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1917

Um dos melhores filmes de guerra que eu já vi – e, possivelmente, que você verá na vida. Uma história narrada com esmero técnico, com cenas impressionantes, profundidade emocional e tempo para contemplação. Diferente dos filmes sobre a Segunda Guerra Mundial, 1917 não se preocupa com grandes batalhas. Ainda assim, o filme tem seus momentos de ação e, principalmente, de grandes atuações e de emoção. Um filme marcante, inesquecível, e que deve ser visto no cinema.

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Dolor y Gloria – Pain and Glory – Dor e Glória

Não importa o quanto brilhante alguém possa ser. Mais cedo ou mais tarde, ele não vai fugir da sua condição humana. E essa condição prevê muitos aspectos, inclusive a dor. Pedro Almodóvar volta a fazer um cinema bastante autoral, com uma carga de DNA espanhol novamente acentuado. Dolor y Gloria é uma mescla de presente com lembranças e sensações do passado na mesma medida em que é um reencontro de um cineasta com a sua inspiração. Perder-se e encontrar-se parece uma regra da vida, e algo muito presente nesta produção.

A HISTÓRIA: Em uma piscina, está submergido o cineasta Salvador Mallo (Antonio Banderas). Nas costas dele, uma cicatriz que percorre grande parte do seu corpo. Dentro da água, ele se lembra de uma cena antiga, quando a mãe dele, Jacinta (Penélope Cruz), estava com outras mulheres lavando roupa na margem de um rio. Sobre as costas da mãe, o jovem Salvador presta atenção em tudo que as mulheres falam. Em breve, Rosita (Rosalía) e suas companheiras Mari (Marisol Muriel) e Mercedes (Paqui Horcajo) vão soltar a voz cantando. Essa é uma das muitas lembranças do passado que embalam o presente de Salvador, um cineasta que parou de trabalhar por causa de seus problemas de saúde, especialmente das dores que tem na coluna e na cabeça.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte deste texto conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Dolor y Gloria): Possivelmente, se olharmos “à ferro e fogo”, essa produção não merece a nota alta que eu estou dando logo mais. Dolor y Gloria não é o melhor filme de Almodóvar e, possivelmente, lutaria para estar na lista dos 10 melhores do diretor. Mas depois de vê-lo fazendo produções bem “mais ou menos”, admito que gostei de assistir a um filme mais sóbrio e honesto do diretor.

Isso e mais o fato de eu ser neta de espanhóis e, por isso, entender um bocado sobre a essência desta cultura, me fez gostar realmente deste novo filme do diretor. Algo que apreciei em Dolor y Gloria é que Almodóvar parece mais maduro, menos preocupado em impressionar ou em impactar. Este é um de seus filmes mais sóbrios, uma de suas produções mais afetivas – ou, ao menos, assim parece. E eu gostei disso.

Acho que Almodóvar se dá bem em dois tipos de filmes, essencialmente: naqueles em que ele não se preocupa com os padrões e dá vazão para os desejos e para o lado cômico da vida, e naqueles em que ele faz um mergulho emocional, cultural e até filosófico em aspectos relacionados com as suas origens (em suma, com a Espanha). Dolor y Gloria faz parte do segundo tipo de filme, mas sem esquecer um pouco da libido que é quase uma assinatura do diretor.

Algo que me chamou a atenção desde o início desta produção: o excelente trabalho de Antonio Banderas. O ator, um dos preferidos de Almodóvar, captou muito bem a essência de seu papel e o seu desafio como Salvador Mallo. O seu trabalho, atencioso a cada detalhe, é um dos pontos altos do filme.

Assim como o roteiro de Almodóvar que, apesar de navegar por recursos já bem conhecidos – até batidos -, como pode ser o ir-e-vir da história em dois tempos (presente e passado), consegue manter um bom ritmo e o interesse dos espectadores em uma história que mistura aspectos culturais fortes da Espanha com questões universais – como a morte, o amor, a gratidão e a dor.

A história em si, em uma primeira análise, parece já conhecida também. Um diretor de cinema que parou de trabalhar porque já viveu o auge da sua carreira e que acaba, meio que sem querer, revisitando o próprio passado/êxito. As semelhanças com outras histórias terminam aí, me parece, porque não lembro de outro filme que trate de uma pessoa de sucesso, uma das referências do cinema de um país, que enfrente tanto o aspecto da dor.

Interessante – e muito válido – como Almodóvar não trata apenas das dores físicas, mas das dores psicológicas e “da alma”. Sabemos que somos feitos de diversos elementos e de muitos aspectos, e que o desequilíbrio de uma parte pode afetar todas – ou quase todas – as demais, provocando uma cadeia de problemas e, como bem explora esta produção, de dores. Então algo que eu achei interessante e muito marcante nesta produção é essa reflexão sobre finitude e humanidade que o roteiro de Almodóvar nos traz.

Como comentei lá no início, não importa o quanto uma pessoa pode ser grande na sua arte, o quanto ela pode ser respeitada e admirada dentro e fora do seu país. Como todas as demais, inclusive as anônimas, ela também passará por dificuldades, por dores, fraquezas, pela perda e pela solidão. Terá limitações físicas, deixará de fazer o que ama por um período, irá se perder e, se tiver sorte, conseguirá se encontrar apesar de tudo.

Isso é o que vemos em Dolor y Gloria. Mas não apenas isso. Além das limitações e das dores que, inevitavelmente, serão conhecidas por todos em algum momento das suas vidas, temos também tudo aquilo que nos faz seguir adiante e o que faz todo o restante – inclusive a dor – valer a pena. Nessa caixinha apresentada por Almodóvar estão as lembranças afetivas, o amor que nos une e que alimentamos, e o bem que podemos ter feito no caminho.

O protagonista desta produção sai de um estado de isolamento e de desânimo para fazer as pazes com diversas pessoas do seu passado – algumas vivas, outras mortas (sendo a principal delas, a sua mãe) ou de paredeiro desconhecido. Ao sair do casulo e se aproximar dos demais, ele faz a própria história avançar e evoluir.

Um exemplo disso acontece quando ele procura o ator Alberto Crespo (Asier Etxeandia), que estrelou o seu primeiro grande sucesso e com quem ele não falava há 32 anos. Como o filme que eles fizeram junto será homenageado e eles foram convidados para falarem da produção após a sua exibição, o protagonista se sente motivado a procurar Alberto. Isso após assistir ao próprio filme novamente e vê-lo com um olhar menos duro e crítico.

Como Zulema (Cecilia Roth em uma pequena ponta) diz para ele, o filme continua sendo o mesmo, o olhar de Salvador é que mudou. E isso acontece com a gente mesmo. O tempo passa e o nosso olhar para as obras, as nossas e as dos outros, muda. Isso acontece porque a gente também mudou no caminho. Bem, ao fazer o gesto de procurar Alberto, Salvador acaba desencadeando diversos acontecimentos que vão acabar mudando a sua vida.

Para começar, quem diria, ele se joga em um vício que ele sempre condenou. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No passado, ele evitou de cair no vício da heroína (chamada de “caballo” ou “dama branca” na Espanha). Agora, quando os remédios já não fazem o efeito que ele gostaria para que a sua dor passe, ele acaba mergulhando neste vício junto com Alberto.

O ator, que teve muito menos sucesso e dinheiro que o diretor, está desesperado por um novo trabalho. Ao ler um texto de Salvador, Alberto sabe que pode fazer sucesso com aquele material. Ao concordar em ceder o texto para o ator, o protagonista acaba tendo um encontro emocionante com o seu grande amor do passado. Isso lhe dá uma motivação que há muito tempo ele não tinha. Ao procurar ajuda, bem na reta final da produção, ele também se depara com o seu primeiro desejo – e a lembrança da descoberta da sua sexualidade.

Mas, mais do que isso, ao encontrar o trabalho de Eduardo (César Vicente), o protagonista se depara com uma das partes mais importantes da sua vida. Neste momento, Dolor y Gloria mostra a sua potência ao nos fazer refletir que não importa toda a dificuldade que o protagonista passou ou esteja passando. Não importa o resultado de sua cirurgia, se ele continuará sentindo pouca ou muita dor, se ele sairá da depressão ou continuará a trabalhar.

O que realmente importa é quantas pessoas ele inspirou com o seu trabalho e talento e, no caso de Eduardo, o bem que ele deixou pelo caminho. No fundo, Salvador nunca saberá o quanto ele mudou a vida de Eduardo, uma pessoa simples que ele conheceu no “pueblo” em que ele foi morar com os pais quando era criança. Mas, certamente, ele fez muita diferença ao ensiná-lo a ler e a escrever. Depois, ele ainda deixaria uma obra que influenciaria e inspiraria muita gente. Isso, e mais o amor que ele viveu aqui e ali, é o que fica e o que importa no final.

