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10 Segundos para Vencer

O tempo passa e quem “não é visto, não é lembrado”. O Brasil tem alguns fenômenos sobre os quais falamos pouco. 10 Segundos para Vencer conta a história de um deles: Éder Jofre. O único brasileiro a conquistar o título de campeão mundial de boxe em duas ocasiões e em duas categorias diferentes. Um verdadeiro fenômeno sobre o qual praticamente não ouvimos falar. Isso diz muito sobre o Brasil e os brasileiros. Nesse sentido, 10 Segundos para Vencer nos faz pensar um bocado.

A HISTÓRIA: Abertura em preto e branco e o som de uma transmissão de rádio. Está difícil de sintonizar a estação. Surge a informação de que o filme é baseado em uma história real. Vamos para 5 de maio de 1973. Em Brasília, vai se decidir mais um título mundial da WBC. Agora, de peso pena. Para muitos, 10 segundos podem não significar grande coisa. Mas 10 segundos é tudo para um lutador.

Éder Jofre (Daniel de Oliveira) aparece deitado, olhando para cima, esperando a sua hora de lutar. A história volta para 1946, quando Éder é um garoto e acompanha, admirado, o trabalho do pai, Kid Jofre (Osmar Prado) como treinador e do tio, Silvano (Ricardo Gelli) como pugilista. Mal sabe o jovem Éder que ele vai seguir os passos do tio, mas superá-lo nos resultados para tornar-se um dos maiores pugilistas da história do esporte.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu só recomendo que continue a ler quem já assistiu a 10 Segundos para Vencer): Estou aqui na minha odisseia para colocar em dia os filmes que eu assisti nas últimas semana. Vi a esta produção nacional pouco depois dela estrear. Sempre amei o boxe. Lembro bem, de quando era criança e pré-adolescente, assistir às lutas que muitas vezes a TV passava no final da noite.

Acompanhei bem a carreira de Mike Tyson, por exemplo, antes dele surtar, e assisti a outros grandes nomes no ringue, como George Foreman e Evander Holyfield. Bons tempos em que era fácil assistir a grandes lutas de boxe no conforto do nosso lar. O que sempre me fascinou no boxe é que este é um esporte de garra, de técnica e de inteligência. Mas também de vigor físico, de resistência, de foco e de obstinação.

Todos nós conhecemos a história de Rocky Balboa, na série de filmes que fizeram a carreira de Sylvester Stallone. Mas o Brasil já teve o seu herói nos ringues. Pena que ele é pouco lembrado. Mas 10 Segundos para Vencer dá o merecido protagonismo para este herói brasileiro do boxe, Éder Jofre.

O filme segue a linha das produções que homenageiam o retratado. Ou seja, você não verá complexidade no roteiro de Thomas Stavros e Patrícia Andrade, que contaram com a colaboração de José Alvarenga Jr. e José Guertzenstein. Muito pelo contrário. O filme segue uma linha clássica de começar com um momento importante do homenageado para, depois, voltar atrás na sua história e contar os principais fatos da vida dele até chegarmos àquele primeiro momento novamente.

Acompanhamos, assim, a história de Éder Jofre desde que ele era um garoto, em 1946 – ele tinha, então, 10 anos de idade -, e até aquela decisão do seu segundo título mundial, em 1973. O foco da história é sempre a “responsabilidade” de Jofre de seguir o legado da família e de honrar o pai, o treinador Kid Jofre. O garoto quer orgulhar o patriarca e, ao ver que o tio não será capaz de fazer isso, ele assume essa responsabilidade.

Mas nada disso acontece sem dúvidas ou sem dor. Por um bom tempo, o jovem Éder quis seguir a carreira artística. Ele teve o apoio da mãe, Angelina (Sandra Corveloni), mas, naquela época – e ainda hoje, infelizmente -, as mulheres não tinham muita voz ou vez dentro da família. Assim, a personalidade marcante e “dominadora” de Kid se sobrepõem a do filho e à da mulher.

Mais que isso, quando o irmão mais novo Doga (Ravel Andrade) fica doente, Éder assume a responsabilidade de entrar no boxe para conseguir dinheiro para o tratamento do irmão. Segundo esta matéria interessante que conta um pouco da história de Éder Jofre, o pugilista se transformou em profissional em 1953, quando se tornou Campeão da Forja de Campeões.

A partir daí, ele não parou mais, se tornando Campeão Brasileiro dos Galos em 1958; Campeão Sul-americano dos Galos em 1960; Campeão Mundial dos Galos em 1960; Campeão Unificado dos Galos em 1962 e Campeão Mundial dos Penas em 1973. Realmente uma trajetória impressionante. Além de todos esses títulos, Éder Jofre é considerado como um dos melhores pugilistas de todos os tempos.

