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Ahlat Agaci – The Wild Pear Tree – A Árvore dos Frutos Selvagens

Fazer as pazes com as suas origens nem sempre é algo simples. Muitas vezes, insatisfeitos que somos – ou podemos nos tornar -, questionamos o lugar de onde viemos, assim como nossos pais. Mas esta é uma visão inocente dos fatos. Com o tempo, e o efeito dele é algo maravilhoso, percebemos tudo sob outra perspectiva. Com menos dureza, com menos julgamento, com maior compreensão e afeto. Ahlat Agaci é um filme potente sobre isso. Um filme longo, é verdade, com cerca de 3h de duração, mas que justifica esse investimento de tempo e paciência especialmente no final. Um filme belíssimo, sensível e com uma proposta diferenciada. Um achado.

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Werk Ohne Autor – Never Look Away – Nunca Deixe de Lembrar

Um filme que começa de forma muito interessante, nos trazendo à memória como parte do povo alemão sofreu na pele a ideologia nazista. Mas Werk Ohne Autor não é uma produção comum sobre a Segunda Guerra Mundial. Ainda que trate de temas fortes daquela época, Werk Ohne Autor trata, sobretudo, sobre o poder da arte. Não apenas para inspirar, mas também para mover e salvar vidas. A essência do autor deve estar na sua obra, isso essa produção deixa muito claro. Mas quem nos inspira, no final? Alguns que puderam ser considerados loucos. Um filme muito bem conduzido e interessante, ainda que seja preciso trabalhar com dois ritmos muito diferentes ao longo da produção – o que não necessariamente funciona com perfeição.

A HISTÓRIA: Começa em Dresden, em 1937. E uma galeria, em uma visita guiada, um alemão fala sobre a Arte Moderna. Ele comenta que ela existia antes da Alemanha Nazista, mas que, agora, eles querem novamente uma arte alemã. Essa arte, segundo ele, estamparia os valores alemães. No grupo de pessoas que visitam o museu, estão Elisabeth May (Saskia Rosendahl) e o seu sobrinho, Kurt Barnert (Cai Cohrs). Durante a visita, quem os guia no museu diz que os artistas que fazem Arte Moderna tem falhas na visão, que podem decorrer de acidente ou de herança. Sugere que, se for o segundo caso, os nazistas podem atuar para que esse problema não se perpetue. Em breve a família de Elisabeth e de Kurt vivenciarão uma situação como a sugerida por ele.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Werk Ohne Autor): Esse era o único filme que faltava para que eu conseguisse completar a lista das cinco produções que concorreram ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2019. Cinema alemão, do qual eu gosto tanto – só não mais que o cinema francês. E obra de um diretor do qual eu aprecio também o trabalho, Florian Henckel von Donnersmarck – que fez, antes, o interessantíssimo Das Leben der Anderen (comentado aqui no blog).

Para falar a verdade, eu não tinha acompanhado mais a von Donnersmarck. Tanto que eu não sabia, por exemplo, que após Das Leben der Anderen ele havia lançado apenas um outro filme, The Tourist, com Johnny Depp e Angelina Jolie e que, em seguida, ele ficou oito anos longe dos lançamentos nos cinemas. Depois de impressionar a muitos com Das Leben der Anderen, parece que ele foi “contaminado” por Hollywood com o comercial The Tourist e voltou para as suas origens vários anos depois com esse Werk Ohne Autor.

O filme tem dois momentos muito diferentes. E isso chega a ser impactante. A diferença entre a primeira parte do filme e o que vemos depois é marcante. Funciona bem? Acho que o diretor começa forte, de maneira impactante, e que depois ele perde um pouco da força abraçando uma trajetória mais “plana” do protagonista, digamos assim. Por outro lado, isso também é interessante, não apenas para mostrar que a arte não precisa ser visceral como que não precisamos ter os nossos “desejos” de plateia por sangue, vingança ou afins atendido.

Werk Ohne Autor foca na história de um artista. Não por acaso a narrativa acompanha esse artista, vivido, na etapa adulta, pelo ator Tom Schilling e, quando criança, por Cai Cohrs, desde a sua infância. Quando era muito jovem, ele foi marcado e inspirado pela tia Elisabeth May (a ótima Saskia Rosendahl). Ela é uma pessoa à frente do seu tempo, muito sensível e com forte apreço pelas artes, mas acaba sendo diagnosticada como esquizofrênica.

O problema é que eles viviam, quando ela era jovem, justamente durante o regime nazista. Naquele momento, não importa se você fosse alemão ou estrangeiro. Se você tinha algum problema de saúde ou alguma doença mental, você era considerado “inferior” e não “merecia” dividir os recursos públicos com pessoas “saudáveis”. Francamente, especialmente pelas atitudes de Elisabeth quando ela estava internada, apresentando uma visão tão crítica e sensível, tenho sérias dúvidas se ela realmente sofria de esquizofrenia.

Será que ela não poderia ter sofrido apenas com uma crise nervosa? Relativamente limitada no interior da Alemanha e bastante pressionada na adolescência, quem nos garante que ela não tinha sofrido apenas com uma carga grande de estresse? E ainda que não fosse isso, que ela realmente tivesse esquizofrenia, hoje sabemos que essa doença mental tem tratamento e pode ser controlada.

A parte inicial do filme, especialmente quando é mostrada uma reunião de oficiais do Reich, é de arrepiar. Sob o comando do Dr. Burghart Kroll (Rainer Bock), o professor Carl Seeband (Sebastian Koch) e outros médicos responsáveis por clínicas e hospitais espalhados pela Alemanha, ganham o poder de determinar quem viveria e morreria sob as ordens do regime nazista. A ideia de Kroll era eliminar todas as pessoas que tinham doenças mentais e que eram consideradas, por isso, inferiores. Na cabeça doentia daquelas pessoas, eles estariam fazendo um “favor” para as gerações futuras.

Apenas ao assinalar uma cruz vermelha – ou um sinal de mais – na ficha dos pacientes, Seeband e seus colegas estavam decretando o envio das pessoas para campos de extermínio na parte “oriental” do país. O cinema alemão não tem problema em lembrar que o extermínio de milhões de pessoas não focou apenas em judeus, mas em outras pessoas que eram consideradas “inferiores” ou “non gratas” pelo regime nazista e criminoso do Reich.

Depois daquela introdução marcante e impactante, Werk Ohne Autor desacelera bastante. Mas isso não faz com que a produção deixe de ser interessante ou fique enfadonha. Muito bem conduzida por von Donnersmarck, Werk Ohne Autor acompanha o sobrinho de Elisabeth, Kurt, em sua jovem vida adulta. Ele também parece ter uma visão diferenciada do mundo, como a tia. Mas vivendo uma época pós-guerra e com a família tendo aprendido com a história de Elisabeth, Kurt não segue o mesmo caminho da tia.

A partir daí, vemos como ele evoluiu em sua busca pela arte. Inicialmente, ele se desenvolve na parte comunista da Alemanha, onde consegue sucesso seguindo a ideologia que faz parte daquela realidade. Mas ele não está satisfeito. Buscando por liberdade artística e por reconhecimento da vanguarda desta área na época, Kurt migra com a namorada, Elisabeth Seeband – que ele prefere chamar de Ellie (Paula Beer), para a parte ocidental da Alemanha.

Nessa parte da produção, mergulhamos na lógica da arte moderna e da busca dos artistas por sua própria identidade e expressão desta identidade para os demais. Se a tia do protagonista o influenciou a começar a sua trajetória, é o professor Antonius van Verten (Oliver Masucci) que o incita a amadurecer na sua linguagem artística. Ainda que ele parece ter se “decepcionado” com o pupilo inicialmente, a sua crítica e a sua própria história ajudam Kurt a encontrar a linguagem e o foco que ele precisa para expressar o que ele acreditar ser a sua identidade.

Interessante a forma com que a produção explora as diferentes escolas artísticas, o quanto a política e a vida influenciam a arte. A busca do artista por sua própria voz é sempre algo admirável e que rende boas histórias. O foco principal de Werk Ohne Autor é esse, assim como contar, é claro, parte do que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial e no pós-guerra a partir da ótica de alguns alemães.

O período da guerra e do pós-guerra visto pela ótica dos alemães que não aderiram ao regime – mas que foram um tanto “forçados” a aceitá-lo para sobreviver – é um dos pontos de interesse do filme. Assim como aquela busca da essência artística do protagonista. Para embalar a história – e torná-la mais “comercial”, talvez? – o diretor e roteirista também nos apresentam uma história de amor inicialmente “impossível”.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Afinal, alguém quer algo mais improvável e “mundo pequeno” do que o sobrinho da garota que é morta por Seeband e que tinha o mesmo nome que a filha dele se apaixonar justamente pela filha do carrasco de sua tia? Elas terem o mesmo nome é algo marcante também, especialmente porque a tia do protagonista implorou para o médico como se fosse a sua filha.

