O filme mais angustiante e impactante que eu assisti em muito tempo. The Voice of Hind Rajab (no original, Sawt Hind Rajab) é um destes filmes que vai fazer você ficar tenso e angustiado do início ao fim. Ele não alivia, e está certíssimo em fazer isso. Porque precisamos vivenciar essa história no extremo em que ela aconteceu. E isso é o pior, saber que essa história realmente aconteceu. Honestamente, não tem como cada espectador não morrer um pouco com esse filme. E isso é necessário. Para talvez, com a indignação que essa produção desperta, algo mudar. Porque já passou da hora disso acontecer.
A HISTÓRIA
Começa com uma frequência de áudio no fundo que vemos de forma distorcida. E então aparecem algumas informações. Como a época e o local em que a história se passa: Gaza, dia 29 de janeiro de 2024. O exército israelense dá ordens para que o bairro Tel Al-Hawa seja evacuado. A dramatização que vamos acompanhar a partir de agora é baseada em fatos reais e em chamadas de emergência que foram gravadas nesse dia. A faixa de áudio fica nítida. Corta.
Vemos um grupo de trabalhadores do lado de fora do ambiente de trabalho, com alguns deles fumando. Então sabemos que aquele local é o Centro de Atendimento de Emergência do Crescente Vermelho Palestino. Eles estão localizados em Ramallah, na Cisjordânia. O local fica a 83,6 quilômetros de Gaza.
Depois de conversar com alguns colegas, Omar A. Alqam (Motaz Malhees) caminha até o seu local de trabalho. Ele passa por diversos atendentes que estão ajudando diversas pessoas que precisam de socorro. Em breve Omar vai receber uma ligação que vai mobilizar boa parte da equipe e simbolizar a luta inglória que eles têm para tentar salvar vidas em meio aos ataques de Israel em Gaza.
VOLTANDO À CRÍTICA
(SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Voice of Hind Rajab): Esse é um exemplo perfeito de filme que mostra a potência do cinema e da arte para nos fazer mergulhar em realidades distantes das nossas. Porque podemos acompanhar as notícias e saber sobre o conflito entre Hamas e Israel, mas nada nos prepara para vivenciar uma história como a trazida por The Voice of Hind Rajab.
Com essa produção saímos dos números, do campo das notícias, do excesso de informações e mergulhamos em uma história humana, muito humana, demasiado humana. Acompanhamos de forma intensa essa história, nos aproximando de “pessoas reais”, ouvindo gravações que realmente aconteceram. Então é impossível desviar o olhar ou deixar de ouvir. Nunca mais seremos os mesmos depois de acompanhar essa história. E essa é a potência máxima de um filme, de uma obra.
Já vou desde já deixar claro que essa crítica realmente conta momentos importantes do filme. Vou tratar de questões fundamentais aqui. Como sempre recomendo, porque é também o que eu faço, acho que o melhor da experiência do cinema é nos lançarmos em uma história sem sabermos nada sobre ela antes. Acho que desta forma somos apresentados ao surpreendente, descobrimos a história conforme os realizadores quiseram nos mostrar, sem estragar surpresas no caminho. Por isso, não vou ficar colocando aviso de SPOILERS no meio desse texto, como eu costumo fazer, porque esse conteúdo estará cheio deles.
Assim, se você já assistiu a esse filme, ok, pode seguir lendo esse material. Do contrário, se você ainda não viu a The Voice of Hind Rajab, recomendo que você pare de ler por aqui e que vá direto para a Nota ou para a Conclusão, sem estragar o principal que essa história poderá te entregar. O aviso principal foi dado. Se você seguir lendo esse material, será por sua conta e risco.
Existem muitas histórias “baseadas em fatos reais”, mas poucas são um sucesso de execução. Muitas são exageradas, algumas melodramáticas, e para outras falta profundidade. Mas nada disso acontece aqui. The Voice of Hind Rajab é um filme objetivo, direto, e que acerta em cada escolha feita pela diretora e roteirista Kaouther Ben Hania. Para começar, ela nos situa no tempo e no local. Tanto dos fatos que envolvem a protagonista desta história, de quem ouvimos apenas a voz por muito tempo, quanto das pessoas que acabam sendo fundamentais também para o desenrolar dessa produção.
