A Quiet Place – Um Lugar Silencioso

a-quiet-place

Vivemos em sociedades cheias de barulho, de ruídos, de verborragia. É difícil encontrar o silêncio, muitas vezes, mesmo quando ele é tão necessário. Agora imagine uma sociedade em que o silêncio impera. E, mais que por qualquer outra razão, por uma questão de sobrevivência – e de poucos. Esse é o pano de fundo do interessante A Quiet Place. O filme assusta menos do que o esperado, mas tem alguns insights bastante interessantes. Ele também faz pensar, especialmente sobre um ou dois pontos que não ficam tão claros na história – mas estão subentendidos.

A HISTÓRIA: Dia 89. Vemos a uma cidade deserta, com ruas vazias, e dentro de uma venda, encontramos uma parede cheia de fotos de pessoas desaparecidas. Nesse local, abandonado, mas com muitos produtos – incluindo medicamentos – dentro, uma criança caminha ligeiro e na ponta dos pés. Em seguida, vemos a uma menina maior caminhando no local, e um garoto sentado no chão.

A mãe das crianças, Evelyn Abbott (Emily Blunt), surge em seguida e começa a buscar um remédio específico entre os medicamentos que estão em uma prateleira. Em seguida, ela dá o remédio para o filho maior, Marcus (Noah Jupe). Eles falam pela língua de sinais, e o garoto diz que está bem. O filho menor, Beau (Cade Woodward), desenha uma nave no chão e mostra para a irmã, Regan (Millicent Simmonds). Ele diz que é assim que eles vão fugir. A obsessão do garoto pelas espaçonaves acaba colocando a família em risco.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a A Quiet Place): Que filme interessante! Uma produção que, como tantas outras de qualidade, tem mais de uma camada de leitura e de interpretação. A Quiet Place tem uma pegada curiosa desde o princípio. Para começar, pela coragem do filme ser todo baseado no silêncio. Hoje, na sociedade em que vivemos, incluindo a cultura de filmes cheios de som e de efeitos especiais, investir em uma história com essa pegada é realmente algo corajoso.

Apenas por isso, o filme já merece os parabéns. Porque ele vai contra a corrente dos blockbusters dos anos 2000 e apresenta uma outra forma de fazer cinema tão interessante quanto – cada uma com o seu propósito, é preciso ponderar. Além disso, o diretor, roteirista e protagonista desta história, John Krasinski, acerta ao apostar em um cinema sensorial e que resgata alguns dos princípios do cinema do grande Alfred Hitchcock.

Aqui não interessa tanto as razões do que estamos assistindo. Não sabemos como tudo começou – apenas por alguma pincelada aqui e ali – ou como a família que conduz essa história sobreviveu. O que importa em A Quiet Place é o tempo atual, os desafios dos personagens e, principalmente, o perigo que eles enfrentam a todo momento. Apesar das regras do perigo serem claras – você deve evitar fazer barulho o tempo todo -, o filme ganha pontos ao mostrar que as pessoas se acostumam com tudo, até com aquele estado de atenção constante.

A Quiet Place consegue equilibrar, assim, momentos de pura tensão e adrenalina por causa do perigo que ronda os personagens com cenas de um “cotidiano” já esquecido por aquele contexto. Algumas das cenas que eu mais gostei do filme tem a ver com isso. Além do desejo de brincar do pequeno Beau, logo no início do filme, até a bela cena em que Evelyn procura o marido, Lee, para os dois dançarem juntos – ouvindo a música com fones de ouvido, é claro.

Graças a essas escolhas, o filme de Krasinski não se resume apenas a um compêndio de cenas tensas. As sequências de “vida real”, de pais tentando fazer o melhor possível para criar, educar e proteger os seus filhos em um ambiente totalmente perigoso e tenso, é o que torna essa produção interessante e passível de empatia. Não é difícil se colocar no lugar dos personagens – tanto adultos quanto das crianças. E isso é algo mágico no cinema.

A Quiet Place acerta, assim, no tom e na narrativa. Além disso, ele nos faz pensar em pontos essenciais sobre a visão de mundo das pessoas e sobre cenários “pós-apocalípticos”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Um dos primeiros pensamentos que veio na minha mente, quando o tempo passa e o filme salta daquele começo para o dia 473, quando vemos a protagonista grávida, foi: “Claro, você vive em uma realidade em que você não pode fazer barulho, ou falar, ou gritar, e qual é a melhor alternativa nesse cenário? Engravidar e ter um filho que já vai nascer chorando”.

