Categorias
Cinema Cinema norte-americano Confessions Crítica de filme Movie

Be Kind Rewind – Rebobine, Por Favor

 

bekindrewind11

Por ironia, assisti duas comédias em seguida. A primeira, comentada há pouco, filmada na Alemanha. E esta segunda, Be Kind Rewind, com direção e roteiro de Michael Gondry, um dos franceses mais badalados de Hollywood – especialmente desde que filmou Eternal Sunshine of the Spotless Mind. Novamente Gondry acerta a mão ao dosificar as piadas em meio a uma forma de direção que funciona, equilibrando inovações narrativas e valorizando o trabalho dos atores. Para alguns, Be Kind Rewind pode ser visto como uma grande homenagem ao cinema como arte e ao antigo jeito de curtir os filmes – levando para a frente das telas uma videolocadora que ainda aluga fitas VHS e que não se importa em preservar em seu acervo filmes que praticamente não tem saída. 

A HISTÓRIA: Elroy Fletcher (Danny Glover) é o proprietário da videolocadora Be Kind Rewind onde, segundo suas histórias, teria vivido o ídolo do jazz Thomas “Gordo” Waller. Localizada na esquina de um antigo prédio, alvo da prefeitura para um projeto de modernização do bairro, a videolocadora é freqüentada por poucos clientes e por Jerry Gerber (Jack Black). Jerry é o melhor amigo de Mike (Mos Def), que cresceu trabalhando para Fletcher na videolocadora e que acaba ficando responsável pelo negócio quando o patrão sai de viagem. Por acidente, Jerry acaba apagando todas as fitas de vídeo da locadora. Para não serem descobertos, Mike e Jerry começam a fazer suas próprias versões dos filmes, o que acaba virando, posteriormente, uma alternativa para que eles não tenham que deixar o prédio.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Be Kind Rewind): A grande qualidade de Be Kind Rewind é a sua criatividade. Quem imaginou um louco como Jerry Gerber sendo eletrocutado em uma tentativa de sabotagem e, depois, apagando todas as fitas de vídeo da locadora cuidada pelo amigo Mike? Demais!!! E melhor ainda a “saída” para o problema… uma nova versão dos filmes para “enganar” as pessoas. Claro que ninguém é idiota e eles percebem que os autores dos filmes são os amigos Mike e Jerry que, aqui outra surpresa, se tornam os ídolos da galera. Muito boa a idéia do diretor e roteirista.

Achei o filme, por tudo isso, uma grande homenagem ao cinema e ao que os filmes nos provocavam antigamente. Sem ser saudosista, Michael Gondry brinca com o prazer que era buscar uma videolocadora antigamente, percorrer as filas das fitas VHS e encontrar alguma produção clássica ou menos conhecida – diferente das locadoras padronizadas de hoje, que tem dezenas de filmes “blockbuster” para alugar e pouquíssimas produções que não sejam de fácil saída no mercado. Como bem constata Fletcher em sua “pesquisa de mercado”, os empregados das locadoras de hoje em dia não precisam entender sobre filmes, ter conhecimento específico. Basta saberem localizar as seções na locadora e cuidar para que o cliente alugue o que ele deseja – nem que para isso seja preciso apenas fazer uma pesquisa no computador da locadora. 

Pode parecer besteira, mas perdi bastante do interesse em ir ao cinema depois que eles todos migraram para shopping centers e para grandes complexos de negócios. Tenho saudades dos cinemas que existiam em prédios específicos, que passavam filmes comerciais mas que, também, exibiam produções não tão óbvias. Mas enfim… temos que nos adequar ao que existe hoje em dia – e nem que essa adaptação passe por transformar nossa casa em cinema e, finalmente, escolher o que queremos ver.

Mas Be Kind Rewind não homenageia apenas aos velhos negócios que apostavam no amor de seus donos e empregados pelo cinema. O filme também mostra a importância do envolvimento das pessoas nas filmagens de uma produção. Literalmente com “uma idéia na cabeça e uma câmera na mão”, Jerry, Mike e Alma (Melonie Diaz) vão convencendo as pessoas a participarem de seus filmes – que acabam virando a nova sensação da cidade. Com uma criatividade e uma memória para lembrar dos filmes – aos quais eles não podem rever antes de fazerem suas “versões” – que beira ao absurdo, eles vão refazendo alguns dos filmes mais famosos da história do cinema. Não importa o gênero e nem o orçamento que resultou na qualidade dos originais. Todos eles rendem uma versão toda especial e que acaba tendo bastante procura entre os espectadores.

Bem filmado e com atores que fazem um trabalho bastante competente, Be Kind Rewind é carismático e, para os amantes do cinema, uma comédia curiosa. Pena que o filme tenha “adaptações” apenas de filmes estadunidenses – não vi nenhuma refilmagem de filmes europeus ou latinos, por exemplo. Mas ok, se entendem as razões para isso… se o filme quer ser reconhecido pelo grande público, ele deve fazer referências a filmes conhecidos mundialmente – e não existe berço melhor para isto do que Hollywood. 

