10 Segundos para Vencer


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O tempo passa e quem “não é visto, não é lembrado”. O Brasil tem alguns fenômenos sobre os quais falamos pouco. 10 Segundos para Vencer conta a história de um deles: Éder Jofre. O único brasileiro a conquistar o título de campeão mundial de boxe em duas ocasiões e em duas categorias diferentes. Um verdadeiro fenômeno sobre o qual praticamente não ouvimos falar. Isso diz muito sobre o Brasil e os brasileiros. Nesse sentido, 10 Segundos para Vencer nos faz pensar um bocado.

A HISTÓRIA: Abertura em preto e branco e o som de uma transmissão de rádio. Está difícil de sintonizar a estação. Surge a informação de que o filme é baseado em uma história real. Vamos para 5 de maio de 1973. Em Brasília, vai se decidir mais um título mundial da WBC. Agora, de peso pena. Para muitos, 10 segundos podem não significar grande coisa. Mas 10 segundos é tudo para um lutador.

Éder Jofre (Daniel de Oliveira) aparece deitado, olhando para cima, esperando a sua hora de lutar. A história volta para 1946, quando Éder é um garoto e acompanha, admirado, o trabalho do pai, Kid Jofre (Osmar Prado) como treinador e do tio, Silvano (Ricardo Gelli) como pugilista. Mal sabe o jovem Éder que ele vai seguir os passos do tio, mas superá-lo nos resultados para tornar-se um dos maiores pugilistas da história do esporte.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu só recomendo que continue a ler quem já assistiu a 10 Segundos para Vencer): Estou aqui na minha odisseia para colocar em dia os filmes que eu assisti nas últimas semana. Vi a esta produção nacional pouco depois dela estrear. Sempre amei o boxe. Lembro bem, de quando era criança e pré-adolescente, assistir às lutas que muitas vezes a TV passava no final da noite.

Acompanhei bem a carreira de Mike Tyson, por exemplo, antes dele surtar, e assisti a outros grandes nomes no ringue, como George Foreman e Evander Holyfield. Bons tempos em que era fácil assistir a grandes lutas de boxe no conforto do nosso lar. O que sempre me fascinou no boxe é que este é um esporte de garra, de técnica e de inteligência. Mas também de vigor físico, de resistência, de foco e de obstinação.

Todos nós conhecemos a história de Rocky Balboa, na série de filmes que fizeram a carreira de Sylvester Stallone. Mas o Brasil já teve o seu herói nos ringues. Pena que ele é pouco lembrado. Mas 10 Segundos para Vencer dá o merecido protagonismo para este herói brasileiro do boxe, Éder Jofre.

O filme segue a linha das produções que homenageiam o retratado. Ou seja, você não verá complexidade no roteiro de Thomas Stavros e Patrícia Andrade, que contaram com a colaboração de José Alvarenga Jr. e José Guertzenstein. Muito pelo contrário. O filme segue uma linha clássica de começar com um momento importante do homenageado para, depois, voltar atrás na sua história e contar os principais fatos da vida dele até chegarmos àquele primeiro momento novamente.

Acompanhamos, assim, a história de Éder Jofre desde que ele era um garoto, em 1946 – ele tinha, então, 10 anos de idade -, e até aquela decisão do seu segundo título mundial, em 1973. O foco da história é sempre a “responsabilidade” de Jofre de seguir o legado da família e de honrar o pai, o treinador Kid Jofre. O garoto quer orgulhar o patriarca e, ao ver que o tio não será capaz de fazer isso, ele assume essa responsabilidade.

Mas nada disso acontece sem dúvidas ou sem dor. Por um bom tempo, o jovem Éder quis seguir a carreira artística. Ele teve o apoio da mãe, Angelina (Sandra Corveloni), mas, naquela época – e ainda hoje, infelizmente -, as mulheres não tinham muita voz ou vez dentro da família. Assim, a personalidade marcante e “dominadora” de Kid se sobrepõem a do filho e à da mulher.

