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Speed Racer


Diferente de vários heróis em quadrinhos que eu conhecia dos “originais”, ou seja, do material em que eles foram criados – e antes deles chegarem nos cinemas -, Speed Racer é um personagem clássico dos desenhos animados que eu perdi. Quer dizer, até assisti algum desenho dele aqui e ali, mas não sou uma fã, daquelas que acordava de manhã e assistia ao jovem e destemido piloto do Mach 5 arrasando nas pistas de corrida. E como escrevi antes sobre o novo filme do Indiana Jones, acabei assistindo a produção que levou Speed Racer aos cinemas em um formato longe do ideal: em uma telinha da empresa TAP no vôo que me trouxe de volta ao Brasil depois de morar alguns anos em Madrid. Mas diferente do comentado sobre Indiana Jones, o filme de Speed Racer me surpreendeu positivamente. Talvez porque eu tivesse escutado falar mal da produção antes, a verdade é que gostei do que os irmãos Wachowski apresentaram desta vez.

A HISTÓRIA: Speed Racer (interpretado quando criança por Nicholas Elia e, quando adulto, por Emile Hirsch) é um garoto superativo. Fascinado pelo mundo das corridas, que é o ganha-pão de sua família, ele não consegue se concentrar nas aulas. Prefere passar o tempo desenhando carros e disputas ferozes até o momento em que ele pode sair correndo para encontrar o irmão, Rex Racer (Scott Porter). A vida familiar vai bem até que Rex resolve sair de casa, deixando para trás o pai e fabricante de carros de corrida (John Goodman), a mãe (Susan Sarandon) e Speed. Rex começa então a trilhar o caminho dos grandes patrocinadores de corridas até que sofre um acidente fatal. O tempo passa, a família se recupera com relativo sucesso da perda de Rex, e Speed começa a correr. Depois de quase bater o recorde do irmão em uma pista de corrida, ele começa a ser pressionado a entrar para o sistema. Ameaçado pelo magnata E.P. Arnold Royalton (Roger Allam), Speed se envolve em uma arriscada manobra para desmascarar o grupo de empresários que manipula o resultado das corridas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Speed Racer): Inicialmente fiquei curiosa com Speed Racer, o filme. Especialmente pelo fato de que ele marcava o retorno à direção dos irmãos Andy e Larry Wachowski, os responsáveis pela revolução chamada Matrix. Apenas por isto o filme já valia ser visto. Depois, claro, porque se tratava da primeira versão norte-americana para os cinemas do personagem clássico dos desenhos animados. Mas a vontade de ver o filme foi diminuindo conforme fui sabendo de mais detalhes da história e, admito, porque comecei a ouvir um “burburinho” de comentários negativos – inclusive o Eduardo, leitor deste blog, tinha comentado por aqui o excesso e o perigo das imagens mirabolantes criadas pelos diretores.

Em resumo, assim como tinha ocorrido com o novo Indiana Jones, Speed Racer seria um filme para ver depois, sem pressa, quando eu não tivesse quase mais nada de interessante para assistir – o que, cá entre nós, poderia demorar muito e muito tempo para acontecer. Mas mudei de idéia ao ver as opções que eu tinha para ver no vôo Madrid-Rio. Speed Racer foi a segunda opção daquela viagem – depois de Indiana Jones.

A verdade é que valeu a pena enfrentar a “aura” de críticas que eu tinha escutado sobre o filme. Gostei do que assisti. Talvez realmente ele possa criar problemas para pessoas mais suscetíveis ao excesso de cores e na mudança repentina de imagens – um problema que foi provocado anteriormente pelo desenho Pokémon. Mas se você não tem nenhum problema com estas características, é o típico filme interessante de assistir. Ok, ele não tem nenhuma grande história ou mesmo alguma “mensagem” mais profunda. Se trata de puro entretenimento. Mas de qualidade – muito maior que a maioria dos filmes que se apresentam como tal.

Os irmãos Wachowski acertaram a mão e me surpreenderam. Eles escreveram um roteiro que aliou a essência do desenho animado com algumas das técnicas mais modernas dos efeitos especiais. O resultado é um filme que preserva idéias como a importância da família e a necessidade de se manter “limpo” em um mundo super competitivo como é o da alta velocidade (e de muito dinheiro rolando por trás) e que, ao mesmo tempo, renova os planos que caracterizam os animes (desenhos japoneses).

Gostei muito, para ser franca, dos planos e dos cortes na direção e na edição. Os diretores respeitaram algumas das principais características dos animes, como a agilidade nos planos filmados, muitas mudanças de cena e uma boa carga de humor – além da valorização dos rostos e expressões dos atores. Feito para agradar vários públicos, especialmente as crianças, o filme tem um humor simples, nada cínico ou satírico. A história também não surpreende pela criatividade – trata, basicamente, de resumir a história da família Racer.