Mas aí você pensa: “Ok, estou em um cenário pós-matança geral das sociedades. Como eu vou continuar com a civilização se eu não tiver filhos?”. Algo estilo Noé. Por isso eu falava sobre as várias camadas dessa produção. Certamente o casal de protagonistas tinha essa convicção de que eles deveriam continuar a ter filhos para “preservar a espécie”. E, também, possivelmente, porque eles são casados e, segundo algumas crenças, são isso que os casais fazem, certo? Eles têm filhos.

Essas são as únicas justificativas para aceitarmos que um casal continue a ter filhos naquele cenário mostrado por A Quiet Place. Então, assim meio sem querer, esse filme nos coloca em questão a reflexão lógica e o sentido de sobrevivência versus a questão das crenças, da fé e afins. Porque realmente não faz o mínimo sentido os Abbott pensarem em ter um filho naquela realidade em que o silêncio é fundamental.

Por causa dessa ideia, que nos desafia a lógica e também a nossa capacidade de aceitar as escolhas diferentes dos demais, é que A Quiet Place começa a revelar os seus pequenos defeitos. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para começar, é interessante que o casal Abbott tenha pensado em um “quarto” quase à prova de som onde, em teoria, o filho deles iria nascer. Mas as coisas saem mal – e isso sempre rende bons momentos em filmes de suspense e terror – e Evelyn acaba tendo o filho no banheiro que não é à prova de som.

Ora, eis o primeiro problema da história – talvez até tenham tido outros antes, mas esse me pareceu o mais gritante. Se alguns tiros despertam a atenção de vários “bichos estranhos” no final do filme, o nascimento de uma criança não iria fazer o mesmo? Para que aquela cena do banheiro se justifique, a criança teria que ter nascido em pleno silêncio. Alguém realmente acredita nisso? Que a mãe tenha se esforçado ao máximo e não tenha gritado de dor, tudo bem, mas a criança ter nascido sem abrir o berreiro… não é impossível, mas é extremamente improvável.

Além disso, me pareceu um tanto forçado o fim de Lee. Ok, Regan poderia não ser muito “esperta” ou ter pensamento rápido, mas realmente, além do aparelho dela a incomodar, ela não reparou que ele afastava o perigo? Na cena da caminhonete, foi a segunda vez que ela passou por aquilo. E o que ela faz? Ao invés de afastar o perigo, ela desliga o aparelho e deixa todos vulneráveis. E aí o pai das crianças, claro, assume a responsabilidade de protegê-las de qualquer forma.

Aquela sequência me pareceu um tanto forçada por causa disso. Também me pareceu um tanto forçado que a solução para aquele problema tivesse sido descoberto daquela forma, acidental, e por uma pré-adolescente, enquanto exércitos e cientistas antes forma exterminados sem terem pensado naquela mesma ideia. Para mim, esses são os problemas da produção, junto com a sequência em que Evelyn escapa com o bebê mesmo tendo ficado frente a frente com o inimigo quando a “sala segura” é inundada.

Mas descontados esses pequenos problemas do roteiro, esse filme se apresentar muito potente e interessante. Ele realmente envolve o espectador e nos faz, com bastante facilidade, nos sentirmos “na pele” dos personagens. Apesar disso, desse resgate salutar de filmes que alimentavam a nossa tensão explorando muito mais as fragilidades humanas do que os “perigos inexplicáveis” – vide Hitchcock -, eu esperava me assustar mais.

A Quiet Place é um filme muito eficaz em nos deixar tensos. Em esperarmos o pior a qualquer momento. Mas ele não nos apavora ou nos assusta como outras produções já conseguiram antes. Eu procuro não ler sobre os filmes antes de assisti-los, mas acabei vendo, aqui e ali, em portais de notícias, que alguns consideravam esse filme o mais inovador em muito tempo. Sim, A Quiet Place tem uma pegada interessante e criativa, mas não acho ele tão surpreendente quanto Get Out (comentado aqui), por exemplo.

Assim, para resumir, A Quiet Place é um filme interessante, com uma proposta diferenciada em meio a tantos filmes cheios de som e de efeitos especiais, mas que acaba caindo em alguns lugares-comum. Por exemplo, as características da ameça que a família Abbott enfrenta. Será mesmo que não vamos conseguir abandonar aquele perfil de “alien” que já conhecemos? Não fica evidente se a ameaça veio de fora da Terra ou se é produto de uma mutação, mas isso pouco importa. Impossível não lembrar dos filmes Alien ou Predator.