Claro que, conforme a história se desenrola, parece que em algum momento virá a tona a verdade sobre a tia de Kurt e seu carrasco. Esse risco existe, mas a revelação acaba não acontecendo. Seeband, claro, mata a charada ao ver as obras de Kurt, mas o genro “desafeto” dele acaba sem entender a reação do sogro e não tem revelado o mistério da tia. Com isso, parece, von Donnersmarck está nos mostrando que a vida é cheia de encontros e de coincidências, mas que nem todas as histórias tem as revelações e as resoluções que gostaríamos ou que veríamos em novelas.

Apesar de ter feito um juramento como médico, de salvar vidas, Seeband era, acima de tudo, um nazista convicto. Ele é tão carniceiro e preconceituoso que não se importou de praticamente tirar a possibilidade da própria filha engravidar apenas para “impedir” que um sujeito que ele considerava inferior – afinal, Kurt era um artista e vinha de uma família que não era tradicional ou poderosa – tivesse um filho com ela.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ainda que o filme não nos entregue a “vingança” ou ao menos a queda de máscara de Seeband, mas ele avança com um final feliz dos sobreviventes do Holocausto. Kurt e Ellie conseguem ficar juntos e ela consegue engravidar, que é muito mais e o contrário do que o pai da garota desejaria. Kurt também consegue desenvolver o seu próprio estilo artístico, ainda que a crítica considere a sua arte “sem autor”.

O título original do filme, em alemão, faz alusão a isso, a uma arte “sem autor”. O título para o mercado internacional explora a frase que a tia do protagonista falava para ele – de nunca desviar o olhar. Para o Brasil, o título foi levemente modificado e faz alusão às memórias do artista sobre o próprio passado. Por incrível que pareça, os três títulos fazem sentido – apesar de, claro, quererem explorar aspectos diferentes da história.

Vamos falar do primeiro. Para os críticos que avaliam o trabalho de Kurt Barnert, ele é um dos maiores expoentes da arte do seu tempo, da sua geração. Eles elogiam o trabalho que ele faz, mas consideram que o que ele responde não é satisfatório. Por não conseguirem as respostas que desejam, os críticos consideram que a arte dele é “sem autor”. Isso fala muito sobre os nossos dias, inclusive. Os críticos e o público em geral desejam determinadas respostas e que seus desejos sejam satisfeitos, independente do que o autor deseja comunicar.

Me desculpem os críticos e o público que “funciona” com esta lógica, mas eu funciono com uma lógica diferente. Respeito o que os artistas comunicam e o que eles querem expressar. Não quero que tudo satisfaça o meu gosto ou as minhas expectativas. Para mim, o importante é que a arte faça sentido e/ou que me emocione.

Uma prova desta falta de abertura para o que o autor deseja comunicar é o que vimos recentemente com o final de Game of Thrones. As pessoas levam para tudo a cultura do “futebol”. Ou seja, havia um “team Daenerys” e um “team Jon”. Para estes times, só existia um final possível: a vitória de seus personagens no final. Qualquer outra possibilidade seria um “lixo”. Não é isso que vemos em Werk Ohne Autor também quando os jornalistas e críticos entrevistam Kurt e não conseguem dele as respostas que desejam?

Não importa a frustração ou as expectativas de quem assiste ou aprecia a algo. O ego deveria ser deixado de lado para entender a ótica do outro, do artista, suas motivações, sua história, seus sentimentos e todo o contexto que circunda aquela obra. O mesmo vale para o cinema. Devemos entender o que cada cineasta deseja nos passar antes de saber se aquilo fez ou não sentido para cada um de nós. A partir daí pode surgir a nossa crítica, embasada não apenas em gostos pessoais e em “torcidas” estilo futebol.

A frase dita por Elisabeth e que sempre inspirou Kurt tem a ver com o ensinamento de nunca ter medo de nada, de enfrentar a vida de frente e de não ter vergonha de ser o que se é. Uma frase potente, simples e que acaba moldando um bocado a percepção que o protagonista tem do mundo. Finalmente, a frase que acabou sendo usada no título do filme no mercado brasileiro tem a ver com a busca do próprio cineasta, do cinema alemão e do país em não esquecer o seu passado, até para evitar que ele se repita. Tudo isso é importante, e tudo isso ajuda a explicar esta produção.

Gostei de Werk Ohne Autor. Apesar de longo, por ser muito bem construído e por atores carismáticos como protagonistas, o filme não cansa. Passa até meio que rápido. No final das contas, essa produção tem uma narrativa clássica, linear e um pouco previsível. Nos surpreende mais apenas no início, mas depois segue uma vertente confortável.

Essa não é uma produção inesquecível, mas é um filme bem feito e bem realizado. Mais uma obra interessante sobre o regime nazista e o pós-guerra, explorando algo que não é comum de ser mostrado no cinema sobre esta época, que é justamente como os artistas se comportavam e trabalhavam nas “duas Alemanhas” que restaram após a derrota de Hitler e seus cães de guerra. Por ter esse toque diferenciado, assim como pela maneira com que a produção encara o fazer artístico e a crítica da arte, Werk Ohne Autor merece ser visto.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Último filme da lista dos principais concorrentes ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira deste ano, Werk Ohne Autor mostra a força do cinema alemão. Mas não achei o melhor filme da temporada. Particularmente, prefiro Shoplifters (com crítica neste link), Capernaum (comentado por aqui) e até mesmo produções que não chegaram entre as finalistas, especialmente Den Skyldige (comentado neste link) e Beoning (com crítica por aqui). Gostei mais desses filmes todos do que da produção que levou o Oscar para casa, Roma (com crítica neste link). Mas o filme vencedor é melhor que este Werk Ohne Autor? Acho que eles empatam, ao menos nos quesitos direção e fotografia. Em termos de roteiro, me parece que até o filme alemão apresenta elementos mais interessantes e que fazem pensar do que o filme de Cuarón.

Um dos pontos altos de Werk Ohne Autor é a sua direção de fotografia. Assim como outra produção indicada a Melhor Filme em Língua Estrangeira nesse ano, Cold War (com crítica neste link). Em Werk Ohne Autor esse trabalho leva a assinatura de Caleb Deschanel. Também vale destacar a ótima trilha sonora de Max Richter e a edição de Patricia Rommel e Patrick Sanchez Smith. Todos fazem um belo trabalho. O diretor Florian Henckel von Donnersmarck também consegue equilibrar bem todos os elementos em cena, exprimir ótimas interpretações dos atores e valorizar a parte artística da produção. Apenas o seu roteiro achei um tanto previsível e “clássico demais” na segunda parte – após aquele começo potente e impactante. Mas o trabalho dele não é ruim.

Falando nos grandes méritos do filme, além da direção segura de von Donnersmarck, da direção de fotografia de Deschanel e da trilha sonora de Richter, vale destacar o carisma dos protagonistas, especialmente de Tom Schilling e de Paula Beer. A atriz Saskia Rosendahl aparece menos do que gostaríamos, mas também esbanja carisma e beleza. Os três são o ponto alto da produção, sem dúvida. Não exageram nas interpretações e passam a veracidade necessária para nos convencer de seus personagens. O ator Sebastian Koch, veterano, também faz um belo trabalho.

Além deles, vale comentar o bom trabalho de outro veterano, Oliver Masucci, bem como o professor de arte Antonius van Verten; Hanno Koffler bem como Günther Preusser, que se torna amigo de Kurt na escola de arte; Evgeniy Sidikhin como o major russo Murawjow, que acaba protegendo Seeband depois que o médico ajuda no parto de seu primeiro filho; o talentoso Jörg Schüttauf como Johnann Barnert, pai de Kurt e mais uma vítima do regime nazista – mesmo sem apoiar o regime, ele teve que se filiar ao partido e acabou pagando caro por isso; Jeanette Hain como Waltraut Barnert, mãe de Kurt e irmã de Elisabeth; Ina Weisse como Martha Seeband, mãe de Ellie; o veterano Rainer Bock quase em uma ponta como o Dr. Burghart Kroll, comandante do extermínio; David Schütter como o artista Adrian Schimmel/Finck, que acaba “empresariando” o colega Kurt; e os atores jovens que interpretaram os protagonistas quando crianças/adolescentes, a saber: Cai Cohrs interpreta Kurt aos 6 anos de idade e Oskar Müller o interpreta quando ele teria 13 anos; e Mina Herfurth interpreta Ellie aos 6 anos.

Além do elenco e dos aspectos técnicos já comentados, vale citar o bom trabalho de Silke Buhr no design de produção; de Theresia Anna Ficus, Markus Nordemann, Robert Reblin, Marek Warszewski e de Jiri Zavadil na direção de arte; de Julia Roeske e de Yvonne von Krockow na decoração de set; e de Gabriele Binder nos figurinos.

