A liberdade, os ensinamentos passados por mulheres de geração em geração, a história privada de pessoas conhecidas que ninguém nunca chegou a conhecer, o amor, a dor e a perda impossível de ser curada. Tudo isso faz parte de Hamnet, um filme belíssimo, com um roteiro incrível, uma direção primorosa e um trabalho de elenco sem ressalvas. Para mim, vou ser franca, o melhor filme dessa temporada. Não deve ganhar muitas estatuetas no Oscar, mas merecia.
A HISTÓRIA
Começa com uma citação da obra The Death of Hamnet and the Making of Hamlet: “Hamnet e Hamlet são, de fato, o mesmo nome, intercambiáveis nos registros de Stratford no final do Século XVI e começo do Século XVII”. Em seguida, vemos a copa dividida em duas de uma árvore imensa. As raízes se espalham em todas as direções e deitada em posição fetal próxima de uma destas raízes está uma mulher.
Ela dorme, mas, quando acorda, olha para o céu. Essa mulher, Agnes (Jessie Buckley), ouve o barulho de um falcão. Ela caminha pela mata e chama a ave, colocando uma luva para ele pousar e ela poder alimentá-lo. Ela conversa com ele e, principalmente, o observa. Dentro de uma casa, olha pela janela um homem que está acompanhando a leitura feita em sincronia por três meninos. Ele ouve o que eles falam e, pela janela, vê a aproximação de Agnes e de seu gavião. O homem, identificado apenas como Will nos créditos do filme (trata-se de William Shakespeare, interpretado por Paul Mescal), pede para as crianças repetirem a leitura enquanto ele sai para procurar por Agnes.
VOLTANDO À CRÍTICA
(SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Hamnet): Eu tenho um fraco imenso por filmes bem construídos, que tem cada linha do roteiro escrito com esmero, que investe em belas imagens e no trabalho de um elenco pequeno, mas especial. Hamnet tem tudo isso. Além de muita emoção embutida. Chorei algumas vezes durante a produção.
O primeiro aspecto que eu quero destacar desse filme é como ele mostra e valoriza as paisagens e o modo de vida do interior. Esse foi o cenário onde William Shakespeare nasceu e cresceu – e que aparece em muitas de suas obras. Mas o mais legal desse filme é que apesar da história ter interesse por causa do bardo inglês que é uma referência na literatura e no teatro mundiais, o centro dessa história não é Shakespeare.
Esse, para mim, é um dos aspectos mais interessantes dessa produção. Sim, William Shakespeare é um personagem importante da história, mas quem está sempre no centro da narrativa é a mulher que se tornaria sua esposa e mãe de seus três filhos – e com quem ele ficaria casado até morrer. E aí Hamnet nos apresenta uma protagonista fenomenal, forte e cheia de nuances como muitas personagens de Shakespeare.
Claro que estou falando de Agnes, interpretada com maestria e muita sensibilidade por Jessie Buckley. Ela é quem primeiro aparece em cena, juntamente com a natureza exuberante do local em que ela e a família vivem. E não por acaso é Agnes também o último rosto que vemos em cena. Ela é o núcleo do filme, da história e da vida daquela família. Todos orbitam ao redor dela – e essa é uma subversão da História muito interessante, já que, na prática, pouco sabemos sobre a esposa de Shakespeare, já que ela foi praticamente apagada dos registros.
Shakespeare, por causa da sua obra, sempre foi muito pesquisado e todos sabem sobre ele, conhecem o seu nome. Mas quase nada se sabe sobre Agnes – que era como era chamada Anne Hathaway, o nome da mulher com quem ele se casou quando tinha apenas 18 anos e com quem ficou casado até a morte, como comentei antes.
Então é muito interessante esse roteiro escrito pela diretora Chloé Zhao juntamente com a autora Maggie O’Farrell, que escreveu um livro homônimo, subverter o foco da narrativa para colocar Agnes no centro da história. Uma escolha nada óbvia, mas fascinante.
Então temo, logo nas cenas iniciais do filme, um apelo estético muito interessante – e algo que vai perdurar durante toda a produção. Temos ali uma valorização gigantesca do ambiente rural, que foi muito importante para a formação de Shakespeare e, principalmente, de Agnes, e temos também a figura de Agnes no centro da narrativa.
Devo dizer que logo depois de Agnes sair da floresta e de William ir atrás dela, eu achei que eles estavam em um “jogo de cena”, ou seja, que eles estavam fazendo de conta que eram desconhecidos. A minha impressão inicial é que eles já eram um casal e estavam fazendo de conta que não se conheciam. Só que não. Logo em seguida caiu a minha ficha de que aquele encontro dos dois, um tanto estranho e desajeitado, foi realmente o primeiro encontro que eles tiveram.
Aliás, vale comentar um pouco sobre o que o filme nos mostra e quais paralelos tivemos com a vida real. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Eu vivi esse filme intensamente, mergulhando na história conforme ela se apresentava. Mas isso não me impediu de, logo após a produção terminar, procurar saber o quanto de “verdade” o filme abriga. E foi então que eu soube que Hamnet é uma obra criativa, que nos apresenta uma versão sobre o que pode ter ocorrido na vida de William e de Agnes. Nunca vamos saber o quanto do que vimos pode ter sido real ou não porque pouco se sabe sobre a vida íntima do autor inglês. Ou seja, pouco sabemos sobre Agnes e os filhos deles.