Então esse certo “lugar-comum” do perfil da ameaça enfrentada pelos personagens me incomodou um pouquinho. Por outro lado, achei interessante outra leitura que surge após o filme terminar. Você pararam para pensar em quem era a pessoa mais preparada para enfrentar aquele cenário? Alguém que nasceu no silêncio e que não teria dificuldade alguma em conviver com ele até o final? Sim, justamente a personagem surda-muda de Regan.

Isso me fez pensar. O que é, afinal, uma pessoa “menos preparada” para o mundo? Já tivemos imbecis na história da nossa civilização que acreditavam em desenvolver uma “super raça” de pessoas perfeitas e em eliminar todos aqueles que tinham alguma “imperfeição” – até hoje há imbecis que defendem esse equívoco. E aí vem um filme como A Quiet Place para nos mostrar, como com um tapa na cara, que talvez essas pessoas “imperfeitas” – e quem não é? – sejam just

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Uma das qualidades de A Quiet Place é que a história é centrada em poucos personagens. Assim, fica mais fácil do público “se aproximar” deles e de desenvolver a empatia necessária para “sofrer” e sentir a tensão junto com eles. Sem dúvida alguma, uma escolha acertada para essa produção funcionar.

Fiquei especialmente feliz em ver a John Krasinski novamente. Primeiro, estrelando um filme que caiu na graça do público e da crítica. E, depois, ao saber que ele é o grande responsável por A Quiet Place. Krasinski escreveu o roteiro ao lado de Bryan Woods e Scott Beck, a dupla que teve a ideia original de A Quiet Place, e também dirigiu o filme. Eu gosto muito dele desde a época de The Office – uma grande série, aliás. Se você ainda não assistiu à versão americana da série inglesa, versão essa que conta com Krasinski, vá atrás. Vale muito a pena.

Além de Krasinski, que faz um belo trabalho como o protagonista dessa história, estão muito bem em seus papéis também as atrizes Emily Blunt e Millicent Simmonds e o jovens atores Noah Jupe e Cade Woodward. Toda a história gira em torno da família formada por eles, mas algumas outras figuras aparecem rapidamente em cena. Como o casal de idosos que aparece na floresta e que é interpretado por Leon Russom e Doris McCarthy.

Entre os elementos técnicos do filme, vale destacar a ótima fotografia de Charlotte Bruus Christensen; a trilha sonora fundamental de Marco Beltrami; a edição precisa de Christopher Tellefsen; o design de produção de Jeffrey Beecroft; a direção de arte de Sebastian Schroeder; a decoração de set de Heather Loeffler; os figurinos de Kasia Walicka-Maimone; o fundamental trabalho dos 20 profissionais envolvidos com o Departamento de Som; e o trabalho dos 42 profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais.

Agora, estava pensando em um ponto. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Eu não li ainda vários textos sobre esse filme. Mas consigo imaginar que ele pode suscitar uma série de debates e questionamentos. Por exemplo, imagine você ficando grávida – se for mulher, claro. E se for marido dessa mulher, imagine você sabendo que a sua mulher está grávida em um cenário em que vocês não podem nem conversar. O que você faria?

Da minha parte, eu procuraria um bunker ou um lugar similar, já planejado para ter uma super proteção e que fosse à prova de som. Então porque os Abbott não procuraram um bunker? Claro, você vai dizer, porque aí esse filme não existiria. Até pode ser, ou ele existiria com um pouco mais de inteligência e outros desafios a serem vencidos. 😉 Mas que faria mais lógica uma busca dessa, certamente.

Digam o que disserem, mas em um cenário pré-apocalipse de “invasão alienígena” – ou do que for -, os jornais ainda seguiam importantes. 😉 Vide os recortes guardados por Lee e o jornal da banca que já nos falava no início do filme sobre a grande questão naquele momento. A manchete dizia, simplesmente: “É o som”. Interessante.

Achei muito interessante uma sacada dessa produção. Como em um jogo de videogame “modernete”, a história muda conforme “varia” a perspectiva dos personagens. Assim, ouvimos sons normalmente quando estamos vendo a realidade sob a ótica de Evelyn, Lee ou Marcus, mas não escutamos nada quando estamos sob a ótica de Regan. Sacada bacana essa. Funciona muito bem e dá outra perspectiva para o filme e os espectadores.