Em 10 Segundos para Vencer nós assistimos de perto o “background” familiar de Jofre, a sua ascensão e suas conquistas. Interessante como ele não se deslumbrou com a fama e com os títulos e, em certo momento da vida, quis parar com tudo para ter uma vida mais familiar com a esposa e os filhos. Está bem, no filme, a atriz Keli Freitas como Cida, esposa do protagonista.

Pensando nos dois, logo me lembro da ótima reconstituição de época feita neste filme. Especialmente os figurinos e a reconstituição da São Paulo dos anos 1960 foi incrível. Do elenco, todos estão muito bem, mas com destaque para Daniel de Oliveira e para Osmar Prado – especialmente Prado em uma interpretação incrível, com um sotaque paulistano acentuado e uma emoção que transborda a telona.

No filme, também acompanhamos um dilema interessante e que nem sempre está presente em filmes sobre grande atletas: o quanto o esporte de alto nível cobra da vida da pessoa. Sim, ela ama aquele determinado esporte. Sim, ela tem orgulho de representar a sua família e nação. Mas e tudo o mais da vida que ela abre mão para chegar ao auge, vale a pena? E depois de chegar ao auge, até quando fazer sacrifício para permanecer lá?

O interessante do exemplo de Éder Jofre é que ele nunca foi um deslumbrado com o que ele conquistou. Depois de conseguir se consagrar como campeão mundial, ele não quis permanecer nessa posição para sempre e fazer todos os sacrifícios que isso trazia. E ele estava certo. Há tempo para tudo, nessa vida. Para desfrutar dela e para fazer sacrifícios para um “bem maior”. Mas ninguém merece ser sacrificado a vida inteira. 10 Segundos para Viver faz uma ponderação interessante sobre isso.

Gostei da homenagem que fizeram para Éder Jofre. Mais pessoas precisam conhecer a sua história. Espero que o filme faça esse trabalho. Fez isso comigo, que fui atrás de saber mais sobre ele. Só achei que o filme perde em densidade ao abrir mão de falar mais sobre os dilemas do personagem. Afinal, todos temos os nossos dilemas e defeitos, mas nada disso aparece em 10 Segundos para Vencer.

Assim, o filme vale pela homenagem e pelo cuidado do diretor José Alvarenga Jr. pelos detalhes, assim como pelo trabalho dos atores principais. Sempre é bom assistir a filmes de grandes nomes do esporte. Especialmente dos brasileiros, tão pouco lembrados no cinema. Apenas por esses aspectos, vale assistir a 10 Segundos para Vencer. A história poderia ser melhor acabada e mais cheia de nuances, mas nós perdoamos a falta de camadas do filme por tratar-se realmente de uma homenagem.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Mais um belo filme nacional que eu assisto nesse ano. Fico feliz. Torço muito pelo cinema brasileiro – para além das produções de comédia escrachada. Que bom que estamos investindo também em outros tipos de produções, além daquelas feitas para levar um grande público ao cinema. 10 Segundos para Vencer faz parte de uma safra boa.

Gostei do trabalho de José Alvarenga Jr. neste filme. Ele tem uma direção segura e não deixa nada a desejar nas cenas das lutas de boxe – sem dúvida alguma, as mais difíceis de serem feitas. O diretor acerta também em valorizar a interpretação dos atores e a reconstituição de época, que é um outro ponto forte do filme. O diretor dá um bom ritmo para a produção, que não deixa a bola cair em momento algum e prende a atenção da audiência, apesar da história previsível e carregada demais de “homenagem”, até o final. Mais mérito do diretor do que do roteiro, sem dúvida.

Além de um bom trabalho de José Alvarenga Jr., 10 Segundos para Vencer merece destaque pelo ótimo trabalho na atuação de Daniel de Oliveira e de Osmar Prado. Eles são dois gigantes em cena. Além deles, vale comentar o bom trabalho de Sandra Corveloni, de Ravel Andrade, de Keli Freitas e de Ricardo Gelli. Em papéis menores, estão ainda Samuel Toledo e Christiano Torreão.

Entre os aspectos técnicos do filme, o principal destaque vai, sem dúvida, para a excelente direção de fotografia de Lula Carvalho; para os figurinos impecáveis de Marcelo Pies; e para a bela produção de design de Claudio Domingos. Também vale destacar a emotiva trilha sonora de Berna Ceppas. Não encontrei o nome de quem fez a edição do filme, mas esse foi mais um belo e fundamental aspecto da produção.

Vale indicar algumas matérias sobre Éder Jofre. Para começar, recomendo duas sobre como o pugilista se emocionou ao ver a sua história narrada em 10 Segundos para Vencer: esta da Globo e esta outra do Estadão. Depois, para quem gosta (ou gostava) de boxe, como eu, vale conferir esta outra matéria do site Melhor de 10 sobre 10 dos melhores atletas do boxe de todos os tempos – e com o nosso Éder Jofre fazendo parte desta lista. O bacana deste último site é podermos ver a cenas reais de lutas dos pugilistas. Bem legal.

