Paul, Apostle of Christ – Paulo, Apóstolo de Cristo

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Algumas mensagens não perdem a importância ou desbotam com o tempo. Muito pelo contrário. Algumas mensagens são mais atuais do que nunca. Ainda assim, muita gente não estava preparada há 2018 anos para ouvi-las e não está preparada hoje, ainda, para realmente entender o que foi dito. Paul, Apostle of Christ tem mensagens essenciais para qualquer indivíduo mas, apesar disso, não é indicado para qualquer pessoa. Infelizmente. Assista especialmente se você tem a fé cristã ou se, ao menos, está aberto(a) a conhecer um pouco mais sobre essa fé. Do contrário, passe longe.

A HISTÓRIA: Começa em Roma, no ano 67 depois de Cristo. Metade da cidade foi arrasada por causa de grandes incêndios. Nero, o Imperador de Roma, culpa Paulo (James Faulkaner), seguidor de Cristo, pela tragédia. Como represália ao que aconteceu, Nero atira, de tempos em tempos, cristãos em sua arena, para que eles sejam mortos por suas feras. Nas ruas, os cristãos também são queimados vivos, como “velas” para “iluminar” a cidade. Escondido, Lucas (Jim Caviezel) entra em Roma para procurar Paulo e contar a sua história enquanto ele está vivo na cadeia.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Paul, Apostle of Christ): Me desculpem pela sinceridade da introdução acima. Mas realmente isso é o que eu penso sobre essa história e esse filme. Respeito todas as religiões e inclusive as pessoas que não tem fé alguma. Todos tem o direito de fazer as suas escolhas. Como cristã, eu atribuo isso à vontade de Deus, que nos deu como o nosso maior presente a liberdade de escolher – inclusive de acreditarmos ou não Nele.

Dito isso, esse filme é recomendado e faz um grande sentido para quem é cristão – ou para quem tem interesse por essa religião. Para os demais, que desprezam o cristianismo ou que simplesmente não acreditam em Jesus Cristo, o mais recomendado mesmo é nem “perder tempo” assistindo a esse filme. Possivelmente muitos cristãos vão discordar de mim. Vão comentar que esse é um belo filme para “tocar” e, quem sabe, “converter” os que não tem fé. Até pode ser verdade, mas eu prefiro recomendar que apenas os mais abertos à essa fé gastem o seu tempo nesse filme.

Feitas essas observações, quero dizer que fiquei realmente encantada com essa produção. Paul, Apostle of Christ não é um filme do estilo “bíblico”, apesar de ter muitos elementos da Bíblia – evidentemente. Mas ele não segue a “cartilha” de filmes do gênero. E isso faz dele uma produção fora da curva e torna essa história tão interessante. Porque temos, além dos ensinamentos que podemos buscar na Bíblia, também um belo resgate histórico das primeiras décadas do cristianismo e toda aquela perseguição que foi feita contra os seguidores de Cristo.

Por ter esse resgate histórico, Paul, Apostle of Christ não é um filme exatamente “fácil” de assistir. O diretor Andrew Hyatt, que escreveu o roteiro ao lado de Terence Berden, escolheu mostrar a realidade do tempo de Paulo e de Lucas sem filtros. Assim, assistimos a mais de uma cena de pura crueldade contra os cristãos da época, com pessoas virando tochas humanas, literalmente, nas ruas romanas. Não por acaso, os cristãos viviam escondidos, procurando sobreviver. E havia um bocado de dissidência entre os irmãos e irmãs que viviam a mesma fé.

Como católica interessada em sempre buscar mais detalhes sobre a minha fé, eu já sabia sobre parte daqueles acontecimentos. De fato, as primeiras décadas após a morte de Jesus Cristo não foram nada fáceis. Os cristãos foram perseguidos, maltratados e mortos. Até hoje existem pessoas que morrem pelo mundo por professar a fé cristã – mas, evidentemente, em número muito menor do que naquela época próxima do início da fé cristã.

Assim, Paul, Apostle of Christ tem o mérito de mostrar muito bem aquele momento da história do cristianismo. Como foram valentes pessoas como Aquila (John Lynch) e Priscilla (Joanne Whalley), que lideravam uma comunidade cristã em Roma. Eles resistiram por muito tempo, mas aumentava cada vez mais a insegurança daquele grupo que eles protegiam. Parte das pessoas queria ficar ali, para dar alternativa para os pobres e os esquecidos de Roma, mas parte queria sair da cidade para conseguir sobreviver.

