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The Beguiled – O Estranho Que Nós Amamos

Uma época de conflitos, de incertezas, o exato momento em que uma nação está se perguntando que tipo de futuro ela quer para si. The Beguiled nos transporta para o meio da Guerra Civil americana para nos fazer pensar em questões como a perda da inocência e o tipo de limite que uma pessoa aceita transpassar – e ensina outras a fazer o mesmo. Mais um filme belo, com direção de fotografia irretocável, e que leva a assinatura da diretora Sofia Copolla. Mais uma vez ela nos faz pensar que a beleza estética nem sempre encontra sintonia com a beleza “interior”. Um filme bonito, com interpretações competentes e que surpreende pelas mensagens intrínsecas e desconfortáveis.

A HISTÓRIA: Em meio a muitas árvores, ouvimos alguém cantarolando. Logo percebemos que se trata de uma garota. Vemos a natureza, ouvimos a voz da menina e passos antes de identificar alguém. Em um longo e belo caminho rodeado de árvores, a névoa ocupa parte do cenário que logo vai dar espaço para Amy (Oona Laurence). A menina está colhendo cogumelos na floresta, tranquilamente, até que ela encontra um “ianque”. O cabo McBurney (Colin Farrell) se apresenta e pede ajuda para Amy. A menina o ajuda a chegar até a escola onde ela e mais quatro meninas estão sob os cuidados de Miss Martha (Nicole Kidman) e Edwina (Kirsten Dunst). A chegada dele vai mudar a rotina do lugar definitivamente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Beguiled): Eu gosto de filmes de época. Eles nos apresentam um tempo que não vivemos mas que, de alguma forma, segue influenciando os nossos dias. Nesta produção, voltamos para o ano de 1864, três anos após o início da Guerra Civil nos Estados Unidos, como o roteiro de Sofia Coppola, baseado no roteiro de Albert Maltz e de Irene Kamp e que tem o livro de Thomas Cullinan como fonte de inspiração, bem sinaliza logo no início da produção.

A diretora e roteirista, mais uma vez, demonstra como têm talento para nos apresentar histórias envolventes e particularmente belas. Sofia Coppola parece, a cada filme, construir uma carreira que agrada aos olhos na mesma medida em que questiona o que o conceito de belo esconde. The Beguiled faz isso. Ao mesmo tempo em que temos um visual fantástico a cada minuto da produção, com cenas cuidadosamente “pintadas” pela diretora, somos apresentados para uma história que pode parecer simples, na aparência, mas que guarda alguns questionamentos interessantes.

Antes de falar da história propriamente dita, vamos comentar os pontos fortes da produção. The Beguiled se destaca, como outros filmes de Sofia Coppola, pela direção de fotografia. A diretora, que sempre demonstra ter bom gosto, conseguiu com o diretor de fotografia Philippe Le Sourd encontrar o tom perfeito para retratar aquela época e para agradar aos mais exigentes críticos do elemento estético de um filme.

Algumas cenas, como quando as mulheres/garotas do filme estão rezando ou quando elas vão fazer uma apresentação de música, são uma verdadeira obra de arte. Aquelas sequências fazem o espectador habituado com museus a pensar em quadros de grandes pintores. Realmente o visual do filme é o seu elemento de destaque. Depois, temos os figurinos de época maravilhosos assinados por Stacey Battat. Quando assistimos a um filme do gênero, a expectativa é sempre de encontrarmos figurinos impecáveis, e isso é o que encontramos em The Beguiled.

Além destes elementos, devo destacar o competente trabalho feito com o elenco. Todos que aparecem em cena – e o núcleo da produção é reduzido – estão bem, mas eu destaco as interpretações de Nicole Kidman como a diretora do colégio, Miss Martha; de Elle Fanning como Alicia, uma das estudantes mais velhas e a mais “atiradinha”; Oona Laurence carismática e convincente como Amy, a menina que encontra o soldado inimigo; e até Colin Farrell, que já nos apresentou algumas interpretações questionáveis, nesta produção consegue se sair muito bem.

Estes são os pontos positivos da produção. O roteiro de Sofia Coppola, baseado na adaptação anterior da obra de Cullinan e que foi estrelada por Clint Eastwood no filme homônimo de 1971, também é um dos pontos fortes. Claro que não temos nenhuma grande surpresa na narrativa, e o filme gasta um tempo considerável naquele repetitivo jogo de “sedução” entre o único homem do pedaço e o seu pequeno “harém”. Honestamente, o filme poderia até ter uns 10 minutos a menos – mas se agradece, de qualquer forma, por ele ter 1 hora e 33 minutos de duração e não duas horas.

Digo isso porque esta história realmente deve ser mais curta – até para que ela não se torne chata e excessivamente repetitiva. Afinal, não temos “grandes” acontecimentos em cena. Resumindo, um soldado inimigo é resgatado por uma garota e levado para a escola dela para ser tratado por “misericórdia”. As duas mulheres adultas, as três adolescentes/pré-adolescentes e as duas crianças que vivem naquela escola de forma isolada enquanto o país se fragmenta por causa de uma guerra civil ficam mexidas com aquela presença masculina imprevista.

Como em outras produções de Sofia Coppola, aqui novamente nós temos o tema do amadurecimento e da perda da inocência. Interessante como The Beguiled aborda a quebra da rotina e da paz com a chegada de um elemento inusitado. Na vida mesma, sem pensar especialmente na Guerra Civil americana, volta e meia somos testados por acontecimentos imprevistos. E como respondemos a estes testes é o que faz uma grande diferença. Isso está presente nesta produção também.

Mas voltemos um pouquinho para falar da história específica de The Beguiled – antes de falarmos da “filosofia” por trás desta produção. Ainda que a escola que é o centro da produção estivesse um tanto isolada e “protegida” da disputa entre os soldados do Sul e do Norte, as sete mulheres/garotas que ali viviam não estavam realmente alheias ao que acontecia. Cada uma delas tinha um “partido” na questão – o do Sul, claro, onde elas tinham sido criadas e de onde elas vinham – e, além disso, havia uma certa “tensão” no ar.

Isoladas, sem poder voltarem para as suas famílias – ao menos as estudantes, porque Miss Martha era dona daquela propriedade -, as garotas aguardavam o fim do conflito e a vitória do Sul para poderem retomar as suas vidas. Enquanto isso, elas tentavam manter a rotina o mais “normal” possível enquanto rezavam para não serem descobertas por soldados sem escrúpulos. The Beguiled mostra muito bem o “espírito” do povo do Sul dos EUA naqueles dias… pessoas muito religiosas mas que, ao mesmo tempo, defendiam algo absurdo como a escravidão.

E aí entramos nas questões que The Beguiled trata em suas entrelinhas e que nos provocam um sério desconforto quando a produção termina. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Acho que a questão mais importante levantada pelo roteiro de Sofia Coppola e que me fez pensar logo na saída do cinema foi sobre que educação Miss Martha estava dando para aquelas garotas. Chama muito a atenção que a ideia dos cogumelos venenosos tenha vindo de uma das garotas mais “inocentes” do grupo, Marie (Addison Riecke).

Curioso que aquelas meninas aprendiam francês, assim como bons modos, sabiam se virar na costura e na horta, rezavam, estudavam e trabalhavam todos os dias e que, ao serem confrontadas com um perigo, tivessem na saída do assassinato a sua opção mais “coerente”. Como elas chegaram nisso? Como hoje tantas pessoas encontram na violência e na morte de outras pessoas a saída para os seus próprios conflitos e medos? Talvez estas sejam as questões mais relevantes deste filme.

De forma sutil, mas muito dura, Sofia Coppola nos faz questionar as “boas pessoas” que existiam naquela época e hoje em dia. Afinal, ninguém poderia falar uma palavra conta aquelas sete mulheres/garotas da escola sulista americana. Assim como muitos hoje vestem a camisa de “gente do/de bem” mas, quando têm uma oportunidade, caem no caminho fácil de pensar em si próprios primeiro. Sim, é verdade que o cabo McBurney perde o controle e parece uma figura ameaçadora. Mas será mesmo que elas não poderiam ter esperado um pouco mais e lidado com o problema de outra forma?

Alguns filmes, como o interessantíssimo Hacksaw Ridge (comentado aqui), nos mostram com muita propriedade, e tendo uma história real como base, que é sempre possível escolher “não matar”. Mesmo que a sua vida esteja em risco, você pode escolher este caminho. Por isso mesmo chama muito a atenção – e cria um grande desconforto – a forma “natural” com que aquele grupo de garotas do Sul dos Estados Unidos resolvem acabar com uma vida que, antes, elas tinham decidido “salvar”.

The Beguiled nos joga na cara o conceito de “coisificação” das pessoas. Elas interessam enquanto podem nos ser “úteis”. Quando isso não é mais assim, elas podem ser descartadas. Isso lhes soa atual? Sim, realmente é. O cabo McBurney era uma atração para aquelas mulheres e garotas. Para as adultas, especialmente Miss Martha e Edwina, ele poderia se converter em um “bom partido”. Claramente existe tensão e atração sexual entre os três, em um tipo de “triângulo amoroso” bastante sugerido durante a produção.

Além de Miss Martha e Edwina, a outra peça mais próxima da conquista amorosa é Alicia. A adolescente, bastante ousada para a época, sabe mexer com o “soldado inimigo” e flerta com ele sempre que tem uma oportunidade. As outras meninas, mais jovens, também ficam ouriçadas e/ou interessadas, mas nada que chegue ao ponto de criar uma “tensão sexual” com o único homem do pedaço. Então McBurney é interessante para aquele grupo, até que ele passa a ficar violento e fora do controle e aí ele já passa a ser descartável. Era essa a sociedade que o povo do Sul estava realmente defendendo naquela guerra?

Como pessoas que se dizem religiosas, que rezam todos os dias e que defendem a misericórdia podem orquestrar e executar um plano de assassinato de forma tão “natural”? O comportamento das garotas no jantar derradeiro e a calma com que elas lidam com a situação no dia seguinte fazem pensar. No fim das contas, o Sul perde a guerra. Mas até hoje o que eles defendiam e o que vemos no filme persiste em diversas partes – não apenas nos Estados do Sul daquele país.

Nem todos conseguem ser coerentes, mas a busca por um pouco mais de coerência poderia ser um bom objetivo a ser perseguido, não? Este filme, tão belo e com ótimas interpretações, nos deixa um gosto amargo e um tom de certa perplexidade no final. Causa desconforto. E que bom que é assim. Sofia Coppola nos mostra, mais uma vez, que as aparências enganam e que mais do que bons modos, deveríamos aprender a ser boas pessoas. Do tipo que realmente defende a misericórdia e o perdão e não do tipo que vê no assassinato de alguém uma saída para uma situação de medo ou perigo. Sempre existe uma alternativa, inclusive para o status quo. Basta querer encontrá-la e pagar o preço por isso.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: The Beguiled têm um apelo estético fortíssimo. Antes, na crítica, eu já comentei as suas principais qualidades: a maravilhosa, belíssima direção de fotografia de Philippe Le Sourd e os figurinos igualmente maravilhosos de Stacey Battat. Mas há outros elementos que fazem toda a diferença para a produção. Destaco, neste sentido, o design de produção perfeito e lindo de Anne Ross; a direção de arte igualmente perfeita de Jennifer Dehghan; e a decoração de set de Amy Beth Silver. Esse trio faz um trabalho impecável, assim como os anteriormente citados.

