Redacted


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Há poucos comentários atrás, falei que gosto muito de filmes corajosos. E, além disso, gosto muito de filmes bem feitos, no sentido de qualidade técnica e de recursos bem empregados para contar uma história. Se em In the Valley of Elah comentei que gostei da coragem na crítica ao modelo norte-americano de “fazer justiça” no mundo, com Redacted essa máxima continua valendo. O diretor Brian De Palma, que já nos presenteou com filmes muito bons (como Scarface, Os Intocáveis, Carrie e Missão: Impossível) volta a fazer um grande filme com Redacted. Ele utiliza diferentes recursos de imagens – desde um falso documentário de um dos soldados até cenas de noticiários locais, vídeos de Internet, etc. – para nos contar um capítulo na vergonhosa história do Exército dos Estados Unidos na mais recente Guerra do Iraque. Um filme interessante tecnicamente falando e contundente (ainda que sem ser panfletário chato, com “grandes discursos”) enquanto crítica a uma realidade que ainda perdura. Deveria ser indicado ao Oscar e a todos os demais prêmios importantes – ainda que eu ache difícil que isso realmente ocorra. Sempre me lembro de Atonement e sua inevitável indicação ao Oscar e penso que filmes como Redacted deveriam estar em seu lugar.

A HISTÓRIA: O filme pretende contar de maneira ficcional o que ocorreu antes, durante e depois alguns crimes ocorridos na cidade de Samarra, no Iraque, em 2006. Naquela cidade e naquele ano foi registrado o estupro de uma adolescente e o assassinato de várias pessoas de sua família – e dela própria – por alguns soldados do Exército dos Estados Unidos. A narração começa com um vídeo do soldado Angel Salazar (Izzy Diaz), “um latino destes que não podem entrar nos Estados Unidos”, como ele mesmo se define, mas que foi enviado ao Iraque para trabalhar pelo país que lhe rechaça. Depois do “vídeo caseiro” de Salazar, que pensa em documentar o cotidiano de sua tropa para depois conseguir entrar em uma faculdade de cinema, acompanhamos a história dele e dos demais soldados do batalhão através de um “filme” francês chamado “Barricada”, de trechos de reportagens de televisões locais, de vídeos de extremistas publicados pela internet e de vídeos divulgados no YouTube. Além de mostrar o cotidiano dos soldados, o filme conta a relação deles com os iraquianos e como os militares B.B. Rush (Daniel Stewart Sherman) e Reno Flake (Patrick Carroll) intimidam os demais companheiros e conseguem cometer crimes usando a “armadura” do uniforme militar norte-americano.

VOLTANDO À CRÍTICA: O filme de Brian De Palma realmente me agradou. Ao invés de contar uma história de maneira tradicional, filmando tudo como um diretor usual faria, ele se utiliza de todos os recursos modernos de filmagem acessíveis a qualquer pessoa para contar uma história que flerta com o documentário. É o que muitos chamam de “falso documentário”, ou seja, de um trabalho de ficção que se utiliza dos recursos tradicionais do outro gênero. O que me lembra um pouco o “novo jornalismo“, gênero que revolucionou a maneira de se fazer jornalismo e que teve em Gay Talese, Tom Wolfe, John Reed, Truman Capote, Norman Mailer, John Hersey, entre outros, alguns de seus principais expoentes. Para alguns pode parecer exagero, mas vejo nesse tipo de filme de Brian De Palma uma maneira interessante de “brincar” e flertar com outro gênero, neste caso o documentário, da mesma maneira que os jornalistas fizeram com a literatura.

Todos sabem que qualquer guerra propicia crimes. Para alguns a justificativa de uma guerra é manter o controle e garantir a justiça em um determinado local, mas a verdade é que absurdos e injustiças sempre acontecem em um conflito como este, ainda que uma dezena de nações estejam envolvidas. Há pessoas descontroladas que só esperam ter uma arma na mão e o “legítimo” direito de atirar que uma guerra lhes garante para externar toda a sua veia assassina e/ou criminosa. Mas não é apenas de desequilibrados que Redacted fala ou de quem eu tenho medo. Também temo os que são “sensíveis” e corretos e que, em uma situação complicada matam sem pestenajar, podendo ser injustos como no exemplo do filme da mulher grávida que acaba sendo metralhada.