De fato esse era o contexto da época. Assim, Hyatt e Berden conta uma história que intercala esse resgate histórico e os ensinamentos de Paulo repassados para as comunidades cristãs através do médico Lucas, seu companheiro de tantas caminhadas. Muito especial, e emocionante mesmo – eu me emocionei, ao menos -, acompanhar a relação de irmandade entre Paulo e Lucas. Paulo, preso mais uma vez, sabendo que os seus dias estavam chegando ao fim, ainda se sentia “perseguido” pela própria consciência. Pela época em que ele próprio era um perseguidor de cristãos.

Lucas, por sua vez, foi convertido através de Paulo. E como um discípulo dele, procurava absorver o máximo possível dos ensinamentos do homem que se converteu ao presenciar Cristo em uma viagem. Como comentei antes, a comunidade cristã estava dividida na época. Não apenas sobre a questão de permanecer ou fugir de Roma, mas também sobre como comportar-se frente à tanta injustiça e assassinatos de cristãos.

Quando Paulo responde a um grupo dissidente, para mim, chegamos ao ponto alto do filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O próprio Lucas, frente à tanta violência – inclusive a morte de uma criança de quem todos gostavam -, também apresenta dúvidas, mas isso não acontece com Paulo. No melhor momento da produção, Paulo fala sobre a essência do ensinamento de Cristo: que o único caminho é o amor. E isso vale para todos, não apenas para quem gostamos ou para as pessoas com as quais concordamos.

O amor deve valer para todos, inclusive (ou especialmente) para aqueles que são diferentes da gente, para aqueles com os quais não concordamos ou para aqueles que nos fazem mal. Esse é maior desafio, sem dúvida alguma, do ser humano. Superar-se ao ponto de amar o inimigo e/ou quem lhe faz mal. Mas esse é o maior exemplo de Cristo, algo que Paulo compreendeu muito bem e soube propagar em pouco mais de 30 anos de evangelização.

Interessante também acompanhar como o livro Ato dos Apóstolos surgiu, através daquela experiência de Lucas visitando Paulo na prisão. Lucas percebeu – ou foi induzido por Deus – a importância de contar a história dos apóstolos enquanto Paulo ainda estava vivo. Sem essa iniciativa, não teríamos um dos livros mais importantes do Evangelho. Além disso, o filme resgata algumas das cartas de Paulo, aqui narradas pelo próprio apóstolo através de diálogos que ele teria tido com Lucas.

Claro que o filme não é 100% histórico. É uma narrativa sobre aqueles fatos que busca sintetizar os ensinamentos de Paulo e a presença marcante de Lucas na comunidade cristã. Independente do filme não ser 100% fiel aos fatos, para mim ele cumpriu com maestria o papel ao qual ele se propôs. Além de resgatar parte da história, os ensinamentos de um dos maiores apóstolos de Cristo e, por consequência, os próprios ensinamentos de Cristo, esse filme conta com um elenco diferenciado.

Um dos pontos fortes de Paul, Apostle of Christ é justamente a dupla de protagonistas. James Faulkaner como Paulo e Jim Caviezel como Lucas estão – me perdoem o trocadilho – divinos. Ambos interpretam com precisão papéis que são complicados. Mas eles humanizam os apóstolos e nos aproximam daquele momento histórico de forma impecável. Além deles, o elenco de apoio também faz um belo trabalho. Honestamente, não consegui ver nenhum defeito nessa produção. Encontrei sim uma bela história, muito bem narrada e que emociona.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Assisti a esse filme há umas duas semanas. Mas aí veio uma temporada de muito trabalho, Dia das Mães, e acabei conseguindo parar para falar de Paul, Apostle of Christ apenas hoje. Me perdoem se eu não tinha mais o filme tão “vivo” na minha lembrança do que se tivesse escrito sobre ele logo em seguida, mas tentei resgatar na memória os principais fatores que me fizeram dar a nota 10 para ele após tê-lo assistido.

Os três pontos altos do filme, para mim, são o roteiro de Andrew Hyatt e Terence Berden, que equilibra muito bem o resgate histórico com os ensinamentos de Paulo e de Cristo através das vozes de Paulo e de Lucas; o elenco da produção e a produção que faz um resgate histórico bastante interessante.