Vale também comentar a bela trilha sonora de Laura Karpman e de Phoenix, e a competente edição de Sarah Flack. Notaram, aliás, a “supremacia” feminina. Interessante. 😉

Importante para a produção o trabalho do time de oito profissionais responsáveis pela maquiagem do elenco. Para algumas atrizes, essa maquiagem foi fundamental – assim como para Colin Farrell e as feridas de seu personagem. Vale também falar do importante trabalho da dupla Joseph Oberle e Wilson Tang nos efeitos visuais – que ajudaram a nos situar na época da Guerra Civil americana – assim como o departamento editorial que trabalhou com diversas restaurações digitais.

Os destaques do elenco, para mim, volto a comentar, foram Nicole Kidman – há tempos eu não via a atriz tão bem em um papel no cinema -, Elle Fanning e Colin Farrell. E olha que eu acho ele, muitas vezes, “canastrão”. Mas neste filme ele está muito bem – como há tempos eu não via também. Outra figura muito interessante foi Oona Laurence. Ainda que estes sejam os destaques, não dá para negar que fazem um bom trabalho Kirsten Dunst – me surpreendeu um pouco como ela “envelheceu” -, Addison Riecke, Angourie Rice (que interpreta Jane) e Emma Howard (que interpreta Emily). Elas fecham a lista das “sete” mulheres/garotas que vivem na casa e que abrigam o soldado inimigo.

O foco da produção são as garotas e o soldado que aparece em cena para mudar a rotina delas. Mas existem algumas outras figuras que fazem rápidas passagens na história e que merecem ser citadas, como Wayne Pére como o capitão confederado que passa pela escola; e Matt Story e Eric Ian como dois soldados confederados que também passam por ali.

The Beguiled estreou em maio de 2017 no Festival de Cinema de Cannes. Até agosto, a produção participou ainda de outros 10 festivais em diferentes países. Nesta trajetória o filme conseguiu conquistar quatro prêmios e foi indicado a outros 10. Os prêmios que a produção recebeu foram o de Melhor Diretora para Sofia Coppola no Festival de Cinema de Cannes; e Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Direção de Fotografia e Melhor Elenco no INOCA (International Online Cinema Awards). O prêmio para Sofia Coppola em Cannes teve um gosto especial porque foi a primeira vez em 50 anos que uma mulher ganhou como Melhor Direção – e na história da premiação, esta foi apenas a segunda vez que uma diretora conquistou esta honraria.

Talvez alguém que tenha gostado muito do filme possa se perguntar porque eu não dei uma nota maior para The Beguiled. Eu explico. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que o roteiro seja bem escrito, que o filme tenha boas interpretações e que o visual da produção seja ótimo, achei um tanto forçada a barra quando McBurney “perde a cabeça” e a consequente “solução” que seis das sete mulheres dão para o caso. Também um tanto estranha a forma com que ele se acidenta e um pouco arrastada a história em alguns momentos. Muitos antes do filme mudar de tom radicalmente, o espectador já espera que algo ruim vá acontecer – e isso não ajuda, exatamente, a produção a se sair melhor. Isso faz com que o filme, mesmo que seja bom, não seja inesquecível ou realmente marcante. Ele é bom, apenas isso.

Agora, aquelas rápidas curiosidades sobre a produção. A diretora Sofia Coppola pediu para a atriz Kirsten Dunst perder peso para o seu papel, mas a atriz se recusou dizendo que desprezava este tipo de preparo e que ela tinha acabado de sair de uma dieta feita para o filme Woodshock. Talvez tenha sido isso que me surpreendeu um pouco na atriz. Muitas vezes não sabemos que as atrizes que acompanhamos são colocadas em “regimes” para aparecer em cena… e como estou acostumada a ver Kirsten Dunst mais magra, talvez este tenha sido um ponto na presença dela em cena que me surpreendeu. Seria interessante vermos os atores mais em suas formas costumeiras, não?

Quando escreveu o roteiro de The Beguiled, Sofia Coppola tinha já a atriz Nicole Kidman para o papel principal. E após trabalhar com ela, Coppola disse que realmente a atriz é única, sendo capaz de apresentar cinco sentimentos diferentes em uma sequência. Ela tem razão. Nicole Kidman está em grande forma nesta produção. Para a nossa sorte. 🙂

Eu assisti a alguns trechos do The Beguiled de 1971 e algo me chamou a atenção: como uma personagem do filme original – e fiquei sabendo depois, da obra de Thomas Cullinan também – foi cortado da versão de Sofia Coppola. Essa personagem é Hallie, uma escrava negra que tem um papel importante nas obras originais. Segundo Sofia Coppola, ela decidiu cortar a personagem da sua versão porque ela considera o tema da escravidão muito sério e ela não queria tratá-lo de forma “suave”, por isso ela resolveu focar a história nas demais personagens da escola que estavam isoladas “do mundo”.

The Beguiled foi rodado em apenas 26 dias na Louisiana, em locais como a Madwood Plantation, em Napoleonville.

Este é o segundo filme de Elle Fanning com Sofia Coppola e a quarta produção que a atriz Kirsten Dunst faz com a diretora.

Colin Farrell e Clint Eastwood, atores que interpretaram o personagem do soldado ianque, fazem aniversário no mesmo dia, 31 de maio.

De acordo com Sofia Coppola, esta produção não é uma refilmagem do The Beguiled de 1971 e sim uma adaptação do romance de Thomas Cullinan.

Este é o primeiro filme de Sofia Coppola que não é produzido ou coproduzido pelo pai dela, Francis Ford Coppola. Ou seja, ela está desmamando. 😉

Esta versão de The Beguiled, assim como a de 1971, foram filmadas em Louisiana. Ainda assim, a produção de Sofia Coppola afirma que a história se passa na Virginia – e o romance que originou os dois filmes se passa no Mississippi.

The Beguiled teria custado US$ 10,5 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos e até o dia 10 de agosto, quase US$ 10,6 milhões. Nos outros mercados que o filme já estreou ele fez outros Us$ 5,3 milhões. Ou seja, está caminhando para cobrir os seus custos e começar a dar lucro.

Se você, como eu, ficou interessado(a) em refrescar um pouco a memória sobre a Guerra Civil americana, vale dar uma olhadela neste resumo do site História do Mundo e também neste link da Wikipédia que explica a origem do termo “ianque” – que é citado no filme em mais de uma ocasião para identificar o personagem de Farrell.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 181 críticas positivas e 49 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 79% e uma nota média de 7,1. Especialmente a nota do Rotten Tomatoes chama a atenção – é bastante boa para o padrão do site.

Este filme é uma produção 100% dos Estados Unidos – por isso ele atende a uma votação feita há tempos aqui no blog e pela qual vocês pediam críticas deste país.

Volta e meio eu comento sobre os títulos dos filmes. A versão para o Brasil, a mesma da produção homônima de 1971, é para acabar… achei o título horrível. Nada a ver, mas tudo bem. O título original, The Beguiled, poderia ser traduzido para algo como “O Seduzido”. Também não é o melhor dos títulos, mas pelo menos achei melhor do que a versão para o Brasil.

CONCLUSÃO: A diretora Sofia Copolla segue em sua jornada de nos fazer questionar o que é belo e o que é puro. Os seus filmes, a exemplo deste The Beguiled, nos apresenta uma fotografia maravilhosa. Um deleite para os olhos. Mas o que se esconde além das aparências? Em The Beguiled descobrimos que uma escola de moças estudiosas e religiosas pode esconder bons princípios que não resistem à tentação ou a uma simples ameaça do “status quo”. Aquela escola representa muitos outros grupos e coletivos e, porque não dizer, a própria sociedade. Um filme muito bem acabado, tecnicamente, e que ainda surpreende por apresentar uma história com tanto desconforto e questionamentos sob “a pele”. Vale assistir, ainda que não seja o filme que vai mudar a sua vida. 😉

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20th Century Women – Mulheres do Século 20

Estar sempre aberta e humilde para aprender, especialmente com as pessoas. Viver cada época da sua vida com atenção e com gratidão. Degustar da vida, seus sabores e dissabores. Ter a coragem de decidir se quer ter filhos ou não. Avançar e evoluir e tentar contribuir da melhor forma possível para que as pessoas ao redor, como você, sejam melhores. Tudo isso faz parte da vida e faz parte deste filme incrível chamado 20th Century Women. Ele concorreu ao Oscar 2017 como Melhor Roteiro Original e eu tinha certa curiosidade de assisti-lo, mas vi que ninguém tinha se empolgado muito com ele. Mas eu sim.

A HISTÓRIA: Ondas do mar. Santa Bárbara, 1979. Vemos a cidade do alto e, depois, um carro em chamas em um estacionamento. As pessoas começam a correr para ver o que está acontecendo. Dorothea (Annette Bening) e Jamie (Lucas Jade Zumann) olham admirados para a destruição. Dorothea diz que aquele era o Ford Galaxy do marido dela, o mesmo carro que eles usaram para trazer o filho deles do hospital para casa.

Jamie conta que a mãe dele tinha 40 anos quando ele nasceu, e que todos diziam que ela era muito velha para ter um filho. Dorothea conta sobre o primeiro contato com o filho, na maternidade, e como ela disse que a vida é grande e desconhecida. Esta é a história desta mãe e deste filho e das pessoas que conviveram com eles.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a 20th Century Women): Que bela e grata surpresa este filme! Ele me conquistou, desde o início, pela narrativa criativa e, claro, pelos ótimos personagens, pelo desenvolvimento da história e pelos diálogos. 20th Century Women é um exemplo fantástico de como o roteiro é algo fundamental em uma produção.

Como eu comentei na crítica anterior, de Ghost in the Shell (que você encontra por aqui), o roteiro para mim sempre será o elemento mais importante de qualquer produção. Em 20th Century Women ele é o elemento central e a melhor qualidade da produção, ainda que não seja a única, é claro.

Este filme conta a história fantástica de uma mulher de 55 anos que há vários anos cuida sozinha da criação do filho adolescente. Vivemos o final dos anos 1970, uma época de muitas modificações sociais e, claro, de avanços também na liberação da mulher. 20th Century Women coloca as mulheres em evidência, com certeza, mas o filme não se resume apenas a isso. Muito rico e interessante, ele também trata sobre a relação de mães e filhos e sobre como preparar um homem para o futuro.

Afinal, o que nos faz ser pessoas bacanas, realmente inseridas e participantes da sociedade? Que valores são importantes repassar para a frente, e como fazer isso sem sufocar quem precisamos educar? 20th Century Women trata de educação, mas trata também de amadurecimento e do desenvolvimento humano. E aí você pensa: puxa, mas tratar de todos estes temas em um filme deve ser algo complicado e maçante. Poderia ser, mas o roteirista e diretor Mike Mills faz isso com cuidado e maestria exemplar.