A Quiet Place estreou no dia 9 de março no Festival de Cinema South by Southwest. Depois, o filme participou de apenas mais um festival de cinema, o Blood Window Fest. No Brasil, o filme estreou no dia 5 de abril. Assisti ele há uma semana e gostei do que eu vi – apesar das considerações que eu fiz acima.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. A atriz Millicent Simmonds é surda desde a infância por causa de uma overdose de medicamentos. A Quiet Place foi o segundo filme que ela fez. Achei a atriz muito talentosa e com grande expressividade. Torço para que ela tenha outros filmes interessantes para fazer.

O roteiro original de Bryan Woods e de Scott Beck tinha apenas uma linha de diálogo. Curioso. O roteiro deles foi eleito um dos 10 melhores do ano segundo o Tracking Board, uma eleição anual feita por profissionais da indústria do cinema nos Estados Unidos.

Os atores John Krasinski e Emily Blunt são casados na vida real. Inicialmente, Woods e Beck escreveram o roteiro para a Paramont, que enviou o material para Krasinski, que já tinha sido escolhido para estrelar o filme. Quando a esposa dele leu o roteiro, ela também quis participar. E foi assim que os dois estrelaram essa produção. E, cá entre nós, eles SÃO o filme. Estão ótimos e muito, muito convincentes.

Por pouco a Paramount não colocou A Quiet Place como um filme da franquia Cloverfield. Mas os realizadores – especialmente os roteiristas – ficaram aliviados por conseguirem fazer um filme independente. Honestamente, não assisti aos filmes Cloverfield. Por isso, pergunto para quem já os viu: faria sentido A Quiet Place entrar nessa franquia? Mesmo sem esse conhecimento de causa, essa ideia me pareceu um tanto estranha.

Algo importante para a história – e algo que me fez pensar enquanto eu assistia ao filme: o dispositivo que Reagan utiliza é um implante coclear e não um aparelho auditivo simples. E a explicação para isso: “A deficiência auditiva geralmente envolve danos ou subdesenvolvimento da cóclea, que traduz vibrações no ar para impulsos nervosos que o cérebro percebe como som”. Ou seja, a personagem não tinha apenas um aparelhinho colocado no ouvido, mas um implante que provavelmente lhe causava uma dor muito maior quando entrava em “conflito” com a “sintonia” das criaturas.

A Quiet Place foi filmado em 36 dias. Essa produção, segundo o site Box Office Mojo, teria custado cerca de US$ 17 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 67 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou, ele fez quase US$ 25,7 milhões. Ou seja, no total, até o dia 12 de abril, A Quiet Place tinha faturado US$ 92,7 milhões. Alguma dúvida que ele está rendendo um belo lucro para os produtores e o estúdio? Fico feliz por esse resultado, porque ele pode incentivar os estúdios a apostarem cada vez mais em produção não muito óbvias. E nós, que amamos cinema, ganhamos com isso.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 222 críticas positivas e 11 negativas para esse filme, o que garante para A Quiet Place um nível de aprovação de 95% e uma nota média de 8,2.

Por sua vez, o site Metacritic registra um metascore de 82 para essa produção, com um raro registro de 54 críticas positivas para o filme (e nenhuma negativa ou mediana). Essas notas, altas para os padrões dos sites, e o nível de críticas positivas demonstra como esse filme caiu no gosto do público e da crítica de uma maneira especial.

Esse é um filme 100% dos Estados Unidos. Por isso, ele entra na lista de produções que atendem a uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

CONCLUSÃO: Um filme interessante, com algumas ideias bacanas e bem desenvolvido. Mas sou franca em dizer que eu esperava mais, até porque A Quiet Place recebeu muitos elogios – que eu vi bem por cima, mas que foram suficientes para aumentar a minha expectativa. Essa produção se destaca pelo trabalho dos atores, pela angústia e pelo suspense bem construídos, mas se torna um pouco óbvia e previsível em algumas partes. Não é tão surpreendente quanto Get Out, por exemplo. Mas vale ser visto, especialmente pelo que nos faz refletir depois que a projeção termina e que passamos a refletir sobre detalhes da história.