Analisando especialmente essa lista do Melhor de 10, percebi algo que considero importante. No boxe, os “menos entendidos” sempre deram muito valor para os peso-pesados. Aí que Éder Jofre teve uma grande concorrência por atenção na sua época, já que ele era contemporâneo, entre outros nomes, de outro gigante do esporte: Muhammad Ali. Muito dos holofotes foram para Ali, naquela época. Além disso, claro, enquanto os americanos gostam de enaltecer os seus ídolos, a maior parte dos brasileiros não aprecia a mesma boa prática. Infelizmente.

10 Segundo para Vencer estreou no dia 23 de agosto de 2018 no Festival de Cinema de Gramado. Em circuito comercial, o filme estreou nos cinemas no dia 27 de setembro – assisti ele pouco depois.

No Festival de Cinema de Gramado, 10 Segundos para Vencer ganhou dois prêmios: Melhor Ator para Osmar Prado e Melhor Ator Coadjuvante para Ricardo Gelli. Prado mereceu. Está incrível no filme.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção. Nenhum outro site apresentou críticas sobre este filme.

10 Segundos para Vencer é uma produção 100% do Brasil. Por causa disso, ele passa a figurar na lista de filmes que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog – quando foram pedidos filmes feitos no Brasil para serem comentados por aqui.

CONCLUSÃO: Um filme bem feito, bem acabado, com ótima direção e reconstituição de época. 10 Segundos para Vencer conta a história de um grande ídolo nacional, mas pouco lembrado. O filme segue a linha das produções de “homenagem”, ou seja, com um mergulho apenas no lado “bacana” do personagem principal. Não vemos a todas as camadas ou mesmo à complexidade do protagonista. Apesar disso, o filme se mostra coerente com o seu estilo e muito bem conduzido. Sem dúvida alguma a história de Éder Jofre deveria ser mais conhecida. Vale assistir a 10 Segundos para Vencer como introdução para isso.

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Somos Tão Jovens

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Um filme planejado, em todos os detalhes, para agradar a uma legião de pessoas. Somos Tão Jovens não traz nenhuma novidade para os fãs de Renato Russo e da Legião Urbana, que conhecem cada detalhe da história do ídolo e da banda e vão perceber algumas “licenças poéticas” na produção. Mas para mim, que sou uma destas fãs, este filme revelou-se um verdadeiro alívio e uma revisita interessante ao passado. Como o próprio ator Thiago Mendonça, que interpreta a Renato Russo definiu, na pré-estreia da produção, na noite de quarta-feira, Somos Tão Jovens é um “filme de turma”. Que não lembra, muito, para meu alívio, a Malhação. Mas que tem o espírito da amizade como o seu principal foco. No fim das contas, o que fica é a poesia e a força das músicas do Aborto Elétrico, do Trovador Solitário e da Legião. Por isso mesmo, este filme funciona.

A HISTÓRIA: Várias fotos de Renato Russo, desde a infância, até a adolescência, passando por Brasília e o Brasil que se despedia da ditadura e dos tempos de mercado fechado. Logo após a vinheta, que termina com as assinatura de Renato Russo e a famosa expressão “Força sempre”, mergulhamos em imagens reais e históricas de Brasília. A produção é ambientada na capital federal entre 1976 e 1982. Naquela cidade, vemos a um Renato Russo (Thiago Mendonça) empolgado, que pedala em uma bicicleta com um violão nas costas e o uniforme do Colégio Marista sentindo o ar passar pelo seu rosto e entrando em seus pulmões. Até que ele cai e é levado para o hospital. Lá, os pais de Renato Manfredini Jr., Renato (Marcos Breda) e Carminha (Sandra Corveloni) descobrem que o filho foi operado e ganhou três pinos na perna por ter epifisiólise. A partir daí, conhecemos a história da transformação de Manfredini Jr. em Russo, e da formação de várias bandas naquele cenário de juventude entediada e inspirada no movimento punk. Eles criariam grupos que impulsionariam o Rock Brasilis, com a Legião Urbana como o seu principal expoente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Somos Tão Jovens): Enquanto esperava para entrar no cinema, eu tive medo. Ao ver a um dos cartazes do filme, pensei: “Será possível que transformaram a história controvertida de Renato Russo e seu início na música em um capítulo estendido de Malhação?”. Na foto do cartaz, Mendonça aparece cantando em alto e bom som cercado por jovens que parecem ter sido escalados para uma propaganda de refrigerante.

Depois, dentro da sala de cinema, esperando pela inédita transmissão de um lançamento de filme nacional simultâneo em nove cidades do país começar, ouvi parte da trilha sonora da produção. Percebi que Mendonça, de fato, tinha um tom parecido com Renato Russo. Mas, claro, não era ele. Mesmo esforçado, Mendonça não tinha a potência vocal ou as nuances da voz do ídolo sensível e atormentado. O que me restava era esperar. Para ver o tamanho do desastre quando o filme começasse.