Como acontece com todo filme fantástico, sobre 20th Century Women também seria possível escrever praticamente um livro, ou um tratado. Não farei isso, vocês sabem, primeiro porque este não é o espaço adequado e, depois, porque com o meu manifesto eu já tinha defendido textos mais curtos e objetivos, citando que em casos especiais (e este é um deles) eu poderia escrever um pouco mais.

Gostei de algumas sacadas bacanas de Mills. Destaco duas. A primeira foi contar a história destacando alguns personagens centrais e os anos em que eles nasceram. A protagonista, claro, é Dorothea, que nasceu em 1924 e que tem a sua introdução narrada pelo filho, um rapaz que tenta entender a vida, a sua referência principal (a mãe) e tudo que lhe cerca sob a sua própria ótica pela primeira vez.

Não importa a idade que você tenha. Todos nós já fomos crianças e adolescentes na vida. Quando éramos crianças, nos divertíamos e tínhamos os pais como referência máxima. O respeitávamos, lhes obedecíamos e começávamos a conhecer outras pessoas e outras relações na escola e em outras partes. Na adolescência começamos, pela primeira vez, a pensar pela nossa própria conta. Percebemos mais as influências variadas que nos rodeiam e já não achamos que tudo o que nossos pais nos dizem é certo.

Este filme começa justamente neste momento na vida dos protagonistas, Dorothea e Jamie. Depois de sabermos um pouco mais sobre a Dorothea que nasceu em 1924, ela nos conta um pouco sobre o filho que nasceu em 1964. Sempre que conta cada história, Mills pinça alguns fatos e imagens que ajudam a contextualizar a geração daquela pessoa. Porque somos muito influenciados pelas nossas famílias, nossos pais e antepassados, mas definitivamente somos também produtos culturais e da sociedade em que nascemos e crescemos.

20th Century Women é, assim, um filme sobre desenvolvimento humano. Sobre o processo de crescer e de envelhecer e tudo que nos acontece no caminho. Enquanto Jamie está começando a abrir as suas asas e a pensar por conta própria, Dorothea está aprendendo a envelhecer sem estar casada e no padrão social estabelecido como mais comum para a época. Ela é uma mulher, mas é também mãe e profissional. Tem os seus desejos e as suas fraquezas e, sobretudo, tem muita vontade de aprender e um respeito profundo pelos demais.

Esta é uma das maiores belezas deste filme e da personagem principal da história. Essa abertura para aprender, para olhar para o outro e para si mesmo com sinceridade e atenção. Dorothea é uma personagem incrível, uma mulher incrível. E ela nos lembra tantas e tantas outras mulheres, inclusive as nossas mães. Muitas vezes demoramos para perceber isso, mas nosso pai e nossa mãe são pessoas comuns que decidiram, em algum momento da vida, ter filhos.

Ainda que quando somos crianças achamos que eles são perfeitos e que tudo que eles falam deve ser levado em conta e respeitado, conforme o tempo passa e nós mesmo passamos por diversos desafios na vida, percebemos com ainda mais verdade quem são os nossos pais. Como eles acertam e como eles erram. Como eles tem as suas inseguranças e as suas convicções. E como nós nem sempre precisamos concordar, e que tudo bem se for assim. O importante, e 20th Century Women trata disso muito bem, é conhecermos com profundidade uns aos outros, nos respeitarmos e nos amarmos sempre.

O roteiro de Mills também destaca as outras duas mulheres que fazem parte da vida de Jamie e Dorothea: a jovem estudante Julie (Elle Fanning), amiga de infância de Jamie; e a jovem fotógrafa Abbie (Greta Gerwig). Também conhecemos um pouco mais sobre a única figura masculina mais presente na vida do garoto, o mecânico e “faz-tudo” William (Billy Crudup), que está ajudando Dorothea a reformar a casa onde ela, o filho e Abbie moram.

Observadora inteligente do passar do tempo, Dorothea acaba ficando um pouco “perdida” com as mudanças pelas quais o filho passa na adolescência. Como acontece com todo adolescente, Jamie já não consegue dialogar com a mãe como antes e parece um tanto “revoltado” e/ou “distante”. Dorothea não sabe, porque ele é filho único e ela não teve outras mães para compartilhar sobre isso, mas esses comportamento são normais para a idade. Preocupada com o que está acontecendo, ela pede ajuda para Julie e Abbie, o que deixa Jamie revoltado.

E assim, com muita inteligência e cuidado, Mills avança na evolução de Dorothea e Jamie enquanto mãe e filho e enquanto indivíduos. Também avança nas relações entre os personagens centrais desta história, uma pequena comunidade que desbrava as interessantes e mutáveis relações entre as pessoas. Outra qualidade que achei muito interessante no roteiro de Mills foi a forma com que ele destacou algumas obras durante toda a produção.

Além de fazer uma linda homenagem para o clássico fundamental do cinema Casablanca, 20th Century Women abre espaço para citar diversas obras que acabam embalando o crescimento e o autoconhecimento de Jamie e de Julie. Enquanto a adolescente busca entender o amor e a sexualidade, Jamie mergulha em livros emprestados por Abbie e que tentam apresentar um pouco da complexidade feminina. Todos os temas são tratados com muita franqueza na produção porque os personagens vivem as suas vidas desta forma franca, bem ao sabor do final dos anos 1970 e início dos anos 1980.

Gostei também de como 20th Century Women mostra que não existem fórmulas de mulher (ou de homem) para serem seguidas. Enquanto algumas mulheres podem preferir nunca mais casar e ficarem sozinhas grande parte da vida, outras podem escolher o casamento e ter filhos, ao mesmo tempo que outras mulheres vão casar e não vão querer engravidar.

O século 20 trouxe esta liberdade para as mulheres. Da mesma forma, os homens podem ser mais ou menos sensíveis em relação a entender e conviver com as mulheres. Tudo isso vai depender da educação que eles receberam e das escolhas que fizeram na vida. É possível criar os filhos para eles serem mais sensíveis e inteligentes, isso Dorothea nos mostra bem. Mas, como sempre, esta não é uma decisão apenas de uma mãe ou de um pai, vai depender, essencialmente, da escolha do indivíduo de ele ser mais aberto, humano, sociável e sensível. Seja ele homem, seja ele mulher.

O roteiro é a grande qualidade desta produção. Mas ela também acerta na escolha do elenco, de cada personagem e, principalmente, na entrega de cada atriz e ator ao seus respectivos papéis. Todos estão ótimos, mas Annette Bening faz um trabalho excepcional. Ela está impecável. Finalizando as qualidades da produção, gostei muito da condução de Mike Mills, que é detalhista e perfeccionista. Ele sabe valorizar os cenários e os lugares mas, especialmente, os atores e o texto. Todos os demais aspectos que ajudam o filme a ser ambientado em sua época, inclusive a ótima trilha sonora, também funcionam muito bem. Enfim, um filme completo e de grande, grande qualidade.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gosto quando um filme me surpreende positivamente. Como eu falei lá no início, 20th Century Women entrou no meu radar por causa da indicação que ele recebeu no Oscar. Mas como eu ouvi algumas críticas mornas sobre ele, acabei deixando ele para ser visto mais tarde, sem pressa. Por pouco eu não o perdi, o que seria uma grande besteira. Apesar de ter recebido apenas uma indicação ao Oscar, ele é um grande filme, melhor que outras produções que foram indicadas mais vezes. Gosto de filmes humanistas, e esta é uma destas produções. Bela surpresa.

Fiquei muito interessada em conhecer mais sobre o diretor e roteirista Mike Mills. Este californiano de 51 anos de idade tem apenas 10 títulos no currículo como diretor. Ele estreou em 1999 com o vídeo documentário Air: Eating, Sleeping, Waiting and Playing. Depois ele fez dois curtas antes de fazer o vídeo Moby: Play – The DVD. Daí vieram mais um curta e um vídeo chamado Pulp Anthology em 2002. A estreia dele com um longa nos cinemas foi Thumbsucker, em 2005, filme que teve não apenas a direção dele, mas também o roteiro de Mills. Depois vieram o documentário Does Your Soul Have a Cold? em 2007 e, em 2010, o longa Beginners.

Este é um dos grandes filmes de Annette Bening. Ela tem uma personagem ótima e com um texto excepcional, mas isso não basta. É preciso talento para trazer veracidade para um texto tão bom. Ela é o grande nome do filme, mas os outros atores estão muito bem também. Elle Fanning está ótima e mostra, mais uma vez, como é um dos grandes nomes de sua geração. Greta Gerwig faz um grande trabalho, assim como a revelação Lucas Jade Zumann.

Entre os coadjuvantes, destaque para Billy Crudup sendo Billy Crudup – ele sempre está muito igual, não?; e para as pontas competentes de Alison Elliott, que interpreta a mãe de Julie; para Thea Gill, como mãe de Abbie; para Olivia Hone como a irmã de Julie; para Waleed Zuaiter como Charlie, colega de Dorothea e um de seus “romances” pontuais; e Darrell Britt-Gibson como Julian, um dos homens que Dorothea conhece e que chama para um jantar em casa. Há outros atores que aparecem como colegas de Jamie e Julie, mas ninguém sem grande destaque.

Da parte técnica do filme, Mike Mills manda bem não apenas no ótimo roteiro, mas também na direção cuidados a e detalhista, que valoriza especialmente os atores, mas também os ambientes e o tempo narrativo. Ele conduz muito bem o filme. A trilha sonora de 20th Century Women, com muito rock e punk, também é um ponto a destacar. Fantástico. Vale também elogiar a direção de fotografia de Sean Porter; a edição de Leslie Jones; o design de produção de Chris Jones; os figurinos de Jennifer Johnson; e a decoração de set de Aimee Athnos, de Traci Spadorcia e de Neil Wyzanowski.

20th Century Women teria custado US$ 7 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 5,6 milhões. Ou seja, o filme, mesmo que você incluir o resultado obtido em outros mercados, está mal conseguindo pagar os custos de produção e distribuição. Espero que ele tenha algum sucesso no boca a boca, porque a produção merece ser mais conhecida.

Esta produção foi rodada em várias locações na Califórnia e uma pequena parte em Nova York. Entre os locais na Califórnia, há cenas em East Beach, em Miramar Beach e em Montecito, incluindo em Four Seasons Resort The Baltimore Santa Barbara.

Entre as curiosidades de 20th Century Women está a de que o filme é semi-autobiográfico, segundo Mike Mills. Os personagens do filme são inspirados em pessoas que participaram da juventude do diretor. A personagem de Annette Bening tem traços da mãe de Mills e também da própria atriz.

Durante as gravações, o elenco foi incentivado a sugerir músicas que eles achavam que os seus personagens escutariam. O filme Casablanca era um dos favoritos da mãe de Mills, por isso ele aparece em mais de um momento de 20th Century Women.

20th Century Women ganhou nove prêmios e foi indicado a outros 65. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Actress Defying Age and Ageism para Annette Bening dado pelo Alliance of Women Film Journalists; o de Melhor Atriz para Annette Bening do Atlanta Film Critics Society Awards; Melhor Atriz Coadjuvante para Greta Gerwig dado pela Detroit Film Critics Society; e os de Melhor Atriz para Annette Bening e de Melhor Atriz Coadjuvante para Greta Gerwig conferidos pela Nevada Film Critics Society. Além de uma indicação ao Oscar, o filme também foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme – Comédia ou Musical e ao de Melhor Atriz – Comédia ou Musical para Annette Bening.