Mais que isso, quando o irmão mais novo Doga (Ravel Andrade) fica doente, Éder assume a responsabilidade de entrar no boxe para conseguir dinheiro para o tratamento do irmão. Segundo esta matéria interessante que conta um pouco da história de Éder Jofre, o pugilista se transformou em profissional em 1953, quando se tornou Campeão da Forja de Campeões.

A partir daí, ele não parou mais, se tornando Campeão Brasileiro dos Galos em 1958; Campeão Sul-americano dos Galos em 1960; Campeão Mundial dos Galos em 1960; Campeão Unificado dos Galos em 1962 e Campeão Mundial dos Penas em 1973. Realmente uma trajetória impressionante. Além de todos esses títulos, Éder Jofre é considerado como um dos melhores pugilistas de todos os tempos.

Em 10 Segundos para Vencer nós assistimos de perto o “background” familiar de Jofre, a sua ascensão e suas conquistas. Interessante como ele não se deslumbrou com a fama e com os títulos e, em certo momento da vida, quis parar com tudo para ter uma vida mais familiar com a esposa e os filhos. Está bem, no filme, a atriz Keli Freitas como Cida, esposa do protagonista.

Pensando nos dois, logo me lembro da ótima reconstituição de época feita neste filme. Especialmente os figurinos e a reconstituição da São Paulo dos anos 1960 foi incrível. Do elenco, todos estão muito bem, mas com destaque para Daniel de Oliveira e para Osmar Prado – especialmente Prado em uma interpretação incrível, com um sotaque paulistano acentuado e uma emoção que transborda a telona.

No filme, também acompanhamos um dilema interessante e que nem sempre está presente em filmes sobre grande atletas: o quanto o esporte de alto nível cobra da vida da pessoa. Sim, ela ama aquele determinado esporte. Sim, ela tem orgulho de representar a sua família e nação. Mas e tudo o mais da vida que ela abre mão para chegar ao auge, vale a pena? E depois de chegar ao auge, até quando fazer sacrifício para permanecer lá?

O interessante do exemplo de Éder Jofre é que ele nunca foi um deslumbrado com o que ele conquistou. Depois de conseguir se consagrar como campeão mundial, ele não quis permanecer nessa posição para sempre e fazer todos os sacrifícios que isso trazia. E ele estava certo. Há tempo para tudo, nessa vida. Para desfrutar dela e para fazer sacrifícios para um “bem maior”. Mas ninguém merece ser sacrificado a vida inteira. 10 Segundos para Viver faz uma ponderação interessante sobre isso.

Gostei da homenagem que fizeram para Éder Jofre. Mais pessoas precisam conhecer a sua história. Espero que o filme faça esse trabalho. Fez isso comigo, que fui atrás de saber mais sobre ele. Só achei que o filme perde em densidade ao abrir mão de falar mais sobre os dilemas do personagem. Afinal, todos temos os nossos dilemas e defeitos, mas nada disso aparece em 10 Segundos para Vencer.

Assim, o filme vale pela homenagem e pelo cuidado do diretor José Alvarenga Jr. pelos detalhes, assim como pelo trabalho dos atores principais. Sempre é bom assistir a filmes de grandes nomes do esporte. Especialmente dos brasileiros, tão pouco lembrados no cinema. Apenas por esses aspectos, vale assistir a 10 Segundos para Vencer. A história poderia ser melhor acabada e mais cheia de nuances, mas nós perdoamos a falta de camadas do filme por tratar-se realmente de uma homenagem.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Mais um belo filme nacional que eu assisto nesse ano. Fico feliz. Torço muito pelo cinema brasileiro – para além das produções de comédia escrachada. Que bom que estamos investindo também em outros tipos de produções, além daquelas feitas para levar um grande público ao cinema. 10 Segundos para Vencer faz parte de uma safra boa.