Werk Ohne Autor estreou em setembro de 2018 no Festival de Cinema de Veneza. No mesmo mês o filme estreou nos festivais de cinema de Toronto e de Zurique. Depois, a produção passaria, ainda, por outros oito festivais em diversos países. Nessa trajetória, o filme ganhou quatro prêmios e foi indicado a outros 13, incluindo as indicações para os Oscar’s de Melhor Filme em Língua Estrangeira e Melhor Direção de Fotografia no Oscar 2019. A produção também foi indicada ao Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Os prêmios que o filme recebeu foram o de Melhor Ator – Nacional para Sebastian Koch no Bambi Awards; o de Melhor Produção no Bavarian Film Awards; o de Melhor Filme em Competição na mostra Arca CinemaGiovani Award e o Leoncino d’Oro Agiscuola Award para Florian Henckel von Donnersmarck, ambos entregues no Festival de Cinema de Veneza.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. Durante o filme, fiquei me perguntando o quanto da história poderia ter relação com alguma história real. Segundo os produtores de Werk Ohne Autor, o filme é “vagamente baseado” na história do artista alemão Gerhard Richter. Parece que foi “levemente” inspirado mesmo, porque Richter reagiu à produção dizendo que ela apresentava “abuso e distorção gritante” da sua biografia.

Procurando mais sobre Richter, vi que ele já rendeu alguns documentários interessantes. Nascido em 1932 na cidade de Dresden, na Saxônia, o artista começou a ser retratado pelo cinema em 1994 com o curta para a TV Gerhard Richter. Em 1999, ele apareceu no documentário Speaking of Abstraction: A Universal Language. Depois, em 2005, foi foco do documentário Gerhard Richter: 4 Decades. Outro documentário focado nele foi lançado em 2011, Gerhard Richter Painting. Segundo a Wikipédia, o pintor alemão viveu mais de 16 anos “debaixo do comunismo” na Alemanha Oriental antes de se mudar para a Alemanha Ocidental em 1961.

Segundo este artigo de 2005 da Deutsche Welle sobre Richter, o “superstar alemão” produzia obras que valiam até US$ 9 milhões e foi considerado, pela Art Newspaper em março de 2002, o “artista vivo mais caro” do mundo – ao menos no início dos anos 2000. Segundo o artigo, em 40 anos de carreira, o estilo de Richter mudou continuamente, passando por pop art, fotorrealismo, arte conceitual e minimalista, chegando até a pintura abstrata. Também criou objetos, fotocolagens e instalações.

Para quem deseja ver mais sobre a obra diversificada do artista que inspirou o filme, vale dar uma conferida na página dedicada para ele do site Artsy.

O professor de arte de Kurt é inspirado no artista Joseph Beuys, que foi chefe do departamento de escultura na Kunstakadamie em Dusseldorf no início dos anos 1960. Foi nessa época, também, que o artista Gerhard Richter se matriculou na escola de arte pela primeira vez.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 74 críticas positivas e 23 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 76% e uma nota média de 7,31. O site Metacritic apresenta um “metascore” 69 para Werk Ohne Autor, fruto de 17 críticas positivas, sete medianas e uma negativa.

De acordo com o site Box Office Mojo, Werk Ohne Autor faturou cerca de US$ 1,3 milhão nos Estados Unidos. Pouco, se comparado com um filme americano, mas um resultado razoável para uma produção estrangeira com três horas de duração. Até porque o filme estreou em apenas 122 cinemas do país.

Werk Ohne Autor é uma coprodução da Alemanha com a Itália. Há algum tempo, aqui no blog, vocês votaram pedindo por mais críticas de filmes alemães. Por isso, essa crítica passa a figurar na lista de textos que atendem à votações feitas aqui no blog. 😉

Me desculpem as poucas atualizações aqui no blog nos últimos meses, mas estou em uma correria boa no meu trabalho. Mas prometo, logo que possível, voltar a publicar mais textos por aqui. Com maior frequência, ao menos. Logo voltarei a alguns clássicos do cinema também – até para “reavivar” a seção aqui no blog destinada a isso e que anda meio abandonada.

CONCLUSÃO: Werk Ohne Autor começa de forma impactante. Um drama familiar que acabou sendo o drama de diversas outras famílias é contado de forma vigorosa na parte inicial deste filme. Depois, temos uma quebra de ritmo marcante em Werk Ohne Autor, o que não é difícil de trabalhar. A produção então suaviza bastante, mas acaba transmitindo a sua mensagem de amor à arte e de que o amor vence mesmo a brutalidade. Sempre bacana ver como os alemães olham e refletem sobre o próprio passado. Sem dúvida, uma cultura admirável, apesar de todos os seus equívocos históricos. Um filme longo, de três horas, que não é difícil de assistir. O tempo passa mais rápido do que o previsto. O que é um bom sinal. Vale ser visto, sem dúvidas.

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Las Herederas – The Heiresses – As Herdeiras

Muitas vezes a gente acha que conhece as necessidades de quem está mais próximo. Muitas vezes, achamos que conhecemos bem a nós mesmos. Até que somos obrigados a sair da nossa rotina e do lugar-comum em que a nossa vida se transformou e descobrimos muito mais do que antes seríamos capazes de imaginar. Las Herederas é um filme lento, bastante detalhista e que dá muito espaço para as interpretações das suas atrizes. Uma história aparentemente comum, mas que guarda algumas reflexões muito interessantes.

A HISTÓRIA: Um mulher olha para um retrato e ouvimos alguém cantarolando. Essa mesma mulher, caminha pela sala de jantar e pergunta sobre diversos objetos que estão à venda. A empregada responde, dando o preço de cada objeto, como o faqueiro, o jogo de taças, e informa que o relógio precisa ser consertado. Comenta também sobre o que não está à venda. No cômodo adjacente, Chela (Ana Brun) observa tudo com certa tristeza. Com dívidas e sem uma renda própria, Chela e Chiquita (Margarita Irun) encontram na venda dos seus pertences os recursos para sobreviver. Mas, em breve, esse cenário irá mudar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes desse filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Las Herederas): Eu tinha grandes expectativas com esse filme, devo admitir. Especialmente pelo alto nível de aprovação que Las Herederas apresenta segundo avaliação de público e de crítica. Mas ao assistir a esse filme, me surpreendi com uma história onde não existe uma grande trama, digamos assim.

Os fatos se desenrolam muito mais em um campo interior e de mudança na vida da protagonista do que em um campo exterior. Assim, na prática, “pouco acontece” em Las Herederas. Vejamos o que a história nos apresenta. (SPOILER – não leia se você não assistiu ainda ao filme). Dividem uma residência de luxo duas mulheres que herdaram – aparentemente – tudo que têm. O casal lésbico de meia idade parece estar junto há muito tempo. Elas têm um grupo de amigas mas, apesar disso, parecem viver um tanto isoladas.

Endividadas e com Chiquita sendo acusada de sonegação fiscal, as protagonistas começam a se desfazer de seus pertences para conseguir pagar as contas e sobreviver. Essa dificuldade financeira grave e a iminência de Chiquita ser presa fazem com que Chela tenha pouca vontade de sair de casa ou de ver pessoas – parece, inclusive, que ela está vivenciando uma depressão quando o filme começa.

O grande ponto de ruptura da história acontece quando Chiquita realmente vai para a prisão. Chela acaba sendo obrigada a sair do seu reduto e do seu “lugar seguro”. Primeiro, para visitar a companheira presa. Depois, para atender a uma vizinha que pede uma carona. Ela não dirigia muito – quem fazia isso, assim como quase todos os demais afazeres e tomava as decisões pelo casal era Chiquita. Mas justamente essa saída de casa desencadeia uma série de outras mudanças na vida da protagonista.

Como na história propriamente dita “nada demais” acontece, realmente o ponto de atenção do filme são as “mudanças internas” pelas quais a protagonista passa. Com muita sutiliza, o diretor e roteirista Marcelo Martinessi nos conta a história de uma mulher que acaba se descobrindo ao ser retirada da sua zona de conforto. Pouco a pouco, Chela redescobre o desejo – não apenas de viver, mas por outra mulher, Angy (Ana Ivanova) – e a liberdade.

Porque sim, algumas vezes as pessoas, movidas pelo amor e pela vontade de cuidar do “ser amado”, acabam cuidando e protegendo tanto essa outra pessoa que tiram dela toda a sua autonomia. E é justamente isso que acontece na relação de Chela e de Chiquita. Além desse casal cair na rotina – algo comum em casais que estão muito tempo juntos -, Chela também acaba sendo eclipsada pelo excesso de zelo de Chiquita.

Esse é um outro ponto interessante de Las Herederas. Como o filme demonstra, de forma muito honesta e natural, como uma relação pode se tornar desigual com o passar do tempo. Preocupada em cuidar de Chela, Chiquita acaba, na verdade, tirando a autonomia e os desejos da companheira. Para algumas pessoas, é mais fácil esse tipo de amor. Afinal, o “objeto amado” estará sempre dependente e sob controle.

Qual é a surpresa de Chela quando, sem todo esse zelo e controle de Chiquita, ela vai, pouco a pouco, descobrindo a sua própria capacidade de ser e fazer. Com algo tão simples quanto “dar carona” para a vizinha idosa e, depois, para todas as amigas dessa vizinha que, como ela, se encontram com frequência para jogar, Chela encontra o caminho para a própria independência. Não apenas financeira, mas também de ação.

Ela pode dirigir dentro da cidade e até na estrada, onde ela nunca tinha ido antes. Algo tão simples acaba sendo tão simbólico da retomada da liberdade. Interessante isso, porque desta forma Las Herederas nos lembram do próprio empoderamento feminino, da onda de mulheres que, ao aprender a dirigir, ganharam liberdade maior de ir e vir e de fazer as suas escolhas. E é justamente isso que esta produção nos faz lembrar.

