feito depois. As pessoas deveriam evoluir, buscar por suas próprias respostas e tentarem ser melhor. Desculpas são fáceis, assim como mil justificativas, mas o efeito que os erros podem provocar nas pessoas não desaparece com essa contextualização.
Quer dizer, até muita coisa pode ser amenizada se houvesse a busca pela reconciliação. E isso só parece possível com a tomada de consciência e com pedidos de desculpas sinceros. E não é nada disso que acontece nesse Sentimental Value. Honestamente, acho que o filme vai muito bem e que ele tem uma construção excelente até perto do final. E então temos uma conclusão da história realmente decepcionante.
Mas antes de falar do final, quero voltar algumas casas nessa história. Depois daquela aproximação entre Rachel e Gustav, a jovem atriz realmente mergulha no novo projeto do diretor cult. Ela tenta entender a personagem que precisa interpretar, mas Gustav ajuda ela apenas em parte. Tem algo que ele não consegue explicar para ela. Rachel precisa entender a personagem de forma integral, mas ela não consegue avançar em uma questão fundamental: o que faz sua personagem, uma mãe preocupada e amorosa, se matar?
Toda vez que ela tenta entender essa questão e pergunta sobre a mãe de Gustav – afinal, em teoria, a mãe dele teria se matado na casa da família, onde ele pensa em rodar o filme -, ele diz que o filme não é sobre a mãe dele. Naquele flashback que comentei anteriormente, depois de ser solta da prisão e de ter passado por muitas torturas, a mãe de Gustav volta para a casa onde cresceu, se casa e tem o filho. Apesar de viver momentos de alegria com Gustav, ela parece carregar uma tristeza que não tem remédio – e uma sequência específica não deixa claro, mas deixa a entender que, de fato, ela se mata no local que Gustav aponta para Rachel (mas não com aquele banquinho da Ikea).
Caso Karin não tenha se matado – apesar disso ficar muito subentendido -, ela ao menos morreu relativamente jovem. Porque a casa acaba sendo assumida pela irmã dela, Edith (Mari Strand Ferstad), que acaba vivendo no local com uma “amiga”, Lillian (Julia Küster). Elas, claramente, eram um casal, mas na época, ou sob a ótica de Gustav, esse tipo de relação não era “assumida” ou aceita. Jovem na época, Gustav não morava mais na casa, mas passava temporadas de férias no local.
Depois que a tia dele morreu, Gustav recebeu a casa para morar. E foi ali que, depois de se casar, ele foi morar com a esposa Sissel (Ida Marianne Vassbotn Klasson). E onde Nora e Agnes cresceram. Quando se separaram, Gustav saiu de casa e Sissel seguiu morando lá. Até que ela morreu – tempo presente – e ele teve a ideia de fazer seu novo filme no local. Afinal, ele voltaria a ocupar a casa da família e considerava que não havia lugar melhor para rodar sua nova história.
Mas então, se a história da mãe de família que esperava o filho sair de casa para se matar não era a história da mãe de Gustav, essa era a história de quem? Apenas uma criação do diretor e roteirista permeada de vivências pessoais ou a protagonista de seu novo filme realmente tinha uma fonte de inspiração real? Vamos entender isso melhor depois que Agnes faz a pesquisa sobre sua avó, Karin, e que decide ler o roteiro do filme escrito pelo pai. Tem um trecho específico do roteiro que mata a charada.
(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Existe uma cena específica do roteiro, que Agnes pede para Nora ler em voz alta, em que a personagem central da história de Gustav conta sobre um momento de crise que teve em casa, sozinha. Naquele momento, ela pede ajuda, não sabe exatamente para quem, porque diz que não aguenta mais, que não vai conseguir sozinha, e que quer encontrar o seu lugar no mundo. Antes, Agnes tinha dito para Nora que acreditava que o novo filme do pai delas não falava sobre a mãe dele e sim tinha sido escrito para Nora.
