Pokot – Spoor – Rastros

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Alguns gostam de repetir esta frase como um mantra: “as coisas são como são”. Mas as “coisas são como são” porque a maioria da sociedade escolheu que fosse assim. Ou, ao menos, dependendo da análise, certas pessoas de um pequeno núcleo familiar ou social escolheram que fosse assim. O “status quo” é o que é exatamente por isso, graças a escolhas. E é o acúmulo de pequenas escolhas que fazem o “status quo”. Spoor é um filme eloquente sobre isso. Eis uma produção interessante, que vai se revelando aos poucos e que, por mais que não tenha um desfecho totalmente surpreendente, de fato ele não pode ser “vislumbrado” muito tempo antes. Faz pensar, e isso sempre é muito bom no cinema.

A HISTÓRIA: Começa com a narradora comentando que a data da nossa morte é decretada no nosso mapa astral com a data do nosso nascimento. Isso acontece porque a lei universal prevê que tudo que nasce, um dia morre. Ela também nos diz que há áreas no mapa astral que sinalizam informações que podem nos ajudar a prever a nossa morte. Em um local de muitos campos e árvores, alguns animais selvagens apenas observam. Um carro percorre uma estrada e chega até um círculo com outros veículos. É noite. Em uma casa, vemos um computador, uma prancha, uma luneta e vários outros objetos da sala até que a câmera chega no quarto de Janina Duszejko (Agnieszka Mandat-Grabka).

Os cães dela acordam e saem correndo e latindo até a porta. Duszejko chama Lea e Bialka, que fazem festa com a dona. Duszejko solta as duas cadelas e vai brincar com elas do lado de fora, quando cumprimenta mais um dia que está nascendo. Quando segue para a escola, onde dá aula, Duszejko encontra Dobra Nowina (Patrycja Volny) e Wnetrzak (Borys Szyc) com o carro atolado. Ela ajuda os dois, mas deixa claro que não simpatiza com Wnetrzak e sim com Dobra Nowina. Este filme conta a história desta senhora peculiar e da cidade em que ela mora, cheia de caçadores.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Spoor): Que filme interessante, meus bons leitores e leitoras deste blog! Esta produção dirigida pela veterana Agnieszka Holland e com direção de apoio de Kasia Adamik foi pensada, me parece, para nos tirar da zona de conforto. Para quebrar alguns “paradigmas” que temos e alguns pré-conceitos que podemos sustentar.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Nos dias de hoje, em que muitas pessoas estão cada vez mais radicais em relação a seus atos e opiniões, este filme nos faz repensar este radicalismo. Sim, eu concordo que as pessoas devem ter opinião, devem ter uma determinada postura e, preferencialmente, serem coerentes entre o que elas pensam, falam e fazem. O problema é que nem sempre vemos esta coerência por aí. E mesmo que alguém seja coerente e defenda os “valores certos”, realmente o caminho deve ser do radicalismo, de fazer todos pensarem igual?

Interessante como Spoor questiona, ao mesmo tempo, uma sociedade doente, que não tem respeito pela vida que não seja humana, e a pessoa que se coloca contra tudo isso. Afinal, apesar da personagem de Duszejko ser muito densa, carismática e interessante, maravilhosamente interpretada pela atriz Agnieszka Mandat-Grabka, e mesmo que a gente concorde com ela, toda a sua indignação e falta de aceitação daquela sociedade adepta da matança de animais, a protagonista desta produção não deixa de ser uma serial killer. Pois sim. E aí está outro questionamento interessante desta produção.

Afinal, quem são os vilões e os mocinhos? Uma serial killer, por mais que seja movida por “bons sentimentos” e por uma indignação coerente, pode ser considerada uma “mocinha”? Não, não pode. A atriz Agnieszka Mandat-Grabka, magnífica em seu trabalho, torna difícil a tarefa de abominarmos o que ela faz. Mas, no fim das contas, para onde todos nós iríamos se várias Duszejko começassem a fazer a “justiça” com as próprias mãos? Por mais que tenhamos razões para abominar e discordar de diversas pessoas e seus atos na sociedade, isto nos dá o direito de sair matando estas pessoas?

