Tummien Perhosten Koti – The Home of Dark Butterflies


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Tem pessoas que realmente não deveriam ter filhos. Despreparados para manter um relacionamento saudável, elas acabam transferindo para meninos e meninas inocentes violência, ciúmes, diferentes manifestações de maldade e descontrole. A produção finlandesa Tummien Perhosten Koti (batizado no mercado internacional por The Home of Dark Butterflies) trata justamente sobre lares problemáticos e o resultado disto na vida de crianças e jovens. O filme foi selecionado por seu país para tentar uma vaga no próximo Oscar. Sensível, com uma fotografia de tirar o chapéu, Tummien Perhosten Koti convence com uma história bem contada, ainda que canse um pouco por utilizar alguns recursos batidos sem necessidade.

A HISTÓRIA: Juhani Johansson (Samu Uutela quando criança, Niilo Syväoja na adolescência) busca o cachorro de estimação com o pai, Erik (Pertti Sveholm). Depois de encontrá-lo morto, o garoto participa de um estranho e etílico “cerimonial fúnebre” com os pais e o irmão pequeno Sauli (Kiira Sivonen). Corta a cena e somos transportados sete anos no futuro, quando Juhani é levado para “a Ilha”, um local isolado onde jovens problemáticos passam por um tratamento “corretivo” sob a tutela de Olavi Harjula (Tommi Korpela). Naquele ambiente de “reformatório”, Juhani têm que lidar com o passado – presente através de lembranças e da reaparição do pai – e com situações de conflito com os jovens problemáticos que vivem por ali e com “fantasmas” como o ciúmes e a morte.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Tummien Perhosten Koti): A produção que representa a Finlândia na corrida para o Oscar 2009 começa bem. É angustiando ouvir aquele pai alcóolatra falando aquelas barbaridades… e tudo indica que realmente algo de muito ruim vai acontecer. Mais cedo ou mais tarde. O filme, aliás, tenta manter o “segredo” sobre o que teria acontecido com o caçula dos Johansson praticamente até o final. Claro que, para mim, não havia muita dúvida sobre o que tinha acontecido. Ainda que a idéia do roteirista Marko Leino (baseado no livro de Leena Lander) tenha sido a de deixar “no ar” a culpabilidade do crime – que nem sabemos ao certo qual seria -, para mim ficou um bocado óbvio, desde o princípio, a inocência de Juhani. E não porque o rapaz faz qualquer um simpatizar com ele logo de cara – aliás, muito pelo contrário.

Niilo Syväoja encarna muito bem o papel que ele tem que interpretar. Tanto que não consegue, por boa parte do filme, “ganhar” o espectador. Você tem pena do garoto porque guarda aquela imagem do “funeral” absurdo do cão de estimação na cabeça e acaba “presumindo” o que aconteceu com ele pouco depois. Mas cada vez que ele resisti com o olhar de aço e o silêncio desafiador/de auto-proteção a uma investida de fora, ele cria no espectador também uma certa “resistência” a abraçá-lo com a torcida para que ele se livre de todo aquele pesadelo. No fundo, o diretor Dome Karukoski e o roteirista conseguem jogar com essa “dualidade” de Juhani – a de vítima e a de “problemático”/culpado – a favor do filme. Porque, conforme o personagemvai passando por “provações” e vai se modificando no caminho, vamos também baixando nossas resistências e conseguimos ver tudo de forma mais clara.

Merece um capítulo especial o trabalho fantástico do diretor de fotografia Pini Hellstedt junto com a escolha de ângulos e a dinâmica das imagens do diretor Karukoski. Os melhores momentos do filme são aqueles em que os detalhes sobresaem na narrativa, em que as lentes perdem a pressa e enfocam o belo naquele ambiente de disciplina rígida e “correção” de caráter.

Ainda assim, nem tudo é perfeito em Tummien Perhosten Koti. Achei um bocado excessivas e pouco verossímeis (ou convincentes, ao menos) as cenas todas das lembranças da “noite fatídica” da família Johansson. É natural que lembranças como aquela assombrem uma pessoa por muito tempo na sua vida, mas a sensação que o filme nos deixa é que Juhani simplesmente não conseguia ter uma noite em paz na sua vida. Certo que ele tinha passado de uma casa de pais adotivos para a outra sem conseguir dar certo em parte alguma, mas realmente dá para acreditar que sete anos depois daquela noite ele estivesse tão perturbado diariamente? Se isso tivesse acontecido, acho que ele teria realmente pirado e virado um criminoso ou um suicida, por exemplo. Enfim… achei um bocado exagerada essa mensagem de “atormentado full time”. Um pouco menos da exposição desta idéia já seria o suficiente.

Também achei um tanto forçada a analogia das “borboletas” que precisam de ajuda para sair do casulo e sobreviver com a oportunidade que deve ser dada para aqueles rapazes. A idéia é bonita e, bem escrita, no papel, deve funcionar. Mas da maneira um tanto “displicente” com que foi apresentada no filme, ficou um pouco fajuta.

O que vale a pena mesmo nesta história é o trabalho de atores como Tommi Korpela, que vive um administrador de reformatório com pulso firme e um bocado idealista; de Niilo Syväoja como o jovem sobrevivente que consegue enfrentar tudo sem se tornar um sujeito de mármore; de Marjut Maristo como a encantadora Vanamo, filha de Olavi e responsável por “amolecer” o olhar rígido de Juhani; Kristiina Halttu como Irene, a mulher insatisfeita de Olavi; e Kati Outinen como Tyyne, a única empregada do projeto da Ilha que continua no lugar.