Do elenco, o grande destaque é mesmo o trabalho da dupla James Faulkaner e Jim Caviezel. Além deles, vale citar o belo trabalho de Olivier Martinez como Mauritius, o militar romano que é “desprestigiado” ao assumir a direção do presídio em que Paulo é colocado; Joanne Whalley como Priscilla, líder da comunidade cristã em Roma e que resiste a deixar a cidade; John Lynch como Aquila, parceiro de Priscilla e um líder dividido entre ficar ou sair de Roma; Yorgos Karamihos como o jovem Paulo – da fase em que ele perseguia os cristãos; Antonia Campbell-Hughes como Irenica, esposa de Mauritius e que cobra do marido, a todo momento, a cura da filha do casal; Alessandro Sperduti como Cassius, um dos líderes entre os cristãos do movimento que busca “revanche” e a tomada de armas contra os perseguidores romanos; Alexandra Vino como Octavia, uma das vítimas da violência romana; e Manuel Cauchi como Ananias, o homem que recebe Paulo e que o ajuda a conhecer melhor a Cristo.

Como comentei antes, o resgate histórico de Paul, Apostle of Christ é um dos pontos fortes da produção. Por isso vale bater palma para diversos elementos técnicos dessa produção, começando pela direção de fotografia de Gerardo Madrazo; o design de produção de Dave Arrowsmith; a direção de arte de Ino Bonello; a decoração de set de Craig Menzies; os figurinos de Luciano Capozzi; a maquiagem de Lara Licari; o departamento de arte de Jon Banthorpe, Cesco Bonello, Sven Bonnici, George Farrugia, Dylan Gouder, John Gouder e Matthew Pace. Além deles, vale citar a trilha sonora de Jan A. P. Kaczmarek e a edição de Scott Richter.

Paul, Apostle of Christ estreou no Canadá, na Espanha, nas Filipinas e nos Estados Unidos no dia 23 de março de 2018. A produção não participou de nenhum festival de cinema ou ganhou qualquer prêmio até o momento.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 19 críticas negativas e 14 positivas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 42% e uma nota média de 5,5. No site Metacritic, o filme registra o metascore 49, resultado de sete críticas medianas, duas positivas e uma negativa.

De acordo com o site Box Office Mojo, Paul, Apostle of Christ teria custado cerca de US$ 5 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, US$ 17,5 milhões. Nos outros países em que o filme estreou, ele teria feito outros US$ 3,4 milhões. Na soma, o filme teria faturado cerca de US$ 20,9 milhões. Ou seja, apesar das críticas negativas, o filme está conseguindo um bom lucro.

Paul, Apostle of Christ é uma produção 100% dos Estados Unidos. Assim, esse filme atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme que funciona à perfeição para atender o propósito estabelecido. Paul, Apostle of Christ tem ótimos atores, um roteiro muito competente e conta uma história potente para todos os cristãos. Assim, cumpre o seu papel com esmero e sem necessidade de retoques. Claro que essa conclusão tem tudo a ver com a minha própria fé. Por isso, como eu disse na introdução, assista a esse filme apenas se você realmente tem apreço pelo tema. Se não, certamente o efeito desse filme será muito diferente. Ainda que eu ache que, independente da fé da plateia, todos vão concordar que essa produção é competente – mas, talvez, para quem não compartilha da mesma fé, ela não mereça a nota acima. Mas, para mim, o filme merece.

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The Physician – Der Medicus – O Físico

 

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Não falta gente que volta e meia encontra motivos para reclamar da vida hoje em dia. E ainda que muitas queixas tenham uma certa razão de existir, só quando olhamos para o passado fica evidente como avançamos bastante como espécie até agora. Apesar dos pesares. The Physician é um destes filmes históricos que mostram como já vivemos tempos bem tenebrosos e atualmente difíceis até de acreditar que aconteceram, mas que ocorreram de fato. Apesar de uma narrativa um pouco lenta, eis um filme interessante pela mensagem e pelo resgate de uma época que, para a nossa sorte, foi superada.