E aí talvez um dos questionamentos mais interessantes que esta produção pode levantar: ao defender a vida dos animais matando as pessoas que causam esta matança, Duszejko pode ser considerada melhor que os seus alvos ou ela acabou se igualando ou até se tornando pior que eles? Francamente, eu nunca vou achar que o assassinato, seja de pessoas, seja de animais selvagens, seja o caminho. Todos nós deveríamos defender o direito à vida, não é mesmo? Mas, infelizmente, me parece, vivemos em sociedades em que a vida, seja humana, seja dos animais, parece ter cada vez menos valor.

Como chegamos até aqui? Em que momento as pessoas acharam que “tanto faz” matar um animal ou uma pessoa? Eu não sei. Mas com algo eu concordo em toda a discussão que é levantada com Spoor: não precisamos aceitar as coisas como elas são. Não importa quantos “nãos” você recebeu durante a vida ou quantas frustrações já experimentou, acho que nunca deveríamos perder a capacidade que tínhamos quando crianças e jovens em imaginar uma sociedade melhor e buscar maneiras de contribuirmos para isso.

Talvez uma forma de “resistência” e de buscar esta mudança seja cada um de nós realmente defendermos o direito à vida, tanto de pessoas, quanto dos animais – e das plantas, das florestas e um longo etc. Eu não cheguei ainda ao estágio evolutivo de abrir mão das carnes. Então sim, eu contribuo com a morte de vários animais para poder fazer as minhas refeições diariamente. Mas estes animais não estão livres na Natureza, e sim foram gerados e viveram sempre em cativeiro com o “fim” de alimentar a mim e a tantas outras pessoas.

Não acho que esta é uma crueldade como a que vemos em Spoor, até porque muitos destes animais nem existiriam se não fosse pela indústria alimentícia. Ainda assim, é claro, concordo com quem questiona estas mortes também. Acho que Spoor acerta em cheio ao colocar estas questões em evidência. E sim, eu não entendo quem mata por prazer e tenho dificuldade de aceitar que algumas sociedades continuem com a caça legalizada, algo que me parece um bocado primitivo, não?

E sim, há quem diga- como algumas pessoas neste filme – que os caçadores ajudam a manter o “equilíbrio” no Meio Ambiente. Bem, eu respeito todas as opiniões, mas isso não quer dizer que eu tenha que concordar com elas. Para cada animal e ser vivo, existe um predador natural, não é mesmo? Então se o homem interferisse menos no Meio Ambiente e realmente quisesse preservá-lo, a própria Natureza se equilibraria, como ocorreu durante todas as eras antes do surgimento da Humanidade. Sendo assim, evidentemente que eu discordo deste argumento de quem defende a caça.

Ufa! Quanto eu falei motivada pelo que Spoor nos apresentou! Agora, vou deixar de filosofar sobre os temas que este filme da diretora Holland nos apresentou e comentar sobre a produção propriamente dita. O primeiro elemento que me chamou a atenção nesta produção foi a trilha sonora de Antoni Lazarkiewicz. O trabalho dele é marcante e fundamental para esta produção. Em diversas sequências do filme eu fiquei imaginando se não tivéssemos a trilha sonora de Lazarkiewicz. Teríamos um filme muito menos potente, eu não tenho dúvida sobre isso.

O segundo elemento que me chamou a atenção nesta produção foi o trabalho maravilhoso e impecável da atriz Agnieszka Mandat-Grabka. Ela está perfeita no papel, nos convencendo em cada pequeno detalhe de sua interpretação. Infelizmente este filme, por ser uma produção polonesa, não terá “lobby” e força suficiente para indicar Agnieszka Mandat-Grabka para o Oscar de Melhor Atriz. Mas ela merecia. Ela é uma das grandes responsáveis pela qualidade desta produção. Tem um trabalho impecável nesta produção. De tirar o chapéu.