Então sim, essa história é apaixonante, sensível e bastante profunda, com muitas camadas, e podemos acreditar nela se quisermos. O roteiro de Chloé Zhao e Maggie O’Farrell pode ou não ter se aproximado do que realmente aconteceu na vida de Agnes, William e de seus familiares. Nunca saberemos. E sim, a intimidade de Shakespeare nos fascina e chama a atenção, como a intimidade de várias outras pessoas que são famosas e/ou que admiramos.
E não deixa de ser interessante pensar que mergulhamos muito nessa intimidade “possível” com Hamnet mas que, na prática, nunca saberemos ao certo o que é verdade ou não – como acontece hoje, quando alguém tenta acompanhar a vida de um famoso(a). Nem tudo é verdade e é difícil saber ao certo o que é mentira, fantasia ou realidade.
Mas vamos lá, vamos voltar a história de Hamnet. Amei aquele início do filme. Primeiro, a explicação de Hamnet e Hamlet são grafias do mesmo nos registros do local de origem de Shakespeare, o que deixa ainda mais evidente como sim, uma das maiores peças escritas pelo autor pode sim fazer uma referência direta ao seu filho. Depois, achei perfeita, simbólica e uma verdadeira pintura aquela sequência inicial do filme, quando vemos a relação direta, quase umbilical, entre a Natureza e tudo que ela simboliza enquanto força, mistério e beleza, e Agnes.
Naquela sequência também temos o cartão-de-visitas do trabalho de Chloé Zhao na direção desse filme. Ela faz um trabalho belíssimo e muito sensível valorizando sempre o trabalho de cada ator e destacando os valores e o entorno de cada personagem. A relação com a Natureza era algo muito importante para a protagonista dessa história e sua família – ela traz da mãe conhecimentos que eram repassados de geração em geração entre as mulheres, principalmente – e isso fica muito evidente durante toda a produção.
Então temos aquele início belíssimo e muito simbólico. Durante todo o filme percebemos como os conhecimentos que Agnes recebeu da mãe, que morreu após um parto, são importante para ela. Na verdade, a simbologia da mãe e o que ela ensinou são partes bastante definidoras da protagonista dessa história. E conforme o filme avança, entendemos bem as razões para isso.
A questão do amor, do afeto e da admiração que Agnes tinha pela mãe são importantes mas, mais que isso, em um tempo em que não existiam médicos ou remédios, todo esse conhecimento sobre o que a Natureza oferece e como esses recursos podem ser usados no dia a dia era algo vital para as pessoas procurarem sobreviver e enfrentar doenças e diferentes riscos para a saúde.
Então temos aquela mulher forte, fascinante e que carrega conhecimentos diferenciados e que rapidamente nos fascina, assim como ao personagem de William. Agnes é uma mulher diferenciada, que não está preocupada em agradar, não está correndo atrás de um bom casamento. Ela não se importa de ser chamada de bruxa ou de ser vista como esquisita por preferir passar o tempo na Natureza do que no convívio com outras pessoas.
A beleza dela, em primeiro lugar, e depois a sua personalidade atraem a atenção de William. Ele está instruindo três rapazes da fazenda, atuando como tutor deles, para pagar uma dívida do pai com a família de Agnes, quando vê ela vindo da floresta com seu falcão no braço. Imediatamente ele vai atrás dela, para conhecer a garota, e eles tem uma troca um pouco estranha e ao mesmo tempo interessante. Logo ali vemos que Agnes não é uma mulher comum, e que William se interessa por isso.
O falcão simboliza um pouco Agnes naquele primeiro contato. William pergunta se ele pode se aproximar da ave – querendo, na verdade, se aproximar de Agnes – e ela diz que ele pode, mas não muito, porque ele (o falcão) não conhece William. Novamente, é como se ela estivesse falando dela mesma. Mas William se aproxima, sem medo e com interesse. E é isso que ele faz, da fato, em relação à Agnes.
Achei especialmente interessante como muitos diálogos desse filme são construídos de forma tão interessante como se estivéssemos lendo a uma peça de Shakespeare. Não li a obra original de Maggie O’Farrell, mas acho que essa escolha é planejada. O texto de Hamnet, bem escrito e com essa “pegada” de texto de Shakespeare em alguns momentos – mas sem ser rebuscado, olhando pela parte mais popular e poética, digamos assim – faz muito sentido por estarmos mergulhando na intimidade do escritor e de sua família. Mais uma qualidade do roteiro de Hamnet.
Então temos logo no início do filme aquele jogo de sedução que vemos em diversas obras de Shakespeare. William quer conhecer Agnes, mas ela reluta até em dizer o seu nome – porque essa é uma porta de entrada importante para seu universo, uma forma de dar a senha para William depois saber mais sobre ela. E, inicialmente, ela resiste a isso – porque, tudo indica, ela realmente não estava procurando um romance ou se casar com alguém, ela parecia confortável no estilo de vida que tinha até então. Mas então aparece em sua frente William, alguém que está disposto a insistir na abordagem.
Achei interessante como as pessoas daquela época eram bastante diretas – ou, ao menos, as que vemos em cena. Logo no primeiro contato que tem com Agnes, William fala que eles irão se beijar. Ela então pega a mão dele e aperta, o que surpreende William – mais para a frente vamos saber que ela teria uma certa capacidade de “visualizar” o que irá acontecer com as pessoas ao senti-las em um aperto de mão.
Interessante essa parte, porque seja naquela época ou seja até hoje, muitas pessoas realmente procuram encontrar respostas para as dúvidas mais existenciais sobre presente e, principalmente, o futuro, em questões que envolvem a sensibilidade e a “espiritualidade”. Seja na quiromancia, nas cartas, no oráculo, ou no que pudermos imaginar que envolva sensibilidade e o “oculto”, o ser humano procura respostas para o que está vivendo no presente e, especialmente, pelo que irá vivenciar no futuro. E, como acontece com Agnes, algumas vezes essas leituras batem e fazem sentido e, outras vezes, não.