Em suas idas e vindas para dar carona remunerada para as amigas idosas, Chela ainda redescobre o tesão. Ela fica fascinada com a beleza e com a atitude de Angy, a garota que cede a casa – cobrando por isso, certamente – para as idosas jogarem. Essa paixão acaba tirando Chela do prumo, e depois de sair de sua rotina, tudo o que ela não quer é voltar para ela. A consequência da saída de Chiquita da prisão, por isso, também pode ser prevista.

O mais interessante dessa história, além dela ser uma narrativa de autodescoberta e de empoderamento da protagonista, é a mensagem que Las Herederas nos passa. De que muitas vezes vamos acumulando os nossos dias e nos acostumando com uma certa rotina que não faz mais os nossos olhos brilharem ou o nosso coração realmente pulsar forte, mas que nunca é tarde para vivenciarmos tudo isso novamente.

Acho essa uma mensagem muito poderosa deste trabalho de Marcelo Martinessi. Afinal, não importa de que classe social você veio ou na qual você está agora. O quanto você batalhou para conseguir as suas coisas ou recebeu “tudo de graça” porque você é herdeira(o) de algo que batalharam antes de você existir. Todos têm o direito de sonhar, de vivenciar fortes emoções e de achar sentido no que fazem de suas vidas. Como Chela fez, meio que sem querer.

Um filme interessante, mais pelo que ele nos sugere e nos mostra com descrição do que por uma narrativa inovadora. Aparentemente, pouco acontece em cena. Aparentemente, vemos a uma “história comum” e sem grandes virtudes pela frente. Mas, no fundo, Las Herederas tem uma série de questões que nos fazem refletir sobre o que fazemos aos demais, com nosso excesso de “zelo e de amor”, e o que permitimos que seja feito com a gente mesmo. Seja pelos outros, e por nós, na nossa rotina que nos leva por caminhos estranhos, algumas vezes.

Las Herederas nos mostra, assim, algumas reflexões interessantes e uma “rebeldia” da protagonista no final que nos dá esperança. Sempre é possível recomeçar. E não importa a idade que temos, sempre é possível procurar sentido e paixão na nossa vida. Por mais que os outros nos digam que não, ou que a gente mesmo não acredite muito em uma nova saída, ela existe. Basta procurar e ter a coragem de se lançar. Um filme interessante, apesar de seu ritmo lento demais, muitas vezes.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Admito que esse filme me conquistou mais quando comecei a pensar a respeito dele do que no momento em que ele estava se desenrolando na minha frente. A experiência de Las Herederas, propriamente dita, não é de encher os olhos ou de fazer o nosso coração palpitar mais forte. Não, muito pelo contrário. Mas quando paramos para pensar na história e no que ela nos diz ou provoca, o filme vai ganhando pontos. Tanto que ele saiu de uma nota 7 inicial, aqui no blog, para chegar no 8 ali acima.

Além dos aspectos que eu comentei antes, Las Herederas tem um “fundinho” de aspecto social. Vejamos. Primeiro, o filme retrata uma classe média-alta de mulheres lésbicas ou viúvas que não trabalham. Aparentemente, todas elas vivem das heranças que herdaram ou de aposentadorias. O que elas fazem? Além de festas com karaokê, jogam cartas valendo dinheiro. Será mesmo que isso é o melhor que podemos fazer na nossa velhice?

No Brasil e, talvez, na América Latina, as sociedades não se prepararam para ter a maior parte da população na velhice. Não temos, efetivamente, muitos programas que diversifiquem o cotidiano ou que deem outras perspectivas para estas pessoas. Mas não vai demorar muito para que a população brasileira seja, em sua maioria, de idosos. Que tipo de realidade teremos, então? Acho que vale nos questionarmos. Especialmente para a forma com que estamos nos preparando para nos reinventarmos e termos a nossa liberdade quando chegarmos lá.

Uma das grandes qualidades desse filme, sem dúvida alguma, é o trabalho da atriz Ana Brun. Ela está ótima e muito coerente com os diferentes momentos que vivem a sua personagem Chela no filme. Com uma interpretação detalhista e que, muitas vezes, expressa o que a personagem sente mais pela linguagem não verbal do que pela verbal, Ana Brun nos conquista conforme a produção avança. Um belo trabalho, sem dúvida alguma.

Além de Ana Brun, vale destacar o ótimo trabalho de Margarita Irun como Chiquita – ela é outra que tem um desempenho incrível no filme; de Ana Ivanova em um papel cheio de nuances e de controvérsias como Angy; de Nilda Gonzalez como Pati, a emprega simples e de grande coração que acaba entendendo Chela como poucos; María Martins em um desempenho interessante como Pituca, a vizinha que começa a pedir carona para Chela; e Alicia Guerra como Carmela, amiga que ajuda Chiquita a sair da cadeia.

No presídio, algumas mulheres ganham um certo destaque quando a história de Las Herederas se transporta para lá – e isso acontece, de forma pincelada, algumas vezes durante a produção. Entre as mulheres que ganham um certo destaque nesta parte do filme estão Ana Banks e Natalia Calcena.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale comentar o bom trabalho de Luis Armando Arteaga na direção de fotografia; a edição de Fernando Epstein; o design de produção de Carlo Spatuzza; o design de produção de Tania Simbron; e a maquiagem de Luciana Diaz e de Edi Romero.

Marcelo Martinessi faz um bom trabalho na direção, mas o roteiro dele me pareceu menos consistente e interessante do que poderia ser. Talvez seja o estilo dele. Não sei, não posso opinar, porque esse foi o primeiro filme que eu vi com a assinatura de Martinessi. Antes de Las Herederas, ele dirigiu a dois curtas e a um curta de documentário. Ou seja, Las Herederas é o seu primeiro longa. Acho que precisamos de mais material para poder avaliar o estilo do diretor e roteirista.

Las Herederas estreou em fevereiro de 2018 no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Depois, o filme participou, ainda, de outros sete festivais de cinema em diversos países. Nessa trajetória, até o momento, o filme ganhou 20 prêmios e foi indicado a outros seis.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Prêmio Fipresci, para o prêmio de Melhor Atriz para Ana Brun e para o Prêmio Alfred Bauer para o diretor Marcelo Martinessi e para a produtora La Babosa Cine no Festival Internacional de Cinema de Berlim; para o Prêmio Fipresci e para o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cinema de Cartagena; para o prêmio de Melhor Filme Latino-americano pela escolha do público e para os prêmios da crítica de Melhor Filme Latino, Melhor Diretor entre os Filmes Latinos, Melhor Atriz entre os Filmes Latinos para Ana Brun, Margarita Irun e Ana Ivanova e Melhor Roteiro entre os Filmes Latinos no Festival de Cinema de Gramado; para o Melhor Filme Latino-americano no Festival Internacional de Cinema de San Sebástian; para o Melhor Filme no Festival de Cinema de Sydney; além de outros dois prêmios como Melhor Filme, um prêmio de Melhor Atriz para Ana Brun; um prêmio de melhor filme LGBTQ e um prêmio de Melhor Primeiro Trabalho. Uma coleção de prêmios, realmente.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 22 críticas positivas e nenhuma negativa para esta produção. Essa unanimidade, ou seja, aprovação de 100% no Rotten Tomatoes é algo muito, muito raro. Na média, os críticos do site deram a nota 8 para Las Herederas. No site Metacritic, Las Herederas apresenta um “metascore” de 82, fruto de seis críticas positivas. Novamente, um ótimo desempenho se levarmos em conta o padrão deste site.

Me parece, com a coletânea que o filme já ostenta até o momento e com esta unanimidade dos críticos, que Las Herederas já é um virtual forte candidato na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2019. Pessoalmente, acho o filme bacana e interessante, mas não para ganhar o Oscar. Já vou me adiantando, pois. 😉

Las Herederas é uma coprodução do Paraguai com a Alemanha, o Uruguai, o Brasil, a Noruega e a França. Ou seja, esse filme deve representar o Paraguai na próxima disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2019. Veremos se ele chega entre os cinco.

CONCLUSÃO: Uma história introspectiva, destas em que parece que não está acontecendo nada. Isso porque o que de fato está acontecendo não é visível e não tem uma grande dinâmica. As mudanças e a “ação” em Las Herederas se passam no interior da protagonista. Um filme sutil, com grandes atuações e com um ritmo lento que desafiará os espectadores mais vorazes para que “algo aconteça”. Apesar de não ser realmente impactante, este filme apresenta algumas boas qualidades e, sobretudo, uma reflexão sobre as relações e o comodismo que algumas vezes adotamos na nossa vida. É interessante sair da zona do conforto. Essa saída sempre pode nos trazer respostas interessantes sobre os outros e, especialmente, sobre nós mesmos.

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Benzinho – Loveling

A gente sonha e toca a vida. Essa mesma vida que nos apresenta oportunidades e muitas limitações – ao menos para o brasileiro médio. Benzinho nos conta uma história linda e um pouco triste. Para mim, um dos filmes mais exatos sobre a “alma” brasileira que eu já tive o prazer de assistir. De uma forma muito precisa e com uma sensibilidade ímpar, o diretor e roteirista Gustavo Pizzi, que escreveu Benzinho ao lado de Karine Teles, nos apresenta um perfil de família brasileira muito coerente com a nossa realidade atual. Para mim, um filme nacional imperdível.