Os jovens que “recebem” Juhani de uma maneira que lembra o “modus operandi” de presidiários estão bem, mas fazem um trabalho dentro da normalidade. São eles: Eero Milonoff (Salmi), que se destaca mais que os outros da metade para a frente, quando seu personagem se torna mais “complexo” e ousado; Roope Karisto (Sjöblom), que também se destaca do grupo; Ville Saksela (Rinne), Henri Huttunen (Simola), Iiro Panula (Sulkava), Niko Vakkuri (Hämäläinen). Vale citar ainda o trabalho de Matleena Kuusniemi como Maire, a mãe de Juhani que fala, literalmente, uma frase no filme todo. 😉

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para quem gostou da trilha sonora, perfeita ao pontuar cada momento do filme, ela é de autoria de Panu Aaltio.

Sei que nem tudo em um roteiro precisa ser explicado, mas me incomodou um pouco quando Juhani deixa subentendido que já “esperava” pela morte de Simola. Estranho, porque não imagino o rapaz confessando alguma “vontade” como esta para o “amigo” nada próximo.

Os usuários do site IMDb deram uma nota razoável para Tummien Perhosten Koti: 7,3.

Este é o quarto filme do diretor Dome Karukoski – que, inclusive, faz uma “pontinha” na história ao interpretar um dos policiais do filme. O interessante é que ele tem uma carreira bem curta: estreou no cinema como diretor há apenas 5 anos com dois curtas-metragens – e há apenas três anos fazendo longas. E já tem outro filme para ser lançado em 2009: Kielletty Hedelmä, batizado como Forbidden Fruit para o mercado internacional – algo como Fruta Perdida. Aos 32 anos ele realmente parece um nome a se ter em conta no mercado competitivo mundial.

Obviamente o trabalho do diretor de fotografia Pini Hellstedt não será indicado ao Oscar, mas bem que ele merecia. Foi uma das melhores fotografias para o cinema que eu vi neste ano.

No final o filme faz meio que um “discurso” pedindo o apoio para jovens infratores… afinal, normalmente, eles são fruto de lares desequilibrados, de violência e de uma vida bruta. A verdade é que, exceto por raríssimas exceções, as crianças e jovens “infratores” que nos circundam atualmente precisavam mesmo é que suas idades fossem respeitadas e que eles tivessem menos dureza na vida, menos “ferro e fogo” e crueldade lhes pressionando. Sei que é cada vez mais difícil ver crianças tendo espaço para serem crianças e jovens tendo espaço para se desenvolverem sem o consumismo e a ganância como mote principal, mas essa rota “menos acelerada” seria o ideal e o caminho.

Faltam realmente oportunidades para as pessoas, e isso é uma lástima.

CONCLUSÃO: Um filme muito bem acabado e com uma boa dose de sensibilidade sobre jovens “infratores” e problemáticos que passam por uma experiência de “correção” de seus caminhos e de busca de oportunidades. Com uma fotografia impecável e com interpretações regulares – com dois ou três atores que se sobresaem -, é um filme interessante também sobre a loucura que pode ser vivida em alguns lares. Uma produção que aborda de forma curiosa também problemas conjugais sérios, como o ciúme doentio e a infidelidade, assim como o alcoolismo e a descoberta da sexualidade. Interessante e acima da média, especialmente por suas qualidades técnicas.

PALPITE PARA O OSCAR 2009: Acho difícil o filme ser finalista na categoria de filme estrangeiro. Ainda que tecnicamente falando ele é praticamente impecável, lhe falta um pouco mais de força nas interpretações e um pouco de criatividade no roteiro. No final, não deixa de ser um filme bonito e tocante, mas lhe falta talento e fôlego. Dos filmes que eu vi até agora e que são pré-candidatos ao Oscar, é o que tem menos chances de chegar lá porque lhe falta força no roteiro.

NOTA DA PRODUÇÃO: Agora que atualizei o texto e voltei da minha semana de “férias”, resta deixar por aqui o desejo de um 2009 maravilhosamente melhor que este ano que está terminando.

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2 comentários em “Tummien Perhosten Koti – The Home of Dark Butterflies

  1. Sou apaixonado por cinema e sempre visito teu blog. Vi esse filme, após ler sua crítica. Não que o roteiro seja magnífico, mas a forma como é contado, a fotografia e a interpretação fortíssima de alguns atores, acabam concedendo o mérito que o filme realmente merece. Parabéns pelo blog.
    abraço!

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  2. Oi Mangabeira!!

    Que maravilha receber este teu comentário! Como uma apaixonada por cinema, adoro encontrar meus “pares” por aí… 😉
    Seja muito bem-vindo a este blog, viu? E que este teu comentário seja apenas o primeiro de muitos.

    Fico feliz em saber que visitas este blog há algum tempo… sinal de que gostas do que estás lendo. Que bom!

    Achei teu comentário perfeito. Realmente, Tummien não é um primor de roteiro, mas tem uma direção de fotografia e algumas interpretações de arrepiar. É um filme belo, mais que tudo, sem contar que ele é carregado de boas intenções.

    Obrigada, mais uma vez, por teu comentário. Um grande abraço e até a próxima!!

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