Em seguida, Kaouther acerta ao nos apresentar o ambiente e a dinâmica do Centro de Atendimento do Crescente Vermelho. Vemos um pouco o trabalho dos atendentes que atuam no local e do chefe deles, o coordenador de operações Mahdi M. Aljamal (Amer Hlehel). Essa apresentação, feita logo nos minutos iniciais da produção, é um belo cartão de visitas do que veremos depois. Porque entender a dinâmica daquele local será algo importante para a história.
Vemos como Mahdi orienta as equipes de emergência que estão em campo, inclusive ajudando a guiá-los por ruas nas áreas em que eles atuam – na zona de guerra, muitos desses locais estão obstruídos e as equipes precisam de rotas alternativas. Logo conhecemos também Rana Hassan Faqih (Saja Kilani), que supervisiona os atendentes que recebem as chamadas das pessoas pedindo socorro. Ela conversa com diversos atendentes e, na sequência, fala um pouco com a psicóloga Nisreen Jeries Qawas (Clara Khoury), que atua no local para apoiar tanto os funcionários do Crescente Vermelho quanto para apoiar as chamadas mais complicadas que eles recebem no local.
Ou seja, em um plano sequência, desde que Omar sai da área externa e entra no local de trabalho, somos apresentados aos atores principais dessa produção e para um pouco da dinâmica do local que terá um papel fundamental nessa história. Um belo acerto da diretora e roteirista Kaouther Ben Hania. Um grande acerto dela também é concentrar essa história nesse pequeno núcleo de personagens e de atores. Além deles, temos “em cena” apenas as vozes de Hind Rajab e de seus familiares.
Quando temos uma história tão impactante como essa com um núcleo pequeno de personagens, o filme ganha em densidade e em profundidade. Algo fundamental em The Voice of Hind Rajab, porque essa dinâmica torna mais fácil cada espectador se colocar no lugar de um dos personagens que vemos em cena. Impossível não fazer esse exercício, não se colocar no lugar deles. E aí que o filme ganha em potência dramática e narrativa, fazendo com que cada pessoa que acompanha essa história vivencie a tensão, a aflição e a revolta que as pessoas que vemos em cena estão vivenciando.
Claro que nada disso seria possível sem um trabalho excepcional do elenco. Os atores que fazem parte desse filme estão impecáveis. De verdade. Um grande trabalho de cada um. Eles que nos entregam a profundidade que precisamos, juntamente com os áudios originais das gravações com Hind Rajab – essa parte é especialmente difícil, mas fundamental para a história. Ouvir cada áudio daquele é de partir o coração e só aumenta a nossa expectativa e aflição.
Algo importante no roteiro de The Voice of Hind Rajab é que ele não perde muitos minutos nos apresentando a história de cada personagem que vemos em cena mas, ainda assim, ele humaniza figuras como Omar e Rana mostrando eles interagindo com colegas – no caso de Omar – e compartilhando seus desafios pessoais – no caso de Rana, que está esgotada e adiando a ida para casa antes deles saberem da existência de Hind Rajab.
Omar aparece brincando com um colega antes de receber a ligação que vai mudar a vida de todos ali – e que também vai nos mostrar todo o absurdo do conflito de Israel contra Gaza. Omar atende ao tio de Hind Rajab, que está ligando da Alemanha, para comentar sobre o ataque que o carro em que o irmão dele e a família estavam sofreu.
Omar pede o número do familiar de quem ligou e a localização do carro deles. Ele descobre que o veículo está na região Norte de Gaza em um posto de gasolina, o posto Fares. Rapidamente Omar comenta sobre isso com o coordenador do local, Mahdi. E aí começa todo o drama dessa história real e muito simbólica.
Não vou trazer aqui toda a narrativa do filme. Mas o que eu acho importante comentar é que daquele início e até o final, nada sobre nessa produção. As informações são apresentadas de forma muito objetiva e acompanhamos cada dinâmica de forma muito natural e sem exageros. Mesmo nas sequências mais dramáticas do filme, não enxergamos elas desta forma porque conseguimos no colocar na pele de cada personagem – e detalhe, sabendo que esses “personagens” são representações bastante fiéis de pessoas reais.
De forma muito objetiva, logo no início da produção, somos situados não apenas nos locais dos fatos mas também no tempo. E essa questão, o tempo, acaba sendo um elemento fundamental de The Voice of Hind Rajab. O ataque sofrido por Hind e por seus familiares ocorreu às 13h daquele dia, há pouco mais de dois anos, e a ligação que dá o start na produção é recebida por Omar às 14h35.