A HISTÓRIA: Uma família está preparada para a praia, com brinquedos, guarda-sol e boias à tira-colo. Eles aguardam por um bom tempo até que conseguem atravessar a rua. Depois da espera, eles finalmente chegam ao destino. Corta. Em casa, Irene (Karine Teles) procura agilizar os dois filhos menores, gêmeos (Arthur Teles Pizzi e Francisco Teles Pizzi). Eles estão com pressa para sair de casa e chegar à tempo de ver ao filho mais velho de Irene e de Klaus (Otávio Müller), Fernando (Konstantinos Sarris), jogando uma partida decisiva de handebol.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Benzinho): Ai, que dúvida atroz sobre que nota dar para este filme. Sim, eu sei que isso é uma bobagem. Afinal, o importante é a experiência que tivemos no cinema e o que os filmes provocaram ou deixaram para a gente. Mas sim, me preocupo em não ser injusta com a nota que eu poderia dar para Benzinho. Porque este filme está bem acima da média.

Quem acompanha ao blog há algum tempo, sabe que eu não tenho assistido a muitos filmes nacionais. Nada contra o cinema brasileiro, muito pelo contrário. Mas o meu gosto para filmes não faz com que eu me sinta atraída pelas comédias, algumas no estilo “pastelão”, que o cinema brasileiro volta e meia nos apresento. Respeito, sei qual é o papel destes filmes para a indústria nacional, mas isso não faz com que eu tenha interesse em assistir a esse tipo de produção. E isso não vale apenas para o cinema brasileiro, mas para os filmes de todas as latitudes.

Aprecio mais outro tipo de filme. Produções que falem sobre o “humano, demasiado humano” ou que, pelo menos, se esforcem em nos apresentar questões pertinentes e/ou ideias novas. Se não exatamente “reinventem a roda”, que pelo menos tentem nos mostrar uma forma diferente de encarar algum gênero cinematográfico ou realidade. Por isso mesmo, seleciono muito bem os filmes nacionais que eu assisto. E que presente encontrar uma produção como Benzinho pela frente!

Muito pode ser dito sobre esse filme. Mas vou começar destacando como ele fala de forma interessante sobre as pessoas comuns. As vidas “ordinárias” sempre rendem ótimas histórias no cinema quando temos pela frente um diretor cuidadoso e um roteiro excepcional. Esse é o caso de Benzinho. O filme trata sobre uma “família comum” brasileira, com tudo que isso carrega de significados.

Temos em cena a peça central dessa história, a mãe de família e “dona de casa” Irene. A atriz Karine Teles dá um show de interpretação com essa personagem, nos apresentando uma mulher amorosa, batalhadora e o centro da família composta apenas por homens – o marido, interpretado pelo ótimo Otávio Müller, e os quatro filhos do casal. Irene representa milhões de mulheres brasileiras que estudaram relativamente pouco, casaram, tiveram vários filhos e que se tocaram, em determinado momento da vida, como dedicaram a vida para essa família – deixando a si próprias em segundo plano, geralmente.

No melhor estilo “deixa a vida me levar”, Irene e o marido Klaus percebem, em determinado momento da vida, como eles seguem batalhando o dia a dia. Tão envolvidos com a busca por sobreviver e por dar comida, educação e um teto que não caia sobre a cabeça dos filhos, Irene e Klaus tem pouco tempo para sonhar. Ainda assim, eles sonham – especialmente Klaus, que assume a postura clássica de “provedor” da família.

Mas esses sonhos, como tantos outros de todos nós, pessoas comuns desse Brasilzão continental, esbarram sempre na realidade dura de um país com poucas perspectivas para as pessoas. Klaus percebe, primeiro, que a sua papelaria e livraria já não dá muito certo. Cada vez menos pessoas fazem fotocópias ou compram livros usados. Ele acaba funcionando mais como “consultor” para quem quer comprar um bom livro na internet do que como alguém que realmente vai conseguir vender algo.

Como Klaus percebe que o negócio em que está começa mais a dar prejuízo do que lucro, ele sonha em alugar um galpão enorme onde poderá colocar uma livraria e realocar outros espaços para uso cultural. Irene, que além de cuidar dos filhos, vende lençóis e outros produtos para reforçar o orçamento doméstico, teme que aquela investida será catastrófica. E assim, Klaus larga essa ideia e sonha em investir em um restaurante em um ponto turístico da cidade que ainda precisa ser “revitalizado” pela prefeitura.

E assim, de maneira suave e envolvente, o roteiro de Benzinho nos apresenta essa característica do “sempre vamos dar um jeito” que o brasileiro parece ter desde nascença. Por aqui, temos menos oportunidades de desenvolvimento individual e coletivo do que em outros países. Mas isso não nos tira a esperança e a crença de dias melhores. Para mim, essa característica sempre foi uma das mais fascinantes do brasileiro. Assim como a nossa capacidade de sermos amorosos e cuidadosos, quando assim desejamos. E tudo isso está bem plasmado em Benzinho.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). No fim das contas, nada dá muito certo para Irene e Klaus. Para realizar o seu último sonho, de investir em um restaurante naquele ponto turístico, Klaus precisava vender a casa deles na praia. Mas o negócio não sai como eles esperavam. Irene, por sua vez, não dá bronca no marido, mas o consola e afirma que eles vão dar um jeito. Como Klaus mesmo disse para o filho mais velho, Fernando (Kostantinos Sarris), “tudo dá certo para a gente no final”. Essa é a esperança sem fim do brasileiro.

Mas Benzinho não trata apenas disso. O filme é muito mais profundo. Ele trata sobre este “modus operandi” de sempre dar um jeito nas coisas do brasileiro, assim como a esperança sem fim de quem vive na terra brasilis, mas ele não ignora o tom amargo da falta de perspectivas e de oportunidades. Esses são temas presentes durante toda a produção. E aí entra em cena a história de Fernando, um jovem que encara na sua ida para jogar handebol na Alemanha a “chance da sua vida”. E por que será?

O personagem do Fernando é bastante sintomático em Benzinho. E muito interessante – possivelmente o personagem mais interessante da história, junto com a personagem de Irene. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Amoroso, próximo dos irmão mais novos e dos pais, Fernando simboliza o jovem brasileiro cansado de uma sociedade sem muitas perspectivas. Assim, quando surge uma oportunidade fora do país, ele não só não pensa duas vezes em ir como é enfático em dizer para a mãe que não pretende voltar.

Esse é o outro lado de uma mesma moeda. Ao mesmo tempo que temos em cena Irene, uma mulher que nunca teve muita oportunidade de estudar, mas que se sente realizada por terminar o ensino médio já quase na meia idade, temos também a Fernando, um jovem que admira o esforço dos pais e ama a sua família, mas que não pensa em se limitar por causa das condições de uma vida com menos oportunidades e barreiras.

Poucos vão conseguir ser um “ponto fora da curva”, para usar uma expressão que se popularizou e que tem como base a questão estatística. Ou seja, a maioria será mediana, terá uma vida comum. Sonhará, em alguns momentos, mas terá que lidar, na maior parte do tempo, com as limitações da realidade. Fernando, ao perceber uma oportunidade fora do país, está tentando ser esse “ponto fora da curva”.

Com isso ele não está negando as origens, ou sendo ingrato com o que recebeu, mas ele quer mais para si do que ter como grande prazer da semana – ou do mês – assistir a um desfile de uma banda marcial. Essa cena, aliás, achei genial. Como tantas outras interessantíssimas de Benzinho. A cena do desfile, em que Irene estampa com perfeição a felicidade e a tristeza em seu rosto – felicidade e tristeza pela “separação” familiar e por tantas outras razões plasmadas por essa produção e ditas ou não nesta crítica -, me fez lembrar de uma música.

Vez ou outra, o meu pai me fazia lembrar de Ouro de Tolo, lançado por Raul Seixas no longínquo 1973. O trecho que o meu pai gosta de citar diz: “(…) Eu devia estar feliz pelo Senhor ter me concedido o domingo/ Pra ir com a família no jardim zoológico dar pipocas aos macacos/ Ah, mas que sujeito chato sou eu que não acha nada engraçado/ Macaco, praia, carro, jornal, tobogã, eu acho tudo isso um saco”.

O final de Benzinho me fez lembrar dessa música e desse trecho porque, para mim, muitas vezes o brasileiro – e não apenas nós, devo dizer – parece ser resumido nessa cena. Seja a do zoológico, seja a desfile de Benzinho. Trabalhamos tanto, corremos tanto, procuramos fazer o melhor e não perder a esperança mas, no final das contas, estamos mesmo fazendo o que queremos e sendo quem desejamos?

Alcançamos e desenvolvemos o nosso maior potencial ou ficamos apenas com parte do caminho e os seus prêmios (como o amor transbordante da família de Irene)? O melhor que Irene e Cia. podem desejar é um final de semana na praia e um desfile de banda marcial para acompanhar? Ou está certo o Fernando, que vai levar tudo isso na memória mas que vai procurar desenvolver-se ao máximo em uma sociedade com economia e sociedade mais desenvolvidas?