Depois, o outro ponto que me chamou a atenção foi o roteiro de Olga Tokarczuk e Agnieszka Holland, texto baseado na obra de Olga Tokarczuk. O roteiro, muito bem escrito, é perfeitamente acompanhado por uma direção inspirada de Holland. Os dois elementos, roteiro e direção, estão em perfeita sintonia, algo que nem sempre é comum em uma produção. Por isso a produção consegue ser envolvente e interessante ao mesmo tempo.

Achei muito bacana, em especial, como o “mundo” da protagonista e narradora norteia toda a história. Vemos tudo sob a ótica de Duszejko, que é uma engenheira aposentada que dá aulas de inglês no colégio da comunidade para manter-se ocupada. Profunda admiradora da Natureza, ela ama as duas cadelas que desaparecem logo no início da trama. Ela também é uma estudiosa da astrologia e, sempre que pode, pede as informações básicas das pessoas – data e horário de nascimento – para fazer o mapa astral delas e tentar entendê-las melhor.

Desta forma, a protagonista deste filme é uma figura interessantíssima. Mas não é a única que chama a atenção na história. Spoor lembra um pouco os filmes dos irmãos Coen no sentido de que a história explora bem os personagens curiosos de uma certa comunidade interiorana. Ali, há várias figuras de personalidade forte e peculiares. Duszejko não é, exatamente, uma exceção entre as pessoas curiosas que se cruzam naquele local da Polônia que muda de cenário conforme as estações passam.

Achei interessante como o diretor explora bem a imaginação e/ou a sensibilidade da protagonista. Quando ela observa determinadas pessoas e escuta as suas histórias, ela consegue “ver”/sentir o “background” relacionado a elas. Algumas vezes, ela vê o passado da pessoa que ela está observando. Em outras ocasiões, como na casa do vizinho e amigo Matoga (Wiktor Zborowski), ela consegue “visualizar” a relação dos pais dele.

Estas contextualizações na história são muito interessantes e deixam a narrativa ainda mais “intrigante” – afinal, Duszejko meio que desenvolveu um “sexto sentido” e consegue ver além das aparências e se aprofundar na história das pessoas ou aquilo tudo não passa de imaginação dela? Da minha parte, acho que as narrativas que vemos em cena realmente reproduzem a realidade do que os personagens viveram e demonstra a sensibilidade além do normal da protagonista. Ela é sim capaz de ver além das aparências. Mas isso não a impede de cometer assassinatos e de tornar-se uma serial killer.

E aí surge aquele outro questionamento que esta produção nos apresenta. Algumas vezes os “monstros” da nossa sociedade, aqueles que são capazes de matar várias pessoas aparentemente cheios de convicção e sem culpa, são pessoas “normais” até prova ao contrário. E, algumas vezes, na lógica destas pessoas, os crimes que elas cometeram podem fazer todo o sentido. A loucura e a falta de “filtros”/limites realmente podem afetar a qualquer pessoa, mesmo as mais sensíveis e “normais”. Por isso devemos estar atentos e zelar por estas pessoas, para que a dor que elas sentem não chegue até o extremo do insuportável e para que elas não tomem atitudes com as quais elas podem se arrepender depois.

Então, para resumir, este filme tem muitas qualidades e mais acerta do que erra. Mas tem alguns “poréns” que atrapalham um pouco o resultado final da produção. Algo interessante é que o filme, no início, parece ser uma crônica de um certo lugar cheio de pessoas peculiares. Neste lugar, temos a protagonista, defensora dos animais, cercada por uma sociedade que defende a caça e a morte destes animais. Ela sofre, e isso fica evidente. Mas então, lá pelas tantas, as pessoas começam a morrer.

De forma inteligente, os roteiristas apresentam primeiro a morte do delegado. Como ele parecia estar devendo dinheiro e estava sendo ameaçado, a morte dele parece ser fruto desta dívida. Mas aí, pouco depois, morre também o “vilão” da comunidade, Wnetrzak, que além de ter a loja em que Dobra Nowina trabalha, também é dono de um bordel, explora as mulheres que trabalham ali e mantém várias pessoas sob o seu jugo por causa de dívidas. A morte dele é um pouco mais suspeita. Afinal, morreram, na sequência, dois “desafetos” da protagonista. Será mesmo coincidência? Mas realmente começamos a desconfiar de Duszejko quando morre também o prefeito.