Tratar de tudo isso sem forçar a barra, mas ligando o presente do protagonista com o seu passado e com as suas lembranças, é o que de melhor Almodóvar poderia nos apresentar. Gostei do resultado sóbrio desta produção. Um filme que, além de tudo que eu comentei, ainda nos apresenta uma Espanha com raízes firmes na cultura de “pueblo”, de pessoas simples e que tinham no apoio da Igreja uma forma de educar os seus filhos. Uma cultura na qual o papel da mulher e da mãe é extremamente forte e marcante. Tudo isso muito bem tratado nesta produção.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eita que era para eu começar a escrever menos sobre os filmes, não é mesmo? Ao menos foi isso que eu comentei há algum tempo por aqui. Mas falar de um filme de Almodóvar escrevendo pouco é algo difícil. Especialmente quando é um filme tão carregado de mensagens, reflexões e de reminiscências como este Dolor y Gloria. Então me perdoem, mas tive que romper o meu desejo de escrever pouco ao falar deste filme. 😉

Sou franca em dizer que eu não estava esperando muito desta produção. Primeiro porque há tempos eu não via a algo bom vindo de Antonio Banderas e, sou franca em dizer, tenho um pouco de preguiça com Penélope Cruz. Mas gostei de me enganar com ambos. Para mim, sob a direção de Almodóvar, que deve conhecer a dupla de atores como poucos, ambos fizeram um trabalho muito bom. Me arrisco a dizer que entregaram dois desempenhos como há muito não se via na carreira deles. A meu ver, tanto Banderas quanto Penélope amadureceram. E isso é positivo.

Gostei também da produção focar tanto em Madrid, cidade que tanto Almodóvar quanto eu somos apaixonados, quanto nos lugares do interior em que o protagonista morou quando era criança. Sem dúvida esses lugares lhe marcaram e ajudaram a lhe formar como pessoa. As suas lembranças daquela fase de pobreza, mas também de admiração com as coisas simples e com a presença forte da mãe, foram determinantes para a sua obra e a sua vida. Tudo isso é muito bem retratado pelo diretor que, claramente, faz uma homenagem à sua própria história.

Apesar do recurso batido usado pelo diretor de intercalar o tempo presente do protagonista com as suas lembranças do passado – o que, em outro contexto, poderia parecer forçado e repetitivo mas, neste caso, funciona pela fase de vida na qual Salvador Mallo está passando -, gostei do ritmo que ele dá para o filme. Dolor y Gloria tem um bom desenvolvimento, sem nunca acelerar o passo. Parece até que ouvimos a história da produção em uma conversa em uma longa caminhada. Ou na mesa de um bar. Tudo contado de forma espaçada, em um ritmo cadenciado e constante. Não há momentos de aceleração e nem de tédio. Achei isso positivo.

A direção de Almodóvar busca valorizar o trabalho dos atores, em primeiro plano, mas sem esquecer do ambiente em que eles estão inseridos. O contexto, aliás, sempre foi algo importante para o diretor. Então os cenários, os locais pelos quais os personagens passam e onde eles se movimentam também é importante. Mas, como sempre, o diretor se destaca pelo trabalho com os atores. E o elenco dele, mais uma vez, foi escolhido a dedo. Muito boa cada escolha, inclusive dos grandes atores que aparecem em pontas.

Falando em elenco, sem dúvida alguma os grandes destaques são Antonio Banderas, como Salvador Mallo; Penélope Cruz como a mãe do protagonista quando ele era criança; e Asier Flores, como o Salvador quando menino. Eles roubam a cena sempre que aparecem. Mas, além deles, outros atores se destacam em papéis secundários, como Asier Etxeandia como Alberto Crespo – especialmente quando ele interpreta o monólogo de Salvador; Leonardo Sbaraglia rouba a cena como Federico Delgado; Nora Navas está muito bem como a amiga do protagonista, Mercedes; Julieta Serrano faz um trabalho tocante como Jacinta na velhice; César Vicente como Eduardo e Sara Sierra como a empregada Conchita.

Além deles, vale citar alguns trabalhos pequenos, mas de nomes expressivos, como Cecilia Roth como Zulema, velha conhecida de Salvador e que acaba dando o contato de Alberto para ele; Susi Sánchez como a beata que ajuda Jacinta a dar educação para o filho através da Igreja; Raúl Arévalo como Venancio Mallo, pai de Salvador; Pedro Casablanc como Dr. Galindo; Eva Martín como a radióloga que diagnostica o protagonista; as atrizes que fazem as lavadeiras e que já foram citadas; e, por curiosidade, Agustín Almodóvar como o padre que estimula o protagonista a ser solista do coral. Agustín é irmão de Pedro Almodóvar e, além de ator, produtor – inclusive deste filme.

Entre os aspectos técnicos desta produção, destaque para a direção de fotografia de José Luis Alcaine; para a trilha sonora de Alberto Iglesia, grande parceiro de Almodóvar; para a edição de Teresa Font; para o design de produção de Antxón Gómez; para a direção de arte de María Clara Notari; para os figurinos de Paola Torres; e para o trabalho dos 10 profissionais envolvidos com o Departamento de Arte.

Dolor y Gloria estreou em première em Madrid no dia 13 de março. Depois, em maio, o filme participou do Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme participou, ainda, de outros oito festivais de cinema, como os de Toronto, Munique e Sydney. Em sua trajetória, até o momento, o filme ganhou quatro prêmios e foi indicado a outros sete. Os prêmios que ele recebeu foram o de Melhor Ator para Antonio Banderas e de Melhor Compositor para Alberto Iglesias no Festival de Cinema de Cannes; e os de Melhor Ator e Prêmio do Júri dados pelo International Cinephile Society Awards.

Vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. Essa é a primeira colaboração de Julieta Serrano com Almodóvar depois de quase 30 anos deles terem trabalhado juntos em várias produções. Ela participou, entre outros filmes, de filmes que fizeram o início da carreira do diretor, nos anos 1980, como Pepi, Luci, Bom y otras Chicas del Montón (1980); Entre Tinieblas (1983); Matador (1986); !Átame! (1989); e Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios (1988).

Esse é o oitavo filme de Almodóvar com Antonio Banderas e o sexto dele com Penélope Cruz. Juntos, antes deste filme, os dois atores estrelaram outra produção de Almodóvar, Los Amantes Pasajeros (comentado aqui e, francamente, um dos piores – se não o pior – filme do diretor).

Julieta Serrano e Antonio Banderas viveram mãe e filho em outros dois filmes de Almodóvar: Matador e Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios.

Sempre que possível, acho interessante ler a opinião do realizador sobre a sua própria obra. Procurando saber o que Almodóvar disse sobre Dolor y Gloria, encontrei esse texto interessante escrito por ele para El Mundo. Segundo Almodóvar, sem ter pensado nisso, Dolor y Gloria é a terceira parte de uma trilogia que demorou 32 anos para ser completada – as outras partes seriam, segundo o diretor, La Ley del Deseo e La Mala Educación.

Os pilares dessas histórias seriam o desejo e a ficção cinematográfica, segundo Almodóvar. “Ficção e vida fazem parte da mesma moeda, e a vida sempre inclui dor e desejo”, escreveu o diretor. Ele também comenta como esta, igual que as suas duas anteriores obras, é uma produção com homens como protagonistas. E sim, o filme também é uma homenagem ao cinema – algo que não comentei antes, mas que é evidente para quem o assiste.

Também vale citar este outro artigo escrito por Almodóvar e publicado em El País. O texto dele começa assim: “Dolor y Gloria é um filme baseado na minha vida? Não e sim, absolutamente. Todos os meus filmes me representam. É verdade que este (filme) me representa mais, mas sempre que eu começo a escrever sobre uma base conhecida – que tem origem na realidade, de algo que eu li no jornal, que tenham me contado, do que eu testemunhei ou simplesmente um episódio da minha própria vivência – a história começa a encontrar o seu verdadeiro caminho (cinematográfico, neste caso) para ser convertida em ficção”.

O restante do texto dele é bastante ilustrativo e explica bastante do filme, mas vou citar apenas uma outra parte que achei importante: “Dolor y Gloria não é auto-ficção, mas é verdade que o filme parte de mim mesmo. Não existiria roteiro se eu não tivesse sido operado das costas e vivido um longo pós-operatório e a imobilidade que veio depois, assim como a mudança radical que experimentam os músculos para compensar a ‘fixação’ da metade lombar”. Segundo o diretor, o personagem passou por situações piores que as dele.