A HISTÓRIA: Começa na Europa, durante a Idade Média, quando a “arte da cura desenvolvida durante a época dos romanos” praticamente caiu no esquecimento. Não existem médicos, nem hospitais, apenas “barbeiros” com poucos conhecimentos que viajam atendendo pessoas. Naquela mesma época, na outra “ponta do mundo”, a ciência médica floresce. Na Inglaterra do ano 1021, crianças trabalham em minas junto com adultos em troca de pão. Uma destas crianças se chama Rob Cole (Adam Thomas Wright), que fica fascinado com a chegada do “barbeiro”/curandeiro (Stellan Skarsgard) no vilarejo em que ele mora com a mãe Agnes (Jodie McNee) e os dois irmãos, Anne (Lais Benjamin Campos) e Samuel (Aaron Kissiov). Mas quando a responsável pela família passa mal, Cole não consegue o socorro necessário.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Physician): A Idade Média não é chamada de “idade das trevas” por acaso. De fato a vida naquela época não era nada fácil. Primeiro, a regra predominante era “cada um por si”. Não havia muito espaço para generosidade – pelo menos não como a conhecemos hoje. Além disso, as comunidades de diferentes culturas viviam dificuldades incríveis, especialmente em termos de saúde, acesso à comida, educação e liberdade. Qualidade de vida era algo que poucos tinham – e era um termo que ninguém imaginava que um dia poderia existir.

Além disso, no início do século 12, como mostra o filme The Physician, havia uma disputa feroz pelo poder. Seja ele político, econômico ou de “domínio das almas”. O que, muitas vezes, era o mesmo. Há uma briga importante entre as distintas religiões e a ciência – especialmente, naquele tempo, com a vontade de algumas pessoas em fazer avançar a medicina.

Neste sentido, o roteiro de Jan Berger, baseado no romance de Noah Gordon, acerta no olhar detalhado para as principais religiões da época: cristãos, judeus e árabes em uma constante disputa por poder e, ao mesmo tempo, uma salutar  postura de respeito de suas próprias fronteiras. É neste cenário que conhecemos o valente Rob Cole, protagonista da história.

O garoto mostra talento mesmo quando era criança. Trabalhador em uma mina, ele conseguia levar pão para casa e ajudar a alimentar a mãe e os dois irmãos menores. Quando a mãe fica doente, ele tenta buscar socorro com o recém-chegado barbeiro que veio trazendo a promessa de resolver diversos problemas de saúde daquela comunidade – mas sempre males de “fácil” resolução, como dores de dente.

O problema do jovem Cole é que o padre local e os devotos da comunidade haviam chegado antes, e todos concordavam que o barbeiro era um curandeiro que não deveria estar ali. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na prática, ninguém fez nada para salvar a mãe do garoto, e o golpe fatal viria depois: a falta de generosidade dos cristãos locais chega ao ápice quando eles ficam com os irmãos mais novos e desprezam Rob. Isso porque os outros dois poderiam trabalhar por mais tempo e dariam menos “gastos” iniciais.

Que belo exemplo cristão, hein? Há quem argumente que aquela época era complicada e não tinha como ser de outro jeito. O argumento tem o seu fundo de razão, mas se sempre esperarmos a condição ideal para fazer o bem e exercer a generosidade, provavelmente esse momento nunca vai chegar. Mas bueno, avancemos na análise sobre a história.

De forma inteligente o roteiro não demora muito para avançar no tempo. Afinal, aquela infância de Rob Cole interessa apenas para sabermos a motivação do garoto para buscar a medicina e, com ela, ajudar as pessoas. E também para sabermos, claro, como ele vai parar sob a tutela do barbeiro. Interessante como o primeiro “mestre” de Rob não queria, na verdade, que o garoto seguisse os seus passos. Isso porque ele sabia como era difícil ir contra a Igreja – que, na época, queria ser a única detentora da “salvação” – papel que seria perdido, pelo menos no “mundo físico”, para a medicina quando ela avançou.

E como tantas pessoas que fazem bem uma determinada prática durante toda a vida, o barbeiro que adota Rob também tem dificuldade de acreditar que alguém poderá salvar-lhe a visão – quando ele fica com ela toda embaçada por causa de uma catarata. Ele sabe fazer isso, então acha difícil alguém fazer. É a velha descrença de quem acha que já sabe o principal da vida. Mas a vida está cheia de surpresas e de ensinamentos até o final.

Em The Physician o velho acaba cedendo, e aquela conquista de Rob em operar os olhos do barbeiro acaba sendo decisiva para o garoto se lançar para o desconhecido. Primeiro, ela admira o gosto pelo conhecimento dos judeus e a forma com que eles vivem em comunhão entre si. Depois, renega a própria fé para ir aprender com os árabes – naquela época os cristãos eram mortos ao atravessar a fronteira em direção ao Oriente.

Daí o filme agrega um elemento que acaba se revelando quase desnecessário. O romance entre Rob (desde a juventude vivido pelo ator Tom Payne) e a espanhola Rebecca (Emma Rigby), que está sendo protegida pela caravana que leva o protagonista por grande parte do deserto em direção ao seu destino final. Com tantos elementos interessantes no filme, os momentos de “climão” entre Rob e Rebecca fica descolado na história a maior parte do tempo. Apesar da atriz Emma Rigby ser linda, ela não tem o carisma de Tom Payne e a relação deles não empolga – algumas vezes apenas tira o ritmo da história.