Para a minha grata surpresa, Somos Tão Jovens não é um desastre. Pelo contrário. Apesar de várias licenças poéticas e de tornar a história mais leve do que ela realmente foi, esta produção dirigida com muita inteligência por Antonio Carlos da Fontoura se mostra bastante honesta e com um propósito louvável: o de homenagear, segundo palavras do próprio diretor, Renato Russo e aquela turma que inesperadamente revolucionaria o país a partir de Brasília.

E é exatamente isto que Somos Tão Jovens faz. Uma homenagem que, como qualquer produto com esta característica, ignora os pontos polêmicos e controversos e se centra apenas na parte bonita e heróica da história. Não por acaso, a família Manfredini foi consultada e serviu como consultora para esta produção. Assim como diversos amigos de Renato Russo e integrantes das bandas que formaram o cenário do Rock Brasilis.

Na apresentação do tapete vermelho no Cine Odeon, na noite do dia 24, quando o filme teve pré-estreia em 12 salas de cinema do país com transmissão ao vivo direta do Rio, enfatizaram a data como um encontro para “comemorar o movimento cultural” surgido no final dos anos 1970 em Brasília.

Somos Tão Jovens busca contar a origem deste movimento. Como as principais figuras do rock nacional se conheceram, se relacionaram e montaram bandas como Aborto Elétrico, Plebe Rude, Capital Inicial, Dado e o Reino Animal e Legião Urbana. Estas foram as únicas bandas citadas na produção, mas que representaram todas as demais, como Paralamas do Sucesso (Herbert Vianna, interpretado por Edu Moraes, aparece em dois momentos na produção, mas sem citar a banda), Caos Construtivo, Blitz 64, Vigaristas de Istambul, XXX, Escola de Escândalo, entre outras.

A maioria daquelas bandas, que trocavam de integrantes quase como quem troca de roupa, não tinha qualidade ou se levava o suficientemente a sério para persistir no caminho. O que torna a figura de Renato Russo ainda mais impressionante. Ele poderia ter apenas “curtido” um tempo aquela transgressão, ter feito barulho e ter mudado de direção, como foi sugerido por seus pais. Mas não, insistiu em fazer música e mudar a vida de tanta gente com poesia e atitude. A persistência dele e dos irmãos Fê e Flávio Lemos são bem exploradas pelo filme de Fontoura.

O diretor paulistano de 74 anos, idade completada em janeiro deste ano e com uma filmografia que inclui documentários, curtas e filmes de diferentes gêneros, soube conduzir muito bem esta produção. Ele valorizou o trabalho dos atores, manteve a câmera nervosa nos momentos em que ela deveria seguir esta linha – especialmente nas festas e nas apresentações das bandas – e procurou belas cenas assim que possível. Há sequências memoráveis, embaladas por uma ótima trilha sonora – e haveria melhor do que as letras do Renato Russo? – e com a ajuda fundamental do diretor de fotografia Alexandre Ermel, que captou muito bem todas as cores do dia e da noite das cidades pelas quais a equipe do filme passou.

O roteiro foi muito bem escrito e consegue o propósito de qualquer realizador: faz as pessoas rirem e também se emocionarem. Percebi isso na sala de cinema, na pré-estreia do filme. Ainda que tenha me incomodado um pouco o fato de que as pessoas riram muito mais do que deveriam – e em momentos em que o propósito não era esse, como quando Renato Russo aparece mal por causa da morte de John Lennon.

O texto de Marcos Bernstein, escrito com a colaboração do diretor Fontoura e de Luiz Fernando Borges e Victor Atherino, tem ritmo, busca traçar um rápido retrato das contradições de Renato Russo, abre espaço para alguns personagens secundários daquele cenário de rock adolescente e, segundo o próprio Fontoura, trata do “rito de passagem” do Renato Manfredini Jr. para o ídolo Renato Russo.

Os fãs de RR e da Legião Urbana não vão assistir nada de novo. Pelo contrário. Vão perceber, aqui e ali, algumas “licenças poéticas” dos roteiristas que poderão desagradar aos mais fanáticos. Há vários episódios que podem ser questionados, mas eu destacaria dois, em especial: o acidente de bicicleta que começa o filme e que seria a razão para Renato e sua família descobrirem que ele tinha epifisiólise, e a primeira ruptura entre Fê Lemos e RR que teria colocado fim ao Aborto Elétrico.

De fato, RR foi diagnosticado com epifisiólise, teve três pinos colocados na perna e passou muito tempo em casa, sem poder sair do quarto. Depois de ficar na cama por seis meses, ele teria ficado outros seis meses em uma cadeira de rodas antes de ficar outros seis andando com muletas. Evidentemente que alguém que tinha tido a cartilagem da perna dissolvida pela doença não poderia andar de bicicleta, correto? A imagem inaugural do filme é muito bonita, e emblemática, mas não poderia ser mais fora da realidade. E outro detalhe: de acordo com o roteiro, ela acontece em 1976 mas, na verdade, a descoberta ocorreu um ano antes, quando RR tinha 15 anos.