Um dos acertos de Benzinho é que eles nos apresenta muita verdade, muitos sentimentos e muita beleza, assim como muitos questionamentos sem que, para tudo isso, sejam precisos discursos. Benzinho funciona tão bem porque alia um ótimo roteiro e um elenco excelente com uma direção cuidadosa, que apresenta muita sensibilidade, sutileza e beleza em diversos planos de câmera.

Belíssimo, gostoso, saboroso e um pouco amargo, Benzinho enaltece as pessoas simples e a “alma nacional”. Valoriza estes elementos para a gente ver eles com orgulho, mas também pensando em como podemos avançar para que melhoremos o que temos por aí. Além da história de Irene e de Klaus com os seus filhos, esse filme tem a personagem de Sônia (Adriana Esteves), irmã de Irene e agredida pelo marido, Alan (César Troncoso), como uma espécie de lembrete de que a realidade das famílias não é feita só de dedicação, amor e cuidado.

Sônia e Alan estão no filme para nos lembrar das fragilidades dos laços amorosos e da desgraça bastante presente na vida de tantas famílias que é a dependência química e o abuso contra as mulheres. Apesar de não ser um tema central nessa produção, o roteiro de Gustavo Pizzi e Karine Teles está atento para essa questão e a trata com bastante sensibilidade e sem julgamentos. Mais um indicativo de que este filme está sim acima da média.

Para finalizar, preciso comentar uma parte desta produção que eu achei bastante simbólica. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Logo no início da produção, ao tentar sair de casa rapidamente para não perder o jogo do filho mais velho, Irene percebe que não vai conseguir abrir a porta da frente da casa e, de forma provisória, ela providencia uma saída pela janela da frente com a ajuda de uma escada.

O que eu achei bastante simbólico, nessa cena de Benzinho, é que o que era para ser provisório acaba sendo definitivo. Desde o início do filme e até o final – quando a família está procurando terminar a casa nova que ficou por muito tempo com a obra paralisada -, ninguém é capaz de resolver o problema da porta. Seja trocando a fechadura ou a porta mesmo… A solução da família é continuar a entrar e sair da casa pela janela.

Esse, para mim, é um dos aspectos mais interessantes e fortes dessa história. A forma de entrar e sair da casa simboliza a característica do “improviso” que parece nos definir enquanto povo, muitas vezes. Impossível para um alemão, apenas para simbolizar o “modus operandi” do povo no qual Fernando pretende ser inserido, imaginar o seu dia a dia daquela forma.

Ok, na hora de sair rapidamente de casa, um alemão até poderia adotar a alternativa da escada na janela. Mas, logo que possível, ele resolveria definitivamente o problema da porta. Mas isso nem sempre é feito pelo brasileiro, que acha que aquele problema pode ser contornado e não enfrentado. Isso é bastante simbólico, vocês não acham? Essas e tantas outras sutilezas fazem deste Benzinho um filme muito especial. Assistam.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vou dizer para vocês. Fiquei muito tempo pensando sobre a nota que eu deveria dar para este filme. Até perto de concluir a crítica acima, eu ainda estava em dúvidas. Mas ao comentar sobre uma das grandes “sacadas” desta produção, percebi que o filme realmente é incrível. Logo depois que eu assisti a Benzinho no cinema, pensei se ele não mereceria um 10.

Quando comecei essa crítica, eu estava na faixa do 9,7… mas ao concluir o texto, percebi mesmo que ele merece a nota máxima. Não vi defeitos nessa produção, apenas diversas sacadas bacanas, muita sensibilidade, visão crítica e beleza. Então por que não dar uma nota 10 para uma produção nacional? Posso estar exagerando na nota, eu sei. Por isso deixo a critério de vocês se eu exagerei ou não. 😉

Gostei muito do roteiro de Gustavo Pizzi e Karine Teles. A narrativa de Benzinho transcorre de modo envolvente, com muita sensibilidade e com atenção a cada personagem. Claro que o filme é bastante focado na protagonista, Irene, brilhantemente interpretada por Karine Teles. Mas outros atores também fazem um grande trabalho, com destaque para Otávio Müller, Konstantinos Sarris, Adriana Esteves, César Troncoso e os garotos que interpretam os filhos mais novos dos protagonistas, Arthur Teles Pizzi, Francisco Teles Pizzi e, acredito, Luan Teles. Por que comento esse “acredito” aqui? Porque não ficou claro para mim quem é o ator que interpreta ao segundo filho mais velho do casal. Achei o trabalho dele muito bom, assim como dos outros garotos, mas não achei fácil o seu nome nos créditos.

A escolha e a condução do elenco é outro ponto forte de Benzinho. A história não funcionaria tão bem se ela não tivesse atores tão inspirados em cena. Mérito dos produtores e do diretor Gustavo Pizzi, sem dúvida, assim como de cada ator envolvido no projeto. Além dos nomes já citados, vale comentar o trabalho de Camilo Pellegrini como Ligia, uma transsexual que é amiga Irene e de Sônia; Mateus Solano como Paçoca, o técnico estressado do time de handebol “abandonado” por Fernando; e de Vicente Demori como Thiago, filho de Sônia e de Alan. Tenho dúvida também se não estou trocando os nomes de Vicente Demori e de Luan Teles. Se estiver, alguém me corrija. 😉

Alguns outros elementos técnicos fazem de Benzinho um filme diferenciado. Destaque, em especial, para a direção de fotografia especial e belíssima de Pedro Faerstein. Também merecem aplausos a trilha sonora de Maximiliano Silveira; a edição perfeita e cirúrgica de Lívia Serpa; a direção de arte de Dina Salem Levy; os figurinos perfeitos de Diana Leste; a maquiagem de Virginia Silva; e o departamento de arte de Carla Mendes.

Benzinho estreou no Festival de Cinema de Sundance em janeiro de 2018. Depois, o filme participou, ainda, de outros nove festivais de cinema – alguns bastante interessantes, como os festivais de Roterdã, Málaga e San Francisco.

A produção foi um dos destaques do Festival de Cinema de Gramado, onde venceu nas categorias de Melhor Filme segundo a escolha do público; Melhor Filme na votação dos críticos; Melhor Atriz para Karine Teles e Melhor Atriz Coadjuvante para Adriana Esteves. Além destes prêmios recebidos no Brasil, Benzinho ganhou em duas categorias no Festival de Cinema Espanhol de Málaga: Melhor Filme Iberoamericano e Prêmio Especial da Crítica para Gustavo Pizzi.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para Benzinho, enquanto que os críticos que tem os seus textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram 14 críticas positivas e uma negativa para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,6. Achei ambas as notas bastante boas se levarmos em conta os padrões dos dois sites. O site Metacritic ostenta um “metascore” de 81 para Benzinho, fruto de cinco críticas positivas.

Agora, uma curiosidade sobre esta produção. Não sei vocês, mas eu fiquei por um bom tempo tentando “descobrir” aonde Benzinho foi rodado. Depois de assistir à produção é que eu tive certeza. O filme foi rodado nas cidades de Petrópolis e de Araruama, ambas no interior do Estado do Rio de Janeiro.

Benzinho é um dos filmes brasileiros que disputa a indicação do Brasil no próximo Oscar. Ainda que eu não tenha visto a mais nenhum filme nacional dessa safra – pretendo fazer isso hoje, buscando no cinema a um outro filme elogiado nesse ano -, devo dizer que a minha torcida já é para Benzinho. Para mim, esse é um dos melhores filmes nacionais que eu já vi e, sem dúvida, ele não deixa a dever nada para filmes franceses ou de outras latitudes. Acho que teríamos alguma chance de emplacar no próximo Oscar – a depender da safra dos outros países – com ele. Veremos.

Benzinho é uma coprodução do Brasil com o Uruguai e a Alemanha. Por causa do primeiro e do terceiro país desta lista, o filme atende à votações feitas aqui no blog – quando vocês me pediram mais críticas de filmes do Brasil e da Alemanha. Por isso, ele passará a figurar nessa categoria de filmes (também).

CONCLUSÃO: Um filme maravilhoso, para dizer o mínimo. Destes que fazem você se deliciar e refletir durante a exibição e além, muito além de quando os créditos terminam. Como comentei antes, Benzinho é um dos filmes que eu vi que mais falam sobre a alma brasileira. Mostra com perfeição a esperança e a perseverança das pessoas comuns, assim como as suas frustrações e o seus desejos de conseguirem ir adiante, mesmo com as perspectivas contra. Trata de amor, de cuidado, afeto e de batalha. De tudo isso que as “vidas comuns” estão cheias, mas que poucos param para observar. Benzinho é lindo, profundo e revelador. Um dos grandes filmes nacionais que eu já vi.