Antes, claro, já desconfiamos um pouco dela pela justificativa que ela dá para a morte do delegado. Ela insiste que ele foi morto por um veado e que isso ela conseguiu ver no mapa astral do delegado. Depois, ela fala da teoria de que a Natureza/os animais estão se vingando das pessoas que lhes faziam mal. Teoria um tanto maluca, e aí surgem as primeiras desconfianças. Depois da morte do prefeito, o filme acelera para descobrirmos quem realmente está por trás de todas estas mortes. A história ter o tempo exato em todas as suas fases é uma qualidade desta produção.

O roteiro não enrola o espectador. Ele só gasta o tempo exato para nos apresentar com maior profundidade os personagens principais e para contar esta narrativa de “vingança” um tanto diferenciada. Tudo isso são qualidades, mas, como eu disse antes, este filme tem um ou dois problemas também. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Quando Duszejko é chamada por Matoga para “arrumar” o vizinho deles que tinha morrido, percebemos que ela achou algo que a emocionou na casa do sujeito de quem ela não gostava nem um pouco.

Naquele momento, ficou evidente que ela não estava chorando pelo morto. Mas então, o que poderia fazê-la chorar ali? Na hora, pensei que ela tinha encontrado alguma prova de que o vizinho tinha matado as cadelas dela. Mas logo a história avança e esquecemos daquilo. Mas esse não é o problema da narrativa. O problema está mesmo no uso dos feromônios dos insetos que acabam sendo utilizados em cada vítima – no delegado e em Wnetrzak – e que fazem o jovem Dyzio (Jakub Gierszal) ser o primeiro a matar a charada sobre a serial killer ser a generosa Duszejko.

Segundo o roteiro, Duszejko conhece Boros (Miroslav Krobot) quando ele encontra o corpo de Wnetrzak, que já está em avançado estado de putrefação. Ao encontrar o corpo, o próprio Boros diz que ele foi morto há alguns meses. Duszejko está caminhando e se assusta quando Boros aparece na frente dela. Ela, inclusive, pergunta quem ele é. Depois eles se aproximam, inclusive tem um romance, e nesta convivência que Boros explica para Duszejko sobre os besouros e o feromônio que os atrai.

Então, se isso aconteceu após a morte do delegado e de Wnetrzak, como é que Duszejko poderia ter usado o feromônio dos besouros nestas duas vítimas? Para mim, esta foi a maior falha do roteiro. E uma pena, porque o restante funciona tão bem… Gostei muito da história e dos questionamentos salutares que ela nos levanta sobre a sociedade em que queremos viver e aquilo que queremos ou podemos aceitar.

Não tenho dúvida que este filme será ovacionado pelos defensores dos animais, ao mesmo tempo que será atacado pelos adeptos da caça. Mas espero, que além das opiniões pessoas de cada um, as pessoas possam admirar o belo trabalho dos realizados e do elenco desta produção. Sem dúvida alguma mais uma bela descoberta propiciada pelo Oscar 2018.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um belo acerto desta produção é que Spoor investe em um grupo pequeno de personagens. Algo fundamental para um filme que procura se aprofundar em algumas ideias e sentimentos, em algumas realidades muito específicas. Uma produção com muitos personagens jamais conseguiria explorar bem ideias, sentimentos e as relações entre diferentes pessoas. Então este é um acerto do roteiro e também da direção de Agnieszka Holland, porque a diretora acaba reproduzindo bem a proposta do texto que escreveu junto com a escritora Olga Tokarczuk. Fiquei curiosa, aliás, para ler o livro dela. Ele deve ser ainda mais interessante que o filme.

Este filme deve levantar algumas polêmicas. Especialmente entre os defensores da caça legalizada, é claro. Deixo aqui um artigo que foi publicado no site da revista Superinteressante e que mostra um destes pontos de vista favoráveis à caça legalizada e controlada. Sempre é interessante conhecermos e respeitarmos outros pontos de vista. Deixo aqui também uma reportagem do jornal El País que mostra um outro ponto de vista sobre esta questão.

