The Kingdom – O Reino


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Depois dos atentados ao World Trade Center, Hollywood produziu vários filmes a respeito. Entre eles, o fraco e chato World Trade Center do diretor Oliver Stone, e o menos pretensioso e um pouco mais interessante United 93 (Vôo United 93) do diretor inglês Paul Greengrass. Este ano está saindo uma nova fornada de filmes sobre a Guerra do Iraque, como No Vale das Sombras (In the Valley of Elah) e Redacted (este último de Brian de Palma). Além destes, aparece na mira da crítica e do público esse The Kingdom (ou O Reino, no Brasil), um filme que não trata do 11 de setembro de 2001 e nem da Guerra do Iraque, mas que tem tudo a ver com a relação conflitante entre os interesses dos Estados Unidos e os interesses dos países árabes, especialmente as relações um tanto questionáveis que os poderosos norte-americanos estão mantendo com a Arábia Saudita e outros países daquela região desde a década de 30 e a descoberta dos grandes mananciais de petróleo por ali. O filme começa bem, muito bem, só narrando fatos. E depois, quando parte para a ação, segue um ritmo muito bom. Seria perfeito, se não fosse por alguns detalhes.

A HISTÓRIA: O filme começa com um misto de apresentação com computação gráfica e cenas reais para narrar o surgimento do Reino da Arábia Saudita, em 1932 e, em seguida, as relações dos Estados Unidos com aquele Reino desde então. A linha do tempo segue fato a fato até chegar a Guerra do Kuwait e ao repúdio do saudita Osama Bin Laden à aliança das lideranças do seu país de origem com os “infiéis e infames” estadunidenses… e segue até o ataque ao World Trade Center. Mas a narrativa começa mesmo com um ataque terrorista devastador ao Complexo Residencial de Al Rahmah, onde vivem os trabalhadores – a maioria norte-americanos – de uma das companhias petrolíferas com maioria de capital estrangeiro naquele país. Depois da morte de centenas de pessoas, incluindo um agente especial do FBI, o agente Ronald Fleury (Jamie Foxx) mexe os seus “pauzinhos” para conseguir viajar para o local e investigar o caso em busca de culpados. Depois de conseguirem passar pela comissão do Senado, Fleury e os agentes especiais do FBI Grant Sykes (Chris Cooper), Janet Mayes (Jennifer Garner) e Adam Leavitt (Jason Bateman) viajam para a Arábia Saudita e começam a investigar o caso ao lado do coronel Faris Al Ghazi (o israelita Ashraf Barhom).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta trechos importantes da história, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Kingdom): O filme começa bem, muito bem, como eu dizia antes. Também gostei da parte em que os agentes do FBI conseguem vencer a barreira política e um tanto mercantilista dos senadores norte-americanos – afinal, já se sabe, que uma certa parcela de políticos estadunidenses realmente “deve favores” a muitos “generosos doadores” de dinheiro árabes durante a época de campanhas. Isso não é nenhuma novidade.

The Kingdom também segue bem até o momento em que a equipe do FBI chega à Arábia Saudita e tem que lidar com uma certa “reclusão” imposta pela polícia local e pelas demais autoridades – afinal, ninguém quer que os agentes especiais morram por ali ou que “enfiem o nariz onde não interessa”. O melhor é que eles fiquem o mais “quietinhos” possível. Até aí o filme segue uma história bem construída e interessante.

A primeira falha, na minha opinião, ocorre logo depois. Afinal, o roteiro de Matthew Michael Carnahan precisava menosprezar tanto a investigação dos sauditas? Quem realmente acredita que eles “passariam” por cima de todas as evidências do local e não achariam um simples detonador que o agente especial do FBI Grant Sykes encontra de maneira tão fácil, simplesmente “passando” por ali. Não, acho que por mais que os sauditas não quisessem investigar o caso – algo quase impossível em uma situação como essa -, seria impossível eles passarem por provas tão óbvias e “jogadas pelo chão”. A partir daí o roteiro ignora um pouco a nossa inteligência e passa a elevar os agentes do FBI a um nível de inteligência que eles não demonstram em nenhum momento, enquanto menospreza qualquer capacidade de investigação dos sauditas. Nada do que os investigadores do FBI faz é fruto de uma grande genialidade, pelo contrário. O que eles fazem é algo esperado de qualquer equipe de investigação com o mínimo de preparo no mundo. E ninguém me convence que a Arábia Saudita não tem uma equipe o mínimo preparada para uma investigação destas, ainda mais depois de tantos atentados terroristas naquele país e nos demais vizinhos. Eles devem ter muito mais experiência que os norte-americanos neste tipo de ataque. Pois justamente esta falta de consideração com a nossa inteligência é o que fez o filme perder vários pontos comigo.