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Aus Dem Nichts – In the Fade – Em Pedaços

A violência motivada pela ignorância é capaz de gerar os piores pesadelos. Temas atuais fazem parte de Aus Dem Nichts. Um filme potente, que nos faz pensar sobre o problema gigantesco que vem crescendo em diferentes países, que é o da intolerância e da incapacidade de muitas pessoas de aceitarem o que é diferente a elas. Quando alguém passa a se sentir superior a outra pessoa, quando se sente mais “merecedor” de viver do que um semelhante de carne e osso, vivemos dias de terror e uma era tenebrosa. E o efeito de tudo isso é um vazio sem fim.

A HISTÓRIA: Diversos começam a bater palmas. De uma cela, Nuri Sekerci (Numan Acar) surge vestido de terno branco e cumprimenta os colegas de cadeia. Ele está feliz e caminha em direção à saída do pavilhão. Quando ele passa pela pessoa que está filmando, ele diz que essa é a hora da verdade. Começamos a ouvir a música My Girl, e em uma sala próxima, Katja (Diane Kruger) está esperando ele para os dois casarem. Corta. Parte 1: A Família. O tempo passou, e agora Katja leva o filho Rocco (Rafael Santana) para passar um tempo com o pai no escritório. Os fatos que virão em seguida vão afetar para a sempre a vida dela.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Aus Dem Nichts): Eu estava “sedenta” para assistir a esse filme. Quem acompanha o blog com frequência, sabe que eu estava de olho no novo filme do ótimo diretor Fatih Akin porque essa produção tinha sido, por muito tempo, cotada como a favorita para levar o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

No final das contas, para surpresa de muitos – e eu me incluo nesse grupo -, Aus Dem Nichts não chegou nem a figurar na lista dos cinco filmes finalistas na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2018. Fiquei surpresa pela “esnobada”, à princípio, mas ao assistir ao filme eu entendi um pouco as razões para isso. Aus Dem Nichts é um bom filme. Ele é bem conduzido e trata de questões muito importantes nos nossos dias. Mas ele também tem alguns probleminhas que fazem com que ele não seja tão bom quanto poderia ser.

Mas antes de falar desses “probleminhas”, vamos falar sobre a história em si. Interessante como Fatih Akin começa a sua história sobre uma Alemanha moderna e ao mesmo tempo tão antiga. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, somos apresentados aos personagens principais: uma universitária que se apaixonou pelo cara que lhe vendia maconha e que, depois que ele foi preso, seguiu se relacionando com ele, ao ponto dos dois se casarem na prisão em que ele estava.

Passa o tempo, e o casal tem um filho de seis anos, o super esperto Rocco. Até aí, esse pequeno núcleo familiar é parecido com tantos outros. Eles devem batalhar diariamente por sobreviver e, no caso de Katja e Nuri, em dar uma vida confortável e uma boa educação para o filho, Rocco. O filme começa mostrando os fatos determinantes para essa família: o casamento de Katja e Nuri e, anos depois, o dia em que Katja levou Rocco para passar algumas horas com o pai no escritório. Até aí, tudo normal.

Mas esse filme não aborda a normalidade, e sim, fatos lamentáveis que não deveriam fazer parte da vida de ninguém. Mas que, infelizmente, fazem. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Enquanto Katja vai tranquilamente passar um tempo com a irmã Birgit (Samia Muriel Chancrin) em uma sauna, o marido e o filho dela estão sendo mortos em um ataque terrorista cruel e absurdo.

Achei interessante como o roteiro de Fatih Akin e Hark Bohm divide a história em três capítulos. Após a introdução em que o casamento de Katja e Nuri é mostrado, nós temos pela frente os capítulos A Família, A Justiça e O Mar. O primeiro mostra rapidamente o núcleo familiar de Katja, Nuri e Rocco e, com o atentado, as demais pessoas que fazem parte daquela família – os pais de Katja e de Nuri e a irmã de Katja.

Essa rede de apoio, junto com o advogado Danilo Fava (Denis Moschitto), amigo de Katja e Nuri, tenta dar um certo conforto e sustentação para Katja depois da morte trágica do marido e do filho. Mas, claro, nada disso adianta. Logo após a confirmação das mortes, Katja se lembra de uma possível suspeita que deixou uma bicicleta sem cadeado na frente do escritório que foi bombardeado. É feito um retrato falado, mas a polícia primeiro pensa na possível culpabilidade da vítima, Nuri.

Isso incomoda, e muito, mas é uma coisa bastante comum nos dias atuais. Não apenas a polícia, mas muitas “pessoas de bem” – odeio esse termo, devo dizer – saem julgando a vítima apenas pelos equívocos que ela cometeu antes. Como se alguém “merecesse” morrer porque foi preso antes. Assim, ao invés do inspetor-chefe Gerrit Reetz (Henning Peker) realmente ir atrás da suspeita apontada por Katja ou buscar outras fontes de informação, como câmeras de segurança – eis uma das falhas do filme, ao meu ver – para encontrar os criminosos, ele resolveu investigar a vítima.

Sim, porque por ser de origem turca e por ter sido preso durante quatro anos como traficante, Nuri deveria ter alguma “culpa no cartório”. Como Reetz diz com todas as letras para a viúva, Nuri deveria estar fazendo algo de errado e deveria ter desagradado a alguma das “máfias” existentes na Alemanha. Que beleza, não? Tudo bem a polícia trabalhar com todas as possibilidades e ter diversas linhas de investigação, mas daí a presumir a culpa da vítima apenas por causa do seu passado, me parece um bocado injusto demais.

Da sua parte, Katja acredita que algum neonazista foi o culpado pelo atentado. Apesar daquele certo apoio da família, ela não suporta a dor dilacerante de ter perdido, de uma hora para a outra, toda a felicidade que tinha com o marido e o filho. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ela não vê mais sentido em viver e, quando está quase morrendo, após cortar os pulsos na banheira, ela escuta uma mensagem do advogado Danilo que lhe acende alguma vontade de seguir em frente.

Ele comenta, na mensagem que deixou na secretária eletrônica, que Katja estava certa. Que tinham sido neonazistas os responsáveis pelo atentado. Aí entramos na segunda parte do filme, quando Akin e Bohm encaram o capítulo da justiça. Julgamentos sempre são interessantes, e esse se revela especialmente dolorido pelos detalhes que são narrados sobre o que aconteceu com as vítimas. Uma crueldade inacreditável. E os acusados, o casal Edda (Hanna Hilsdorf) e André Möller (Ulrich Brandhoff), impassíveis frente a tudo que foi dito.

Algo que me chamou muito a atenção é que o casal só foi “descoberto” por causa da denúncia do pai de André, Jürgen Möller (Ulrich Tukur). Ou seja, não foi porque a polícia fez um bom trabalho, mas porque um cidadão comum e consciente resolveu denunciar o próprio filho e nora por algo abjeto que eles fizeram. Mais um exemplo de como a busca pela justiça varia muito conforme a vítima.

Durante todo o filme eu me perguntei como teria sido o desenrolar daquela história se a vítima tivesse sido Katja. Se Nuri tivesse sobrevivido, teria feito alguma diferença? Duvido muito, porque o que estava em jogo ali, me parece, é o fato de que nem ela e nem ele eram os “cidadãos modelo”. E a polícia e a Justiça, aparentemente, não tem um tratamento igualitário para todos os cidadãos. Isso fica claro também com o fim do julgamento – e vamos convir que essa história de “falta de provas” ou de “dúvida pró réu” muitas vezes é pura babela para proteger alguns perfis de pessoas e não outras.

Passado tudo aquilo, e com a segunda violência que Katja sofria em relação à sua família – primeiro a morte deles, depois, a falta de justiça para o caso -, entramos na terceira parte da história: O Mar. Esse é a parte em que Katja busca a justiça pelas próprias mãos, viajando para a Grécia, onde se hospeda a uma certa distância do alvo do início da sua investigação, o empresário grego neonazista Nikolas Makaris (Yannis Economides).

No julgamento dos Möller, Makaris mentiu a favor deles. Katja tem certeza que os dois serão protegidos novamente por Makaris e vai atrás deles na Grécia. Lá, ela busca a justiça por sua conta. Depois de uma investida um tanto maluca no hotel de Makaris, ela tem a sorte do neonazista ser burro o suficiente para ir no esconderijo dos Möller para avisá-los sobre a presença dela na cidade. Isso era tudo que ela precisava, saber sobre a localização deles.

Aí temos a segunda “bobeira” do roteiro. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro, vemos aquela perseguição um tanto “ousada demais” da protagonista, que entra em uma estrada sinistra atrás de Makaris. Depois, e essa é a pisada na bola pior, a meu ver, ela acreditar que a forma mais interessante de matar o casal neonazista seria preparar uma bomba igual a que eles tinham feito para matar o marido e o filho dela.

Vamos lá. Falemos de vida real. Você localiza os dois canalhas que mataram a sua família. Qual seria a sua ideia de vingança? Certamente não seria preparar uma bomba caseira e levar ela em estradas de terra até o local do ataque, não é mesmo? Muito mais prática uma pistola ou até mesmo um fuzil. Tenho certeza que na Alemanha também existe um mercado ilegal de armas no qual ela poderia providenciar isso.