Almodóvar também comenta que partiu de “sentimentos próprios reais” para escrever sobre a relação do protagonista com as pessoas, mas que isso serviu para a primeira linha e que o restante foi movido pela “força da ficção”. O diretor ainda afirma: “Tudo no meu cinema é representação, sempre fugi do naturalismo, não pretendo que os meus filmes pareçam reais. Mas sim pretendo que o espectador se reconheça neles”. Vale ler o texto todo.

Para quem se interessa pelas locações dos filmes, vale citar em que lugares Dolor y Gloria foi filmado. Além de Madrid, que é o local do “tempo presente” do protagonista, foi local de gravações a cidade de Paterna, em Valência, onde é filmado o “pueblo” em que a família de Salvador vai morar. Achei interessante eles irem morar em uma “casa cueva”, algo que realmente existe em diversas partes da Espanha até hoje – mas, geralmente, nas montanhas.

Como Dolor y Gloria mistura e/ou se inspira em realidade e em ficção e, claramente, faz uma homenagem ao cinema e ao seu papel na vida do protagonista, impossível não lembrar de 8 1/2, do Federico Fellini. Sem dúvidas Almodóvar se inspirou nele.

Assisti aos filmes antigos de Almodóvar, mas o blog não existia – e eu nem escrevia sobre filmes ainda. Mas é possível encontrar filmes mais recentes do diretor aqui no blog. Vocês podem acessar, por aqui, crítica dos seguintes filmes do diretor: Julieta; La Piel que Habito e Los Abrazos Rotos – além de Los Amantes Pasajeros, já citado antes.

Esse filme é uma produção 100% da Espanha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 45 críticas positivas e quatro negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 7,83. No site Metacritic o filme registra o “metascore” 81, fruto de 11 críticas positivas e três críticas medianas. Segundo o site Box Office Mojo, o filme fez US$ 21 milhões nas bilheterias fora dos Estados Unidos – não há dados sobre o resultado em solo americano.

ADENDO (31/12): Dolor y Gloria foi indicado em duas categorias do Globo de Ouro 2020: Melhor Filme – Língua Estrangeira e Melhor Ator – Drama para Antonio Banderas. Achei muito bacana terem indicado Banderas. Afinal, o trabalho dele neste filme está incrível, muito rico e maduro. Além disso, acho esse ator pouco valorizado pelo cinema. Então fico feliz por ele ter recebido uma indicação – mas não deve levar.

CONCLUSÃO: Um filme que fala sobre diversos aspectos fundamentais da vida, especialmente para quem já passou do “auge da juventude”. Dolor y Gloria nos traz um Almodóvar amadurecido e que parece ter aprendido bastante com os dois aspectos que ele escolheu para intitular a sua nova produção. Um filme que apresenta um bom ritmo, interpretações interessantes e mais um mergulho muito bem feito na Espanha profunda.

O recurso de “reminiscências” e de intercalar presente com passado já é conhecido, e até batido, mas funciona bem nesta produção por causa do talento dos atores. O melhor do filme, a meu ver, é a reflexão que ele faz sobre os limites do ser apesar da eternidade do talento. Mais um bom filme com a marca do grande Almodóvar.

PALPITES PARA O OSCAR 2020: Dolor y Gloria avançou na disputa do Oscar na rebatizada categoria Melhor Filme Internacional (antes, até 2019, chamada Melhor Filme em Língua Estrangeira). Além dele, até o momento, assisti apenas a Parasite (com crítica neste link). Preciso ver aos outros indicados (a saber, The Painted Bird, Truth and Justice, Les Misérables, Those Who Remained, Honeyland, Corpus Christi, Beanpole e Atlantics).

Mas me parece, neste momento, que os favoritos para chegar na lista dos cinco finalistas nesta categoria são Parasite, Dolor y Gloria, Corpus Christi, Atlantics e Les Misérables. Ainda a confirmar esta lista. Dito isso, acho sim que Dolor y Gloria chega na disputa final com muitos méritos – e também pela força da interpretação de Banderas e pelo nome de Almodòvar. Ganhar o prêmio, me parece, é uma tarefa muito mais difícil. Até o momento, eu apostaria em Parasite para isso.

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Papillon

A honra não tem a ver com seguir tradições ou regras. A honra tem a ver com fazer o que é certo, buscar a liberdade e a justiça e defender a vida do seu amigo mesmo quando esta defesa coloca a sua própria vida em risco. Papillon nos conta uma história incrível de busca incessante por liberdade e pelo lugar de uma pessoa no mundo. A história é tão incrível que nem parece que ela é baseada em fatos reais, mas Papillon realmente existiu. Um filme delicado, muito bonito e sensível, apesar de toda a dureza da história. Vale ser visto.

A HISTÓRIA: Começa nos contando que o que veremos é baseado em uma história real. Vemos a uma cela antiga. Do fundo da cela, caminha lentamente para a frente, Papillon (Charlie Hunnam). Ele passa a cabeça pelo buraco da porta e olha ao redor. Corta. O mesmo Papillon, mas agora bem vestido, escuta com atenção as engrenagens de um cofre. O ano é 1931, e o local, Paris. Depois de abrir o cofre, Papillon pega os diamantes e sai pelas ruas. Vai até um clube, onde encontra o chefe da quadrilha e a sua namorada, Nenette (Eve Hewson).

Ele entrega os diamantes que roubou para o chefe da quadrilha. No final da noite, do lado de fora do clube, ele presenteia a namorada com um colar e algumas pedras que pegou do roubo. Um capanga de Jean Castili (Christopher Fairbank) vê a cena. Papillon e Nenette saem dali para comemorar. Passam uma noite divertida mas, na manhã seguinte, a polícia prende Papillon sob a acusação de ter matado um desafeto do chefe. Ele é condenado à prisão perpétua e enviado para a Guinea Francesa junto com vários outros condenados. Passará por maus bocados, mas nunca desistirá de sonhar com a  liberdade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto a seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Papillon): Assisti a esse filme há algumas semanas. Então me perdoem se eu não tenho ele tão “fresco” na memória como eu gostaria. Mas lembro do principal, disso podem ter certeza.

Fui ao cinema curiosa para ver a uma refilmagem de um clássico. Há ainda mais tempo, acredito que quando era criança ou adolescente, assisti ao Papillon original, com o grande Steve McQueen no papel principal. A história já era impressionante naquele momento. Na verdade, imagino que em qualquer época a história de Papillon e do que era feito com os presos nos anos 1930 na França impressionem.

Papillon trata de diversos pontos fundamentais sobre a busca da sociedade por regras e limites para os atos individuais e da busca incessante dos indivíduos por viver, ter liberdade e buscarem o seu lugar no mundo. Toda essa falta de compasso entre estas duas necessidades, da sociedade e do indivíduo, assistimos nessa nova versão da história que mexeu com a França e com outros países quando ela veio à tona.

Algo que chama a atenção em Papillon na versão 2017, desde o início, é a ótima fotografia da produção. O filme é lindo, com imagens incríveis e um cuidado com o visual que não pode ser negado. Além disso, logo após a introdução da cela, o mergulho na Paris de 1931 já serve como um belo cartão de visitas sobre o que veremos adiante em termos de reconstituição de época. Um trabalho primoroso também, tanto nos figurinos quanto nas locações.

Além do aspecto visual e da reconstrução de época, pontos que Papillon tem como destaque, vale comentar também o trabalho competente do elenco e falar da história, é claro. Gostei na forma com que o diretor Michael Noer tratou o roteiro de Aaron Guzikowski, que se baseou no roteiro do Papillon de 1973, escrito por Dalton Trumbo e Lorenzo Semple Jr., e no livro Papillon e Banco, escritos por Henri Charrière.

Claro que o roteiro segue aquela linha clássica. Começa com uma cena do “presente” para depois retomar o “passado” para contar como Papillon chegou naquela cela. A partir do retorno para a Paris de 1931, a narrativa passa a ser linear. O principal destaque desta narrativa, a meu ver, é que o filme é bastante econômico em momentos que não são realmente relevantes para a história, como a encrenca que leva Papillon para a prisão, ao mesmo tempo em que explora com muita calma e até uma certa “lentidão” outros momentos importantes, como as fases de solitária do protagonista.

A intenção do roteiro de Guzikowki e da direção de Noer é clara. Eles querem que o espectador sinta ao menos um pouquinho a angústia, o peso do tempo e da solidão que o protagonista sentiu naquelas situações de isolamento. As regras da prisão para a qual Papillon e vários outros foram mandadas eram bastante diretas e duras. Ali, uma vida valia pouco.