Falei um bocado antes e vou me repetir aqui: a atriz Agnieszka Mandat-Grabka faz um trabalho soberbo. Para mim, um dos melhores que eu vi neste ano. Pena que ela não será indicada ao Oscar de Melhor Atriz, porque ela merecia. Além dela, estão muito bem também os outros atores que tem destaque nesta produção. Vale comentar o belo e sensível trabalho de Wiktor Zborowski como Matoga, vizinho de Duszejko, viúvo, que tem um porão com alguns “segredos bombásticos” e que tem uma caidinha pela vizinha; Patrycja Volny como Dobra Nowina, a jovem que é explorada por Wnetrzak e que luta para tentar conseguir a guarda do irmão mais novo; Jakub Gierszal como Dyzio, o “nerd” que trabalha para a polícia e que também guarda um segredo; e Miroslav Krobot como Boros, que aparece menos que os demais, mas que rouba a cena como o especialista botânico que tem um romance com a protagonista.

Além deles, que fazem o núcleo principal desta história, temos alguns atores coadjuvantes que acabam também tendo os seus momentos de destaque nesta produção. Vale citar o bom trabalho de Borys Szyc como Wnetrzak, uma espécie de “mafioso” da comunidade; Tomasz Kot como o procurador Swierszczynski, filho de Matoga; Andrzej Grabowski como o prefeito Wolsky; Andrzej Konopka como o delegado; e Marcin Bosak como o padre local – provavelmente um dos personagens mais desprezíveis e equivocados em cena.

Por que eu considero o personagem do padre um dos mais desprezíveis e equivocados? Porque eu tenho um verdadeiro pavor dos “padres”, “sacerdotes” e “pastores” que utilizam a Bíblia para justificar absurdos. Eles deturpam a Palavra e servem exatamente como contra-exemplo do que deveriam ser.

Entre os elementos técnicos desta produção, sem dúvida alguma o grande destaque é a magnífica e marcante trilha sonora de Antoni Lazarkiewicz, mais um elemento que merecia uma indicação ao Oscar – mas que não chegará lá por ser um filme polonês e não americano. Depois, vale destacar a competente direção de fotografia de Jolanta Dylewska e de Rafal Paradowski e a ótima edição de Pavel Hrdlicka. Cito ainda os figurinos de Katarzyna Lewinska; a decoração de set de Joanna Macha; o design de produção feito por sete competentes profissionais e a maquiagem feita por outros sete profissionais.

Spoor estreou no Festival Internacional de Cinema de Berlim em fevereiro de 2017. Depois, esta produção participaria, ainda, de outros 17 festivais em diversas partes do mundo. Em sua trajetória, o filme ganhou cinco prêmios e foi indicado a outros quatro. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Prêmio Alfred Bauer no Festival Internacional de Cinema de Berlim; para o prêmio de Melhor Filme no Festival de Cinema Fantasia; para o prêmio de Melhor Atriz para Agnieszka Mandat-Grabka no Festival Internacional de Cinema de Valladolid; e para os prêmios de Melhor Diretora para Agnieszka Holland e Kasia Adamik e o de Melhor Maquiagem para Janusz Kaleja no Festival de Cinema Polonês.

Agora, estava pensando aqui em outro ponto que Spoor nos faz pensar. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Este filme acaba questionando todas aquelas pessoas que amam tanto a Natureza e os animais, em especial, mas que tem tão pouco apreço pelas pessoas, pelo ser humano. Sim, é verdade que sobram exemplos de pessoas desprezíveis caminhando por aí. E nós não precisamos gostar delas. Mas será mesmo que as pessoas que amam tanto os animais, as plantas e afins podem amar tanto estes seres e desprezar tantos os humanos ao ponto de desejar que eles morram? Pegue o mais cretino dos mais cretinos que você conhece. Você o despreza, até pode considerá-lo um animal. Mas você o mataria? Entendo o desprezo, a raiva, mas honestamente eu não entendo quem mate o outro por causa disso.