Um capítulo interessante de Redacted, para mim, foi justamente os diferentes recursos de filmagem. Impressionante como muda a narrativa quando o filme passa do “diário pessoal” de Salazar para o filme dos franceses. Achei muito irônico. O mesmo ocorre quando a narrativa passa para a superficialidade dos noticiários locais – que, ainda que superficiais, contam a história de uma ótica muito diferente dos demais e com uma certa “limitação” ou, como o diretor defende, censura. Neste quesito narrativa, gostei em especial dos “vídeos de internet”, tão comuns hoje em dia e que refletem as possibilidades de uma “tomada de poder” das pessoas comuns de diferentes formas – seja pelo extremista que publica como “explodiu um militar” ou de uma pessoa indignada com o que os soldados fizeram com pessoas inocentes.

Gostei muito do filme e fiquei um pouco surpresa de ver que os usuários do site IMDb odiaram ele – afinal, por ali lhe deram uma nota 5,8. Não sei até que ponto eu realmente estou “fora da casinha” ao gostar de um filme como este ou até que ponto o usuário comum do site e a pessoa que anda assistindo a filmes não consegue aceitar uma forma de narrar uma história de maneira diferente ao “cinemão” ao que todos estamos acostumados. De qualquer maneira, continuo dizendo que gostei muito do filme e que recomendo, ainda que me arrisque a indicar um filme que não agrade aos que gostam de “mais do mesmo”.

NOTA: 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O único motivo para que eu não tenha dado uma nota 10 para o filme é que eu acho que ele sofre um pouco de “inocência”. Acho que houve um pouco de exagero do roteirista Brian De Palma em deixar o soldado Lawyer McCoy (Rob Devaney) como o estereótipo de “bom moço” da história, assim como achei um pouco exagerada a carga de “filha-da-puta-mor” de Reno Flake. Neste quesito eu percebi um trabalho melhor em In the Valley of Elah, quando até os “bonzinhos” não eram de todo bonzinhos e nem os “maus” eram de todos malévolos. Como eu disse antes, gostei especialmente dos diferentes recursos utilizados na narrativa e da vontade do diretor e roteirista em criticar a Guerra do Iraque, mas essa “caída” fácil em estereótipos tira um pouco a graça do filme.

Como comentei antes, no site IMDb Redacted conseguiu apenas a nota 5,8. Pelo Rotten Tomatoes o filme conseguiu 36 críticas positivas e 43 negativas. Realmente parece que o filme não agradou a crítica ou público. Lendo as chamadas do que os críticos escreveram, concordo com um comentário: algo que atrapalha o filme são os atores relativamente conhecidos. Não que os rostos sejam bem identificados com outros papéis, mas lembro de ter visto a Izzy Diaz, Patrick Carroll, Rob Devaney, Ty Jones (sargento Sweet), e um ou outro rosto mais em papéis secundários em outros filmes. E se era para ser o mais realista possível, De Palma poderia ter escolhido realmente nomes desconhecidos e ter feito um filme melhor. Nisso eu concordo.

Segundo o site IMDb, Redacted teria custado aproximadamente US$ 5 milhões – um baixíssimo orçamento para os padrões do cinemão norte-americano. O que é mais uma vantagem das técnicas utilizadas por De Palma. O filme estreou nos Estados Unidos com pouquíssimas cópias no dia 18 de novembro de 2007 e faturou, até o dia 9 de dezembro, pouco mais de US$ 62 mil. A verdade é que o filme parece ter sido produzido mais como um panfleto e como um experimento do que como um produto de cinema. Tanto que Redacted participou dos festivais de Veneza, Toronto e do de Nova York e estrou nos cinemas espanhóis em novembro para, só depois, estreiar com cópias limitadas nos Estados Unidos. Em 2008 o filme tem datas de estréia na França, Rússia e Inglaterra, mas não se sabe ainda como será sua carreira nos demais países.