Como o diretor da prisão comentou, para eles um preso morto dava menos despesa e trabalho do que um preso vivo. Nesse cenário, temos a um ladrão injustamente condenado por homicídio. Sim, Papillon não era santo, mas será que ele ou qualquer outro indivíduo mereciam aquele tipo de tratamento? Frente àquela situação, o mais incrível de Papillon é que ele nunca desistiu.

Mesmo passando fome, sendo agredido, tendo que estar constantemente atento para defender a própria vida e sendo isolado para ser “quebrado” pela solidão, pela falta de comida, atividade física e contato com outras pessoas, ele nunca desistiu de enfrentar todas as perspectivas e fugir. Qual era o seu maior objetivo? Buscar a liberdade e um lugar que ele pudesse se sentir em casa.

Acho esse tipo de “sonho” e de propósito de uma potência incrível. Uma pessoa que é movida por isso, se sabe lidar com a solidão – e Papillon sabia -, não será “quebrada” ou vencida nunca. Essa é a mensagem mais incrível do filme, a meu ver. Além disso, Papillon inicialmente se aproxima do endinheirado Louis Dega (Rami Malek) por interesse, é verdade, mas depois ele vê Dega como um amigo e, aí sim, Papillon revela toda a sua grandeza.

Naquele cenário agreste de busca por sobrevivência, Papillon poderia ter sido egoísta e ter ignorado Dega em mais de uma ocasião. Teria sido mais fácil para ele. Mas não. Papillon se aproximou de Dega e o considerou o seu amigo. E aí está outra leitura fantástica desta história. A força da amizade e da honra ao defender esse princípio, assim como o da liberdade. Teria sido mais fácil para Papillon “abandonar” Dega à própria sorte em mais de uma ocasião, mas ele não fez isso.

Então esse filme, a meu ver, tem um resgate importante de valores fundamentais, apresenta um belo trabalho dos atores principais e ainda tem uma narrativa que respeita os tempos e que valoriza outros aspectos da produção, como a reconstituição de época e os locais em que os personagens passaram. Gosto da narrativa lenta da produção em alguns momentos. Acho que ela ajuda o público a entender um pouco melhor a experiência de Papillon em seus momentos de isolamento.

Para resumir, achei Papillon envolvente e bem construído. Tem muito mais qualidades do que defeitos. Talvez tenha faltado para a produção um pouco mais de contextualização sobre o que aconteceu com outros personagens importantes da história. Mas esse é apenas um detalhe.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Acho que este pode ser o ano do ator Rami Malek. Descobri ele por causa da série Mr. Robot. Já achava o seu trabalho muito bom. Mas, neste ano, ele não apenas fez esse trabalho interessante em Papillon, como, logo mais, vamos vê-lo como protagonista em Bohemian Rhapsody. Admito que estou bem curiosa para conferir como ele se saiu como Freddie Mercury – apenas pelo trailer, estou até desconfiando que ele pode receber uma indicação ao Oscar como Melhor Ator. Veremos logo mas. Mas, sem dúvida, este é um ator em ascensão.

Além de Malek, que faz um belo trabalho como Louis Dega, vale destacar o ótimo trabalho de Charlie Hunnam como Papillon. Não seria fácil, para qualquer ator, fazer o mesmo papel que, antes, foi realizado por Steve McQueen. Mas Hunnam não parece ter se intimidado com o desafio e abraçou Papillon como se este fosse o papel da sua vida. Gostei bastante da interpretação do ator. Não lembro de tê-lo visto em nenhum outro filme, mas reparei que ele também está em ascensão. Vale acompanhá-lo, pois.

Papillon tem, assim, dois atores em ascensão em papéis centrais. Isso é algo importante para um filme. Além de Malek e de Hunnam, Papillon apresenta outros bons atores em cena. Do elenco, vale destacar o trabalho de Roland Moller como Celier, um presidiário que é bom em navegação – mas que nunca foi com a cara de Dega; Michael Socha como Julot, companheiro de Papillon e de Dega e que é o primeiro a sofrer as consequências por tentar fugir e matar um guarda no intento; Christopher Fairbank em uma super ponta como o chefe da quadrilha de assaltantes Jean Castili; Joel Basman como Maturette, um preso que ajuda na fuga do grupo e que acaba tendo o gostinho da liberdade por um tempo; e Yorick van Wageningen como Warden Barrot, o chefe da prisão na Guiana Francesa. Todos estão muito bem.

Entre os aspectos técnicos do filme, sem dúvida alguma o grande destaque vai para a direção de fotografia de Hagen Bogdanski. Um trabalho incrível e que valoriza a história. Depois da direção de fotografia de Bogdanski, vale destacar a edição de John Axelrad e Lee Haugen; o design de produção de Tom Meyer; a direção de arte de Tom Frohling e Natasha Gerasimova; a decoração de set de Jennifer M. Gentile; os figurinos de Bojana Nikitovic; e a trilha sonora de David Buckley.

Papillon estreou em setembro de 2017 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria, ainda, dos festivais de cinema de Montclair, Edinburgh e o Biografilm Festival. Nesta trajetória, o filme não recebeu indicações ou foi premiado.

Esta produção é baseada, de fato, no livro escrito por Henri Charrière, o nome de batismo de Papillon, e lançado, originalmente, na França em 1969. Ou seja, a primeira adaptação para ao cinema de sua história chegou às telas apenas quatro anos depois do livro ser lançado. Uma prova de como a obra de Charrière foi impactante naquela época.

Papillon significa “borboleta”. Charrière recebeu este apelido por causa da tatuagem de borboleta que ele tinha no peito – e que, descobrimos no filme, tinha o significado, entre os criminosos, de que ele era um assaltante.

Segundo a história, Papillon foi condenado em 1933 e conseguiu escapar da prisão apenas em 1941.

Papillon não caiu no gosto dos críticos. O filme conseguiu 46 críticas positivas e 41 negativas entre os críticos linkados no site Rotten Tomatoes, o que dá para a produção uma aprovação de 53% e uma nota média 6. No site Metacritic o filme não foi muito melhor. Lá, a versão 2018 de Papillon recebeu o “metascore” de 52, fruto de 10 críticas positivas, 15 críticas medianas e de quatro críticas negativas.

Apenas os usuários do site IMDb foram um pouco mais generosos com o filme, dedicando a ele a nota 7. Para mim, é válido uma refilmagem de Papillon agora, para que as novas gerações confiram esta história. Eu não acho que toda refilmagem deve superar a anterior. Cada uma tem os seus predicados. Claro, muito difícil – ou até impossível – superar o Papillon original. Mas acho que o novo Papillon pode ser visto de forma isolada, como um belo trabalho e um esforço interessante de reapresentar uma história bacana e forte para um novo público.

De acordo com o site Box Office Mojo, Papillon arrecadou US$ 2,3 milhões nos Estados Unidos e outros US$ 2,2 milhões nos outros países em que o filme estreou. Esses números mostram que a produção foi praticamente ignorada pelo público. Uma pena, porque eu achei ela bem acabada e com uma temática que vale ser tratada e discutida. Mas a nova versão de Papillon realmente não conseguiu emplacar.

Papillon é uma coprodução da República Checa, da Espanha e dos Estados Unidos. Curiosa essa mistura. Não lembro de ter visto a outro filme da República Checa. 😉

CONCLUSÃO: Um filme com uma fotografia incrível, um roteiro bem equilibrado, bons atores e que não tem pressa de contar uma história. Muito pelo contrário. Papillon segue o seu ritmo e a visão do diretor Michael Noer do início ao fim. Gostei do resgate desta obra tão importante sobre valores fundamentais da humanidade. Toda sociedade precisa de regras, leis, controles e segurança. Mas a busca do indivíduo por liberdade e por escolher os seus caminhos ultrapassa tudo isso. Belo filme, muito bem realizado e que nos faz pensar muitos aspectos. Se você não se incomodada com uma narrativa um pouco lenta, dê uma chance para Papillon.

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Una Mujer Fantástica – A Fantastic Woman – Uma Mulher Fantástica

Algumas vidas são muito mais difíceis do que o normal. E muito mais difíceis do que deveriam. E isso simplesmente pelo fato das pessoas não aceitarem o que é diferente a elas. Por que, afinal, tantas pessoas se importam com o que as outras fazem entre quatro paredes? Por que tantos querem dizer como os outros devem ser ou fazer? Una Mujer Fantastica é um filme muito contemporâneo e bastante contundente. Ele lembra o Pedro Almodòvar em sua melhor fase. Mas com mais suavidade, até. Um dos melhores filmes dessa temporada do Oscar 2018.