Anúncios

Wonder – Extraordinário

wonder

Este filme tem todos os elementos para fazer qualquer um chorar, mas o choro não é obrigatório. Mas ainda que você não chegue a verter lágrimas, algo é certo: Wonder vai te emocionar. Eu não chorei, mas fiquei tocada pela história, muito bem contada e conduzida, em mais de um momento. Isso porque este filme trata dos valores certos, do que realmente interessa no final de contas. Uma produção que dialoga com qualquer pessoa de qualquer idade porque tem uma proposta bastante universal. E por mais que a história não seja muito surpreendente, ela tem algumas ótimas sacadas que compensam a narrativa previsível por boa parte da duração do filme.

A HISTÓRIA: Em um céu estrelado, um astronauta flutua. Ele parece estar pulando e ergue os braços. Auggie (Jacob Tremblay) está pulando sobre a cama e comenta que ele sabe que não é uma criança como qualquer outra. Mas ele diz que faz coisas ordinárias, como tomar sorvete, andar de bicicleta, e fazer esportes no Xbox. Ele ama Minecraft, Ciências e, claro, Star Wars. Ele inclusive brinca de lutar com sabres de luz com o pai, Nate (Owen Wilson). Enquanto isso, ele deixa a irmã Via (Izabela Vidovic) maluca. Auggie também sonha em ir para o Espaço, como qualquer criança. Curioso que ele está sempre com um capacete.

Mas ele disse que o nascimento dele não foi ordinário e sim hilário. Mas quando Auggie nasce, todos percebem que tem algo errado. Desde então, ele fez 27 cirurgias para que ele pudesse fazer coisas básicas, como enxergar, respirar e tudo o mais. Mas, agora, ele terá um novo desafio pela frente. Em um certo dia, ele escuta a mãe Isabel (Julia Roberts) e o pai Nate falarem sobre ele ir para a escola. Aí começará o grande desafio de Auggie até o momento.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Wonder): Eu não gosto de assistir a trailers de filmes. Mas, às vezes, quando vamos no cinema, meio que somos obrigados, não é mesmo? Assisti ao trailer de Wonder umas duas vezes antes de assistir ao filme. E que imagem aquele trailer me passou? Que Wonder seria um daqueles filmes “forçados”, literalmente planejados a cada milímetro para fazer o espectador chorar.

Então, serei franca, eu fui para o cinema com um certo “pezinho atrás”. Estava com esta expectativa de filme forçado quando comecei a ver o filme. E qual foi a minha surpresa quando eu percebi que não era nada daquilo? Verdade, como eu disse no princípio deste texto, que Wonder faz chorar com uma certa facilidade. Mas não porque ele apresenta uma carga melodramática exagerada e sim porque a história nos convence, ela parece real e ela faz a gente pensar em várias relações – especialmente de amizade – que nós mesmo temos. E o quanto tudo isso é fundamental.

Como eu disse, eu acabei não chorando. Mas foi por pouco. E o que exemplifica como o roteiro de Stephen Chbosky, Steve Conrad e Jack Thorne foi bem construído, é que a parte em que eu mais me “segurei” não teve a ver com o protagonista Auggie. Foi a parte em que Via canta para os pais e para as demais pessoas da plateia depois do gesto altruísta e de grande generosidade da “ex-amiga” Miranda (Danielle Rose Russell). Achei tanto o gesto da garota de uma grandeza imensa quanto me emocionei com a alegria e a entrega de Via no espetáculo sabendo que ela estaria orgulhando os seus pais.

Eis dois dos vários valores enaltecidos por esta produção que me cativaram. Primeiro, a amizade capaz dos gestos mais bonitos de Miranda, Jack Will (Noah Jupe), Summer (Millie Davis), Auggie e tantos outros. Depois, o desejo dos filhos em honrar e trazer alegria para os seus pais – com especial destaque, neste sentido, para a personagem de Via. Além disso, a história por si só de Auggie é inspiradora porque nos mostra que por mais difícil e/ou desafiadora que uma situação puder ou parecer, podemos superá-la se mantivermos o foco no que é certo e se tivermos os incentivos certos.

Algo que eu achei bacana neste filme é que ele não tem papas na língua. O roteiro do trio Chbosky, Conrad e Thorne, baseado no livro de R.J. Palacio, é bastante franco nas situações e nos diálogos de adultos, jovens e crianças. Desta forma, o trabalho do diretor Stephen Chbosky nos convence a cada minuto. Conseguimos nos lembrar do tempo do colégio – que, para muitos, foi realmente desafiador e uma tortura – e de tudo que aquela fase de encontro de diferenças e de nem sempre cuidado em tratar estas diferenças pode significar para uma criança e um jovem.