Depois, chega a incomodar a explicação sobre a primeira ruptura do Aborto Elétrico. Segundo o roteiro de Somos Tão Jovens, RR bebeu o dia inteiro por causa da morte de John Lennon. Ao chegar bêbado para uma apresentação com o Aborto Elétrico, ele foi confrontado por Fê Lemos. No início do show, ele erra a música Veraneio Vascaína, o que faz Lemos atirar uma baqueta nas costas do vocalista, que para o show anunciando o fim da banda.

Segundo a biografia de RR escrita por Arthur Dapieve, a história foi bem diferente. Primeiro, que o tal show na cidade satélite de Cruzeiro Velho teria ocorrido no dia 8 de dezembro de 1981, um ano depois da morte de John Lennon. Depois, RR teria se atrapalhado com Veraneio Vascaína no meio do show, e não no início. Ele também não teria abandonado a apresentação logo depois de ter recebido a baqueta. O Aborto Elétrico tocou até o final, e não houve discussão no palco.

Estes são apenas dois pequenos exemplos do quanto Somos Tão Jovens não se preocupou tanto com os detalhes da história real. O objetivo do filme era outro. Contar a história menos conhecida de Renato Russo para todos aqueles que não conhecem todos os detalhes. Ajudar os pais dos fãs daquela época e, principalmente, os seus filhos, que cresceram nos últimos 17 anos, período sem Renato Russo, a entender como tudo surgiu. De quebra, temos um pouco do cenário do país no final dos anos 1970 e início dos anos 1980 sob uma ótica pouco explorada no período, o da juventude.

Além das licenças poéticas do roteiro, admito que me incomodei um pouco com o politicamente correto exagerado da produção. Ela suaviza os dilemas e as inquietudes da época, mostrando algum álcool e maconha aqui e ali – mas muito, muito menos do que realmente foi consumido. Renato Russo aparece bebendo pra valer em apenas um dia – aquele em que, supostamente, John Lennon morreu. Mas o fato é que ele bebia doses cavalares com muito mais frequência. Um filme que procura respeitar tanto a família e a memória de RR se permitiu mostrar, apenas, esta fragilidade em um “dia especial”. Mas nem sempre eles foram necessários para que RR passasse dos limites.

Também senti falta do filme mostrar pelo menos um beijo gay. Afinal, por que o Renato Russo de Somos Tão Jovens pode ser mostrado na cama com a personagem ficcional Aninha, dando um educado beijo na boca dela, e não pode fazer o mesmo com Carlinhos (Antonio Bento)? Me parece que os realizadores seguiram a mesma teoria das novelas produzidas no país, de que o brasileiro ainda não está preparado para um beijo gay. Será mesmo? E quando, finalmente, estaremos preparados a conviver pacificamente com todas as nossas diferenças? Respeitando todas as pessoas, como pedia o próprio RR?

Tudo isso deixa ainda mais evidente que Somos Tão Jovens procurou ser uma grande homenagem a RR. Não lembra em quase nada, por isso mesmo, a sua vida real. Porque, afinal de contas, a história verdadeira do ídolo é cheia de controvérsias, de muitos altos e baixos e de uma parte triste e complicada que muita gente não quer enxergar. Mas este conhecimento da complexidade do ídolo só pode fazer bem. Ajuda a perceber a complexidade de todos nós e da própria vida. Somos Tão Jovens seria um filme adulto, se ousasse entrar nesta seara. Mas não. Ele é, de forma objetiva e planejada, um filme adolescente. Com toda a sua inocência, espírito naif e força transformadora.

No fim das contas, todas as licenças poéticas da produção e sua falta de ousadia pouco importam. O que fica, realmente, é a homenagem para a obra de Renato Russo, desde os tempos do Aborto Elétrico, passando pelo Trovador Solitário e até o início da Legião Urbana.

O filme dá bastante espaço para as músicas dele, bem interpretadas pelos atores que ficaram quatro meses em convivência diária e conseguiram, neste período, desenvolver covers bastante honestos dos ídolos nacionais. A força da dedicação deles, especialmente de Thiago Mendonça, que emociona na interpretação de RR, carregando o filme nas costas, resulta em músicas bem executadas e potentes. Mendonça não tem a potência vocal de RR, mas faz um belo trabalho. E os demais lhe seguem bem. Somos Tão Jovens é tão bom exatamente por isso. Porque fala de amizade, coragem, foco em objetivos ousados e de uma obra que segue inspiradora. Mesmo que o tempo tenha passado, a obra de RR e de seus colegas segue atual.