Esta produção é 100% dos Estados Unidos, por isso esta crítica atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog na qual vocês pediram filmes daquele país.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para 20th Century Women, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 144 textos positivos e 19 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 88% e uma nota média de 7,8. Achei interessante como especialmente os críticos gostaram da produção.

CONCLUSÃO: Muito do que somos tem a ver com as nossas origens. Nossos pais, antepassados, o entorno em que nascemos e no qual crescemos. Ainda que tudo isso seja verdade, há um peso muito específico e que merece ser sempre analisado: o das nossas mães. Elas nos influenciam decisivamente. Este filme fala sobre isso e fala sobre a força impressionante que as mulheres tem no mundo. Ainda que o título remeta às mulheres do século 20, ele poderia tratar de mulheres de qualquer época. Nós temos a força, é preciso dizer.

Com muita sensibilidade e um roteiro incrível, 20th Century Women presta uma grande homenagem à todas as mulheres e para todas as mães. Dificilmente alguém não verá ao menos um pouco da sabedoria e da coragem de suas próprias mães na protagonista deste filme. Roteiro primoroso, elenco muito afinado e que faz um grande trabalho, 20th Century Women é delicioso para quem não tem pressa em ver um filme e gosta de se deliciar com grandes história. Para quem curte, volta e meia, pensar na vida e em como caminha a Humanidade. Achei impecável, maravilhoso, inspirador.

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The Neon Demon – Demônio de Neon

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Nem sempre a gente acerta. Mas tentar é o que importa. As falhas fazem parte do jogo. Como em outras ocasiões, procurei acompanhar um jovem diretor que me parecia promissor. E como já aconteceu antes, me decepcionei com o segundo trabalho que vi de um diretor em ascensão. The Neon Demon não traz absolutamente nada de novo e ainda excede nas intenções com pouco resultado prático interessante. Verdade que o filme mergulha na superficialidade, no jogo de aparências, cobiça e alta competitividade do mundo da moda – clima que está presente em outros segmentos também, diga-se. Mas apesar de uma ou duas boas ideias, que não tem nada de realmente inovadoras, este filme apenas gasta o nosso bom e precioso tempo sem apresentar nada além de uma crítica ligeira e um tanto over.

A HISTÓRIA: Uma garota, que parece mais um manequim, aparece deitada em um sofá clássico, iluminada com luzes de neon, com o pescoço cortado e cheia de sangue. Ela é fotografada por um aspirante a fotógrafo de moda. Em seguida, a modelo, a jovem Jesse (Elle Fanning), aparece limpando o sangue falso. Ruby (Jena Malone) a examina pelo espelho e puxa conversa. Ela diz que está admirando a bela pele de Jesse. Ruby se apresenta e fica conhecendo a modelo que chegou há pouco tempo em Los Angeles. Ela ajuda Jesse a tirar a maquiagem e a convida para uma festa. Pouco a pouco a nova modelo vai mergulhando no cenário da moda de Los Angeles.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Neon Demon): Eu tenho essa mania de ficar fascinada com alguns diretores e, depois, “persegui-los” em seus próximos trabalhos. Algumas vezes acompanhar determinados diretores se mostra algo interessante mas, outras vezes, nem tanto. Esta não é a primeira vez que após ver a um belo trabalho de um diretor, me decepciono terrivelmente na experiência seguinte com ele.

Neste blog, já demonstrei essa minha “decepção” antes com Julio Medem, que me deixou fascinada com os filmes Los Amantes del Círculo Polar e Lucía y el Sexo e que, depois, nos apresentou o horripilante Caótica Ana (o único comentado aqui no blog, que pode ser acessado neste link). Muito ruim esse seu novo filme. O mesmo aconteceu agora, com o diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn. Gostei muito do que ele apresentou em Drive (com crítica neste link), por isso me interessei por esse The Neon Demon. Também gosto da protagonista, a sempre competente Elle Fanning. Mas não vou enrolar vocês: esse filme é ruim. Nada mais, nada menos.

Vejamos. A história toda gira em torno do competitivo mundo da moda de Los Angeles. Ok, o ambiente fascina o diretor, que também ambiente Drive na cidade que é a meca do cinema nos Estados Unidos. E a história, que desde o início mexe bem com a ideia da superficialidade e até começa bem ao investir novamente em um importante protagonismo da trilha sonora e da ótima fotografia, logo se mostra com pouca criatividade.

O argumento é clássico e um tanto óbvio: uma jovem garota sai do interior e chega à Los Angeles fascinando as pessoas por sua beleza e por não ter nenhum cacoete de quem já está há tempos no mercado. A atriz Elle Fanning se encaixa perfeitamente no estereótipo porque tem um jeito angelical e um perfil maleável que permite que ela tanto pareça uma moça do interior quando não está em uma produção de moda quanto uma garota totalmente no padrão da indústria quando está sob a lente de um fotógrafo ou em um desfile.

Essa mesma garota do interior que acaba fascinando quem é do ramo acaba gerando uma grande antipatia das “concorrentes” do mercado, outras modelos também em busca de sucesso. Logo no início do filme, vemos a protagonista Jesse sendo fotografada por um rapaz que está, como ela, buscando mostrar trabalho em Los Angeles. Eles tem o desejo de crescer em comum, mas é evidente o fascínio que Jesse também desperta no rapaz – que acaba não tendo muitas chances com ela conforme a protagonista vai sendo descoberta.

Algo interessante nos minutos iniciais da produção é o que aquela sequência nos sugere. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O filme de Refn é dúbio do início ao fim. Se nas cenas iniciais temos dúvidas se estamos vendo a uma pessoa de verdade ou a um manequim – algo que se repetirá em outros momentos e com outras atrizes -, também nos questionamos se o fotógrafo Dean (Karl Glusman) é um psicopata que acaba de matar a sua mais recente vítima ou se aquela cena é uma montagem.

Este jogo duplo permanece na história em diversos momentos. Talvez seja a forma do diretor e roteirista (a história original é de Nicolas Winding Refn, que acabou dividindo o roteiro com Mary Laws e Polly Stenham) argumentar que tudo que envolve a moda e Los Angeles seja dúbio e que as aparências enganam. A filosofia é válida, mas o que nos interessa é o produto final de The Neon Demon.

Verdade que o diretor segue em sua “cruzada” para resgatar o espírito de filmes dos anos 1970 – percebemos isso tanto pelo uso “exagerado” das cores quanto pela presença marcante da trilha sonora -, o que é sempre válido. Mas afinal de conta, o que The Neon Demon nos apresenta? Como comentei antes, até que as ideias iniciais do filme são interessantes, assim como o início de sua execução. Mas o que me incomodou, conforme a história foi se desenvolvendo, foi justamente a falta de um desenrolar da história melhor, com a apresentação de argumentos que não fossem “mais do mesmo” ou redundantes e, especialmente, me incomodou o final.

Para resumir, me parece que o diretor está se perdendo no formato e nas intenções, tentando apresentar algo muito mais conceitual do que funcional. Em outra palavras, The Neon Demon me pareceu muito mais presunçoso do que competente. O filme tem algumas participações especiais de atores importantes que valorizaram a produção, mas eles tem papéis relativamente pequenos e desinteressantes na história.

O roteiro realmente é focado na protagonista e, em menor escala, nas outras três atrizes que orbitam em volta dela – a maquiadora que é fascinada pela beleza e pelo potencial da “carne nova no pedaço”, e as duas modelos que são as suas concorrentes diretas. A única atriz com destaque que realmente tem uma interpretação interessante é Elle Fanning. A atriz se esforça, ainda que a personagem de Jesse careça de história, e isso porque ela tem a personagem melhor desenvolvida da trama. As demais personagens são ainda pior desenvolvidas.

Nicolas Winding Refn recorre ao velho recurso de mostrar Jesse em uma e outra conversa – essencialmente com Dean – em que ela revela um pouco mais sobre a própria origem e estilo. Mas é pouco. Os outros personagens, conhecemos menos ainda. Apenas sabemos que todas as modelos e Dean estão lutando bravamente por conseguirem algum tempo nos holofotes. Os outros personagens são secundários e aparecem apenas para fins bem específicos na história.

O ator Desmond Harrington interpreta ao “badalado” fotógrafo Jack que aparece apenas para ajudar a impulsionar a carreira de Jesse; a ótima Christina Hendricks, conhecida por seu trabalho em Mad Men, aparece em uma pequena ponta como Roberta Hoffmann, dona de uma agência de modelos que rapidamente aposta na nova promessa; Keanu Reeves está em um papel estranhíssimo como Hank, gerente do motel em que Jesse está hospedada, e que aparece apenas para trazer tensão para a história da garota; e Alessandro Nivola interpreta o estilista Robert, que só aumenta a tensão ao também apostar um tanto “gratuitamente” na nova beleza do mercado.

A história é meio forçada – ainda que conhecemos, claro, histórias de modelos que tiveram carreira meteórica. Mas a impressão que eu tive durante o filme é que apesar de linda e de boa atriz, Elle Fanning não exatamente convenceu como uma grande beldade em quem todos apostariam tão rapidamente. Jovem, com 16 anos recém-completados, e com uma beleza que poderia ser bem moldada, ela tinha argumentos a seu favor. Mas daí a ela sair fascinando a todos com tanta facilidade… é preciso um pouco de generosidade do espectador para acreditar.

O diretor se esforça em mostrar a transformação da jovem modelo. Especialmente na interminável sequência relacionada ao desfile de Robert em que através de imagens de um prisma, vemos Jesse ganhando outras “personas” e se tornando ambiciosa. Isso seria como que uma desculpa para o que aconteceria com ela depois? Afinal, ela foi contaminada por aquele ambiente competitivo, deixou a fama incipiente “subir à cabeça” e, desta forma, justificou o próprio final?

Refn tem diversas ideias estranhas e um desenvolvimento conceitual, é verdade, mas um tanto desgastado – levando em conta Drive, para dar um exemplo – e um bocado excessivo nesta nova produção. Honestamente achei exageradas algumas sequências “conceituais”, especialmente aquela do prisma durante o desfile. Uma boa digital do diretor é sempre bem-vinda, mas ela precisa ajudar a história e não substitui nunca um bom roteiro.

Sem dúvida alguma o ponto fraco de The Neon Demon é justamente o roteiro. Muitos já falaram sobre a superficialidade e a alta competitividade do mundo da moda. Refn não exatamente apresenta uma grande inovação com este filme. Pelo contrário. Ele requenta velhas discussões, exagera nos recursos que ele tem apostado como diretor e cai em velhos estereótipos. Desde a sequência inicial do filme é possível perceber que o interesse de Ruby por Jesse é além do fascínio por sua beleza – há tensão sexual no ar. Por isso não é surpresa o “ataque” dela quando Jesse está em seu território.

Achei o final especialmente decepcionante. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Refn parece se esforçar para “escandalizar” o espectador. Primeiro, com Ruby “transando” com uma mulher morta após não conseguir ter êxito na investida em Jesse. Na sequência, ela se “vinga” da jovem modelo ao entregá-la para as rivais Gigi (Bella Heathcote) e Sarah (Abbey Lee). Ruby é a algoz principal da história porque Jesse confiava nela e, na hora H, é a maquiadora que atira a garota na piscina.