Ela era a protagonista daquela história. Era o que Gustav tinha falado para a filha quando convidou ela para protagonizar o filme, mas como ela não tinha aceito o convite e não pegou o roteiro para ler, ela não sabia que, de fato, a história tinha a ver com ela. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Então sabemos que Nora já tinha tentado se matar antes e que ela estava vivendo um novo momento de crise quando Agnes a procura para falar sobre o roteiro.
Em paralelo, Rachel não consegue entender a complexidade da personagem que deve interpretar e não consegue alcançar suas motivações e, por isso, desiste do projeto. Pula fora do filme. Gustav, com o ego ferido porque percebe que seu novo projeto está em risco, que pode não sair do papel, cai na bebedeira. E acaba passando mal. E então chegamos no final dessa produção. A parte decepcionante do filme, a meu ver.
(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). As filhas vão visitar o pai no hospital e escutam ele dando em cima de uma enfermeira. O mulherengo de sempre. Elas riem, e eles poderiam ter seguido a vida a partir daí. Com um pouco mais de entendimento uns dos outros, possivelmente. Mas não. Depois da cena do hospital vemos Nora e o sobrinho dela, Erik (Øyvind Hesjedal Loven), interpretando a mãe e o filho do novo filme de Gustav. Ou seja, Nora cedeu e fez o papel que o pai queria que ela fizesse. Realizou o desejo do narcisista.
Ok, uma forma de interpretar esse final é pensar que Nora “perdoou” o pai, entendeu melhor suas motivações e viu o roteiro que ele escreveu como um “sinal” de afeto, de consideração, já que ele estava dizendo, através daquele roteiro, que conhecia e entendia um pouco a filha. Certo, essa é uma forma de olhar para esse final. Especialmente se você sabe pouco sobre personalidades narcisistas.
No final da produção percebemos que Nora se entregou, como sempre faz, para seu papel no filme do pai mas que ele e ela seguiam sem conseguirem conversar. Então o novo filme dele seria uma forma de Gustav falar com Nora? Bem, até certo ponto, sim. Mas se você conhece um pouco sobre personalidades narcisistas você sabe que o que menos interessava para Gustav era homenagear ou dialogar com Nora.
Ele fez o roteiro e fez tudo que fez para si mesmo. No passado, utilizou a filha mais nova em um dos seus filmes. Agora, utilizou a filha mais velha, uma grande atriz, já reconhecida, e seu neto, um estreante, em seu novo filme. Se, por um lado, ele estava “eternizando” todos eles com seus filmes, por outro lado ele nunca quis saber se era isso realmente que eles queriam. Fica difícil dizer não para uma figura de autoridade como um pai, não é mesmo? Ou um avô… e ele sabe disso. E se utiliza disso para conseguir o que quer, não importa o que os outros desejem.
Como a filha mais nova de Gustav não seguiu a carreira artística, fica evidente que ela não queria ser atriz – então fez o filme do pai no passado apenas porque ele quis. Agora, Nora tinha uma carreira consolidada e ascensão independente. O sobrinho dela tinha uma infância tranquila, sem nenhuma pretensão de ser artista. E os dois acabam sendo sugados por mais um projeto de Gustav. Isso é típico de um narcisista.
Sim, me incomodou muito Nora ter que se submeter mais uma vez aos desejos do pai e atender a algo que ele queria. Por não fazer terapia e por não identificar exatamente todo o jogo de poder que o pai fazia com ela e com todos, ela acaba protagonizando o novo filme dele. Para ela, talvez, aquele era um gesto amoroso, uma aproximação, talvez uma tentativa de perdão. Mas, na prática, não é isso que aconteceu. Porque o perdão dela pode vir de outra forma, muito mais consciente, mas sem que isso alimente ainda mais o ego do pai narcisista.
Verdade que o perdão dificilmente viria, naquele contexto, após uma tomada de consciência e de uma conversa franca de Gustav com Nora. Isso porque é quase impossível um narcisista fazer isso. Mas o perdão pode vir de outras maneiras. Nora não precisa esperar por um pedido de perdão do pai, por mudança de comportamento dele ou algo do gênero. Até porque isso não vai acontecer.