Acreditar em qualquer uma dessas manifestações, assim como acreditar nessa ou naquela religião, depende de escolha. Mas nada é tão certo quanto gostaríamos que fosse. Enfim, depois de Agnes apertar a mão de William, ele realmente alcança o que ele quer, que é dar um beijo nela. E ali começa tudo. Ela fala o nome dela para ele e William passa a ficar obcecado por ela. Mas, para além do romance e da atração que um sente pelo outro, temos a realidade da época e do entorno de cada um.
Hamnet não ignora a época em que a história se passa – muito pelo contrário. E isso é um dos pontos fascinantes do filme. Logo somos apresentados para algo importante do contexto de Shakespeare e de Agnes, que era como as diferenças sociais jogavam um papel importante naquele momento histórico. O pai de William era um luveiro – fabricante de luvas. Por exercer um trabalho especializado e técnico, ele era visto como sendo de uma “classe superior” do que Bartholomew (Joe Alwyn), o irmão de Agnes e com quem ela morava.
A família de Agnes vivia no interior e eram produtores rurais. William vai parar na propriedade, para ser tutor de latim dos meninos da casa – porque na época apenas os homens eram instruídos, as meninas dificilmente passavam por qualquer tipo de educação formal, ou seja, a maioria não sabia ler ou escrever -, porque o pai dele tem uma dívida com Bartholomew. Apesar disso, o pai de William, John (David Wilmot), e a mãe dele, Mary (Emily Watson) desprezam a família de Agnes e Bartholomew porque eles vem de uma “classe inferior”.
Apesar de desempenharem um papel fundamental naquela sociedade – e até hoje, afinal, o que seríamos de nós e deles, naquela época, sem os produtores rurais? -, Bartholomew, a esposa Joan (Justine Mitchell) e Agnes eram vistos como “inferiores” porque tinham menos estudo que a família de John e tinham um trabalho menos especializado, ou seja, que dependia de menos “refino” e estudo para ser desempenhado.
Apesar disso, William lembra o pai que era ele, John, quem estava devendo dinheiro para Bartholomew. Ele tenta demonstrar que o pai dele não poderia se considerar tão superior assim mas, logo de cara, percebemos que John não aceitava ser questionado. Mesmo William sendo um adulto – na época em que ele se casou com Agnes ele tinha 18 anos -, ele apanha do pai com uma certa frequência. William trabalha com o pai na produção de luvas, aprendeu esse ofício, mas claramente ele é visto com desprezo pelo patriarca da família porque ele tem essa “mania” de escrever e de querer ser algo mais que um artesão.
Temos ali diversos conflitos inerentes e interessantes. William não é bem visto dentro da própria casa – ao menos pelo pai – e Agnes também não é bem tratada pela esposa de seu irmão e dona da casa onde ela mora. Além disso, na sociedade local, tanto William quanto Agnes não são valorizados. Ele, por ter um pensamento um pouco diferente da maioria e por ter uma veia artística que já se revelava na época, antes mesmo dele escrever sua primeira obra. Ela, por não estar preocupada com um bom casamento e por ter mais vontade de ficar na Natureza do que junto com as pessoas – e daí toda aquela imagem de “bruxa” que colaram nela por ela não seguir os “padrões de uma moça” da época.
Essas duas figuras diferentes e um pouco desprezadas acabam se encontrando e ficando fascinadas uma pela outra – além dos aspectos físicos, que sempre são os primeiros a serem avaliados, porque eles não demoram para perceber que eles têm uma sensibilidade e uma “estranheza” que conversam entre si. Ou seja, eles se reconhecem.
Depois de ter aquele primeiro contato com Agnes, William volta para casa e fica sabendo, através da irmã, Eliza (Freya Hannan-Mills), que a filha mais velha da família para quem eles estão devendo é a moça que anda pelas matas com um falcão. William pergunta se ela tem certeza disso, que essa moça é a filha mais velha da família e não uma “serva”, e ela confirma. Então ele sabe que pode procurar por Agnes novamente, avançando com ela sem que isso “desonre” sua família.
William encontra Agnes na floresta e ela acaba pedindo para ele contar uma história para ela. Algo que ele goste. Ele conta a história de Orfeu e Eurídice, e então Agnes percebe que William tem uma forma de narrar histórias diferenciada. Em seguida, é Agnes que mostra um pouco de seu mundo e de seu talento para William, mostrando algo que a mãe dela lhe ensinou. A forma como eles se beijam novamente e como ficam juntos depois é coerente com romances que ele viria a escrever depois.
(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Quando eles ficam juntos, e logo Agnes engravida, os dois apaixonados sabem que precisam resolver o “problema” logo – pouco antes, William deixa claro que ele quer se casar com Agnes, mesmo que todos sejam conta. Alguém lembrou aí de Romeu e Julieta? Esse tipo de paralelo ou, até eu diria mais que “inspiração” que Hamnet constrói a partir da obra de Shakespeare, é um dos pontos fortes do roteiro.
Mesmo a família de William sendo contra o casamento, ele acaba ficando com Agnes porque eles realmente se gostam e porque eles pensam que será melhor eles ficarem juntos do que seguirem nas casas em que eles estão. Porque fica claro, naquele início do filme, que tanto William quanto Agnes não estão cercados de afeto e não vivem em casas tranquilas. Ainda que Agnes tenha o apoio e o amor do irmão muito presentes, a esposa dele é um ponto de conflito constante, e William tem pais complicados – especialmente o pai dele, volta e meia violento com o filho e extremamente autoritário.
