Paul, Apostle of Christ – Paulo, Apóstolo de Cristo

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Algumas mensagens não perdem a importância ou desbotam com o tempo. Muito pelo contrário. Algumas mensagens são mais atuais do que nunca. Ainda assim, muita gente não estava preparada há 2018 anos para ouvi-las e não está preparada hoje, ainda, para realmente entender o que foi dito. Paul, Apostle of Christ tem mensagens essenciais para qualquer indivíduo mas, apesar disso, não é indicado para qualquer pessoa. Infelizmente. Assista especialmente se você tem a fé cristã ou se, ao menos, está aberto(a) a conhecer um pouco mais sobre essa fé. Do contrário, passe longe.

A HISTÓRIA: Começa em Roma, no ano 67 depois de Cristo. Metade da cidade foi arrasada por causa de grandes incêndios. Nero, o Imperador de Roma, culpa Paulo (James Faulkaner), seguidor de Cristo, pela tragédia. Como represália ao que aconteceu, Nero atira, de tempos em tempos, cristãos em sua arena, para que eles sejam mortos por suas feras. Nas ruas, os cristãos também são queimados vivos, como “velas” para “iluminar” a cidade. Escondido, Lucas (Jim Caviezel) entra em Roma para procurar Paulo e contar a sua história enquanto ele está vivo na cadeia.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Paul, Apostle of Christ): Me desculpem pela sinceridade da introdução acima. Mas realmente isso é o que eu penso sobre essa história e esse filme. Respeito todas as religiões e inclusive as pessoas que não tem fé alguma. Todos tem o direito de fazer as suas escolhas. Como cristã, eu atribuo isso à vontade de Deus, que nos deu como o nosso maior presente a liberdade de escolher – inclusive de acreditarmos ou não Nele.

Dito isso, esse filme é recomendado e faz um grande sentido para quem é cristão – ou para quem tem interesse por essa religião. Para os demais, que desprezam o cristianismo ou que simplesmente não acreditam em Jesus Cristo, o mais recomendado mesmo é nem “perder tempo” assistindo a esse filme. Possivelmente muitos cristãos vão discordar de mim. Vão comentar que esse é um belo filme para “tocar” e, quem sabe, “converter” os que não tem fé. Até pode ser verdade, mas eu prefiro recomendar que apenas os mais abertos à essa fé gastem o seu tempo nesse filme.

Feitas essas observações, quero dizer que fiquei realmente encantada com essa produção. Paul, Apostle of Christ não é um filme do estilo “bíblico”, apesar de ter muitos elementos da Bíblia – evidentemente. Mas ele não segue a “cartilha” de filmes do gênero. E isso faz dele uma produção fora da curva e torna essa história tão interessante. Porque temos, além dos ensinamentos que podemos buscar na Bíblia, também um belo resgate histórico das primeiras décadas do cristianismo e toda aquela perseguição que foi feita contra os seguidores de Cristo.

Por ter esse resgate histórico, Paul, Apostle of Christ não é um filme exatamente “fácil” de assistir. O diretor Andrew Hyatt, que escreveu o roteiro ao lado de Terence Berden, escolheu mostrar a realidade do tempo de Paulo e de Lucas sem filtros. Assim, assistimos a mais de uma cena de pura crueldade contra os cristãos da época, com pessoas virando tochas humanas, literalmente, nas ruas romanas. Não por acaso, os cristãos viviam escondidos, procurando sobreviver. E havia um bocado de dissidência entre os irmãos e irmãs que viviam a mesma fé.

Como católica interessada em sempre buscar mais detalhes sobre a minha fé, eu já sabia sobre parte daqueles acontecimentos. De fato, as primeiras décadas após a morte de Jesus Cristo não foram nada fáceis. Os cristãos foram perseguidos, maltratados e mortos. Até hoje existem pessoas que morrem pelo mundo por professar a fé cristã – mas, evidentemente, em número muito menor do que naquela época próxima do início da fé cristã.