Mas ela pode perdoar ele e, principalmente, a si mesma. E isso pode vir exclusivamente da parte dela, sem ter que esperar por nenhum gesto ou atitude do pai. E o perdão não precisa ser declarado, ela pode ter isso para si, apenas. E, mais forte, seguir em frente sem tanto peso do passado. Mas isso só pode acontecer depois de um processo, de um tempo, e possivelmente com a ajuda de terapia.
Por tudo isso, me incomodou pensar que Nora estava participando de algo que ficaria para sempre em seu currículo. Sim, depois ela poderia seguir a carreira no teatro, ou até optar por também fazer cinema, mas ela teria sempre em seu histórico um filme feito pelo pai. Que se aproveitou de uma história muito pessoal dela – que eu desconfio que ele ficou sabendo através da ex-mulher – para escrever um novo roteiro. Sem entender tudo que a relação com o pai significava, será que no futuro ela ter aceito esse convite não seria um peso ainda maior para Nora?
Francamente, a fome de um narcisista não tem fim. E Nora participar de algo dele que seria eternizado com a imagem dela me incomodou. Se ela tivesse feito isso após um bom tempo de terapia e de ter compreendido bem quem era o pai dela e como ele “jogava” com ela e com todos, ainda vá lá. Mas tendo aceito após ele ter caído de bêbado no jardim… e apenas isso, achei complicado.
Até então, eu tinha gostado muito da narrativa de Sentimental Value, de como a produção foi construída, do trabalho excepcional dos atores, dos temas importantes que o filme aborda e da maneira cuidadosa com que o diretor e roteirista trabalha tudo isso. Mas então aquele final que premia um pai narcisista tirou muitos pontos da produção. O perdão, a meu ver, não vem da realização de todas as vontades do narcisista e sim da tomada de consciência de suas vítimas.
Ah, mas parece que Nora se sentiu acolhida e compreendida pelo pai, geralmente ausente em sua vida, por intermédio daquele roteiro. O “valor sentimental” do novo filme de Gustav teria sido o suficiente para acalentar o coração da protagonista. Será mesmo? Posso estar sendo muito pessimista aqui, mas vendo toda a facilidade que Gustav teve em trabalhar com Rachel no lugar de Nora, não acredito em nenhuma “homenagem” que ele possa ter feito para a filha.
Não vejo compreensão por parte dele, muito menos afeto, vejo que ele viu na história da filha um material interessante para produzir um roteiro que poderia ter impacto e fazer sucesso. As atitudes das pessoas falam mais do que as palavras que elas possam proferir. E todas as atitudes de Gustav nesse filme apontam para uma personalidade narcisista. Isso significa que não, ele não escreveu aquele roteiro pensando na filha, em entender ela ou acolhê-la. Ele pensou em si mesmo. E infelizmente Nora caiu nessa rede sem ter desenvolvido defesas. Uma pena. E um final que, por tudo isso, me deixou triste e fez o filme perder uma parte importante de sua graça. Uma pena.
Nada que tire a potência da história e as qualidades da produção que eu já citei antes. O roteiro de Sentimental Value é uma aula de cinema. Muito bem construído e com um desenvolvimento super interessante e envolvente. E especialmente os atores fazem um trabalho fantástico. Mas aquele final… realmente sem condições.
Enquanto O Agente Secreto (com crítica neste link) ganha muitos, mas muitos pontos mesmo com o final, Sentimental Value faz o contrário. Perde pontos justamente ali. No geral, até perto do final, eu tinha gostado mais de Sentimental Value. É o tipo de produção que eu prefiro, mais densa, mais focada no “humano, demasiado humano”, nas relações pessoais e etc. Mas como o final de qualquer filme é algo importantíssimo, pelo final das duas produções, hoje não tenho dúvida que eu prefiro O Agente Secreto do que Sentimental Value.