Sim, as crianças que aparecem em Wonder, quase na totalidade, são cruéis. Mas quem conhece o ambiente escolar sabe bem que boa parte do que vemos em cena realmente poderia acontecer em várias escolas mundo afora. Muitas crianças são perseguidas e viram chacota dos que, como Isabel bem define, tem problemas de autoestima.

Na vida real, e como acontece neste filme, as crianças que enfrentam este tipo de situação tem algumas formas de vencer isso. A primeira é elas se “impondo” de alguma maneira – pela força ou pela inteligência, muitas vezes. A segunda é elas resistindo ao máximo que elas podem e, pouco a pouco, ficando fortes com isso e ganhando a simpatia/amizade de algumas crianças. Isso sempre acontece, inevitavelmente. O papel dos adultos neste cenário, como Wonder também mostra com competência, é o de dar suporte, apoio e respostas para a criança que está sendo desafiada com bullying e com todas as suas práticas injustas.

Algo importante desta produção é que ela mostra que, infelizmente, em uma sociedade em que nem todos têm bom senso, educação ou respeito pelos outros, nunca poderemos evitar que as pessoas sofram. Os pais não podem evitar que os filhos sejam mal-tratados e desafiados, assim como as crianças que tem alguma particularidade que as distingue das demais não podem evitar de serem alvo de piadas e de grosserias. Mas se não podemos evitar algo, podemos aprender a lidar com isso, não é mesmo? Esta é a parte mais importante.

Wonder mostra tudo isso de forma muito franca e aberta, com sinceridade e delicadeza. E algo que eu achei importante no filme e que me surpreendeu é que Wonder não é centrado apenas no personagem de Auggie. Sim, é verdade que ele é o protagonista da história. Mas o filme é dividido em quatro “capítulos”, cada um com o nome de um personagem. O primeiro é dedicado a Auggie. O segundo, para Via, a irmã mais velha dele; o terceiro, para Jack Will, o menino que se torna o melhor amigo de Auggie; e o quarto, para Miranda, a “ex” melhor amiga de Via e uma personagem que, até aquele momento, você não esperava que tivesse um capítulo com o seu nome.

O interessante desta forma de narrativa é que cada “capítulo” do filme assume a ótica e a perspectiva daquele personagem. E isso é algo fundamental para o filme ter a qualidade que ele tem. Desta forma, Wonder nos mostra que uma mesma história e uma mesma realidade tem diversas perspectivas. Mesmo que às vezes não estejamos atentos para todas elas, todas são igualmente importantes e ricas de detalhes. Assim, entendemos não apenas o protagonista Auggie mas todas as pessoas da sua família e as outras pessoas mais próximas de forma mais completa com as diferentes perspectivas que aparecem em cena.

Por apresentar todas estas características, Wonder provoca apenas bons sentimentos, análises e perspectivas. O filme nos faz ter um olhar mais generoso e atento. Afinal, todas as pessoas vivem mundo próprios de experiências, sentimentos, expectativas, sucessos e fracassos, e deveríamos lembrar disso mais vezes no dia a dia em que encontramos pessoas nem sempre tão “adaptáveis” ou que fazem sentido para a gente. Wonder mostra que todos tem as suas perspectivas, e que todas estas perspectivas fazem sentido dentro de determinadas realidades lógicas e cheias de sentimento.

Ter um olhar mais atencioso, compreensivo e generoso para o outro é uma das mensagens centrais desta história. Todos tem as suas capacidades e talentos, e o que deveríamos fazer é ajudar, dentro das nossas possibilidades, para que todos consigam se expressar e se desenvolver como gostariam. Outras mensagens importantes que esta produção mostra e reforça a cada minuto é a importância da família e das amizades verdadeiras. Ou seja, grandes valores colocados em primeiro plano. Um belo filme, bem conduzido e desenvolvido, com um roteiro realista e que equilibra muito bem o drama e o humor. A variedade de perspectivas da história também ajuda muito Wonder a não ser o filme de um personagem só. Muito bacana.