Da minha parte, como uma fã original da Legião Urbana e de Renato Russo – destas que ganhou ou comprou os discos originais, antes deles serem remasterizados, e que sempre buscava uma camiseta nova da banda nas lojas de discos -, me senti aliviada no final de Somos Tão Jovens. Não estragaram a história, transformando-a em uma releitura da origem de Renato Russo sob a ótica de uma produção a la Malhação. Ao mesmo tempo, me emocionei ao me transportar no tempo, resgatando sentimentos de um passado que ficou em seu devido lugar. Apesar da música de RR seguir sempre fazendo sentido. E ouví-la em alto e bom som, no cinema, foi gratificante. E será para você também.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O cinema nacional está preocupado com a pirataria. Na pré-estreia de Somos Tão Jovens, todas as pessoas tiveram que sacar os seus celulares e smartphones para que os aparelhos fossem colocados em pacotes para serem lacrados. Quando chegou a minha vez, perguntei se a medida era para evitar que as pessoas tuitassem durante a produção. Brinquei se era para evitar que elas contassem o final do filme.

Apesar da brincadeira, de verdade, eu não tinha pensado que a medida era para evitar que alguém filmasse dentro do cinema e alimentasse a pirataria. Sei lá, vai ver que é porque eu tenho um celular dos antigos, incapaz de filmar qualquer coisa. Ou porque eu jamais pensaria em algo assim. Me surpreendi quando, antes da transmissão ao vivo do Cine Odeon começar, os organizadores pediram para ninguém usar o celular no cinema para evitar filmagens ou reproduções vetadas. Santa inocência, Batman!

Achei muito interessante a iniciativa da Imagem Filmes, da Fox, RioFilme, Canto Claro e da Petrobras, que apresentam Somos Tão Jovens, em promover uma pré-estreia em nove cidades do país na noite de quarta-feira com uma transmissão ao vivo simultânea do evento promovido no Cine Odeon, no Rio de Janeiro. Foi bacana por oferecerem o mesmo conteúdo de informações para públicos de diferentes locais do país. Espero que este exemplo seja seguido em outros lançamentos do cinema nacional.

O ator Thiago Mendonça dá um show em Somos Tão Jovens. Ele tentou emular não apenas a voz, mas a atitude e os trejeitos de Renato Russo. O perigo era grande dele ter uma interpretação caricatural. Mas, na minha análise, ele conseguiu flertar com a caricatura e ignorá-la de forma inteligente.

Mendonça se entregou ao personagem, fazendo o público rir e se emocionar. Carrega, como eu disse antes, o filme nas costas. Com uma ajuda importante Laila Zaid, que dá um show como Ana Cláudia, a personagem ficcional que incorpora muitas amigas reais de Renato Russo em uma única persona. Tanto Mendonça quanto Zaid tem carisma e seguram bem os seus respectivos personagens. O mesmo não pode ser falado sobre outros atores e não-atores que aparecem em papéis menores e que não tem o mesmo destaque. Mas eles conseguem o fundamental: se sair bem na hora de formar uma banda e tocar pra valer no filme. Afinal, é a música o que realmente importa na produção.

No tapete vermelho da pré-estreia do filme, Laila Zaid destacou como o elenco viveu intensamente a experiência. No blog do filme, é possível saber que o trabalho de filmagem começou em maio de 2011 e que exigiu quatro meses de convivência diária do elenco principal. Zaid disse que a sua personagem “centra várias meninas que passaram pela vida de Renato Russo” e que ela fez um trabalho de mergulho intuitivo, seguindo os passos de Mendonça e “colando” em sua interpretação. Na opinião da atriz, que disse que é de uma geração posterior ao sucesso da Legião, faltam pessoas como RR atualmente, que façam crítica social.

Depois de Laila Zaid, foi a vez de Fontoura falar sobre o filme. O diretor disse que a produção homenageia Renato Manfredini Jr., um rapaz que saiu de uma quadra de Brasília para se tornar “um mito eterno do Brasil”. Ele disse que a Legião Urbana é universal, o equivalente a um The Beatles brasileiro. “Todo mundo gosta da Legião”, enfatizou.

Fontoura justificou a escolha pelo começo da carreira do ídolo afirmando que tratar da vida inteira de Renato Russo, em um filme, ficaria “muito corrido”. Além disso, ele disse sempre ter se interessado por começos, e que achou interessante contar o rito de passagem e a história de como Renato Manfredini Jr. “inventou” o Renato Russo. Finalmente, o diretor confirmou que chamava Thiago Mendonça de Renato, porque, afinal de contas, ele era o RR.

Bem vestido, Thiago Mendonça foi o terceiro a falar no tapete vermelho. Ele brincou que se inspirou no The Killers para escolher o terninho com o que foi na festa de lançamento do filme. Mendonça destaca a capacidade de Renato Russo em “associar a delicadeza da poesia com a força do rock”. Afirma que o país continua uma vergonha, como na época em que o filme é ambientado, e que é preciso ter mais gente com atitude como RR.