NOTA
9,3.
OBS DE PÉ DE PÁGINA
Cheguei até Sentimental Value porque esse é um dos fortes candidatos desse ano para o Oscar de Melhor Filme Internacional. E como vocês bem sabem, essa é a minha categoria preferida do Oscar. Então seria inevitável chegar até essa produção – assim como outras que são apontadas entre as mais fortes nessa disputa.
Quando eu vi que Sentimental Value era um filme made in Dinamarca e quais nomes estavam envolvidos na produção, fiquei feliz. Porque eu acompanha há vários anos o trabalho do diretor e roteirista Joachim Trier e gosto do que ele costuma nos apresentar. Acho ele um dos melhores nomes do cinema dinamarquês da atualidade. Antes de Sentimental Value ele conseguiu uma indicação ao Oscar pelo roteiro de Verdens Verste Menneske (The Worst Person in the World, no título para o mercado internacional, comentado por aqui no blog).
Além dessa produção que deu mais evidência para o trabalho do diretor e roteirista, eu tinha comentado aqui no blog a outro filme dele: Oslo, 31. August (com crítica neste link). Já que estamos falando de Joachim Trier, vale lembrar que ele estreou como diretor com o curta Pietà, no ano 2000. Depois, ele dirigiria mais dois curtas antes de estrear na direção de um longa, em 2006, com Reprise. Depois veio Oslo, 31. August e mais três longas antes de Verdens Verste Menneske. O filme seguinte do diretor é esse Sentimental Value.
Um dos pontos altos de Sentimental Value, claro, é o trabalho de Joachim Trier no roteiro e na direção. O roteiro, aliás, ele escreve ao lado de Eskil Vogt, seu parceiro de longa data, com quem ele escreveu todos os roteiros de seus filmes, incluindo os curtas – menos do documentário Den Andre Munch, lançado em 2018.
O roteiro de Sentimental Value e a direção de Joachim Trier são dois pontos altos da produção. O filme é muito bem construído e tem uma narrativa perfeita – apesar do final não ter me agradado, mas isso não tira o mérito da produção. O diretor valoriza detalhes do cenário – especialmente da casa da família – e, claro, o trabalho do elenco. Mais um trabalho de qualidade dele, que segue em uma trajetória muito interessante e focada nas relações humanas.
Outro ponto alto do filme é seu elenco. E, nesse sentido, fiquei muito feliz em encontrar Renate Reinsve novamente como protagonista da história. Eu acho essa atriz fascinante. Ela não é apenas belíssima, mas ela tem uma presença em cena realmente diferenciada. Ela nos hipnotiza, encanta, envolve. E nesse papel, em especial, ela está muito, muito bem. Para mim, ela merecia o Oscar de Melhor Atriz e mais diversos outros prêmios. Bem, sou suspeita para falar dela. Realmente acho que ela subiu mais alguns degraus nesse filme, se compararmos com o trabalho que ela apresentou em Verdens Verste Menneske. Como o diretor, ela parece melhor a cada novo trabalho.
Eu disse que daria o Oscar de Melhor Atriz para Renate Reinsve mas, ao dizer isso, eu sei também que me falta um bocado de base ainda… afinal, ainda não assisti ao trabalho das outras fortes concorrentes do ano. Então sim, é prematuro comentar isso aqui, de quem merece o Oscar neste ano. Mas eu sou fã de Renate, admito. E ela está impecável, a meu ver, nesse trabalho. A exemplo de Fernanda Torres no ano passado.
Junto com Renate, temos outros dois excelentes atores em cena. Para começar, o veterano Stellan Skarsgård dá um show como o pai da protagonista e de sua irmã. O papel dele nessa produção, a exemplo do papel de Renate Reinsve, é bastante complexo. Gustav Borg tem diversas camadas e, apesar de ser um pai narcisista, ele tem diversas nuances. Consegue ser um cretino em diversos momentos e, ao mesmo tempo, um cineasta criativo e um homem que procura ser encantador.