A HISTÓRIA: As cataratas, esplendorosas, aparecem em tela cheia. Diversos ângulos das quedas d’água que são uma das 7 Maravilhas do Mundo. Sobre umas almofadas, Orlando (Francisco Reyes) curte a sua sauna. Depois, ele recebe uma massagem relaxante. Em seguida, ele said a sauna Finlandia e caminha pelas ruas, até chegar ao escritório da empresa. Ele chama a secretária e pergunta se ela viu um envelope grande que ele tinha deixado sobre a mesa. Ela diz que não. Depois, ele procura em todas as partes do carro, e nada.

Mais tarde, em um hotel, ele pede um papel e um envelope. Em seguida, ele sobe até o andar em que Marina (Daniela Vega) está cantando. Ela vê quando Orlando chega e os dois se olham. Essa é uma noite especial. É o aniversário de Marina. Os dois jantam juntos, e aí ele dá de presente o envelope com a promessa de uma viagem às Cataratas – a viagem que ele tinha comprado ele perdeu. Eles são um casal, bastante feliz, mas logo essa alegria vai terminar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importante do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Una Mujer Fantastica): Fiquei surpresa positivamente com essa produção. Como é de praxe, não li nada sobre o filme antes de assisti-lo, por isso eu não sabia o que esperar do roteiro ou do desenvolvimento da história. Gostei muito do que eu vi. Especialmente por esse filme não ter nenhuma pirotecnia e nem por tratar de uma história “absurda” ou exagerada.

Na verdade, Una Mujer Fantástica é um filme no estilo “a vida como ela é”. Pois sim. E essa é uma das maiores qualidades dessa produção. Se formos olhar para o que vemos em cena, tudo que o diretor e roteirista Sebastián Lelio – que escreveu esse roteiro junto com Gonzalo Maza – nos conta, é muito, muito plausível. Na verdade, assustadoramente plausível.

Nós partimos de um dia “comum” para o protagonista Orlando, um homem de meia idade que é senhor de si e responsável pelas suas ações, e terminamos nos desdobramentos do que pode acontecer com uma pessoa após ela passar por um problema de saúde bastante comum. (SPOILER – não leia a partir de aqui se você ainda não assistiu a esse filme). Então partimos desse “dia comum” do sujeito, que namora e vive com uma transsexual, para o momento de sua morte e toda a dor e luta de “su pareja”, Marina Vidal, para conseguir se despedir dele e ter o mínimo de respeito em sua fase de luto.

Una Mujer Fantástica é muito bem escrito e tem um desenvolvimento espetacular. Porque a câmera de Lelio, que permanentemente está próxima da protagonista desta história, aproxima também cada espectador de sua história, de todo o preconceito que ela sofre e, o que é mais tocante, de toda a sua dor. Como comentei antes, pela força narrativa dessa produção e pelo cuidado no desenvolvimento dos personagens centrais da história, essa produção me fez lembrar a melhor fase de Pedro Almodòvar. E isso não é pouco.

Ao assistir a essa produção, a verdade é que eu tive uma grande curiosidade para conhecer mais do trabalho de Sebastián Lelio. Acredito que o diretor, que em março completará 44 anos de idade, ganha uma outra projeção e respeito em Hollywood e no circuito mundial de cinema com esse Una Mujer Fantástica. Olhando para a trajetória do diretor, vi que ele dirigiu seis curtas antes de lançar o seu primeiro longa, La Sagrada Familia, em 2005.

Além desse filme, ele tem outros cinco longas no currículo. O único filme que eu assisti, dessa lista, foi Gloria (comentado aqui). Nesse ano, ele vai fazer a versão americana de Gloria, com Julianne Moore, Sean Astin, Michael Cera, Jeanne Tripplehorn, Holland Taylor, entre outros, no elenco. Gloria é um belo filme, mas acho que gostei mais de Una Mujer Fantástica. De qualquer forma, esse diretor tem um estilo interessante e marcante, e acho que vale seguirmos a sua trajetória.

Mas voltando para a história de Una Mujer Fantástica. O filme conta o que acontece na vida da transgênero Marina Vidal desde que o seu companheiro morre e até pouco depois do funeral e da cremação dele. Esse parece ser um período curto de tempo, mas tudo que a protagonista dessa história passa, nesse período, poderia resumir boa parte da sua vida desde que ela se descobriu Marina. Impressionante como temos todo o preconceito da sociedade destrinchado nessa produção.

Porque não é apenas a ex-mulher do falecido, Sonia (Aline Küppenheim) que tem uma postura de não “admitir” a existência de Marina e a sua relação com Orlando. A polícia age de forma estranha e preconceituosa com Marina, assim como o médico que atende Orlando, o filho do falecido, Bruno (Nicolás Saavedra) e, aparentemente, todas as pessoas que foram próximas de Orlando. Mas afinal de contas, por que é tão difícil para as pessoas aceitarem uma transgênero? Em essência, me parece, as pessoas tem uma grande dificuldade de aceitarem aquilo que é diferente a elas.

Mas, afinal de contas, quais as razões para isso? No fundo, todos somos diferentes e, ao mesmo tempo, mais similares do que pode parecer na superfície. Todos somos feitos de pele, carne, ossos, órgãos internos e sangue. Todos nascemos, vivemos e um dia vamos morrer. Todos vivemos grandes alegrias, sorrimos, choramos e vivenciamos grande tristeza, frustrações, decepções, temos que encarar desafios e vencer barreiras. Então por que, afinal de contas, não podemos ser um pouco mais solidários? Por que nem sempre conseguimos olhar para o outro como um ser humano com qualidades e defeitos como nós mesmos somos?

Acho que essa é a grande forma deste Una Mujer Fantástica. O filme coloca em evidência uma transgênero, uma pessoa tão marginalizada pela sociedade e que, provavelmente, não faz parte do convívio da maioria da audiência. E ao dar evidência para a sua vida, os seus gostos, o seu caráter e os seus sentimentos, Lelio desmistifica essa pessoa e a torna extremamente próxima do espectador. Que bom. Assim, ele nos faz um grande favor. Quem sabe, com esse filme, alguns preconceitos não caiam por terra? Quem sabe mais pessoas não consigam entender melhor o que é diferente a elas e aceitar essa diferença, abraçá-la sem medo, ter mais compaixão?

Outro ponto que me chamou muito a atenção nesse filme é como ele trata o preconceito das pessoas. Por que, afinal de contas, Sonia e Bruno tem tanta dificuldade de aceitar a “opção” que Orlando fez em sua vida? Ok, até entendo o “recalque” e a falta de aceitação de Sonia, que foi traída por Orlando. Mas se ela deveria ter “raiva” de alguém, deveria ser dele, não é mesmo? Porque foi ele que traiu a confiança dela. Marina não tinha nada a ver com isso. Pessoas adultas fazem as suas escolhas, e os demais deveriam ter a capacidade de respeitar essas decisões, não?

Bruno, por sua parte, me parece que reflete toda a cultura machista do Chile, do Brasil e de tantos outros países latinos. Para ele, só faz sentido um homem se interessar por uma mulher. Então ele não entende Marina, não consegue perceber que ela se vê como mulher – e é uma mulher. No fundo, ele é inseguro, um sujeito perdido e que não tem o mínimo respeito pelo que ele não entende. Faz o estilo “boçal” – como tantos que vemos cada vez mais proliferando-se por aí.

Mas o interessante é que ambos, tanto Sonia quanto Bruno, representam muito bem a maioria da sociedade. Sonia está muito preocupada com as aparências, com o que os “outros vão dizer”. Essa é a grande preocupação dela em relação aos “trâmites” finais envolvendo Orlando. Ela não mantinha uma boa relação com o ex, mas ela tinha que colocar uma bela nota de despedida no jornal e encenar um velório e uma despedida do ex-marido dentro “da normalidade” – e, para isso, seria “inconcebível” a presença de Marina.

O circo de Sonia e Bruno, assim, mostra o que as nossas sociedades tanto parecem prezar: as aparência. Não importa se eles, no fundo, não tinham uma relação próxima com Orlando. Não importa se a única pessoa que realmente deveria estar lá está proibida de ir. O que importa mesmo é que tudo seja feito dentro da política da “moralidade e dos bons costumes”. Mas do que adianta tanta mentira? No fim das contas, as pessoas estão mentindo para quem? Nessa busca desgastante pelas aparências, pessoas como Marina são sacrificadas e sofrem sem um pingo de remorso dos preconceituosos.