O roteiro tem várias frentes que atacar quando Rob chega em seu destino final. Para começar, a falsa sensação de controle e de poder, com uma inveja mal-disfarçada, de Davout Hossein (Fahri Yardim). Conforme o tempo passa, os sentimentos mal-resolvidos do personagem vão acabar sendo decisivos para a virada na história. Isso porque o Shah Ala ad-Daula (Olivier Martinez) está sendo questionado pelos muçulmanos por causa de sua postura tolerante com outras religiões e pelo apoio que ele dá à ciência e à arte.

Novamente o jogo de poder entra em cena e será determinante para a história. Desta vez, o líder muçulmano é questionado pelos seus e traído por eles. Outro elemento interessante na chegada de Rob ao local é o fascínio que o conhecimento desperta no rapaz – e em todos os espectadores, já que o protagonista é bem convincente. Ali ele conhece o grande Ibn Sina (o sempre ótimo Ben Kingsley). Os dois tem uma empatia imediata. Ainda assim, parece um pouco forçada a forma com que o roteiro transforma um recém-chegado, ainda que muito dedicado Rob, como o pupilo favorito do mestre – acompanhando ele nas principais situações.

A parte mais tensa da história acontece quando os invasores seljúcidas – turcos de religião islâmica que gradualmente adotaram a cultura persa – provocam uma epidemia de peste negra na cidade comandada pelo Shah. O grupo liderado por Ibn Sina age rápido, mas eles só conseguem frear o número de mortes com a ajuda de Rob. Mesmo apostando muito na ciência, Ibn Sina sabia respeitar os limites impostos pelas religiões. E nenhuma delas, aparentemente, concordava com a abertura e o trabalho científico utilizando cadáveres. Rob não entende tal limitação e rompe estas regras.

Seria possível o avanço da ciência sem a quebra destes e de outros dogmas?  Certamente não. Eu sou favorável a todo e qualquer avanço da ciência, desde que eles sejam feitos seguindo a ética universal e que não tentem substituir Deus na vida das pessoas. Até porque eu não vejo que existam conflitos entre o uso da ciência para a cura e a fé que procura por valores que transcendem a matéria. E quando existe este conflito, as pessoas devem ter o livre-arbítrio para decidir que caminho seguir – e que nenhuma força externa se sinta superior ao direito inequívoco das pessoas decidirem sobre as suas próprias existências.

Dito isso, voltemos ao desenrolar do filme. Ele tem um bom ritmo durante o suspense e a ação provocada pela peste negra, exceto pelos momentos de romance um tanto deslocados. E depois, na reta final, interessante como a disputa de poder entre as vertentes mais ortodoxa e liberal dos árabes provoca retrocesso nos avanços dos científicos da época. O mesmo aconteceu com outras religiões e governos.

Achei especialmente interessante como mesmo frente ao inimigo Rob tem a coragem de professar a própria fé e declarar-se cristão. O problema é que o sacrifício que ele tinha feito antes serve como contra-testemunho. Finalmente a ousadia dele de romper com uma regra considerada inquestionável por todos os outros – inclusive pelo mestre Ibn Sina – salva a sua pele. E ele consegue começar a cumprir a missão que tinha clara em sua mente voltando para a Inglaterra. Bela história, ainda que o filme seja muito longo e tenha algumas partes dispensáveis.

NOTA: 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Caros leitores, esta semana foi complicada. Por isso decidi escrever a crítica acima e deixar as notas de pé de página para um outro momento. Prometo atualizar este espaço logo que possível. Até breve!

Apenas uma rápida reflexão: a postura de Ibn Sina em relação ao protagonista é o grande ponto divisor entre um grande mestre e um homem que aprendeu com a vida, como o barbeiro, mas que não nasceu para ensinar. Existe essa diferença. E ela reside, como Sina nos demonstra, na capacidade não apenas de estimular o jovem aprendiz a fazer bem o ofício que você domina mas, e isso é fundamental, ousar e surpreender o mestre com novos conhecimentos. Essa é a diferença entre quem sabe ensinar e a pessoa que até deseja fazer bem para a outra, mas que não consegue estimular o pupilo a crescer.