E Stellan Skarsgård consegue nos apresentar essas e diversas outras facetas do personagem com perfeição, sem exagero ou maneirismos. Para mim, outro trabalho impecável e digno de Oscar e de outros prêmios.
Finalizando o trio de destaque de Sentimental Value, claro que preciso citar o excelente trabalho de Inga Ibsdotter Lilleaas como Agnes, a irmã mais nova da protagonista Nora. Honestamente, eu não lembro de ter visto essa atriz em cena antes. Mas, para tirar a dúvida, procurei pelo nome dela aqui no blog e, realmente, não encontrei uma menção sobre ela. Então, apesar da atriz ter 17 títulos no currículo, incluindo longas, curtas e séries de TV, Sentimental Value é o primeiro título que vejo ela em cena. E gostei muito do que ela apresenta. Achei o trabalho de Inga também muito bom, acima da média, em uma entrega verdadeira e muito coerente do início ao fim. Ela faz uma bela parceria com os nomes que eu já citei e com outros que aparecem em papéis menores.
Considero que Inga Ibsdotter Lilleaas tem menos chances de ganhar um Oscar do que os outros parceiros de cena. Mas, caso isso acontecesse, não seria uma injustiça. Claro, pondero novamente que eu preciso assistir a outros filmes cotados para o Oscar, mas ela faz um trabalho digno de prêmio aqui. Acho que é um nome que merece ser acompanhado.
Esse trio é o núcleo central da história e os nomes que merecem ser destacados pelo excelente trabalho que fazem em Sentimental Value. Eles são o coração do filme, conduzem a parte central da trama. Mas, além deles, existe um outro grupo de atores que, mesmo em papéis menores, fazem um bom trabalho em cena.
Nesse sentido, vale citar o belo trabalho de Elle Fanning como Rachel Kemp, a atriz de Hollywood que deseja fazer um trabalho diferenciado e que tenta trabalhar com Gustav em seu novo projeto; Andreas Stoltenberg Granerud como Even, marido de Agnes e pai de Erik, interpretado por Øyvind Hesjedal Loven; Anders Danielsen Lie, que já estrelou outros filmes do diretor, aparece aqui em um papel bem menor como Jakob, ator de teatro que tem um caso com a protagonista.
Em aparições muito menores, praticamente pontas, aparecem nomes como Ida Marianne Vassbotn Klasson, que interpreta Sissel Borg, mãe de Nora e de Agnes; Vilde Søyland como Karin Borg, mãe de Gustav e avó da protagonista e da sua irmã; Mari Strand Ferstad como Edith Irgens, irmã de Karin; Julia Küster como Lillian, a companheira de Edith; Jesper Christensen como Michael, o produtor que apoia Gustav na fase inicial do desenvolvimento de seu novo projeto; Lena Endre como Ingrid Berger, a preparadora de elenco do novo filme de Gustav; e Lars Väringer como Peter, o antigo parceiro de filmes de Gustav, diretor de fotografia, que está mais envelhecido e com alguma limitação física e que acaba sendo “descartado” por Gustav sem cerimônias depois que eles tem um reencontro na casa dele – mais um indicador de que o diretor e roteirista está mais preocupado com seu novo filme do que com as pessoas.
Aliás, a cena do encontro entre Gustav e Peter é especialmente interessante por certa ironia que os roteiristas colocam naquela sequência. Gustav elogia o casão em que Peter está morando e ele brinca que ele deve isso a Lasse Hallström e não a ele – hahahaha, eu ri nessa parte, porque demonstra uma certa “rivalidade” entre os realizadores e os grandes nomes do cinema.
Da parte técnica do filme, vale citar a direção de fotografia de Kasper Tuxen; a trilha sonora de Hania Rani; a edição de Olivier Bugge Coutté; o design de produção de Jørgen Stangebye Larsen; a direção de arte de Marius Winje Brustad, Joy Klasen e Mirjam Veske; a decoração de set de Catrine Gormsen; e os figurinos de Ellen Dæhli Ystehede.