O diretor Brian de Palma ganhou o Leão de Prata do Festival de Veneza com este filme. Fora isso, dificilmente ganhará algo mais. Redacted foi completamente esquecido nos demais prêmios, incluindo o Globo de Ouro.

Atualmente Brian de Palma está trabalhando na produção de The Untouchables: Capone Rising, algo como “Os Intocáveis: O Nascimento de Al Capone”, uma produção prevista para este ano que tem confirmado apenas o escocês Gerard Butler (o ótimo Rei Leônidas em 300) como o policial Jimmy Malone.

O filme é uma co-produção dos Estados Unidos e do Canadá.

PALPITE PARA O OSCAR: Redacted não deve chegar ao Oscar. Como comentei antes, o filme foi esquecido pelo Globo de Ouro e pelas principais premiações de cinema no mundo e, especialmente, nos Estados Unidos. Na minha opinião, deveria ser indicado pelo menos em alguma categoria técnica ou mesmo como filme – ainda que não tenha a qualidade para ganhar. Mas, como cinema, gosto mais dele do que de Atonement, por exemplo. Ainda assim, parece ser muito “panfletário” para chegar perto da Academia.

CONCLUSÃO: Interessante trabalho do diretor e roteirista Brian De Palma ao utilizar diferentes técnicas de vídeo para narrar uma história de abuso de militares dos Estados Unidos na cidade de Samarra durante a ocupação do Iraque na atual guerra naquele país. O filme foge da tradicional forma de narrar uma história e se utiliza dos cada vez mais comuns recursos de filmagens “amadoras”, de cinema e de jornalismo tentando, desta forma, narrar um acontecimento de diferentes ângulos, com diferentes linguagens e intenções.

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4 comentários em “Redacted

  1. Não sei o que mais me deixa puto nestes filmes, se é a covarde brutalidade dos assassinos ou a covardia impassível daquele que não faz nada contra os mesmos.
    Otimo filme, que me dá idéias incríveis, além de me fazer ter nojo cada vez mais de soldadinhos do tio sam e tudo o mais…
    o filme é denúncia do inicio ao fim, para a guerra todos servem para o Tio Sam, desde o miserável latino sem chance alguma de conseguir seu American Dream, até mesmo assassinos vestidos de heróis…todos são apenas mais uma peça na engrenagem capitalista, consumista (aqui num sentido de eliminar tudo ao seu redor) da política americana…

    Abraço!!!

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  2. Oi Rogério!

    Puxa, você realmente ficou indignado com o filme, hein? hehehehehe

    Mas isso é BOM, muito bom! Quem dera que todos ficassem indignados também. Mas muitos, tenho certeza, simplesmente ignoram a realidade (ou seja, nem se dão ao trabalho de ver o filme ou pensar a respeito e ir atrás de mais informação) e outros acham o filme “chato” e tal e nem percebem tudo o que ele fala nas entrelinhas.

    Realmente, é um filme com crítica do início ao fim. Mas não apenas crítica à guerra, mas crítica também à cobertura da imprensa e dos demais órgãos públicos ou privados que cobrem os “fatos” – fatos estes que serão conhecidos como verdade no futuro, ainda que não sejam a verdade.

    Obrigada, mais uma vez, por escrever por aqui. E por visitar o blog. Um grande abraço!

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  3. Olá LL!

    Bem-vindo a este blog. E obrigada pelo teu comentário.

    Só fiquei meio em dúvida com o que quiseste dizer com ele…
    Tu queria dizer que achas a realidade da guerra no Iraque melhor que a ficção de Redacted? E não entendi o Hint… no final.

    Bem, se puderes, tenta me esclarecer essas dúvidas…

    Um grande abraço e volte sempre!

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