As duas modelos concorrentes ajudam a perseguir a vítima e, após ela ter sido “abatida”, voltam a atacá-la junto com Ruby. Muitas vezes durante o filme eu não sabia bem “quem era quem” entre as duas modelos loiras. Acredito que a intenção de Refn era realmente esta, mostrar que “todas são iguais”. A maneira de diferencia-las é que a modelo um pouco mais experiente e consagrada, Gigi, é a que tem cabelos curtos e que fez todas as mudanças possíveis no próprio corpo para “emplacar” melhor. Sarah é a modelo de cabelo mais comprido, mais jovem e ambiciosa.

Além de aniquilar a concorrente, as duas modelos acabam “consumindo” ela. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Na sequência final e derradeira da história, fica claro que as duas literalmente devoraram a protagonista. Reza a lenda que os adeptos do canibalismo muitas vezes comiam as suas vítimas para “roubar” delas as suas principais qualidades – como força, destreza, etc.

Pois bem, Refn utiliza esta ideia em The Neon Demon. As modelos devoram Jesse para tentar assumir a sua beleza e o diferencial que ela tinha no mercado. Uma ideia, convenhamos, muito estapafúrdia. E no fim das contas, o que o diretor quer nos dizer?

Que o mundo da moda é feito de altíssima carga de ambição, de valorização exagerada e superficial da beleza, do consumo de belas mulheres até a morte – seja através de incontáveis plásticas seja através da puxada de tapete de uma profissional contra a outra (exageradamente representada aqui pelo assassinato e pelo canibalismo)?

Verdade que este ambiente é cruel e cheio de exageros, mas há algo de novo nesta leitura de Refn? Nada, absolutamente nada. Se eu soubesse antes, teria poupado o meu tempo vendo a este filme e, consequentemente, escrevendo sobre ele. Infelizmente o que vimos de “renovação” de um gênero em Drive não encontramos neste novo filme de Nicolas Winding Refn.

NOTA: 5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como vocês bem sabem, tenho como regra sempre comentar um filme por aqui depois de assisti-lo. Então mesmo não gostando de The Neon Demon, tive que argumentar sobre essa minha frustração por aqui. Quando o filme é bom e inspirador, gasto este tempo com prazer. Afinal, posso estar estimulando outras pessoas a ver uma bela produção. Agora, quando o filme é totalmente dispensável, como é o caso de The Neon Demon, admito que me dá um bocado de preguiça de falar da produção aqui no blog. Minha vontade mesmo era escrever apenas a introdução, dar uma nota baixa e terminar dizendo: “Não assista”. Mas o meu compromisso com vocês não é apenas dizer que não gostei, mas argumentar sobre.

Ao “refrescar” a minha memória sobre Nicolas Winding Refn é que eu percebi que eu perdi o filme que ele lançou após Drive. Não assisti a Only God Forgives. Se alguém que ler este texto assistiu, me digam: vale a experiência?

O diretor de The Neon Demon entende bem de seu ofício. Ele tem um olhar clínico para cada cena e tem um senso estético muito bom. Isso faz com que a nota para este filme não seja menor. Mas o roteiro… para mim, que sempre busco grandes filmes e histórias neles, o roteiro é fundamental. E o calcanhar de Aquiles desta produção é justamente o roteiro. Mas o diretor, sem dúvida, tem um apreço estético e qualidade técnica indiscutíveis.

The Neon Demon estreou em premiere no Festival de Cinema de Cannes em maio deste ano. Depois o filme participaria, ainda, de outros cinco festivais. Inclusive um sobre cinema canibal, no México. 😉 Nesta trajetória o filme ganhou dos prêmios e foi indicado a outros dois. Os prêmios que ele recebeu foram o de Melhor Compositor para Cliff Martinez no Festival de Cinema de Cannes e o de Melhor Time de Locação do Ano – Filme Independente no California on Location Awards. Honestamente, acho incrível este filme ter ganho dois prêmios – e pensar que tantos outros filmes melhores nunca ganharam nada…

Apesar da minha bronca com The Neon Demon, preciso admitir que ele tem algumas qualidades técnicas muito evidentes. Além da boa direção de Refn, que tem uma visão bem definida e estilo próprio, devo destacar a ótima direção de fotografia de Natasha Braier e a trilha sonora inspirada de Cliff Martinez. O editor Matthew Newman também faz um trabalho muito bom. Apesar de ser um filme de moda, apenas em algumas ocasiões os figurinos de Erin Benach me chamaram a atenção. O trabalho dela acaba sendo ofuscado até pela equipe de maquiagem com quatro profissionais – liderados por Erin Ayanian na maquiagem e por Shandra Page no cabelo.

Do elenco, como comentei antes, o destaque é mesmo Elle Fanning. A atriz está muito bem no papel de protagonista, ainda que sofra com um texto bem fraquinho em alguns momentos. Do elenco de apoio, tem um desempenho um pouco acima da média Jena Malone. Das pontas, gostei de Christina Hendricks. Os demais atores, incluindo Keanu Reeves, estão muito displicentes e sem destaque.

The Neon Demon teria custado US$ 7 milhões. Não é um grande orçamento, para os padrões de Hollywood, mas também não é custo desprezível. Claro que o filme faz parte do grupo de “cinema independente”, mas este orçamento poderia ter garantido um ou duas produções melhores. Nos Estados Unidos o filme não decolou, fazendo pouco mais de US$ 1,33 milhão nas bilheterias. Quem sabe com este fracasso o diretor reveja o próprio trabalho? Seria uma boa ideia. Potencial ele tem. Só tem que melhorar – e muito – com os roteiros.

Como o filme mesmo sugere, ele foi totalmente rodado em Los Angeles, na Califórnia. Entre as locações estão o Bristol Salt Flats, o Hollywood Boulevard, o Sunset Boulevard, o Brite Spot Diner (a lanchonete em que Ruby se encontra com as modelos Gigi e Sarah) e o Canfield-Moreno Estate. Há cenas também em Malibu (a casa na praia que fecha a produção).

Agora, aquelas curiosidades clássicas sobre o filme: de acordo com a atriz Elle Fanning, The Neon Demon foi rodado em ordem cronológica e o final da produção foi criado e improvisado em conjunto.

Este foi o segundo filme de Refn que estreou no Festival de Cinema de Cannes. A diferença é que, desta vez, The Neon Demon foi bastante vaiado após a exibição para a imprensa.

A exemplo da personagem que ela interpreta, Elle Fanning tinha 16 anos quando o filme foi rodado. Para preparar a atriz para o papel de protagonista, o diretor de The Neon Demon fez Elle Fanning assistir a Beyond the Valley of Dolls, de 1970.

Responsável pela trilha sonora do filme, Cliff Martinez definiu The Neon Demon como uma mistura entre Valley of the Dolls (1967), dirigido por Mark Robson, e The Texas Chain Saw (1974), de Tobe Hooper.

De acordo com a produção, há duas cenas que não estavam no roteiro e que foram improvisadas quando o filme foi rodado. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A primeira sequência é aquela em que Elle Fanning beixa a própria imagem no espelho – a atriz improvisou o beijo -; e a segunda é aquela do sexo com o cadáver. Inicialmente a atriz Jena Malone iria apenas dar um beijo na mulher morta – mas ela acabou improvisando o restante.

Este filme é uma coprodução a França, da Dinamarca e dos Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para esta produção. Uma avaliação bastante boa, para o meu gosto. Os críticos que tem os seus textos linkados no site Rotten Tomatoes não foram tão generosos. Eles dedicaram 96 críticas positivas e 84 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 53% e uma nota média de 5,7.

CONCLUSÃO: Um filme sobre superficialidade, beleza, moda e a competição levada ao extremo da insanidade que se apresenta cheio de proposta e de conceito mas que, na prática, frustra o espectador que espera algo mais. A história, que gira demais sob um mesmo elemento, parece apenas uma desculpa para mostrar belas atrizes e um cenário da moda por demais estigmatizado e caricatural. O argumento da trama é simplista, e a conclusão da história, ainda que tenha uma “problematização” da trama superficial, parece tão forçada quanto a leitura do cenário feito pelo diretor. Certamente, com outras opções no cinema, este filme não é a melhor escolha. Veja apenas se tiver um grande interesse na protagonista ou no mundo fashion, sem se importar com as falhas da produção.

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Trumbo – Lista Negra

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Quase todos os países do mundo já viveram épocas tenebrosas em suas histórias. Os Estados Unidos não é diferente. Na verdade, o mundo enquanto conjunto civilizatório já viveu diversas épocas tenebrosas e que valeriam variados filmes críticos. Trumbo trata de uma destas épocas sob uma ótica pouco mostrada pelos filmes de Hollywood: a chamada caça à bruxas dentro dos estúdios de cinema durante a Guerra Fria. Eu já tinha lido um bocado a respeito e sabia sobre a perseguição de vários nomes, mas nunca tinha visto um filme tão direto e focado neste assunto quanto este Trumbo.

A HISTÓRIA: Começa explicando que durante os anos 1930, em resposta à Grande Depressão e ao crescimento do Fascismo, milhares de americanos se filiaram ao Partido Comunista dos Estados Unidos. Depois que os Estados Unidos se aliaram à União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial, muitos mais se juntaram ao partido. O roteirista Dalton Trumbo, antigo defensor dos direitos trabalhistas, tornou-se membro do partido em 1943. Mas a Guerra Fria lançou uma nova luz de suspeita sobre os comunistas americanos. A história propriamente começa em 1947, na propriedade de Trumbo ao norte de Los Angeles. Vemos o autor trabalhando, o cenário de Hollywood naquela época e o início da caça aos comunistas em Hollywood.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Trumbo): Gosto de filmes que falam de cinema e da relação que esta arte tem com a sociedade e vice-versa. Eles não são muito frequentes, por isso é sempre um deleite quando encontramos uma boa produção que trate desta indústria. Trumbo, para ser ainda melhor, não trata de uma fase qualquer da indústria, e sim quando ela mudou para sempre.

Há diversos acertos e alguns pequenos deslizes neste filme. Primeiro, vou falar de todos os acertos – que, em número, excedem em muito as falhas da produção. Para começar, o roteirista John McNamara, baseado no livro de Bruce Cook, acerta em focar a carreira de Trumbo pouco antes dela começar a ser questionada e desmoronar. Não demora muito, assim, para o filme entrar na questão central, que foi a criação pelo Comitê de Atividades Anti-Americanas, criado em 1938, de um inquérito para investigar a Indústria Cinematográfica de Hollywood em 1947.

Ao mesmo tempo que o roteiro de McNamara acerta em ir direto ao ponto e em se debruçar no que aconteceu durante, imediatamente depois e nos anos seguintes deste processo que ficou conhecido como “caça às bruxas em Hollywood”, o filme perde um pouco de contextualização. Eis um motivo para, apesar de soberbo, brilhante e necessário, este filme não ser perfeito.