A exemplo do título do filme brasileiro O Agente Secreto, o título de Sentimental Value também merece uma consideração à parte. No original, o filme se chama Affeksjonsverdi. Coloquei a palavra no Google Tradutor, já que não falo norueguês, e ele informou que a palavra seria traduzida para o português como “valor de carinho”. Ou seja, o título traduzido para o mercado internacional e para o mercado brasileiro é bastante coerente. Mas de que valor sentimental estamos falando aqui?
Existe uma sequência em específico que nos remete para o que o título pode querer significar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Depois do velório da mãe, passado um tempo, Agnes está na casa onde a mãe delas morava – e onde ela e a irmã cresceram – e se encontra com Nora para elas verem juntas que objetos da mãe cada uma vai querer e o que elas irão “mandar embora”. Nora parece não se interessar por nada, mas Agnes provoca a irmã a ficar com algo da mãe, porque há várias coisas bonitas, e porque isso seria uma lembrança para elas – teria um “valor sentimental”. Mas aí está a provocação do título.
De que valor sentimental nós estamos falando? Não parece que Nora era próxima da mãe ou que tem boas lembranças de nada que estava naquela casa. Então, no fim das contas, seria o roteiro escrito pelo pai dela que teria esse “valor sentimental”? As perguntas ficam no ar. E acho que cada um sabe que objetos carregariam esse tal valor e de que sentimento estamos falando, afinal. O que merece ser preservado e ir com a gente? Acho que isso é bastante simbólico e tem tudo a ver com o que o filme nos mostra, provoca a pensar e a debater.
Agora, vale citar algumas curiosidades sobre o filme. A ideia do filme surgiu depois que a casa da família de Joachim Trier foi colocada à venda. O diretor e roteirista então se perguntou o que seus pais e avós haviam passado no local ao longo da vida, assim como pensou na perspectiva das crianças sobre a casa em que elas cresceram. A ideia dessa casa, importante para várias gerações de uma família, foi o ponto de partida para Trier abordar temas mais complexos, como o que acontece na vida das pessoas e as expectativas que elas têm.
Segundo as notas de produção do filme, Sentimental Value recebeu uma ovação de 19 minutos depois que ele foi exibido no 78º Festival de Cinema de Cannes.
Paul Thomas Anderson, Pedro Almodóvar e Paul Schrader colocaram Sentimental Value como um dos seus filmes favoritos de 2025.
Por falar em festivais e premiações de cinema, até o momento Sentimental Value ganhou 34 prêmios e foi indicado a outros 234 – principalmente o número de indicações chama a atenção. Entre os prêmios que o filme recebeu até o momento, destaque para o Grande Prêmio do Festival de Cannes – atenção que não se trata da Palma de Ouro, mas de outro grande prêmio; para o Prêmio da Audiência Internacional conferido no Festival de Cinema de Munique e para o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante para Inga Ibsdotter Lilleaas na premiação do National Board of Review.
Sentimental Value foi indicado em oito categorias do Globo de Ouro 2026, premiação que vai ser entregue logo mais – agora faltam poucas horas para a entrega dos prêmios. O filme foi indicado nas seguintes categorias: Melhor Filme – Drama; Melhor Atriz – Drama para Renate Reinsve; Melhor Ator Coadjuvante para Stellan Skarsgård; Melhor Atriz Coadjuvante para Elle Fanning; Melhor Atriz Coadjuvante para Inga Ibsdotter Lilleaas; Melhor Diretor para Joachim Trier; Melhor Roteiro e Melhor Filme em Língua Não-Inglesa.
De acordo com o site IMDb, Sentimental Value teria custado cerca de US$ 7,8 milhões – um custo baixíssimo, para os padrões do cinema, especialmente se pensarmos em Hollywood, o que torna o filme independente e alternativo – e faturado, apenas no mercado dos Estados Unidos e do Canadá, cerca de US$ 4,1 milhões. Segundo o site Box Office Mojo, nos outros mercados em que o filme já estreou ele faturou quase US$ 11 milhões, com destaque para a Noruega, onde ele fez US$ 3,8 milhões, seguido da França, onde ele faturou quase US$ 3,5 milhões.
Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para essa produção – uma boa nota, considerando o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no site Rotten Tomatoes dedicaram 212 críticas positivas e sete negativas para o filme, o que garante para Sentimental Value um nível de aprovação de 97%. O site Metacritic, por sua vez, apresenta o “metascore” 86 para essa produção, fruto de 40 críticas positivas e de quatro críticas mescladas. O site ainda apresenta o selo “Metacritic Must-see” para Sentimental Value.
Sentimental Value é uma coprodução da Noruega com a Alemanha, a Dinamarca, a França, a Suécia, o Reino Unido e a Turquia. Apesar de ter recursos de todos esses países, ele é o representante da Noruega no Oscar deste ano.
CONCLUSÃO
Um filme carregado de sentimentos, de diferentes percepções sobre a mesma realidade e de amor à arte. Sentimental Value trata sobre as relações pessoais, seja na coxia do teatro, nos bastidores do cinema ou, em especial, daquelas que desenvolvemos dentro de casa. Trata sobre família, ausências, mecanismos de defesa e de sobrevivência.
Sobre como questões do passado podem perdurar por muito tempo e terem peso e força no presente sem nos darmos conta. Um filme muito bem escrito, com um desenvolvimento interessante e diferente, que nos faz ficar tensos por boa parte do tempo mas que também tem momentos de leveza. Sentimental Value se destaca, em especial, pelo excelente trabalho dos principais atores em cena.
Uma produção que entra fundo nas relações humanas, especialmente de um pequeno núcleo familiar, e que trata de temas como psicologia e arte. A capacidade que cada um tem de nos desvelar e nos representar. Uma bela produção, muito bem desenvolvida, mas que tem um final decepcionante. E justamente o final… Uma pena. Sentimental Value poderia ser um dos melhores filmes do ano. E mesmo ficando na nossa memória por um bom tempo, ele acaba ficando menor do que poderia por causa da conclusão da história.
PALPITES PARA O OSCAR 2026
Cheguei em Sentimental Value porque estou de olho nos principais filmes com chances na próxima premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Quem está acompanhando esse tema sabe que essa produção, juntamente com It Was Just an Accident, são os filmes que concorrem de forma mais franca com o brasileiro O Agente Secreto.
E claro que, independente se eu acho ou não O Agente Secreto o melhor filme do ano, estarei sempre na torcida pelo filme brasileiro. Seria um sonho ver o Brasil levar um segundo Oscar para casa, depois de Ainda Estou Aqui (com crítica neste link) ter conseguido esse feito inédito no Oscar do ano passado. Levamos tanto tempo para termos nosso cinema reconhecido pelos votantes da Academia, então seria incrível ter esse segundo reconhecimento na sequência.
Mas vamos lá, vamos falar sobre as chances de Sentimental Value no Oscar deste ano. Para mim, é certo que o filme vai concorrer com O Agente Secreto em Melhor Filme Internacional. Pela campanha que Sentimental Value fez até agora e pela qualidade do filme também, acho impossível ele não chegar entre os cinco indicados nessa categoria.
E há quem aposte que o filme vai emplacar em muitas outras categorias. Segundo as bolsas de apostas, Sentimental Value tem sérias chances de receber as seguintes indicações: Melhor Filme; Melhor Diretor para Joachim Trier; Melhor Atriz para Renate Reinsve; Melhor Atriz Coadjuvante para Inga Ibsdotter Lilleaas; Melhor Ator Coadjuvante para Stellan Skarsgård; Melhor Roteiro Original; Melhor Elenco e Melhor Filme Internacional.
Ou seja, se as bolsas de apostas estiverem certas, Sentimental Value poderia ser indicado em oito categorias. Um belo feito para uma produção europeia que tem o inglês apenas como uma língua secundária – o idioma principal do filme é o norueguês, mas é falado francês durante a produção também.