Mendonça destaca que a obra de RR e da Legião permanece, e que ele só acreditou que tivesse um timbre parecido com o do ídolo após a aposta e a confiança do assistente de direção musical Fernando Morello, que também atuou na preparação vocal e nos arranjos do filme, e do diretor musical Carlos Trilha. Para o ator principal deste filme, cantar significa “coragem e muita doação”. Ele destacou que Somos Tão Jovens é um “filme de turma”, e que incentiva o “do it yourself”, lema do punk que significa “faça você mesmo”.

Na sequência, o ator Cauã Reymond aparece em cena, dizendo que não era tão próximo da Legião, e sim de uma geração que acompanhou mais Caetano Veloso e Lulu Santos. Ele admitiu que estava ali por causa de uma parceria com a Imagem Filmes, que vai coproduzir o seu próximo filme, Língua Seca, um “road movie e thriller de ação”. Não disse nada demais, apenas que acredita nesta nova fase do cinema nacional, que poderá logo andar por suas próprias pernas, sem tanto financiamento, e ótimas produções que custam entre R$ 800 mil e R$ 2 milhões. Mesmo sem falar nada demais sobre a Legião ou RR, Reymond arranca reações emocionadas de parte da plateia feminina.

Dado Villa-Lobos e Nicolau, seu filho, surgem na sequência para falar como o jovem interpretou o próprio pai no filme. Nicolau brinca que teve 25 anos de laboratório em casa para saber como assumir o papel de Dado, por isso não precisou pedir dicas ou se informar sobre o período do início de tudo, em Brasília. Ele apenas pediu algumas dicas de música e para tocar guitarra, já que tudo foi “a vera no filme” – ou seja, todas as músicas que aparecem sendo executadas na produção, de fato, foram tocadas pelos atores que, segundo Nicolau, saiam das filmagens e iam para casa ensaiar aquelas músicas. Para Dado, é sempre muito bom prestar atenção nos filhos, e a sua geração de filhos teria produzido “muita coisa positiva”. A mensagem do filme, segundo Dado, é que os jovens devem juntar os seus amigos, sair de casa e fazerem alguma coisa. Para ele, Renato era “maluco, transgressor e agregador”.

Em seguida, entrou em cena Marcelo Bonfá e Conrado Godoy, que lhe interpreta na produção. Godoy explica que é amigo de João, filho de Bonfá, há muito tempo, e que eles tiveram muito material – desde fotografias até reportagens e muito material de vídeo e áudio – para consultarem quando começaram a trabalhar no projeto. E que isso foi fundamental para a imersão nos personagens e naquele tempo. Bonfá comentou que é bom rever aquele período, passado tanto tempo, porque eles viveram um “momento muito sério” na adolescência, quando tudo era “muito sério”. O músico explicou que o seu filho, João, inicialmente iria interpretá-lo, mas que ele não pode porque teve problemas na época. Godoy então comentou que o amigo achou bom que ele fizesse o papel do pai, e teria afirmado: “Melhor você do que alguém que eu não conhecesse”.

O ator Bruno Torres, que interpreta a Fê Lemos, possivelmente o maior papel depois de RR e Aninha, destacou o tamanho do lançamento de Somos Tão Jovens, que chegará aos cinemas com 600 cópias. Ele também disse que por “Renato ser um domínio público da sociedade, ele precisava ter um filme” como esse, porque ele conta uma história que as pessoas aindam não sabem a respeito do ídolo. Meia verdade, eu diria. Parte das pessoas não conhecia esta história. Torres disse que conversou com Fê Lemos por telefone, para saber de alguns detalhes da época, e que esteve várias vezes na casa dos pais dele.

Em seguida, apareceram em cena Carmem Teresa Manfredini e a atriz Bianca Comparato, que interpreta a irmã de Renato Russo no filme. A jovem intérprete disse que trocou muitas ideias com Carmem, que foi uma das idealizadoras do projeto, e que este contato lhe deu muita segurança para saber que eles estavam seguindo o caminho correto. Carmem disse que a atriz se saiu muito bem ao mostrar como ela “enchia o saco” do irmão mais velho, que era um verdadeiro exemplo para ela – que também é cantora.

Na sequência das entrevistas ao vivo, a plateia que viu a pré-estreia assistiu a um vídeo tipo trailer que apresentava a essência do projeto. Finalmente, os discursos finais, com destaque para a fala da produtora Letícia Fontoura, esposa do diretor, e que agradeceu ao apoio da família Manfredini, que esteve ao lado dos realizadores durante todo o tempo. Ela destacou, também, a “garra e a perseverança” de Fontoura.

Somos Tão Jovens envolveu uma equipe imensa. Apenas uma terceira parte – algumas dezenas – apareceu no Rio de Janeiro, no evento do Cine Odeon, segundo Fontoura. Dois anos depois das filmagens começarem, em Brasília, o filme chega ao público. E tenho certeza que fará muito sucesso. Porque tem méritos para isto.