Valeria ter gasto alguns minutos a mais para explorar melhor aquelas ameaças de greve que aparecem rapidamente no início de Trumbo. Na verdade, elas foram causadas, mais que por influência dos “comunistas”, como o filme pode ter sugerido, por uma mudança de lógica em Hollywood. Na década de 1940 os grandes estúdios, até então predominantes nas decisões de Hollywood, estavam começando a ruir enquanto catalisadores da indústria. Grandes diretores e atores surgiram com poder criativo e de escolha, ditando regras e não mais repetindo as velhas fórmulas dos estúdios.

Neste cenário, naturalmente diversas categorias começavam a exigir mais. Trumbo mostra os designers de produção fazendo piquetes e greve, mas na história de Hollywood há diversos outros profissionais que fizeram isso. Uma das greves mais conhecidas foi a relativamente recente paralisação dos roteiristas de Hollywood entre o final de 2007 e o início de 2008, em uma paralisação que durou 100 dias e que afetou produções para o cinema e para a televisão – confira aqui uma matéria que fala do final desta greve.

Comentei isso apenas para deixar claro que a greve dos designers de produção e as manifestações de outras categorias na Hollywood da segunda metade dos anos 1940 tinha pouco a ver com os comunistas. Verdade que eles defendiam uma outra organização econômica e social, mas nem todos eram panfletários. E mesmo que fossem, eles não faziam isso através dos filmes e sim em sua vida particular. Trumbo, o filme, mostra isso com propriedade.

Gostei muito do roteiro de McNamara e da direção de Jay Roach. Os dois realmente focam no personagem central, o roteirista Dalton Trumbo, mas nem por isso ignoram o que acontece ao redor dele. Verdade que acho que faltou um pouco mais de contextualização histórica, como eu comentei antes. Afinal, depois da prisão e da soltura de Trumbo, passados alguns anos daquela perseguição descabida, parece um tanto inusitado para quem não acompanhou a história de Hollywood o ator Kirk Douglas (interpretado por Dean O’Gorman) bater à porta do roteirista para pedir que ele refizesse o roteiro de Spartacus.

Afinal, quando Trumbo começa, figuras como Louis B. Mayer (interpretado por Richard Portnow), um dos fundadores do estúdio MGM, é quem dita as regras da indústria. Como, anos depois, Kirk Douglas era o produtor de seu próprio filme e, junto com Stanley Kubrick, foi o grande responsável por Spartacus? Isso tem a ver com o que eu disse antes, com a ascensão de diretores como Alfred Hitchcock e de atores como Huphrey Bogart e Kirk Douglas, que ganharam mais independência, autoridade e autonomia, enquanto os estúdios perderam força.

Essa falta de contextualização atrapalha um pouco Trumbo. Senti falta também de serem citados mais nomes perseguidos naqueles tempos. Afinal, verdade que Trumbo fez parte do “The Hollywood Ten” (Os Dez de Hollywood), primeiro grupo identificado e penalizado por ser comunista e trabalhar em Hollywood, mas em junho de 1950 três ex-agentes de FBI e um produtor de televisão de direita, Vincent Harnett, publicaram o Red Channels.

Esse documento listava nada menos que 151 nomes de roteiristas, diretores e atores que passaram a integrar a lista negra do Comitê de Atividades Anti-Americanas. Conforme as pessoas eram convocadas para falar com o Comitê e preferiam ficar caladas, elas também eram listadas – cerca de 320 pessoas passaram a fazer parte desta lista que as impedia, em teoria, de trabalhar na indústria. Entre os nomes incluídos nesta relação estavam os de Leonard Bernstein, Charlie Chaplin, John Garfield, Dashiell Hammett, Lillian Hellman, Arthur Miller e Orson Welles.

Claro que eu não esperava que Trumbo listasse todos esses nomes, mas poderia ter indicado, aqui e ali, no roteiro de McNamara, alguns destes nomes conhecidos além daqueles 10 iniciais que acabaram presos. Mas esses são os únicos aspectos que me “incomodaram” um pouco neste filme, pensando neles especialmente depois que a produção terminou. Porque enquanto o filme está se desenrolando ele é apenas um grande deleite.

Trumbo acerta ao mostrar os bastidores de Hollywood e, principalmente, em focar os efeitos daquela caça às bruxas na vida dos nomes perseguidos e suas famílias. Para mim, o filme tem dois grandes recortes: o óbvio, sobre a indústria do cinema, e o menos óbvio, dos perigos da histeria coletiva e da política do medo. Especialmente o segundo tema é mais do que atual. Nos Estados Unidos, desde o ataque às Torres Gêmeas, a política do medo vive assombrando a população e a cultura do país, provocando estragos particulares e coletivos dentro e fora do país.

Falemos primeiro do recorte sobre Hollywood que o filme faz. Fiquei impressionada não apenas com a interpretação de Bryan Cranston, que está perfeito, mas também com os atores que interpretam personagens importantes daquela época e daquele círculo como Edward G. Robinson (interpretado por Michael Stuhlbarg), Hedda Hopper (a ótima Helen Mirren), John Wayne (David James Elliott), Arlen Hird (Louis C.K.), Buddy Ross (Roger Bart), Frank King (John Goodman), Hymie King (Stephen Root) e Otto Preminger (Christian Berkel). Ainda ainda o já citado Kirk Douglas e uma ponta de John F. Kennedy (Rick Kelly).

Sempre é um prazer ver tantos personagens importantes da história – especialmente de Hollywood – sendo reinterpretados e trazidos novamente “à vida”. A reconstituição de época e os “bastidores” do cinema que permeiam toda a história são interessantíssimos, especialmente para quem gosta do tema. Interessante ver as relações de poder e o jogo de interesses que permeia os diferentes estúdios e profissionais que atuam naquela área, assim como o governo e formadores de opinião – como a jornalista Hedda Hopper. Na época figuras como ela podiam destruir ou, pelo menos, abalar reputações com bastante facilidade.

Essa narrativa dos bastidores de Hollywood não é muito comum e, por isso mesmo, Trumbo se torna um filme diferenciado. No fim das contas, apesar de toda a pressão e “terrorismo” das pessoas que queriam acabar com os comunistas no país, o talento venceu. Com a ajuda inicial fundamental dos irmãos Frank King e Hymie King, Trumbo conseguiu sobreviver e, pouco a pouco, trabalhar cada vez mais – e até em demasia – para pagar as contas e dar estabilidade para a família.

E daí surge o outro aspecto interessante de Trumbo. Ao focar essencialmente em um personagem importante daquela época, o filme dirigido por Roach se aprofunda na personalidade e no cotidiano do personagem, mostrando não apenas o seu talento, mas também o seu contexto familiar e de amizades. Esta produção acerta, sem dúvida, ao fazer isso, porque daí percebemos os efeitos daninhos de uma perseguição aloprada como aquela da caça às bruxas. Vale lembrar também que aquele tipo de perseguição se espalhou pelo mundo, em diferentes países e realidades – no Brasil ela também existiu e, como diz Trumbo, vitimou não apenas a cultura, mas também tirou vida de várias pessoas.

Bueno, voltando para o filme. Ao se debruçar na história de Trumbo, vemos como aquela paranoia coletiva cobrou um preço alto das famílias, que eram hostilizadas por vizinhos e conhecidos e não podiam admitir o que os perseguidos faziam para viver. As pessoas eram condenadas pelo que elas acreditavam e pensavam e não por seus atos. Como Trumbo afirma na entrevista que o filme reproduz apenas uma parte, o tal Comitê de Atividades Anti-Americanas nunca conseguiu provar nenhuma atividade realmente daninha para o país.

O que aquela perseguição provocou foi a perda de liberdade de centenas de pessoas que, no fim das contas, foram impedidas de trabalhar. E sem trabalho, passaram por diversas agruras – algumas morreram, como diz Trumbo, vítimas dos efeitos desta perseguição. No caso do protagonista deste filme, depois que saiu da prisão Trumbo ficou obcecado por fazer exatamente aquilo que a caça às bruxas queria lhe impedir de fazer: trabalhar.

Obcecado por escrever cada vez mais, mas sem a possibilidade de assinar os próprios roteiros, Trumbo virava as noites, trabalhava praticamente o tempo inteiro e sem ter mais tempo para a família – algo que ele conseguia fazer muito bem antes de ser perseguido. O filme mostra muito bem essa mudança e a forma com que Trumbo acaba envolvendo toda a família naquela nova rotina – até que a esposa dele, Cleo (interpretada pela ótima Diane Lane), resolve dar um basta e chamar a atenção do marido sobre a forma repressora que ele adotou em casa.

Esse filme tem grandes momentos – dois que me tocaram muito foi a conversa de Cleo com o marido e as vezes em que a família dele, em casa, torceram para que ele ganhasse os dois Oscar’s que ele ganhou assinando com outros nomes duas produções premiadas pela Academia.

Todo o contexto cruel que cercou todas aquelas vidas é um verdadeiro absurdo. E é bom falar deste absurdo hoje, em 2016, porque há muitas figuras que querem voltar para aquele tempo de censura e de perseguição. É preciso recordar, lembrar, para impedir que histórias assim se repitam. Trumbo funciona muito bem neste sentido. Grande filme, mais uma das boas descobertas apresentadas pelo Oscar 2016.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vale listar os “The Hollywood Ten”: Herbert Biberman, Lester Cole, Albert Maltz, Adrian Scott, Samuel Ornitz, Dalton Trumbo, Edward Dmytryk, Ring Lardner Jr., John Howard Lawson e Alvah Bessie. Eles foram condenados a períodos que variaram entre seis e doze meses de prisão.

O tema da caça às bruxas feita em Hollywood é fascinante. Vale buscar mais a respeito. Recomendo, para quem quiser iniciar essa pesquisa, este texto bem ilustrativo sobre o Macartismo da Planeta Educação; também este outro texto do blog Ready for My Close Up Now que não apenas traz os nomes e obras dos 10 de Hollywood, mas também os movimentos de solidariedade à eles (algo que Trumbo também ignora); vale dar uma olhada neste texto da revista Época, com outras informações curiosas sobre o período; e, mesmo escapando um pouco do tema, mas complementando ele um bocado, vale a leitura deste texto da História Viva sobre a “colaboração” ou influência direta do Exército americano no cinema até que eles se divorciaram após o Vietnã.

Trumbo não trata do tema, mas o blog Ready for My Close Up Now lembra bem que se existia o MPA (Motion Picture Alliance for the Preservation of American Ideals), que tinha entre um de seus líderes John Wayne, também existia para contrabalancear a balança o Comitê Pela Primeira Emenda que contava com Humphrey Bogart, Lauren Bacall, John Huston, entre outras personalidades que defendiam os 10 de Hollywood. Aliás, falando em MPA, Trumbo não trata disso, mas ela foi fundada por Walt Disney – sim, meus caros! – e tinha como participantes, ainda, Gary Cooper, Barbara Stanwick, Cecil B. DeMille, Ginger Rogers, Ronald Reagan, King Vidor, entre outros.

Uma coisa, e Trumbo aborda bem isso, é alguém “dedurar” um colega para sobreviver, como alegou o ator Edward G. Robinson, interpretado com precisão e brilhantismo por Michael Stuhbarg, outra bem diferente é a delação “por prazer”, praticamente, como aquela feita por Elia Kazan – que era brilhante, mas pisou na bola ao destruir a vida de diversos colegas. Diversos nomes não precisavam ter denunciado os colegas para sobreviver.