Só que naquela época, como agora, não é tão simples assim criar uma nova família “do nada”. Então Agnes acaba se mudando, saindo de Hewlands, onde ela morava com o irmão, a esposa e os filhos deles, para morar com William em uma parte da residência dos pais dele. Quando chega a hora de dar a luz para a primeira filha do casal, Susanna (Bodhi Rae Breathnach), Agnes consegue sair da casa e ir para a mata sozinha.
Um dos pontos que eu achei fascinantes em Hamnet é como o filme nos transporta para aquela época. É agoniante e nos faz pensar muito, nos coloca no lugar dos personagens, principalmente de Agnes, aquela realidade em que não haviam médicos ou remédios disponíveis. Isso pra gente hoje é básico, mas simplesmente não existia naquela época e lugar. Ou, pelo menos, não estava acessível para aquelas pessoas.
Então sim, cada parto era um risco. Tanto para a mãe quanto para o filho ou filha que estava querendo vir para o mundo. Não era difícil alguém morrer no parto. Isso aconteceu com a mãe de Agnes, o que marcou bastante ela e afetou sua vida. E poderia ter acontecido com Agnes também. No parto de Susanna, ela correu para a floresta porque lá ela se sentia conectada com a Natureza e recebia as energias boas do local. Lá ela conseguiu parir Susanna sozinha, na tranquilidade.
Mas não demorou muito para Agnes perceber que William não estava bem. Ele não se entendia com o pai e estava infeliz. Sentia-se pressionado e, mesmo tendo Agnes e Susanna como motivação, ele estava a ponto de explodir. Então Hamnet nos mostra como Agnes teria agido para o marido ir para Londres – com apoio do irmão dela, que tinha uma certa influência sobre John.
Não entendemos bem essa relação de influência, se seria apenas por John ter uma dívida e/ou depender do fornecimento de Bartholomew, mas essa influência foi decisiva para Agnes e William se casarem e também para John concordar com o filho ir para Londres para abrir uma “filial” do negócio deles de produção de luvas.
Claro que isso foi uma desculpa para Agnes tirar o marido daquele local. Como ela mesma explicou para o irmão, William iria enlouquecer se continuasse ali, no interior, sem perspectivas de dar vazão para seus escritos e para seu talento. Isso é interessante. Hamnet apresentar essa ideia de que foi a esposa de Shakespeare quem teria jogado um papel importante na ida dele para a grande cidade… sem isso, claro, ele nunca teria se tornado o autor que todos conhecem.
Então William vai para Londres e a gente continua acompanhando Agnes – ou seja, com isso o deixa ainda mais claro que ela é a protagonista dessa história e não Shakespeare, o que seria mais óbvio. Quando William vai para Londres, Agnes comenta que está grávida do segundo filho deles – e o casal comenta sobre um sonho premonitório que ela teria tido, de que ela teria dois filhos porque tinha visto os dois no leito de morte dela.
O problema é que com William indo para Londres, Agnes fica mais “à mercê” da família dele. Então quando chega a hora do parto, Mary impede Agnes de ir para a floresta. E isso parece um mau agouro. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Agnes fica muito incomodada com aquilo e, honestamente, achei que o pior iria acontecer. Para a surpresa de todos, ela está grávida de gêmeos. A primeira criança que sai do ventre dela é Hamnet (Jacobi Jupe), mas depois quem acompanha o parto afirma que há mais uma criança no ventre materno.
Então nasce Judith (Olivia Lynes), que, inicialmente, parece ter nascido morta. Ela não nasce e logo chora. Tentam levar a menina para longe, mas Agnes exige que deem a filha para ela. E então parece que um milagre acontece. O calor da mãe parece dar vida e despertar Judith. E, desde então, por causa daquele “sonho premonitório” que ela teve antes de engravidar pela segunda vez, Agnes fica sempre preocupada com Judith e tentando protegê-la de tudo.
Afinal, se ela sonhou que tinha apenas dois filhos em seu leito de morte, um deles teria que morrer antes, certo? O problema de uma premonição com prazo tão longo é que esse filho ou filha que fosse morrer antes de Agnes poderia morrer a qualquer momento – na infância ou depois. Para o sonho dela ser premonitório mesmo, só bastava que ela sobrevivesse mais tempo do que um dos seus filhos… mas o medo de perder qualquer um deles faz com que Agnes proteja muito os três – com especial atenção para Judith, que foi a última a nascer e que teria, em teoria, uma saúde mais frágil do que os irmãos.
Pouco depois do parto dos filhos gêmeos, vemos as crianças já crescidas brincando juntas. É linda a relação entre os irmãos Hamnet e Judith. Como sempre falam que acontece com gêmeos, eles tem uma relação muito especial e diferenciada. Vivem brincando de “mudar de papéis”, inclusive como forma de enganar o pai, que volta e meia vinha até a casa da família para visitá-los. William vivia em Londres, mas de tempos em tempos vinha para passar um tempo com sua família.
O medo de perder um dos filhos seria a razão principal para Agnes não aceitar mudar com toda a família para Londres. Ela preferia ficar no interior, onde eles teriam, em teoria, menos riscos de pegarem doenças. Londres, por ser uma cidade muito maior, tinha uma circulação de pessoas infinitamente superior e, claro, com isso, todos estariam mais suscetíveis a vírus, bactérias e afins.