Eu gostei do roteiro de Bernstein, apesar daquelas “licenças poéticas” citadas anteriormente. Mas ele escreveu um texto inteligente, engraçado, com algumas sacadas muito bacanas. Bernstein e Fontoura souberam escolher os momentos certos de fazer rir, emocionar, e inserir as canções de RR não apenas em apresentações na telona, mas também em momentos de intimidade do ídolo. Bom trabalho.

Thiago Mendonça faz um trabalho excepcional. Dos atores secundários, além do carisma de Laila Zaid, destaco a segurança e tranquilidade nas interpretações dos veteranos Sandra Corveloni e Marcos Breda, como os pais de RR, e a interpretação emocionada de Sérgio Dalcin como “Petrus”, apelido para André Petrorius, o filho do embaixador da África do Sul no Brasil que RR achava parecido com Sid Vicius e com quem ele formaria o Aborto Elétrico.

Entre as ausências deste filme, e que não são poucas, achei muito estranho a produção ignorar completamente a figura de Renato Rocha, conhecido também como Negrete ou Billy. Ele era conhecido da turma da Colina e formaria o quarteto que levaria a Legião para shows fora de Brasília e gravaria os primeiros CDs da banda. Ico Ouro Preto até aparece na história, mas praticamente some no filme – e ele também teve um bocado de protagonismo na turma.

Outros atores que vale citar: Daniel Passi como Flávio Lemos; Ibsen Perucci como Dinho; Olivia Torres como Gabi – aparentemente uma das poucas amigas que entendia o RR; Kotoe Karasawa como Suzy; Nathalia Lima Verde como Helena, namorada de Dinho; Rene Machado como Ico Ouro Preto; e Leonardo Villas Braga como Hermano Vianna, que colocaria a Legião na estrada. A maioria deles aparece pouco, quase em pontas.

Por ser um filme com alta carga musical, é de tirar o chapéu para Carlos Trilha, responsável pela direção musical. Trilha conheceu muito de perto Renato Russo, com quem trabalhou na Legião Urbana e como produtor de seus discos solo. Ninguém melhor para assumir esta função em um filme com este propósito.

Da parte técnica de Somos Tão Jovens, vale também destacar o belo trabalho de direção de arte de Waldy Lopes Jr e os figurinos de Verônica Julian.

Não sou de assistir filmes uma segunda vez. Algumas vezes abro excessões, especialmente depois de muito tempo após ter assistido a uma produção pela primeira vez. Mas, no caso de Somos Tão Jovens, eu o assistiria novamente no cinema logo.

Meus bons leitores deste blog, com Somos Tão Jovens eu iniciou um período de críticas sobre filmes brasileiros. Estou atendendo a um pedido de vocês, que votaram na enquete aqui do blog para que eu dedicasse um tempo para os filmes nacionais. Então vambóra! Estou apenas começando a lista com Somos Tão Jovens.

Muito bom o trabalho da equipe envolvida com este filme em todos os detalhes. E para a minha sorte, apenas um dos três cartazes que eu vi do filme passavam a ideia de algo no estilo Malhação. Os outros trabalhos passam mais a ideia de um filme menos enlatado. Ainda bem.

Gostei muito do site criado para falar do filme. Especialmente pelo formato de blog. Há muita informação bacana por ali. Vale conferir.

Até a tarde de hoje, por ainda não ter estreado em circuito comercial, Somos Tão Jovens não apresentava nota no site IMDb.

CONCLUSÃO: Um filme politicamente correto sobre uma galera que rompeu barreiras, padrões e que bradou a transgressão em um país que saia da ditadura militar e que clamava por mudanças. Somos Tão Jovens foi planejado para agradar a dois públicos principais: o dos fãs de Renato Russo e da Legião Urbana, ávidos por assistir a história de seus ídolos na telona; e o da nova geração adolescente que não conviveu com esta história enquanto ela acontecia. O diretor Antonio Carlos da Fontoura conduz a história com inteligência, valorizando o trabalho dos atores, que conviveram intensamente e de forma comunitária por mais de um mês.

O resultado é que eles conseguiram imergir nos personagens baseados em ídolos reais e as pessoas de seu entorno. Os atores que interpretam os integrantes das bandas Aborto Elétrico e Legião Urbana, em especial, conseguiram fazer covers bem decentes. Um ponto fundamental para o filme dar certo. No fim das contas, descontadas as licenças poéticas e o excesso de politicamente correto, Somos Tão Jovens é tão bom porque valoriza o que deveria valorizar: o trabalho diferenciado, ao mesmo tempo corajoso, poético e atemporal de Renato Russo. O filme funciona. Tanto para quem já conhecia a história, como para quem ainda sabia pouco sobre a gênesis do Rock Brasilis. E é isso que importa, no final, não? Que o filme tenha uma bilheteria estrondorosa e que a obra de RR e de sua Legião cheguem a muito mais gente. Tenho certeza que Somos Tão Jovens vai ajudar neste sentido.