Depois de passar as informações básicas sobre a ocorrência para Mahdi, Omar fica sabendo que a zona em que a família que precisa de socorro está é uma zona restrita, que foi fechada pelo Exército de Israel naquela manhã. Isso vai fazer com que eles tenham que seguir todo um protocolo de envio de ajuda diferenciado. Em um certo momento do filme, Mahdi explica o caminho que eles devem fazer para conseguir enviar a ambulância para socorrer Hind.
E aí está um ponto fundamental dessa produção: apesar da equipe de socorro estar distante apenas 8 minutos de carro do local, eles não podem ir até lá sem terem autorização do Exército de Israel. A equipe precisa de uma rota segura e do sinal verde. Essa seria a “certeza” de que eles não seriam atacados e mortos. Porque, por óbvio, não adianta mandar uma equipe de socorro para salvar a criança se eles também serão atacados e mortos. Não faria o menor sentido.
E aí reside toda a angústia e o absurdo de The Voice of Hind Rajab. Porque ouvimos de forma repetitiva aquele pedido de socorro da menina cercada de familiares mortos dentro do carro e o socorro que está próximo não pode ser enviado para ela. Não é apenas uma questão de burocracia. Conforme a história se desenvolve, vemos claramente que se trata de uma estratégia orquestrada por Israel. Eles não tem a mínima pressa em garantir rotas de socorro seguras porque eles querem que as pessoas morram. Essa é a verdade pura, simples e extremamente dura.
E não importa se estamos falando de uma família inteira ou, neste caso, de uma criança desesperada e com medo. Israel quer que o máximo de palestinos morram. Não tenho nem o que falar sobre isso. É o absurdo do absurdo. Por isso que eu comentei antes, no início dessa crítica, que não tem como assistir a esse filme e não morrer um pouco.
Porque a que ponto chegamos para as pessoas serem tão cruéis e capazes de gestos tão absurdos? (SPOILER – realmente não leia esse trecho se você ainda não assistiu ao filme). Além de exterminarem uma família inteira, eles ainda atrasam ao máximo o socorro de uma sobrevivente, que é uma criança inocente, e, o pior de tudo, ainda atacam e matam os socorristas depois deles terem sido liberados para fazerem o socorro? Que nome dar a isso? Crime de guerra é pouco. O que Israel fez com Gaza foi genocídio sim. Mas mesmo essa palavra é pouco para definir o que foi feito lá.
Enfim, toda a narrativa dessa produção é perfeita, intercalando os bastidores da mobilização de socorro de Hind ao mesmo tempo em que vivenciamos toda a angústia e o desespero da equipe envolvida na central que recebia os apelos para o resgate da menina e que, principalmente, tentava apoiar Hind enquanto ela esperava o socorro. Eles se desdobraram para não deixá-la sozinha, totalmente, e procuraram dar suporte para ela, mas nada disso adiantou. E nada pode cortar mais o coração do que essa história.
O filme acerta em sua narrativa econômica e objetiva. E pensar que desde o início do filme, quando ouvimos pela primeira vez a voz de Hind, pouco depois das 14h30, e até o final da história, quando eles perdem o contato com ela às 19h30, se passaram cerca de cinco horas… de puro drama e terror que aquela menina viveu. E de angústia e sofrimento que a equipe de socorro vivenciou. Nós fomos apresentados a uma narrativa de cerca de 1h20… então dá para imaginar essa nossa angústia multiplicada por quase cinco. Inacreditável.
Esse filme é muito impactante e potente não apenas pela história que ele conta mas também pela forma como a diretora e roteirista Kaouther Ben Hania decidiu nos apresentar essa história. Como eu comentei antes, nada sobra em The Voice of Hind Rajab. O filme é objetivo, direto, intercala “dramatização” com reproduções originais de diversos áudios. Isso traz veracidade para a história e profundidade ao nos apresentar um pouco mais de cada pessoa envolvida nessa história.