Por tudo isso, a história de Una Mujer Fantástica é marcante, envolvente e com um propósito muito bacana. Lelio evidencia a história de uma pessoa sobre a qual quase ninguém quer falar. Mas, como eu disse antes, uma pessoa como eu e você, com a sua luta, os seus desejos e sentimentos. Que deveria merecer, portanto, o mesmo respeito e consideração que qualquer outra pessoa. Lelio, aliás, explora muito bem as características de Marina, e faz doer em todos nós como ela tem um nível de dificuldade na vida que não deveria ter. Por esse aspecto, impossível não ficar mexida(o) com esse filme.

Todos os atores em cena estão muito bem, mas é de arrepiar o trabalho de Daniela Vega nessa produção. Ela tem um trabalho muito, muito marcante. Sem a entrega dela, esse filme não seria metade do que é. Se o Oscar fosse mais justo com as indicações de astros e estrelas, colocando o trabalho de todos no mesmo patamar, independente se eles trabalham ou não em Hollywood, certamente Daniela Vega teria conquistado uma indicação como Melhor Atriz. Ela merecia, sem dúvida – está muito melhor, a meu ver, para dar um exemplo, que Saoirse Ronan em Lady Bird (com crítica por aqui).

Mas, para não dizer que o filme é perfeito, teve dois pontos que me “incomodaram” um pouco nessa produção – porque eu acho que eles não fazem toooodo aquele sentido que deveriam. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro, a verdadeira razão da policial Adriana (Amparo Noguera) insistir tanto para um exame de corpo de delito em Marina. Inicialmente, ela diz que é para ver se ela tinha sofrido algum abuso e/ou agressão. Mas o que isso realmente indicaria sobre Orlando ter morrido de causa natural ou de sua morte ter sido provocada?

Francamente, não me pareceu totalmente lógico aquele argumento. Então a real justificativa de Adriana seria de expor Marina, de matar a sua própria curiosidade sobre como seria o corpo da transsexual? Novamente, um tanto exagerado, não? A outra parte que me pareceu um tanto sem sentido e/ou lógica foi a forma com que Marina sai, perto do final, para correr com Diabla. Ela fez tanto para ter a cadela de volta e, do nada, após tantas recusas de Bruno, como Diabla acabou parando com Marina?

Uma explicação possível para isso é que Bruno manteve Diabla como “refém” como forma de pressionar Marina a não ir no velório de Orlando e que, passada aquela situação, ele resolveu devolver a cadela para a dona. Mas, então, se foi isso que aconteceu, não teria sido melhor Lelio apresentar essa cena? Apenas para essa parte não ficar um tanto sem sentido no filme? Esses são apenas pequenos detalhes que me pareceram um tanto falhos em um filme bem acima da média. Espero que Una Mujer Fantástica seja cada vez mais visto e que mais pessoas aprendam a ver ao outro, não importa o que ele faça entre quatro paredes e como ele enxergue a sua própria identidade, como um igual que merece respeito, consideração e empatia.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu disse antes e volto a repetir: o grande nome desse filme é o de Daniela Vega. Que interpretação, meus amigos! Para mim, uma das melhores dessa temporada do Oscar. Pena que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood não teve a coragem de indicá-la como Melhor Atriz. Ela merecia. Una Mujer Fantástica é o que é por causa dela. Trabalho impecável, e muito bem capturado por Sebastián Lelio que, aliás, revela-se também, mais uma vez, um belo diretor e roteirista. Ambos merecem ser acompanhados.

Algo que esse filme tem de qualidade – e todo grande filme precisa disso – é, aliás, o seu elenco. Todos que vemos em cena estão muito bem. Francisco Reyes está perfeito como Orlando – apesar dele “sumir” logo da trama, ele volta a aparecer depois em alguns momentos pontuais. Ele é muito bom sempre. Além deles, vale comentar o bom trabalho de Luis Gnecco como Gabo, o único que se relaciona com Marina de uma forma um pouco mais humana; Aline Küppenheim como Sonia; Nicolás Saavedra como Bruno – figura que, não sei vocês, mas eu tive vontade de bater (e olha que eu sou anti-violência); Amparo Noguera como Adriana, policial que faz Marina passar por um grande constrangimento; Trinidad González como Wanda, irmã de Marina; Néstor Cantillana como Gastón, marido de Wanda; Alejandro Goic como o médico que atende Orlando no hospital; Antonia Zegers como Alessandra, chefe de Marina em um restaurante; e Sergio Hernández ótimo como o professor de canto da protagonista. Todos estão muito bem.

Muito interessante aquele detalhe da “chave misteriosa” de Orlando. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para mim, ela alimentava os sonhos de Marina de encontrar algum “presente” de Orlando para ela. Um presente não planejado, é claro. Mas quem sabe algo dele que poderá compensar um pouco toda aquela ausência e dor provocada pela morte dele… Então, sem querer, ao atender a um cliente no restaurante, ela descobre que aquela chave é da sauna que ele frequentava. E quando ela finalmente chega no armário – após uma sequência interessante de “suspense” muito bem conduzida por Lelio -, o que ela encontra? Nada. E aquele vazio simboliza o que de fato Orlando deixou para ela. Nada além das lembranças.

Dos aspectos técnicos do filme, me chamou muito a atenção a trilha sonora bastante pontual e interessante de Nani García e de Matthew Herbert; a direção de fotografia de Benjamín Echazarreta e os figurinos de Muriel Parra. Esses aspectos realmente “saltam aos olhos”. Além deles, vale citar o bom trabalho de Soledad Salfate na edição e de Estefania Larrain no design de produção.

Una Mujer Fantástica estreou em fevereiro de 2017 no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Depois, o filme participou, ainda, de outros 31 festivais em diferentes países mundo afora. Nessa trajetória, o filme recebeu 14 prêmios e foi indicado a outros 28 – incluindo a indicação ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Entre os prêmios que recebeu, destaque para a Menção Especial no Prêmio do Júri Ecumênico do Festival Internacional de Berlim; para o Urso de Prata como Melhor Roteiro e para o Teddy de Melhor Filme, ambos dados também no festival de Berlim; para o Goya de Melhor Filme Iberoamericano; para o Prêmio Especial do Júri como Melhor Filme no Festival de Cinema de Havana; para o prêmio de Melhor Filme Latinoamericano no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián; para o Prêmio Fipresci de Melhor Atriz para Daniela Vega e a Menção Especial – Prêmio Cinema Latino para Sebastián Lelio no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs.

Nos Estados Unidos, segundo o site Box Office Mojo, Una Mujer Fantástica fez US$ 111,3 mil nas bilheterias. Um resultado insignificante. Uma pena. Realmente os americanos não tem o costume e/ou interesse de ver ao cinema que é feito fora do seu país. Uma lástima, porque o cinema mundial tem ótimos realizadores, como este e tantos outros filmes nos demonstram a cada dia.

Em determinado momento, Sonia diz para Marina que ela tem dificuldade de “classificá-la”, mas que se ela fosse fazer, isso, talvez a chamaria de “quimera”. Para quem ficou curioso(a) para saber sobre uma quimera, sugiro esse texto do site Mitologia Grega BR que fala sobre esses seres conhecidos da mitologia grega.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para essa produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 83 textos positivos e oito negativos para Una Mujer Fantástica, o que garante para o filme uma aprovação de 91% e uma nota média 8. Especialmente a nota do segundo site chama a atenção – está acima da média.

Una Mujer Fantástica é uma coprodução do Chile, da Alemanha, da Espanha e dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: A vida é bela, mas pode ser também uma pedreira. O importante é que você não perca a perspectiva, mesmo quando lhe tirem o oxigênio. Mesmo quando lhe impeçam de falar, ou de ser. Porque tudo passa. O que é bom, e o que é ruim. Una Mujer Fantástica nos conta uma história bastante realista de uma forma muito competente e envolvente. Um grande trabalho de direção e de roteiro de Sebastián Lelio, e uma interpretação impecável de Daniela Vega.

Um filme que, como eu comentei antes, nos faz recordar do espanhol Almodòvar em sua melhor fase. Uma das grandes produções dessa safra do Oscar, e um filme que mereceu ser apontado como um dos favoritos da disputa de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Apenas assista, e sem pré-conceitos. Espero que essa produção rompa algumas barreiras e faça as pessoas aceitarem mais as outras como elas são. Assim de simples (e quem dera que, realmente, na prática, fosse simples como realmente é).