Spoor é uma coprodução da Polônia, da Alemanha, da República Tcheca, da Suécia e da Eslováquia. Apesar de ter capital de tantos países, Spoor foi escolhido pela Polônia – origem principal da produção – como representante do país na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2018.

Esta produção foi totalmente rodada na Polônia, no Estado de Dolnoslaskie – que fica no Noroeste do país -, nas cidades de Kotlina Klodzka, Nowa Ruda, Osówka, Bystrzyca Klodzka, Miedzygórze e Przelecz Puchaczówka.

O filme é dedicado para Weronki. Dei uma boa pesquisada, mas não descobri quem era Weronki para a diretora ou para a roteirista. Em resumo, não descobri quem foi/é Weronki. Caso alguém souber e puder nos informar, eu agradeço. 😉

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,4 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no site Rotten Tomatoes dedicaram 14 críticas positivas e cinco negativas para Spoor, o que garante para o filme uma aprovação de 74% e uma nota média de 6,8. Não está ruim, mas também não está muito bom esse nível de avaliação nos dois sites.

Os críticos e o público que vota no IMDb podem não ter gostado taaaanto assim de Spoor, mas eu tenho certeza que uma das minhas melhores amigas, a Janice Eleotério, vai amar esta produção. Algo me diz que ela vai entender completamente os gestos e a motivação de Duszejko. 😉

CONCLUSÃO: A vida exige que tenhamos postura. O ideal é que cada pessoa usasse o próprio cérebro, de tempos em tempos, para pensar porque faz o que faz e pensa o que pensa. Ao fazer este exercício, depois de olharmos para os nossos próprios atos e crenças, podemos ampliar este questionamento para além do nosso umbigo. E aí poderíamos repensar o nosso entorno e a nossa sociedade para que ela fosse algo melhor do que é hoje. Isto foi o que Spoor despertou em mim. Um filme interessante, que mostra uma grande mulher cometendo ações extremas após uma grande perda. E por pouco que ninguém notou o que realmente aconteceu. O filme faz a gente refletir sobre a sociedade em que vivemos e como a ideia de “monstros” pode ser bastante questionável. Muitas vezes, depende da perspectiva. Filme intrigante, bem desenvolvido e interessante. Vale ser visto.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Eis um filme peculiar. Sob vários pontos de vista. Por contar uma história interessante, com uma clara crítica ao modelo atual de sociedade em que poucos – ainda uma minoria, infelizmente – realmente se preocupam com todos os tipos de vida no mundo, Spoor me parece não ter um perfil muito de Oscar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Digo isso especialmente pelo fato da protagonista deste filme, apesar de ser super humana, sensível a todo tipo de vida – especialmente a dos animais -, não ser, digamos assim, exatamente um “exemplo” de boa gente, não é?

Quer dizer, a personagem e a atriz que a interpreta são maravilhosas. Mas apesar de concordar com a revolta que a moveu, não vejo que os atos dela sejam exatamente “louváveis” 😉 ou que agradem tanto os votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood para fazer este filme ser indicado como Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2018. Então, francamente, acho que esta é mais uma produção interessante que a lista inicial de filmes habilitados ao Oscar nos apresenta, mas não vejo Spoor tendo chances de chegar até uma indicação, quanto mais ganhar a estatueta. Outros filmes comentados aqui no blog e outros considerados “fortes candidatos” e que eu ainda não vi me parecem ter muito mais chances.

ATUALIZAÇÃO (17/12): Para a minha surpresa, neste ano a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood se antecipou e divulgou, já no dia 14 de dezembro, a lista de 9 filmes que avançaram na disputa por uma das cinco vagas na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2018. Spoor, que era um dos filmes que tinha chances de passar na primeira grande peneirada, ficou pelo caminho. Ele não foi um dos filmes que avançaram. Mas, como todos os outros que foram indicados pelos 91 países que buscaram uma vaga no Oscar 2018, ele merece ser visto.

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