Trechos de áudio que poderiam ser considerados repetitivos não se revelam para nada cansativos. Eles apenas aumentam a nossa angústia – e, vale lembrar, são apenas parte de toda a dinâmica daquelas cinco horas decisivas. A todo momento somos lembrados que o socorro está a apenas 8 minutos de Hind, mas o tempo vai passando e as chances da menina sobreviver vão diminuindo. E quando já estamos esperando o pior, o bendito sinal verde sai. Voltamos a ter esperança, apenas para o pior cenário possível acontecer e ficarmos todos estarrecidos.
The Voice of Hind Rajab tem uma ótima construção dos fatos e uma narrativa envolvente do início ao fim. Além de uma história muito potente e necessária. Não lembro de outra produção deixar marcas tão profundas sobre o absurdo de uma guerra. E o pior: nem considero os ataques de Israel contra Gaza uma guerra. Porque a definição de guerra são forças relativamente equivalentes se atacando, não é mesmo? E esse nunca foi o caso de Gaza ou do conflito de Israel contra o Hamas.
Não apenas as forças eram totalmente desproporcionais como os ataques não se assemelhavam em nada. Para mim, isso não é guerra. O que Israel fez contra Gaza foi genocídio, ou seja, assassinato em massa. Não tem outro nome. E a história que The Voice of Hind Rajab nos apresenta é apenas um pequeno mas expressivo demonstrativo disso. Para mim, a Humanidade não tem jeito enquanto esse tipo de situação ocorrer. Não tem como.
Além de ter sido muito bem realizado, The Voice of Hind Rajab consegue um impacto que nenhum outro filme que está concorrendo ao Oscar deste ano conseguiu. Para o meu gosto, ao menos, esse é o melhor filme da temporada. Pelo menos do que eu vi até aqui. Se essa produção contasse a história de uma menina de Israel, provavelmente ela teria outra visibilidade, repercussão e número de prêmios. Até nisso o mundo é injusto. Porque as pessoas não olham para um filme por sua história, apenas, elas olham para a origem e destilam seu preconceito nisso.
Se o mundo fosse um pouco mais justo, Hind Rajab não teria passado pelo que passou e a sua história receberia o reconhecimento que esse filme merece. Mas o mundo é injusto, e ponto. The Voice of Hind Rajab merecia o Oscar de Melhor Filme Internacional e merecia ser indicado em outras categorias. Mas isso não aconteceu e nem vai acontecer. Uma pena.
Mas espero, realmente, que a indicação desse filme faça The Voice of Hind Rajab ser visto por mais pessoas. Porque essa história precisa ser mais vista e disseminada. E as mortes em Gaza precisam parar. Urgentemente. Já passou do tempo, na verdade. Mas agradeço a Academia por ao menos ter dado espaço para The Voice of Hind Rajab e por ter garantido para esse filme uma indicação ao Oscar deste ano. Porque se não fosse isso, dificilmente eu teria assistido a essa produção. Espero que mais pessoas cheguem a ele assim. Porque esse é um grande filme, irretocável, sem defeitos.
NOTA
10.
OBS DE PÉ DE PÁGINA
Achei excelente o trabalho da diretora e roteirista Kaouther Ben Hania. Essa, para mim, é uma das grandes vantagens do Oscar. Sempre nos apresentar diretoras e diretores diferentes. Outras visões de mundo e de fazer cinema. Gostei muito da sensibilidade dela e da forma que ela escolheu para contar essa história. Um trabalho impecável, volto a dizer.
Claro que fiquei interessada em saber mais sobre Kaouther Ben Hania, já que esse é o primeiro filme que eu vejo dela. The Voice of Hind Rajab é o 14º título dirigido por Kaouther. Nascida na Tunísia, essa diretora de 48 anos – ela vai fazer 49 agora em agosto – estreou na direção e no roteiro com o curta Brèche, lançado em 2005.
De lá para cá, ela dirigiu mais quatro curtas, uma série de TV e sete longas, sendo o último deles The Voice of Hind Rajab. Fiquei curiosa para ver a outros trabalhos dela. Acho que é um nome bem interessante para acompanharmos. Vou colocar ela no meu radar.
Kaouther Ben Hania acerta no roteiro ao intercalar muito bem as chamadas da equipe de socorristas e a protagonista dessa história, sabendo os momentos precisos de nos apresentar os áudios originais em primeiro plano e os momentos de colocar os ótimos atores em cena. A construção que ela faz com esses recursos narrativos é precisa e muito eficiente para provocar cada espectador e nos tirar da nossa posição de passividade. A direção também segue essa mesma linha, com uma valorização excelente do trabalho dos atores e uma dinâmica muito bem planejada de cada take para não deixar o filme cair seu ritmo em nenhum momento. Filme inteligente e extremamente eficaz.