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Antes das indicações ao Oscar saírem, havia um grande favorito para a categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira: In the Fade, do diretor Fatih Akin. Aí que, quando saíram as indicações ao Oscar 2018 e o filme de Akin ficou de fora, o favoritismo nessa categoria também foi perdido. Sim, há três filmes fortes no páreo, mas um favorito favorito, não existe.

Nas apostas relacionadas ao Oscar, Una Mujer Fantástica está liderando, e com uma bela vantagem sobre os demais. Em segundo lugar, segundo os apostadores, aparece The Square; e em terceiro, Loveless. Eu ainda não assisti a The Square – mas posso adiantar que ele será o próximo filme que eu vou comentar por aqui -, mas entre os outros filmes que concorrem nessa categoria em 2018, sem dúvida alguma eu prefiro o filme de Sebastián Lelio.

Com isso, não quero dizer que Loveless (com crítica nesse link) ou On Body and Soul (comentado por aqui) não sejam bons. Na verdade, os três filmes tem um belo “punch”, uma bela pegada. Todos são fortes e tratam de temas importantes. Todos são capazes de despertar um belo debate e de fazer pensar. Mas entre os três, prefiro Una Mujer Fantástica. Inicialmente, estarei na torcida por ele. Mas, para realmente bater o martelo nessa categoria, eu ainda preciso assistir a The Square e a The Insult.

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Quand on a 17 Ans – Being 17 – Quando se Tem 17 Anos

Muitas descobertas ocorrem quando somos adolescentes. Esta é a fase da vida em que aprendemos muito sobre nós mesmos e, principalmente, sobre os outros. Quand on a 17 Ans fala justamente sobre algumas destas descobertas e sobre outros temas importantes – e não apenas para adolescentes. Como normalmente acontece com o cinema francês, neste filme temos, mais uma vez, um olhar cuidadoso, atento e muito sincero sobre realidades que nem sempre outros cinemas se preocupam em abordar. Mais um filme francês interessante, ainda que, serei franca, ele não traz nenhuma grande novidade em narrativa ou em sua abordagem.

A HISTÓRIA: Paisagens passam rápido. Ruas, um túnel. E, de repente, aquelas paisagens bucólicas e primaveris dão lugar para cenários repletos de neve. Esse é o primeiro trimestre. Thomas (Corentin Fila) caminha cheio de roupa sobre a neve. Em um ponto de ônibus, ele lê um livro enquanto espera o transporte. Dentro do veículo, que tem alguns outros jovens, ele olha a paisagem. Na escola, o professor de educação física diz para dois alunos escolherem os seus times. Pouco a pouco, todos os jovens da turma são chamados, menos Thomas e Damien (Kacey Mottet Klein) para o final. Os rapazes se olham, se examinam. Na sala de aula, Damien recita uma poesia. Quando ele termina e caminha para o seu lugar, Thomas lhe passa a perna e faz Damien cair. E este é apenas o começo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Quand on a 17 Ans): Algo que me chamou a atenção neste filme, desde o início, é que ele foge dos cenários franceses urbanos com os quais já nos acostumamos. Quand on a 17 Ans não se passa em Paris, Lyon ou em alguma outra cidade importante da França. Não. A história é toda desenvolvida em uma pequena cidade do interior. Um município que fica entre montanhas e que tem alguns habitantes que vivem mais isolados, na montanha.

Este é o ambiente. O contexto é o escolar – e das famílias dos adolescentes que se encontram em uma escola. Todos nós já vivemos esse contexto. A escola é um local de aprendizado, de estudo, de dedicação, de amizades e de alguns desafios e, às vezes, desafetos. Ali que aprendemos sobre as principais áreas do conhecimento e também sobre pessoas e as suas relações. Quand on a 17 Ans foca, neste ambiente, em dois jovens que tem problemas entre si.

Thomas e Damien não são populares. Muito pelo contrário. Eles vivem grande parte do tempo sozinhos, isolados, e não parecem gostar um do outro. Thomas agride primeiro, mas Damien resolve se preparar com o vizinho Paulo (Jean Corso) para poder revidar à altura quando for necessário. Neste início da produção, vemos uma situação clássica de bullying e de rivalidade dentro de uma escola. Thomas e Damien vivem se medindo, e cada um se prepara para revidar contra o outro quando possível.

O que pode resultar deste cenário? Certamente uma sequência de desentendimentos até que um quebre a cara do outro ou até que eles saiam do colégio e vão para a universidade. Nesta fase inicial da produção, nos questionamos o que pode provocar tanta aversão de Thomas em relação a Damien. Seria inveja? Afinal, Thomas é adotado e mora em um local isolado. Nas horas vagas, ele deve ajudar o pai na criação dos animais. Enfim, não tem uma vida nada fácil. Enquanto isso, Damien ganha caronas diárias da mãe, que é médica, e parece ter tudo que precisa “sem esforços”.

Além dos jovens se conhecerem do colégio, outro ponto de contato acontece entre eles através de suas famílias. Em uma certa noite, a mãe de Damien, a Dra. Marianne (Sandrine Kiberlain), é chamada para atender à mãe de Thomas, Christine (Mama Prassinos). Nesta visita, Marianne fica desconfiada que Christine esteja grávida. Ela já tentou engravidar antes, mas nunca teve sucesso na tentativa de ter um filho próprio do casal. Mas, desta vez, com a gravidez identificada cedo, Marianne acredita que ela poderá ter o filho ou filha, desde que tenha alguns cuidados.

Depois de algumas novas agressões, Marianne é chamada para o colégio. Conhecendo um pouco da realidade de Thomas, ela não simplesmente defende o filho e ataca o “agressor” dele, como muitos pais – talvez mais brasileiros – fazem. Não. E este é o primeiro grande ensinamento deste filme. Se você quer ensinar o seu filho bons valores, você deve ensinar com o exemplo. Marianne não busca colocar toda a culpa no jovem que ela mal conhece e defender apenas o filho, ou sugerir que eles tentem se evitar. Ao invés disso, ela estimula que os dois tenham uma convivência próxima.

Vendo a dificuldade de Thomas com os estudos pela realidade que ele vive, Marianne sugere que o jovem passe um tempo na casa deles, na cidade, e que Damien o ajude no aprendizado. Que bela mensagem esta, não? Muitas vezes os ódios e a violência surgem da falta de contato de uma realidade diferente com a outra. O que não entendemos, podemos pensar em odiar. Quando nos aproximamos e passamos a conhecer o que é diferente, podemos ver as semelhanças que temos, aquilo que nos une, e passamos a ter mais empatia, afeto, respeito.

Este é um dos aprendizados bacana deste filme singelo. Mas ele não termina de nos surpreender por aqui. O roteiro escrito pelo diretor André Téchiné e por Céline Sciamma tem pelo menos uma bela reviravolta. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Muitas vezes não gostamos de alguém por aquela pessoa ser diferente da gente. Nem percebemos exatamente o que nos incomoda, mas reagimos àquilo. Especialmente quando somos jovens. Adultos, somos mais capazes – ou deveríamos ser – de pensarmos no diferente e de tentarmos aceitá-lo. Mas na adolescência, achamos “normal” não gostar de algumas pessoas e isolá-las do nosso convívio.

O famoso “eu não vou com a cara dele(a)” muitas vezes não tem uma explicação racional. É pela forma com que a pessoa nos olha, ou pelo simples fato dela existir de uma forma diferente do qual estamos acostumados. Os motivos de “estranheza” são variados e, nem sempre quando somos jovens, identificamos realmente as causas do desconforto, do que nos incomoda ou nos afasta do outro. Pois bem, neste filme estas questões não ficam sem respostas. Quando os pais de Damien incentivam o jovem Thomas a viver na casa deles, mais perto da escola, os dois adolescentes não podem mais se evitar. Eles devem aprender a conviver juntos e lidar com tudo que lhes incomoda.

Quando entram neste processo é que o que estava escondido vem para a superfície. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Damien e Thomas se aproximam, viram amigos, param de se odiar, e é assim que Damien tem coragem de falar sobre a atração que tem por Thomas. Isso não estava evidente antes, mas tudo fica mais claro quando Damien começa a se soltar. Ele sempre esteve atraído por Thomas e, possivelmente, o outro sentia esta “energia” e não sabia lidar bem com a situação.

Neste segundo momento da produção, Quand on a 17 Ans entra em outro momento de aprendizado e de “autoconhecimento” dos seus personagens. Damien tem que lidar com a própria descoberta da sexualidade, enquanto Thomas não parece corresponder ao que o novo amigo sente. Eles passam por diversos desafios, cada um na sua família – Thomas deve aprender a não ser mais o filho único do casal Chardoul enquanto Damien tem que lidar com a morte do pai, o piloto de aviões da Aeronáutica francesa Nathan (Alexis Loret).