O excesso de cores do filme – e, mais que isso, as mudanças repentinas de cenários multicoloridos – foi classificado por alguns como algo “psicodélico” e exagerado. A verdade é que eu achei um recurso inteligente para contar esta história – modernizada, é claro. Ao invés de fazer um filme “retrô”, os irmãos Wachowski decidiram filmar a história descaradamente como um produto do ano 2008, século 21, quando o excesso de informações, a poluição sonora, a propaganda intermitente por todos os lados marcam parte da nossa vida.

Além da parte técnica – devo ainda destacar o trabalho de edição de Roger Barton e Zach Staenberg -, o filme acerta na história. Afinal, todos sabem que Speed Racer não é nenhum filósofo. Ele interessa pelo entretenimento, pelo humor e pela velocidade da história e da narrativa.

Além dos atores já citados – todos estão bem, sem nenhum grande destaque -, vale a pena ainda comentar a interpretação de Christina Ricci como Trixie, a namorada de Speed; Paulie Litt como Spritle, o caçula dos Racer; Matthew Fox como Racer X, um piloto de primeira linha que acaba se aliando a Speed na manobra para desmascarar os vilões do filme; Benno Fürmann como o inspetor que incentiva os pilotos a desmascarar os empresários manipuladores; Richard Roundtree como Ben Burns, um dos pilotos lendários do filme; Kick Gurry como Sparky, o mecânico e amigo dos Racer; Christian Oliver como o ambicioso e inescrupuloso piloto Snake Oiler; e Rain como Taejo Togokahn, um dos pilotos envolvidos na manobra para desmascarar os ambiciosos empresários manipuladores.

Achei um acerto também os diretores e roteiristas optarem por um macado de verdade ao invés de um “animado” como o mascote da família Racer. Afinal, a maioria dos exemplos de animais animados atuando com atores de verdade se mostraram, na verdade, um tiro no pé.

O problema do filme, como praticamente não poderia deixar de ser, é o tanto que o roteiro se mostra vazio. Com ele, não existe muito espaço para desenvolver os personagens ou mostrá-los humanos, ou seja, complexos. Todos são muito “retos”, ou bonzinhos ou malévolos. Não existe espaço para personagens dúbios ou complexos. Por tudo isso não consegui achar o filme ótimo ou mesmo muito bom. Achei bacana, apenas isto. Entretenimento para diversas idades.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Speed Racer gastou uma burrada de dólares – grande parte, claro, em efeitos especiais. Ele teria custado aproximadamente US$ 120 milhões. E arrecadou pouco até agora… pouco menos de US$ 44 milhões nos Estados Unidos. Ou seja: está longe, muito longe de se pagar. No Brasil ele conseguiu uma bilheteria considerável: R$ 6,8 milhões. O problema do filme ter ido tão mal nas bilheterias – pelo menos pelo critério dos produtores – é que ele pode prejudicar novos projetos dos irmãos Wachowski. O que seria uma pena porque eles são dois diretores que não tem medo de experimentar – algo raro, muitas vezes.

Speed Racer foi indicado para cinco prêmios em 2008 – mas acabou perdendo todos eles.

Os usuários do site IMDb gostaram menos do filme do que eu. Pouco menos de 21 mil pessoas conferiram a nota 6,5 para o filme. Os críticos também torceram um bocado o nariz: o site Rotten Tomatoes publica 119 textos negativos e apenas 69 positivos para Speed Racer.

O filme transporta para o cinema a lenda criada por Tatsuo Yoshida na década de 1960 no Japão. A história dos Racer foi contada em 52 episódios de aproximadamente meia hora cada um em sua versão original – um pouco menos na versão norte-americana. Mas antes de virar desenho animado, Speed Racer – chamado originalmente de Go Mifune – era o protagonista de um mangá intitulado Mach Go Go Go criado por Yoshida. O protagonista do mangá e, depois, dos animes criados por Yoshida era, na verdade, o carro – chamado Mach Go. Na versão estadunidense é que o foco passou a ser Speed Racer e, em segundo plano, seu carro, agora batizado de Mach 5.

Segundo o produtor Joel Silver, o único cenário real no filme é a casa da família Racer. Todo o restante que assistimos no filme foi criado por computação gráfica. Absolutamente tudo – agora se entende onde gastaram a maior parte da grana da produção. A idéia do produtor era lançar uma sequência de filmes – algo que, com a bilheteria baixa alcançada, não deve acontecer.