Além da direção e do roteiro de Kaouther, que são pontos altos de The Voice of Hind Rajab, temos que falar sobre o excelente elenco escolhido para essa produção. Sem eles, o trabalho de Kaouther não seria tão bom. Um elenco realmente impecável, com cada ator fazendo um trabalho excelente porque ninguém exagera em cena. Eles fazem uma entrega convincente e segura, condizente com cada personagem e com cada momento da narrativa.
Achei o elenco extraordinário. Por isso faço questão de, mais uma vez, destacar o núcleo central dessa produção. Cada ator e atriz fazem um trabalho perfeito, muito equilibrado e condizente com seus personagens e com o que acontece durante a produção. Bato palmas para Motaz Malhees, que interpreta Omar, o atendente que recebe a primeira ligação sobre Hind e que muitas vezes lidera o contato com ela; Saja Kilani excelente como Rana, a supervisora dos atendentes que está esgotada e que já deveria ter ido para casa quando Omar começa a entender o que está acontecendo com Hind, mas que fica até o final e que faz muitos contatos importantes com a menina; Amer Hlehel gigante como Mahdi, o coordenador das operações de resgate que fica dividido entre dar a ordem e tentar salvar a menina e tentar seguir o protocolo para não colocar mais pessoas da equipe que trabalha na rua em perigo; e Clara Khoury como Nisreen, a psicóloga que apoia a equipe e que também entra em um momento decisivo nos contatos com Hind.
Fiquei muito fã desse elenco. Realmente o trabalho deles é magnético. Conseguimos nos colocar no lugar de cada um deles, além de, claro, imaginar todo o cenário vivenciado por Hind. De arrepiar. Muito marcante a experiência trazida por The Voice of Hind Rajab.
Achei muito interessante como, em certo momento do filme, acabamos vendo a imagens das pessoas reais que inspiraram essa produção. Impressionante a semelhança entre a equipe que atendeu Hind e os atores que interpretam cada uma daquelas pessoas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E claro que ver a mãe de Hind no final, assim como outras imagens reais, deixa tudo ainda mais doloroso e realista. Mais uma vez, ótimas escolhas de Kaouther Ben Hania.
Entre os aspectos técnicos dessa produção, vale destacar o excelente trabalho de edição de Qutaiba Barhamji, Kaouther Ben Hania e Maxime Mathis. A edição é outro ponto forte do filme. Vale citar também o bom trabalho de Juan Sarmiento G. na direção de fotografia; de Amine Bouhafa na trilha sonora; de Bessem Marzouk no design de produção; e de Khadija Zeggaï nos figurinos.
Chamou a minha atenção a quantidade de nomes envolvidos na produção de The Voice of Hind Rajab. Não é muito comum vermos uma lista tão grande em posições de “produtor executivo” ou “coprodutor executivo”. No total, são 50 nomes envolvidos como apoiadores do projeto, pessoas que se envolveram para conseguir recursos para que The Voice of Hind Rajab pudesse ser feito. Entre esses nomes, algumas figuras conhecidas de Hollywood, como Alfonso Cuarón, Jonathan Glazer, Spike Lee, Rooney Mara, Michael Moore, Joaquin Phoenix e Brad Pitt. Interessante. Nomes conhecidos e que demonstram seu posicionamento crítico ao apoiar um filme como esse, visto pelos radicais de Israel como “contrário” a eles, claro.
Fiquei curiosa por saber um pouco mais sobre o Crescente Vermelho, organização que é retratada em The Voice of Hind Rajab. Como eu imaginava, ele é um correspondente da Cruz Vermelha – nós estamos mais acostumados a ver o trabalho da Cruz Vermelha, mas o Crescente Vermelho é uma organização com a mesma base e princípios. Para quem ficou curioso para saber mais sobre o Crescente Vermelho e a relação dele com a Cruz Vermelha, deixo por aqui esse artigo do Comitê Internacional da Cruz Vermelha.