Vale comentar que Sentimental Value aparece avançando na disputa por uma vaga em três categorias do Oscar nas relações curtas que a Academia divulgou no dia 16 de dezembro. O filme avançou nas “shortlists” do Oscar nas categorias Melhor Elenco; Melhor Fotografia e Melhor Filme Internacional.
Mas em que categorias Sentimental Value teria as melhores chances para levar um Oscar para casa? Segundo as bolsas de apostas, o filme venceria em apenas uma categoria: Melhor Ator Coadjuvante para Stellan Skarsgård. Sou suspeita para falar, porque acho que ele, assim como Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas fazem um trabalho excepcional, irretocável nesse filme. Os três, para mim, mereciam levar o Oscar para casa. Francamente, até agora, não vi ninguém com um trabalho melhor que eles em cena.
Verdade que ainda faltam muitos filmes dessa temporada para assistir. Não vi ao trabalho de muitos dos concorrentes de Stellan, Renate e Inga. Mas, até o momento, o meu voto iria para os três. Agora, se de fato apenas Stellan Skarsgård conseguir levar um Oscar para casa, já será um grande feito. Esse ator veterano, um dos grandes nomes do cinema sueco e que fez uma parte importante da sua carreira nos Estados Unidos, nunca foi indicado ao Oscar – esse “esquecimento” por parte da Academia já é uma surpresa.
Agora imaginem um ator dessa importância e envergadura, veterano como ele é, receber sua primeira indicação ao Oscar e já ganhar uma estatueta nessa estreia? Seria muito bacana. E merecido. Além dele fazer um trabalho excelente em Sentimental Value, ele levar um Oscar para casa seria também um pouco o reconhecimento pela carreira que ele fez até aqui. Algo que não é inédito no Oscar, devemos dizer.
Segundo as bolsas de apostas, seria isso. Apenas um Oscar para Sentimental Value. A produção perderia na categoria Melhor Filme Internacional para O Agente Secreto. Olha, tomara. Estou na torcida pelo filme brasileiro. E, como comentei anteriormente, na crítica desse Sentimental Value, realmente comparando os dois filmes, acho O Agente Secreto melhor.
Pelo conjunto da obra, acho que os dois empatariam. Cada um a sua maneira, com temáticas e desenvolvimentos da história bem diferentes, eles empatariam no geral. Mas o final… O Agente Secreto tem um impacto especial pelo final, enquanto Sentimental Value perde força e decepciona justamente nessa parte. Então sim, acho que seria justo O Agente Secreto ganhar como Melhor Filme Internacional. E acho que já seria um prêmio para Sentimental Value receber oito indicações ao Oscar – o que vai dar ainda mais visibilidade para o filme – e sair com uma estatueta dourada da premiação.
Ah, segundo as bolsas de apostas, Sentimental Value estaria na sexta posição na disputa na categoria Melhor Filme – atualmente liderada por Marty Supreme, que desbancou o antes favorito Sinners; na quinta colocação em Melhor Diretor; na terceira posição em Melhor Atriz (Renate Reinsve estaria atrás de Rose Byrne e Jessie Buckley); em terceiro lugar também em Melhor Atriz Coadjuvante (Inga Ibsdotter Lilleaas estaria atrás de Teyana Taylor e Amy Madigan); em segundo lugar em Melhor Roteiro Original (atrás de Sinners); e em quinto lugar em Melhor Elenco.
Ou seja, se o filme for “surpreender” em alguma categoria, seria naquelas em que ele aparece na segunda posição. Ou seja, ele teria chances, além de Melhor Ator Coadjuvante, em Melhor Roteiro Origina e Melhor Filme Internacional. Teremos que esperar para ver se o filme vai realmente emplacar várias indicações no Oscar e então acompanhar as outras premiações importantes que antecedem a entrega dos prêmios da Academia para saber como ele estará na disputa. Veremos.