Savage Grace – Pecados Inocentes


Tem filmes que impressionam por muitas razões. Savage Grace, por exemplo, demonstra uma potência desconcertante por suas interpretações – especialmente pelo magistral trabalho de Julianne Moore -, por sua história e, porque não dizer, por sua verdade. Até assistí-lo eu não sabia que se tratava de uma história real. Fiquei impressionada com o ponto em que uma família pode chegar devido a obsessões, fraquezas, interesses e descontroles. Os personagens são muito bem desenvolvidos, assim como a história contada – ainda que dura de se assistir, algumas vezes – também vá se desenrolando naturalmente até os extremos não previstos. Uma bela peça de cinema e, principalmente, uma interpretação de Julianne Moore que entra para as grandes de uma atriz nos últimos anos.

A HISTÓRIA: Tony Baekeland (interpretado por Barney Clark quando criança e, depois, pelo inglês Eddie Redmayne nas fases seguintes) nasceu no berço esplêndido do casal Barbara (Julianne Moore) e Brooks (o também inglês Stephen Dillane). Quando bebê, na Nova York de 1946, ele era cuidado pela avó Nini Daly (Anne Reid) quando os pais resolviam ir a algum de seus inúmeros eventos sociais. Conforme o garoto vai crescendo, a família muda de cidade e de país várias vezes, agravando os sentimentos de atração e repúdio entre os seus três integrantes, até o ponto em que a convivência desmorona e Tony se vê obrigado a cuidar da mãe, manipuladora, consumista e carente de atenção.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir estraga as surpresas do filme, por isso só recomendo que continue lendo quem já assistiu a Savage Grace): Difícil resumir um filme como este em uma crítica. Ele tem várias nuances, interpretações e camadas de informação. Mas o resumo pode ser o seguinte: Savage Grace conta a história de uma família que vai sendo dinamitada de dentro para fora pouco a pouco, ano após ano. Cada personagem é complexo. Um trabalho realmente difícil de ser levado para o cinema e que foi feito de maneira exemplar, na minha opinião, pelo roteirista Howard A. Rodman. Não sei quanto foi mérito apenas dele ou do livro de Natalie Robins e de Steven M. L. Aronson no qual ele se inspirou para escrever o roteiro. De qualquer forma, achei ele deliciosamente bem escrito.

O diretor Tom Kalin também me impressionou. Ele conseguiu sacar o mais belo e selvagem de cada personagem, dando especial atenção para a relação principal desta história: entre mãe e filho. Junto com eles, trabalhou com primor o diretor de fotografia Juan Miguel Azpiroz – responsável por importantes variações de cor e texturas de imagem durante a passagem de tempo no filme – e a trilha sonora clássica assinada por Fernando Velázquez.

Apenas no final do filme eu soube que se tratava de uma história real. Fiquei impressionada. Ok que sabemos que existem absurdos acontecendo mundo afora, crianças sendo maltratadas e sofrendo abuso sexual pelos próprios pais, assassinatos sendo praticados dentro de uma mesma família depois de anos de repressão, etc., mas é muito diferente assistir isso através da narrativa do principal envolvido. Acompanhar tudo o que aconteceu ao redor de Tony, vislumbrar a ladeira abaixo que seguiu uma família “rica” da sociedade norte-americana, realmente foi impactante. É muito diferente você assistir uma notícia na televisão (no meu caso isso não acontece porque não assisto TV) ou ler algo sobre um caso assim no jornal e ler um livro ou ver um filme que conta em detalhes o que aconteceu.

Para mim o filme é, entre outras coisas, uma crítica mordaz ao “way of life” (modelo de vida) estadunidense, tão cercado de pudores e de discursos e que, na prática, se visto com lente de aumento, se percebe podre  e corrupto. Acho que um dos pontos fortes do filme é justamente mostrar como tal decadência surge justamente nas famílias, passando depois para as rodas de amigos, negócios e tudo o demais. Com isso não quero dizer que os habitantes dos Estados Unidos são mais podres que outros, mas sim que eles tentam vender uma imagem de puritanismo, sistema de vida perfeito, patriotismo e tudo o mais que se percebe bastante hipócrita.

(SPOILER – não leia se não assistiu ao filme ainda). Mas além desta visão “paralela” do filme, acredito que Savage Grace se torna impactante por tocar em vários temas ainda considerados “tabus”, como o incesto, o adultério, a homossexualidade, entre outros. Existem cenas realmente muito fortes, por isso o filme é recomendado apenas para adultos – e especialmente para quem não tem receio de ver determinados fatos reais sendo mostrados de maneira bastante crua.

Outro aspecto interessante do filme é que ele mostra como um indivíduo pode ser muitas pessoas ao mesmo tempo. Barbara era uma pessoa encantadora, doce, charmosa e instigante na sociedade. Alguém que entrava em uma sala e não deixava as pessoas incôlumes. Mas ela era também uma mulher manipuladora, insegura, desequilibrada e neurótica em outros sentidos – especialmente com o marido e o filho. E isso praticamente ocorria com todos os personagens, que se mostravam de diferentes maneiras conforme o contexto.