Honestamente, acho uma vergonha e um verdadeiro absurdo o conflito em Gaza ainda não ter acabado. Eu assisti The Voice of Hind Rajab ontem, dia 31 de janeiro de 2026. Nesse mesmo dia, segundo essa matéria do G1 e tantas outras notícias mundo afora, o Exército de Israel bombardeou Gaza e matou pelo menos 27 pessoas. A reportagem informa o seguinte: “Segundo o Hospital Shifa, o ataque na Cidade de Gaza matou uma mãe, três crianças e um parente, enquanto o Hospital Nasser disse que um ataque em um acampamento de tendas causou um incêndio, matando sete pessoas, incluindo um pai, seus três filhos e três netos”. Nem sei o que dizer depois disso.
Quantas crianças ainda vão ter que morrer até esse genocídio praticado por Israel acabar? Acho inacreditável que vivamos em um mundo em que a “pressão internacional” não consegue acabar com conflito nenhum. Crianças são mortas como se nada todos os dias e as pessoas acham isso normal, será? O Papa Francisco falava disso a cada celebração que ele presidia, praticamente. Mas não adianta as falas de líderes como Papa Francisco e até o presidente Lula. O genocídio continua. Inacreditável, sério. Justificativa nenhuma cabe aqui.
Sobre os ataques contra Gaza que continuaram e continuam após o acordo de cessar-fogo assinado em outubro de 2025, deixo por aqui essa reportagem assinada por Paula Rosas e publicada pela BBC. Nessa matéria, a jornalista narra como a crueldade de Israel seguia apesar do cessar-fogo. Nem tenho mais palavras para falar sobre isso. Mas mesmo The Voice of Hind Rajab não ganhando o Oscar, sinceramente eu espero que alguém cite o filme e fale sobre o que ele representa.
Sobre a guerra de Israel contra o Hamas, depois de desconversarem muito tempo sobre as vítimas desse conflito, segundo essa matéria do Jornal Nacional, um comandante de Israel admitiu que eles mataram mais de 70 mil palestinos desde o início dos ataques, em outubro de 2023, e a data em que o comentário foi feito, agora no final de janeiro de 2026. Estamos falando de 70 mil pessoas! Quantas delas eram crianças? Quantos não tinham nada a ver com o Hamas e eram totalmente inocentes nessa história?
Vale trazer aqui também essa matéria da Veja sobre o mesmo assunto. Ela afirma que “estudos independentes e levantamentos da mídia com base em dados parciais das próprias forças de Israel estimam que (…) cerca de 70% a 80% das mortes sendo referentes a palestinos comuns”. Bem, acho que nem preciso falar mais nada…
Sobre Hind Rajab, vale citar essa matéria do G1 que registrou uma manifestação feita em uma praia de Barcelona, na Espanha, no dia 29 de janeiro agora – eu não sabia que a história do filme estava ambientada no dia 29 de janeiro de 2024, então foi uma coincidência eu assistir a esse filme apenas dois dias depois de terem se completado dois anos dos fatos que vemos no filme. Acho importante a mãe de Hind seguir fazendo apelos para a comunidade internacional fazer algo e pressionar pelo fim das mortes de crianças em Gaza.
Agora, voltando a falar sobre The Voice of Hind Rajab. Acho válido comentar algumas notas relacionadas com a produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Quiseram saber da diretora e roteirista Kaouther Ben Hania porque ela não quis dramatizar a história de Hind Rajab com uma atriz interpretando a menina. Kaouther disse que decidiu utilizar apenas os áudios das gravações originais que trazem a fala de Hind e não optar por uma atriz para interpretar a menina como forma de respeito. E ela está certíssima. O filme não teria metade do impacto que ele tem se ela tivesse feito a dramatização de Hind. A força dessa produção está justamente em ouvirmos a voz original dela e de não termos ninguém interpretando a protagonista dessa história. Justamente aí que reside a genialidade e o impacto maior do filme.
Segundo as notas de produção de The Voice of Hind Rajab, todos os atores que fazem parte do filme são palestinos.
The Voice of Hind Rajab recebeu uma ovação de pé de 23 minutos dos espectadores, um recorde, durante a estreia mundial do filme no Festival de Cinema de Veneza.
