Things We Lost in the Fire – Coisas Que Perdemos pelo Caminho


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Eu sei que a lei universal mais certa de todas é que um dia todos nós vamos morrer. Sei que todos aprendemos, ainda muito jovens, que todas as pessoas morrem e que um dia perderemos aqueles que mais amamos. Mas nenhuma conciência disso ou reafirmação destas palavras realmente conforta quando algo trágico acontece. Recentemente falei de alguns filmes aqui que tratam da perda – desde o comentado neste blog The Brave One, até os anteriores Entre Quatro Paredes e etc. -, mas realmente esse Things We Lost in the Fire me impressionou. Nem tanto pela história em si, mas pela maneira com que ela foi contada. Desde já a diretora dinamarquesa Susanne Bier entrará na minha lista de pessoas a ter em conta e prestar a atenção. Me impressionou a sua delicadeza e esmero nesta produção.

A HISTÓRIA: Audrey Burke (Halle Berry) está preparando a casa para receber as pessoas para o funeral do seu marido, Steven (David Duchovny). Então ela se lembra que precisa avisar Jerry Sunborne (Benicio Del Toro) de que Steven morreu. Ninguém entende muito bem as razões de querer avisar a esse tal de Jerry, isso porque ninguém sabe que ele é o melhor amigo de Steven. Viciado em heroína, Jerry sempre foi mantido à distância da família. Mas logo Audrey e Jerry unem forças para lidar com seus piores medos e com a perda, enquanto os filhos de Audrey e de Steven, Harper (Alexis Llewellyn) e Dory (Micah Berry), enfrentam a sua maneira tudo o que está acontecendo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que o texto a seguir conta partes importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Things We Lost in the Fire): O que é ter força ou coragem nesta vida? O que é sentir com até o último músculo do corpo e neurônio da mente a vontade de gritar ou de sair correndo e não poder sair do lugar? Os filmes de Hollywood e as propagandas de comercial – ou as frases feitas em livros espalhados nas livrarias desta vida – nos dizem que ter força ou coragem é enfrentar com bravura e honradez as provas mais difíceis. É defender alguém que está sendo agredido na rua, como fez Steven Burke. Ou é ficar do lado da justiça mesmo quando todos estão apontando para outro lado.

Pois nesse filme, em um certo momento, Howard Glassman (John Carroll Lynch, em uma segunda boa intepretação em filmes recentes – a outra foi em Zodiac), vizinho e amigo do casal Burke, comenta com Jerry que lhe admira pela força que este tem para enfrentar o que tem que enfrentar. O outro só repete o elogio. Força? De que mesmo? Acho que esse filme fala de uma maneira delicada mas, ao mesmo tempo, de maneira muito direta e marcante que a pessoa mais forte do mundo é aquela que segue em frente, que aposta na vida, que continua vivendo. A escolha por viver, muitas e muitas vezes, é a mais difícil. Para mim essa mensagem, além de outras, é claro, fez valer cada centímetro desta película.

O filme também toca em outros temas, como a projeção para o outro das nossas expectativas e carências. Esse é outro assunto que acho muito interessante, e de faz tempo. O mais comum é as pessoas realmente atuarem assim, jogando no outro – parceiro ou parceira, amigo ou amiga, mãe ou pai, filho ou filha – as frustrações, desejos, carências e demais sentimentos que não conseguem resolver por si mesmas. Temos exemplo disso no filme. Alguns provisórios e compreensíveis, outros a longo prazo e “covardes”. Coloquei a palavra entre aspas propositalmente por uma razão: cada vez mais acho difícil julgar as pessoas. Cada vez mais acho tudo humano, demasiado humano. E, por isso, compreensível, muito compreensível. Mas, claro, é muito diferente compreender e aceitar. Ainda não aceito muitíssimas coisas. Mas isso é papo para outro dia.

Como eu ia dizendo, Things We Lost in the Fire trata basicamente do tema da perda, de como lidamos com nossos maiores medos ou desejos. Enfim, o que fazemos quando temos muita vontade de sair correndo e escapar e não podemos. Ou o que fazemos quando podemos, mas não queremos ou não suportamos mais. A vida realmente é feita de escolhas… e algumas vezes de difíceis escolhas. Algumas vezes, a mais difícil é a escolha de justamente continuar vivendo quando tudo parece ter perdido o sentido. Mas daí temos que pensar que a vida se vive um dia de cada vez e que, como nos ensina Things We Lost in the Fire, algumas vezes o que precisamos é aceitar o bom. É possível o outro? Sim, claro. Talvez seja o mais fácil. Mas por que não aceitar o bom? Sei de pessoas que não conseguem. Mas podemos tentar, pelo menos?

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Ok, eu sei que eu comentei antes que eu tinha baixado a nota de todos os filmes, mesmo os que já tinham ganhado 10, porque eu queria que só American Gangster tivesse esta nota neste blog. Mas eu me rendo! Eu realmente gostei demais desse filme. A nota 10 única para American Gangster durou pouco. hehehehehehehe

Também sei, e admito, que Things We Lost in the Fire não deve ganhar muitos prêmios nem nada – coisa que eu acho que American Gangster vai ganhar e colecionar. Mas acho, também, que Things We Lost in the Fire (o título em inglês é melhor do que Coisas que Deixamos pelo Caminho, porque esse último realmente corrompe o sentido lírico e poético que o original quer significar) tem boas chances de concorrer e, talvez, ganhar alguns prêmios importantes – comento mais a respeito logo abaixo, no tópico “Palpites para o Oscar”.