Matthew Fox finalmente interpreta um papel em que ele tem mais de duas falas – mais do que em Vantage Point. Ainda assim, não fala tanto mais… mas o que interessa mesmo em sua interpretação é uma luta que ele tem contra uns vilões ninjas. Uma das melhores partes do filme, digamos… 😉

CONCLUSÃO: Adaptação para o cinema do anime homônimo japonês que virou “cult” nos Estados Unidos e nos demais países que são influenciados por ele – inclusive o Brasil. Deve ser visto como puro entretenimento – e levando em conta que ele foi feito para a “família”, ou seja, tanto para crianças quanto para adultos. Ele não complica em parte alguma, não profundiza na caracterização dos personagens e nem apresenta nenhuma “moral da história” importante – além de valorizar a família. Mas vale a pena pela ousadia dos diretores em reinventar o ambiente veloz e multicolorido dos Racer – trazendo para os tempos modernos uma história criada em forma de mangá e anime há mais de 40 anos.

SUGESTÃO DE LEITORES: O Eduardo falou de sua preocupação com a “psicodelia” de Speed Racer em maio. Sei que você, Eduardo, na verdade, não indicou o filme… pelo contrário, alertou as pessoas para o perigo que o filme poderia representar para as pessoas sensíveis ao excesso de cores, luzes e movimentos da produção. Ainda assim, achei importante citar a sua sugestão por aqui – nem que fosse para ressaltar, mais uma vez, o seu alerta. Aproveito para dizer para você aparecer – andas sumido! 😉

Por Alessandra

Jornalista com doutorado pelo curso de Comunicación, Cambio Social y Desarrollo da Universidad Complutense de Madrid, sou uma apaixonada pelo cinema e "série maníaca". Em outras palavras, uma cinéfila inveterada e uma consumidora de séries voraz - quando o tempo me permite, é claro.

Também tenho Twitter, conta no Facebook, Polldaddy, YouTube, entre outros sites e recursos online. Tenho mais de 20 anos de experiência como jornalista. Trabalhei também com inbound marketing e, atualmente, atuo como professora do curso de Jornalismo da FURB (Universidade Regional de Blumenau).

3 respostas em “Speed Racer”

Oi Alessandra,

Seja bem vinda à pátria! rs
Passei grande parte da minha infância brincando de carrinho de ferro e (talvez por isso) Speed Racer era um dos meus desenhos prediletos. Pra você ter uma noçãop, tenho 32 anos e fui assistir o filme no cinema, e sozinho! rs
E gostei do que vi!
Concordo com você. O filme é diversão completa! Achei que o “excesso de cores” trouxe uma modernidade que era necessária. E o que eu considero importante é que, assim como no desenho, você fica realmente torcendo pelo Speed Racer. E pra quem assistiu a final da temporada de F1, com resultados negativos pra nós brasileiros, nada melhor que torcer pelo Speed Racer! rs
Abraço

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Oi André!!

Obrigada! Estou feliz de voltar – ainda que tenha chegado aqui para logo ver a tragédia que se abateu sobre a minha cidade e toda a região. Mas enfim… pouco a pouco vamos todos nos recuperando.

Teu comentário aborda algo que eu sempre falo e não canso de repetir: os filmes dependem muito da nossa experiência pessoal. Você adorou Speed Racer em grande parte porque era fã do desenho desde pequeno… e isso afeta muito o julgamento que a gente faz de uma produção qualquer. A quantidade de filmes que alguém já assistiu, as experiências pessoais pelas quais passou, o gosto para determinadas criações e não para outros, até o humor do dia, enfim, tudo isso e muito mais afeta realmente a nossa “impressão” de um filme.

Também é verdade que o filme consegue o efeito desejado de fazer o espectador torcer para o personagem. E toda a dita “psicodelia” dele significa modernidade, realmente, mas, mais que isso, significa resgatar as características dos animes.

Um grande abraço, André, e volte mais vezes! Tua opinião aqui, como sabes, é sempre muito bem-vinda. Inté…

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Excelente filme. Hoje o publico nao se agrada mais de um filme como esse pois querem ver sangue, sexo , bruxaria e muita violencia e Speed Racer e um filme que valoriza a familia e sem sexo e violencia. Por isso nao fez sucesso nem entre as criancas emuito menos entre os adultos de uma geracao corrompida e sem referencia nenhuma. Speed foi referencia para mim e muitos outros adultos e sempre sera um bom jovem, amigo dos pais e honesto, sem deixar de ser jovem e normal, ao contrario dos jovens e criancas de hoje, educadas sobre a egide de Harrry porcaria Porter, o ridiculo crepusculo e outras drogas mais……

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