O que me irritou um pouco no filme foi Jack Black e sua eterna interpretação do mesmo personagem. Não importa o filme em que ele esteja, a impressão que eu tenho é que ele está interpretando sempre uma única persona. Enfim… mas ele está engraçado, como sempre – ou seja, nada excepcional. Agora, o bom mesmo foi ver a Danny Glover e a Mia Farrow em cena. Ela interpreta Miss Falewicz, uma antiga amiga de Fletcher que vira a guardiã da videolocadora enquanto o amigo está fora. Gostei destes dois veteranos em papéis que, aparentemente, fizeram eles viverem bons momentos.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para mim, foi inevitável não lembrar do tempo da faculdade, quando eu cheguei a acompanhar um grande amigo, o Fernando, dirigindo alguns de seus curtas. Na época, também criamos um projeto que incentivava as pessoas a criarem seus roteiros e fazerem curtas… foi bem bacana. E a verdade é que para filmar produções bacanas não é preciso muito mais do que criatividade, uma boa idéia na cabeça e vontade de sair filmando. Por esse lado, o filme trouxe boas recordações. Sem contar os clássicos do cinema que ele vai “parodiando/homenageando” no caminho.

Alguns podem achar incrível, mas o filme concorreu a dois prêmios: Melhor Filme no Golden Trailer do prêmio homônimo e Melhor Ator no prêmio Black Reel – mas, no fim das contas, não ganhou nenhum dos dois.

Os usuários do site IMDb conferiram a nota 6,6 para Be Kind Rewind. Quase um empate técnico com a opinião dos críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes: eles dedicaram 82 críticas positivas para o filme, contra 39 críticas negativas (o que lhe garante uma aprovação de 68%).

Achei curioso que a atriz Kirsten Dunst estava negociando o papel de Alma, mas acabou pulando fora do projeto do dia para a noite… acho que ela teria se dado bem com aquela personagem. 

Na questão de faturamento, o filme não foi bem. A produção, que teria custado aproximadamente US$ 20 milhões faturou, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 11,1 milhões. Certamente ficou beeeeeem abaixo do esperado pelos produtores. 

Pessoalmente, adorei o termo “sweded” para designar uma “obra feita por encomenda”… algo vindo da Suécia só podia ser artístico, não é mesmo? hehehehehehehehe. Essa foi uma sacada genial. Agora, algo que eu não sabia é que este termo surgiu graças a decisão do governo da Suécia em permitir o livre intercâmbio de arquivos pela internet – o que anda na contracorrente de todas as linhas de “perseguição” à pirataria mundo afora. 

Além dos atores já citados, vale a pena comentar os desempenhos de Irv Gooch como Wilson, um mecânico que acaba virando integrante fundamental nas filmagens “suecadas” dos amigos em apuros; Sigourney Weaver em uma superponta como Ms. Lawson, a mulher que preserva os direitos autorais das grandes companhias e destrói o trabalho do pessoal da Be Kind Rewind; e Chandler Parker como Craig, o sobrinho “perigoso-maloqueiro” de Miss Falewicz.

Da parte técnica do filme, gostei especialmente do trabalho complicadinho da diretora de fotografia Ellen Kuras e da edição equilibrada de Jeff Buchanan. A trilha sonora de Jean-Michel Bernard também merece ser citada.

Certo que o filme pode ser meio sem graça em alguns momentos, mas há de se convir de que ele aproveita uma época genial para ser lançado. Acredito que nunca antes foi tão fácil para as pessoas, com celulares, câmeras de foto e de vídeo baratas e que filmam com qualidade, fazerem suas próprias versões “toscas” de filmes conhecidos. E a prova disto está no Youtube ou em outros sites do gênero. Dizem, inclusive, que Be Kind Rewind reacendeu um hábito que já existia nestes sites, de serem “lançadas” versões caseiras de alguns filmes de Hollywood. Boa sacada do diretor a respeito.

Falando em sacadas, gostei também do título do filme… não sei se todos que lêem este blog são do tempo da fita VHS, mas era engraçado ouvir, às vezes, as reclamações dos proprietários de algumas videolocadoras que ficavam indignados com as pessoas que não rebobinavam os filmes. O problema chegou a tal nível que, lá pelas tantas, eles começaram a cobrar multas de quem não rebobinava. hehehehehehe. Divertidos aqueles tempos. E eu confesso: tenho um verdadeiro acervo de fitas VHS em casa. Eu gosto delas – ainda que faz tempo que não veja a nenhuma. 😉

CONCLUSÃO: Um filme divertido sobre dois amigos que se deparam com um grande pepino nas mãos: manterem o negócio de uma videolocadora sem nenhum filme que preste no acervo. A solução para o problema deles é das mais criativas – e rende momentos de puro deleite para os fãs do cinema, com a “releitura” de alguns dos filmes mais bacanas e/ou famosos produzidos em Hollywood. Belo roteiro que esbarra, algumas vezes, na repetição e em interpretações um tanto “preguiçosas” – como a de Jack Black, que parece interpretar o mesmo personagem filme após filme. Mas no geral, achei uma boa diversão – superior às comédias que tenho visto ultimamente.