Assim, Paul, Apostle of Christ tem o mérito de mostrar muito bem aquele momento da história do cristianismo. Como foram valentes pessoas como Aquila (John Lynch) e Priscilla (Joanne Whalley), que lideravam uma comunidade cristã em Roma. Eles resistiram por muito tempo, mas aumentava cada vez mais a insegurança daquele grupo que eles protegiam. Parte das pessoas queria ficar ali, para dar alternativa para os pobres e os esquecidos de Roma, mas parte queria sair da cidade para conseguir sobreviver.

De fato esse era o contexto da época. Assim, Hyatt e Berden conta uma história que intercala esse resgate histórico e os ensinamentos de Paulo repassados para as comunidades cristãs através do médico Lucas, seu companheiro de tantas caminhadas. Muito especial, e emocionante mesmo – eu me emocionei, ao menos -, acompanhar a relação de irmandade entre Paulo e Lucas. Paulo, preso mais uma vez, sabendo que os seus dias estavam chegando ao fim, ainda se sentia “perseguido” pela própria consciência. Pela época em que ele próprio era um perseguidor de cristãos.

Lucas, por sua vez, foi convertido através de Paulo. E como um discípulo dele, procurava absorver o máximo possível dos ensinamentos do homem que se converteu ao presenciar Cristo em uma viagem. Como comentei antes, a comunidade cristã estava dividida na época. Não apenas sobre a questão de permanecer ou fugir de Roma, mas também sobre como comportar-se frente à tanta injustiça e assassinatos de cristãos.

Quando Paulo responde a um grupo dissidente, para mim, chegamos ao ponto alto do filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O próprio Lucas, frente à tanta violência – inclusive a morte de uma criança de quem todos gostavam -, também apresenta dúvidas, mas isso não acontece com Paulo. No melhor momento da produção, Paulo fala sobre a essência do ensinamento de Cristo: que o único caminho é o amor. E isso vale para todos, não apenas para quem gostamos ou para as pessoas com as quais concordamos.

O amor deve valer para todos, inclusive (ou especialmente) para aqueles que são diferentes da gente, para aqueles com os quais não concordamos ou para aqueles que nos fazem mal. Esse é maior desafio, sem dúvida alguma, do ser humano. Superar-se ao ponto de amar o inimigo e/ou quem lhe faz mal. Mas esse é o maior exemplo de Cristo, algo que Paulo compreendeu muito bem e soube propagar em pouco mais de 30 anos de evangelização.

Interessante também acompanhar como o livro Ato dos Apóstolos surgiu, através daquela experiência de Lucas visitando Paulo na prisão. Lucas percebeu – ou foi induzido por Deus – a importância de contar a história dos apóstolos enquanto Paulo ainda estava vivo. Sem essa iniciativa, não teríamos um dos livros mais importantes do Evangelho. Além disso, o filme resgata algumas das cartas de Paulo, aqui narradas pelo próprio apóstolo através de diálogos que ele teria tido com Lucas.

Claro que o filme não é 100% histórico. É uma narrativa sobre aqueles fatos que busca sintetizar os ensinamentos de Paulo e a presença marcante de Lucas na comunidade cristã. Independente do filme não ser 100% fiel aos fatos, para mim ele cumpriu com maestria o papel ao qual ele se propôs. Além de resgatar parte da história, os ensinamentos de um dos maiores apóstolos de Cristo e, por consequência, os próprios ensinamentos de Cristo, esse filme conta com um elenco diferenciado.

Um dos pontos fortes de Paul, Apostle of Christ é justamente a dupla de protagonistas. James Faulkaner como Paulo e Jim Caviezel como Lucas estão – me perdoem o trocadilho – divinos. Ambos interpretam com precisão papéis que são complicados. Mas eles humanizam os apóstolos e nos aproximam daquele momento histórico de forma impecável. Além deles, o elenco de apoio também faz um belo trabalho. Honestamente, não consegui ver nenhum defeito nessa produção. Encontrei sim uma bela história, muito bem narrada e que emociona.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Assisti a esse filme há umas duas semanas. Mas aí veio uma temporada de muito trabalho, Dia das Mães, e acabei conseguindo parar para falar de Paul, Apostle of Christ apenas hoje. Me perdoem se eu não tinha mais o filme tão “vivo” na minha lembrança do que se tivesse escrito sobre ele logo em seguida, mas tentei resgatar na memória os principais fatores que me fizeram dar a nota 10 para ele após tê-lo assistido.