Gostei do trabalho de José Alvarenga Jr. neste filme. Ele tem uma direção segura e não deixa nada a desejar nas cenas das lutas de boxe – sem dúvida alguma, as mais difíceis de serem feitas. O diretor acerta também em valorizar a interpretação dos atores e a reconstituição de época, que é um outro ponto forte do filme. O diretor dá um bom ritmo para a produção, que não deixa a bola cair em momento algum e prende a atenção da audiência, apesar da história previsível e carregada demais de “homenagem”, até o final. Mais mérito do diretor do que do roteiro, sem dúvida.

Além de um bom trabalho de José Alvarenga Jr., 10 Segundos para Vencer merece destaque pelo ótimo trabalho na atuação de Daniel de Oliveira e de Osmar Prado. Eles são dois gigantes em cena. Além deles, vale comentar o bom trabalho de Sandra Corveloni, de Ravel Andrade, de Keli Freitas e de Ricardo Gelli. Em papéis menores, estão ainda Samuel Toledo e Christiano Torreão.

Entre os aspectos técnicos do filme, o principal destaque vai, sem dúvida, para a excelente direção de fotografia de Lula Carvalho; para os figurinos impecáveis de Marcelo Pies; e para a bela produção de design de Claudio Domingos. Também vale destacar a emotiva trilha sonora de Berna Ceppas. Não encontrei o nome de quem fez a edição do filme, mas esse foi mais um belo e fundamental aspecto da produção.

Vale indicar algumas matérias sobre Éder Jofre. Para começar, recomendo duas sobre como o pugilista se emocionou ao ver a sua história narrada em 10 Segundos para Vencer: esta da Globo e esta outra do Estadão. Depois, para quem gosta (ou gostava) de boxe, como eu, vale conferir esta outra matéria do site Melhor de 10 sobre 10 dos melhores atletas do boxe de todos os tempos – e com o nosso Éder Jofre fazendo parte desta lista. O bacana deste último site é podermos ver a cenas reais de lutas dos pugilistas. Bem legal.

Analisando especialmente essa lista do Melhor de 10, percebi algo que considero importante. No boxe, os “menos entendidos” sempre deram muito valor para os peso-pesados. Aí que Éder Jofre teve uma grande concorrência por atenção na sua época, já que ele era contemporâneo, entre outros nomes, de outro gigante do esporte: Muhammad Ali. Muito dos holofotes foram para Ali, naquela época. Além disso, claro, enquanto os americanos gostam de enaltecer os seus ídolos, a maior parte dos brasileiros não aprecia a mesma boa prática. Infelizmente.

10 Segundo para Vencer estreou no dia 23 de agosto de 2018 no Festival de Cinema de Gramado. Em circuito comercial, o filme estreou nos cinemas no dia 27 de setembro – assisti ele pouco depois.

No Festival de Cinema de Gramado, 10 Segundos para Vencer ganhou dois prêmios: Melhor Ator para Osmar Prado e Melhor Ator Coadjuvante para Ricardo Gelli. Prado mereceu. Está incrível no filme.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção. Nenhum outro site apresentou críticas sobre este filme.

10 Segundos para Vencer é uma produção 100% do Brasil. Por causa disso, ele passa a figurar na lista de filmes que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog – quando foram pedidos filmes feitos no Brasil para serem comentados por aqui.

CONCLUSÃO: Um filme bem feito, bem acabado, com ótima direção e reconstituição de época. 10 Segundos para Vencer conta a história de um grande ídolo nacional, mas pouco lembrado. O filme segue a linha das produções de “homenagem”, ou seja, com um mergulho apenas no lado “bacana” do personagem principal. Não vemos a todas as camadas ou mesmo à complexidade do protagonista. Apesar disso, o filme se mostra coerente com o seu estilo e muito bem conduzido. Sem dúvida alguma a história de Éder Jofre deveria ser mais conhecida. Vale assistir a 10 Segundos para Vencer como introdução para isso.

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