O diretor Jay Roach acerta ao apostar no talento de Bryan Cranston e estar sempre próximo do ator, assim como dos outros personagens próximos a ele. Ele faz uma boa e competente direção, mas sem nenhuma grande “invenção”. O que é bom, porque valoriza o trabalho dos atores e o bom roteiro de John McNamara – ainda que ele tenha falhado em alguns pontos que eu já comentei, especialmente na falta de contextualização e da citação de mais nomes daquele contexto histórico.

O elenco de apoio do filme é muito competente – e chama a atenção a quantidade de estrelas. Além de Bryan Cranston, se destacam Helen Mirren, Diane Lane, Michael Stuhlbarg e Louis C.K. Mas além deles e dos outros nomes já citados, vale comentar o bom trabalho dos atores que dão vida para os filhos dos Trumbo: Toby Nichols como Chris Trumbo entre as idades de seis e 10 anos; Madison Wolfe como Niki Trumbo na idade entre oito e 11 anos; Meghan Wolfe como Mitzi Trumbo na idade entre seis e oito anos; Mitchell Zakocs como Chris Trumbo entre os 10 e os 12 anos; Mattie Liptak como Chris Trumbo entre os 13 e os 17 anos; Becca Nicole Preston como Mitzi Trumbo entre os nove e os 12 anos; John Mark Skinner como Chris Trumbo quando ele tem 29 anos; e a sempre competente Elle Fanning como Niki Trumbo na fase universitária/adulta quando ela tem uma troca mais madura com o pai.

Da parte técnica do filme, vale destacar a ótima trilha sonora de Theodore Shapiro; a direção de fotografia de Jim Denault; a edição de Alan Baumgarten; o design de produção de Mark Ricker; a direção de arte de Lisa Marinaccio e Jesse Rosenthal; a decoração de set de Cindy Carr; e os figurinos de Daniel Orlandi. Todos eles, especialmente os últimos, são fundamentais para a ambientação da história.

Achei os irmãos King – que, na verdade, tinham o sobrenome Kozinsky – mais que admiráveis. Eles deram emprego não apenas para Trumbo, mas para vários outros nomes perseguidos pela lista negra. Vale dar uma conferida na história deles neste link da Wikipédia.

Eu nem preciso dizer que Bryan Cranston mais que mereceu a indicação como Melhor Ator no Oscar 2016, né? Grande ator. Espero que ele faça mais filmes excelentes e que logo mais ganhe, por mérito puro, uma estatueta dourada. Este ano não tinha como porque a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood já devia um Oscar há tempos para o Leonardo DiCaprio, mas eu espero, sinceramente, que a hora de Cranston chegue. Agora, falando ainda e Oscar, Helen Mirren bem que podia ter sido indicada como Melhor Atriz Coadjuvante pelo trabalho neste filme, não? Ela está tão bem que não tem como não odiar a personagem que ela está fazendo. 😉

Trumbo estreou em setembro de 2015 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria, ainda, de outros sete festivais mundo afora. Nesta trajetória, até o momento, o filme recebeu dois prêmios e foi indicado a outros 31. Ele rendeu apenas o terceiro lugar como Melhor Ator para Bryan Cranston no Prêmio dos Críticos de Cinema de Iowa; o Spotlight Award no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs para Bryan Cranston e o prêmio de Melhor Ator para Cranston no Prêmio da Associação de Críticos de Cinema Southeastern.

Algo que este filme aborda e que nunca eu vou entender: por que tantas pessoas tem medo de outras que pensam diferente e preferem combatê-las do que aceitar que elas tem o direito de pensar diferente? Isso já aconteceu muito na história da Humanidade – da Inquisição na Idade Média até a “blacklist” de Hollywood – e volta e meia alguém tenta fazer este tipo de medo e de atitude predominar. Temos que estar alertas e cada vez mais defender que todas as pessoas tenham liberdade de pensar diferente – desde que este pensamento não se materialize em crime e infrinja as leis, evidentemente. Neste segundo caso, a aplicação da lei deve ser feita. E isso é tudo.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme: o diretor Jay Roach disse que muitas cenas de Trumbo em que o protagonista escreve sozinho na mesa ou na banheira foram improvisadas por Bryan Cranston enquanto as câmeras estavam rodando e que ele realmente estava criando frases para os roteiros que o personagem estaria escrevendo.

O ator Steve Martin comentou que quando ele era muito jovem a sua namorada e a família dela lhe apresentaram novas ideias e oportunidades intelectuais – e o pai dela era Dalton Trumbo, de quem Martin nunca tinha ouvido falar até aquele momento.

Gary Oldman foi cogitado para o papel de Trumbo. Francamente, Cranston faz um trabalho tão impressionante como o roteirista que eu não consigo imaginar mais ninguém como protagonista deste filme.

Importante observar duas “incorreções” do filme. Edward G. Robinson, na verdade, nunca delatou nenhum nome para o Comitê, como Trumbo mostra. Ele testemunhou quatro vezes, mas nunca apontou nenhum nome. Outro personagem, Arlen Hird, não existiu com este nome – ele é, na verdade, um amálgama de vários nomes de escritores que fizeram parte da lista negra. Observando a lista dos 10 de Hollywood, da qual ele teria feito parte, realmente já dá para perceber isso. Curioso não terem escolhido um outro personagem real, não é mesmo? Não vi muito a razão para isso. Também não entendi porque colocar Robinson como delator quando ele não foi – e outros sim.

Trumbo fez pouco mais de US$ 7,8 milhões nos Estados Unidos. Somando com o que a produção fez nas outras bilheterias mundo afora, ele chegou a US$ 8,2 milhões. Ainda pouco para o filme.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 107 críticas positivas e 38 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 74% e uma nota média de 6,7. Fiquei curiosa para ver o documentário sobre Trumbo. Será que é melhor que o filme? Alguém viu e quer comentar? 😉

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Filme extraordinário e que conta um momento muito importante da história não apenas dos Estados Unidos, mas do mundo. Afinal, enquanto artistas eram perseguidos naquele país, tínhamos situação parecida no Brasil quando por aqui tivemos ditadura militar, e em tantos outros países em fases um pouco anteriores ou posteriores. Bem narrado, com um ator de primeiríssima linha como protagonista e um belo elenco de apoio nos outros papéis, Trumbo é um destes filmes inevitáveis para quem gosta de cinema.

Quem dera que mais filmes se debruçassem não apenas nas relações e bastidores da Sétima Arte, mas que também falassem de épocas tenebrosas da nossa história coletiva. O filme acerta no ritmo e na crítica, assim como na imersão na história pessoal e profissional do protagonista. Por pouco ele não é perfeito. Senti falta da produção citar mais nomes importantes de Hollywood que foram perseguidos naquela época, assim como explicar um pouco melhor a mudança do “sistema” da indústria, que deixou naqueles anos de ser dominada por grandes estúdios para passar a ser muito mais autoral.

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Super 8

Um grupo de crianças aventureiras como protagonista funciona no cinema desde The Goonies – e inclusive antes deste clássico da Sessão da Tarde. Resgatando o melhor deste estilo de filme, o diretor J.J. Abrams une em Super 8 a ousadia de um grupo de crianças com os desafios enfrentados pelos adultos que não sabem lidar com o que não entendem. Mesmo com pouca originalidade em tela, Abrams consegue convencer o espectador com um ritmo bacana, uma ótima condução dos atores e um texto onde há poucas sobras. Um filme interessante, ainda que ele perca um pouco da força ao fazer espectadores com uma “certa bagagem” passarem tempo demais lembrando de outros filmes.

A HISTÓRIA: Um funcionário da companhia Lillian Steel troca o letreiro em que aparecem os dias em que a empresa ficou sem um acidente. Depois de 784 dias sem nenhum acontecimento trágico, um acidente mata a mãe de Joe Lamb (Joel Courtney). O garoto está do lado de fora da casa onde a mãe está sendo velada, em um balanço, sobre a neve, apegado a uma joia que ela usava. Dentro da casa, a senhora Kaznyk (Jessica Tuck) olha pela janela e comenta que está preocupada com Joe, porque a mãe era tudo para ele. O marido dela (Joel McKinnon Miller) comenta que o pai do garoto, o policial Jackson (Kyle Chandler) vai conseguir superar a perda e cuidar do garoto, no que a esposa responde que, até agora, ele não precisou ser um pai. Os amigos de Joe comentam sobre a forma com que a mãe do garoto morreu, e Charles (Riley Griffiths) diz que acha que ele não o ajudará mais a fazer o seu filme, que fala de mortos vivos. Pouco depois, Louis Dainard (Ron Eldard) chega ao velório, mas é expulso por Jackson e levado em uma viatura embora. Apesar da perda, Joe vai continuar trabalhando com os amigos para fazer o filme de Charles. Em um dia de gravação, a turma assisti a um acidente de trem e começa a acompanhar, de perto, como estranhos acontecimentos começam a pipocar naquela pequena cidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Super 8): Pegue o criador da série-fenômeno Lost e de mais algumas outras séries e produções e junte com o “mago” do cinema Steven Spielberg. Pelo perfil de cada um, o que você diria que poderia surgir desta união? Se você pensou em um filme que fala sobre o fascínio, a força e a criatividade de um grupo de crianças, que tivesse uma boa dose de extraterrestres e/ou sobrenatural e mais uma boa carga de aventura, drama e emoção pueril, bingo! Acertaste na mosca.

O diretor e roteirista J.J. Abrams contribui com a sua própria homenagem ao fazer cinema e seu gosto por extraterrestres enquanto Spielberg parece “levitar” sobre Super 8 com a repetida mensagem da passagem da infância para a vida adulta. Porque este filme, entre outras coisas, é isso: um conto sobre o amadurecimento. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Logo de cara, somos lançados para o cenário de desolação da família Lamb. E até o último minuto do filme, todos os desafios por que passam os personagens desta história, parecem orbitar ao redor de uma mesma ideia: a de que é preciso amadurecer, superar a perda para seguir em frente. Essa é a essência da história, mas não é a única ideia desta produção. Outro conceito importante é que, assim como Joe precisa aceitar as diferenças entre os pais e aceitar que a mãe foi para não voltar, os “humanos” devem aprender, se preparar e amadurecer na aceitação dos extraterrestres – que, historicamente, simbolizam o “diferente”, o “desconhecido”, aquilo que é estranho e diferente e que precisa ser aceitado se quisermos considerar-nos uma “raça madura”.

Há muito de Spielberg neste filme. Não sei quanto o produtor executivo influenciou nas ideias de Abrams, mas de fato é possível encontrar vários elementos da identidade de Spielberg como realizador em Super 8. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para começar, o extraterrestre não é um vilão, pura e simplesmente. Se ele faz mal para as pessoas e destrói muito do que vê pela frente não é por maldade, ou por represália ao que fizeram com ele, mas são tentativas dele de voltar para casa e de se defender dos humanos violentos. Impossível não lembrar de E.T. ou, este sim, com roteiro e direção de Spielberg, Close Encounters of the Third Kind. Além disso, há muito de The Goonies, que teve roteiro, produção e edição de Spielberg, neste Super 8. Sem contar o velho espírito de “passagem da vida infantil para a adulta”, que também marca a carreira de Spielberg, estar nesta produção.