Essa produção é a candidatura oficial da Tunísia no Oscar. O filme recebeu uma indicação para a premiação anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood: na categoria Melhor Filme Internacional. Ele concorre com o brasileiro O Agente Secreto (comentado por aqui), o norueguês Sentimental Value (com crítica neste link), o francês It Was Just an Accident (com crítica aqui) e o espanhol Sirât (comentado nesse link). Cá entre nós, temos uma safra bem interessante esse ano. Filmes muito diferentes entre si e acima da média.
Por falar em premiações, The Voice of Hind Rajab ganhou, até o momento, 16 prêmios e foi indicado outras 19 vezes. Entre os prêmios que o filme recebeu, vale destacar os nove reconhecimentos que o filme teve no Festival de Veneza, incluindo o Leão de Prata, que é o Grande Prêmio do Júri; e o Prêmio da Audiência para Kaouther Ben Hania conferido no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián.
Além dessas e de outras premiações que The Voice of Hind Rajab levou para casa, vale comentar que o filme foi indicado na categoria Melhor Filme em Língua Não Inglesa no Globo de Ouro 2026 e ao Prêmio BAFTA na categoria Melhor Filme em Língua Não Inglesa.
Outras duas produções foram lançadas em 2025 sobre a história de Hind Rajab. Além de The Voice of Hind Rajab, temos os curtas Close Your Eyes Hind, com 32 minutos de duração e dirigido por Amir Zaza; e Hind Under Siege, com 24 minutos e dirigido por Naji Salameh.
De acordo com as notas de produção, Alfonso Cuarón, Jonathan Glazer, Brad Pitt, Rooney Mara e Joaquin Phoenix se juntaram ao filme como produtores executivos pouco antes da produção ter sua estreia mundial no Festival de Cinema de Veneza. Compareceram à estreia e à coletiva de imprensa no festival Rooney Mara e Joaquin Phoenix.
The Voice of Hind Rajab foi filmado na Tunísia durante três semanas em novembro de 2024. Durante a fase de pesquisa para o filme, Kaouther Ben Hania conversou bastante com a mãe de Hind e com as pessoas que falaram com ela ao telefone durante a operação de resgate da menina.
Teve um ponto que achei especialmente interessante sobre a produção de The Voice of Hind Rajab. As notas de produção afirmam que a diretora e roteirista Kaouther Ben Hania estava em plena campanha para o Oscar de seu filme anterior, Les Filles d’Olfa, que foi indicado ao Oscar de Melhor Documentário em 2024, e estava começando a se preparar para trabalhar na pré-produção de seu próximo filme quando ela ouviu a história de Hind Rajab no noticiário. Imediatamente Kaouther contatou a Cruz Vermelha para saber se ela poderia ter acesso ao áudio completo do atendimento de Hind. Ela recebeu essa gravação completa, que totalizava 70 minutos. Ao ouvir o material, ela soube, na hora, que precisava trabalhar com essa história em seu próximo filme.
Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para The Voice of Hind Rajab – uma nota excelente para os padrões do site. Inclusive vale citar, e notei isso apenas agora, que entre os filmes que concorrem esse ano na categoria Melhor Filme Internacional do Oscar, The Voice of Hind Rajab é o que tem a maior nota no IMDb (e devo dizer que eu concordo com as pessoas que colocaram a produção nesse patamar).
No site Rotten Tomatoes, The Voice of Hind Rajab aparece com o nível de aprovação de 95%, fruto de 107 críticas positivas e de seis críticas negativas. O site Metacritic apresenta o “metascore” 81 para essa produção, fruto de 25 críticas positivas e de duas críticas mescladas. The Voice of Hind Rajab ganhou ainda o selo “Metacritic must-see”.
De acordo com o site Box Office Mojo, The Voice of Hind Rajab fez US$ 472,4 mil nas bilheterias dos Estados Unidos – ou seja, até o momento, o filme foi pouco visto no mercado norte-americano. Em termos de bilheteria global, essa produção faturou US$ 4,8 milhões. A maior parte da bilheteria do filme foi feita na França, onde ele faturou quase US$ 2,5 milhões. O segundo país onde o filme se saiu melhor foi a Itália, onde ele fez quase US$ 1,5 milhão.
The Voice of Hind Rajab é uma coprodução da Tunísia com a França, os Estados Unidos, o Reino Unido, a Itália, a Arábia Saudita e o Chipre. Não encontrei informações sobre o quanto esse filme custou, mas, certamente, foi um custo baixo para os padrões atuais. Uma produção independente.