Os três pontos altos do filme, para mim, são o roteiro de Andrew Hyatt e Terence Berden, que equilibra muito bem o resgate histórico com os ensinamentos de Paulo e de Cristo através das vozes de Paulo e de Lucas; o elenco da produção e a produção que faz um resgate histórico bastante interessante.

Do elenco, o grande destaque é mesmo o trabalho da dupla James Faulkaner e Jim Caviezel. Além deles, vale citar o belo trabalho de Olivier Martinez como Mauritius, o militar romano que é “desprestigiado” ao assumir a direção do presídio em que Paulo é colocado; Joanne Whalley como Priscilla, líder da comunidade cristã em Roma e que resiste a deixar a cidade; John Lynch como Aquila, parceiro de Priscilla e um líder dividido entre ficar ou sair de Roma; Yorgos Karamihos como o jovem Paulo – da fase em que ele perseguia os cristãos; Antonia Campbell-Hughes como Irenica, esposa de Mauritius e que cobra do marido, a todo momento, a cura da filha do casal; Alessandro Sperduti como Cassius, um dos líderes entre os cristãos do movimento que busca “revanche” e a tomada de armas contra os perseguidores romanos; Alexandra Vino como Octavia, uma das vítimas da violência romana; e Manuel Cauchi como Ananias, o homem que recebe Paulo e que o ajuda a conhecer melhor a Cristo.

Como comentei antes, o resgate histórico de Paul, Apostle of Christ é um dos pontos fortes da produção. Por isso vale bater palma para diversos elementos técnicos dessa produção, começando pela direção de fotografia de Gerardo Madrazo; o design de produção de Dave Arrowsmith; a direção de arte de Ino Bonello; a decoração de set de Craig Menzies; os figurinos de Luciano Capozzi; a maquiagem de Lara Licari; o departamento de arte de Jon Banthorpe, Cesco Bonello, Sven Bonnici, George Farrugia, Dylan Gouder, John Gouder e Matthew Pace. Além deles, vale citar a trilha sonora de Jan A. P. Kaczmarek e a edição de Scott Richter.

Paul, Apostle of Christ estreou no Canadá, na Espanha, nas Filipinas e nos Estados Unidos no dia 23 de março de 2018. A produção não participou de nenhum festival de cinema ou ganhou qualquer prêmio até o momento.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 19 críticas negativas e 14 positivas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 42% e uma nota média de 5,5. No site Metacritic, o filme registra o metascore 49, resultado de sete críticas medianas, duas positivas e uma negativa.

De acordo com o site Box Office Mojo, Paul, Apostle of Christ teria custado cerca de US$ 5 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, US$ 17,5 milhões. Nos outros países em que o filme estreou, ele teria feito outros US$ 3,4 milhões. Na soma, o filme teria faturado cerca de US$ 20,9 milhões. Ou seja, apesar das críticas negativas, o filme está conseguindo um bom lucro.

Paul, Apostle of Christ é uma produção 100% dos Estados Unidos. Assim, esse filme atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme que funciona à perfeição para atender o propósito estabelecido. Paul, Apostle of Christ tem ótimos atores, um roteiro muito competente e conta uma história potente para todos os cristãos. Assim, cumpre o seu papel com esmero e sem necessidade de retoques. Claro que essa conclusão tem tudo a ver com a minha própria fé. Por isso, como eu disse na introdução, assista a esse filme apenas se você realmente tem apreço pelo tema. Se não, certamente o efeito desse filme será muito diferente. Ainda que eu ache que, independente da fé da plateia, todos vão concordar que essa produção é competente – mas, talvez, para quem não compartilha da mesma fé, ela não mereça a nota acima. Mas, para mim, o filme merece.

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