Mas vamos seguir… as cenas de ação realmente são muito bem feitas. Nesse ponto o diretor nova-iorquino Peter Berg fez um bom trabalho. Agora o filme peca em outro ponto: na solução da trama. Aquela história de “procure o homem sem dedos na mão” foi muito, mas muito forçada. Quer dizer que qualquer homem com mais de 50 anos sem alguns dedos na mão deveria ser tido como suspeito ou culpado? Ah, por favor! Mais uma vez ignoraram a nossa inteligência. Além disso, acho que é muito triste a elite do FBI precisar de tanta sorte para encontrar uns culpados como estes… se não fosse a menina ser tão generosa com Janet Mayes depois de ganhar o piriluto, o que seria deles e de nós? Outra forçada de barra – ou seria economia de trabalho para o roteirista?

Mas ok, eu fui muito crítica com o filme. Se ele erra em vários pontos – problemas no roteiro, especialmente – ele acerta em outros tantos. O final finalzinho é bacana. A crítica ao desejo de vingança desmedido dos dois lados da questão fica no ar e incomoda. Acho, realmente, que essa história nunca terá um fim. Outros pontos positivos são os atores e a direção de Peter Berg.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Realmente dei essa nota para o filme pelas falhas no roteiro que eu comentei. Não gosto muito quando um trabalho busca soluções rápidas e fáceis para os problemas. Acho que o roteirista foi meio preguiçoso ou, o que seria pior, realmente ignorou a inteligência dos possíveis espectadores.

The Kingdom teria custado aproximadamente US$ 80 milhões e foi todo filmado em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes. Nas bilheterias dos Estados Unidos o filme teve um desempenho mediano: até o dia 21 de outubro ele tinha faturado pouco mais de US$ 43,8 milhões – ela ainda terá que se pagar.

No Brasil o filme ganhou o nome de O Reino e estréia no dia 23 de novembro.

Segundo notas de produção do filme, Peter Berg concebeu a idéia de The Kingdom há uma década, depois de assistir as notícias sobre o ataque terrorista as Torres Khobar, na cidade de Khobar, na Arábia Saudita. Nesse ataque, o Hezbollah saudita explodiu um caminhão-bomba que acabou provocando um massacre em que morreram “19 estadunidenses e mais 372 pessoas de diversas nacionalidades”. Esse foi um dos ataques mais brutais da região.

No site IMDb o filme ganhou a nota 7,4, enquanto no site Rotten Tomatoes ele recebeu 88 críticas positivas e 80 negativas (um verdadeiro equilíbrio, eu diria).

PALPITE PARA O OSCAR: O filme dificilmente será indicado em alguma categoria principal da premiação. Não tem força para isso. Mas ele pode sim chegar ao ponto de ser indicado em alguma categoria técnica, como edição, efeitos sonoros ou algo do gênero. Também acredito que tem alguma chance de ganhar nessas categorias técnicas (OBS: post atualizado no dia 19 de dezembro).

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7 comentários em “The Kingdom – O Reino

  1. Estou lendo suas criticas. Estão bem completas, porem para alguns filmes seria interessante voce criar um SUB-TOPICO : Conclusão, um resumo da sua critica para filmes que não dispertam tanto interesse para uma determinada pessoa que nao curte o genero. Só um palpite… abracos!

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  2. Olá!

    Que bom que você gostou do blog. Realmente é um experimento e uma maneira de compartilhar os filmes que ando vendo com quem se interessar.

    Gostei também da tua sugestão. Vou experimentá-la. Além dos sub-tópicos que eu já mantenho fixos, vou começar a publica essa conclusão que tu comentaste. Talvez seja melhor para quem não quer ler toda “a linguiça”, né? Ainda que eu ache que a conclusão pode realmente “podar” o blog, ou seja, que as pessoas podem começar a ler só a conclusão e deixar todo o resto de lado… mas vou pensar nisso. Obrigada.

    Espero te ver mais vezes por aqui. Também para concordar ou discordar das críticas.
    Um grande abraço!

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    1. Oi pablo!

      Antes de mais nada, seja bem-vindo por aqui!

      Pois então, você sabe que esse filme não é baseado em fatos reais, certo?
      Ainda que ele comece citando fatos concretos, a história de The Kingdom propriamente é uma ficção.

      Como o último fato histórico citado pela produção antes da história começar a acontecer é o ataque ao World Trade Center, e esse sabemos que ocorreu em 2001, o que podemos dizer é que a história se passa depois disto. Até podemos pensar que foi em 2007, quando o filme foi lançado… afinal, poderia ter acontecido em qualquer ano após 2001.

      Espero ter ajudado…

      Obrigada pela tua visita e pelo teu comentário. Volte por aqui mais vezes.

      Abraços e inté!

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  3. “precisava menosprezar tanto a investigação dos sauditas”, não sei mais pelo exemplo que temos aqui no “basil”, não duvido nada, se só oito por cento dos assassinatos aqui são desvendados, esse tipo de desleixo e tipico de republicas burocráticas e hipócritas para dize o minimo, como a nossa.

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