Agora retomando os comentários tradicionais… Da parte técnica do filme, gostei de muitos elementos. Para começar, apreciei a direção segura do alemão Philipp Stölzl. Ele não faz nenhuma grande ousadia, mas demonstra que sabe usar bem todos os elementos do cinema moderno nos momentos certos. Valoriza com planos abertos as belas paisagens ou cenários construídos com computação gráfica ao mesmo tempo em que valoriza os atores nas diversas sequências em que o trabalho deles deve ser visto de perto.

Com a ajuda do editor Sven Budelmann ele produz um filme dinâmico, fugindo das tradicionais tomadas do cinema europeu que levam mais tempo para serem concluídas. Fica evidente que a intenção dos realizadores deste filme é produzir uma obra fácil de ser digerida pelo grande público e no mercado internacional.

Este é apenas o quinto longa-metragem de Stölzl. Ele começou a carreira como diretor com um vídeo para a série de documentários Making the Video, em 1999. O primeiro longa dele veio três anos depois: Baby. Não assisti a nenhum outro filme dele. Me parece competente, mas lhe falta uma assinatura como realizador.

Ainda falando da parte técnica do filme, gostei muito da direção de fotografia de Hagen Bogdanski. Ele faz um ótimo trabalho independente da complexidade da cena – o filme segue com qualidade nos planos externos, internos, filmados de dia ou à noite.

Esta é uma grande produção histórica, cheia de detalhes e de locações. Para que o filme funcione, vários elementos precisam funcionar bem. Por isso vale destacar o ótimo trabalho de Udo Kramer no design de produção; o de Stefan Hauck, Samuel Jaeger, Anja Müller, Aziz Rafiq e Stefan Speth na direção de arte; o de Idriss El Gholb, Rakaa Mohamed, Mark Rosinski e Heike Wolf com a decoração de set; e o de Thomas Oláh nos figurinos. Muito bom também o trabalho da equipe envolvida com a maquiagem e liderada por Daniela Skala, assim como o trabalho do grupo responsável pelo departamento de som e liderado por Max Walter.

Do elenco, sem dúvida o destaque vai para Tom Payne. O ator tem carisma e sustenta bem a responsabilidade de fazer o protagonista. Gostei também do desempenho do sempre ótimo Ben Kingsley e do competente Stellan Skarsgard.

The Physician estreou em dezembro de 2013 na Alemanha e na Espanha. Depois o filme chegou aos cinemas da Ucrânia, da Polônia e da Macedônia. A previsão para a estreia no Brasil passou do final de junho para o final de setembro. Ou seja, esta produção estreou em poucos mercados até agora, e ainda não foi vista nos Estados Unidos. Por isso mesmo praticamente não teve repercussão relevante entre a crítica e o público.

Produção 100% alemã, Der Medicus, no título original, teve muitas cenas filmadas em seu país de origem. Berlim, Brandenburg e Cologne foram locais utilizados pela produção, assim como o Marrocos – certamente para as cenas no deserto.

The Physician é baseado no livro homônimo do escritor norte-americano Noah Gordon, conhecido por escrever obras históricas que contam a evolução da medicina assim como sobre ética médica, a Inquisição e a cultura judia. Nascido em 1926 em Worcester, no estado de Massachusetts, ele se formou como jornalista em 1950. De acordo com este artigo da Wikipédia e a página oficial do escritor, o livro The Physician, que inspirou este filme e foi lançado em 1986, faz parte de uma trilogia que conta a saga da família Cole. Além deste livro, que virou bestseller, ele lançou as obras Shaman (1992) e Matters of Choice (1996).

Esta produção foi indicada a cinco prêmios no German Film Awards mas, para a infelicidade dos produtores, saiu de mãos vazias da premiação.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para The Physician. Uma avaliação muito boa – e generosa para os padrões do site.

CONCLUSÃO: Filmes de época sempre são interessantes. Mesmo quando usam recursos muito batidos. The Physician não reinventa a roda em termos de produções deste tipo, mas também não deixa a peteca cair. Voltando para a Idade Média, uma das épocas mais tenebrosas da humanidade, este filme mostra como a crescente vontade de aprender e de oferecer ajuda para pessoas simples conseguiu quebrar a forte “ditadura” das religiões. Mais que fé, a questão da briga pelo poder era o que definia alguns dogmas. Vencidos com o tempo e a persistência, estes dogmas deram lugar aos avanços da medicina, foco central desta história bem contada. O filme sofre, contudo, por ser longo demais e lento em alguns momentos. Mas é bem feito.