NOTA: 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Citei antes alguns dos grandes valores que Wonder destaca durante o seu desenvolvimento. Mas tem outras questões que a produção destaca e que achei igualmente inspiradoras. Por exemplo, a forma com que o filme mostra a importância de grandes professores na vida de todas as pessoas. Eles são fundamentais e, nesta produção, tratados de uma maneira bacana e inspiradora. Outro valor destacado por esta produção é a admiração que algumas pessoas provocam nas outras. Via poderia perceber a sua família como desigual e um tanto problemática, mas a perspectiva de Miranda era totalmente diferente. Às vezes deveríamos parar alguns minutos para pensar nestas diferentes perspectivas sobre a nossa vida e a nossa realidade.

Gostei também da viagem no tempo que Wonder me fez passar. Lembrar da época do colégio, de seus desafios e de seus prazeres. Das primeiras amizades verdadeiras, das amizades que se revelaram não ser tão sinceras assim ou tão duradouras, dos professores inspiradores e das situações que talvez pudessem ser classificadas hoje de bullying e que me tornaram mais forte. Ter bons valores e ter humor ajudam muito naquele período. E Wonder mostra isso de uma forma bacana e sem forçar a barra.

Além do roteiro bem escrito, equilibrado e da direção competente de Stephen Chbosky, há outros aspectos técnicos de Wonder que chamam a atenção. Para começar, a trilha sonora bem presente de Marcelo Zarvos; a edição competente de Mark Livolsi; a direção de fotografia de Don Burgess; o design de produção de Kalina Ivanov; a direção de arte de Kendelle Elliott e de Brad Goss; a decoração de set de Shannon Gottlieb; os figurinos de Monique Prudhomme; e os 19 profissionais envolvidos no trabalho do Departamento de Maquiagem.

Algo de tirar o chapéu neste filme: o desempenho do elenco. Todos os atores, sem exceção, estão ótimos e convincentes em seus papéis. Dá para perceber que todos realmente viveram os seus personagens e conseguiram, desta forma, nos passar os sentimentos e o realismo de cada situação. Isso nem sempre é comum, mas acontece com profusão neste filme.

O grande Jacob Tremblay, que todos descobrimos no filme Room (comentado por aqui), brilha novamente como protagonista de uma história. Este garoto realmente é ótimo e merece ser acompanhado. Além dele, estão ótimos também Julia Roberts e Owen Wilson, bastante convincentes como os pais dedicados, atenciosos e que não sobrecarregam os seus filhos. E ganha um destaque especial o trabalho de Izabela Vidovic. Ela rouba a cena cada vez que aparece como Via, irmã mais velha de Auggie. Foi ela que, por muito pouco, não me fez chorar com aquela significativa sequência no teatro. Mais um grande talento que merece ser acompanhado – espero que deem para ela papéis realmente bons daqui para a frente.

Outros atores que tem destaque nesta produção também estão ótimos. Noah Jupe faz uma entrega impressionante como Jack Will, o garoto que se “aventura” a se aproximar de Auggie e que realmente percebe o grande garoto que ele tem pela frente. Ele faz uma besteira, como vários outros de nós já fizemos em algum momento da vida, mas isso não lhe impede de continuar sendo bom caráter e de defender os valores certos.

Merecem ser citados, porque estão muito bem em seus papéis, Mandy Patinkin como o diretor do colégio Mr. Tushman; Bryce Gheisar como Julian, o mais cretino dos garotos da turma de Auggie – com os pais que ele tem, dá para entender porque ele é um imbecil; Elle McKinnon como Charlotte, a menina que, junto com Jack e Julian, apresenta o colégio para Auggie antes das aulas começarem; Daveed Diggs como Mr. Browne, um dos professores de Auggie; Ty Consiglio como Amos, um dos garotos “valentões” que acompanham Julian; Kyle Breitkopf como Miles, outro garoto que anda com Julian; Millie Davis como Summer, a primeira estudante que se aproxima de Auggie depois que ele rompe a relação com Jack; Ali Liebert como Ms. Petosa, professora de Ciências; Danielle Rose Russell como uma surpreendente Miranda, que ganha espaço mais perto do final e que tem uma interpretação interessantíssima; Nadji Jeter como Justin, o garoto que se aproxima de Via e que lhe incentiva a fazer teatro; e a nossa atriz brasileira Sonia Braga em uma super ponta como a avó de Via e Auggie. Sonia Braga aparece em apenas uma cena, mas é uma sequência bacaninha.