Antes de chegarmos em uma parte fundamental dessa produção, temos um pouco do contexto da família naquela época. Muito interessante como Agnes ensinava o que sabia para os filhos, com uma grande sensibilidade – como quando eles vão se despedir do falcão na floresta -, ao mesmo tempo em que William apresentava para eles o mundo no qual ele estava cada vez mais imerso, que era o da arte e do teatro.
Muito interessante essa troca que eles tinham entre si. E depois que William vai embora, mais uma vez, Agnes conversa sozinha com Hamnet. E o menino, também apresentando muita sensibilidade, fala sobre o que ele quer fazer no futuro. Do alto de toda a sua inocência e cheio de sonhos, ele diz que gostaria de ser um dos “atores que usam espada” no teatro. Cada interação que vemos no filme, inclusive essa sequência linda entre mãe e filho, são apresentadas de forma muito sensível e bela pela diretora Chloé Zhao. Fascinante e emocionante.
Bem, a família segue bem e acompanhamos de perto um pouco da relação fascinante de Agnes com os filhos até que a doença que vitimou uma parte importante dos europeus na época chegou até a casa deles. Pouco antes, vemos Agnes reparando no comportamento diferente das abelhas e sugerindo para o irmão não deixar os filhos dele saírem de casa enquanto William vê muitas pessoas morrendo vítimas da peste bubônica (chamada também de peste negra) em Londres.
A tragédia está anunciada. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro foi Judith quem apresentou os sintomas. E a primeira pessoa a perceber que algo de errado está acontecendo foi Hamnet. Ele volta da escola e encontra a irmã prostrada na cama – o que não era normal. Em seguida começa o desespero de Agnes e a parte mais difícil do filme.
Mesmo quem não é mãe – como é o meu caso – não tem como não se colocar totalmente na pele da protagonista dessa história. O desespero dela, a vontade de dar a vida para salvar a filha… e aí vemos tudo que ela tinha disponível naquele momento. Água fria, ervas e frases que ela tinha aprendido com a mãe para tentar curar quem está doente. Sem médicos, sem remédios… a forma como essa parte da história é filmada faz cada um de nós nos colocarmos naquele lugar.
Eu não vou mentir. Chorei nessa parte e em outros momentos do filme. Hamnet realmente me impactou muito. Depois de toda aquela sequência emocionante de Agnes fazendo de tudo por Judith, até a sogra dela parece tornar-se melhor e mais humana. Ela acompanha todo o esforço da nora e se compadece de tudo aquilo. Essa parte achei muito interessante porque realmente as pessoas são mais complexas e profundas do que algumas vezes gostamos de enxergar ou admitir.
E então temos aquela sequência que é um dos pontos altos do filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando Hamnet, que amava muito a irmã, se deita ao lado dela e diz que vai mudar de lugar com ela, que vai fazer de conta que é a irmã para a Morte levar ele e não ela… como não se emocionar com tanto amor e com esse sacrifício? Claro que essa sequência é uma fantasia, como todo o resto, mas é uma parte belíssima do filme. E que poderia ter acontecido, de fato, como todo o restante da história – realidade e fantasia se misturam sim, inclusive na vida real.
Bem, achei aquela parte digna de partir qualquer coração. Texto escrito com esmero e os atores Jacobi Jupe e Olivia Lynes dão um show aqui, pouco antes e pouco depois daquela sequência. Quando Agnes acorda e se dá conta do que aconteceu, mais uma vez a atriz Jessie Buckley dá um show de interpretação e parte mais um pouco o nosso coração. Não tem como. Considero que essas sequências são impossíveis de serem assistidas sem as pessoas se emocionarem.
E a partir daí, aquela sombra da perda contamina tudo. Não tem como. Perder alguém que se ama muito é devastador. E leva tempo para esse vazio ser entendido e ser absorvido, para as pessoas entenderem que o vazio estará sempre ali, acompanhando elas em qualquer lugar. Essa é a base do luto, e só quem já perdeu alguém muito importante em sua vida para entender tudo que acontece em Hamnet a partir desse momento.
Muito linda e lírica a forma como Chloé Zhao e Maggie O’Farrell nos apresentam o que acontece com Hamnet a partir dali. Jacobi Jupe está maravilhoso, e acho impossível também não se emocionar com a sua entrega a partir desse ponto. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Inicialmente, parece que ele fica um pouco no “limbo”, perdido em um local desconhecido e que não identificamos muito bem. Parece que ele está no sonho, ou como se fosse na antessala do Paraíso? Bem na sequência final do filme vamos entender melhor sobre esse local – é como se ele estivesse na coxia do teatro, aguardando pelo encontro final com os pais, unidos pela dor e por sua memória.
Mas antes disso, desse entendimento que vamos ter apenas na sequência final do filme, temos algumas outras questões acontecendo. Primeiro, aquele amanhecer doloroso e angustiante vivido por Agnes, pelos gêmeos e pelas pessoas que estão próximas. De arrepiar. Impossível não se emocionar com cada um deles – com Agnes, com Hamnet e com Judith, em especial. Depois temos Agnes rompendo com uma tradição da época e agindo diferente com Judith, em relação ao que fizeram com ela no passado. Agnes foi impedida de se despedir da mãe morta, mas ela não priva a filha de fazer isso com o irmão. Importante e bonito isso.
E então William aparece. Ele fica aliviado de ver Judith bem, porque tinha chegado até ele a informação de que ela estaria muito mal, doente. Mas, em seguida, ele entende o que aconteceu. Diferente de Agnes, que demonstra de forma aberta tudo o que está sentindo – a dor, a frustração, a mágoa pelo marido não estar lá e tudo o mais -, William parece sentir tudo de forma muito mais contida. Tanto é que ele não demora para voltar para Londres – o que deixa Agnes ainda mais indignada.