Sei que tem outros filmes de que já falei aqui neste blog que mereciam um capítulo a parte sobre a trilha sonora, mas admito que as músicas de Things We Lost in the Fire me pareceram perfeitas. Ouvimos desde Sweet Jane do The Velvet Underground até The Little House I Used To Live In do Frank Zappa, passando por vários outros sons muito bacanas.

Para variar, nem sempre bons filmes merecem boas notas ou conseguem boa bilheteria. Things We Lost in the Fire estreou nos Estados Unidos no dia 21 de outubro e arrecadou, até o dia 4 de novembro, pouco mais de US$ 3,2 milhões. Pouco, pouquíssimo. Detalhe: o filme teria custado aproximadamente US$ 16 milhões. Talvez ele seja descoberto se for indicado a algum prêmio “gordo”, como o Oscar.

No Brasil o filme tem estréia prevista para o dia 18 de janeiro.

No site IMDb a produção ganhou a nota 7,5, enquanto pelo Rotten Tomatoes o filme recebeu 67 críticas positivas e 38 negativas.

Quem assistiu a série Californication não consegue evitar de acompanhar a perfomance de David Duchovny como um pai esforçado com vontade de rir. Não sei os demais, mas eu fiquei o tempo todo esperando ele falar algum palavrão ou alguma besteira, como em Californication. hehehehehehe. Também não sei vocês, mas eu fiquei acompanhando as caras que faz Benicio Del Toro no início, em toda a sequência do funeral, e lembrei muito as caras de Brad Pitt em boa parte de seus filmes… aquela testa franzida não me engana! hehehehehe

O filme é uma co-produção dos Estados Unidos e da Inglaterra.

PALPITE PARA O OSCAR: Acho que o filme pode tranquilamente render uma indicação ao Oscar, por exemplo, para o roteirista Allan Loeb. Também acho que podem ser indicados ao Oscar de melhor atriz e ator Halle Berry e Benicio Del Toro. Os dois, para mim, estão excepcionais em seus papéis. A diretora Susanne Bier merece também todos os louros, porque sua visão poética através da câmera dos detalhes das interpretações, como olhos, mãos, etc., é o que faz o filme ser o que é, uma peça bonita de cinema. Ainda assim, mesmo que mereçam – acho, por exemplo, que Halle Berry mereceria mais uma indicação ao Oscar por esse filme do que Angelina Jolie por A Mighty Heart -, no final das contas parece que o filme realmente não chegará a ser indicado as categorias principais do Oscar. Pelo menos é isso que as indicações ao Globo de Ouro e demais prêmios têm sugerido. Ou seja: no final das contas, Things We Lost in the Fire parece mesmo que não ganhará nada da indústria – talvez algum prêmio independente (OBS: este post foi atualizado em 19 de dezembro, depois das indicações ao Globo de Ouro).

CONCLUSÃO: Um filme poético e filmado com calma e precisão, indicado para quem não vê problemas em acompanhar longos planos de câmera ou que tem paciência para ser envolvido por uma história que foi muito bem escrita. Mais que isso, é um filme que prima pelos detalhes e que salienta o talento de Halle Berry e Benicio Del Toro.

Sobre Alessandra

Jornalista com doutorado pelo curso de Comunicación, Cambio Social y Desarrollo da Universidad Complutense de Madrid, sou uma apaixonada pelo cinema. Em outras palavras, uma cinéfila inveterada. Também tenho Twitter, conta no Facebook, Polldaddy, Youtube, entre outros sites e recursos online. Tenho 20 anos de experiência como jornalista e hoje trabalho com inbound marketing em Florianópolis (SC), Brasil.

9 Respostas

  1. Denise Braga

    Vivi recentemente uma história com grandes semelhanças. Diria que o caráter trágico, devastador até da perda de meu marido, tbm assassinado aos 42 anos em um ato de violência urbana, foi um pouco maior do que no filme, mas admirei imensamente a sensibilidade da diretora Susanne Bier na abordagem dos sentimentos relacionados a tamanha perda e as circunstâncias em questão. E coincidentemente, unimo-nos na troca de conforto e afeto, um amigo que também enfrentava um momento pessoal difícil e eu, ainda que separados pelos milhares de kilômetros que se situam entre o Brasil e a Holanda.
    Não sei se teria conseguido sem ele.

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  2. Elizeu Fellipe

    olá
    Combinação perfeita esses dois Del Toro e Halle. E o que acontece com essa Halle Berry que não faz um filme ruim.
    O nome do filme diz muita coisa; coisas que perdemos coisas pelo caminho – da nossa vida, muitas nós percebemos e muitas não fazemos sequer falta.
    Um filme muito bem explorado, excelente, recomendo. Nota 10 com certeza.
    Lembrando que Halle não está bonita no filme, então se vc for assistir por causa dela, pode ficar sentado. rsrsrsrsrsrrs

    abraços

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