Em papéis realmente menores, mas com uma presença marcante quando aparecem em cena, temos ainda os atores Nicole Oliver como a mãe de Jack; Rachel Hayward, como a mãe de Miranda; Crystal Lowe e Steve Bacic como os pais cretinos de Julian – figuras odiosas que, infelizmente, existem no mundo real. Aliás, Wonder nos mostra bem, também, como bons pais são fundamentais para termos uma boa sociedade. Pais que ensinam os valores certos e que tem as atitudes adequadas são fundamentais para a formação de boas pessoas, enquanto que pais boçais e cretinos (e eles existem) provocam exatamente o contrário. Pensem nisso, se vocês são pais atualmente ou se pensam em ter filhos em algum momento da vida. Que tipo de pais vocês são e/ou vão ser?

Wonder estreou em première em Los Angeles no dia 14 de novembro. Na sequência, ele foi estreando em dezenas de países mundo afora, chegando aos cinemas do Brasil no dia 7 de dezembro. Até o momento, esta produção ganhou dois prêmios e foi indicada a outros seis. Os dois prêmios que o filme levou para casa foram o Humanitarian Award para Stephen Chbosky no Satellite Awards e o Truly Moving Picture Award no Heartland Film.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. O ator Jacob Tremblay e a família dele foram para o retiro da Associação Craniofacial Infantil, onde o ator e seus familiares puderem conhecer de perto a realidade de pessoas que tiveram a síndrome de Treacher Collins, a mesma que Auggie teve. Um outro nome para a síndrome de Auggie mostrada nesta produção é disostose mandibulofacial. Mais informações sobre esta síndrome neste artigo da Info Escola.

Olhem que interessante. Wonder é baseado no livro bestseller de R.J. Palacio. E sabem como o autor se inspirou para escrever a sua obra? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele pensou em escrever o livro depois que ele e o seu filho foram a uma sorveteria e encontraram lá um garoto com a síndrome de Treacher Collins. O filho de Palacio chorou ao ver o outro garoto. Essa cena, que realmente ocorreu, é citada em uma parte do filme como sendo algo vivenciado por Jack, sua mãe e irmão mais novo.

Miranda chama Auggie de Major Tom. Esta é uma referência à música Space Oddity, de David Bowie, que fala sobre o astronauta Major Tom.

Wonder foi rodado em diversas locações do Canadá e, nos Estados Unidos, em Manhattan e Coney Island, ambos em Nova York. No Canadá, o filme teve cenas rodadas no Heritage Woods Secondary School, na cidade de Port Moody; no Vancouver College e no Playland, na cidade de Vancouver.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 121 críticas positivas e 21 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 85% e uma nota média 7. Os dois níveis de avaliação são muito bons, mas ficou claro que o filme agradou mais ao público que à crítica, não é mesmo?

De acordo com o site Box Office Mojo, Wonder fez pouco mais de US$ 109,2 milhões nos Estados Unidos e cerca de US$ 44,4 milhões nos outros países em que o filme já estreou. Com isso, esta produção já ultrapassou a marca de US$ 153,6 milhões nas bilheterias. Nada mal, mas o filme poderia ter se saído melhor nas bilheterias de outros países fora os Estados Unidos.

Wonder é uma coprodução dos Estados Unidos e de Hong Kong.

CONCLUSÃO: Um filme que enaltece a família, a amizade, o respeito às diferenças, a inteligência e a gentileza. Tem como ser melhor? Wonder está cheio de belos valores. Sim, ele tem alguns discursos importantes. Mas o que enche os olhos dos espectadores são os belos exemplos que vemos em cena. Para conseguir a empatia tão desejada em qualquer obra, Wonder mergulha na realidade do ambiente escolar de dois filhos de um casal. Então além dos valores positivos, temos também um bocado de crueldade, bullying e contra-exemplos de adultos e crianças.

Mas a vida é assim mesmo, não é verdade? Cheia de desafios, de pessoas sem noção e de uma certa dose de maldade. O que Wonder nos lembra é que para cada história lamentável, existem vários exemplos positivos e de superação. A narrativa linear desta produção é um bocado previsível. Sabemos por onde a história vai caminhar. Ainda assim, são os belos acertos do caminho que nos encantam e que nos fazem sorrir. Como na vida mesmo. Com atores que emocionam em belas interpretações, este é um filme que acerta quase em cheio no alvo. Faltou pouco para o 10. Vale ser assistido, sem dúvida, especialmente pelos belos valores que o filme trata e que sempre merecem ser debatidos e relembrados.