Mas além do estilo Spielberg e dos aspectos que eu comentei antes, o que faz Super 8 ser realmente interessante é algo que ocorre “em paralelo” e que integra o espírito da produção desde o início. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Com Super 8, Abrams faz a sua homenagem particular ao fazer cinema. Os garotos que protagonizam este filme fascinam não apenas pelo cuidado com a produção sobre mortos vivos capitaneada por Charles, mas especialmente pelo que produzir aquele filme significa para eles. A produção de Charles une os garotos, tornando-os amigos. Aproxima Joe da garota pela qual ele sempre foi fascinado – e, vamos saber bem depois, chegar perto dela também era um dos grandes propósitos de Charles. O cinema, desta forma, não apenas serve como estímulo à amizade, mas também à descoberta do amor, para a superação de uma perda e para a descoberta de talentos e de uma força individual e de grupo antes desconhecidos. O cinema é a mola propulsora da história e o elo de ligação entre os garotos do filme. Nada mais Spielberg. 🙂

Francamente, achei as partes de “passagem da vida infantil para a adulta” e da “necessária compreensão do diferente através da simbólica figura dos extraterrestres” previsíveis. Ainda assim, elas não se tornaram maçantes por causa, justamente, do caldo proposto pela homenagem ao fazer cinema. E também, temos que admitir, pela ótima atuação dos dois atores principais desta produção: Joel Courtney – que me lembrou muito o protagonista de The Goonies, Sean Astin – e a ótima e roubadora de cenas Elle Fanning. Eles conduzem o filme e emocionam, tirando da recriação de ideias batidas em outras produções o sabor de “requentadas”. Junto com outros dos atores jovens da produção, eles são os grandes responsáveis por tornar o filme bacana, divertido, envolvente. Ainda que, francamente, mesmo com a ótima direção com ritmo de Abrams, eles não consigam a mágica de impedir uma e outra “baixada” de interesse da produção. Especialmente quando começam os “discursos” sobre a real motivação do extraterrestre. Mas como esta parte está perto do final, não chega a estragar o filme. E mesmo que as cenas finais sejam o supra-sumo da previsibilidade e do lugar-comum, fomos bem conduzidos até ali. Então é possível ignorar os pequenos tropeços próximos do “the end”, como a técnica burra de captura do extraterrestre e toda a sequência final envolvendo o jovem protagonista e a “ameaça”.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Impressionante essa menina Elle Fanning. Aos 13 anos de idade ela já se firmou como uma das grandes atrizes de sua geração. Até agora, ela participou de impressionantes 33 filmes e séries de TV. E não lembro de tê-la vista mal em nenhuma das produções em que a vi. Mais uma vez ela rouba a cena neste filme, ao lado de Joel Courtney – que, aos 15 anos, estréia em uma produção de respeito, como ator, neste filme. Diz em sua biografia que, antes de estrear como ator, o garoto integrava e competia em um time de natação. Pela estreia em Super 8, arrisco a dizer que ele poderá ser uma bela revelação nos próximos anos. E não por acaso, o filme preferido dele é E.T. Tudo a ver, não?

Agora, se temos ótimos exemplos de atuação por um lado, por outro é possível observar alguns atores “perdido” ou bastante “ausentes”. E não é porque eles tem menos espaço no roteiro, mas porque cada aparição deles é carente de emoção e/ou entrega. O exemplo maior, em Super 8, é do ator Kyle Chandler, que interpreta ao pai de Joe. Não é porque ele vive um pai “ausente” e/ou despreparado que ele deve parecer ausente como intérprete. Parece que ele está o tempo todo “anestesiado” em cena. Uma pena, realmente. E mesmo Ron Eldard, que interpreta ao pai de Alice, parece “despreparado” para o papel. Ambos fizeram um trabalho bastante abaixo do nível que a garotada que aparece na produção conseguiu alcançar.

Como um filme de J.J. Abrams com produção de Steven Spielberg manda, Super 8 é muito bem acabado tecnicamente. A direção de fotografia de Larry Fong é fundamental, especialmente porque grande parte das cenas são feitas de noite. A edição da dupla Maryann Brandon e Mary Jo Markey ajudam a fazer com que o filme tenha o ritmo adequado, com o cuidado nos detalhes. Pela característica da produção, ganha destaque também a equipe responsável pela maquiagem, liderada por Bonni Flowers, Annabelle MacNeal e Rick Pour. Mas o maior destaque deve ser dado para a trilha sonora de Michael Giacchino. Ele faz um grande trabalho, imprimindo o tom dramático e/ou de aventura nos momentos exatos, ajudando o filme a ter o ritmo adequado em cada momento. Um trabalho inspirado e envolvente. Vale lembrar que Giacchino ganhou o Oscar de Melhor Trilha Sonora no ano passado pelo trabalho que fez com Up.

São os atores juvenis que se destacam na produção. E isso se explica inclusive pelo mote do roteiro, voltado para este grupo – estrategicamente colocando os adultos em “segundo plano”. Além dos atores já citados, merecem ser mencionados Ryan Lee como Cary, o garoto fascinado por fogos de artifícios e explosões; Gabriel Basso como Martin, o “herói” do filme que está sendo rodado por Charles; Zach Mills como Preston, o coadjuvante/figurante/apoio da mesma produção; Glynn Turman como o esquisito e misterioso professor e ex-cientista Dr. Woodward, que causa o acidente de trem; Noah Emmerich como Nelec, o chefe dos militares que fazem um cerco à cidade em busca do extraterrestres sumido; e Brett Rice como o sheriff Pruitt.

Não parece, mas Super 8 consumiu impressionantes US$ 50 milhões. Certamente grande parte desta pequena fortuna foi gasta nos efeitos especiais e nas explosões realistas que costumam consumir grande parte dos orçamentos deste tipo de produção de Hollywood. Até o momento, o filme foi muito bem nas bilheterias dos Estados Unidos. Em pouco mais de um mês em cartaz, Super 8 havia arrecadado pouco mais de US$ 118 milhões – até o dia 10 de julho. Ajudou nesta cifra o fato do filme ter estreado no dia 12 de junho em nada mais, nada menos que 3.379 cinemas. Um placar para grandes produções, que tem um estúdio como Paramount por trás, sem contar nomes como Spielberg e Abrams atraindo os espectadores – e o dinheiro.

Interessante que esta produção teve uma série de nomes falsos divulgados nos Estados Unidos. Entre eles, Acadia, Darlings e Wickham.

Para quem teve curiosidade para saber onde Super 8 foi filmado, esta produção foi totalmente rodada em Los Angeles, na cidade de Weirton, no estado de West Virginia, com cenas também no restaurante DeStefano’s, em Follansbee e no aeroporto de Ohio.

Super 8 é um balaio de referências a outras produções do cinema. Entre outras, interessante destacar a “homenagem” que Abrams faz para o “mestre dos filmes de terror” George A. Romero. Além do estilo do diretor ficar evidente nos produtos utilizados por Joe, o cartaz de um dos filmes de Romero aparece no quarto do pré-adolescente.

As notas de produção revelam que Spielberg teria sido visto, muitas vezes, no set de gravação. O que explicaria um bocado da influência dele no “espírito” desta produção. Impossível não lembrar de E.T. e The Goonies neste Super 8. Uma prova disso é que o próprio Abrams comenta que esta produção é uma homenagem aos filmes de Spielberg da década de 1970, todos citados neste texto. Acredito que não é por acaso que a história se passa em 1979, justamente no final da década mencionada.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para Super 8. Uma nota muito boa, levando em conta a média registrada no site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram um pouco mais generosos: publicaram 173 críticas positivas e 42 negativas para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 80% – e uma nota média de 7,4. Logo que eu terminei de assistir ao filme, pensei na nota 8 como uma avaliação justa. Pelo jeito outras pessoas tiveram o mesmo patamar como referência. 🙂

Não vou citar trechos inteiros de várias das críticas linkadas no Rotten Tomatoes, mas destaco a linha central dos textos de alguns críticos renomados. Para David Denby, do New Yorker, “Spielberg e Abrams são alvos inocentes de suas próprias ironias”. Por outro lado, Tom Long, do Detroit News, ressaltou os “bons e velhos tempos” comentando: “Lembram dos bons velhos tempos? Esse é um filme que você esperava assistir em um sábado à tarde nos bons e velhos tempos”. Devo dizer que concordo com ambos. Ou melhor, concordo completamente com o que escreveu Dana Stevens, da Slate: “Este pode não ser um clássico infantil que vá durar por gerações, mas ele deve proporcionar uma tarde divertida em um multiplex para crianças da idade de Joe”. Além de concordar com ela de que Super 8 não deverá ter a validade de gerações, a exemplo dos filmes que o inspiraram – especialmente E.T. e The Goonies -, devo dizer que eu acho que este filme de Abrams tem a capacidade de tornar a tarde de muitas pessoas, inclusive de outras idades além daquela do personagem de Joe, divertida.

Não deixa de ser irônico que Super 8 registre, agora, uma nota superior ao clássico The Goonies no IMDb. Ou as pessoas não fizeram a adequada avaliação “temporal” de cada filme – tempo histórico, levando em conta também os avanços tecnológicos e de argumento do cinema -, ou estão supervalorizando o filme de Abrams. Porque, sem dúvida, The Goonies e E.T. são muito mais relevantes para a história do cinema do que Super 8. Ironias das novas avaliações dos espectadores, sem dúvida.

Muito bacana a série de cartazes produzidos para este filme. Alguns são mais conceituais, outros, resgatam ideias de filmes anteriores de Spielberg. Fiquei em dúvida entre dois deles, para decidir qual publicar por aqui. Decidi pelo que abre este post por motivos óbvios… ele lembra demais um filme anterior do produtor e que é homenageado pelo diretor/roteirista de Super 8. Mas há pelo menos um outro, com Alice assistindo a um vagão de trem voando, muito bem feito e bacana. Vale a pena dar uma conferida nas outras opções de cartazes.

CONCLUSÃO: Um filme que rende honras ao cinema, ou melhor, ao ofício e encantamento de fazer filmes, ao mesmo tempo em que resgata a fantasia do desconhecido encarnada em extraterrestres. Mais que isso, Super 8 é a clássica história da peregrinação de um herói por desafios que o levam da inocência, plasmada pela infância, até a vida adulta, representada pela aceitação da perda/morte. Se por um lado esta produção faz um compêndio de várias ideias anteriormente exploradas pelo cinema, por outro ela mostra que o fascínio e o encantamento continuam presentes quando um diretor e sua equipe encontram o ritmo e o tom certos. J.J. Abrams não apresenta um filme surpreendente ou com ideias inovadoras, mas consegue resgatar a essência do cinema em uma produção que conduz os espectadores pela história com facilidade. Mesmo sem ser original, Super 8 é um filme que prende, que homenageia o “fazer cinema” e as descobertas da infância, o primeiro amor e as pazes necessárias entre as pessoas que formam uma família. Boa diversão, apesar de não ser excepcional.