Falando dos personagens, algo interessante do filme é que ele mostra as diferentes “responsabilidades” de cada um na história. Afinal, para Tony foi tão importante a ausência e o desprezo do pai – para o qual seguia escrevendo cartas para as quais não tinha resposta – quanto a dependência e o controle que exercia a mãe na sua vida. Também a descoberta da sua sexualidade e a relação conturbada com Sam (o sempre ótimo Hugh Dancy), um merchandt bissexual que causou a ruptura do relacionamento que ele vinha tendo com Jake (Unax Ugalde) mexeu com a sanidade do rapaz. A ponto de que a briga sobre um medalhão que ele vinha carregando como o seu único bem legítimo levou ao final perturbador do filme.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme demorou oito anos para sair do papel. A razão? Segundo um dos produtores, Iker Monfort, o culpado foi o “puritanismo dominante” nos Estados Unidos. Savage Grace estreou no Festival de Cannes no ano passado conquistando o público da mostra paralela Quinzena dos Realizadores. O filme ainda foi selecionado para os festivais de Sundance e Tribeca.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como foi sugerido antes, Savage Grace conta o que ocorreu na família Baekeland antes da morte de Barbara, em 11 de novembro de 1972. Para os que gostam de temas de crimes, se trata de uma interessante leitura sobre as razões que vão formando a personalidade de um assassino e a oportunidade para um crime como este.

O filme narra a história de Barbara em seis “episódios”, que vão da Nova York de 1946 até a Londres de 1972, passando Cadaqués, Maiorca (ambas cidades na Espanha) e Paris. Segundo notas da produtora, Barbara nasceu perto de Boston em 1920. Na adolescência ela perdeu o pai, que se matou. O corpo dele foi encontrado pelo irmão de Barbara que, alguns anos depois, morreu em um acidente de carro. Bonita, carismática e ambiciosa, ela tentou ascender socialmente envolvendo-se com pessoas da alta classe, mas acabou tentando a vida de atriz em Hollywood no início dos anos 40. Antes mesmo de seguir com a carreira, ela se casa com Brooks Baekeland, neto e herdeiro de Leo Baekeland, químico belga inventor de um plástico chamado Baquelita.

O diretor Tom Kalin estreou nos cinemas com Swoon – Colapso do Desejo, de 1992. Depois, filmou vários curtas, caracterizando seu trabalho por temas como a homossexualidade e a AIDS. Savage Grace é seu retorno aos longa-metragens depois de 15 anos longe de produções desta categoria.

Os usuários do site IMDb conferiram a nota 5,9 para o filme. Achei muito, muito baixa. Talvez tal nota foi motivada pelo duro que alguns temas ainda são vistos pela maioria do público. Realmente não é um filme fácil. O que achei interessante é que os críticos também não foram mais condescendentes: aqueles que tem textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram 45 textos negativos e 31 positivos para o filme.

Além dos atores que eu já tinha comentado, destaco as participações das espanholas Belén Rueda como Pilar Durán, amiga da família Baekeland; e de Elena Anaya como Blanca, a mulher que acaba dividindo a atenção dos dois homens da família.

O filme teria custado aproximadamente US$ 4,6 milhões – um orçamento relativamente baixo para os padrões de Hollywood, especialmente por ter sido filmado em mais de um país. Aliás, o filme realmente foi rodado em Barcelona e Sitges (Espanha), na França, e em Londres (Inglaterra). Com uma distribuição super pequena, ele conseguiu nos Estados Unidos pouco mais de US$ 434 mil. Talvez em DVD ele consiga um desempenho melhor – ainda que eu acho difícil por sua temática e porque poucos parecem estar indicando o filme.

Gostei muito também do trabalho de figurino de Gabriela Salaverri e da cenografia de Deborah Chambers. Diferentes épocas e diferentes cidades que foram perfeitamente retratados em roupas e caracterização de cenários. Savage Grace é uma produção da Espanha, França e Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Um filme difícil sobre temas polêmicos como o adultério, o incesto e a homossexualidade. Conta a história da família de uma mulher que ascendeu socialmente e que viu a sua vida mudar quando perdeu a “galinha dos ovos de ouro”. Uma interpretação primorosa de Julianne Moore, acompanhada de perto por outros atores excelentes. Com cenas fortes, é um drama para quem não se importa de ver “verdades difíceis” algumas vezes de acreditar. Ou, como diz com muita propriedade a frase que está no cartaz do filme “a verdade é mais chocante que a ficção”. Algumas vezes, pelo menos.

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6 comentários em “Savage Grace – Pecados Inocentes

  1. Oi Rogério!!!

    Obrigada pelo teu comentário. Ainda mais vindo de você, um artista… tenho que ficar feliz mesmo!

    Pois é, estava na hora de mudar. De tempos em tempos acho importante mudar as coisas, nem que for o layout do nosso blog, né? hehehehehehehehe

    E aí, como demorei tanto para responder teu recado, já tiveste tempo de ver o filme? Depois que assistí-lo, venha aqui comentar o que você achou, viu?

    Um grande abraço!

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  2. Oi I3on!!

    Olha, acho que não é “todo mundo” que gosta da Julianne Moore não… só acho que deve ser a maioria. 😉
    Agora, nem te estressa… tem gente que não gosta da Michelle Pfeifer, da Nicole Kidman, da Susan Sarandon, da Jodie Foster ou da Meryl Streep. Ninguém acho que consegue a unanimidade. Ainda bem, eu diria.

    Eu não sei os demais – porque não falo pelos outros -, mas eu gosto dela porque acho uma atriz bem versátil e competente. Quase todos os filmes que ela faz eu gosto, assim como do desempenho dela. Realmente acho que ela expressa muito apenas com o olhar, com os gestos, vejo que ela tem muita sensibilidade na “troca” com os outros atores e na percepção dos momentos certos de reagir ao que acontece em cena. Mas essa é minha opinião… com a qual, claro, você não precisa estar de acordo.

    Ah, e antes de me despedir… muito obrigada por tua visita e pelo teu comentário. Espero que ambos se repitam muitas vezes ainda.

    Um grande abraço!!

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