(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Claramente a morte de Hamnet afasta ainda mais o casal. Se antes eles estavam separados apenas fisicamente, a partir da morte do filho eles parecem se afastar emocionalmente. O luto vira um abismo. Agnes deixa claro que ela viu o sofrimento do filho de perto e que William nunca terá ideia do que aconteceu e do que o menino passou. William tenta dizer que está sofrendo como ela, mas a forma dele demonstrar é diferente.
É de cortar o coração e parece muito injusto, mas quando William diz para Agnes que o mundo não para porque eles perderam um filho, infelizmente ele está dizendo a mais dura verdade. Novamente, quem já perdeu alguém que ama descobre isso muito rápido. O mundo deveria parar, nós deveríamos poder nos afastar de tudo e de todos por um tempo, deveríamos ter o direito de “hibernar”, nos congelarmos em um iceberg por uma temporada, mas não é isso que acontece.
A vida de Agnes também não para. Ela segue tendo que cuidar e dar atenção para os filhos e dar conta de suas tarefas cotidianas, mas ela está vivenciando isso de forma franca e aberta. Mas ela não sabe como está sendo para William. E nem nós sabemos, porque Hamnet está focado nela. Passado um tempo, sabemos que William está indo muito bem, está tendo sucesso, não apenas pelos presentes que ele dá para a esposa e para os familiares mas, sobretudo, pela casa nova que ele comprou para a família. É a maior casa da cidade. Mas nada disso anima Agnes.
(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Em uma conversa que o casal tem à noite, em um dos retornos de William, ele comenta que algumas vezes acha que vai enlouquecer, mesmo um ano após a morte de Hamnet. Agnes diz que um ano não é nada, que o problema é “cada segundo, cada minuto, cada dia”, e que eles nunca vão parar de procurar o filho perdido. Caramba, o que dizer sobre isso?
William pede perdão para Agnes, mas ela pergunta pelo que. Ele diz que por tudo. E Agnes comenta que o lugar “na mente dele” o prendeu e que ele não consegue sair de lá. Claro que ela está se referindo ao talento dele por criar, por escrever – algo que o tornaria imortal. Eles ainda não tinham essa dimensão, mas Agnes já sabia que esse talento todo de William o separava deles, de sua família.
(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Nesse momento, ela chega a ser um pouco cruel. Comenta que William deveria estar lá no momento em que Hamnet morreu para ver a agonia pela qual ele passou e para ter se despedido dele. William dá a mão para a esposa e pergunta o que ela vê, e ela diz que nada. Agnes está mergulhada na dor e bloqueada. Com o coração partido. E parece haver um abismo entre ela e o marido. Em seguida, ela diz que ele deveria voltar para Londres, que ele não precisa se preocupar com eles e que eles estão bem sem ele. Ui, essa doeu!
Então acompanhamos, pela primeira vez, um pouco mais da perspectiva de William. Vemos ele trabalhando em Londres na montagem de um novo espetáculo. E então o filme entra em seu capítulo final – apesar de não estar dividido desta forma, em capítulos, mas é possível identificar que a produção tem episódios bem nítidos e separados entre si.
Nessa fase final da produção, acompanhamos mais o trabalho de William e a montagem que ele está fazendo de Hamlet. Interessante ver como, na época, apenas homens subiam no palco – quando havia alguma personagem feminina, ela era interpretada por um ator. Aspectos da época bem interessantes que essa história nos apresenta.
Interessantes essas sequências porque vemos mais a perspectiva de William. A forma como ele lidou com o luto e com a perda, com o fato de não ter conseguido se despedir do filho. Depois de mostrar o apreço que ele tinha pelo texto que ele tinha escrito, durante um ensaio, vemos ele na madrugada recitando um trecho importante de Hamlet – o mais importante, talvez, de toda a peça. Aquela sequência sobre se vale a pena seguir vivendo ou não – um clássico maravilhosamente revisitado aqui e interpretado com maestria por Paul Mescal.
Em seguida, retornamos para Agnes. Ela está na casa nova, quando descobre que o marido, que ela acreditava estar muito ocupado preparando uma nova “comédia”, na verdade está quase estreando uma peça chamada Hamlet. Joan, que foi visitá-la na nova casa, explica que ele não está preparando uma comédia e sim uma tragédia. E então Agnes fica possessa. Ela não quer acreditar que o marido vai apresentar uma peça sobre o filho deles – é o que ela presume pelo título do trabalho.
E então temos a reta final do filme. Que é de arrepiar. Agnes pede ajuda do irmão para que eles viagem juntos para Londres. Ela quer ir ver de perto que peça é essa que o marido escreveu e produziu e que leva o nome do filho deles – novamente Hamlet era considerado o mesmo que Hamnet na época, segundo a explicação que temos no início da produção.
Fascinante como o filme reproduz um teatro típico da época e como era a relação da população com essa arte. Todos se encontravam no mesmo local – ricos e pobres, plebeus e aristocratas -, mas eles ficavam em posições diferentes. Enquanto alguns ocupavam os locais mais altos e que tinham uma visão mais ampla do espetáculo, o povo ficava todo junto, com alguns mais próximos do palco e dos atores.
Pela primeira vez Agnes entra no mundo de William – e essa é uma sacada muito interessante do filme. Como alguém que nunca entrou em um teatro, ela demora um tempo para entender a dinâmica do que está vendo. Ela foi para lá achando que a peça seria sobre Hamnet, o filho dela com William, mas depois ela entende que a peça é sobre ele sim, mas não de forma óbvia.