Muito mais difícil é ela tentar imitar uma bomba caseira só de saber os seus ingredientes e o seu “esquema”. Claro que Fatih Akin precisava dessa ideia de bomba para o seu “grand finale”. Mas vou dizer para vocês que essa “forçada de barra” me incomodou um pouquinho. Depois, achei no mínimo estranho aquela recuada dela antes do ato final. Ela desiste detonar a bomba na primeira vez. Daí eu pensei: “Ah, ela percebeu que matar eles não iria resolver nada. Que o marido dela e o filho continuariam mortos. Então o que ela vai fazer é terminar o que tinha começado na banheira”.

Pensei isso e achei que o título do terceiro capítulo, “O Mar”, tinha a ver com isso. Com a “solução final” que ela iria encontrar para aquele episódio sem solução satisfatória. Quando ela finalmente atende o telefonema do advogado, e meio que se despede dele, eu concluí que ela iria se matar. Mas aí temos o grande finale, em que tudo isso se junta – o desejo de morrer com o desejo de vingança e/ou “justiça”.

O filme é potente, e mostra que nenhuma violência ou extremismo leva a lugar algum. Apenas à morte e a mais destruição. Ninguém saiu melhor daquela história. Apenas diversas vidas foram jogadas fora e exterminadas por causa de ignorância, preconceito e um ódio reprimido que teve uma resolução desastrosa.

Quando eu penso nos títulos dos “capítulos” do filme, penso que Fatih Akin e Hark Bohm desconstruíram os três conceitos. A ideia de família, de justiça e a simbologia pacífica do mar são destruídas pelos acontecimentos que vemos em cena. Tudo que sobra no final é morte, destruição e sofrimento. Como eu disse antes, nada de bom. E tudo isso por qual razão mesmo? Porque alguns cretinos acreditam que são superiores a outras pessoas.

Infelizmente na Europa existem muitos grupos de xenófobos, preconceituosos e extremistas. Gente cretina que realmente provoca casos como o que vemos em Aus Dem Nichts. Por isso mesmo, esse filme é tão importante. Ele coloca o holofote nesta questão, e mostra com muita propriedade a dor insolúvel de quem fica – no caso, a personagem interpretada pela ótima Diane Kruger. Impossível não sentir a dor dela e se compadecer com o seu exemplo.

Antes, citei alguns pontos que me incomodaram na história. Sim, entendo as intenções de Fatih Akin. Mas ele poderia ter cuidado um pouco mais com alguns detalhes do roteiro – para que o filme não parecesse um tanto “largado” em alguns pontos. Vou citar as duas questões que mais me incomodaram. Uma das razões para Edda e André Möller terem sido absolvidos é porque não foi possível comprovar o depoimento de Katja que disse que viu Edda deixando a bicicleta na frente do escritório no bairro turco.

Gente, hoje em dia, que cidade de médio ou grande porte não está polvilhada de câmeras de segurança? E além dessas câmeras, o quanto não é frequente lojas, bancos e outros estabelecimentos terem câmeras que gravam, inclusive, parte das ruas? Então justamente na rua onde foi feito o ataque não havia uma santa câmera filmando que pudesse mostrar Edda ou alguém parecido com ela? Achei essa parte bem difícil de acreditar, mas entendo que Akin precisava disso para conseguir justificar o seu terceiro capítulo.

E aí o outro ponto que me incomodou foi a “solução criativa” que Katja deu para o seu plano de vingança. Sério mesmo que uma mãe que não tinha chegado a terminar a faculdade, que fazia uma carreira que não tinha nada a ver com eletrônica ou conhecimentos que pudessem lhe ajudar a fazer uma bomba poderia, com um bocado de facilidade, replicar uma bomba caseira como a que matou a sua família?

Para “justificar” o talento de Katja para os eletrônicos, ela foi mostrada em uma sequência do passado consertando um carrinho de controle remoto do filho. Novamente, achei exagerada a escolha de Fatih Akin para tornar o seu filme ainda mais potente. Não me parece que uma mulher com o perfil de Katja realmente faria aquilo – até porque, volto a dizer, seria muito mais fácil ela terminar com os neonazistas atirando neles, não é mesmo?

Então sim, o filme tem um belo propósito, é bem conduzido, faz o espectador se colocar no lugar da protagonista, mas ele poderia ter um roteiro um pouco mais bem cuidado. Aus Dem Nichts está entre os bons filmes dessa temporada, mas realmente eu não acho que ela era tão bom assim para ser um dos favoritos ao Oscar. Em outras palavras, não foi uma injustiça ele ficar de fora da disputa. Ainda assim, certamente ele merece ser visto.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Pessoal, estou na correria e super cansada. Então eu vou parar a crítica por aqui e publicar ela hoje apesar de não ter feito essa parte das curiosidades sobre o filme. Prometo retomar essa parte logo que possível. Mas, agora mesmo, prefiro publicar a crítica do que ficar com ela semi-pronta. Espero que me entendam. 😉

Olá pessoal! Voltei. 😉 Então, vamos falar um pouco mais sobre Aus Dem Nichts. Entre os aspectos técnicos do filme que vale destacar, me chamou a atenção a direção de fotografia de Rainer Klausmann; a edição de Andrew Bird; os figurinos de Katrin Aschendorf; o design de produção de Tamo Kunz; e a direção de arte de Seth Aschenorf.

O diretor Fatih Akin faz um bom trabalho na direção, começando por um vídeo mais “amador”, naquela sequência no presídio – se passando, então, realmente por um cinegrafista amador -, e seguindo com uma câmera muito próxima dos atores e de suas entregas. O roteiro dele e de Hark Bohm também é bom, mas não é excepcional – ele tem algumas falhas já comentadas. Esse não é o melhor filme de Akin, mas também não deixa de ser bom.

Do elenco, sem dúvida alguma a grande estrela é Diane Kruger. Ela está excepcional no papel de Katja. Realmente a entrega dela é visceral, ao ponto de não deixar ninguém incólume ou sem passar ao menos alguns minutos na sua pele. Um belo trabalho, sem dúvida. Além dela, vale destacar o bom trabalho de Denis Moschitto como o advogado Danilo Fava; de Johannes Krisch como o “odioso” advogado de defesa do casal de neonazistas; de Numan Acar como Nuri – pena que o papel dele tenha sido tão pequeno; de Henning Peker como o inspetor-chefe Gerrit Reetz; e de Rafael Santana em praticamente uma ponta – mas com desempenho muito simpático – como Rocco.

Aus Dem Nichts estreou em maio de 2017 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme participaria, ainda, de outros 29 festivais em diversos países. Nessa trajetória, o filme conquistou 10 prêmios e foi indicado a outros 14. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira; para o prêmio de Melhor Atriz para Diane Kruger no Bavarian Film Awards; para o prêmio de Melhor Atriz para Diane Kruger no Festival de Cinema de Cannes; para o prêmio de Melhor Filme no Festival de Cinema Vukovar; para os prêmios de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Atriz para Diane Kruger no Satellite Awards; e para três prêmios como Melhor Filme em Língua Estrangeira dados por associações de críticos.

Agora, uma curiosidade sobre essa produção. Como comentei antes, Aus Dem Nichts é dividido em três capítulos. Em cada uma dessas partes, o diretor de fotografia Rainer Klausmann usou um recurso diferente – justamente para diferenciar bem cada segmento. Na primeira parte do filme, ele filmou no modo “Super-16” com a intenção de obter um visual mais áspero. Na segunda parte, ele utilizou lentes anamórficas novas e filmou de uma maneira mais estática. E na terceira parte, ele utilizou lentes velhas vintage para conseguir imagens mais “suaves”. Os segmentos mais curtos de vídeos caseiros foram rodados com smartphones comuns.

De acordo com o site Box Office Mojo, Aus Dem Nichts faturou cerca de US$ 306 mil nos Estados Unidos. Uma bilheteria baixíssima e que revela o pouco interesse que o filme despertou no público daquele país.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção. Uma avaliação boa se considerarmos o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 76 críticas positivas e 28 negativas para o filme, o que garante para essa produção uma aprovação de 73% e uma nota média de 6,7. Enquanto isso, segundo o site Metacritic, Aus Dem Nichts registrou um score entre os críticos de 64 (22 avaliações positivas, 7 mescladas e 1 negativa) e um “user score” de 8,1. Ou seja, no geral, o filme foi bem avaliado.

Aus Dem Nichts é uma coprodução da Alemanha e da França. Há muito tempo, ao fazer uma consulta aqui no blog, as pessoas pediram filmes da Alemanha. Por isso, essa produção entra na lista de filmes que atendem o pedido de vocês.

CONCLUSÃO: Um filme potente, com uma atriz fantástica como protagonista e com uma história bastante atual. Infelizmente. Muitos problemas são gerados pela falta de memória história e pela falta de conhecimento, de educação e de humildade. Aus Dem Nichts nos mostra de maneira contundente os efeitos práticos de um ataque terrorista. Apesar de ser interessante e de jogar luz em questões importantes, esse filme peca por alguns detalhes de roteiro. Nada que o desmereça, mas sem dúvida ele não foi o melhor estrangeiro da temporada. Prefiro ainda o vencedor do Oscar nessa categoria, o chileno Una Mujer Fantástica (comentado aqui). Mas todos merecem ser vistos.