Ou seja, os dois jovens passam por momentos difíceis sozinhos – ainda que, na prática, eles não estejam isolados. Só que, na realidade particular de cada um, e eles começam a aprender sobre isso, cada indivíduo lida com as suas experiências de forma solitária. Thomas tem um contato forte com a Natureza, e costuma viver situações fortes na montanha para lidar com as frustrações/preocupações que está sentindo. Enquanto isso, Damien vive no conforto do seu lar as suas próprias aflições. Muito do que ele sente ele lida na solidão de seu quarto.

Os dois jovens, desta forma, lidam com os seus próprios desafios nos ambientes em que eles se sentem seguros. Quando finalmente Damien externaliza o que ele sente por Thomas, o alvo da paixão dele não reage bem. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mas, passado o momento da surpresa e do medo, eles acabam cedendo ao desejo e ficam juntos. Não sabemos muito bem como essa história vai terminar, se mal ou bem. Mas é bacana ver o processo de aprendizado e de autodescoberta dos dois jovens. Cada um vindo de uma realidade tão diferente, com um “background” tão diverso, mas que acabam se entendendo, se respeitando e se amando.

No fim das contas, Quand on a 17 Ans não trata apenas de adolescentes e de suas descobertas, mas também sobre a capacidade que todos nós temos – e que não deveríamos perder nunca – de aprender com a gente e com os outros, de nos envolvermos e de sentirmos compaixão e afeto pelos demais. Quando baixamos a nossa guarda e paramos de lutar uns com os outros, podemos olhar nos olhos da outra pessoa e ver o que temos em comum. Podemos amar, sem julgamentos, e cuidar para que a outra pessoa não se fira de forma gratuita.

Este é um filme simples, singelo, que nos conta uma história pouco focada pelo cinema – mesmo o francês. É bom sair das paisagens com as quais estamos acostumados e olhar para um grupo de pessoas com as quais, talvez, não tenhamos muito contato. Tem um tempo que eu deixei de ser adolescente. Hoje, tenho pouco contato com este público. Mas sei, de ouvir muitas pessoas que tem contatos com eles falar, que esta geração atual de jovens é muito mais aberta ao diferente e à experimentação. Eles não estão tão apegados a rótulos como “eu sou homossexual” ou “eu sou heterossexual”. São mais abertos à experiências e ao amor, venha ele da onde vier.

Por isso achei tão interessante este filme. Acho que ele aborda estes temas bem, sem ignorar que ainda existe grande estranheza e “rivalidade” entre os diferentes no ambiente escolar. Até porque é ali, na escola, em que aprendemos a conviver com realidades diversas, onde formamos a nossa ética no dia a dia. Acho que Quand on a 17 Ans mostra tudo isso muito bem, e de uma forma muito natural, quase documental. É um verdadeiro alívio encontrar filmes que tratam sobre pessoas e não focam apenas em efeitos especiais.

Devemos ter atenção e aprender com os jovens. Olhar para eles com carinho e saber o que eles pensam e sentem. Além de mostrar a realidade de pessoas comuns com bastante sinceridade, este filme tem o mérito de não seguir uma linha de confronto ou de violência. Assim, Quand on a 17 Ans nos mostra sim que é possível a aproximação e o entendimento entre diferentes. Que da estranheza e da violência pode surgir o amor.

Em um mundo em que as pessoas estão se acostumando cada vez mais a viverem divididas, é importante ter uma produção como esta, com mensagens tão positivas, para variar. Eu só não dei uma nota maior para a produção porque eu achei que a “virada” de Thomas em relação a Damien poderia ter sido um pouco mais realista, ter ocorrido de uma maneira um pouco mais gradativa do que a que vemos no filme. Apenas a parte dele – o ator é esforçado, mas não é tão bom quanto o parceiro de cena – e que poderia ter sido melhor desenvolvida. Mas, no geral, é um belo filme.

NOTA: 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como ocorre com frequência no cinema francês, o ponto forte de Quand on a 17 Ans é o seu roteiro. Mérito do diretor André Téchiné e de Céline Sciamma. Eles conseguem envolver o espectador em uma narrativa que vai, pouco a pouco, se aprofundando na realidade de cada um dos personagens centrais, mas sem que este processo seja “forçado”. Conhecemos mais de Thomas e de Damien de forma natural. Conforme os trimestres vão passando e o ano escolar e as estações vão mudando, a história também avança e amadurece. Um belo trabalho dos roteiristas.

Os atores são bons mas, como eu comentei antes, achei o trabalho do jovem Kacey Mottet Klein mais bem acabado do que do parceiro de cena Corentin Fila. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Enquanto Damien vai se descobrindo e se revelando aos poucos e as mudanças pelas quais ele passa são bem transmitidas pelo jovem ator que o interpreta, o mesmo não pode ser falado sobre Thomas. Sim, verdade que o personagem dele é mais quieto e vem de uma paisagem mais “agreste”. Mas não deixa de ser um tanto estranha a mudança dele de grande resistência à ideia de ter alguma relação amorosa com Damien até a parte em que ele cede ao amigo. Verdade que, em alguns outros momentos, Thomas parece não ser tão resistente a Damien… mas então por que ele reage de forma virulenta em duas ocasiões?

Sim, é verdade que os adolescentes, muitas vezes por não saberem exatamente o que querem ou o que sentem, reagem de maneira intempestiva e um tanto “sem pensar”. Esta questão da idade pode ajudar a explicar um pouco da falta de coerência do personagem de Thomas. Mas acho também que o roteiro e/ou o ator poderiam ter tido um desempenho um pouco melhor para que o desenvolvimento da história, quase sempre natural e coerente, pudesse ocorrer de forma ideal nesta parte da resistência e da aceitação de Thomas também.

Entre as qualidades do filme, além do bom roteiro de Téchiné e de Sciamma, vale destacar o bom trabalho de Téchiné na direção. Como eu disse antes, ele segue um pouco a linha quase de documentário. Está com a câmera sempre próxima dos atores e mostrando não apenas as suas reações em cada momento da história mas também o contexto em que eles estão vivendo. Então o filme também se preocupa com os cenários da escola, das casas e dos entornos dos dois jovens. No fim das contas, é isso que interessa para a produção e para entendermos melhor os personagens.

Este filme, como tantos outros do cinema francês, é focado na construção da história focada nos personagens. Por isso mesmo, é tão importante que os atores em cena sejam bons. Os jovens Kacey Mottet Klein e Corentin Fila fazem um bom trabalho. Eles são carismáticos e vão revelando mais de seus personagens aos poucos. Entre os atores adultos, o destaque, sem dúvida, vai para a experiente Sandrine Kiberlain. Ela brilha em cada momento que aparece em cena. Fazem um bom trabalho também, ainda que apareçam menos em cena, Alexis Loret, Mama Prassinos e Jean Fornerod – este último interpretando Jacques, pai de Thomas. Jean Corso também faz um bom trabalho como o coadjuvante Paulo.

Da parte técnica do filme, vale destacar a boa fotografia de Julien Hirsch e a edição de Albertine Lastera. A trilha sonora é muito, muito pontual. Para quem gostou dela, vale comentar que ela é assinada por Alexis Rault.

Quand on a 17 Ans estreou em fevereiro de 2016 no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Até o final de outubro de 2017 este filme participou/participaria ainda de outros 31 festivais pelo mundo. Um número realmente impressionante. Um filme de festivais, pois.

Em sua trajetória até o momento, Quand on a 17 Ans ganhou dois prêmios e foi indicado a outros nove. Ele ganhou os prêmios de Melhor Revelação Masculina para Kacey Mottet Klein no Cabourg Romantic Film Festival e o Grande Prêmio do Júri para André Téchiné no Outfest.

Este filme é uma coprodução da França com a Espanha.

CONCLUSÃO: Um filme singelo e que fala sobre pessoas comuns. Elas não moram em Paris, ou em algum outro centro urbano francês. Moram sim em uma pequena cidade que tem alguns habitantes “nas montanhas”. A vida por ali não é fácil, mas todos procuram fazer o melhor possível. E neste cenário, como em qualquer outra parte, os jovens se descobrem. Aprendem diariamente sobre eles e sobre os outros e também nos ensinam. Quand on a 17 Ans nos mostra, por exemplo, a importância do aprendizado e da aceitação das diferenças e de quem se é. Também aprendemos que nem tudo acontece como queremos, mas que o importante é tirar o melhor de cada fase. Um belo filme, bastante sensível e honesto. Ou seja, bem francês. 😉