CONCLUSÃO
O melhor filme dessa temporada e o melhor filme – ou um dos melhores do ano. Pena que ele é menos falado do que outras produções e, claro, menos premiado. Tudo isso porque ele conta a história de uma menina que morava em Gaza e foi vítima do Exército de Israel. Se fosse o contrário, provavelmente esse filme ganharia o Oscar e outros prêmios importantes.
Mas o mundo é injusto, inclusive na forma de olhar para a história de uma criança de formas diferentes apenas pelo local em que ela nasceu. Mundo injusto, cruel e conivente com um genocídio que segue acontecendo enquanto escrevo essas palavras. Mas eis um filme muito necessário. Inclusive para mostrar toda essa hipocrisia. Filme duríssimo, difícil de assistir, mas uma experiência mais que marcante. Recomendo muito, especialmente para quem quer enxergar a realidade de frente. E morrer um pouco no processo.
PALPITES PARA O OSCAR 2026
Como é interessante a lista que o Oscar nos apresenta a cada ano. Muitas vezes a lista com os cinco finalistas não apresenta os melhores filmes da temporada. Só sabemos isso quando tentamos assistir ao máximo de filmes que foram indicados por seus países para concorrer na categoria que eu mais gosto da premiação anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.
A safra de 2026 confirma algo que eu vejo desde sempre: que muitas vezes os filmes mais falados de cada ano e os que ganham a estatueta dourada não são realmente os melhores. Muitas questões tem peso no Oscar. Para começar, claro, o investimento dos estúdios nas campanhas de divulgação de cada filme. Depois, os nomes envolvidos em cada projeto – quanto mais conhecidos ou premiados anteriormente, melhor. E, por fim, mas não menos importante, questões políticas.
Não dá para ignorar todos esses fatores que vão para além da qualidade de cada filme. E isso não acontece apenas agora, em 2026, mas faz parte da história do Oscar – e de todas as premiações de cinema, eu diria, com maior ou menor peso de cada um destes fatores dependendo da característica de cada premiação. Tudo isso para dizer que sim, acredito que todos nós estejamos torcendo por O Agente Secreto no Oscar 2026. Mas que aqui com The Voice of Hind Rajab eu encontrei o melhor filme do ano até agora – e o que eu acho que realmente merecia o Oscar na categoria Melhor Filme Internacional.
Mas, como já acontece em tantos outros anos, The Voice of Hind Rajab não vai ganhar o Oscar. E tudo bem. Só espero que a indicação dele ao prêmio mais importante de Hollywood, como eu comentei antes, coloque essa produção mais em evidência. Que mais gente chegue até esse filme, porque ele merece – e as pessoas também vão ganhar com essa experiência cinematográfica.
Mas, já que o melhor filme dessa temporada – falta eu assistir ainda a boa parte das 86 produções indicadas por seus países para o Oscar 2026, mas do que eu vi até agora, esse é o melhor – não vai levar o Oscar, espero mesmo que O Agente Secreto consiga vencer essa disputa. Porque, para mim, ele é o segundo melhor filme indicado neste ano.
O problema é o número de indicações que Sentimental Value recebeu nesse ano. Claro que número de indicações não quer dizer exatamente prêmios… e acho que Sentimental Value já vai vencer na categoria Melhor Ator Coadjuvante. Tem tudo para isso. Então ele, se perder de O Agente Secreto em Melhor Filme Internacional, não vai sair de mãos vazias do Oscar. Mas não dá para ignorar que a produção ganhou força nessa reta final da disputa.
Sentimental Value não é um filme ruim. Ele tem muitas qualidades. Apenas o final da produção acho que deixa a desejar. Por isso acho Sentimental Value o terceiro melhor na disputa. Para resumir, The Voice of Hind Rajab merecia ganhar o Oscar, mas não vai. O Agente Secreto merece vencer mais do que Sentimental Value, mas as bolsas de apostas estão colocando Sentimental Value como favorito nessa disputa. Vamos aguardar para ver. Mas o que eu digo é que seguirei torcendo por O Agente Secreto e que vocês devem assistir The Voice of Hind Rajab.
One reply on “Sawt Hind Rajab – The Voice of Hind Rajab – A Voz de Hind Rajab”
[…] The Voice of Hind Rajab (Tunísia) […]
CurtirCurtir