Não é a história sobre Hamnet em si, o que ele significou para William, para Agnes, para Judith ou para outra pessoa da família. (SPOILER – não leia se você não viu o filme ainda). É a história sobre a perda dele, sim, mas sobretudo é a história de como um pai que não teve a oportunidade de se despedir do filho e consegue fazer isso através da arte. E como esse mesmo pai procura eternizar o filho no teatro.
Agnes vai entendendo isso conforme ela assiste o espetáculo. Todos se emocionam no local com a história de Hamlet, mas cada um por suas próprias razões e através de sua ótica. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Agnes percebe que o protagonista da peça é uma homenagem clara de William para o filho deles – e que, com esse personagem, ele realizou o sonho do filho de ser um “daqueles atores que usam espada”. Além disso, ao interpretar o pai de Hamlet na peça, William consegue, através da arte, se despedir do filho, o que ele não conseguiu fazer na vida real. E, mais que isso, com Hamlet ele teria conseguido encontrar o filho novamente, tornando ele também eterno.
Gente, como não se emocionar com isso? E como não se emocionar com aquela sequência em que Agnes vivencia novamente a morte do filho, agora de maneira figurada, com um ator o interpretando sobre o palco, e com a plateia ao redor fazendo o mesmo gesto de puro humanismo, de solidariedade, de empatia?
Aquele final de Hamnet é perfeito e uma ode bem direta e simples ao que a arte tem de mais bonito, que é nos unirmos todos em uma mesma sintonia, nos percebendo parte de um todo e vibrando na mesma emoção. Além de nos levar a algo fantástico, que é transcendermos um pouco a nós mesmos. Tudo está ali, posto, em cena. E os atores dão um show em cada momento. Muito lindo também pensarmos que naquele final temos a explicação para aquele “limbo” vivido antes por Hamnet.
(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O cenário da peça escrita por William e acompanhada na primeira fila por Agnes está claramente inspirado no lugar em que a família vive, no interior. Depois de morrer, Hamnet parece parar em um limbo estranho e, na sequência final do filme, percebemos que ele está na coxia do teatro, meio que esperando que sua história seja contada e compartilhada. Local em que ele pode realmente se despedir de seu pai e de sua mãe. Ao mesmo tempo que ele está livre, ele estará sempre presente a cada encenação de Hamlet. Incrível, não? Achei belíssimo aquele final.
Então, por tudo que eu comentei antes, achei esse filme simplesmente perfeito. Nada sobra e nada falta aqui. Há muita beleza em cena, além de intérpretes com entregas impecáveis, muita sensibilidade na direção e um roteiro primoroso. Uma produção com uma condução inspirada, rico em detalhes e que nos inspira. Fala sobre família, amor, morte e arte. De uma maneira como poucos fizeram antes. Honestamente, achei irretocável. Destes filmes para ver e rever. O melhor que eu vi dessa temporada, como comentei lá no início.
NOTA
10.
OBS DE PÉ DE PÁGINA
A minha motivação principal para assistir Hamnet, como as pessoas que me acompanham aqui no blog devem imaginar, foi o fato do filme ter sido um dos mais indicados nesse ano no Oscar. No total, o filme concorre em oito categorias – falo mais sobre essas categorias e as chances da produção em cada uma delas mais abaixo.
O que eu quero comentar agora é que essa é uma das razões que me faz acompanhar o Oscar há tanto tempo. A cada ano, somos apresentados a filmes excelentes – e outros nem tanto. Mas Hamnet é um destes casos de um filme incrível que chega até a gente muito por causa da visibilidade que o prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood traz. Claro que a cada ano também tempos pela frente filmes medianos e tal, mas vale acompanhar o Oscar por nos trazer produções como essa.
Esse filme apresenta muitas informações interessantes. Para eu não esquecer de algumas questões que eu anotei por aqui, vou citar isso primeiro antes de falar dos aspectos técnicos da produção, beleza? Hewlands, que é citada na história – a família de William pergunta como ele se saiu em Hewlands -, era o nome da fazenda onde vivia Agnes (apelido de Anne Hathaway, que seria a esposa de Shakespeare).
Interessante que o local está preservado até hoje. Encontrei nesse link uma apresentação do local turístico hoje chamado de “Anne Hathaway’s Cottage”, ou seja, o “Chalé de Anne Hathaway”, que fica localizado em Shottery, a cerca de 1,6 quilômetros do centro de Stratford-upon-Avon – esse último, o local onde Shakespeare nasceu, cresceu e onde ele morreu. Aliás, a casa onde ele nasceu também está preservada – aqui o link sobre esse ponto turístico. Segundo o que explicam no texto sobre o local, foi ali realmente onde Agnes e William teriam morado após o casamento – naquela propriedade, ou na casa dos pais de William ou na casa ao lado e que fazia parte da mesma propriedade.
Hamnet apresenta diversas questões importantes daquela época – e que nos ajudam a entender melhor o momento histórico em que William Shakespeare viveu, assim como sua família. William comenta, na parte inicial do filme, que os meninos da família de Agnes não eram “instruídos”. Naquela época, mais até do que hoje, as pessoas eram divididas entre as que tinham oportunidade ou não de estudar. Isso não necessariamente definia quem tinha mais ou menos dinheiro, mas ajudava a “categorizar” e a separar as pessoas.
Naquela época, meninos – que se tornariam homens depois – iam para a escola e podiam estudar. Se tinha alguém que podia acessar a educação naquele momento histórico, eram os meninos. Por isso William comentou que os meninos de Hewlands não eram instruídos… porque era de se esperar que eles soubessem ler melhor. Mas isso sob a perspectiva de William, que morava na área central de Stratford-upon-Avon e não no interior. Ou seja, havia também uma diferenciação social entre quem estava na área urbana e na área rural.
Tudo isso melhorou com o tempo, mas até hoje sabemos que ainda há preconceito e desigualdade envolvendo questões como o acesso à educação e as pessoas que vivem próximas ou distantes dos grandes centros – aquela velha história de quem é mais “urbano” ou quem é do “interior”. Se isso perdura até hoje, imagina como era na época de Shakespeare, há mais de quatro séculos… muito pior.
Outra questão que aparece nesse filme é a forma como eram vistas as mulheres que fugiam do padrão naquela época. Agnes, que não segue o padrão, é chamada de “filha de uma bruxa da floresta”. No fundo, enxergam ela como um tipo de bruxa também. Isso porque ela não fazia o que outras mulheres da época faziam e porque ela gostava do contato direto com a Natureza, buscando preservar os conhecimentos que a mãe dela lhe ensinou. E sim, ela era de uma vertente que olhava para a Natureza e para a vida de outra forma, que tinha um conhecimento que era importante para a época, mas pouco valorizado. Mulheres assim eram chamadas de bruxas naquela época e até hoje. Só lamento, porque essas mulheres tem muita sabedoria e poderiam nos ensinar muito.
Uma outra fala que me chamou a atenção: quando William pergunta para a irmã dele se a moça que andava com um falcão era realmente a filha mais velha da família ou uma “serva”. Sim, naquela época as mulheres que trabalhavam para as famílias eram consideradas “servas”, ou seja, pessoas de “segunda categoria”.
Se já era um problema William se aproximar de uma filha de uma família do interior, imagina ele se envolver com uma “serva”? Seria um verdadeiro absurdo. Mais um demonstrativo de como a sociedade era dividida naquela época e como muita gente era desprezada pelo tipo de educação ou função social que desempenhava. Horrível tudo isso, mas importante o filme não enfeitar a história e mostrar tudo isso de forma muito franca para entendermos melhor o contexto daquela época.
Minha gente, cheguei até o final desse domingo cansada. Então vou parar essa crítica por aqui, deixando para escrever depois alguns comentários sobre a direção, o roteiro, o elenco desse filme e afins, beleza? Prometo voltar durante essa próxima semana para concluir essa parte. Abraços e até breve!
CONCLUSÃO
Um filme completo porque apresenta primor técnico e muita sensibilidade. Para mim, não existe filme acima da média se a produção não conta com um roteiro excelente e um trabalho de direção e de elenco à altura. Temos tudo isso em Hamnet. A proposta do filme é ousada, tentar entrar na intimidade da família de Shakespeare. Mas o filme vai para além disso. Aborda de maneira muito direta e com sensibilidade ímpar o amor, a busca pelo sentido na vida de um casal e, sobretudo, a morte e o luto. Impossível não se emocionar com essa história – eu chorei mais de uma vez durante o filme. Para mim, como comentei antes, o melhor filme da temporada. Assistam!
PALPITES PARA O OSCAR 2026
Nessa temporada do prêmio anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, tinham dois filmes que eu não tinha assistido ainda e sobre os quais eu estava muito curiosa: esse Hamnet e Marty Supreme. Não apenas porque os dois filmes estão concorrendo na categoria principal do Oscar, mas pela quantidade de chances que cada produção tem na premiação e por eles estarem bem cotados em algumas categorias.
Hamnet foi indicado nas categorias Melhor Filme; Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Elenco; Melhor Figurino; Melhor Design de Produção; Melhor Atriz para Jessie Buckley; e Melhor Direção para Chloé Zhao.
Segundo as bolsas de apostas, Hamnet é o favorito para vencer apenas na categoria Melhor Atriz. O filme aparece na terceira posição na categoria Melhor Filme (atrás de One Battle After Another e Sinners), em segundo lugar em Melhor Roteiro Adaptado (atrás de One Battle After Another), e em terceiro lugar em outras quatro categorias – Melhor Direção (atrás de Paul Thomas Anderson e Ryan Coogler), Melhor Figurino (atrás de Frankenstein e Sinners), Melhor Design de Produção (atrás de Frankenstein e Sinners) e Melhor Trilha Sonora (atrás de Sinners e One Battle After Another).
Eu sou suspeita para falar, mas do que eu assisti até agora, eu acho que Hamnet merecia ganhar nas categorias Melhor Filme, Melhor Atriz, Melhor Roteiro Adaptado (até porque One Battle After Another é apenas levemente inspirado no livro de Thomas Pynchon, não é uma adaptação tão literal assim, diferente de Hamnet) e Melhor Direção.
Acho o trabalho Chloé Zhao na direção de Hamnet excelente, impecável e muito inspirado, e o roteiro que ela escreveu juntamente com Maggie O’Farrell, autora do livro Hamnet, também é excelente, um dos pontos fortes do filme. Gosto muito de One Battle After Another, mas eu achei Hamnet ainda melhor. Difícil comparar as duas produções, é claro, porque elas são muito diferentes entre si, mas ainda acho Hamnet levemente superior.
Eu não vou ficar triste ou achar injusto se One Battle After Another ganhar como Melhor Filme no Oscar 2026, mas vou achar mais justo Hamnet levar as estatuetas de Melhor Atriz e Melhor Roteiro Adaptado. Pelo menos isso. Veremos.
One reply on “Hamnet – Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”
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